segunda-feira, 15 de julho de 2013

Um sentimento

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Ontem o irmão trouxe até mim uma frase, entre outras, que me chamou a atenção. Foi o primeiro dia dele na faculdade. Parecia uma criança de cinco anos em seu primeiro dia na escola: chegou a pedir que eu o acompanhasse até sua sala! Eu, que tinha mais o que fazer, saí de casa o mais rápido que pude: ele já começava a torrar minha paciência desde o início da tarde, e não somente com isso. Enfim, chega de encher lingüiça. Eis a frase:

"A justiça é um sentimento"

Se a justiça é um sentimento, no final das contas, as leis dos homens são meros remorsos, orgulhos e rpesunções sugeridas? A relatividade trazida pelos compêndios legais deve abraçar ou vislumbrar de distância segura a justiça, sendo esta um sentimento? Decisões devem ser anuladas e/ou reforçadas mediante o sentimento, mediante a sugerida justiça? Tal sentimento é volátil por ser sentimento ou por ser implícito em lei? Seriam muitas leis cruéis induções a um sentimento enganador que não é justiça? Pormenores, interesses, sobreposições: o efeito dominó é permanente. É um defeito as leis não serem abordadas com ares mais científicos? Interpretações são pêndulos invisíveis entre o racionalista e o empírico.

Questões assim são esperadas de ciências sociais. Mas desde quando se encaram as leis como ciências? Desde quando um ramo da arbitrariedade humana desdenha razões e privilegia interpretações? Desde muito, presumo. E não apenas no tocante às leis; mitos e senso-comum reforçam o que digo. Se a justiça é um sentimento, presume-se de imediato que cada um tenha a sua. Querem nos julgar com uma profusão de diferentes justiças, sem ao menos arquétipos? Precisamos de algo além dos homens para julgamentos. Homens não foram feitos para se julgarem! Programas de auditório e tribunais não me deixam mentir. Seria a justiça um conceito criado na Antigüidade para as pessoas terem uma noção mais evidente do desprezivo caos aparentemente conotado por suas existências massivas? Na falta de alguma forma material de um se impor a outro, resta a justiça como instrumento discriminatório? Sentimentos discriminam, veja só...


(originalmente publicado em 01/02/2005)