quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conjugação verbal

Por mais que algumas línguas os camuflem por meio de diretrizes sintáticas, verbos são daqueles elementos da Gramática Universal que regem, necessariamente, todas as línguas. A liberdade que encontramos no tocante às conjunções é copiosa nas línguas latinas. O que também pode ser observado em certas línguas do leste europeu. Línguas mais antigas, como o árabe, por exemplo, preferem, sempre que possível, subentender o verbo ser. O que parece um tanto agramatical para nós é, para as línguas mais antigas, uma forma de ressaltar as relações entre os nomes por recursos outros que verbos que não raro se flexionam bem menos que verbos, como posposições e sandis (o que não necessariamente é o caso do árabe). Pois bem, tendo isso dito, comum é que a tradição ocidental receba de braços abertos as mais variadas formas de conjunções verbais. Incomum é, entretanto, que esta criatividade lingüística se aplique aos pronomes. Não pelo fato de estes se alterarem de acordo com suas relações perante o sujeito e/ou objeto da frase, mas pelo fato de funcionarem como elementos enfatizadores do sujeito ao qual o discurso se dirige. No exemplo abaixo, não apenas isso procede, como também as premissas contextuais do verbo são livremente moldadas de acordo com a forma que os pronomes que o precedem são manipulados. Um verbo acaba tendo função reflexiva/recíproca quando menos se espera. Seria até possível se sugerir idéia de ação ou estado, de acordo com a presença ao não de um predicado verbo-nominal, mas com certeza Dona Clotilde cumpriu bem o propósito de seu discurso ao subverter a sintaxe tradicional da língua para se encaixar mais adequadamente a seus idílicos sentimentos para com Seu Madruga. Talvez por isso não fosse à toa os gregos possuírem quatro verbos, em sua língua, para o mesmo fenômeno rebelde do amor. Poderia escrever posts inteiros discorrendo sobre como a coletividade, de acordo com a interpretação que estes adotam dos sentimentos que a si se incorrem, constituem diatribes desconcertantes tanto no léxico quanto na semântica de uma língua (quiçá na sintaxe também), mas para o inicial propósito deste post, os concisos dizeres de Dona Clotilde serão suficientes.

Eu amo, tu amas, Seu Madruga ama, nós dois nos amamos...
(Dona Clotilde, conjugando o verbo amar)


Para não ficarmos apenasmente neste exemplo, vamos mencionar a seguir um fenômeno comum aos falantes de quaisquer línguas. Os cognitivistas e sua teoria de processamento de informação denominam como reprocessamento; Marcos Bagno a denominou como hipercorreção n'A língua de Eulália. Seja como se nomeie um termo, fato é que se trata de uma relação de tentativa e erro necessária ao aprendiz para adquirir uma língua. O reprocessamento consiste em, munido de dada bagagem lingüística acerca da língua que está aprendendo, como algumas palavras de seu léxico e as situações em que elas são empregadas, começa por elaborar discursos inéditos, que nunca lera antes mas que, mesmo que este não perceba, seguem uma lógica conveniente à forma como o estudante está apreendendo o conteúdo necessária ao aprendizado da língua. Para isso, o estudante incute numa excessiva generalização (padronização, por vezes) de certas regras da língua. Ou seja, o estudante tende a, enquanto ainda não aprende as irregularidades de uma língua, tratar todos os seus elementos com um critério de regularidade. O que ocorre perfeitamente no raciocínio de Chaves aplicado à conjugação do verbo saber. Por desconhecer a irregularidade que rege este verbo, ele o externa por meio do reprocessamento, desrespeitando as regras gramaticais, mas respeitando os critérios de uniformidade ao qual boa parte da língua o direciona. Em vez de Eu sei, o garoto do barril usa, em seu discurso, Eu sabo. Dito isso, cabe aqui uma ressalva: ao mencionar a hipercorreção, comvém explicar mais detalhadamente o termo, para evitar errôneo entendimento. A hipercorreção não é exatamente a elaboração de um discurso baseado no conhecimento adquirido pelo estudante, na intenção de aprendizado pela prática. Trata-se, antes disso, de um ato vicioso. Sem confiança na integridade gramatical do que diz, devido a um ensino mecânico e arbitrário na escola, o falante, no auge de sua insegurança lingüística, acaba por se ver corrigindo palavras que ele sabe que estão certas, por mera síncope lexical provocada por um complexo de inferioridade incrustado em seu conhecimento lingüístico, independente da extensão de seu conhecimento de língua. Ou seja, ele vê a língua como algo tão misterioso que se sente desprovido de confiança para falar livremente e acaba elaborando discursos para tentar se encaixar no dialeto predominante de sua língua. O exemplo de Chaves não se encaixa exclusivamente aqui, mas sempre que observarmos alguém tentando se adequar a uma forma de falar diferente e alheia à sua e acabar falando um discurso expresso sob uma correção desnecessária, aí teremos, exclusivamente, a hipercorreção.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Wrecking crew '98

É uma opção ingrata ser fã de puzzles, como é meu caso. Muitos títulos nunca chegam ao Ocidente por conta da aparente falta de interesse demonstrada aqui por esses títulos. Aparentemente, a Nintendo julga que a gente só se impressiona com gráficos coloridos, personagens coloridos e historinhas no esquema “vá até o castelo e salve a princesa”. Alfinetadas à parte, hoje falo de Wrecking Crew ‘98, excelente puzzle que foi lançado apenas no Japão, para download via um serviço de download chamado de Nintendo Power. Sucessor de Wrecking Crew, originalmente lançado para o NES, essa versão dá uma repaginada no conceito que seu antecessor trazia. Aqui a premissa é levada para a competição: você disputa com um oponente para ver quem quebra mais blocos e/ou quem consegue mandar mais blocos para o lado do outro. Sim, já vimos isso em Tetris Attack, mas apenas no Story ou Versus mode. Merecia um remake pro GBA ou mesmo pro DS, onde encontraria um público melhor. Quem sabe…

Enredo
Tudo começa com Mario retornando a Mushroom Kingdom, só para descobrir que Bowser iniciou uma campanha para construir novos esconderijos, que estão privando a flora da luz do sol. Assim, Mario decide pegar seu martelo e quebrar tudo com seu martelo. Simples assim, e isso alguns anos antes dessa modinhha do ecologicamente correto de hoje em dia. Durante o jogo, ele se depara com velhos inimigos, inclusive com seu ex-rival Foreman Spike (chamado de Blackey no Japão).

Jogabilidade
O game possui três modos de jogo. No Story, Mario percorre um trajeto por onde passa por cada um dos canteiros de obras dos Koopa. No Versus, o jogador pode competir com um amigo ou com a CPU, podendo escolher entre os personagens liberados no Story mode. O último modo, o Tournament, só é liberado após se terminar o Story mode. Oito personagens se enfrentam em caráter eliminatório, até sobrar um a ser declarado o campeão.
Aqui, ao contrário de Tetris Attack, não se tem o conforto de se manejar um cursorzinho versátil. Aqui, cabe a você controlar um personagem, a fim de manejar as peças. Ou seja, aqui rola uma terceirização do desafio. O que não deixa de ser uma boa pedida. A qualidade do desafio só melhora, aliada a uma apresentação mais amigável do desafio; você não controla uma mão invisível manejando os blocos, você controla um personagem fazendo isso. Alguém melhor que Mario?

Links externos
Video game Den: artigo no site sobre o game.

domingo, 10 de abril de 2011

Bloco de notas (XVIII)

A facilidade de reprodução de conhecimento alheio, além de deixar as pessoas preguiçosas, está banalizando a função da palavra escrita na sociedade: estamos perdendo referenciais porque a excessiva facilidade de cópia nos inibe e prescinde de elaborarmos nosso próprio raciocínio. Nas faculdades de hoje em dia, a cópia de material que não é seu tornou-se algo institucionalizado. Tão institucionalizado que começo a acreditar seriamente que, um dia, voltaremos à tradição oral: aquela época, no alvorecer da humanidade, quando a comunicação escrita ainda tentava se estabelecer em várias culturas e o conhecimento oralmente transmitido possuía mais credibilidade e valor. Lembremos que Sócrates se recusava a escrever seus pensamementos. Não fosse por Platão, ignoraríamos para sempre o pensamento dele.

A produtora Warner é especialista em cópia. Eles devem ter muitos acionistas chineses, só pode. Confiram alguns dos inúmeros exemplos de cópias baratas que eles criaram de modismos da indústria do entretenimento: Without a trace (CSI vagabundo), Cold case (CSI brega), Vampire diaries (Crepúsculo em temporadas), The L word (Sex and the city sem machos), The middle (Malcolm in the middle com mais mulheres), Nikita (cópia da própria série dos anos 90, mas sem a Peta Wilson e com a Maggie Q, meio baranga), Birds of Prey (tentativa desesperada de sugar a franquia Batman até a última gota), Fringe (arquivo X sem graça), Fastlane (como Velozes e furiosos, só que legal e estiloso), Supernatural (Ghost whisperer sem os peitos da Jennifer Love Hewitt), The Bachelor (namoro na TV com mais pegação), The OC (Dawson's creek burguês)...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aventuras da vida

Casamentos são como chás de bebê: celebrações feitas exclusivamente pro ego feminino. Homens são mera figuração. Recentemente fui a um casamento. E engraçado: me deu um aperto no peito tão grande que é como se eu fosse o noivo, em alguns momentos. Quando começou a me ocorrer as grandes mudanças na vida que essa cerimônia dá início, ao rito de passagem que representa, a cisão que ocorre entre sua juventude por conta própria e sua juventude com alguém a seu lado, fiquei estremecido. Um misto de terror com alegria me acometeu. Os olhos quase marejaram. É muita adrenalina para uma cerimônia realizada em uma igreja. Quem gosta de esportes radicais devia parar de perder tempo pulando de ponte suspenso por cordas de nylon: basta alugar um fraque, pagar um padre e a aventura radical começa. Pensem comigo: uma moça toda de branco que vai botar à prova suas aspirações, desejos e segredos. Cuja doçura e dedicação vai lhe entregar nas mãos uma das maiores responsabilidades que nos pode ser confiada em vida. No esporte radical, um deslize e você se quebra; no matrimônio, um deslize seu e o outro se quebra. Porra, pular de paraquedas é fichinha perto disso.


Texto sumário em cumprimento à política do blogueiro de não escrever textos pessoais, estilo diarinho.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Poipoint

E-mail que recebi ontem.


Tem um texto aqui que eu escrevi há seis anos atrás mas resolvi dar uma reciclada para um outro blog meu.

Sim, eu sei: esse ano tô cheio dos "projetos paralelos". Mas, se depender de mim, o rendimento por aqui não se alterará. Enfim, passem por lá por curiosidade. Quem não for daqui de Hell city não aproveitará muito do texto, mas fiquem à vontade.

Tipos de humor (II)

Dando continuidade ao post anterior sobre o mesmo assunto, trago mais alguns toques sobre humor.
  • Obviedade: quando um personagem quer explicar alguma coisa, este acrescenta detalhes inicialmente triviais. Mas, em seguida, vai acrescentando detalhes irrelevantes misturados com constrangedores, meio que insultando a inteligência de quem ouve. Este tipo de humor tem uma variante: um personagem quer elogiar outro, mas acaba levantando tantos pontos negativos a respeito de quem ouve que acaba perdendo seu propósito e nem percebe. Como o que fala obviedades até esgotar a paciência.
  • Discrepância entre fantasia e realidade: este é tão universal que rola até com quem não é engraçado. Nesse sentido, a vida é uma eterna comédia. Por exemplo, sitcoms como Scrubs constantemente exploram este recurso entre as fantasias de seu protagonista e a realidade que este vive no momento em que os flashes de fantasia lhe ocorrem.
  • Silêncio: esse apenas os grandes mestres conseguem fazer. Usar apenas de seus trejeitos e expressões corporais para fazer humor. Usar a ausência de palavras como elemento surpresa e como um fator importante para realizar comédia de erros, onde toda uma história cheia de confusões ocorre a partir de uma falha de comunicação simples que poderia ter sido resolvida com poucas palavras se as pessoas conseguissem usar seus dois ouvidos. Funciona redondamente porque as pessoas adoram ver reações das outras, sem o verniz de formalidades sociais. Pegadinhas são com pessoas comuns, e não humoristas, e sempre funcionarão.

#sequisso comofas

(texto perdido que eu tava quase desovando. Boa sorte.)

Tem coisas da natureza que nunca vou entender. Uma delas é o porque dessa decisão anatômica de se atribuir a um mesmo órgão a função de cópula e de urinar. Assim, por muito tempo (aliás, sempre será assim) o fato de se conquistar um território, ou seja, de quem mijar no território primeiro, é uma demarcação da masculinidade nossa. Como a de muitas espécies, diga-se de passagem. Teria a natureza, sempre guiada pela lei do menor esforço, aproveitado um instrumento com que o indivíduo já crescia para lhe atribuir também a função reprodutiva? Tentei evitar ser evolucionista, mas não deu. Exposta essa limitação de meu argumento, continuemos. Pensou o arquiteto lá em cima, 'pra quê criar um outro órgão só pra isso? Só de pensar na burocracia, na dotação orçamentária envolvida, nos estudos de impacto ambiental necessários e no certame licitatório pra aplicar essa alteração estrutural, já fico de fadiga. Só tenho seis dias pra pôr o projeto em prática, então façamos algumas adaptações.' Veja só, falando assim parece que o Todo-poderoso foi uma espécie de servidor público em repartição celestial.

Como vocês devem passarão a saber a partir de agora, qualquer fetiche envolvendo excrementos é uma forma de dominação sexual. Mas fico pensando, o que levou nossa espécie a, em seus primórdios, concentrar seus esforços de procriação em seus órgãos excretores? Vejam bem, em algumas espécies, essa parada é terceirizada. Plantas e flores, por exemplo, esperam outros insetos recolherem seu material genético para aí sim estes o aplicarem em outras fêmeas. Seria algo muito prático para nossa espécie, convenhamos. De certa forma, tentamos replicar esse comportamento com tratamentos de fertilidade, por exemplo. Por outro lado, não teria sido mais fácil a gente desenvolver algum comportamento social mais prático para essa função? Vejam o desequilíbrio: no século passado a população humana cresceu tresloucadamente, vitaminada por avanços da medicina que cortaram pela raiz motivos banais de grandes taxas de mortandade de doenças antes incuráveis, aliada a uma cultura reprodutória herdada do século XIX pra trás, a de ter o máximo de filhos possível para que uma quantidade aceitável deles, após passarem pelo controle de natalidade que doenças naturalmente exerciam, chegue à idade adulta.

Mas nãããão, em vez disso a solução proposta para o dom de continuar do cerumano (sic) foi: você, macho, vai correr atrás de uma outra fêmea e vai demarcar seu território genético. Só que, em vez de mijar a coitada todinha, vamos colocar um outro canal em seus genitais para inocular seu material genético. Nada contra, aliás; com a capacidade de obter prazer envolvido, quase faz sentido. Eu tinha uma sugestão melhor de outro orifício para essa tarefa, mas o texto tá ficando tão bizarro que ainda vão colocar bandeirinha neste singelo blog por causa disso. Azar, vamos em frente. Não, bonecas, não falo do orifício retal, se é o que pensaram. Falo do bucal, mesmo. Já usamos a língua pra tantas razões nefastas; seria conveniente mantê-la ocupada com algo mais útil. Salvaria muitos casamentos. Funcionava com Linda Lovelace...

Fico pensando, numa espécie como a nossa, sujeita a tantas mudanças sociais e fatores externos alheios à própria natureza (ou não?), esse modelo será definitivo? Possivelmente, não. E nem falo do que a tecnologia nos propõe. No pé em que estamos, ainda calha de rolar uma adaptação evolutiva qualquer para que o dinheiro exerça o mesmo papel das abelhas nas plantas, o de carregar material genético pra fecundar as fêmeas. Seria a natureza atuando como facilitadora (preciso parar de usar esses termos de RH). Não estranharia; as soluções de design e de funcionalidade dela não são infinitas, mesmo...