quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Diga xis!

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Fotos são quixotescas? Ou somente as cores assim agem na composição do fracionário universo -- que cunha em celulose, pixels e vários métodos propostos pela tecnologia -- do déja-vu maquiado duma foto? Contar histórias torna-se algo mais testemunhável por meio de fotos; uma fábrica de universos paralelos que transformam as pessoas em meros atores itinerantes. Quer dizer, por natureza as pessoas são meros atores, mas co fotos elas se tornam marqueteiras cármicas de si mesmas. São crias, sem perceber, do ideologicamente esférico Dom Quixote, o sagaz, trágico e convictamente ultrapassado cavaleiro da literatura.

Fotos são sobre leituras e limites visuais? Pudores de imagens demonstram capacidade de ainda se indignar, ou meros tabus empíricos? Conceitos visuais evoluem de que modo no ponto-de-vista diacrônico dos homens? Anulando e reforçando pré-conceitos? Cores renascentistas e ousadias minimalistas: talvez haja uma busca além do nada. Uma linguagem além de diretriz estética qualquer. que esclareça os insights por trás dos contornos, dos enquandramentos e dos pontos de cor, um genoma cromático. Um descritor a mais para sentimentos, com menos arbitrariedades visuais e mais traduções de Zeitgeists. Quebra-cabeças descobertos mais eficientes do que parecem para constituir melhor existências inteiras e personalidades contextuais que não podem ser tão simplesmente definidas assim.

Labirinto dimensional sob a morfina da interpretação ocular individual, fotos alimentam o espírito ou nutrem a mente? Adestram a índole, diria. Fazem o sentimento ocupar vários lugares ao mesmo tempo no espaço. E o corpo padecer num só. Constróem o sentido da vida e desconstróem a uniformidade da interpretação, dirtriz comportamental que nos salva ou nos condena ao totalitarismo de signos. Aparências. O poder da beleza oprimindo, com sua promessa de atenuação, mentes lacanianamente angustiadas que se pintam de aquarela expressionista num mundo de visões por demais impressionistas.


(originalmente publicado em 22/11/2005)

domingo, 17 de novembro de 2013

Amor e respeito se confundem facilmente?

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.



Amor e respeito se confundem facilmente? Há conexões que resistem ao rompimento de laços oficiais de união entre casais, nesse quesito. O amor intenso e insano o suficiente para fazer com que os pombinhos fiquem juntos passa, mas o respeito, não. Por mais baixo que se atinja, em quaisquer aspectos, quem é capaz de perdurar, nem que seja com data de validade, o amor ou o respeito? Os dois coexistem? Dizem que sim, sob o risco de a afeição ser unilateral. Dizem que não, sob o argumento de respeito se tratar de, para muitos, mera formalidade. Mas, às vezes, não é que o respeito deixe de ser provido pelo ser amado; se este faltar no ser que ama, o que acontece? A relação se torna algo assistencial. O que muitos aprovam, veja só. Entra cá o altruísmo mascarado de se ajudar ao próximo sem se pensar em retorno. Bom, as pessoas tendem a achar que realmente podem gostar de alguém sem precisar se preocupar com a característica de "caridade" nisso envolto. Com essa noção assistencial do gostar, como será que as instituições comportamentais se portariam? Com caráter menos ancestral em relação aos dotes? Com posturas mais volúveis? Vale lembrar que, não raro, um repele o outro. Amor angustia, respeito ampara. Amor confunde, respeito coopta. Há um quê de conivência nisso. Ação no estático do afeto é dispensável. Não estranharia se, daqui a séculos, olhares, gestos e palavras fossem considerados rompantes a regras de etiqueta. Por mais que se manifeste, o silêncio do respeito se silencia ao lado do barulho do amor. E parece que disso não passamos: testemunhas companheiras que aceitam ser regidas pela lei do silêncio.


(originalmente publicado em 16/11/2005)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os spammers se divertem em minha caixa de comentários

A male crab met a female crab and asked her to marry him near the ghd nz store. She noticed that he was walking straight instead of sideways. Wow, she thought, this crab is really special. I can't let him get away .So they got married immediately. The next day she noticed her new husband waking sideways like all the other crabs, and got upset. "What happened?" she asked. "You used to walk straight before we were married." "Oh, honey, " he replied, "I can't drink that much every day." [url=http://www.the-beatsbydre.com]beats by dre[/url]

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Prazer e diversão são a mesma coisa?

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.



Prazer é como silêncio que precede e sucede sincronicamente o barulho: um transcender da vazão do sempre pro recipiente do temporário. O êxtase diluído na vastidão do sempre torna-se altamente concentrado no temporário. O instante sintetiza o epopéico buscar inserido outrora no sempre. O viver é tântrico com seus espasmos. O prazer é síncope dos nossos impulsos e instintos. A fruição é sincopar o mundo em nosso ponto de vista, apocopando, no recipiente do temporário, o pulsar duma lascívia idealizadora em negação, que fica sem onde se esconder com a chegada do silêncio que rodeia os limiares das fronteiras da personalidade.


Prazer em drogas são atalhos. Prazer em si é egoísmo crente no opcional dos fins desdenharem os meios. Prazer de si a outro é outro atalho, por mais crueldade e desdém que isso possa vir a conter. Prazer a si de outro é fruição feudalista: frua enquanto puder que apenas ao mundo o prazer pertence. O tão desejado auge de sincopado fluxo de interpretação especial com teoria emocional é como a atmosfera sob sua cabeça: apenas a gravidade decide a altura em que você se posicionará. Prazer em conhecer. Sendo prazer fórmula bruta e engarrafada da estática felicidade (vide post de dezembro do ano passado), a percepção viaja sem sair do lugar. É quando as fronteiras da personalidade reivindicam novos territórios para seus combatentes. Invadindo aldeias do afeto casto, ateando fogo nos artesãos da memória, molestando as descendências da moralidade. Enfim, prazer é felação pro ego.

E diversão, é distração? Diversão "mata o tempo para este te enterrar" ou "mata o tempo para este não te matar"? Frases dos opostos Machado e Mano Brown à parte, talvez diversão seja o processo que precede o prazer, o de separar o visado num recipiente hermeticamente selado pelo temporário. Seria diversão todo um prazer semidissipado? Com certeza não é estático como o prazer e a felicidade. Sendo assim, é então onipresença que não respeita as fronteiras da personalidade. Verdadeiro posseira, a tal da diversão. Em território devoluto, bem na acepção que cá estamos dando. Cigana, dissidente, andarilha a ponto de perpassar e coadunar por seus agoniantes opostos, e sequer perceber. Mochileira que trafica o cativar e deixa apenas a saudade em seu trajeto. Prazer é cor. Diversão é tinta da pintura. E a moldura?

Imagem encontrada no site 1000imagens.com; autoria de Victor Melo


(originalmente publicado em 19/10/2005)

domingo, 8 de setembro de 2013

Momento da crise política

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Juro que ouvi essa na tevê, numa gravação feita num telefonema grampreado do advogado Buracci (pivô das acusações pro lado do Palocci) com um outro advogado:


_ Que tal nos encontrarmos em Congonhas?
_ Não, ficou louco?
_ Então vamosnos encontrar num cybercafé do McDonald's.
_ Precisamos dum local mais discreto. Que tal no banheiro?
_ O que é isso? Podem até me acusar de corrupto, mas de boiola, não!


(originalmente publicado em 19/08/2005)

domingo, 4 de agosto de 2013

Convivência

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Convivência acaba com quaisquer máscaras. A babaquice alheia -- e a pessoal também -- não é mais forçosamente escondida depois de certo tempo. O desagradável daquela presença vem em peso bruto. Todos somos insuportáveis no final das contas. Listemos então algumas amostras de insuportabilidade:

_ Perguntas: a necessidade das pessoas de fazer perguntas idiotas pela idiota necessidade de puxar assunto, pela idiota vontade de falar com alguém, mesmo não tendo nada a dizer. Gente que ignora as conotações mais elementares do cotidiano e torna diálogos excessivamente longos e prolixos. Exagero que camufla também inseguranças, neuras, ansiedades e outras coisas.
_ Desagradabilidade: a qualquer comentário quer você fizer será acrescentado algum adendo de teor pejorativo, muitas vezes violando a linha do humor negro. A necessidade de algumas pessoas de rebaixar outras é irritante. Prova mais evidente do provérbio "quem desdenha quer comprar".
_ Hipercomunicação: um assunto trivial é iniciado, com comentários triviais, opiniões triviais, resultados triviais, lugares-comuns triviais, pessoas triviais, apenas por uma suposta necessidade alheia de se comunicar, de te ouvir, mesmo não tendo nada a dizer. Tudo bem que somos seres sociais, mas não abusa, né...
_ Ególatras: todo e qualquer assunto a ser puxado por tal pessoa será voltado sob a perspectiva dela, direta ou indiretamente, com a intenção de o interlocutor se vangloriar desmedidamente. Como se a vida do cara fosse um filme em primeira pessoa e você estivesse atado em sua poltrona, obrigado a consumir o umbiguismo patético da pessoa por todos os poros possíveis!

_ Fanáticos: acreditam piamente no que dizem. Aprecio pessoas assim, mas logo crio aversão quando elas tentam incondicionalmente me convencer de que apenas o que elas pensam e acreditam é certo e ponto final. Ignorar o mundo por meio de visões unilaterais é mais do que sificiente para que eu me certifique da ignorância e da cabeça pequena de pessoas assim.
_ Megafones: podem se tratar de pessoas divertidas a maior parte do tempo. Dou o braço a torcer por causa disso. Mas tornam-se chamativas demais quando conversando conosco em público: seja pelo tom de voz, seja pelas sandices oriundas de complexos de inferioridade...
_ Adivinhas: são pessoas altamente intuitivas, de concentração difusa, e observadoras, boas de se conviver. Mas altamente invasivas para os altamente instrospectivos: a convivência mútua faz com que esse tipo de pessoa presuma e preveja, por vezes invasivamente, coisas sobre você. E quando tentam adivinhar o que você está pensando, em momentos em que visivelmente você não quer falar nada? Pois é...
_ Complicados e perfeitinhos: são perfeccionistas. E, por isso mesmo, sempre dúbios e perigosos para se dizer certas coisas. Imprevisíveis por vezes. Pessoas inteligentes e interessantes. Mas altamente melancólicos e sensitivos: pouca coisa já os deixa pra baixo...

_ Só fala disso: a pessoa se dedica com tanto afinco ao que gosta que não percebe que as horas e horas em que poderia falar sobre seu programa de tevê favorito, por exemplo, entediam nos primeiros dois minutos.
_ Superioridade: essa é dúbia por natureza; é fácil se presumir que os de ares superiores estão te esnobando. A pessoa pode parecer legal, mas a sensação de que ela te odeia é misteriosamente constante.
_ Felizes: já cansei de dizer que felicidades são estáticas. E não há nada de errado em ver as pessoas teimando em ser felizes. Se for esse o caso, sou um teimoso inato. O problema é quando as pessoas acreditam que seus radiantes comentários são interessantes. É ou não é o fim você se sentir um merda naquele dia infeliz, estar em casa de amigo, acorrentado no sofá e tendo de ver toneladas de álbuns de fotografias, slides das últimas férias, ou simplesmente ter de ouvir de como aquela pessoa significa tudo pra ela? Enfim, monumentos aos melhores momentos alheios. Tá, sou suspeito pra dizer tudo isso: odeio fotos mesmo. Mas é tão chato ver as pessoas respondendo porque são felizes e você se perguntando porque é tão ranzinza... Blé!
_ A presença é suficiente: se nenhum dos requisitos acima se aplica aos mais próximos a você, temos ainda aquele tipo de pessoa cuja presença é suficiente para te deixar alterado, irritado, com a veia do pescoço saltando de raiva. E o mais intrigante: você não sabe o porquê! Odeia porque odeia e ponto final! Todos odeiam alguém sob essa circunstância. As amostras de insuportabilidade acima são mais particulares, mas esta última não tem jeito: aplica-se a todos!


(originalmente publicado em 11/02/2005)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Um sentimento

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Ontem o irmão trouxe até mim uma frase, entre outras, que me chamou a atenção. Foi o primeiro dia dele na faculdade. Parecia uma criança de cinco anos em seu primeiro dia na escola: chegou a pedir que eu o acompanhasse até sua sala! Eu, que tinha mais o que fazer, saí de casa o mais rápido que pude: ele já começava a torrar minha paciência desde o início da tarde, e não somente com isso. Enfim, chega de encher lingüiça. Eis a frase:

"A justiça é um sentimento"

Se a justiça é um sentimento, no final das contas, as leis dos homens são meros remorsos, orgulhos e rpesunções sugeridas? A relatividade trazida pelos compêndios legais deve abraçar ou vislumbrar de distância segura a justiça, sendo esta um sentimento? Decisões devem ser anuladas e/ou reforçadas mediante o sentimento, mediante a sugerida justiça? Tal sentimento é volátil por ser sentimento ou por ser implícito em lei? Seriam muitas leis cruéis induções a um sentimento enganador que não é justiça? Pormenores, interesses, sobreposições: o efeito dominó é permanente. É um defeito as leis não serem abordadas com ares mais científicos? Interpretações são pêndulos invisíveis entre o racionalista e o empírico.

Questões assim são esperadas de ciências sociais. Mas desde quando se encaram as leis como ciências? Desde quando um ramo da arbitrariedade humana desdenha razões e privilegia interpretações? Desde muito, presumo. E não apenas no tocante às leis; mitos e senso-comum reforçam o que digo. Se a justiça é um sentimento, presume-se de imediato que cada um tenha a sua. Querem nos julgar com uma profusão de diferentes justiças, sem ao menos arquétipos? Precisamos de algo além dos homens para julgamentos. Homens não foram feitos para se julgarem! Programas de auditório e tribunais não me deixam mentir. Seria a justiça um conceito criado na Antigüidade para as pessoas terem uma noção mais evidente do desprezivo caos aparentemente conotado por suas existências massivas? Na falta de alguma forma material de um se impor a outro, resta a justiça como instrumento discriminatório? Sentimentos discriminam, veja só...


(originalmente publicado em 01/02/2005)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Saudades

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Como será a reação de tal pessoa perante algo que aconteça a você? "A" você! Você se preocupa com a reação de alguém em particular? Agora eu me preocupo, mas não é de agora. Conselhos, impressões, reações: tudo se vai com as pessoas. A gente fica perdido quando esses referenciais se vão. Eu me sinto totalmente à deriva face à tanta coisa nova acontecendo. E sei que, de camarote, esse quem gostaria de observar as reações esboçadas, está agora numa situação em que os papéis se invertem: ele se limita apenas a observar minha reação. Uma sublimação que abrange todos os sentidos. Uma ausência. Um observar em que o observador não está presente. Pelo menos diante de seus olhos. A presença é em pequenos códigos do cotidiano. Com ou sem essas reações, me sentiria perdido. Mas ao menos tinha as reações. Mesmo as ações que camuflavam as reações. Porque três quartos do que passa por nós vêm camuflados que é pra evitar o óbvio e o racional demais. Sei lá, cara: o tempo passa mas sinto não obter respostas que anseio. Não tenho mais a pretensão de obtê-las, quero ao menos dicas. Não do observador que o destino me privou de observar as reações humanas, mas do que fazer em sua ausência visual. Ausência essa que leva consigo a importância que eu atribuía a tudo e a mim antes. Preciso tomar cuidado com esse crescente desapego. Mas ele é momentâneo, e é em relação a essa natureza momentânea que devo estar alerta. Minhas reações, preciso saber se serão momentâneas ou não. No final, nossas reações não nos interessam. De início. Talvez se nos ativermos mais a nós mesmos percebamos a relevância de nossas reações. Porque as reações desse que se foi foram com a ausência. As suas devem ter lá seu significado.

Pensei nele esses dias. Seguro de que eu aceitaria -- e de que abriria mão -- do que quer que fosse e tivesse sido para que fosse diferente. Mas lembrando de que posso fazer em presença o que é ausente. E de que tudo foi muito antes de ter sido. A escolha estava lá: cabia a mim decidir como acatá-la. Quem fez a escolha? Atribui-se a muitos; limito-me a atribuir a mim mesmo escolhas que não deveria estar cogitando agora. Porquê? Porque penso demais. Porque não preciso perder tempo com escolhas que já foram feitas. Porque preciso apenas esperar que o momento de cada decisão chegue, para que me resigne a ver o desenrolar de minha escolha inata. Isso não contradiz o livre-arbítrio: o afirma. O que o contradiz é tentarmos ignorar as conseqüências de nossas escolhas ou mesmo tentar evitá-las. Édipo que o diga: não quis esperar o desenvolvimento de suas escolhas e quis evitá-las. Evitar o já optado é um desencontro apenas para quem é autor da escolha. Ele já escolheu mas não releva as influências interiores e exteriores que preenchem e distraem sempre o âmago da decisão. E ignora o resultado tentando observar o desenvolvimento de algo em que está contido. O contido observar o continente: algo em vão. O continente te contém. Só quem está fora do continente tem a verdadeira perspectiva do todo. Máxima de qualquer ciência, sempre especulada por aquelas em que observar o continente de fora é impossível, e confirmada por aquelas em que isso é possível.

Penso se esses pequenos códigos impressos no cotidiano realmente fazem sentido. Às vezes isso me pega de surpresa: considero aquilo código impresso no cotidiano ou mera referência empírica? Eu sei lá. Opto pelo primeiro e não perco tempo tentando escolher entre os dois. É uma interligação que parece ter a meta de sempre nos manter ignorantes quanto ao sentido da proximidade -- ou distância -- das coisas. Não é uma situação em que a ignorância me ofende: é preciso elemento surpresa em meio à monotonia dos dias. Se este com quem não posso mais contar com as reações está ou não observando as minhas, isso pode ter uma resposta direta, mas pode também ter um estado de espírito: de que adianta uma explicação perfeitamente coerente se ela não corresponde ao estado de espírito de quem recebe essa explicação? Queremos retornos sem integrações, e isso não nos leva a muita coisa. Me leva apenas a sensações humanas. Obteria isso com tal integração? Preferiria a integração ou meu estado atual? Eu acredito que ficaria com a segunda opção. As imperfeições são a comédia dos homens. Integrações anulam quase todas as imperfeições, e precisamos delas para nos agüentarmos. E aqui conceitos como culpa e erro parecem ganhar importância. Enfim, por me faltar integração, me limito a sentir falta deste com quem não posso mais contar com conselhos, impressões e/ou, simplesmente, reações. Poderia ser diferente, mas quero apenas que eu consiga me aproximar da normalidade que precedia o diferente. Por mim e por todos, mas principalmente por mim.


(originalmente publicado em 02/01/2005)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Rindo para não chorar

Nas horas vagas, faço traduções e revisões de textos. Sim, andei ocupado em meio a meu bloqueio criativo. Espero que não sejam contagiosas, as coisas que leio. Vou compartilhar com vocês parte do meu sofrimento. E do milagre: em um ano, deve ser o primeiro texto cuja publicação não agendei com meses de antecedência. Voilà.


A acústica não é só apenas uma questão de qualidade do som, mais também de controlar os ruídos externos como internos.

Este desconforto deve ser conhecido para poder analisar a causa a ponto de solucionar estas consequências.

A casa Farnsworth coseguiu explorar a relação entre o individuo, o seu abrigo e a natureza, uma visão amadurecida de Mies [Ludwig Mies van der Rohe, arquiteto modernista]
[Figura xxxx: Memorial Martin Luther King Jr. Washington, fonte: xxxxxx]
A Biblioteca em memorial a Martinho Lutero foi projeto meses antes a morte de Mies esta obra mostra a ideia de forma objetiva com soluções conceituais que poderia ser aplicada livremente. Construído em aço preto fosco, vidros bronze. LOL

Uma série só de entornos
Na iluminação natural há vários elementos que podem contribuir com a sua utilização : um deles, que deve ser levado em grande consideração , é o entorno envolvido, como muros, edifícios, vegetações, tudo isso traz elementos importantes para serem observados quando for projetado.



Além dos vários tipos de clima é necessário que quando for projetar é importante conhecer o tipo de clima do local, ou seja, o clima do entorno próximo conhecido como microclima.

Para o projeto de arquitetura isso dente ser algumas interferência que devem ser levadas em conta. Outra  consideração importante é um estudo sobre os ventos do local, no qual deverá ser implantado o projeto arquitetônico para se ter uma boa analise e do entorno imediato e podendo possibilitar assim uma arquitetura adequada ao local e principalmente ao uso desejado. (KRAUSE, 2005)

O interior é todo transparente voltado para o entorno externo, tendo uma proposta diferente de uma casa tradicional, onde se tem as paredes dividindo o espaço e mantendo a privacidade, o objetivo deste projeto foi de abolir a tradicionalidade de uma casa, tendo assim uma visão puritana e simplificada

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Merecer

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Merecer: o conceito trazido por este verbo limita pra caramba e forma uma confusão muitas vezes de difícil dissociação. Somos instruídos a crer parcialmente numa existência antropocentrista e a crer contraditoriamente em pretextos geocentristas. A inércia parece ter efeito heliocêntrico frente a mais essa dualidade. Nunca se sabe em absoluto em que se levar em conta. Não há mãos únicas. Desmerecer é outro conceito limitante proveniente de pesos na consciência. Não prego aqui nada favorável ou relativo à Thelema, mas aqui a inércia exerce efeito meio que lunar: por mais que esta circunde* por algo, só se vê uma face do astro. O que a (sensação de) culpa não cobre. Mas noções de movimentos não costumam levar a muita coisa quando se considera a ação de abstrações assim. Porções de aparente indiferença advindas de estática ética mostram como a maioria das pessoas não está preparada para conviver com excessivos conceitos de ou com naturalidade. O previsível é uma corda dogmática no breu do pensar. Soltá-la é um exercício do diferente além de normas. Normas escritas e não escritas. Ambular ou orbitar? Pelo igual ou pelo diferente? Indiferentemente não se pode portar. Portar-se perante o ambular e orbitar alheio é que se esquece muitas vezes. Faz-se por merecer?


______________

* Poderia ter dito "circundar ao redor de", mas essa é mais uma daquelas expressões redundantes da língua portuguesa causada pela confusão trazida pelos onipresentes radicais latinos e gregos. É como dizer "interferência entre dois sistemas", por exemplo.



(originalmente publicado em 16/11/2004)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Brasil não é para amadores (XV)

Num estudo do sistema de justiça criminal de São Paulo, Sérgio Adorno descobriu que, entre os presos e acusados de roubo, tráfico de drogas, estupro e assalto à mão armada em São Paulo em 1990, os negros saíram perdendo em todas as etapas do sistema: 58% dos negros acusados foram presos em flagrante, contra apenas 46% dos brancos. Da mesma forma, uma proporção maior de brancos (27%) do que de negros (15,5%) aguarda julgamento em liberdade. Quando finalmente levados a julgamento, "réus negros condenados estão proporcionalmente muito mais representados do que sua participação na distribuição racial da população do município de São Paulo".

As descobertas de Carlos Antonio da costa Ribeiro com base em crimes levados a júri na cidade do Rio de Janeiro de 1890 e 1930 são semelhantes, e ele conclui que "a cor preta do acusado aumenta, mais que qualquer outra característica, a probabilidade de condenação". Costa Ribeiro defende que a discriminação contra pessoas de cor durante o período em questão se relacionava à influência dos proponentes da "antropologia criminal", da "escola positiva" de pensamento estabelecida no Brasil por Nina Rodrigues. Embora Rodrigues não obtivesse sucesso na criação de códigos penais distintos para negros, mulatos e brancos, a associação dos traços físicos africanos à propensão ao crime foi ritualizada nas mediações obrigatórias de cor e traços fisiognomômicos na Divisão de Identificação Criminal do Rio de Janeiro até 1942. Apesar de terem caído em desgraça na ciência forense, estas mesmas idéias inspiram a prática policial e grande parte da opinião pública no Brasil até hoje.

Adriano Maurício apresenta provas especialmente pungentes do enraizamento dessas idéias em seu notável estudo do transporte público do Rio de Janeiro. O jovem moçambicano começou a perceber que dificilmente alguém se sentava a seu lado no ônibus que o levava de casa, no subúrbio, à universidade no centro da cidade. Por ter lido um artigo sobre a conversão de Aimée Césaire à negritude num bonde de Paris, onde descobriu repentinamente que olhava para uma negra bastante mal-vestida com o mesmo nojo dos passageiros brancos, Maurício deu início a um estudo sistemático dos padrões de escolha de assentos em várias rotas de ônibus e entrevistou passageiros negros e brancos a respeito de suas preferências ao sentar-se. Com sua etnografia extremamente delicada e cuidadosa, conseguiu demonstrar que a ordem de preferência dos passageiros brancos na escolha de assentos era, em primeiro lugar, mulheres brancas, em segundo, mulheres de cor, em terceiro, homens idosos de cor e, por último, rapazes de cor. Ele concluiu que esses padrões de seleção tinham relação com o pressuposto comum de que as pessoas com maior probabilidade de realizar assaltos em ônibus são os rapazes negros. Contudo, ao mesmo tempo ele percebeu que nos ônibus não havia segregação racial propriamente dita. Os padrões que observou eram o resultado de pressupostos implícitos e não explícitos acerca da proeminência ou falta de proeminência da "raça" em lugares públicos.

A demonstração e o reconhecimento da existência de racismo indicaram o abismo entre a ideologia da "democracia racial" do Brasil e a realidade sociológica. Disto, poucos discordarão. Na verdade, as pesquisas de opinião pública mostram com bastante clareza que a maioria dos brasileiros (não apenas acadêmicos e ativistas negros) está bem consciente da discriminação. Em 1995, uma pesquisa realizada pelo jornal paulista Folha de São Paulo revelou que quase 90% da população reconheciam a presença de discriminação racial no Brasil. Uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro em 1996 mostrou que 68,2% dos habitantes da cidade concordam que os "negros" sofrem mais que os "brancos" os "rigores da lei". No entanto, ambas as pesquisas revelaram que em sua maioria os brasileiros adotam o ideal da "democracia racial" e negam ter qualquer preconceito. Um total de 87% dos pesquisados que se classificaram como brancos e 91% dos que se definiram como pardos alegaram não ter nenhum preconceito contra negros, enquanto 87% dos negros entrevistados negaram ter qualquer preconceito contra brancos. De forma ainda mais surpreendente, 64% dos negros e 84% dos pardos negam ter sofrido preconceito racial. É como se os brasileiros tivessem preconceito do preconceito racial, como um informante branco disse a Florestan Fernandes e Roger Bastide anos atrás.

Embora a maioria concorde que o mito da democracia racial coexiste com o preconceito e a discriminação, as interpretações divergem. A interpretação que inspirou principalmente a imaginação dos ativistas negros do Brasil é que o mito faz mais do que apenas negar a verdadeira democracia racial. Ele tem a potente função de mascarar a discriminação e o preconceito e de impedir a formação de um movimento negro de protesto em grande escala. Segundo esta interpretação, o racismo brasileiro torna-se ainda mais insidioso por ser oficialmente negado. Michael George Hanchard apresenta este argumento de forma mais sofisticada em sua análise do movimento negro no Brasil. O que ele chama de "hegemonia racial" no Brasil neutraliza a identificação racial entre não-brancos, promovendo a discriminação racial ao mesmo tempo que nega sua existência. Da mesma maneira, a miríade de categorias de cor existente no Brasil, em particular e diferenciação entre mulatos, de um lado, e negros e brancos do outro, também tem uma "função". Como explica Degler, os mulatos são a "válvula de escape" que dissipa possíveis polarizações e animosidades raciais. Para esses autores, o que começou como glória do Brasil é hoje sua danação.

Talcott Parsons argumentou há alguns anos que a polarização era uma característica necessária e desejável da "modernidade".
De início, é claro que a polarização relativamente maior favorece o conflito e o antagonismo. Contudo, desde que se cumpram outras condições, a polarização aguda parece ser a longo prazo mais favorável à inclusão efetiva do que uma graduação complexa de diferenças entre componentes, talvez particularmente onde as gradações são organizadas numa hierarquia de superioridade-inferioridade. Para deixar tudo bem claro, minha posição é que o problema das relações de raça tem melhor perspectiva de resolução nos Estados Unidos do que no Brasil, em parte por ter sido traçada de forma tão rígida nos Estados Unidos a linha entre brancos e negros e o sistema ter sido tão agudamente polarizado.
Michael Hanchard, escrevendo há bem menos tempo, exprime opinião semelhante. "Os conflitos entre grupos raciais dominantes e subordinados, a política da raça, ajudam a constituir a modernidade e o processo de modernização em todo o mundo. Eles utilizam fenótipos raciais para avaliar e julgar pessoas como cidadãos e não-cidadãos. (...) Esta é a política da raça entre brancos e negros no final do século XX, e o Brasil não é exceção." E Angela Gilliam, cientista social negra norte-americana, proclamou: "Boa parte do impulso de africanização consciente do Brasil deve vir dos Estados Unidos. O povo negro americano precisa começar a perceber que até algumas das conceitualizações e soluções para uma África africana virá de nossos esforços. A luta é uma só." Em comparação com a "normalidade" e "modernidade" dos Estados Unidos, o Brasil deve ser assim declarado carente: por não ter "raças" polarizadas; por definir a "raça" de alguém por sua aparência e não pela genealogia; por não ter produzido um forme movimento negro de massas; e por subordinar oficialmente a especificidade das raças à desigualdade de classes. O "mito da democracia racial" é interpretado como elemento funcional, um tanto fora dos arranjos de "raça" do Brasil, o que afasta do Brasil de seu destino "natural". E assim como a "democracia racial" já foi símbolo dominante do nacionalismo brasileiro, agora tornou-se demonizada em certos círculos acadêmicos e ativistas como ideologia amplamente responsável pelo insidiosíssimo racismo no Brasil. Como disse Suely Carneiro, coordenadora executiva do Geledês -- Instituto da Mulher Negra, de São Paulo (...), "existe uma tentativa de desqualificar os avanços obtidos pelo movimento negro nessa lita contra a discriminação" através do que ela chamou de uma "neodemocracia neo-racial, que teria como objetivo esvaziar a crescente consciência e a capacidade reivindicatória dos afro-descendentes, especialmente os mais jovens, e impedir que o conflito racial se explicite com toda a radicalidade que contém em termos de mudança social".

(...)

Mas a interpretação do mito da democracia racial como engodo habilidoso apresenta problemas. em primeiro lugar, mostra profundo desrespeito por todos aqueles (a maioria da população) que professam acreditar nele.  Em segundo lugar, reforça os defeitos genéricos de todas as interpretações funcionais. Quando se aborda o "mito da democracia racial" de um ponto de vista antropológico, quer como estatuto para a ação social quer como sistema ordenado de pensamento social que encerra e expressa entendimentos fundamentais a respeito da sociedade, ele pode então ser compreendido não tanto como "impedimento" à consciência social, mas como base do que a "raça" ainda significa na verdade para a maioria dos brasileiros. Por exemplo, o cientista político Jessé Souza realizou pesquisas em Brasília sobre a distribuição do preconceito. Ele descobriu que, enquanto o preconceito contra homossexuais, mulheres, pobres ou nordestinos era comum em todos os níveis da sociedade -- ainda que um pouquinho menos evidentes nos grupos de renda mais alta do que nos de renda mais baixa --, o racismo era o único preconceito que a vasta maioria de seus informantes, de todos os grupos de renda, condenava explicitamente. Ele vai ao ponto de sugerir que o anti-racismo é "um dos poucos valores partilhados sem restrição por todos os estratos sociais".

Parece, então, que alguns acadêmicos tendem a se alinhar com o movimento negro enquanto outros alegam enfocar o que denominam alternativamente de sociedade ou cultura brasileira. Não é preciso dizer que cada um empresta sua "autoridade" a um dos dois lados principais das batalhas políticas que se travam agora sobre a questão racial. E não há nada de estranho nisso, já que, como Marisa Peirano ressaltou, a fronteira entre ativismo social e vida acadêmica no Brasil sempre foi indefinida.


Fonte: Política, nacionalidade e o significado de raça no Brasil, de Peter Fry. In Brasil: fardo do passado, promessa do futuro. Dez ensaios sobre política e sociedade brasileira. Civilização brasileira: 2002, pp. 166-173.

domingo, 14 de abril de 2013

O louco


Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas- as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em minhas sete vidas - e corri sem máscaras pelas ruas cheias de gente, gritando:

_ Ladrões, ladrões, malditos ladrões!

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto acima no telhado de uma casa gritou: "É um louco!". Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei minhas máscaras. E, como num transe, gritei:

_ Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.


Gibran


(originalmente publicado em 29/10/2004)

domingo, 7 de abril de 2013

O Brasil não é para amadores (XIV)

A única figura que se aproxima da condição de herói nacional no Brasil é Tiradentes. Pesquisas (...) com alunos do ensino fundamental e médio sustentam essa hipótese. Tiradentes foi a única figura popular entre os rebeldes da Inconfidência Mineira. Foi também o único a ser punido com sentença de morte. A sentença foi executada em 1792 com a crueldade típica do Livro V das Ordenações Filipinas: foi enforcado e esquartejado, partes do corpo foram exibidas publicamente nos locais onde pregara a independência. Na segunda metade do século XIX, sua lembrança foi revivida por grupos republicanos para contrabalançar o esforço de fazer de Dom Pedro I a figura fundadora da nação.

O esforço dos republicanos acabou bem-sucedido, mas por razões outras que não as suas. O processo de construir Tiradentes como herói nacional teve viradas surpreendentes que ajudam a esclarecer as preferências nacionais quanto a figuras modelares. A tentativa inicial dos republicanos ressaltava a ação política do novo herói, sua posição contra o domínio colonial e a favor da liberdade e da independência, sua coragem pessoal ao assumir sozinho a responsabilidade pela rebelião, sua bravura ao enfrentar a sentença de morte. Mas, durante o processo, os aspectos de sua vida que começaram a apresentar maior apelo tinham mais a ver com as tendências religiosas que revelara durante os três anos na cadeia. O prisioneiro, sob influência de seus confessores, desenvolveu tendências místicas. Começou a pensar em si mesmo como um novo Cristo, pronto a oferecer a vida pela salvação de seu povo. Ele beijou a mão do carrasco para indicar perdão, assim como Cristo perdoara seus executores. Marchou para a forca pelas ruas do Rio de Janeiro falando ao crucifixo que sustentava nos braços. Inspirados por estes aspectos, poetas começaram a referir-se a ele como o Cristo da multidão; pintores começaram a representá-lo como Jesus Cristo. A forca foi transformada em nova cruz, o lugar da execução, em novo Calvário, o Rio de Janeiro, em Nova Jerusalém. Tiradnetes foi transformado em herói cívico pela incorporação da imagem de mártir religioso.

Ele foi um herói-mártir que nunca derramou sangue, que foi vítima da violência em vez de perpretador da violência. Com certeza foi esta característica que o tornou aceitável como herói para todos os setores da população e para todas as correntes políticas. Incontáveis poemas, peças teatrais, romances, músicas de carnavam e filmes, o último deles de 1999, contribuíram nos últimos cem anos para consolidar sua posição de herói nacional. Ele foi aceito por republicanos e monarquistas no século XIX, pela esquerda e pela direita depois de 1930. Cada grupo ressalta uma faceta diferente da imagem do herói: o republicano, o libertário ou o místico. Seu apelo de mártir cívico e religioso impediu que sua imagem fosse esqurtejada e tornou possível sua transformação no único herói nacional consensual.

(...)

Os brasileiros tendem a rejeitar heróis militares e políticos. A figura militar mais importante do país, o Duque de Caxias, oficialmente declarado patrono do exército, teve o nome transformado em sinônimo de "quadrado". Os brasileiros tendem a ressaltar nas figuras públicas que admiram, ou a conferir-lhes, dimensões humanas que têm a ver com pacifismo, sacrifício e capacidade de unir. Na maior parte dos casos, essas figuras sobressaíram em outros campos, como esporte, arte, ciência e atividade humanitária. Se tais figuras são tocadas pela tragédia, a possibilidade de serem admiradas aumenta muito. É o caso de Ayrton Senna, que morreu num acidente de corrida, e Herbert José de Souza, o Betinho, personagem mais próximo de uma figura carismática no Brasil de hoje por seu envolvimento em campanhas humanitárias. Betinho, hemofílico, morreu em 1998, vítima da Aids, doença que contraiu numa transfusão de sangue. Figuras agressivas, conquistadoras ou mesmo legisladoras, comuns entre os heróis nacionais por toda parte -- inclusive os Estados Unidos, para manter a comparação que venho fazendo -- não se qualificam como heróis do Brasil.



Extraído do artigo (publicado na revista Daedalus) de José Murilo de Carvalho: Terra do nunca: sonhos que não se realizam. In Brasil: fardo do passado, promessa do futuro. Dez ensaios sobre política e sociedade brasileira. Civilização Brasileira: 2002, pp. 59-62.

Vou parar neste trecho só, porque o artigo inteiro é muito bom. Fala do espírito do povo brasileiro com uma propriedade e objetividade notáveis.

sábado, 23 de março de 2013

O Brasil não é para amadores (XIII)

A moment of truth for Dilma
(Clique aqui para ler o restante do artigo)


WRITING about the Brazil of a century ago, Warren Dean, an economic historian, noted that the country’s foreign trade “appears to have been limited to commodities in which overwhelming comparative advantage offset high costs of production and commercialisation and high internal taxes.” Both government and private sector paid “little attention to…competitiveness,” he added.

Those words ring uncannily true of the Brazil of recent years. For much of the past decade the country enjoyed faster growth because of China’s demand for its iron ore, soya beans and oil, and because higher wages and newly available credit boosted the purchasing power of tens of millions of Brazilians. But now the economy has stalled. Having slashed interest rates, intervened to weaken an overvalued currency and offered tax breaks and cheap loans to favoured sectors, officials insist that GDP will grow by 4.5% next year. In 2008, when the world economy tanked, the government engineered a quick recovery by stimulating demand. But now its lever-pulling seems to be having less effect. That is partly because of global economic gloom, and partly because Brazil’s consumers, like those elsewhere, are paying back debts. But it also reflects the harsh truth that Brazil has become a wildly expensive place in which to invest or manufacture. It is cheaper to import steel made in South Korea from Brazilian iron ore than to buy it locally, complains Carlos Ghosn, the boss of Renault-Nissan.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ditadura

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


O que você sabe sobre ela? Eu já tive professor de história, por exemplo, que cometia a sandice de dizer em aula:

_ Na época de ditadura, os militares colocavam canhões na frente das portas das salas de aula da UFMT, para ninguém cabular aula!

É difícil para as gerações mais novas obter uma percepção de um contexto sócio-histórico antecedente a seus nascimentos. É como se a tal da ditadura fosse realmente sentida apenas nas capitais, sei lá. Por exemplo: nunca ouvi minha mãe (esta passou boa parte de sua jventude no campo) falando sobre coisas que ela não podia fazer na época. Meu pai, muito menos: este era militar. Quando lhe contei sobre a afirmação do professor, ele replicou com desdém:

_ Tem tanta gente que diz asneiras sobre a ditadura... não dê ouvidos a tudo que ouve!

Ele jamais falava comigo sobre esse período histórico. E olha que era um homem de cultura, que gostava de falar sobre história, matemática, atualidades, coisas de seu tempo e produtos da indústria cultural que apreciava (ele era fã dos Beatles, cara!). Eu até entendo as razões dele: deve ter sido um período realmente vexamoso para a instituição a qual ele dedicara toda a vida. É memorável as vezes em que a gente via tevê e falavam sobre o período. Teve uma vez em que estavam entrevistando pessoas que foram presas e torturados pelos militares. Lembro-me que, numa dessas vezes, estava aquele escritor, o Mário Quintana. Eis a afirmação do cara:

_ Eles não sabem de nada! Me prenderam à toa! Nunca estive lá!

Ao que meu pai responde, brigando com a tevê:

_ Velho mentiroso! Estava lá sim!!! Conspirador!

Mas esse foi um evento isolado. Ele realmente mantinha um silêncio irredutível quanto às duas décadas de domínio político militar. Quando assinávamos revista semanal, por vezes vinham reportagens especiais sobre o período, sobre a Anistia, sobre Figueiredo, Costa e Silva, Médici... nossa, cara, lembro-me que, certa vez, tive um trabalho de história sobre a ditadura! E só agora, mais de sete anos depois, me toco nesse detalhe: ele não falou nada! Sequer desfiou algum comentário solto. Agora que começo a falar sobre a ditadura em particular, coisas interessantes me vêm à memória. Quando, por exemplo, saíamos para jantares de gala que requeriam trajes sociais, ele gostava de usar uma indumentária no lado direito do peito: uma bolinha azul e vermelha, tipo uma abotoadura. Ele dizia:

_ Ganhei essa honraria do Presidente!

E eis o intrigante da história: ele jamais dizia de qual Presidente ganhara! Nem porque! E o mais engraçado é que isso sempre passou despercebido por minha família. Aliás, tem tanta coisa do passado dele que passou despercebido...

Certa vez ele encontrou uma foto antiga de uma barricada. À medida de curiosidade, ele para nós falou:

_ Esta foto é do Canal de Suez, em idos dos anos 60. Houve um conflito armado entre o Oriente médio e as tropas egípcias. Era uma missão internacional. À época, perguntaram se eu queria servir lá. Disse que não: ainda queria me casar e ter filhos. Era uma missão arriscada; podia morrer lá. Meses depois, com a situação já estabilizada, pedi a meus oficiais para lá servir. Eles negaram, afirmando que não precisavam de mais pessoal lá. Perdi uma chance de conhecer o Oriente médio!...

Ah, outra coisa me vem às lembranças: há pouco tempo falece Leonel Brizola. Este teve lá sua participação à época em que a Ditadura foi instalada no País. Segundo o que sei, ele, quando governador do Rio de Janeiro, instituiu a Cadeia da Legalidade, entre outras medidas para "adiar" a derrubada do poder pelos militares. Toda vez que meu pai o via na tevê, dizia com desdém:

_ Vá se aposentar, velho! Ninguém mais quer ouvir suas sandices!

Essa última frase, convenhamos, ninguém precisava ser militar para proferi-la! O caudilho realmente era como sindicalista da CUT: só dizia besteiras revolucionárias em seus discursos!

Num outro evento isolado, lera sobre a construção de uma usina que requereu a destruição de uma das mais belas quedas d'água da região de Foz do Iguaçu, a Sete quedas. Quando comentei com ele sobre isso, esperava uma resposta favorável à natureza da parte dele. Obra alguna justifica certos ônus ao meio ambiente. Ele se limitou a responder:

_ Teve de ser feito. O progresso tem seu preço.

Com respostas assim, percebi que as pessoas muitas vezes são obrigadas a se manifestar contrárias ao que realmente pensam para defenderem as coisas em que acreditam ou prezam.

As pessoas costumam descrever a ditadura como um período negro da História brasileira. Eu não nego. Mas também não nego algumas conquistas desse período, algumas que só consegui perceber graças a alguns artigos e livros de história. Como disse, obter algo espontâneo de meu pai sobre o período era dificílimo! Temos a Zona Franca de Manaus, que atenuou o vazio demográfico da região Norte e trouxe indústrias à região. Segundo alguns, fazia parte das noções de estratégia dos militares de povoar o máximo possível cada confim do País. Paranóia de ser invadido pelos americanos. Em contrapartida há também a até hoje não-finalizada Transamazônica. Por outro lado teve também a Reserva de mercado, que livrou a indústria informática de concorrência externa por alguns anos. Alguns dizem que isso propiciava produtos de baixa qualidade, e outros dizem que foi um pontapé inicial importante para a produção brasileira na informática. Talvez tenha sido uma medida visionária. Talvez.

Observo também o desprezo que ele tinha pelos norte-americanos. Ele sempre reiterava sobre a pútrida história desse povo mesquinho e cruel. Porquês não faltam. Mas uma razão que deve ter intensificado isso é como os gringos meteram o bedelho nas democracias sul-americanas. Afinal, o Brasil não era uma ditadura solitária à época. Achava isso um patriotismo exacerbado, mas com o tempo percebia a coerência do que ele dizia.

Tem outra história que ele me contou que me lembrei agora: é sobre um dos militares que presidiram o País, o Eurico Gaspar Dutra.

_ Está vendo esse ginásio?

_ O Dutrinha?

_ Sim. Você sabia que Eurico Gaspar Dutra era matogrossense?

_ É mesmo?
_ Pois é. Quando assumiu a presidência, ele fazia questão de lembrar às pessoas em seus discursos sobre as maravilhas de sua terra. Uma das ambições dele é de que Mato Grosso tivesse o maior estádio do mundo, que superasse o Maracanã. Para isso, ele, durante seu mandato, mandava generosas contribições para a construção do estádio. Um certo dia, ele decide voltar a Mato Grosso para contemplar seu tão sonhado estádio. Quando ele viu a sacanagem que fizeram com o dinheiro do País, ele nunca mais voltou para Mato Grosso.


Apesar de todas essas memórias que cá trago, garanto: ele falava pouquíssimo sobre a ditadura!


Adendo: Uma história que soube só há poucos dias foi da vez em que ele prendeu o Caetano Veloso! E segundo minha mãe, este não foi o único artista que ele prendeu. Caraca, meu: como eu nunca soube disso antes? Decerto teria sofrido menos bullying se essa história fosse conhecida...


(originalmente publicado em 22/07/2004)

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Brasil não é para amadores (XII)

A quem cabe o passo seguinte da história?

O economista Carlos Lessa costuma dizer que o Estado brasileiro inventou o keynesianismo em 1930, antes de Keynes, com Getúlio Vargas. O Brasil é uma criação do Estado, ironizava Celso Furtado sobre a esquálida capacidade de iniciativa da sempre festejada 'iniciativa privada'. A verdade é que em praticamente todo os ciclos de crescimento coube ao Estado brasileiro determinar o nível de investimento, fixar prioridades, induzir e financiar a participação privada no arranjo macroeconômico. Por que seria diferente agora? Ou melhor, porque é tão difícil agora reproduzir a mesma alavanca, quando seu papel contracíclico mais que nunca é necessário face ao colapso da ordem neoliberal? 

A interrogação perpassa o pacote de concessões de infraestrutura lançado pelo governo Dilma nesta 4ª feira. Nele alguns enxergaram 'a rendição à lógica das privatizações'; mas há uma novidade importante. 

Junto com investimentos da ordem de US$ 65 bi , a metade a ser ativada nos próximos cinco anos para deslanchar 7,5 mil kms de rodovias e 10 mil kms de ferrovias, a Presidenta Dilma anunciou a criação de uma estatal, a EPL , Empresa de Planejamento e Logística. 

Caberá a ela, a partir de agora, a responsabilidade de: ' realizar estudos da logística brasileira, articular investimentos, constituir e estruturar projetos'. 

Ou seja, formular um leque estratégico de possibilidades para que o governo possa atrair, induzir e coordenar a iniciativa privada e/ou estatal na execução de obras do interesse do país.

Por incrível que pareça, isso é novidade no Brasil do século XXI.


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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Brasil não é para amadores (XI)

Brasil, Suécia e o complexo de vira-latas revisitado
Autor do texto: Rafael Santos. Fonte: Yahoo! esportes.


Um convite a visitar o passado. É e não poderia deixar de ser assim que encaro o duelo entre Brasil e Suécia, no lendário estádio Rasunda. Palco de nossa primeira conquista em Copas do Mundo. Foi lá que Pelé fez aquele gol mítico que nos acostumamos a ver naquela imagem em preto e branco desgastada pelo tempo.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Bob, cão pesquisador (II)

Relatório do Bob, dia 5


Acordei tarde hoje. Meu coração dispara quando o humano se aproxima de meu decúbito ventral com sua asquerosa pata contendo cinco articulações formadas por finos filamentos. Ele alisa meu pêlo de forma ascendente, como se estivesse procurando algum objeto afiado ou de potencial perigoso para me rebelar contra eles. Ele é habilidoso nisso: sua pata emite um calor que é intrigantemente prazeroso para minha barriga. Como se houvesse em suas patas um mecanismo que controlasse meu fluxo sanguíneo, me mantendo num estado de êxtase que me deixa frágil. Meus pensamentos se esvaecem rapidamente, não sei o que fazer. Meu rosto emite sinais involuntários de prazer, como um fechar de olhos ou um abrir de boca. Deve estar testando meus sinais vitais para posteriormente me matar rápido o bastante, com pouca sujeira, para me expôr em seus museus. Os humanos parecem se orgulhar bastante de exibir suas conquistas e resquícios de eventos sociais passados. Devem achar que controlam o tempo com isto. Talvez haja uma explicação mais complexa: nas paredes da prisão em que ele me mantém, há algumas pessoas aprisionadas em redomas retangulares. Como se fossem pequenas cápsulas do tempo. Como se só colecionar coisas criasse identidade neles. Os humanos parecem desesperadamente evitar uma certa mecanização de sua natureza. Eles andam em rebanhos, se compartam como matilhas e têm medo como se estivessem sempre sozinhos e fossem únicos em seus pavores. Quer dizer, pelo menos é o que presumo quando vejo alguns exemplares menores de humanos com medo de mim, os filhotes deles, gritando agudamente em minha direção. Alguns no colo de suas mães. As fêmeas devem sufocá-los bastante, numa possível lição de sobrevivência. Se sobreviverem ao colo, sobrevivem ao mundo lá fora. Quanto ao humano que me comprou, quando me leva para passear, observo que os humanos que encontro no caminho agem de formas muito parecidas. De repente meu humano macho se sente um pouco diferente porque desfila comigo em praça pública. A identidade dele é o fato de ostentar minha existência. Quem está mecanizado agora sou eu. 

Depois do passeio, voltei esbaforido pra casa. Pelo menos a atividade física alivia a minha tensão. Ele retira de meu pescoço o dispositivo usado para controlar meus passos. Nunca me senti tão coisificado em minha vida. Tenho uma vontade desesperada de fugir, mas não há a menor chance de isto acontecer. Preciso pelo menos ganhar tempo até descobrir como entrar em contato com outros cães e bolar um plano de fuga coordenado. Terei mais chances assim. Por mais que o universo de odores que já identifiquei e cataloguei aqui me permita encontrar uma saída, existem barreiras físicas intransponíveis para mim. Um portal pesado, altíssimo, cujo cimo só consigo observar inclinando minha cabeça para cima, me impede. O humano recebe visitas abrindo-o. Alguns instantes após a caminhada, ele serve minha ração, com um pouco d'água. São bolinhas esponjosas com um gosto horrível. Como eu sinto falta de comer um delicioso coelhinho, de dilacerar a carne crua com meus dentes, de sentir a vida do pequeno ser se esvaecendo a cada músculo que abocanho vorazmente! Este grude disforme que me servem como comida deve fazer parte dos planos perversos do humano: na certa, está me dando esta alimentação inferior para que, a longo prazo, alguns caracteres meus como espécie fiquem pouco a pouco inibidos de se desenvolverem. Sinto meus pêlos caindo menos. Uma fantástica biotecnologia aplicada a esta coisa pavorosa que chamam de alimento para mim. Provavelmente pensaram nisso para que eles cresçam ao ponto de cobrirem meus olhos e focinho e cobrirem minhas patas, dificultando minha locomoção e fazendo-me tropeçar em minhas próprias patas!

De repente um ruído alto e agudo sai do portal. É um outro humano, do outro lado. Entrega um objeto a ele. Sei que é um informante, trocando informações de inteligência sobre outros cães fugidos e quais já foram capturados por outros humanos. Numa bizarra criação de vínculo afetivo com meu carcereiro, eu acabo surtando e tento atacar o outro humano tentando invadir minha prisão! Sei que ele podia me matar com facilidade, mas nem quero pensar o que mais um deles aqui dentro poderia fazer comigo. O fato de ele ainda estar do lado de fora me dava uma vantagem, pensei na hora. Solto os latidos mais ferozes que consigo, mas o humano dono meu me repele com grunhidos graves. Seus pés fazem o chão tremer. Ele pode me esmagar a qualquer momento, e eu me arriscando desta forma. Baixo a cabeça, boto o rabo entre as pernas e evito contato visual para não aumentar a ira dele. Não conseguia entender na hora como minha iniciativa em defender o território pode tê-lo irritado. Mas depois que comecei a pensar com mais calma, um motivo conspiratório como o que cogitei acima parece fazer sentido. E eu quase achando que ele queria fazer amizade comigo, ao me render com seus carinhos ardilosos em minha barriga hoje de manhã...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O nada contracenando em seu filme preferido

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


É só eu ou esses filmes de mundos imaginários com crianças que brincam com varinhas já deram no saco? Esses filmes aonde metade do elenco não existe já deram o que tinham que dar, pelo menos pra mim. São filmes onde os efeitos especiais são maiores que os atores. Reparem que em cartazes de trilogias e filmes afins com seres esquisitos criados por computador, os atores são como subprodutos: seus nomes sequer aparecem nos cartazes. Soa antiquado dizer isso, mas ainda aprecio o trabalho de atores de carne e osso. Um sujeito comum vendendo a idéia de ser um vilão, um herói, uma pessoa atormentada... o que quer que o filme queira vender, lá está ele se desdobrando, dando certa humanidade ao filme. Perde a graça ver essa função sendo confiada a bits e bytes. Me refiro apenas a bits e bytes, pois recursos como animação tradicional me agradam: histórias que simplesmente soariam ridículas se transpassadas para atores de carne e osso ganham uma roupagem imponente sob um desenho animado bem elaborado, escrito e dublado. Não é à toa que o Batman do desenho animado (aquele produzido em 92, senão me engano. Um Batman com uma cara bem quadradona e uma dublagem meio comida, lembram-se? Vi a reprise dia desses no CN) se sai bem melhor do que a maioria de suas conversões para a tela grande. Deviam rasgar o diploma de Cinema de nulidades do cinema como Joel Schumacher, que conseguiu produzir a mais ridícula versão cinematográfica do homem-morcego de todas!

Certo, mas se animações tradicionais dão cabo satisfatoriamente de histórias difíceis de serem satisfatoriamente adaptadas para o cinema, porque o mesmo não ocorre com a animação computadorizada? Respondo: a animação computadorizada está engatinhando. A animação tradicional é usada há mais de 80 anos. Há quantos anos usamos computadores para emular a realidade? Mais uma coisa: a animação dita 3D é usada de forma pretensiosa demais. Usá-la aliada a atores de carne e osso é uma heresia aos olhos mais atentos, simplesmente. Se usada isoladamente, como a Pixar costuma fazer, os resultados são bons. Mas não tentem chafurdar em cima do meu bom-gosto colocando uma pessoa de verdade contracenando com uma tela verde, por favor!


(originalmente publicado em 13/06/2004)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Entrevista com o religioso mais opressor do mundo

Neste post confabularei sobre como seria o religioso mais tirânico, fundamentalista e intolerante possível. Eu me esforçarei, mas a realidade ganhará de mim fácil. Saber pensar sozinho é algo que muita religião detesta, e vou explorar isso aqui. Eu vou evitar referências a imagens e passagens de livros sagrados porque certos religiosos ficam bravinhos e começam a queimar redações de jornal e bandeiras dos EUA quando a comunidade internacional, não tendo nada a ver com dogmas alheios, faz charges, representações de imagens de profeta que não são aceitas, num mero exercício de liberdade de expressão. Ou seja, o diferente não serve pras religiões. E o diferente nem sequer precisa te ofender, basta questionar as falsas zonas de conforto e bases familiares irreiais que sua religião gera pra ter nego tristinho...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Brasil não é para amadores (IX)

Gândavo e o Brasil

Quanto a Pero de Magalhães Gândavo, português, de origem flamenca (o nome deriva de Gand), professor de Humanidades e amigo de Camões, devem-se-lhe os primeiros informes sistemáticos sobre o Brasil. A sua estada aqui parece ter coincidido com o governo de Mem de Sá. O Tratado [da Terra do Brasil] foi redigido por volta de 1570, mas não se publicou em vida do autor, vindo à luz só em 1826, por obra da Academia Real das Ciências de História de Portugal; quanto à História, saiu em Lisboa, em 1576, com o título completo de História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmemte Chamamos de Brasil. Ambos os textos são, no dizer que Capistrano de Abreu, "uma propaganda da imigração", pois cifram-se em arrolar os bens e o clima da colônia, encarecendo a possibilidade de os reinóis ("especialmente aqueles que vivem em pobreza") virem a desfrutá-la.

Gândavo estava ciente de seu papel de pioneiro.

A causa principal que nos obrigou a lançar mão da presente história, e sair com ela à luz, foi por não haver até agora pessoa que a empreendesse, havendo já setenta e tantos anos que esta Província é descoberta (Prólogo) e procurou cumpri-lo com diligência, o que lhe valeu os encômios de Camões nos Tercetos com que o poeta apresenta a História:
Tem claro estilo, engenho curioso.
Trata-se naturalmente de uma objetividade relativa ao universo do autor: humanista, católico, interessado no proveito do Reino. Assim, lamenta que ao nome de Santa Cruz tenha o "vulgo mal considerado" preferido o de Brasil, "depois que o pau da tinta começou de vir a estes Reinos ao qual chamaram brasil por ser vermelho, e ter semelhança de brasa". Quem fala é o letrado medieval português. A sua atitude íntima, na esteira de Camões, e que se rastreará até os épicos mineiros, consiste em louvar a terra enquanto ocasião de glória para a metrópole. Por isso, não devemos enxergar bis seus gabos ao clima e ao solo nada além de uma curiosidade solerte a serviço do bem português. O nativismo, aqui como em outros cronistas, situa-se no nível descritivo e não tem qualquer conotação subjetiva ao polêmica.

Isto posto, pode-se entrever certo otimismo (que em viajantes não portugueses chega a ser visionário) quanto às potencialidades da colônia: e quem respingou os louvores desses cronistas, ainda imersos em uma credulidade pré-renascentista, pôde falar sem rebuços em "visão do paraíso" como leitmotiv das descrições: Eldorado, Éden recuperado, fonte da eterna juventude, mundo sem mal, volta à Idade do Ouro.

Mas o tom predominante é sóbrio e a sua simpleza vem de um espírito fraco e atento ao que se lhe depara, sem apelo fácil a construções imaginárias.

Gândavo dá a notícia geográfica da terra em geral e das capitanias em particular. Lendo-o, aprende-se, por exemplo, que a escravidão começou cedo a suportar o ônus da vida colonial:
E a primeira vez que [os moradores] pretendem adquirir são escravos para lhes fazerem suas fazendas, e se uma pessoa chega na terra a lançar duos pares, ou méis dúzia deles (ainda que outra coisa não tenha de seu), logo tem remédio para poder honradamente sustentar sua família: porque um lhe pesca e o outro lhe caça, os outros lhe cultivam e granjeiam suas roças e desta maneira não fazem os homens despensa em mantimentos com seus escravos nem com suas pessoas (cap. IV)
Há na obra descrições breves mas vivas de costumes indígenas: a poligamia, a "couvade", as guerras e os ritos de vingança, a antropofagia. Nem faltam passagens pinturescas; no capítulo "Das plantas, mantimentos e frutos que há nesta Província", fazem-nos sorrir certos símiles do cronista maravilhado com a flora tropical:
Uma planta se dá também neste Província, que foi da ilha de São Tom', com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar na terra. Esta planta é mui tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas folhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepinos e criam-se em cachos. (…) Esta fruita é mui saborosa, e das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora qdo. a querem comer: mas faz dano à saúde e causa ferve a quem se desmanda nela (cap. V)
Dos ananases diz que "nascem como alcachofras" e do caju que "é de feição de peros repinaldos e muito amarelo".

Sua atitude em face do índio prende-se aos comuns padrões culturais de português e católico-medieval; e vai da observação curiosa ao juízo moral negativo, como se vê neste comentário entre sério e jocoso sobre a língua tupi:
Esta é mui branda, e a qualquer nação fácil de tomar. Alguns vocábulos há nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão para os machos: carece de três letras, convém a saber, não s acham nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disso conta, nem peso, nem medido (cap. X).
A História termina com uma das tônicas da literatura informativa; a preocupação com o outro e as pedras preciosas que se esperava existissem em grande quantidade nas terras do Brasil, à semelhança das peruanas e mexicanas. E, espelho de toda a mentalidade colonizadora da época, afirma ter sido, sem dúvida, a Providência a atrair os homens com a tentação das riquezas, desde o âmbar do mar até as pedrarias do sertão,
com o interesse seja o que mais leva os homens trás si que outra nenhuma coisa que haja na vida, parede manifesto querer entretê-los na terra com esta riqueza do mar, até chegarem a descobrir aquelas grandes minas que a mesma terra promete, pêra que assi desta maneira tragam ainda toda aquela cega e bárbara gente que habita nestas partes, ao lume e conhecimento da nossa Santa Fé Católica, que será descobrir-lhe outras maiores no céu, o ual nosso Senhor permite que assim seja pela glória sua e salvação de tantas almas (cap. VIII)
No mesmo parágrafo, e em tranqüilo convívio, o móvel econômico e a cândida justificação ideológica.


(Extraído de BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira 43 ed. Cultrix: pp. 15-17)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Bob, cão pesquisador

Personagem que criei em momento de ócio. Com algumas observações nos links, para que os relatos "antropológicos" caninos abaixo sejam melhor compreendidos.


Relatório do Bob, dia 1


Decidi iniciar um diário na data de hoje, relatando meu cotidiano na residência deste humano macho que me mantém em cativeiro. Felizmente eles desconhecem minha habilidade telepática de registrar eventos e transmiti-los a outros pares. Aparentemente sou um prisioneiro de guerra deles: desde filhote me encontrava preso numa estranha redoma invisível, por onde os humanos podiam me ver dentro de meu cativeiro e me comprar como se fosse um escravo. Me recordo pouco desta época. Fui impedido de medir o tempo que passei neste lugar. O acesso à luz solar me era negado. Então apenas os registros posteriores a este primeiro texto terão registro temporal. O pouco que posso registrar aqui é que este humano macho em questão se dirigiu à prisão exigindo ter minha posse. Entregou a um dos carcereiros um papel esverdeado ao qual conferem um conceito abstrato de valor. Para eles, minha vida é apenas uma transação. Uma permuta. Eles dominaram tudo: todos os outros animais de pequeno porte que faziam parte de minha alimentação foram dizimados e arrebanhados nestas estranhas prisões. Qualquer tentativa nossa de demarcar nosso território é rapidamente reprimida com um líquido de odor acompanhado de um tecido rústico, esfregado na região em que depositei minha urina identificadora cujos feromônios contêm as coordenadas e informações genéticas para as fêmeas mais próximas me encontrarem. Eles querem acabar com a gente: primeiro eliminaram nossa fonte principal de alimentação, e agora querem nos impedir de procriar. Um verdadeiro genocídio, não sei o que fazer.

É tudo muito novo. Ele me leva no colo para fora da prisão. Possui um aroma típico de um humano, mas misturado com um químico adocicado localizado na região do pescoço. Provavelmente ele usa aquilo para proteger o pescoço de parasitas ou como veneno artificialmente criado, para conter predadores. As defesas deles devem funcionar assim, porque eles não possuem garras, espinhos ou qualquer outro artifício de ataque. As pernas são altas e as patas dianteiras não se apoiam no chão, então são vítimas fáceis de carnívoros. Mesmo assim eles possuem habilidades especiais para criar armas mágicas para atacar outros animais. Uma delas está na lateral de sua perna: tem formato retangular e é muito brilhante. Ele parece se comunicar com aquele objeto inanimado, como se ele promovesse uma espécie de telepatia com outros humanos. Aparentemente, esta arma em particular ataca o sistema nervoso de outras espécies: as pessoas ao redor evitam se comunicar com o humano enquanto este porta o objeto em seu ouvido. Confesso que ele emite ruídos que me apavoraram naquele momento. Sons indistinguíveis perturbaram demais meu espírito, como se estivessem desmantelando alguns neurônios meus. Creio esta arma possuir um poder de manipulação mental assustador. Pouco tempo após uso deste aparelho, uma humana fêmea me pega no colo e começa a grunhir. Me dá uma vontade aterradora de urinar, mas acho que o colo dela não é o melhor lugar para isso. Aqueles braços lisos no momento exercem uma pressão mediana sobre meu corpo. Aparentemente de forma afetuosa, porque está me deixando viver. Tenho medo de pensar o que ela poderia fazer com minha jugular se decidisse me atacar.  Mas o mais perverso disso tudo estaria por vir: enquanto ela me segurava, o humano macho se aproxima dela e aponta a estranha arma em nossa direção, que possui um pequeno orifício arredondado e emite uma luz branca em nossa direção. Nunca vou saber que memórias minhas eles apagaram, distorceram e manipularam. Só sei que, desde esse dia, sinto uma euforia inexplicável quando, no cativeiro, o humano macho volta depois de um dia cheio, ou então lança um artefato arredondado supostamente com a intenção de que eu o capture para ele. Os membros superiores deles devem se encontrar num estágio anterior da evolução das espécies, porque o humano é muito desastrado e derruba o artefato reiteradamente, várias vezes. Prefiro obedecer e capturar o objeto: tenho medo de ele piorar a qualidade da ração que me é servida diariamente.

Termino meu relatório por hoje. Estou exausto depois deste dia tenso. Vejamos como será meu primeiro dia neste complexo habitacional humano. Se eu não sobreviver nos próximos dias, verifiquem minhas fragrâncias para identificarem a causa de minha morte. Espero que algum companheiro de quatro patas tenha acesso a estas palavras minhas um dia. Me sinto muito sozinho...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ô Anna Juliaaaaaaaaa...

Eaí, gente. Vou rechear o ano de 2013 com um texto antigo meu por mês (todos publicados há quase dez anos). Farei isso à medida de diversão: diversão de VOCÊS em verem como eu era um adolescente chato, desocupado, medíocre, pedante e que achava saber escrever. Pensem nisto aqui como profanação comemoração aos dez anos que estou por aqui contaminando a internet com meus textículos. Como um amigo me dizia na época, era uma fase difícil de minha vida, em que eu passava por dramas como acabar o nescau na geladeira ou a tampinha do danoninho vir sem restinho de iogurte. Então, após uma sofrível triagem em meio a textos ainda piores, me saí com doze, que serão mensalmente publicados para proporcionar a vocês um óbvio choque de gerações. Ou não, caetanisticamente falando. Torturem-se Divirtam-se.


Domingo os Loser manos tocaram no Faustão. Tocaram O vencedor (pessoalmente, preferia Cara estranho), e Anna Júlia. Nesta apresentação, eles afirmaram ser "a última vez que se apresentam tocam Anna Julia num programa de Tv". Veja o porquê nesse surreal diálogo entre a banda e o inconveniente Fausto Silva:


_ Com esta apresentação, será a última vez que nos apresentaremos em rede nacional, na Tv, cantando Anna Julia...

_ Nossa, olha só, Caçulinha, o privilégio que estamos tendo no programa! Mas digam uma coisa: por quê tomaram essa decisão, já que a carreira de vocês disparara meteoricamente após o hit Anna Julia?

_ Tomamos essa decisão para que nosso repertório não fique saturado, para que não fiquemos conhecidos por apenas uma ou duas músicas. É como você e as mesmas piadinhas qe você conta há mais de quinze anos...

_ Pois é, tem que variar um pouco o repertório, senão... [nessa hora, Fausto esboça o sorrisinho mais amarelo do mundo, ficando super sem-graça depois dessa tirada dos barbudos]

[após o show...]
_ Pois é, galera, esses foram os Loser manos, uma banda de personalidade. Até a próxima, rapazes! [que contradição; provavelmente não haverá próxima!]


Ah, se eu tivesse programado meu videocassete...


(originalmente publicado em 20 de janeiro de 2004)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013