sábado, 28 de maio de 2011

Minha tia desentupiu o umbigo

Temos hoje, como título desse post, um exemplo de malapropismo. À guisa de explicação: a frase acima beirando o dadaísta foi proferida por Chaves enquanto lia uma carta a seu Madruga, enviada por Chiquinha. O termo em si, malapropismo, designa o uso incorreto de uma palavra pela outra (de pronúncias similares), normalmente aplilcado com efeito cômico no discurso. As palavras envolvidas não necessariamente precisam ser homônimas ou parônimas. Muitas vezes, uma não tem absolutamente nada a ver com outra. Pode ocorrer de o malapropismo acabar invocando antônimos mas, via de regra, não é o mais comum a se observar. Uma das origens atribuídas a esse termo é remetida à expressão francesa mal à propos (significando, ao pé da letra, "inadequado ao propósito"). Para que possamos definir corretamente uma frase como sob efeito de um malapropismo, deve-se obserbar alguns detalhes. O primeiro, como outrora presumido, é simples: a palavra usada para se obter esse efeito deve significar algo diferente (diferente, não necessariamente antônimo) da palavra que se intencionava usar. O segundo detalhe refere-se à fonética: a palavra usada no lugar de outra precisa ter alguma semelhança com a palavra original. Não necessariamente uma rima. Como observado, por exemplo, no dialeto Cockney, usado nos subúrbios londrinos. Esse dialeto em particular é um profílico exemplo de malapropismo, usado sob a inteção de tabu lingüístico, seja para se obter efeito cômico sobre palavras vulgares, seja para se camuflar metáforas grosseiras. Voltando so segundo detalhe, podemos dizer que a rima não pode se limitar à sílaba tônica; a rima é geralmente pobre. O terceiro, por sua vez, prevê que a composição da palavra que venha a substituir a usada no discurso original seja de significado reconhecido pelo falante. Ou seja, neologismos são condenados para se elaborar malapropismos. Adição de prefixos ou sufixos não devem ser usados. Chegando até aqui, podemos agora analisar o exemplo no título: Chaves, famoso por ler textos com dificuldade (dado o responsável processo de alfabetização demonstrado por Professor Jirafales nos episódios na escola, seria de se estranhar?), se atrapalha copiosamente ao ler a supracitada carta a Seu Madruga, e acaba se saindo com inúmeros exemplos de malapropismo. Por exemplo, ao dizer a frase do título, Seu Madruga, atônito, imediatamente lê a carta e o corrige com a frase original:

Discutiu comigo, Chaves!


A maioria dos exemplos que se encontrará no seriado são proferidos por Chaves, mas tem um proferido por Chiquinha que vale ser mencionado (até porque funciona como indireta; não à toa a frase é usada pela serelepe garota). Além do exemplo abaixo, recomendo uma outra fonte de exemplos mais abundantes desta natureza clicando aqui. Quem sabe ainda não encontro um vídeo dum maluco qualquer que faça, a partir de Chaves, o mesmo que fizeram com as vinhetas da Sessão da Tarde (quem já viu esse vídeo sabe que se trata de uma espécie de "medley" de várias chamadas de filmes, todas com a palavra 'confusão'). Bom, até lá, fiquem com o exemplo abaixo pra fechar o post:

A vida é labuta.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ensaio sobre a organização

Se tem algo que me acalma é organização. Não li nada específico a respeito antes de dedilhar aqui (quer dizer, posso recomendar a leitura dos 5S pra vocês, mas confesso nada saber sobre feng shui), mas tem coisas que são universais. Uma delas é a harmonia obtida com as coisas dispostas de forma a ser facilmente visualizadas e encontradas. É menos stress gerado pelo tempo que se dispendia tentando encontrar algo, mais confiança na própria organização (e em outras instituições, quando aplicável) e aumento da sensação de pertencimento. Deve ser por isso que nossos jovens vivem nesse eterno deslocamento hoje em dia: eles têm informação demais, e habilidade de menos para organizá-las. Quando organizamos nossas coisas direito, mostramos ao mundo que não somos as coisas que temos, mas sim como as organizamos. E isso é elogioso pra burro.

Observando várias pessoas desorganizadas em minha vida, resolvi escrever este ensaio, como catarse. Bom, vamos a alguns apontamentos a respeito:

  • Informação demais atrapalha: regra que inclusive importo dos 5S. O que não tem utilidade só ocupa espaço. Exemplo prático: muitos donos de lojas novatos, no afã de quererem mostrar todos os produtos que oferecem, abarrotam suas vitrines. Fica tanta informação visual que o cliente simplesmente fica desnorteado. Ele não sabe o que pensar porque seu olho não consegue se fixar em algum produto em particular. Assim, ele dedica pouca atenção à loja em questão e vai pra próxima. É tanta informação que fica inviável se trabalhar as formas e cores de determinados produtos que atraiam a atenção dele. Semiótica é a alma do negócio.
  • Torre de Hanoi: quando não for possível dispor cada coisa em um respectivo lugar por limitações, por exemplo de espaço, uma opção é fazer como no clássico desafio matemático. Os objetos maiores ficam embaixo, e os menores por cima. Simples assim. Como nas forças armadas. Os pelotões são organizados dos soldados maiores aos menores. Porque isso? Para facilitar a visualização (e, no caso do pelotão, para manter o compasso, imagino; imagina um cara baixinho marchar perto de um altão, com calçado 42: só rolaria nego tropeçando). Como os objetos menores geralmente são de uso mais cotidiano e não necessariamente têm importância no arquivamento ou organização de alguma coisa, convém que eles estejam em locais de acesso fácil. E dispondo-os em cima de objetos maiores, libera-se espaço em lugares onde eles viriam a ser dispostos.
  • Empilhamento máximo: quem já trabalhou ou observou o funcionamento de um depósito, sabe que caixas possuem um empilhamento máximo. Desrespeitar esse número implica em deixar suas coisas suscetíveis a desmoronar. Mesma coisa com objetos pessoais. E mesmo que isso não venha a acontecer, tem um agravante: fica mais difícil de pegar um objeto que esteja na base. Por exemplo, bibliotecas jamais organizam seus livros na horizontal, uns em cima dos outros. É sempre na vertical, uns ao lado dos outros. Mas digamos que você seja teimoso e insista em fazê-lo na horizontal. Se eu te pedir pra vpcê pegar pra mim o livro na base, o que terá de fazer? Sim, terá de levantar todos os livros pra pegar o que está lá embaixo. Contraproducente. Mas se a opção pela horizontal for a única que você tiver, estabeleça para si um empilhamento máximo. Senão, em pouco tempo, escolher um livro da prateleira será uma tarefa pouco prática. Fato.
  • Bagunça organizada: devagar aí. Vamos começar com uma frase militar que diz o seguinte: nunca confie na própria lógica para elaborar uma estratégia. Isso significa que quem confia apenas na maneira como a própria cabeça funciona para organizar suas coisas está fadado a viver na bagunça. Organização consiste em ser capaz de acessar, encontrar algo, no menor tempo possível. No momento em que algum processo de sua mente não operar assim, sua bagunça não estará tãããão organizada assim.
  • Dê utilidade ao espaço: por espaço, me refiro a todo e qualquer espaço a seu redor. O espaço entre o tempo da mesa e o chão, entre o chão e o estrado de sua cama, entre a lateral do armário e a porta do seu quarto... taí alguns exemplos. Arquitetos usam muito bem o espaço hoje em dia, numa era em que, pela primeira vez na História, a população urbana é maior do que a rural em todo o mundo. Esse aproveitamento pode ser feito de várias formas: com divisórias, suportes de madeira, caixas... use o que tiver à disposição. Tenha sempre o pensamento de que o homem precisa de muito pouco para sobreviver. Um dia vivemos dentro de cavernas. Portanto, o espaço que temos hoje em dia pode ter funções infinitas se usado adequadamente.
Tá, agora vamos elencar os inimigos mortais do espaço: coisas que aparentemente ajudam, mas atrapalham deveras na hora de se guardar alguma coisa. Vamos lá.
  • Sacolas plásticas: são inimigo número 1 neste aspecto. Fazem barulho, rasgam com o tempo, demoram pra se decompor, têm pouca capacidade de armazenamento e se moldam de acordo com o que têm dentro. Péssimo. O estado de São Paulo, inclusive, vai aboli-las até janeiro do ano que vem. Já vão tarde. A humanidade vivia muito bem sem elas antes dos anos 70.
  • Embalagens e caixas em geral: depois de aberto um produto, têm pouca utilidade. É guardar os manuais e jogá-las fora, para reciclagem. Mas comecemos com uma pergunta simples. Qual porcentagem que uma embalagem representa de um produto? Peguemos um exemplo do meu celular (um Samsung S; arredondei todos os valores): a caixa tem 960 cm³, mas o aparelho tem 72. Apenas 7,5% do volume da caixa! Claro, há embalagens que aproveitam bem melhor o espaço que representam. Mas quando isso não acontece... e não se engane: alimentos costumam ter embalagens ridiculamente tomadoras de espaço. Livre-se de todas que puder e mantenha o alimento em si apenas.
  • Porta-CDs: se a maioria dos seres humanos não possui coordenação motora necessária para pegar um CD e guardar no lugar de onde o tirou, o porta-CDs só vai piorar o problema. Não porque ocupam espaço, mas porque, pelo fato de centralizarem várias mídias num objeto só, facilita pra perder. Algo a se levar em conta se você divide seu espaço com alguém de mão furada.
  • Porta lápis: além de ocuparem um espaço muito maior do que lápis e canetas, não são práticos para borrachas e objetos menores. Caiu lá dentro, fica difícil você se dar conta do paradeiro do objeto. Ver o item Torre de Hanoi, que escrevi acima.
  • Baús: baú é coisa de pirata. São muito baixos, forçam a pessoa a se baixar e não vêm com compartimentos para aproveitar o espaço de forma inteligente e facilitar o acesso aos objetos lá dentro. Eu não sou tatu pra ficar agachando, então dispenso baús. Inventamos armários para isso, porra!
  • Tecnologia ultrapassada: comecemos pelo exemplo mais óbvio, TVs! Nas casas de alguns amigos meus, têm aquelas TVs gigantescas de tubo, de 50 polegadas. Viraram mico. Portanto, abra a carteira de vez em quando: você não só vai modernizar seu lar como vai ganhar espaço onde nem fazia ideia que existia em sua casa! Espaço que você ganha é despesa que você deixa de ter com adaptações para buscar espaço em outro canto.

    sexta-feira, 20 de maio de 2011

    Bloco de notas (XIX)

    As sitcoms dos anos 90 como um todo só foram salvas da total mediocridade graças aos judeus. Gente como Jerry Seinfeld, Fran Drescher (no ramo das comédias familiares, diga-se de passagem), Max Kohan e David Mutchnik quebraram a mesmice com seu humor que ironiza costumes, não tem medo de explorar o politicamente incorreto e abusa de jogos de palavras bem sacados. Pensem bem: seria triste se, ao rolar esse revival cultural no imaginário popular que sempre rola em relação à década retrasada, tivéssemos de nos limitar a Friends e That '70s show. Para reforçar meu ponto, pegue a melhor sitcom da HBO atualmente: Curb your enthusiasm. É fruto da mente de Larry David, que criou, com Seinfeld, a série homônima dos anos 90. Quer mais? Pegue a sitcom, livremente baseada numa conta do twitter, que atualmente é queridinha dos estadunidenses: Shit my dad says. Criação da dupla homo de Will and Grace: o Komut e o Mutchnik. Aparentem ente, basta escalar o William Shatner para uma série ser automaticamente engraçada, para eles.

    Já falei que Jim Davis é um vendido hoje? Nunca é demais dizer isso. Também nunca é demais ressaltar a genialidade de Scott Adams. Esss dias me encontrei às gargalhadas em meu quarto com meus livros de bolso com as tirinhas de Dilbert. Tão maquiavélico, tão sarcástico... caras como Adams terão lugar na história dos quadrinhos antes por sua genialidade do que pela quantidade de franquias mongas e filmes medíocres feitas com o licenciamento de seus personagens. Jim Davis é uma decepção.

    É impressionante o volume de coisa que a gente lembra que precisa fazer antes de uma viagem. Procrastinar é a mais preguiçosa manifestação da lei de Murphy em nossas vidas. Que o diga esse blog; quanta coisa que eu enrolo por eternidades pra publicar aqui...

    Reflexão filosófica proposta pelo BBB 11: Ariadna, ex-BBB, será ou não capa da Playbo y? Vejam só, reality shows (por acidente, diga-se de passagem) também são cultura. Mentira, não o são; apenas promovem o debate. Enfim. Essa reflexão foi a primeira coisa que me perguntei quando por acidente descobri quem era essa moça (digo, rapaz. Digo, transformista. Digo, mulher com pomo-de adão) vendo um programa de auditório em passant. Tudo bem que, com a banda larga, o mercado editoral do sexo precisa evoluir e adotar medidas novas. O 3D é uma que a Playboy americana começou a adotar. Mas contratar um travesti pra posar nu? Um homem que passou por uma cirurgia de mudança de sexo? Os tempos estão diferentes. Eu sempre observei essa tendência andrógina que as bandinhas teen atuais ostentam. Ou que as cantoras da MPB transparecem. Temos um público com uma sexualidade segura o suficiente para consumir uma revista tendo como capa uma mulher que um dia foi homem? Se bem que a Roberta Close abriu um precedente na década de 80. Mas nos anos 80 não vivíamos num mundo azul-calcinha como o de hoje, cheio de "não podes" do politicamente correto. Não se falava abertamente sobre assuntos-tabu assim. Não havia tanta informação quanto hoje. E aí? Pelo jeito, o que pode se suceder daqui pra frente é uma banalização do corpo. O gênero virou apenas um personagem. Uma reinvenção das regras de dominação e submissão de qualquer relação humana. A um ponto que pouco importa com que sexo você nasceu. Fãs de vampiros, Restart e cantoras da MPB que o digam.

    domingo, 15 de maio de 2011

    Cenas memoráveis do cinema

    Esta é uma lista bastante pessoal minha, feita sem preocupação alguma em me alinhar com grandes críticos ou cânones do cinema. Aqui, muitas vezes, o critério maior será o cinema como manifestação pop, e como ele explora bem elementos que atraem e provocam o público, como violência, sexualidade, suspense e outros. Pode acontecer de, alheio a isso, a cena possuir um simbolismo digno de nota, e isso será exposto, quando aplicável. Aqui levaremos em conta o esforço cinematográfico dos diretores, a criatividade aplicada, o trabalho dos atores, e não apenas os trunfos intelectuais nas entrelinhas de cada cena. Algumas escolhas fogem do mainstream. E isto é bom, porque filmes feitos pra gente demais precisam fazer concessões. Tem liberdades que só obtemos quando nosso público é menor, e é por isso que o "underground" tem o seu valor. Produção cultural que chega a nós por iniciativa mais nossa do que de distribuidora tem uma estética e um apelo diferentes: sabemos o que queremos ver e temos discernimento para tal, ao contrário do que o mainstream faz e presume de nós.

    Relação dos filmes, pra ninguém reclamar que tô estragando finais: Up, La peau, Calígula, Thursday, Salò, Million dollar baby.

    E a primeira cena (uma mainstream, pra começar), é...


    Up, 2009 -- O livro de aventuras de Carl Fredericksen
    Ao longo desta animação, acompanhamos as aventuras de um idoso viúvo, em busca de realizar o desejo de sua falecida esposa, postergado por várias eventualidades da vida: conhecer uma paradisíaca cachoeira na Venezuela, repetindo assim o percurso que o ídolo dos dois (um aventureiro aristocrata mais velho) fizera no passado. Ele faz isto erguendo a própria casa, prestes a ser demolida, com milhares de balões de hélio. Ou seja, a animação lida com temas completamente estranhos às pequenas audiências que o a ssistem: a melancolia da velhice, de se ver as pessoas amadas morrendo aos poucos, a crescente solidão que os anos trazem (vive-se numa geração alheia às referências e valores da sua, num momento da vida em que ninguém mais te ouve) e a incessante desconstrução de seu Zeitgeist que a modernidade traz (o idoso não reconhece mais o mundo em que vive, e nem os valores universais que adquire ao longo de toda sua vida parecem suficientes para obter uma visão clara desse tempo novo).

    Quando Carl levanta voo dentro de sua própria casa, descobre que Russell, um escoteiro tentando ajudar o velhinho, veio junto, escondido fora da casa. Durante as aventuras e desventuras enfrentadas pela dupla improvável, chega um momento em que Carl se vê derrotado e desiludido: ele chega à Venezuela e encontra seu ídolo, mas este não é nada do que ele pensava. Ele inclusive tem a oportunidade de levar para casa um espécime raro de pássaro que este aventureiro tanto falav a em seus relatos, mas quando descobre as reais intenções dele para com o bicho, se encontra sem nada: sua amada esposa se foi, seu ídolo não é nada do que ele acreditava e ele não sabe como voltará pra casa (ou melhor, pra sua terra natal).

    É quando Carl folheia o Livro de aventuras que ele e Ellie (sua falecida esposa) guardaram por tantas décadas na casa, desde que eram pequenos. Onde antes só havia folhas em branco, de repente Carl encontra várias fotos de vários momentos felizes de sua vida a dois. E apenas uma da viagem que ele acabara de fazer. O filme promove um insight para o velhinho, mas a criançada vai ficar alheia a isso. Na última folha do livro, ele encontra um recado de Ellie, que avisa a ele que a aventura dos dois havia chegado ao fim, que era hora de ele seguir com a própria vida. É um momento da película que pega qualquer um de surpresa. Traz uma implicação filosófica inesperada, uma carga emocional que ganha força extra qu ando encontramos o personagem principal num momento de desilusão tão grande quanto aquele, e uma sensibilidade ímpar.

    Os mais atentos percebem desde o começo que a casa alçada aos céus por balões de hélio é uma metáfora. Mas descobre que a Pixar não tem embaraço algum em trabalhar isso de forma aberta com todas as suas audiências, sejam as crianças, sejam os adultos. Não tem porque eles ficarem receosos; o filme trabalha com temas universais, e fechar este encontro de gerações (Carl e Russell) oferecendo esta visão desarmada e humana de Carl só conferem ao filme uma grandeza inesperada. Up nos mostra que a vida em si é uma aventura; todo o resto é circunstancial. Sem começo nem fim, portanto sempre aberta a personagens e condições novas. Alheia à idade física de seus personagens. Os obstáculos da vida não escolhem idade, e mais pra frente descobrimos que Carl e Russell têm algo em comum: a solidão. Sendo a de Carl belamente representa da nesta cena em particular.

    La peau, 1981: A defloração com os dedos
    Um retrato anti-hollywoodiano e original do final da II Guerra Mundial. Nada daquele monte de estadunidense desaforado invadindo país dos outros e falando palavrões suficientes pra se formar um dialeto próprio, só de impropérios. Nada de americano bonzinho derrotando os alemães maus. Aqui, nós temos um retrato mais sombrio e menos heroico da Nápoles de 1944: vemos uma civilização esfacelada, sem instituições. As pessoas, desesperadas e com fome, desamparadas pelo seu próprio governo, impotente para defendê-los das duras provações que a guerra trouxe, fazem de tudo para sobreviver, principalmente vendendo a própria pele: se prostituem, vendem seus próprios filhos, vendem prisioneiros por quilo (quando não o conseguem, fazem sabão com a gordura destes), têm acessos de canibalismo, fazem desmanche do metal usado em tanques de guerra... vale tudo para sob eviver.

    A cena em questão mostra de forma bastante crua (não mais crua que a última cena do filme, que falarei ao encerrar este texto) o choque cultural entre um povo dominado e um povo dominante (que "veio ao resgate dos italianos"). Uma civilização milenar, tradicional, que já testemunhou diversos atentados a seu povo, e uma civilização bem mais nova, que, nas palavras do próprio curzio Malaparte, personagem do filme e escritor cujo livro o filme foi baseado, "os americanos são um povo fantástico, acham que Deus está sempre do lado dos bons". Isso é metaforizado no personagem de Jimmy, militar estadunidense que é intérprete: ele se apaixona por uma moça napolitana que conhece quando um companheiro morre numa mina. Mais para frente no filme, quando ele vai visitá-la, encontra o irmãozinho mais novo, que tanta demovê-lo da ideia. Ao olhar para a casa dela, vê uma fila quilométrica de militares. O motivo da fila: o pai da menina quer vender a v irgindade dela. Desgostoso com as cenas de horror que testemunha, ele parte em desespero ao leito dela, furando a fila. Vendo-se impotente ante às dezenas de pessoas na fila, e quando o pai pede para que um dos militares ateste a virgindade da moça inserindo os dedos em sua genitália, Jimmy, tomado de rancor, insere ele mesmo seus dedos em sua amada.

    Enquanto a maioria dos filmes exibe os poloneses reféns de forças militares estrangeiras, aqui temos esse retrato dos italianos. Que externam uma hospitalidade insincera, típica de um povo acuado, desesperado pela sobrevivência, vendo sua terra ser invadida indefesa. Numa época da comunidade internacional anterior à ONU, vemos um povo entregue à própria sorte, onde toda e qualquer garantia social se dissolve ante à complacência do mundo bipolarizado da época. Onde a "lei do mais forte" volta a reinar. Agora vou falar da última cena do filme: durante uma marcha dos americanos, após estes derrotarem os a lemães de vez, os populares correm ao redor do batalhão comemorando. Um, com o filho, se aproxima demais do tanque, e é esmagado por este. Em Holywood, seria uma cena típica de Tarantino. Aqui, é um simbolismo importante da relação entre povo dominado e povo dominante (vencedores e perdedores). A reação de Curzio, ao lado de Jimmy, que se desculpa, é emblemática.

    Caligula, 1979: O estupro de Livia
    O filme em questão é um esforço cinematográfico épico. Literalmente: os cenários são grandiosos, suntuosos, e o figurino é riquíssimo. Rivaliza com qualquer épico anterior -- diria posterior também -- a ele. Infelizmente, pecaram feio na pós-produção: na intenção de passar ao espectador a atmosfera de devassidão nos tempos de decadência do Império Romano, eles carregaram o filme de cenas de pornografia. Pornografia mesmo, gratuita, sem nenhuma função mais objetiva, técnica ou estética na trama. Vamos por nestes term os: Caligula vale, sozinho, por uns três DVDs das Brasileirinhas. Difícil esperar diferente quando se entrega a direção a Tinto Brass, um obcecado por calipígias. Sem falar o dedo da Penthouse na produção, coisa bizarra. Gore Vidal deve se arrepender profundmente até hoje de ver seu roteiro transformado numa chanchada pagã (pra não dizer esbórnia) como esta. Isso posto, continuemos.

    A película retrata a vida do jovem Caligula, antes e depois de se tornar imperador, as histórias de traição, as conspirações, algumas de suas amantes, sua crescente aproximação da loucura e os efeitos de sua megalomania aos a seu redor (ele chega a montar um bordel imperial com as esposas de seus senadores, outra cena que mostra a que o filme veio). O cargo de imperador lhe confere poderes quase divinos. Ele mesmo se declara "descendente direto da deusa Isis". Ninguém jamais lhe questiona a autoridade, lhe dão tudo o que pede, e nesse contexto, seu senso de humanid ade vai se perdendo aos poucos (uma certa infantilização de sua índole torna-se inevitável). As pessoas tornam-se meros objetos para ele. Ele apalpa a mulher que quiser, transa com quantas quiser e puder (inclusive com a própria irmã, o que era socialmente aceitável na época)... e o ápice disso aparece quando ele comparece ao casamento de um de seus soldados. Acompanhado de Drusilla, sua irmã, e de Caesonia, que acabara de desposar (presa a uma coleira, como um animal de estimação), após a cerimônia, ele acompanha os noivos até uma cozinha que ficava atrás da cortina do altar. Lá, ele conversa calma e cinicamente com os dois, questionando a virgindade da esposa do soldado. Então, ele a coloca sobre a mesa da cozinha, e a deflora ali mesmo, na frente do marido. E o obriga a permanecer de olhos abertos, vendo tudo. Uma cena de incrível perversidade, que seria ainda mais bizarra não fosse a recusa de Malcolm McDowell de sodomizar o marido presente na cena.
     

    Thursday, 1998: Adultério involuntário
    Esse filme é um wannabe de Cães de aluguel, que mal consegue disfarçar suas referências. Falha em tornar o roteiro crível em alguns aspectos, mas tem seus momentos. Um deles é quando Dallas, ex-amante, vai à casa do protagonista (vários personagens vão à casa dele quando descobrem que o colega deste deixou lá um carregamento de heroína). Fã confessa de sexo hardcore, numa cena anterior ela causa uma ereção num funcionário desavisado do conselho tutelar (que veio realizar uma entrevista com Nick, que pleiteava uma adoção), só com uma descrição do que ela gosta na hora do sexo.

    Disposta a matá-lo, não se contenta em apenas levar a droga, que Nick jogara fora na pia da cozinha. Quer que ele traia a esposa, que surgiu nesta vida nova que ele elaborou pra si após sair do tr áfico. Para isso, o imobiliza numa cadeira e inicia seu jogo de sedução. Soca um porta-retrato com foto dele e da esposa, e o avisa que quer que "a mulher dele assista tudo": pega um outro portarretrato, só com ela, e coloca em cima do criado-mudo que está ao lado de Nick. Enquanto a recusa de Nick, amarrado, de transar com ela a deixa mais excitada ainda, ela abre a calça dele e faz sexo oral. Ao obter a ereção, ela tira o vestido com um puxar de zíper e senta no colo dele. E começa a estuprá-lo. Sem pressa. E avisa, ao pé ou ouvido, que tem orgasmos múltiplos. Mas como o filme se trata de uma comédia negra, daquelas com muita violência e miolos estourando, é o que acontece: um outro inimigo de Nick aparece, não sem antes estourar os miolos dela por trás, encharcando o rosto de Nick com as entranhas dela. Os fãs de gore aprovariam.

    Talvez o que faça o filme deixar de ser memorável é o fato de os personagens não terem uma construção tão i nstigante, ou mesmo diálogos tão envolventes quanto nesta cena isolada. Porque, em Cães de aluguel, apesar dos reduzidos cenários, temos a oportunidade de vislumbrar melhor a dimensão dramática de cada personagem: suas motivações, seus valores, suas histórias, sua forma de se expressar. Mas em Thursday isso é superficial, e a história não prende como poderia prender.

    Salò, 1975: Coprofagia

    Este filme é baseado nos 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade, onde este conta histórias com as mais chicantes perversões imagináveis. Mas, em vez de fazer um filme de época, Pasolini adapta a história para a Itália fascista da II Guerra Mundial. E o resultado é assombroso: a elite do regime fascista, com padres e libertinos, promove uma coisificação total do ser humano. Dezoito jovens são caçados pelas ruas ou comprados como se fosse bichos, escravos. E são usados como se fossem objetos descartáveis. Uma metáfora estarrecedora que combina o grotesco com filosofia.

    Tudo funciona no filme: as câmeras, as atuações, a ausência de música incidental para acentuar o horror e desespero dos protagonistas, a atmosfera de infindáveis perversões e coisificação do homem que ele confere à película... porra, o filme é bom o suficiente pra permitir muitas interpretações e metáforas. E nada político. A natureza humana é dissecada da forma mais niilista e chocante que eu já vi. Nesse filme, dignidade é para os fracos. Naturalmente, sempre haverá aquela galerinha politicamente correta acusando seu filme de mera coletânea de aberrações. Mas isso até filmes de matinê como Laranja mecânica são alvos. E aqui reside a magia do cinema arte: este não se preocupa em agradar o grande público; ele antes o desafia, o choca, o faz rever alguns de seus conceitos. Enfim, o arranca de sua zona de conforto moral e ética e propõe um ensaio que nem todos estão dispostos a fazer. No mínimo, uma sátira à roupagem pop banalizadora com que o cinema costuma dar à violência.

    Na cena de coprofagia em particular, o cineasta escancara seu niilismo: os jovens capturados são metodicamente corrompidos, tendo sua inocência sistematicamente devastada.

    Million dollar baby, 2004: Eutanásia
    Um drama fantástico como só o Clint sabe fazer que deu a profana estatueta do Oscar a todo o elenco principal. Ao contar a história de uma boxeadora amadora, Clint compõe para nós um belo e poderoso quadro da vida e das chances que ela nos dá. Chances estas expostas em três diferentes circunstâncias: o superprotetor Frankie, melancólico e rabugento, que sabota a carreira de seu protegido para protegê-lo do duro destino que o boxe pode reservar. O resignado Scrap, que seguiu em frente com seu sonho e perdeu o olho em sua última luta, dotado de uma sabedoria que é usada para narrar a película com delicadeza e perfeita construção do background de cada personagem. E a obstinada Maggie, que não tem nada em sua vida além de um sonho. Uma força da natureza canalizada numa figura simplória e carismática.


    O filme segue seu próprio ritmo, contando calmamente a história, com trilha sonora mínima e o relato da astronômica carreira de Maggie. O ritmo acelerado da história de uma nocauteadora nata é subitamente interrompido, como nessas bruscas e grotescas intempéries da vida, para oferecer ao telespectador uma dimensão psicológica e emocional muito mais profunda da relação entre Frankie e Maggie. Como todo filme clássico, vários detalhes ao longo da película permeiam o que está por vir. A roda da vida gira no auge da carreira de Maggie: de repente, descobrimos que a maior luta de Maggie nunca esteve no ringue: esteve em sua própria vida, permeada de ilusões, indiferenças e adversidades. A negação inicial de Frankie em treiná-la tem seu porquê escancarado para todos nós. Ele se responsabiliza pelos que ama. Nunca se perdoa pelo fato de os boxeadores quererem abraçar a própria sorte de cara aberta. Não sabemos no filme porque sua filha nunca mais falou com ele. Esta talvez seja a mais amarga lembrança de quando ele também abraçava a própria sorte.

    Não bastasse esse grau de alienação em sua própria família, de repente Frankie é solicitado a tomar a mais difícil das decisões ao final da história. Tirar a vida de alguém como um ato de misericórdia ou de anizade? Diante dessa cruel provação, no momento em que Maggie não tem mais forças para lutar, o duelo agora é com sua própria consciência. Ele sente não ter mais nada a perder. Ele percebe que, de certos golpes, a gente não tem como se defender. Por fim, ele toma sua decisão. A maior amostra de afeto que ele poderia ter com ela não foi com Maggie em vida. Isso custou mergulhar sua consciência no mais profundo dos vales. Um ato de maturidade emocional bem à frente de seu tempo.

    terça-feira, 10 de maio de 2011

    Jogos online: a reinvenção da diversão

    O Brasil sempre apresentou um fenômeno em particular no tocante a redes sociais: enquanto no resto do mundo as pessoas preferem o Facebook, nós e talvez a Índia ainda resistíamos bravamente, dotando o Orkut de uma popularidade que um dia se pensou irredutível. Até que chegou o momento em que o Google, confortável com o público cativo do site, começou a descansar nas novidades: poucas alterações e melhorias relevantes na privacidade de seus usuários acabaram afastando as pessoas, que migraram para o Facebook como se este fosse um local mais restrito. Convenhamos que, perto do FB, Orkut é favela: o descontrole no teor do que é discutido em comunidades chegou a tal ponto que torcidas organizadas, skinheads e pedófilos marcavam dia e horário para bater em torcidas adversárias, homossexuais e aliciar menores. Uma balbúrdia: um ambiente virtual que, por natureza devia ser mais fácil de receber regulações, virou terra de ninguém, um bolsão de criminalidade que encontrava paralelo cada vez mais estreito com a realidade que as autoridades falham em combater. Sintoma disso está nas matérias policiais: sempre que alguém morre ou um ato de ódio ocorre, mostram página ou comunidade do Orkut dos envolvidos.

    Mas não é pra falar de redes sociais que comecei a dedilhar aqui: falei de uma das cartas na manga de Mark Zuckerberg que fez o Facebook se impor ante o Orkut por aqui. Falo dos jogos online. Sempre concebidos como uma forma inferior de diversão, para pessoas sem experiência com videogames ou joysticks que exigem coordenação motora avançada, Zuckerberg extendeu ao mundo inteiro o que sites desconhecidos ao grande público como o newgrounds ou o clickjogos (do Uol) sempre fez: elaborar uma central de jogos online. Mas não apenas isso: aplicaram aos jogos o mesmo conceito de interação presente na rede social em si. Nos jogos em questão, quanto mais amigos jogarem, mais fácil fica de se avançar no jogo (seus progressos, inclusive, vão parar na timeline).

    Esse conceito de se introduzir jogos a pessoas sem experiência alguma com videogames, priorizando-se rigorosamente a diversão ao desafio, começou no mundo dos consoles só em 2006, com o Wii da Nintendo. Mas nos jogos online começou bem antes. Com jogos mais simples, muitos funcionando como simuladores, no estilo Sim city a grosso modo, as empresas foram atraindo as pessoas com jogos onde não há game over nem finais fechados. Seu progresso sempre pode ser incrementado e personalizado. E, seguindo a tendência da internet, nem os jogos como um todo são fechados: estão sempre passando por atualizações, correção de bugs, manutenção de servidores... coisas impensáveis para jogos de console doméstico.

    Mas você pode me afirmar que o Orkut também faz isso. O faz como uma réplica desesperada do que o FB sempre fez bem. O erro do Orkut foi tratar os jogos como apenas mais um widget, gadget, a ser jogado em sua página de perfil, disputando atenção com outras informações pessoais. No FB, não rola essa mistura de alhos com bugalhos. Os jogos são levados mais a sério. Uma página a parte é reservada para o jogo rodar, com alguns anúncios do lado. E os jogos que exigem que você mova um personagem com comandos pré-definidos num teclado, por exemplo, ficaram um pouco pra escanteio porque isso já acontece faz tempo nos consoles. Ressalvemos que puzzles são exceção. Jogos de plataforma no estilo Mario Bros., por exemplo, têm menos apelo porque, mesmo que divirtam bastante, tem um roteiro fechado: você passa por uma meia dúzia de fases e encara um chefe final, sem alteração de seus atributos, sem nenhuma evolução. O conceito de motivação, tão longamente debatido na Administração, foi importado para os videogames há pelo menos dez anos. Seria inevitável isso acontecer nos jogos online. Até porque a motivação mencionada aqui não se restringe a receber alguma recompensa. Envolve também personalizar os personagens e ferramentas envolvidos no jogo, novidades trazidas pelos próprios desenvolvedores, promoções e concursos promovidos por eles...

    E os jogos online deixaram de forçar os jogadores a digladiar entre si. Pra quê disputar queda de braço se um pode colaborar com o outro, de acordo com sua conveniência? Uma disputa entre dois jogadores é outra modalidade de jogo fechada, e como podemos observar, os desenvolvedores têm prezado cada vez mais para jogos cujo conceito os permitam tomar escolhas e direções variadas de acordo com o sucesso que cada uma delas tenha com os jogadores. Eu, por exemplo, jogo bastante CSI: Crime city no Facebook. Quando eu comecei a jogar, um tutorial rápido me deu as boas-vindas e me ensinou tudo que precisava. O jogo consiste em você ir a cenas do crime, procurar e coletar envidências, para levá-las ao laboratório, processá-las e, após isso, descobrir como o crime aconteceu. O conceito é bem velho, arcaico: point and click. Mas foi desenvolvido de forma eficiente: prende o jogador porque ele pode desenvolver variadas estratégias pra render mais no jogo. De acordo com uma barrinha à direita, você ganha mais pontos de XP se ela estiver cheia.

    Mas vejam a direção nova que os desenvolvedores tomaram em relação a um dos aspectos do jogo. Por exemplo, no começo, quando eu coletava uma evidência que acabava de ser processada, era indiferente o tempo que eu levava pra pegar essa evidência. Percebendo que os jogadores demorariam demais para progredir no jogo, e aumentando as possibilidades de estes se cansarem da mecânica do jogo, eles adicionaram um fator de motivação ao momento m que você coleta evidências. Agora, quando as evidências terminam de ser processadas, se você pegar em até uma hora, ganha uma recompensa. Se pegar em até 6 horas, a recompensa diminui. Se pegar em 12, a recompensa é mínima. E assim a UBI, desenvolvedora do jogo, trabalhou muito bem o compromisso do jogador com a tarefa que ele está executando no jogo. Até descobri recentemente que você pode processar evidência no laboratório de um amigo, por exemplo, caso este tenha equipamentos que você julgue que processarão sua evidência mais rápido. Golpe de mestra da UBI. Só falta eles darem um jeito de deixar o jogo mais rápido.

    A maioria desses jogos trabalha com um conceito em comum: gestão do tempo. No caso de CSI, processar evidências leva tempo. É uma desculpa pras empresas te cobrarem por facilidades como processamento instantâneo de evidências, por exemplo. Acredite, poucos preferem o caminho fácil de pagar porque o fato de você ter de esperar te possibilita tomar decisões. Você pode, por exemplo, trabalhar em outra cena do crime enquanto sua evidência é processada. Assim, o Facebook conseguiu elaborar uma forma de ganhar dinheiro com esses jogos. Até porque muitos deles trabalam com um dinheiro virtual (prática comum em jogos online), mas com um diferencial: o Facebook criou uma espécie de moeda única nesse aspecto. O Euro dos jogos online. Você troca dinheiro de verdade pelo dinheiro do Facebook, que te permite avançar mais fácil pelos jogos. Tacada de mestre mesmo. Você sai ganhando porque não precisa instalar em seu computador jogos que a princípio você não sabe se terá compromisso em jogar a longo prazo. E sai ganhando ainda mais quando pensa no fato de não precisar configurar rede pra jogar com os amigos. Mas quem saiu ganhando mais nessa história é, com certa, o Zuckerberg. E com jogos cuja maioria o Facebook não desenvolve. No popular, é gozar com o pau dos outros... =p

    quarta-feira, 4 de maio de 2011

    A verdade é moeda de troca


    Me lembro dum documentário que vi sobre Maria Madalena uma vez. O programa relacionava várias teorias recentes de especialistas a respeito das motivações políticas, das adaptações que o texto sofreu ao longo da História e da cultura da época que teria feito Maria Madalena assumir tantos papeis em diferentes épocas, apesar de sua história ter ocorrido em apenas uma. Nesse vai-e-vem, ela foi de tudo: prostituta, esposa de Jesus, mulher comum, apóstola, membro dos essênios... ela inclusive pode nem ter existido. O documentário se encerra com uma frase matadora: independente do que Maria Madalena tenha sido ou feito, ela foi o que a Igreja precisava que ela fosse.

    Isso me voltou à mente com os acontecimentos recentes. A morte de bin Laden despreza a verdade. Pensem comigo. Não importa se os EUA forjaram ou não sua morte. Não importa se eles sempre souberam a localização do terrorista, esperando apenas o momento oportuno de caçá-lo e entregar sua cabeça a um inseguro povo americano. Não importa se Obama usou Osama como moeda de troca pra conseguir capital político para uma reeleição. Não importa se o Paquistão fez os americanos de besta por dez anos gastando os bilhões de Bush e cia, ou se, em vez disso, tinha um serviço de inteligência claramente incompetente. Assim como Maria Madalena, independente do papel de bin Laden ao longo dessa guerra ao terror, sua função conveio ao que os americanos precisavam ao longo desses dez anos, seja quais tenham sido essas utilidades estratégicas e políticas.

    Quando pensamos nos inúmeros problemas sociais fáceis de resolver em nosso país e nos indgnamos ao pensar que a falta de vontade política inibe o processo, somos forçados a lembrar que ninguém quer ouvir a verdade. Ninguém quer saber como os interesses de uns emperram o de outros. A verdade, assim, consiste em alguns fatos sem convenções e desprovido de utilidades imediatas ou prática que venham a atrair interesses. Ou seja, eventos e circunstâncias em estado puro, ainda sem o verniz do fator humano para gerar relações de interesse. Nos tempos bíblicos, nem Jesus conseguiu explicar o que é a verdade. Eu, então...

    Pessoas que conduzem casos extraconjugais gostam de pensar que o que o(a) cônjuge ignora não pode atingi-la. Mas pensam o mesmo a respeito de si próprios? Percebam que a realidade consiste em oportunidades elaboradas de acordo com nosso caráter e índole. Nossos interesses são nossos preconceitos. Nossos interesses às vezes são o que há de pior em nós (inclusive as fraquezas), maquiado com crenças, ideologias e articulações com outras pessoas que pensam parecido. Queremos complacência quando temos interesses. Queremos que as vias tortas do que buscamos sejam deixadas de lado. Formas de se buscar isso? Buscar apoio dos iguais por meio de falácias ou conquistas fabricadas (pequenos sucessos bem propagandeados) que escondem grandes falhas. Mostrar empatia pela causa dos diferentes. Elementos básicos de retórica que Obama tem tentado aplicar após anunciar a morte de bin Laden.

    P.S.: alguns dias depois de divulgada a morte do terrorista, pairava no ar a sensação de que os estadunidenses estariam inventando a morte do barbudo por causa das eleições do ano que vem. Precisou a al-Qaeda confirmar a morte de seu líder pro mundo acreditar. Maravilha de credibilidade, exército estadunidense...

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