quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Brasil não é para amadores (XI)

Brasil, Suécia e o complexo de vira-latas revisitado
Autor do texto: Rafael Santos. Fonte: Yahoo! esportes.


Um convite a visitar o passado. É e não poderia deixar de ser assim que encaro o duelo entre Brasil e Suécia, no lendário estádio Rasunda. Palco de nossa primeira conquista em Copas do Mundo. Foi lá que Pelé fez aquele gol mítico que nos acostumamos a ver naquela imagem em preto e branco desgastada pelo tempo.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Bob, cão pesquisador (II)

Relatório do Bob, dia 5


Acordei tarde hoje. Meu coração dispara quando o humano se aproxima de meu decúbito ventral com sua asquerosa pata contendo cinco articulações formadas por finos filamentos. Ele alisa meu pêlo de forma ascendente, como se estivesse procurando algum objeto afiado ou de potencial perigoso para me rebelar contra eles. Ele é habilidoso nisso: sua pata emite um calor que é intrigantemente prazeroso para minha barriga. Como se houvesse em suas patas um mecanismo que controlasse meu fluxo sanguíneo, me mantendo num estado de êxtase que me deixa frágil. Meus pensamentos se esvaecem rapidamente, não sei o que fazer. Meu rosto emite sinais involuntários de prazer, como um fechar de olhos ou um abrir de boca. Deve estar testando meus sinais vitais para posteriormente me matar rápido o bastante, com pouca sujeira, para me expôr em seus museus. Os humanos parecem se orgulhar bastante de exibir suas conquistas e resquícios de eventos sociais passados. Devem achar que controlam o tempo com isto. Talvez haja uma explicação mais complexa: nas paredes da prisão em que ele me mantém, há algumas pessoas aprisionadas em redomas retangulares. Como se fossem pequenas cápsulas do tempo. Como se só colecionar coisas criasse identidade neles. Os humanos parecem desesperadamente evitar uma certa mecanização de sua natureza. Eles andam em rebanhos, se compartam como matilhas e têm medo como se estivessem sempre sozinhos e fossem únicos em seus pavores. Quer dizer, pelo menos é o que presumo quando vejo alguns exemplares menores de humanos com medo de mim, os filhotes deles, gritando agudamente em minha direção. Alguns no colo de suas mães. As fêmeas devem sufocá-los bastante, numa possível lição de sobrevivência. Se sobreviverem ao colo, sobrevivem ao mundo lá fora. Quanto ao humano que me comprou, quando me leva para passear, observo que os humanos que encontro no caminho agem de formas muito parecidas. De repente meu humano macho se sente um pouco diferente porque desfila comigo em praça pública. A identidade dele é o fato de ostentar minha existência. Quem está mecanizado agora sou eu. 

Depois do passeio, voltei esbaforido pra casa. Pelo menos a atividade física alivia a minha tensão. Ele retira de meu pescoço o dispositivo usado para controlar meus passos. Nunca me senti tão coisificado em minha vida. Tenho uma vontade desesperada de fugir, mas não há a menor chance de isto acontecer. Preciso pelo menos ganhar tempo até descobrir como entrar em contato com outros cães e bolar um plano de fuga coordenado. Terei mais chances assim. Por mais que o universo de odores que já identifiquei e cataloguei aqui me permita encontrar uma saída, existem barreiras físicas intransponíveis para mim. Um portal pesado, altíssimo, cujo cimo só consigo observar inclinando minha cabeça para cima, me impede. O humano recebe visitas abrindo-o. Alguns instantes após a caminhada, ele serve minha ração, com um pouco d'água. São bolinhas esponjosas com um gosto horrível. Como eu sinto falta de comer um delicioso coelhinho, de dilacerar a carne crua com meus dentes, de sentir a vida do pequeno ser se esvaecendo a cada músculo que abocanho vorazmente! Este grude disforme que me servem como comida deve fazer parte dos planos perversos do humano: na certa, está me dando esta alimentação inferior para que, a longo prazo, alguns caracteres meus como espécie fiquem pouco a pouco inibidos de se desenvolverem. Sinto meus pêlos caindo menos. Uma fantástica biotecnologia aplicada a esta coisa pavorosa que chamam de alimento para mim. Provavelmente pensaram nisso para que eles cresçam ao ponto de cobrirem meus olhos e focinho e cobrirem minhas patas, dificultando minha locomoção e fazendo-me tropeçar em minhas próprias patas!

De repente um ruído alto e agudo sai do portal. É um outro humano, do outro lado. Entrega um objeto a ele. Sei que é um informante, trocando informações de inteligência sobre outros cães fugidos e quais já foram capturados por outros humanos. Numa bizarra criação de vínculo afetivo com meu carcereiro, eu acabo surtando e tento atacar o outro humano tentando invadir minha prisão! Sei que ele podia me matar com facilidade, mas nem quero pensar o que mais um deles aqui dentro poderia fazer comigo. O fato de ele ainda estar do lado de fora me dava uma vantagem, pensei na hora. Solto os latidos mais ferozes que consigo, mas o humano dono meu me repele com grunhidos graves. Seus pés fazem o chão tremer. Ele pode me esmagar a qualquer momento, e eu me arriscando desta forma. Baixo a cabeça, boto o rabo entre as pernas e evito contato visual para não aumentar a ira dele. Não conseguia entender na hora como minha iniciativa em defender o território pode tê-lo irritado. Mas depois que comecei a pensar com mais calma, um motivo conspiratório como o que cogitei acima parece fazer sentido. E eu quase achando que ele queria fazer amizade comigo, ao me render com seus carinhos ardilosos em minha barriga hoje de manhã...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O nada contracenando em seu filme preferido

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


É só eu ou esses filmes de mundos imaginários com crianças que brincam com varinhas já deram no saco? Esses filmes aonde metade do elenco não existe já deram o que tinham que dar, pelo menos pra mim. São filmes onde os efeitos especiais são maiores que os atores. Reparem que em cartazes de trilogias e filmes afins com seres esquisitos criados por computador, os atores são como subprodutos: seus nomes sequer aparecem nos cartazes. Soa antiquado dizer isso, mas ainda aprecio o trabalho de atores de carne e osso. Um sujeito comum vendendo a idéia de ser um vilão, um herói, uma pessoa atormentada... o que quer que o filme queira vender, lá está ele se desdobrando, dando certa humanidade ao filme. Perde a graça ver essa função sendo confiada a bits e bytes. Me refiro apenas a bits e bytes, pois recursos como animação tradicional me agradam: histórias que simplesmente soariam ridículas se transpassadas para atores de carne e osso ganham uma roupagem imponente sob um desenho animado bem elaborado, escrito e dublado. Não é à toa que o Batman do desenho animado (aquele produzido em 92, senão me engano. Um Batman com uma cara bem quadradona e uma dublagem meio comida, lembram-se? Vi a reprise dia desses no CN) se sai bem melhor do que a maioria de suas conversões para a tela grande. Deviam rasgar o diploma de Cinema de nulidades do cinema como Joel Schumacher, que conseguiu produzir a mais ridícula versão cinematográfica do homem-morcego de todas!

Certo, mas se animações tradicionais dão cabo satisfatoriamente de histórias difíceis de serem satisfatoriamente adaptadas para o cinema, porque o mesmo não ocorre com a animação computadorizada? Respondo: a animação computadorizada está engatinhando. A animação tradicional é usada há mais de 80 anos. Há quantos anos usamos computadores para emular a realidade? Mais uma coisa: a animação dita 3D é usada de forma pretensiosa demais. Usá-la aliada a atores de carne e osso é uma heresia aos olhos mais atentos, simplesmente. Se usada isoladamente, como a Pixar costuma fazer, os resultados são bons. Mas não tentem chafurdar em cima do meu bom-gosto colocando uma pessoa de verdade contracenando com uma tela verde, por favor!


(originalmente publicado em 13/06/2004)