domingo, 4 de agosto de 2013

Convivência

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Convivência acaba com quaisquer máscaras. A babaquice alheia -- e a pessoal também -- não é mais forçosamente escondida depois de certo tempo. O desagradável daquela presença vem em peso bruto. Todos somos insuportáveis no final das contas. Listemos então algumas amostras de insuportabilidade:

_ Perguntas: a necessidade das pessoas de fazer perguntas idiotas pela idiota necessidade de puxar assunto, pela idiota vontade de falar com alguém, mesmo não tendo nada a dizer. Gente que ignora as conotações mais elementares do cotidiano e torna diálogos excessivamente longos e prolixos. Exagero que camufla também inseguranças, neuras, ansiedades e outras coisas.
_ Desagradabilidade: a qualquer comentário quer você fizer será acrescentado algum adendo de teor pejorativo, muitas vezes violando a linha do humor negro. A necessidade de algumas pessoas de rebaixar outras é irritante. Prova mais evidente do provérbio "quem desdenha quer comprar".
_ Hipercomunicação: um assunto trivial é iniciado, com comentários triviais, opiniões triviais, resultados triviais, lugares-comuns triviais, pessoas triviais, apenas por uma suposta necessidade alheia de se comunicar, de te ouvir, mesmo não tendo nada a dizer. Tudo bem que somos seres sociais, mas não abusa, né...
_ Ególatras: todo e qualquer assunto a ser puxado por tal pessoa será voltado sob a perspectiva dela, direta ou indiretamente, com a intenção de o interlocutor se vangloriar desmedidamente. Como se a vida do cara fosse um filme em primeira pessoa e você estivesse atado em sua poltrona, obrigado a consumir o umbiguismo patético da pessoa por todos os poros possíveis!

_ Fanáticos: acreditam piamente no que dizem. Aprecio pessoas assim, mas logo crio aversão quando elas tentam incondicionalmente me convencer de que apenas o que elas pensam e acreditam é certo e ponto final. Ignorar o mundo por meio de visões unilaterais é mais do que sificiente para que eu me certifique da ignorância e da cabeça pequena de pessoas assim.
_ Megafones: podem se tratar de pessoas divertidas a maior parte do tempo. Dou o braço a torcer por causa disso. Mas tornam-se chamativas demais quando conversando conosco em público: seja pelo tom de voz, seja pelas sandices oriundas de complexos de inferioridade...
_ Adivinhas: são pessoas altamente intuitivas, de concentração difusa, e observadoras, boas de se conviver. Mas altamente invasivas para os altamente instrospectivos: a convivência mútua faz com que esse tipo de pessoa presuma e preveja, por vezes invasivamente, coisas sobre você. E quando tentam adivinhar o que você está pensando, em momentos em que visivelmente você não quer falar nada? Pois é...
_ Complicados e perfeitinhos: são perfeccionistas. E, por isso mesmo, sempre dúbios e perigosos para se dizer certas coisas. Imprevisíveis por vezes. Pessoas inteligentes e interessantes. Mas altamente melancólicos e sensitivos: pouca coisa já os deixa pra baixo...

_ Só fala disso: a pessoa se dedica com tanto afinco ao que gosta que não percebe que as horas e horas em que poderia falar sobre seu programa de tevê favorito, por exemplo, entediam nos primeiros dois minutos.
_ Superioridade: essa é dúbia por natureza; é fácil se presumir que os de ares superiores estão te esnobando. A pessoa pode parecer legal, mas a sensação de que ela te odeia é misteriosamente constante.
_ Felizes: já cansei de dizer que felicidades são estáticas. E não há nada de errado em ver as pessoas teimando em ser felizes. Se for esse o caso, sou um teimoso inato. O problema é quando as pessoas acreditam que seus radiantes comentários são interessantes. É ou não é o fim você se sentir um merda naquele dia infeliz, estar em casa de amigo, acorrentado no sofá e tendo de ver toneladas de álbuns de fotografias, slides das últimas férias, ou simplesmente ter de ouvir de como aquela pessoa significa tudo pra ela? Enfim, monumentos aos melhores momentos alheios. Tá, sou suspeito pra dizer tudo isso: odeio fotos mesmo. Mas é tão chato ver as pessoas respondendo porque são felizes e você se perguntando porque é tão ranzinza... Blé!
_ A presença é suficiente: se nenhum dos requisitos acima se aplica aos mais próximos a você, temos ainda aquele tipo de pessoa cuja presença é suficiente para te deixar alterado, irritado, com a veia do pescoço saltando de raiva. E o mais intrigante: você não sabe o porquê! Odeia porque odeia e ponto final! Todos odeiam alguém sob essa circunstância. As amostras de insuportabilidade acima são mais particulares, mas esta última não tem jeito: aplica-se a todos!


(originalmente publicado em 11/02/2005)