segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Nasca de bacana

Com este texto inicio uma série de sete posts que escrevi una anos atrás, dum "projeto pessoal" meu: Chaves e a linguística. Que só não foi pra frente por preguiça falta de tempo vergonha na cara minha. Quem sabe esse ano não tomo vergonha na cara e dou algum rumo às bobagens outrora escritas! Enquanto delibero sobre meu ócio criativo, confira no que deu...


O spoonerismo consiste em um jogo de palavras, onde consoantes, vogais ou morfemas têm suas posições trocadas. Esse nome é originado de William Archibald Spooner, diretor do New College, em Oxford, na Inglaterra, notório por sua propensão a elaborar frases com esse tipo de troca fonética. É um fenômeno comum a muitas línguas, e exerce diferentes funções em cada uma delas. Tanto no espanhol como no português, por exemplo, tem função eufemística (não raro camuflam expressões de baixo calão). Já em idiomas como o polonês ou o francês, o uso humorístico (por vezes espirituoso) é mais comum.
A maioria dos spoonerismos ocorrem com frases, mas pode ocorrer também de o spoonerismo se encerrar em uma única palavra. Quando Fofão ainda tinha seu programa na tevê, por exemplo, ele não raro se saía com criativas diatribes lexicais como lemancia (melancia). Abaixo seguem alguns exemplos utilizados pelos personagens de Chespirito. Reparem na peculiaridade de alguns exemplos. Não creio que poderíamos classificar o fato de a ordem de certas palavras se alterar, ao pé da letra, como spoonerismo, mas de qualquer forma o efeito humorístico foi obtido...

Nasca de bacana
Violar tocão
Palma, palma, não priemos cânico
É muita barriga, senhor bondade.

A conistra, aquela que fica com o micofrone, parece que eu to falando gegro?
Sou professor e meu nome não é lingüiça, sou lingüiça e meu nome é professor! Digo, sou professor e meu nome é Girafales!

_ Chaves, você tá chorando???
_ Não, não, estou lavando os olhos de drento pa frora...

_ Você nunca teve peixinhos coloridos Chaves?
_ Não. Sou tão pobre, que nunca tive peixinhos nem em petro e bancro.

Muito antes de esse termo ser cunhado, porém, a lingüística já contava com uma terminologia para relatar semelhante processo, denominado metátese. Ao contrário do spoonerismo, ela não ocorre de forma intencional e não é cunhada por indivíduos ou idioletos, mas pela coletividade falante de uma língua. Normalmente ocorre pela troca da ordem de dois fonemas adjacentes. Muitas línguas chegam a utilizá-la como função regular de suas gramáticas, aplicando-a, por exemplo, em declinações ou conjugações verbais. Metásteses causas alterações lexicais que acabam ocorrendo paulatinamente em uma língua, fomentadas por erros de pronúncia de seus falantes, assim julgados pelos gramáticos, mas interpretado pelos lingüistas como um inevitável fenômeno lingüístico, na infindável tendência, presente em quaisquer línguas, de redução do discurso e/ou, mais comumente, de busca por maior facilidade de pronúncia (motivos de ordem fonética que se explicam na utilização do aparelho fonador, cujas certas combinações fonéticas encontram maior facilidade para serem usadas e acabam alterando uma língua, de forma alheia à opinião de estudiosos da língua).
Uma forma de metátese intencional é denominada vesre, normalmente usada por falantes do espanhol rioplatense, na Argentina. De pouca propagação entre os falantes hispânicos, é uma forma de metátese mais restrita, aqui citada apenas a medida de curiosidade. Funciona mais como tabu lingüístico, seja para propiciar uma dada atmosfera nas letras de tango onde é comumente aplicada, seja para discursos coloquiais. Uma outra forma de metátese, menos conhecida e sem natureza regional como a anteriormente citada, é a metátese quantitativa. A troca da ordem de dois fonemas não ocorre; em vez disso é a ordem da tonicidade que é alterada. Como se um ditongo viesse a se tornar hiato. Um exemplo pode ser extraído do grego ático: [neõs] "de um navio" foi derivada da forma anterior (Ático-jônica) [nêos].


Nota: a transcrição do grego não funcionou na hora de publicar. Mais tarde tento achar uma solução para isto. Até porque um blog que fale sobre lingüística vai, inevitavelmente, precisar disso mais cedo ou mais tarde. Até mais...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Muro das lamentações humorísticas (II)

Continuando nossa saga, escolhi mais alguns nomes para apedrejamento público.

Marcelo Tas: velho demais pra bancar o Ernesto Varela, comanda um programa onde sete jovens realizam um "jornalismo" que ele fazia vinte anos antes. Ele devia desistir da Tv e ser astrólogo. Porra, não aguento mais ouvir sobre essa merda de Era de Aquário que ele tanto fala. Tománocu. Sou fã do Tas desde criancinha, mas como estamos diante do Muro, não devo desviar de meu foco aqui. Sorry, carequinha...
Monica Iozzi: nunca encontrei mulher engraçada, e você? Ela na cozinha, fica difícil ouvir suas piadinhas hilárias...
Felipe Neto: esse aí faz o que qualquer fã de Restart tenta quando falam mal da bandinha favorita deles: grava tipo um videocast, fala sem propriedade de qualquer assunto e joga na interwebs como se alguma força divina o qualificasse a criar "conteúdo". Aliás, é gente como ele que banaliza esse termo.
Repórter vesgo: quando difamação virar sinônimo de humor, me avisem. Entrarei em contato com os organizadores do Aurélio para eles realizarem as devidas correções em seu dicionário.
Christian Pior: trocar receita de bolo com a mulherada agora é humor? E falar mal das roupas de celebridade, é humor também? Xii, não contem isso pro Ronaldo Esper ou ele vai entrar no standup também.
Claudio Manoel: ele está aqui não pelo fato de ter vendido sua alma pra Globo há quase vinte anos, nem por fazer humor para um público tão interessante quanto seus personagens. Ele tá aqui por causa do Seu Creysson. Cara, essa piada cansou faz tempo. Cansou tanto, mas tanto, que vários dos cassetas, presos no esquema da Globo e esse humor cheio de amarras, careta e politicamente correto, tocam projetos pessoais. O Helio de la Peña, por exemplo, até participa de alguns vídeos da nova geração da internet. O Reinaldo gosta de desenhar charges, e esporadicamente as publica em seu blog. Agora o Cláudio... faz questão de testar nossa paciência perpetuando essa piadinha gasta. Não tinha uma piadinha da labareda também, na época em que o seu Creysson foi criado? Então. Quando humorista inventa de usar escatologia em seu humor, dá pra perceber que é o começo do fim de seu auge criativo. Sem mais.
Charlie Sheen: o humor dele é limitado porque se baseia nos excessos de sua vida privada. E só. Seria quase engraçado se não fosse trágico: ele tem bastante em comum com Netinho, Kadu Moliterno e Chris Brown, se é que me entendem. Ele até tem umas teorias quase interessantes sobre o sexo oposto, mas os diálogos de sua atual sitcom não são naturais e apenas perpetuam estereótipos machistas. Nem sempre isso é ruim. Mas muits vezes é. Pelo menos tem aquele garoto pra aliviar um pouco esse humor primário, calcado na esbórnia, dele.
Ben Stiller e Eddie Murphy: vou botar os dois no mesmo saco porque vão passar o resto de suas carreiras fazendo exatamente o mesmo personagem. Aparentemente, originalidade deixou de ser uma fonte de humor.
Miguel Falabella: basicamente o humor dele consiste em esconder sua homossexualidade com humor machista, com direito a muita pegação em peças de teatro, novelas medíocres e monólogos sobre pobre. E com sotaque carioca que é pra dar mais malandragem.
Pedro Cardoso: ele tem um estilo brilhante. Tenta fazer humor sem contar piada alguma. Ele começa a falar, embola as palavras, arranca toda a coesão e coerência do que tenta dizer, e no final acaba não dizendo nada. Nem sei porque ainda dão scripts pra ele quando vai filmar no Projac. Assim até eu faço humor; vou encher a cara até minha língua enrolar e não conseguir dizer mais nada inteligível. Murilo Benício é aspirante a ele, não se enganem.
Deznecessários: vamos começar pelo trocadilho, desnecessário mesmo. E vamos continuar pelo preço do show desses caras: R$70! Acrescentemos que eles são fabricados pela MTV. A mesma MTV que paparica a família Restart hoje em dia. Então decerto é mais um daqueles grupos de "humor" anódino, sem nada de novo, que se acham engraçados por causa da legião de analfabetos funcionais que os seguem no twitter.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Indícios de nossa síndrome de viralata

Legal: tomamos empréstimo de um adjetivo, do jargão do Direito, que denota algo que está de acordo com a lei, e adicionamos a ela o significado adicional de algo divertido. Ou seja: de acordo com nosso vernáculo, algo só é divertido se não subverter lei alguma. Das duas uma: ou isso sugere como a hipocrisia de nossa sociedade é pululante, ou conota como nossa mentalidade de colônia permanece até hoje (já que isso nos faz entender que algo só é permitido se tiver o aval de alguém de toga). Um contexto que soa a deboche quando observamos como nossas leis funcionam mais como irregularidades e obstáculos administrativos do que regras funcionais. Assim, o excesso de obstáculos nos quais muitas leis acabam configurando, as saídas pela tangente que a sociedade cria, a fim de atender seus interesses, nos coloca num círculo vicioso de descumprimento de leis. Nada legal...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Super Mario Picross

Tem coisa mais japonesa que Sudoku? O mesmo pode se dizer de Super Mario Picross. Esse joguinho estilo Puzzle faz bastante sucesso no Japão, mas é pouquíssimo conhecido por aqui. Esse é o tipo de diversão para aqueles cansados de pisar em tartarugas e tomar chá de cogumelo. Consiste em, numa tábua de pedra, bater nos quadradinhos a fim de se formar uma imagem oculta, que só é revelada ao se bater nos quadradinhos certos. Para te ajudar nessa tarefa, as colunas e as linhas possuem números que funcionam como dica. Qualquer semelhança com alguns passatempos da Coquetel não é mera coincidência. Aqui, é preciso adivinhar os quadradinhos certos por meio de interpretação ou exclusão. Exatamente como vovô faz quando compra as revistinhas de Palavras Cruzadas nas bancas. Com a vantagem de você não precisar ter um vernáculo considerável pra se dar bem. Raciocínio lógico é tudo o que interessa nesse passatempo viciante.

Sucessor de Mario Picross, para o Game Boy, a Nintendo não lançou este game no Ocidente devido às vendas pífias de seu antecessor. Contudo, o game pode ser adquirido no Virtual Console do Wii desde 19 de dezembro de 2006, onze anos depois de seu lançamento para o SNES. O jogo é compatível com o Super Famicom Mouse, acessório do SNES que replicava na tela o movimento do ponteiro de um mouse convencional. A razão maior de ser desse acessório se deve a Mario Paint, mas isso é assunto para outro texto. Prosseguindo, esse jogo é um exemplo da habilidade da Nintendo em desenvolver puzzles intuitivos e altamente viciantes (ao lado, a tela de seleção do Level 1, com um total de doze puzzles). A mesma Nintendo que desenvolveu a melhor variante do Tetris feita até hoje. Uma reinvenção da roda. Falo de Tetris Attack, outro texto a ser postado aqui. Mario’s Super Picross é daquelas opções de game perfeitas para quem não tem muita familiaridade com o mundo doa games em geral. Aqui, requisitos mais avançados para um jogador experiente, como reflexos, noção de espaço e de comandos básicos de um jogo são dispensadas. Tudo que interessa é ir quebrando os bloquinhos até formar a imagem oculta. Brilhante, simples, divertido.

Jogabilidade
De comandos simplérrimos, o game dispensa muitas explicações nesse sentido. Basta usar as setas direcionais do controle, quebrar um bloco com o botão A e marcar um bloco com um pequeno xis com o botão B. Dá até pra se visualizar com uma revistinha Coquetel em punho, rabiscando quadradinhos. A desvantagem maior é o game estar em japonês (o relançamento para o Virtual Console não foi traduzida para o inglês), mas as telas são bem intuitivas. Umas breves animações aparecerão e, em seguida, os menus com todos os levels disponíveis aparece para o jogador escolher e se esbaldar. Na imagem ao lado há um dos desafios do level 1. Na parte superior esquerda encontra-se um relógio. O jogador tem 30 minutos para resolver o puzzle. Parece pouco? Cada quadradinho que você bater errado tem uma penalidade que varia de 2, 4 ou até 8 minutos a menos na contagem regressiva. Então use e abuse dos pequenos xis, nos quadrinhos que você julgar não precisar quebrar. Repare nos números nas linhas e colunas, como comentei no começo do post. Ah, mais uma coisa: antes de cada puzzle, o game pergunta se você quer uma dica. Em japonês, mas pergunta. Um pontapé inicial pros iniciantes, de qualquer forma. Encerro por aqui dizendo que um game desses só chega a um jogador brasileiro por meio de um trabalho quase investigativo, mesmo: por meio de download de rom ou artigos em sites de games. Mas não desanime; a Nintendo continua lançando versões novas desse puzzle para seus portáteis, essas sim em inglês e disponíveis no mercado norte-americano. Dê uma chance a Mario’s Super Picross e divirta-se!

Trivia
  • No Level 1, os oito primeiros puzzles são com letras (no caso, kanas, já que o alfabeto japonês é silábico) do título original do game em japonês: Ma-ri-o-no-Pi-ku-ro-su. As quatro últimas do Level 1 já são pequenas imagens para o jogador desvendar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Metáfora do serviço público

Atualização: o link a seguir possui uma versão traduzida do vídeo. Cliquem no botão CC, embaixo do vídeo, para ativar as legendas. O botão vai ficar vermelho e as legendas aparecerão.


http://www.youtube.com/watch?v=0UrxTNX9tS4

Seguindo com o post.


Esses dias matei saudade da infância assistindo a uma animação dos franceses Uderzo e Goscinny: os doze trabalhos de Astérix. Pechincha de fim de ano do Submarino; cada DVD por R$10; lógico que enchi o carrinho. Engraçado que, ainda na primeira vez que assisti quando pequeno, um trabalho me chamava mais atenção por sua complexidade que os demais: o oitavo trabalho. Consistia em os dois gauleses adentrarem a uma repartição pública e saírem de lá com uma autorização, que os levaria à próxima missão. Aqui, a poção mágica que dá força sobre-humana aos personagens é inútil, fato que os próprios personagens admitem. Se preferirem confirmar isso na Wikipedia, me adiantei e traduzi do francês pra vocês.


Obter a autorização A-38 no prédio dos loucos
É um prédio burocrático de vários andares, onde o pessoal (incluindo alguns loucos), encaminham Astérix e Obélix de um escritório a outro, a fim de reunir todos os formulários necessários para se obter a autorização A-38. Depois de ficarem desorientados e à beira da loucura, Astérix se recompõe e decide virar o feitiço contra o feiticeiro, solicitando um formulário imaginário (A-39) de acordo com a norma circular B-65. Todo o pessoal se mobiliza em busca do novo formulário, deixando o prédio abandonado. Por fim, o formulário A-38 aparece "graciosamente" para restaurar a ordem nos escritórios, como solução para o pedido do formulário fictício que Astérix solicitara.



E vejam que fantástico: o Youtube tem a cena em específico. Tem coisas que só a internet faz pra você. Continuando: porque mencionei esta cena específica da animação? Porque ela é a mais clara e cristalina metáfora do serviço público, da burocracia insulada e ineficiente. Deviam até mencionar esse longa em cursos de administração pública, sinceramente. É uma produção de 1976 mas é bastante atual. Você chega à repartição e faz um pedido, mas a rotina administrativa para a execução dessa tarefa não é clara. Muito menos centralizada; não raro é preciso percorrer várias salas a fim de se realizar a tarefa de forma fragmentada. O público se sente inseguro, com a sensação de que será enganado a qualquer momento. É um fato do conceito de burocracia criado por Max Weber: não há nada pior para um burocrata do que admitir um erro. E é por isso que há a tendência de este acobertar suas falhas e usar o próprio sistema como álibi para a demora (ou falta de vontade) na execução de uma tarefa.

Reparem no patrimonialismo que muitos personagens dessa repartição apresentam: um dos chefes chega a usar sua própria sala como playground, sentado num balança e sendo empurrado pela secretária. Numa outra sala, duas atendentes conversam como se sequer estivessem trabalhando. E a falta de capacitação: o velhinho na recepção que encaminha os personagens a uma sala que não existe. A inaptidão da atendente do guichê 2, que não percebeu que Asterix lhe faz um pedido de um documento que não existe e faz com que todo o pessoal da repartição fique pra cima e pra baixo em busca desse documento. O "homem burocrata" impera nessa repartição: ele não é proativo e se fecha em sua rotina de trabalho, alheio às necessidades que a modernidade e as particularidades da solicitação do público pedem. Eu inclusive me lembro duma matéria que vi na Tv há muitos anos. O sujeito precisava de uma declaração (ou um documento, não sei precisar) do INSS. Ele tentou pelo telefone mas sempre o passavam para outras pessoas, que por sua vez lhe encaminhavam a outras, sem a menor perspectiva de atender o pedido dele. Então o que ele fez? Se passou por chefe de um dos setores da instituição. E o pior: conseguiu o que queria. Um funcionário que não existe teve um pedido atendido.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Google e a imprensa

Esqueça a Reuters, esqueça a France presse, esqueça a CNN. A notícia em tempo real não é mais o bastante. Imagens de satélite e gravações de celular in loco, sim. Para o segundo, a Google ainda não inventou um serviço pra isso (se bem que temos o Youtube), mas para o primeiro...

Ninguém mais noticia nada sem as imagens de satélite do Google earth e as imagens em solo do Google Street View. Virou modinha as redações de jornais online fazerem um antes e depois tendo como antes uma imagem gerada pelo GSV. Enchente na região serrana do Rio? Dá-lha imagem do GSV com uma barrinha central, para que o usuário veja uma imagem de depois da tragédia se sobreponha a do antes e vice-versa. Protestos da oposição egípcia pedindo renúncia do ditador deles? Mesma coisa. Vejam como são as coisas: ficou tão fácil fazer notícia hoje em dia que as mídias tradicionais parecem buscar uma dimensão nova às tragédias que noticiam. E mesmo assim todos os jornais noticiam sempre a mesma coisa. Sempre o mesmo roteiro de notícias. Nenhum esboço de se buscar alguma forma de se diferenciar. Jornalismo não é um trabalho criativo, mas isso não é desculpa quando se tem a internet amparando sua geração de profissionais de mídia.

É como eu comentei com um amigo esses dias, após ver o tom de reality show que a Globo deu ao noticiar pela primeira vez os deslizamentos de terra e enchentes na região serrana do RJ. Eles exploravam descaradamente as emoções alheias, e depois a pauta das matérias se encerrava como mensagens daqueles e-mails motivacionais em arquivos do Power point que você recebe no e-mail (pior que isso, só quando a Globo tenta combinar literatura com esporte, falando dos atletas como se estievssem lendo um trecho da Odisseia). Usaram o tempo integral do jornal pra falar da tragédia, como se aquilo fosse um paredão de Big brother qualquer. Eu fiquei estarrecido. Ver a carinha de apavorada da Renata Vasconcellos fazendo reportagem de campo foi lindo. Achei que a mulher ia desatar a chorar a qualquer momento ao vivo. Só faltou o Bial aparecer pra falar com quantos porcentos de votos ela foi eliminada desse reality show infame. O conceito de vídeo foi tão desconstruído pela internet, e pela própria televisão por assim dizer, que nossa percepção de realidade anda deturpada. Tudo na TV sempre foi espetáculo, a novidade agora é que temos um espetáculo mais "realista": temos acesso aos bastidores de tragédias tão facilmente que é como se a realidade fosse um DVD cujos extras são melhores do que o filme em si. Ficou mais fácil ainda dispersar o senso crítico do consumidor de notícia: é só a gente explorar seu lado mais sádico e paranoico, mostrando antes e depois de tragédias (e esporadicamente algum documento oficial vazado pelo Wikileaks). Se alguém for assassinado e tiver perfil em rede social, ainda melhor. É como se a informação tivesse virado só mais uma extensão do Google. Quem diria, o Programa do Ratinho parece vanguarda depois desse papelão dos urubus da Globo em relação às tragédia da região serrana do Rio...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Constrangimentos da vida moderna

Tirinha de Dario Velasco, no site Na capa.

Não é com embaraço que a gente pode parar pra pensar que hoje em dia, nos empreendimentos atualmente construídos, não raro dedicamos mais espaço para estacionar nossos carros do que para construir o empreendimento propriamente dito? É como se, toda vez que você comprasse algo novo para seu quarto, tivesse de reservar um espaço para as caixas que vieram com o produto. Vejo esse ridículo em meu quarto, já que durmo com meu irmão. Do meu lado da cama, pode-se observar relativa organização: não empilho nem amontoo nada . Do lado dele, inúmeras caixas sem serventia alguma, livros reunidos na horizontal (a pior forma possível de se organizá-los; já viu biblioteca sem livros na vertical?) e roupas e toalhas poluindo o campo de visão.

Nossas cidades servem aos carros como nunca antes na história deste país (#lulismoinvoluntario). Nós não chegamos aos endêmicos níveis estadunidenses disso, mas estamos nesse rumo. Os carros estão maiores, mais modernos e mais seguros. Só as ruas que continuam do mesmo tamanho. Sustentabilidade zero. O calcanhar de aquiles de qualquer centro histórico de qualquer cidade. Nossa indivualidade está cada vez mais encerrada em quatro rodas. Andar a pé tornou-se um hábito estigmatizado. Segurança pública tormou-se meio que um mito. A sensação de medo tornou-se um estigma. Nesse ritmo, carro será literalmente considerado um imóvel (vide a tirinha do rodízio de gente aqui, nesse texto do ano passado).

Seria interessante imaginar algo assim. Um nomadismo veicular. Com a crescente virtualização de nossas vidas, nada tão intangível assim: muitos não deixariam de trabalhar só porque estão no trânsito; basta sacar um laptop ou mesmo o celular e mandar ver. Um dia os engarrafamentos de São Paulo não terão mais quilômetros, mas sim dias, de lentidão. Se perder não seria problema; o GPS será tão popular que ainda vai chegar nas geladeiras, um dia. Saber o percurso do entregador de pizza e integrar seu celular para prever eventualidades na entrega ainda será um capricho que as novas tecnologias podem trazer. Comer também não seria problema; ninguém mais cozinha hoje em dia, mesmo. E adaptações para essa alienação sobre quatro rodas não falta; temos os drive-thrus.

Até os motoboys teriam de se adaptar a essa nova realidade: uma encomenda não teria mais endereço. Teria uma direção do tipo: "Corolla azul no km 15 da Av. Brasil. Deixar pacote no porta-malas." E os classificados? "Vendo Corolla azul pouquíssimo uso apenas 5 dias de lentidão." Para quem tem filhos, adaptações surgiriam. Os filhos não iriam mais à escola, mas sim a ônibus itinerantes transformados em sala de aula, o que descentralizaria o ensino da instituição e possivelmente inviabilizaria recreios ao ar livre. Acesso a hospitais também não seria problema; ambulâncias existem desde sempre. A administração pública decerto também se tornaria móvel, mas daria um jeito de importar sua inépcia técnica nesse contexto: carros com pouca gasolina, mal equipados, superfaturados, com vícios administrativos ou sem revisão adequada não faltariam.

E levando-se em conta a quase impossível mobilidade sobre quatro rodas, muitos voltariam a andar de bicicleta ou moto. Carros passariam a ter campainha, câmera, película no vidro e interfone, numa transferência de mercado realizada pela indústria do medo. Algumas avenidas teriam o trânsito tão imóvel que associações de moradores começariam a surgir entre os motoristas, para que as pessoas busquem algum tipo de representação junto aos órgãos públicos, já que a impossibilidade de estacionar ou retirar seus veículos de casa o forçará a transformar o interior de seus carros em lar. Em pouco tempo, a inviabilidade da coleta de lixo como a conhecemos gerará um volume de lixo inimaginável nas ruas. Abrir a porta do carro significaria ter de retirar boa parte da camada de lixo ao redor pra conseguir andar pela rua.

Como sempre, os ricos nem se coçariam: continuariam a voar em seus helicópteros. A classe média continuaria a se enforcar em sua eterna hipocrisia, reclamando dos problemas sem lembrar que ela mesma os perpetua. Os mais pobres trariam alguma alternativa que as classes mais altas tratariam de marginalizar. É só a gente ver como as autoridades lidam com motoboys e ciclistas que reivindicam a instalação de ciclovias. Imaginem a reestruturação urbana, o remanejamento de escritórios e comércio que uma situação apocalíptica assim traria. Engraçado como esse meu exercício de futurologia remete remotamente a Fuga de Nova York do Kurt Russell... =p

Mas não se engane: provavelmente a venda de carros novos não seria afetada. A indústria automobilística é quase intocável; só perdem pros bancos em relação a poder. Pensem em como eles foram tratados na crise econômica de 2008: foram carregados no colo pelo Banco Central estadunidense. Receberam até redução do IPI aqui, só para que as vendas não fossem inibidas pela crise. Esses caras ainda vão transformar nossas ruas num mar de carro, mas mesmo assim não deixarão nunca de ganhar dinheiro. Eles poluem, mantêm lobbys poderosíssimos em cima de transportes alternativos, matam milhões de pessoas todos os anos e vendem itens de segurança opcionais como airbags como se estivessem fazendo um favor às pessoas. Esses caras são do mau.

Como vocês podem ver, nesse texto meu pessimismo em relação ao futuro foi elevado ao status de sátira social, no melhor estilo Idiocracy. A vida continuaria, mas a propriedade privada teria de ser repensada. Sabe, quando, nos Estados Unidos, os políticos tentam realizar a reforma do sistema de saúde, garantindo acesso a saúde pública, os opositores afirmam que isso seria uma espécie de "comunismo", já que minaria a escolha do consumidor em relação a como se tratar. É um argumento perverso, distorcido e demagogo, mas creio que resume bem as consequências dessa autofagia do capitalismo. Somos forçados a adquirir algum senso de comunidade quando a individualidade é cerceada ou inviabilizada. Democratizar algo não é ser menos poderoso: é apenas um planejamento de como se manejar o poder já existente de forma sustentável. E isso também se aplica à forma como organizamos o trânsito em nossas cidades.



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Nota: Por ocasião de uma ideia levantada antes do post anterior e da viagem na maionese que acabo de divagar acima, fui lembrado desse texto aqui. Estou começando a me esquecer das coisas que escrevo. Vou comprar um Biloba e já volto. =p