segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Brasil não é para amadores

Alguns textos para ajudar a entender nosso país medíocre. Nova série de textos, escritos por diversos autores, para botar nossa História em perspectiva. E pra tirar poeira dos velhos livros de Ensino Médio.
Extraído do livro de Roberson de Oliveira, História do Brasil: análise e reflexão. FTD: 1997.


Considerações sobre o processo de independência
pp. 122-123


O "7 de setembro" foi a formalização de uma situação de fato. Desde a transferência da corte, a opressão portuguesa não se fazia sentir nem na esfera econômica nem na política. Essa questão foi mito bem observada por Caio Prado Jr. em seu livro Evolução política do Brasil, na seguinte passagem: "O certo é que se os marcos cronológicos com que os historiadores assinalam a evolução social e política dos povos não se estribassem unicamente nos caracteres externos e formais dos fatos, mas refletissem a sua significação intima, a independência brasileira teria sido antedatada de 14 anos".

Outro aspecto decisivo que merece ser destacado refere-se ao fato de que determinados procedimentos políticos que marcaram a transição para a independência tenderam a se repetir em outros momentos importantes da história política do Brasil.
Um desses procedimentos, como já mencionamos, foi o esforço gigantesco da aristocracia rural, a elite da época, em manter o povo afastado do processo político da independência. A aristocracia temia que o povo entrasse no cenário e mudasse o rumo dos acontecimentos em seu benefício. Isso se refletiu na implantação da República, na Revolução de 30 ("Façamos a revolução antes que o povo a faça", dizia Antônio Carlos, importante político mineiro), no golpe de 64 e, mais recentemente, na campanha pelas Diretas-já, onde, apesar do clamor popular, as elites políticas optaram por uma solução negociada, que frustrou milhões de brasileiros.
Esse traço característico da política brasileira enraizou ideias de consequências nefastas. Introjetou a impressão de que as mudanças políticas ocorrem sem necessidade de participação popular. Daí decorre um certo desprezo do povo pela política, porque parece algo que não tem relação com a sua vida. É algo distante, que evoluiu independentemente dele.
Já as elites políticas, por ter sido, até gora, bem-sucedidas em suas manobras e negociações, acabaram acreditando que a política é realmente um espaço exclusivo dos privilegiados, dos ricos, dos que estudam em boas escolas e têm diplomas (de preferência de centros americanos e europeus). A massa, pobre e considerada ignara, por não preencher esses requisitos, não teria condições para o exercício da política.
A exclusão das classes desfavorecidas pode ser considerada um dos princípios que vêm orientando a ação política das elites, pelo menos, desde a época da independência.


A corrupção
pp. 74-75
Do capítulo 6: As minas de ouro: o Brasil do século XVIII


O contrabando nunca teria atingido a dimensão oceânica que atingiu se não contasse com a cumplicidade das autoridades coloniais portuguesas sediadas no Brasil. A face interna do contrabando internacional era a corrupção.
Tal qual aprendizes de feiticeiro, as elites nativas, que começavam a se formar, assimilavam a mentalidade corrupta dos administradores coloniais.
Aprendizes dedicados, essas elites rapidamente dominaram os mecanismos da corrupção. Acostumaram-se com as inúmeras vantagens que a sua prática, em grande escala, trazia. Raramente punida, ela se cristalizou como algo natural ao nosso modo de vida e à nossa origem. Nesse contexto, a corrupção aparecia, aos olhos dos brancos pobres, mestiços e negros libertos, associada a uma condição de poder. Parecia mais o exercício de um privilégio do que prática de um crime. Numa sociedade fortemente hierarquizada, na qual a ascensão social era rara, não surpreende que todas as lasses subalternas tendessem a praticá-la.
Entre outras coisas, porque era uma forma de o homem comum e "desclassificado" exercitar uma atitude típica dos poderosos e, assim, aproximar-se, ao menos simbolicamente, da condição das elites. Em síntese, a corrupção se propagava por todo o tecido social.