sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pre-ri-go!

Figuras de metaplasmos são alterações ortográficas de uma palavra que acompanham o processo de evolução natural de qualquer língua. Também é bastante usada na poesia, mas de forma consciente. Tomando por base as amostras coletadas de Chaves, podemos inferir que os moradores da Vila estão a anos-luz de nosso atual léxico. Um seriado a frente de seu tempo, veja só. Abaixo seguem exemplos de figuras de metaplasmos, convenientemente classificadas:

Metaplasmos que adicionam letras ou sons
Prótese:

Este símbolo representa prerigo!! Ouviram bem??? PRE-RI-GO!!!

Epêntese:
Isto é uma caliúnia! Uma caliúnia! Você sabe o que é uma caliúnia?
Estou caçando inseptos.
Isso não é gato não, é um Massacote...


Paragoge: ainda sem exemplos.


Metaplasmos que eliminam letras ou sons:
Aférese:

Síncope:
Apócope:
Os três ainda carecem de exemplos.


Metaplasmos que trocam ordem de letras ou sons:
Metátese
(outrora mencionada no post sobre spoonerismo):
A poprósito...
Hiperbibasmo (ou metaplasmo quantitativo, mencionado no mesmo post acima supracitado)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Jornalismo FAIL


A série de posts com o título acima fazia parte de um outro projeto homônimo meu. Vou deixar aqui as melhores (e esta primeira creio ser a melhor de todas, no mínimo entre as top 3), pra vocês se divertirem com o amadorismo do jornalismo daqui. A mediocridade é tanta que não há a menor chance de você ter de se preocupar com credibilidade ou parcialidade. Conceitos assim são avançados demais em redações onde sequer se encontram revisores, ou ao menos pessoas que conferem suas fontes ou escrevem algo além do que foi copiado de releases alheios. Se você pensa em fazer jornalismo, essa série de posts te fará lembrar porque não exigem mais diplomas para exercício da profissão. Quando sua autoestima estiver baixa, abra alguns dos posts desta série e sinta-se o novo Nassif por alguns segundos...


(a propósito, este é o primeiro post que escrevo testando esta nova funcionalidade do Google, onde você pode informar o local de onde, ou sobre o quê você escreve. Bem legal. Mal podia imaginar eu que, seis anos após meu primeiro contato com o Google maps, este se espalharia a ponto de virar até funcionalidade de um simples post de blog. Talvez fosse questão de tempo; vejam o Youtube...)

domingo, 10 de julho de 2011

O primeiro estágio

Como vocês devem saber, a morte tem cinco estágios. Vou abordar o primeiro: a negação. Este se manifesta verbalmente, de maneira bem visível. Mas, mesmo quando a pessoa enlutada quer tentar se distrair e não falar muito delongadamente sobre o assunto, podemos percebê-la por perto. Reparem que o enlutado vai sempre se referir ao falecido no presente. Vai contar histórias mas vai manter este tempo verbal. O verbo 'ser' em particular será bastante usado assim.

Eu me lembro inclusive de um exemplo interessante disso vindo da cultura pop. Num episódio de CSI, Brass, o chefe de polícia, fica com a pulga na orelha num caso de um homem que acabara de enviuvar e recebeu uma generosa apólice de seguro. Ele comenta com o legista que o homem só falava da mulher no passado. Achou estranho, e sugeriu ao médico que exumasse o corpo; falou diretamente com ele porque Grissom "não se interessaria", segundo ele. O médico reluta, reclama da exposição pública que exumações geram, mas acaba cedendo. Com isso, Brass acaba descobrindo evidências de que o homem fraudou o seguro: havia matado a própria mulher para enriquecer. Tudo isso por causa do verbo ser conjugado no passado. O único da série que não entende de ciência forense pegou um homicida só se atentando à sua lábia.

Nada no mundo nos prepara para isso. Li certa vez inclusive, de um poeta acho, que "toda noite, quando dormimos, ensaiamos para isso. Um dia a gente acerta". O budismo dá as boas-vindas à ela; o catolicismo, arrebanha pelo medo dela. De qualquer forma, ela nos faz lembrar que tudo na vida é um empréstimo. Passamos 100% de nosso tempo buscando alguma forma de nos diferenciar que, quando chegamos a um momento em comum em que somos todos nivelados por baixo (em todos os sentidos da palavra), nos recusamos a aceitar isso. Queremos acreditar que apenas o que sentimos é o que existe. Uma forma de ignorância em sua forma mais primitiva surge. Não importa se o universo é tão complexo que a existência de um além-vida é apenas uma das possibilidades. Queremos por perto o que conhecemos. Achamos que esse alguém é nosso. O ser humano quer ser senhor de tudo, inclusive do que não tem ou jamais teve controle. E assim ele inutiliza vários hectares de terra reservando alguns pedaços a seus falecidos. Taí a lição mais importante de desapego que a humanidade precisa ter. Ninguém enterra cachorros quando eles morrem; a eles reservamos com mais naturalidade atos de dignidade como cremação e sacrifício, quando necessário.

Nessas horas, as religiões parecem um erro. Elas afirmam interceder entre o céu e a terra, mas perpetuam esse recalque de enterrar seus mortos. A aceitação, último estágio da morte, é abortado ao máximo; isso afastaria os fiéis das missas, de um ponto de vista publicitário. Não é à toa que este conceito foi iniciado pelos católicos bem antes de agências multimilionárias jurarem de pés juntos que precisamos dos produtos inúteis que eles vendem. Não lhes parece que cemitérios são um dos maiores golpes publicitários feitos até hoje? Vejam toda uma indústria funerária por trás, sem falar da indústria da fé. Inclusive nos foi incutida a perversa ideia coletiva de que uma "aceitação excessiva" da morte indica uma indiferença perante ela. Ou seja, eu sou obrigado a conservar um naco de tristeza sempre que me lembro do ocorrido. A igreja (e antes dela a sociedade) não gosta dos estrangeiros de Camus. Nem da filosofia budista, que fala da morte como todo mundo deveria falar: como um rito de passagem. A aceitação desmantela convenções e status sociais. De repente, dotado dela, parece que estamos acima dos que passarão o tempo todo se lamuriando por seus mortos. Ficamos mais prontos para continuar, e isso dá uma liberdade que ninguém quer. Inclusive a família, às vezes. Viver aceitando-se com tranquilidade a consequência definitiva da vida nos tornaria perigosos demais para certos poderosos. O Estado, por exemplo, considera o suicídio caro demais.


Leitura complementar: Dignitas
(Obs.: o texto anterior foi escrito antes de a Tiger mom ganhar fama internacional e virar meme na internet. Leiam sobre ela; minha criatividade jamais dá conta da realidade. =p)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pedagogia expressa

Em tempos excessivamente permissivos que fomentam amostras constrangedoras disso na TV, como o Supernanny, Malcolm in the middle e programas de "humor" que difamam e fazem piadinhas sobre estupro, creio que convém elaborar um guia (tão raso e enlatado quanto tudo em nossos tempos), para acompanhar esses tempos dinâmicos da era da informação. Aplicado à educação de seus filhos, venho, com um texto só, botar Paulo Freire, Piaget e Vigotsky no chinelo. Sem essa de construtivismo, educação inclusiva, interacionismo e outros placebos teóricos pra disfarçar sua vontade de matar seus monstrinhos quando eles pedem pela centésima vez o brindezinho do Ben10 no McLanche feliz. Apertem os cintos, pais de primeira viagem: é preciso ter pulso com a criançada escrota de hoje em dia. E confiem em mim, bancar o mal é uma das melhores partes da paternidade. Afinal de contas, é uma das poucas hierarquias sociais das quais você é o único responsável. Sem subordinados, sem prestação de contas (salvo à justiça, é claro), sem regimentos e legislações pra empatar sua foda. Vamos lá.

  • Aprendizado pela porrada: seu filho quer botar o dedo na tomada? Tudo bem. Inclusive, diga a ele que, "se ele tocar naquele buraco engraçado na parede, ele vai sentir umas coceguinhas engraçadas." Bastará uma tocada para ele aprender em definitivo a não botar a mão onde não foi chamado. Seu filho quer aprender a nadar em piscinas para adultos, fundas demais pra ele? Jogue-o na piscina e fique na borda. Pise na mão dele toda vez que ele tentar sair da piscina. Tire-o de lá quando ele começar a ter cãibras nos braços. Seu filho não quer comer? Nos próximos três dias, sirva apenas alimentos que ele não gosta. Esvazie a despensa e todos os armários onde ele possa ter acesso à comida. Se ele teimar demais, corte a água também. Em pouco tempo, ele cede.
  • Susto nos inquietos: seu filho não para de correr em lugares públicos e vive te dando trabalho pra acompanhá-lo ou encontrá-lo? Não tem problema: quando isso acontecer, entre na loja mais próxima do local onde o sumiço aconteceu e espere o guarda do local voltar com o pirralho se derretendo aos prantos. Claro, combine antes com a segurança este pequeno exercício de confiança seu. Mas oriente-os a não levar o filho "perdido" imediatamente pra você. Faça o guarda procurar você por uma meia hora, leve-o à sala de segurança do local, e desligue seu telefone por cerca de uma hora. Quando religar o telefone, peça a um terceiro pra avisar, com voz desesperada, que você foi parar no hospital vítima de um infarto depois de notar o desaparecimento do filho. Vá para a praça de alimentação e deleite-se com a cara de parede descascando do seu filhote quando ele voltar acompanhado do guarda. De repente, sua companhia se tornará bem interessante pra ele. Essa medida terapêutica vai funcionar, mas infelizmente pode levar aos...
  • Carentes demais: se o problema é inverso (o moleque não larga do rabo de sua saia), aproveite cada oportunidade para, quando na presença de outro adulto, compartilhar com este os fatos constrangedores da vidinha de seu filho. Conte quanto tempo ele levou pra largar a chupeta, da vez em que mijou na cama depois de assistir a um filme de terror, das palavras que ele não consegue pronunciar direito... e faça chantagem emocional ameaçando contar à minúcia estes detalhes sórdidos sempre que ele se recusar a desgrudar de você em lugares públicos.
  • Birrentos: seu filho abre o berreiro sempre que quer que você compre alguma coisa? Esse problema é simples de resolver: compre um megafone e, toda vez que ele fizer isso, berre para todos com quantos anos ele parou de mamar. Berre que ele tem medo de palhaços. Que não sabe amarrar o cadarço. Que apanha dos amiguinhos na escola.
  • Mimado/superprotegido demais: negue todas as vontades dele. Quando ele perguntar porquê, responde que é porque você quer. E faça certa chantagem, dizendo que ele não merece, e fale de quantas criancinhas no mundo são felizes com bem menos. Só faça algo por ele quando este começar a implorar. Nunca dê dinheiro, empreste. Com juros. E pegue objetos pessoais dele como garantia. Nunca compre brinquedos. Dê ideias para ele improvisar alguns. Não ajude-o no dever de casa, e esconda todas as calculadoras, computadores e dicionários. Dê "concessões" de uso de cada um desses itens a cada bimestre que ele passar.
  • Rebeldes demais: antes da puberdade, folheie uma revista de tatuagem e peça a ele dicas pra cobrir uma tatuagem com símbolo ocultista que você vai alegar ter na virilha. Mostre também o desenho do Faustão que você quer usar para cobrir as costas. Se ele não cair nessa, comece a usar tatuagens adesivas, daquelas removíveis, por uns tempos. Fume maconha nos fins de semana e pergunte se ele não quer um pouco. Simule convulsões ao beber mate leão que você vai alegar ser chá de cogumelo. Ah, e conte detalhes de sua vida sexual (puxe assunto sobre as meninas que ele anda pegando) com uma intimidade que ele jamais gostaria de ter contigo. Use um tom de narrativa, como se estivesse contando um conto erótico. Fale de sua parceira como se fosse uma biscate bêbada de balada, com julgamento enfraquecido pela bebida.
  • Gastadores: seu filho gasta demais? Sem problema. Um dia, quando ele sair com os amigos e pra variar cogitar gastar um dinheiro excessivo que não tem com bobagem, sente-se com seus amigos na sala de estar e joguem pôquer. Quando ele voltar pra casa, fique totalmente pelado e esvazie seu (O seu) armário, dizendo que perdeu tudo no jogo. Repita isso na próxima vez que ele sair, mas dessa vez tire o colchão dele do quarto; deixe apenas o estrado na cama. Na próxima, faça isso com a TV. Por último, faça isso com a mãe dele: combine com ela para esta sair com as amigas e use seu talento para atuação no último grau: com cara triste, chorosa (não se esqueça de parecer meio bêbado), diga quer perdeu a mãe dele no pôquer.
  • Educação sexual: quando eles chegarem à puberdade e você desconfiar que eles já têm idade suficiente pra tirarem a roupa, comecem (você e sua parceira) a gritar à noite, como se estivessem tendo uma noite de sexo selvagem. Caprichem; não deixem ele dormir. Algumas semanas depois, finjam que a camisinha estourou. E contem, no café da manhã, que ele vai ganhar um irmãozinho. Vendam algumas coisas do quarto dele argumentando que precisam de dinheiro pro enxoval e outras despesas. Façam ele sair de casa pra atender alguns dos "desejos" da mãe grávida. É a oportunidade de vocês se divertirem inventando desejos bizarros.

Mas, por mais que eu viaje na maionese com um texto obviamente satírico como este, como sempre, a realidade sempre supera a ficção. Ninguém precisa da pedagogia expressa pra destuir infâncias, precisa apenas de recalques, frustrações e falta de noção. Numa conversa, alguém comenta comigo de uma amiga que recebeu uma educação perversa de uma mãe depressiva. Por exemplo, a mãe fazia a filha lavar as cuecas do irmão! E, num dos aniversários da menina, a mãe começa a reformar a casa exatamente nessa época, só para inviabilizar uma comemoração em casa. Como pode-se ver, o poder de família é muito mal exercido por algumas pessoas. Chega até a ser tentador se elaborar legislação mais específica pra regular essa balbúrdia na educação dos filhos justificada por hábitos culturais que vemos hoje, já que hoje em dia somos dotados de valiosos conhecimentos dos campos da pedagogia, psicologia, relações humanas, que poderiam solidamente embasar uma lei coerente. Mas não, em vez disso, preferimos punir em vez de vigiar. De que adianta um Estatuto da Criança e Adolescente se abusos de sequelas menos penais que psicológicas continuam ocorrendo?

Este não é o primeiro texto que escrevo sobre como detonar infâncias. Cliquem aqui pra ler o anterior.