sexta-feira, 14 de junho de 2013

Saudades

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Como será a reação de tal pessoa perante algo que aconteça a você? "A" você! Você se preocupa com a reação de alguém em particular? Agora eu me preocupo, mas não é de agora. Conselhos, impressões, reações: tudo se vai com as pessoas. A gente fica perdido quando esses referenciais se vão. Eu me sinto totalmente à deriva face à tanta coisa nova acontecendo. E sei que, de camarote, esse quem gostaria de observar as reações esboçadas, está agora numa situação em que os papéis se invertem: ele se limita apenas a observar minha reação. Uma sublimação que abrange todos os sentidos. Uma ausência. Um observar em que o observador não está presente. Pelo menos diante de seus olhos. A presença é em pequenos códigos do cotidiano. Com ou sem essas reações, me sentiria perdido. Mas ao menos tinha as reações. Mesmo as ações que camuflavam as reações. Porque três quartos do que passa por nós vêm camuflados que é pra evitar o óbvio e o racional demais. Sei lá, cara: o tempo passa mas sinto não obter respostas que anseio. Não tenho mais a pretensão de obtê-las, quero ao menos dicas. Não do observador que o destino me privou de observar as reações humanas, mas do que fazer em sua ausência visual. Ausência essa que leva consigo a importância que eu atribuía a tudo e a mim antes. Preciso tomar cuidado com esse crescente desapego. Mas ele é momentâneo, e é em relação a essa natureza momentânea que devo estar alerta. Minhas reações, preciso saber se serão momentâneas ou não. No final, nossas reações não nos interessam. De início. Talvez se nos ativermos mais a nós mesmos percebamos a relevância de nossas reações. Porque as reações desse que se foi foram com a ausência. As suas devem ter lá seu significado.

Pensei nele esses dias. Seguro de que eu aceitaria -- e de que abriria mão -- do que quer que fosse e tivesse sido para que fosse diferente. Mas lembrando de que posso fazer em presença o que é ausente. E de que tudo foi muito antes de ter sido. A escolha estava lá: cabia a mim decidir como acatá-la. Quem fez a escolha? Atribui-se a muitos; limito-me a atribuir a mim mesmo escolhas que não deveria estar cogitando agora. Porquê? Porque penso demais. Porque não preciso perder tempo com escolhas que já foram feitas. Porque preciso apenas esperar que o momento de cada decisão chegue, para que me resigne a ver o desenrolar de minha escolha inata. Isso não contradiz o livre-arbítrio: o afirma. O que o contradiz é tentarmos ignorar as conseqüências de nossas escolhas ou mesmo tentar evitá-las. Édipo que o diga: não quis esperar o desenvolvimento de suas escolhas e quis evitá-las. Evitar o já optado é um desencontro apenas para quem é autor da escolha. Ele já escolheu mas não releva as influências interiores e exteriores que preenchem e distraem sempre o âmago da decisão. E ignora o resultado tentando observar o desenvolvimento de algo em que está contido. O contido observar o continente: algo em vão. O continente te contém. Só quem está fora do continente tem a verdadeira perspectiva do todo. Máxima de qualquer ciência, sempre especulada por aquelas em que observar o continente de fora é impossível, e confirmada por aquelas em que isso é possível.

Penso se esses pequenos códigos impressos no cotidiano realmente fazem sentido. Às vezes isso me pega de surpresa: considero aquilo código impresso no cotidiano ou mera referência empírica? Eu sei lá. Opto pelo primeiro e não perco tempo tentando escolher entre os dois. É uma interligação que parece ter a meta de sempre nos manter ignorantes quanto ao sentido da proximidade -- ou distância -- das coisas. Não é uma situação em que a ignorância me ofende: é preciso elemento surpresa em meio à monotonia dos dias. Se este com quem não posso mais contar com as reações está ou não observando as minhas, isso pode ter uma resposta direta, mas pode também ter um estado de espírito: de que adianta uma explicação perfeitamente coerente se ela não corresponde ao estado de espírito de quem recebe essa explicação? Queremos retornos sem integrações, e isso não nos leva a muita coisa. Me leva apenas a sensações humanas. Obteria isso com tal integração? Preferiria a integração ou meu estado atual? Eu acredito que ficaria com a segunda opção. As imperfeições são a comédia dos homens. Integrações anulam quase todas as imperfeições, e precisamos delas para nos agüentarmos. E aqui conceitos como culpa e erro parecem ganhar importância. Enfim, por me faltar integração, me limito a sentir falta deste com quem não posso mais contar com conselhos, impressões e/ou, simplesmente, reações. Poderia ser diferente, mas quero apenas que eu consiga me aproximar da normalidade que precedia o diferente. Por mim e por todos, mas principalmente por mim.


(originalmente publicado em 02/01/2005)