terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Entrevista com o religioso mais opressor do mundo

Neste post confabularei sobre como seria o religioso mais tirânico, fundamentalista e intolerante possível. Eu me esforçarei, mas a realidade ganhará de mim fácil. Saber pensar sozinho é algo que muita religião detesta, e vou explorar isso aqui. Eu vou evitar referências a imagens e passagens de livros sagrados porque certos religiosos ficam bravinhos e começam a queimar redações de jornal e bandeiras dos EUA quando a comunidade internacional, não tendo nada a ver com dogmas alheios, faz charges, representações de imagens de profeta que não são aceitas, num mero exercício de liberdade de expressão. Ou seja, o diferente não serve pras religiões. E o diferente nem sequer precisa te ofender, basta questionar as falsas zonas de conforto e bases familiares irreiais que sua religião gera pra ter nego tristinho...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Brasil não é para amadores (IX)

Gândavo e o Brasil

Quanto a Pero de Magalhães Gândavo, português, de origem flamenca (o nome deriva de Gand), professor de Humanidades e amigo de Camões, devem-se-lhe os primeiros informes sistemáticos sobre o Brasil. A sua estada aqui parece ter coincidido com o governo de Mem de Sá. O Tratado [da Terra do Brasil] foi redigido por volta de 1570, mas não se publicou em vida do autor, vindo à luz só em 1826, por obra da Academia Real das Ciências de História de Portugal; quanto à História, saiu em Lisboa, em 1576, com o título completo de História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmemte Chamamos de Brasil. Ambos os textos são, no dizer que Capistrano de Abreu, "uma propaganda da imigração", pois cifram-se em arrolar os bens e o clima da colônia, encarecendo a possibilidade de os reinóis ("especialmente aqueles que vivem em pobreza") virem a desfrutá-la.

Gândavo estava ciente de seu papel de pioneiro.

A causa principal que nos obrigou a lançar mão da presente história, e sair com ela à luz, foi por não haver até agora pessoa que a empreendesse, havendo já setenta e tantos anos que esta Província é descoberta (Prólogo) e procurou cumpri-lo com diligência, o que lhe valeu os encômios de Camões nos Tercetos com que o poeta apresenta a História:
Tem claro estilo, engenho curioso.
Trata-se naturalmente de uma objetividade relativa ao universo do autor: humanista, católico, interessado no proveito do Reino. Assim, lamenta que ao nome de Santa Cruz tenha o "vulgo mal considerado" preferido o de Brasil, "depois que o pau da tinta começou de vir a estes Reinos ao qual chamaram brasil por ser vermelho, e ter semelhança de brasa". Quem fala é o letrado medieval português. A sua atitude íntima, na esteira de Camões, e que se rastreará até os épicos mineiros, consiste em louvar a terra enquanto ocasião de glória para a metrópole. Por isso, não devemos enxergar bis seus gabos ao clima e ao solo nada além de uma curiosidade solerte a serviço do bem português. O nativismo, aqui como em outros cronistas, situa-se no nível descritivo e não tem qualquer conotação subjetiva ao polêmica.

Isto posto, pode-se entrever certo otimismo (que em viajantes não portugueses chega a ser visionário) quanto às potencialidades da colônia: e quem respingou os louvores desses cronistas, ainda imersos em uma credulidade pré-renascentista, pôde falar sem rebuços em "visão do paraíso" como leitmotiv das descrições: Eldorado, Éden recuperado, fonte da eterna juventude, mundo sem mal, volta à Idade do Ouro.

Mas o tom predominante é sóbrio e a sua simpleza vem de um espírito fraco e atento ao que se lhe depara, sem apelo fácil a construções imaginárias.

Gândavo dá a notícia geográfica da terra em geral e das capitanias em particular. Lendo-o, aprende-se, por exemplo, que a escravidão começou cedo a suportar o ônus da vida colonial:
E a primeira vez que [os moradores] pretendem adquirir são escravos para lhes fazerem suas fazendas, e se uma pessoa chega na terra a lançar duos pares, ou méis dúzia deles (ainda que outra coisa não tenha de seu), logo tem remédio para poder honradamente sustentar sua família: porque um lhe pesca e o outro lhe caça, os outros lhe cultivam e granjeiam suas roças e desta maneira não fazem os homens despensa em mantimentos com seus escravos nem com suas pessoas (cap. IV)
Há na obra descrições breves mas vivas de costumes indígenas: a poligamia, a "couvade", as guerras e os ritos de vingança, a antropofagia. Nem faltam passagens pinturescas; no capítulo "Das plantas, mantimentos e frutos que há nesta Província", fazem-nos sorrir certos símiles do cronista maravilhado com a flora tropical:
Uma planta se dá também neste Província, que foi da ilha de São Tom', com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar na terra. Esta planta é mui tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas folhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepinos e criam-se em cachos. (…) Esta fruita é mui saborosa, e das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora qdo. a querem comer: mas faz dano à saúde e causa ferve a quem se desmanda nela (cap. V)
Dos ananases diz que "nascem como alcachofras" e do caju que "é de feição de peros repinaldos e muito amarelo".

Sua atitude em face do índio prende-se aos comuns padrões culturais de português e católico-medieval; e vai da observação curiosa ao juízo moral negativo, como se vê neste comentário entre sério e jocoso sobre a língua tupi:
Esta é mui branda, e a qualquer nação fácil de tomar. Alguns vocábulos há nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão para os machos: carece de três letras, convém a saber, não s acham nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disso conta, nem peso, nem medido (cap. X).
A História termina com uma das tônicas da literatura informativa; a preocupação com o outro e as pedras preciosas que se esperava existissem em grande quantidade nas terras do Brasil, à semelhança das peruanas e mexicanas. E, espelho de toda a mentalidade colonizadora da época, afirma ter sido, sem dúvida, a Providência a atrair os homens com a tentação das riquezas, desde o âmbar do mar até as pedrarias do sertão,
com o interesse seja o que mais leva os homens trás si que outra nenhuma coisa que haja na vida, parede manifesto querer entretê-los na terra com esta riqueza do mar, até chegarem a descobrir aquelas grandes minas que a mesma terra promete, pêra que assi desta maneira tragam ainda toda aquela cega e bárbara gente que habita nestas partes, ao lume e conhecimento da nossa Santa Fé Católica, que será descobrir-lhe outras maiores no céu, o ual nosso Senhor permite que assim seja pela glória sua e salvação de tantas almas (cap. VIII)
No mesmo parágrafo, e em tranqüilo convívio, o móvel econômico e a cândida justificação ideológica.


(Extraído de BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira 43 ed. Cultrix: pp. 15-17)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Bob, cão pesquisador

Personagem que criei em momento de ócio. Com algumas observações nos links, para que os relatos "antropológicos" caninos abaixo sejam melhor compreendidos.


Relatório do Bob, dia 1


Decidi iniciar um diário na data de hoje, relatando meu cotidiano na residência deste humano macho que me mantém em cativeiro. Felizmente eles desconhecem minha habilidade telepática de registrar eventos e transmiti-los a outros pares. Aparentemente sou um prisioneiro de guerra deles: desde filhote me encontrava preso numa estranha redoma invisível, por onde os humanos podiam me ver dentro de meu cativeiro e me comprar como se fosse um escravo. Me recordo pouco desta época. Fui impedido de medir o tempo que passei neste lugar. O acesso à luz solar me era negado. Então apenas os registros posteriores a este primeiro texto terão registro temporal. O pouco que posso registrar aqui é que este humano macho em questão se dirigiu à prisão exigindo ter minha posse. Entregou a um dos carcereiros um papel esverdeado ao qual conferem um conceito abstrato de valor. Para eles, minha vida é apenas uma transação. Uma permuta. Eles dominaram tudo: todos os outros animais de pequeno porte que faziam parte de minha alimentação foram dizimados e arrebanhados nestas estranhas prisões. Qualquer tentativa nossa de demarcar nosso território é rapidamente reprimida com um líquido de odor acompanhado de um tecido rústico, esfregado na região em que depositei minha urina identificadora cujos feromônios contêm as coordenadas e informações genéticas para as fêmeas mais próximas me encontrarem. Eles querem acabar com a gente: primeiro eliminaram nossa fonte principal de alimentação, e agora querem nos impedir de procriar. Um verdadeiro genocídio, não sei o que fazer.

É tudo muito novo. Ele me leva no colo para fora da prisão. Possui um aroma típico de um humano, mas misturado com um químico adocicado localizado na região do pescoço. Provavelmente ele usa aquilo para proteger o pescoço de parasitas ou como veneno artificialmente criado, para conter predadores. As defesas deles devem funcionar assim, porque eles não possuem garras, espinhos ou qualquer outro artifício de ataque. As pernas são altas e as patas dianteiras não se apoiam no chão, então são vítimas fáceis de carnívoros. Mesmo assim eles possuem habilidades especiais para criar armas mágicas para atacar outros animais. Uma delas está na lateral de sua perna: tem formato retangular e é muito brilhante. Ele parece se comunicar com aquele objeto inanimado, como se ele promovesse uma espécie de telepatia com outros humanos. Aparentemente, esta arma em particular ataca o sistema nervoso de outras espécies: as pessoas ao redor evitam se comunicar com o humano enquanto este porta o objeto em seu ouvido. Confesso que ele emite ruídos que me apavoraram naquele momento. Sons indistinguíveis perturbaram demais meu espírito, como se estivessem desmantelando alguns neurônios meus. Creio esta arma possuir um poder de manipulação mental assustador. Pouco tempo após uso deste aparelho, uma humana fêmea me pega no colo e começa a grunhir. Me dá uma vontade aterradora de urinar, mas acho que o colo dela não é o melhor lugar para isso. Aqueles braços lisos no momento exercem uma pressão mediana sobre meu corpo. Aparentemente de forma afetuosa, porque está me deixando viver. Tenho medo de pensar o que ela poderia fazer com minha jugular se decidisse me atacar.  Mas o mais perverso disso tudo estaria por vir: enquanto ela me segurava, o humano macho se aproxima dela e aponta a estranha arma em nossa direção, que possui um pequeno orifício arredondado e emite uma luz branca em nossa direção. Nunca vou saber que memórias minhas eles apagaram, distorceram e manipularam. Só sei que, desde esse dia, sinto uma euforia inexplicável quando, no cativeiro, o humano macho volta depois de um dia cheio, ou então lança um artefato arredondado supostamente com a intenção de que eu o capture para ele. Os membros superiores deles devem se encontrar num estágio anterior da evolução das espécies, porque o humano é muito desastrado e derruba o artefato reiteradamente, várias vezes. Prefiro obedecer e capturar o objeto: tenho medo de ele piorar a qualidade da ração que me é servida diariamente.

Termino meu relatório por hoje. Estou exausto depois deste dia tenso. Vejamos como será meu primeiro dia neste complexo habitacional humano. Se eu não sobreviver nos próximos dias, verifiquem minhas fragrâncias para identificarem a causa de minha morte. Espero que algum companheiro de quatro patas tenha acesso a estas palavras minhas um dia. Me sinto muito sozinho...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ô Anna Juliaaaaaaaaa...

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Domingo os Loser manos tocaram no Faustão. Tocaram O vencedor (pessoalmente, preferia Cara estranho), e Anna Júlia. Nesta apresentação, eles afirmaram ser "a última vez que se apresentam tocam Anna Julia num programa de Tv". Veja o porquê nesse surreal diálogo entre a banda e o inconveniente Fausto Silva:


_ Com esta apresentação, será a última vez que nos apresentaremos em rede nacional, na Tv, cantando Anna Julia...

_ Nossa, olha só, Caçulinha, o privilégio que estamos tendo no programa! Mas digam uma coisa: por quê tomaram essa decisão, já que a carreira de vocês disparara meteoricamente após o hit Anna Julia?

_ Tomamos essa decisão para que nosso repertório não fique saturado, para que não fiquemos conhecidos por apenas uma ou duas músicas. É como você e as mesmas piadinhas qe você conta há mais de quinze anos...

_ Pois é, tem que variar um pouco o repertório, senão... [nessa hora, Fausto esboça o sorrisinho mais amarelo do mundo, ficando super sem-graça depois dessa tirada dos barbudos]

[após o show...]
_ Pois é, galera, esses foram os Loser manos, uma banda de personalidade. Até a próxima, rapazes! [que contradição; provavelmente não haverá próxima!]


Ah, se eu tivesse programado meu videocassete...


(originalmente publicado em 20 de janeiro de 2004)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013