sábado, 23 de março de 2013

O Brasil não é para amadores (XIII)

A moment of truth for Dilma
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WRITING about the Brazil of a century ago, Warren Dean, an economic historian, noted that the country’s foreign trade “appears to have been limited to commodities in which overwhelming comparative advantage offset high costs of production and commercialisation and high internal taxes.” Both government and private sector paid “little attention to…competitiveness,” he added.

Those words ring uncannily true of the Brazil of recent years. For much of the past decade the country enjoyed faster growth because of China’s demand for its iron ore, soya beans and oil, and because higher wages and newly available credit boosted the purchasing power of tens of millions of Brazilians. But now the economy has stalled. Having slashed interest rates, intervened to weaken an overvalued currency and offered tax breaks and cheap loans to favoured sectors, officials insist that GDP will grow by 4.5% next year. In 2008, when the world economy tanked, the government engineered a quick recovery by stimulating demand. But now its lever-pulling seems to be having less effect. That is partly because of global economic gloom, and partly because Brazil’s consumers, like those elsewhere, are paying back debts. But it also reflects the harsh truth that Brazil has become a wildly expensive place in which to invest or manufacture. It is cheaper to import steel made in South Korea from Brazilian iron ore than to buy it locally, complains Carlos Ghosn, the boss of Renault-Nissan.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ditadura

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


O que você sabe sobre ela? Eu já tive professor de história, por exemplo, que cometia a sandice de dizer em aula:

_ Na época de ditadura, os militares colocavam canhões na frente das portas das salas de aula da UFMT, para ninguém cabular aula!

É difícil para as gerações mais novas obter uma percepção de um contexto sócio-histórico antecedente a seus nascimentos. É como se a tal da ditadura fosse realmente sentida apenas nas capitais, sei lá. Por exemplo: nunca ouvi minha mãe (esta passou boa parte de sua jventude no campo) falando sobre coisas que ela não podia fazer na época. Meu pai, muito menos: este era militar. Quando lhe contei sobre a afirmação do professor, ele replicou com desdém:

_ Tem tanta gente que diz asneiras sobre a ditadura... não dê ouvidos a tudo que ouve!

Ele jamais falava comigo sobre esse período histórico. E olha que era um homem de cultura, que gostava de falar sobre história, matemática, atualidades, coisas de seu tempo e produtos da indústria cultural que apreciava (ele era fã dos Beatles, cara!). Eu até entendo as razões dele: deve ter sido um período realmente vexamoso para a instituição a qual ele dedicara toda a vida. É memorável as vezes em que a gente via tevê e falavam sobre o período. Teve uma vez em que estavam entrevistando pessoas que foram presas e torturados pelos militares. Lembro-me que, numa dessas vezes, estava aquele escritor, o Mário Quintana. Eis a afirmação do cara:

_ Eles não sabem de nada! Me prenderam à toa! Nunca estive lá!

Ao que meu pai responde, brigando com a tevê:

_ Velho mentiroso! Estava lá sim!!! Conspirador!

Mas esse foi um evento isolado. Ele realmente mantinha um silêncio irredutível quanto às duas décadas de domínio político militar. Quando assinávamos revista semanal, por vezes vinham reportagens especiais sobre o período, sobre a Anistia, sobre Figueiredo, Costa e Silva, Médici... nossa, cara, lembro-me que, certa vez, tive um trabalho de história sobre a ditadura! E só agora, mais de sete anos depois, me toco nesse detalhe: ele não falou nada! Sequer desfiou algum comentário solto. Agora que começo a falar sobre a ditadura em particular, coisas interessantes me vêm à memória. Quando, por exemplo, saíamos para jantares de gala que requeriam trajes sociais, ele gostava de usar uma indumentária no lado direito do peito: uma bolinha azul e vermelha, tipo uma abotoadura. Ele dizia:

_ Ganhei essa honraria do Presidente!

E eis o intrigante da história: ele jamais dizia de qual Presidente ganhara! Nem porque! E o mais engraçado é que isso sempre passou despercebido por minha família. Aliás, tem tanta coisa do passado dele que passou despercebido...

Certa vez ele encontrou uma foto antiga de uma barricada. À medida de curiosidade, ele para nós falou:

_ Esta foto é do Canal de Suez, em idos dos anos 60. Houve um conflito armado entre o Oriente médio e as tropas egípcias. Era uma missão internacional. À época, perguntaram se eu queria servir lá. Disse que não: ainda queria me casar e ter filhos. Era uma missão arriscada; podia morrer lá. Meses depois, com a situação já estabilizada, pedi a meus oficiais para lá servir. Eles negaram, afirmando que não precisavam de mais pessoal lá. Perdi uma chance de conhecer o Oriente médio!...

Ah, outra coisa me vem às lembranças: há pouco tempo falece Leonel Brizola. Este teve lá sua participação à época em que a Ditadura foi instalada no País. Segundo o que sei, ele, quando governador do Rio de Janeiro, instituiu a Cadeia da Legalidade, entre outras medidas para "adiar" a derrubada do poder pelos militares. Toda vez que meu pai o via na tevê, dizia com desdém:

_ Vá se aposentar, velho! Ninguém mais quer ouvir suas sandices!

Essa última frase, convenhamos, ninguém precisava ser militar para proferi-la! O caudilho realmente era como sindicalista da CUT: só dizia besteiras revolucionárias em seus discursos!

Num outro evento isolado, lera sobre a construção de uma usina que requereu a destruição de uma das mais belas quedas d'água da região de Foz do Iguaçu, a Sete quedas. Quando comentei com ele sobre isso, esperava uma resposta favorável à natureza da parte dele. Obra alguna justifica certos ônus ao meio ambiente. Ele se limitou a responder:

_ Teve de ser feito. O progresso tem seu preço.

Com respostas assim, percebi que as pessoas muitas vezes são obrigadas a se manifestar contrárias ao que realmente pensam para defenderem as coisas em que acreditam ou prezam.

As pessoas costumam descrever a ditadura como um período negro da História brasileira. Eu não nego. Mas também não nego algumas conquistas desse período, algumas que só consegui perceber graças a alguns artigos e livros de história. Como disse, obter algo espontâneo de meu pai sobre o período era dificílimo! Temos a Zona Franca de Manaus, que atenuou o vazio demográfico da região Norte e trouxe indústrias à região. Segundo alguns, fazia parte das noções de estratégia dos militares de povoar o máximo possível cada confim do País. Paranóia de ser invadido pelos americanos. Em contrapartida há também a até hoje não-finalizada Transamazônica. Por outro lado teve também a Reserva de mercado, que livrou a indústria informática de concorrência externa por alguns anos. Alguns dizem que isso propiciava produtos de baixa qualidade, e outros dizem que foi um pontapé inicial importante para a produção brasileira na informática. Talvez tenha sido uma medida visionária. Talvez.

Observo também o desprezo que ele tinha pelos norte-americanos. Ele sempre reiterava sobre a pútrida história desse povo mesquinho e cruel. Porquês não faltam. Mas uma razão que deve ter intensificado isso é como os gringos meteram o bedelho nas democracias sul-americanas. Afinal, o Brasil não era uma ditadura solitária à época. Achava isso um patriotismo exacerbado, mas com o tempo percebia a coerência do que ele dizia.

Tem outra história que ele me contou que me lembrei agora: é sobre um dos militares que presidiram o País, o Eurico Gaspar Dutra.

_ Está vendo esse ginásio?

_ O Dutrinha?

_ Sim. Você sabia que Eurico Gaspar Dutra era matogrossense?

_ É mesmo?
_ Pois é. Quando assumiu a presidência, ele fazia questão de lembrar às pessoas em seus discursos sobre as maravilhas de sua terra. Uma das ambições dele é de que Mato Grosso tivesse o maior estádio do mundo, que superasse o Maracanã. Para isso, ele, durante seu mandato, mandava generosas contribições para a construção do estádio. Um certo dia, ele decide voltar a Mato Grosso para contemplar seu tão sonhado estádio. Quando ele viu a sacanagem que fizeram com o dinheiro do País, ele nunca mais voltou para Mato Grosso.


Apesar de todas essas memórias que cá trago, garanto: ele falava pouquíssimo sobre a ditadura!


Adendo: Uma história que soube só há poucos dias foi da vez em que ele prendeu o Caetano Veloso! E segundo minha mãe, este não foi o único artista que ele prendeu. Caraca, meu: como eu nunca soube disso antes? Decerto teria sofrido menos bullying se essa história fosse conhecida...


(originalmente publicado em 22/07/2004)

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Brasil não é para amadores (XII)

A quem cabe o passo seguinte da história?

O economista Carlos Lessa costuma dizer que o Estado brasileiro inventou o keynesianismo em 1930, antes de Keynes, com Getúlio Vargas. O Brasil é uma criação do Estado, ironizava Celso Furtado sobre a esquálida capacidade de iniciativa da sempre festejada 'iniciativa privada'. A verdade é que em praticamente todo os ciclos de crescimento coube ao Estado brasileiro determinar o nível de investimento, fixar prioridades, induzir e financiar a participação privada no arranjo macroeconômico. Por que seria diferente agora? Ou melhor, porque é tão difícil agora reproduzir a mesma alavanca, quando seu papel contracíclico mais que nunca é necessário face ao colapso da ordem neoliberal? 

A interrogação perpassa o pacote de concessões de infraestrutura lançado pelo governo Dilma nesta 4ª feira. Nele alguns enxergaram 'a rendição à lógica das privatizações'; mas há uma novidade importante. 

Junto com investimentos da ordem de US$ 65 bi , a metade a ser ativada nos próximos cinco anos para deslanchar 7,5 mil kms de rodovias e 10 mil kms de ferrovias, a Presidenta Dilma anunciou a criação de uma estatal, a EPL , Empresa de Planejamento e Logística. 

Caberá a ela, a partir de agora, a responsabilidade de: ' realizar estudos da logística brasileira, articular investimentos, constituir e estruturar projetos'. 

Ou seja, formular um leque estratégico de possibilidades para que o governo possa atrair, induzir e coordenar a iniciativa privada e/ou estatal na execução de obras do interesse do país.

Por incrível que pareça, isso é novidade no Brasil do século XXI.


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