terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Brasil não é para amadores (IV)

Embrião do Imperialismo

Na transição do Império para a República (...), ocorreu uma série de mudanças, em especial na esfera política. Mudaram o regime político, o sistema eleitoral, o padrão de relações entre as esferas do poder central (Rio de Janeiro) e local (estados). Uma nova fração das elites latifundiárias, ligada à cafeicultura, se apropriou do núcleo do poder republicano.

No campo econômico (...), o desenvolvimento da cafeicultura e a crescente participação do capital inglês no financiamento das atividades ligadas ao café (transporte, empréstimo, comercialização) inseriram o Brasil numa nova articulação com o mercado mundial. Nessas novas condições, inauguradas no final do século XIX, a vinculação da economia brasileira a esse mercado deixa de ser estritamente comercial e passa a ser também financeira. Em outras palavras, a valorização do capital, sobretudo o inglês, nos negócios realizados com o Brasil não ocorre mais exclusivamente na esfera comercial (compra de mercadorias no Brasil e venda no mercado mundial). O lucro é também obtido com a implantação das ferrovias, com empréstimos e financiamentos para a aquisição de equipamentos e maquinaria para beneficiamento do café. A remuneração dos investimentos passa a ter um papel mais importante do que o comércio na valorização do capital que circulava nas várias regiões do planeta. Esse é um dos aspectos que marcam uma nova fase do capitalismo: o imperialismo.


Fonte: Roberson de Oliveira. História do Brasil: Análise e reflexão. FTD: 1997, p. 186

domingo, 21 de outubro de 2012

Tem gente que esquece fácil que o Estado é laico...

Diálogo entre eu e um colega de trabalho:

_ Este ofício aqui acabou de chegar, entrega pro Diretor.
_ Está bem.
_ É de uma igreja, pedindo uso do espaço da piscina para um batismo. O cara é teimosos, eu expliquei a ele que em nossa piscina não pode entrar de calça e bermuda. Nem os idosos a gente deixa entrar. Liberar pra eles vai dar problema: gente virá reclamando, querendo fazer também. Mas mesmo assim ele mandou o Ofício.
_ O problema nem é eles quererem ser batizados de roupa: o problema é que isso aqui é uma instituição pública. O Estado é laico, caramba!!!


Segue abaixo o teor do Ofício, pra vocês sentirem a cara de pau:


Assunto: Solicitação de utilização da piscina para realização de um grande batismo da Igreja Videira
Senhor Diretor,

1. Cumprimentando-o, solicito a colaboração de Vossa Senhoria no sentido de disponibilizar a utilização da piscina e arredores para realização de um grande batismo, no dia 01 de dezembro de 2012, das 13h00 às 19h00.
2. O evento contará com a participação de aproximadamente mil pessoas, dentre as quais quatrocentas irão se batizar. A utilização da piscina será exclusivamente para o batismo, e os batizandos estarão vestidos com bermuda e camiseta. Teremos, também um momento de louvor e adoração a Deus, em que utilizaremos microfones e caixas acústicas.
3. A igreja se responsabilizará por qualquer imprevisto ou incidente decorrido durante o evento, ressaltamos que contaremos com o apoio do Corpo de Bombeiros e Paramédicos para qualquer eventualidade.

Atenciosamente,


É mole, minha gente?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

RIP Sylvia Kristel

A piada estava pronta mas as condolências são sinceras, Sylvia (o Carlos Zéfiro de saias, de nossa geração). Quanto garotinho esta moça iniciou antes da internet banda larga, antes dos reality shows, da popularização das letras de funk, da facilidade de gravar vídeos dos amiguinhos brincando pelado nos fundos da escola com o celular... enfim, antes da banalização. A Sylvia veio antes de tudo isso. E da forma mais antagônica imaginável no cinema erótico: fazendo erotismo com história! Era sempre o mesmo esquema: um rala-e-rola que não mostrava quase nada, com aquela música de motel ao fundo e as caras de bocas da atriz holandesa. Na puberdade isso era o máximo. Nessa idade o sexo feminino é quase um templo inatingível: acostumados a passar a infância desinteressados no sexo oposto, a puberdade muda todas as regras do jogo. Agora não é você quem desdenha a presença do feminino nas brincadeiras. É o feminino que te desdenha: você vira a brincadeira de garotinhas impúberes. Surge a frustração de se estar numa fase da vida sem habilidades sociais para despertar interesse de meninas da mesma idade. O feminino é quase uma civilização nova: é preciso descobrir suas motivações, o que as agrada, e como elas usam a própria inconstância pra conseguir tudo o que querem. É um aprendizado na marra. Como quase tudo que vem à natureza masculina. O homem possui tantas liberdades sociais que, ao encontrar um objetivo que não depende apenas de seu próprio esforço e paixão pela aventura, enlouquece. Não falo inicialmente do amor: falo da vaidade. Quem não quer ser desejado, querido, apreciado? Mas, como de praxe no homem forçado a se endurecer por bobagens entre iguais, as palavras que faltam só vêm quando o objeto de homenagem (com o perdão do trocadilho) delas não está mais entre nós. Só a perda fabrica um homem de verdade. Seja da liberdade, seja da virgindade, seja do orgulho em nome da pessoa amada. Ser homem é perder sempre, para não se perder algo mais importante à frente.

Mas tudo isso é um verdadeiro mistério para o homem na puberdade. A busca pelo acesso ao feminino é quase mística, de tanto aprendizado em relação a si mesmo e ao outro que isso exige. Você não é nada e não tem nada; como pode despertar interesse no outro? São tantas incongruências psicológicas que a experiência sexual acaba parecendo algo místico mesmo (todo mundo fala mas ninguém faz, na puberdade): nossa sociedade/cultura glamouriza demais uma das poucas facetas da natureza humana onde os vernizes sociais são brevemente deixados de lado em nome de um gozo no corpo da mulher amada. E não há nada de desabonador nisso: compartilhar um mesmo prazer a dois é uma breve recuperação da humanidade que perdemos cada vez mais nos grandes centros que tanto nos endurecem (novamente, com o perdão do trocadilho). Sempre me choco com isso quando vejo um filme europeu: o sexo é filmado de uma forma tão realista, sem fantasias, idealizações ou sublimações, que de repente parece algo real. Tangível. Mas a puberdade tem desse lado cruel: a gente se tortura demais por coisas que não existem em nós nem no outro (é um ferrenho conflito entre expectativas pessoas, sociais e paternas). E neste aspecto, Emanuelle foi uma válvula de escape para muitas gerações. Com certeza não pelo que mostrava (que não faz nem cócegas hoje em dia), mas pelo que sugeria: as fantasias eróticas. Época em que a garotada não se preocupava em imitar atrizes pornô como rola hoje em dia. Queriam apenas acessar o 'proibido' mundo do sexo, nem que fosse por meio de uma atriz simulando ser penetrada. Lembram-se daquele aparelhinho, aquela tiarinha com coração no centro que ela usava, para ler as mais loucas fantasias sexuais alheias? Eis uma metáfora legal. Ela fazia um trabalho catártico no outro. É como se ela fosse uma mulher mais experiente que, sabe-se lá porquê, se interessa por seu corpo inexperiente e, mais improvável ainda, entende seus medos que você julga ocultos. Ela, pelo menos na duração da película, te dispensa da engenharia social necessária para seduzi-la. Você ainda é jovem demais para amar. Que o diga entender as mulheres. Emanuelle é a fantasia definitiva da desvirginização masculina. Todo homem quer ter seu Amor Estranho Amor. Sua Malena. Sua Hannah Schmidt. E depois dizem que só as mulheres idealizam a primeira vez...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O Brasil não é para amadores (III)

Our friends in the South

BRAZIL has probably never mattered more to America than it does now. America has probably never mattered less to Brazil. Not that relations are bad between the two countries—far from it; they are increasingly cordial and productive. But America has finally, belatedly, woken up to the fact there is a vast, stable country to its south as well as its north; a country, moreover, with a fast-growing and voraciously consuming middle class that seems to offer salvation to American businesses struggling in a moribund domestic market. Brazil, meanwhile, neither needs loans from American-dominated global financial institutions, nor is it otherwise beholden to the country. The United States is no longer even its biggest trading partner. China took that spot in 2009.

sábado, 13 de outubro de 2012

Tinha que ser dito

A série Millennium (composta por livros do autor sueco Stieg Larsson com histórias investigativas engenhosas, muito bem boladas, protagonizadas por Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander), conseguiu uma façanha raríssima na distribuição nacional do filme: via de regra, o Brasil costuma traduzir muito mal o título de seus filmes, a ponto de estragar o filme inteiro em alguns casos, só com a tradução do título. Mas deu pra ver, nesse caso, que a culpa foi dos estadunideneses: vejam só, eles têm um talento todo especial pra estragar o título de produções internacionais também (a turma do anime nos EUA sabe o que digo; é cada aberração dos tradutores de lá...). Comparem:

English: Millennium -- The girl with the dragon tattoo
Português: Millennium -- Os homens que não amavam as mulheres

À primeira vista, a tradução do português pode parecer randômica, como se observa de praxe aqui. Mas, dando-se uma atenta olhada no título do filme em sueco (sim, Hollywood não fez o filme; por isso que não cagaram na história do livro com clichês), observa-se que em sueco o título é literalmente esse.  Claro, hollywood se deu ao trabalho de fazer uma versão própria, mas há um filme original, feito na Suécia mesmo, de 2009. Vendido de forma enganadora pelas Americanas para mim: a capa era bem escura, com uns tons vermelhos, e omitiam os nomes do elenco principal. E colocaram uma foto da personagem principal dando a entender que a produção era hollywoodiana, mesmo. E claro, como de praxe também em textos que falam dos ridículos critérios de nossos distribuidores para trazer filmes de fora pra cá, abaixo elenco alguns exemplos clássicos de como alguns filmes foram arruinados por uma tradução preguiçosa que subestima a inteligência do brasileiro:
  • Annie Hall -- Noiva neurótica, noivo nervoso
  • Ripley's game -- O retorno do talentoso Ripley (detalhe: o filme não tem nada a ver com O talentoso Ripley; são no máximo histórias diferentes em torno de um mesmo personagem em épocas radicamente diferentes. O critério para tradução do título foi meramente comercial)
  • Lost in translation -- Encontros e desencontros
  • Wayne's world -- Quanto mais idiota melhor
  • Zak and Miri make a Porno -- Pagando bem que mal tem
  • The hangover -- Se beber não case

Muito mais exemplos aqui, trazidos até a gente por São Google.

domingo, 7 de outubro de 2012

Bloco de notas (XXII)

  • Como ser artista: pegue um ramo (música, artes plásticas, o que for) e faça algo que ninguém fez antes. Pronto. Acabo de resumir a aura de um artista: chamar a atenção antes de todo mundo. Ser artista é ser um adolescente estético, basicamente;
  • Sabe o que é mais engraçado? É mais caro para um governo manter as pessoas trabalhando do que não trabalhando. Manter uma economia aquecida não é fácil. Dessa forma, toda crise que se preze surge por causa do emprego, e não por causa do desemprego. As pessoas não se revoltam com desemprego, se revoltam com falta de direitos. Então a melhor forma de uma população protestar e conseguir o que quer é se manter desempregada? Sob esse ponto de vista, esse monte de adolescente impúbere que fica gastando dinheiro de papai esquentando sofá de DCE está fazendo uma patética forma de protesto fazendo o que melhor fazem: porra nenhuma! Acho que começo a entender porque as universidades públicas são tão ruins: deve ser uma estratégia do governo de fabricar esponjas: gente que, em vez de trabalhar, fica mendigando bolsas de mestrado, de projetos de extensão e outras desculpas pra não arrumar emprego de verdade! Eu já sabia!!!;
  • Dizem que a masculinidade é a eterna quinta série. Se mulheres reclamam que é um saco ter amigas do mesmo sexo, é porque não sabem o que é ter amigos sem idade mental suficiente pra falar com você sem inventar apelidos infantis, contar vantagem pelas conquistas do time do coração, usar de trocadilhos infames ou questionar sua virilidade só porque você tá sem saco pra fingir que só pensa em cerveja, mulher e futebol;
  • Uma vez eu li que Hollywood enfrenta constantes dificuldades para distribuir seus filmes na China. Os distribuidores de lá, por exemplo, não gostaram nada de como o novo Karate Kid (com o Jackie Chan e o filho do Will Smith) retratou os jovens chineses: como vilões da trama que praticam bullying em estrangeiros. Ou seja, os estadunidenses, tãããão dados a fazer humor negro com etnias e minorias, precisa se dar ao trabalho de perder a piada pra não sair no preju.  Engraçado vê-los com o rabo entre as pernas. Semana passada fui assistir a Ted (aqueeeele que titio Protógenes quer tirar de cartaz), longa-metragem de Seth McFarlane, a mente obcecada por referências pop, lip syncs bizarros e escatologia por trás de Family Guy. No filme, ele faz o que aprendeu com Family Guy. Ao contrário de South Park, o humor dele anda meio datado, mas rende boas risadas. Ao público masculino, diga-se de passagem. Enfim. Teve uma parte do filme em que Ted e seu dono estão numa festinha da pesada e quebram a parede. O vizinho chinês do lado não gostou nada de ter gente quebrando a parede de seu quarto e vai reclamar. E ele não levou a pior: deu uma panelada na cabeça da galera, comprou briga mesmo. O Seth já não é mais aquele...;
  • O Google sketchup vicia mesmo! As noções de Geometria descritiva que aprendi na faculdade caça-níquel de arquitetura duma certa universidade daqui servem pra alguma coisa nessas horas. Mas mesmo quem é totalmente leigo se vira bem com o programa. Vídeos intuitivos do Youtube dando aulas não faltam. Tô me divertindo um bocado. Fiz uma maquete 3D de minha própria casa. Meu próximo passo é reproduzir em 3D a primeira fase do Super Mario Bros! Fuck yea. \o/
  • Tema do Programa da tarde, atração vespertina do canal do bispo: "A periguete é uma evolução da perua"? Eu não sei. Só sei que a humanidade involui um pouco a cada programa desse...
  • Na última vez que andei pela Av. Paulista, nas férias, quando passei pelo Banco de la Nación Argentina, vi algo muito raro: argentino com dinheiro. *ba dum tss*;
  • E o jogo de volta do Brasil e Argentina pelo Superclássico das Américas, hein? Um estádio sem luz por duas horas na cidade de Resistencia. O lugar ficou mais apagado que o futebol do Mano...