segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Impressões sobre a capital federal

Nada como viajar para as ideias circularem melhor pela mente. Depois de dias cheios de experiências inéditas demais e semanas sem dedilhar aqui, estou de volta. Como eu sou do contra, eu não sou daqueles pseudos metidos a cult que falam dos programas de índio que fizeram em metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro (torcendo pro ônibus levar apenas duas horas pra voltar ao local onde se hospedou). Nada disso, não gosto de ser mais um. Mas pelo menos serei mais um a trazer observações particulares sobre a cidade planejada erguida no nada do cerrado brasileiro de 50 anos atrás. Brasília, para quem sempre morou em capital como eu, não é apenas uma cidade: é também uma experiência. Descubramos porque a seguir. Até porque não tenho muito a fazer por ora: o sol do cerrado castigou minha pele enquanto escrevo.
  • Pra começo de conversa, fiquei menos ingênuo ao chegar ao Congresso Nacional. Minha semimiopia sempre me deu a falsa certeza de que aquelas duas torres entre aqueles dois semicírculos ficavam em cima do teto do Congresso. Ledo engano, as duas torres se erguem bem atrás. Aquela admiração que eu tinha de ver dois prédios daqueles se erguerem tão ousadamente de uma laje se perdeu para sempre. Tudo bem que o Niemeyer adorava brincar com a gravidade, construindo uma pontezinha suspensa entre as duas torres, rampas que desafiam a gravidade e prédios cheios de curvas. Mas foi com certo pesar que eu descobri que, como quaisquer outros prédios, as duas torres também precisam de alicerces. Talvez isso funcione como uma eficiente metáfora sobre os nobres parlamentares que lá deliberam sobre formas novas de nos roubarem: a gente vê o poder tentando tocar o céu mas não vê suas fundações.
  • Uma cidade onde não se precisa saber nomes de rua ou bairro: o sonho de qualquer pessoa que precisa explicar um endereço a um terceiro. E possivelmente o pesadelo dos carteiros. Uma cidade onde as ruas são eixos, os bairros são quadras e superquadras e regiões são setores. Uma cidade cujo planejamento sem ruas não permite uma extensão (tão) escandalosa da vaidade de políticos mortos dando nome de rua. Gente que come capim pela raiz cujo nome batizando logradouros nada diz sobre a obra inaugurada ou o sentimento de pertencimento das pessoas que por perto residem ou circulam. Brasília é o sonho dos tecnicistas.
  • Pombas. Numa cidade que surgiu do cerrado, até elas foram importadas. Na praça dos três poderes, por exemplo, elas só dão o ar da graça por causa de uma estrutura vertical que favorece o surgimento delas, cheia de vãos que favorecem o aninhamento delas. Engraçado a gente pensar em pombas como um frívolo luxo, mas tragamos pra cá o contexto da região: uma praça disposta imediatamente atrás do Congresso Nacional, rodeada pelos principais órgãos dos poderes judiciário, legislativo e executivo. Um calor insano. Um simbolismo da democracia calcado em concreto e mosaicos no chão. Um descampado sujeito a um urbanismo que privilegia grandes espaços abertos cercado de verde. Um projeto de país, ante suas proporções colossais, às vezes escorrega nesses maneirismos europeus.
  • Casas com reduzidas expressões de individualidade, dispostas em prédios com quantidade de andares, vagas e interiores rigorosamente padronizados. Aparentemente, moradias são algo levado em segundo plano em qualquer cidade comum. Bairros surgem de forma marginal a regiões de relevância comercial, que por sua vez surgem de forma orgânica. Ou seja, é de quem chegar primeiro. Uma replicação impensada da lei da selva. Sem falar no desrespeito ao direito do próximo de ser senhor de sua liberdade. Mas na capital federal, os moradores são parte da cidade. Uma integração curiosa é promovida: você não se dirige aos produtos e serviços; eles parecem ir até você, dispostos ao lado dessas quadras residenciais. A cidade te acolhe em vez de te conduzir feito gado pelos mesmos caminhos. Todos os caminhos levam a Roma. Brasília leva a todos os caminhos sem se enforcar no ego de um império, como rolou com os romanos. As asas abraçam seus moradores e transeuntes. O caminho é descortinado horizonte afora, e não encerrado em esquinas e viadutos obscuros.
  • Muitos podem pensar que Brasília se limita a um arroubo criativo delineado pelos egos de Niemeyer e Lúcio Costa. Além de um plano de país há muito adiado, temos um país em processo de organização, que ignora sua história mas repensa suas prioridades de desenvolvimento. E nós, brasileiros, elevamos essa rasa metáfora a uma colossal conquista em pleno cerrado, encerrado em prédios de arquitetura datada, encontrada apenas em livros de arte. Porque somos uma nação de leveza cultural (sem grandes traumas históricos) suficiente pra empenhar grandeza em nossas metas. Temos vontade de ser melhores, e a capital serve para nos lembrar que, apesar de o Brasil não ser um país sério, temos instituições mais sólidas que as construídas pelos candangos: temos a brasilidade. A mesma que nos constrange (vide comemorações dos 500 anos) é a mesma que nos alça a voos maiores. Ser ufanista é abraçar com ciência as peculiares contradições de sua nação.


  • Lugares provincianos como o Pontão do Lago Sul refletem acidentalmente tanto a vaidade das elites quanto os deslizes do poder: por ela passa a ponte JK, cujas estruturas falhas permitem que apenas veículos leves, a velocidades médias de 40 km por hora sigam em frente. Até as obras mal-feitas funcionam como metáforas das desigualdades sociais desse país. Quanto ao povo, temos o frescor de uma cidade recente, ainda construindo seu sotaque e dotado de certa neutralidade em relação à mentalidade de seu povo. Brasília talvez não seja especificamente um reduto de regionalismos e bairrismos culturais como nos grandes centros: é antes encontro deles. Um inesperado palco étnico onde o público é o ator.
  • Sempre que fazia conexão em BSB, me referia ao local como o "aeroporto dos Jetsons". Não é para menos; janelinhas redondas tem por todo lado. Além do visual arrojado que acentua a atmosfera futurista do lugar. É como se, ao construírem a cidade, quisessem que o visitante se sentisse dando um passo em direção ao futuro. No saguão, sentimos alguns passos em direção ao passado; políticos viajando com passagens e diárias descaradamente repassadas a esposas e sogras é o que não falta. Em todo caso, ao sairmos do saguão, não vemos o que o Brasil é, mas o que ele almeja ser. Esta cidade às vezes acaba sendo uma sublimação da vaidade do brasileiro.
  • Os templos religiosos são algo à parte. É sabido que deixar nas mãos de um ateuzinho sem-vergonha como o Niemeyer a construção de igrejas é algo questionável. Sem falar que o Estado é laico e a catedral fica pouco antes da Esplanada dos Ministérios. Por mais que a catedral tenha sido construída buscando acolhida universal de credos, ostentando poucos símbolos religiosos em particular, é visível a balança pendendo pro lado religioso. Nada contra, mas fazer isso de forma velada é tapar o sol com a peneira. Acho que eles teriam ganho mais construindo uma catedral em estilo mais tradicional num outro setor. Mas há outros templos religiosos que preenchem essa lacuna. O templo da vontade, da LBV, vale uma visita. Este inclusive fica perto de um templo budista, numa quadra do outro lado do eixo. Na minha humilde opinião, o templo da LBV, com sua pirâmide de mármore encimada por um cristal de 27 cm de altura, teria feito mil vezes mais justiça do que aquela catedral nada estética perto da sede do poder. É uma instituição que não se impõe como religião: ela abriga as religiões em seus trabalhos e trabalha antes o espírito do que a divindade. Ou seja, não age como a maioria dos credos age, de forma excludente em relação às outras religiões. Sobre a catedral, esta é dotada de um estranho simbolismo: apesar de ser a casa do senhor, você não consegue entrar pela frente; precisa entrar por uma entrada subterrânea para aí então obter acesso ao interior da catedral. Como se fosse uma descida passageira ao submundo antes de chegar à morada do senhor. Nada pessoal, Niemeyer: nesse aspecto, sou mais o Paiva Netto.
  • Numa cidade feita para ostentar, chama a atenção o Ministério da Previdência ser o único a ficar meio "escondido", atrás do Ministério da Saúde. Pelo jeito, a última coisa que querem é passeatas de velhinhos querendo reajustes de aposentadorias em pleno calor do cerrado. Detalhe esse à parte, é tudo muito grandioso. Como se cada prédio, museu e escultura quisesse desafiar a eternidade. Uma aura de império, mesmo. As distâncias são pouco convidativas aos transeuntes e os acessos públicos são como se fossem alamedas. Uma atmosfera provinciana inesperada.
  • O passado é resguardado ao estilo de estadista: com imagens de arquivo altivas e populistas, com museus funcionando como a cartilhas políticas. Deve ser por isso que nosso ex-presidente às vezes tinha seus delírios de estadista: Brasília às vezes parece ter sido construída para fomentar isso. Inclusive, a cidade adota escolhas que apenas burocracias bem mais tradicionais, como a das Forças Armadas, fazem: eles têm suas vilas militares; os servidores brasilienses, as quadras e superquadras. Certa feita, Yuri Gagarin (o primeiro cosmonauta), ao visitar Brasília, afirmou se sentir "em um outro planeta". Ou seja, esta alienação entre política e realidade só é ressaltada numa cidade como esta: o formato de avião do perímetro urbano parece querer alçar os céus enquanto sua população permanece encerrada em terra tentando enxergar aonde o poder se dirige. O passado se torna um causo cuja versão do contador permanece. Taí um paradoxo possível do Brazil: o passado, que devia nos ensinar e nos relembrar de glórias, usado como álibi dessa síndrome de vira-lata que nos acompanha. Quando a campanha do 'O melhor do Brasil é o brasileiro' (a campanha da ABA, com o apoio de diversas entidades, tinha por alvo trabalhar a autoestima do povo), com aquele slogan de humor involuntário do 'eu sou brasileiro e não desisto nunca' rolava nas mídias, tínhamos uma oportunidade de realizar um insight da mente do brasileiro. Parece que não temos sentimento de pertencimento. É como se apenas nossa índole e espírito como povo realmente nos pertencesse. Deve ser besteira minha esse paralelo que passou por minha cabeça do brasileiro com o povo russo na iminência da revolução bolchevique. Em todo caso, é como se não tivéssemos patrimônio, mas apenas espólio. Construímos mas não possuímos. Buscamos paz quando nossa inércia parece excessiva o suficiente para que não precisemos buscar por ela. Damos notícias ruins e achamos que as boas só são boas individualmente. Somos brasileiros demais. E talvez isso nunca seja demais. O brasileiro é antes de tudo um brasiliense.

Dedicado ao povo brasiliense, que me recebeu calorosamente. Meus leitores mais dedicados. Grande abraço a todos.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Tetris attack

Vou iniciar uma nova série aqui no blog, dedicada aos puzzles, meu gênero de jogos favorito. Pra não começar do zero, vou colocar inicialmente alguns textos de um outro projeto que eu tava tocando no começo do ano, sobre jogos. Como a parada não vingou, vou colocar aqui algumas de minhas colaborações. em específico, as de puzzles. Texto escrito há exatamente um ano atrás. Enjoy.


Nos últimos suspiros do saudoso SNES, a Nintendo, ainda no embalo da recepção positiva de Yoshi’s Island, lança um clássico dos puzzles tendo como tema o universo de Yoshi’s Island. Assim, Tetris Attack chega ao Ocidente. Com uma total reinvenção do gênero, apesar de permissão de The Tetris Company para usar o nome de seu consagrado game no título, TA nadatem a ver com bloquinhos caindo de cima da tela a fim de se formar linhas. Aqui os blocos vêm de baixo, mas para eliminá-los não se deve formar linhas com eles, mas sim juntar blocos da mesma cor. Vamos falar mais disso ao abordarmos a jogabilidade.


Durante a E3 do ano passado, o atual CEO da The Tetris Company, Henk Rogers, fala de seu arrependimento de conceder à Nintendo a permissão de usar o nome da empresa, em entrevista ao site Destructiod. O site vê essa concessão como uma ‘mancha’ na imagem da empresa, ao constatar que a empresa cedeu sua marca a um produto que nada tem a ver com sua produção intelectual apenas pelo dinheiro. Dinheiro fala, já dizia o provérbio inglês. Mas isso não é exatamente uma novidade. A Nintendo, no passado, fez o mesmo com a série Zelda: concedeu os direitos à Panasonic, que desenvolveu um game horrível num console que ela mesma desenvolveu.

Enredo
No modo Story, Bowser e seus comparsas aplicam uma maldição em todos os amigos de Yoshi. Cabe a ele derrotar cada um de seus amigos para remover a maldição. Quando você liberta todos, começa a enfrentar os comparsas de Bowser e, por fim, enfrenta o próprio Bowser. Nessas partidas finais, o jogdor pode selecionar Yoshi ou um dos personagens que libertou durante o jogo.

Jogabilidade
Numa tela retangular, semelhante a de Tetris, temos uma pilha de blocos que vem de baixo. Aqui não há peças individuais, como as sete que caem de cima em Tetris; aqui os blocos vem todos juntos, formando um paredão de blocos que vai subindo aos poucos. A única coisa em comum com Tetris aqui é que o jogo termina quando os blocos atingem o topo da tela. Em TA, o objetivo não é juntar peças a fim de eliminar linhas horizontais. Aqui, é preciso juntar blocos da mesma cor para eliminá-los. Parece fácil? Quando dezenas deles aparecerem na sua frente, e você, contando com apenas um cursor na tela para alterar a posição de dois em dios blocos, verá do que estou falando. Em todo caso, tudo isso que falo acerca do conceito do game é exposto em tutoriais bem intuitivos no menu principal do game.

Bem antes de The Tetris Company adicionar o conceito de combos a seus lançamentos, TA permite combos e chain combos. Combos consistem em se eliminar mais de três blocos de uma vez, com um só movimento. Já os chains são blocos eliminados em sequência. É quando, por exemplo, você elimina blocos em uma linha e as outras que forem caindo pela força da gravidade se encontram com outros blocos da mesma cor, desencadeando sucessivos combos. Combos e chains rendem mais pontos, e nos modos versus, enviam garbage blocks ao adversário. Quando os blocos começam a se aproximar demais do topo, a musiquinha de fundo se acelera, alertando o jogador para pensar rápido. Mas não há motivo para pânico: ao final dos chain combos, os blocos dão uma breve pausa como bônus, para te dar tempo pra pensar ém como executar a próxima chain e/ou se salvar da enxurrada de blocos de aproximando do topo.

O game oferece vários modos para um jogador. No Story, você segue o enredo do game, lutando contra inimigos em partidas tête-à-tête. Quem fizer o adversário atingir o topo da tela com os próprios blocos ganha. Aqui, combos e chains mandam garbage blocks para o adversário. Esse tipo de bloco é sólido, e é preciso executar um combo perto de um deles para que eles se transformem e blocos normais e liberem espaço na tela. No modo Endless, o jogador tem o desafio de jogar pelo máximo de tempo possível na mesma partida, sem perder, com uma pilha de blocos cuja velocidade com que aparecem aumenta gradativamente. No Time Mode, o jagador deve marcar o máximo possível de pontos num intervalo de dois minutos. No Stage Clear, o jogador passa por uma série de estágios em que deve eliminar os blocos até um limite, indicado por uma linha. Por fim, no modo Puzzle, o jogador deev eliminar todos os blocos na tela com uma quantidade limitada de movimentos. Nesse modo, a quantidade de blocos é fixa; novos blocos não aparecem na tela. Os modos multiplayer, por sua vez, são basicamente variantes dos modos para um jogador, sendo que o jogador pode tanto jogar com um amigo quanto com o próprio computador, podendo definir o nível de dificuldade e velocidade de eliminação dos blocos.

Trívia
  • Apesar de o game ter como tema o mundo de Yoshi’s Island, o chefe final no Story Mode é Bowser em idade adulta, e não Baby Bowser, como vemos em SMW 2: Yoshi’s Island.
  • Esse game estreia a série Puzzle League, cujas continuações usam outros personagens como tema. Um exemplo é Pokémon Puzzle League. Outros, por sua vez, não usam tema algum, como na distribuição dos -em-um, para o GBA, de Dr. Mario mais Panel de Pon. Apesar de o nome remeter ao puzzle original, com fadinhas e tudo, como pode ser conferido no link abaixo, a versão que chegou ao GBA é neutra; não é temática. O que é uma pena; o jogo ficou meio estéril, apesar de a jogabilidade ter permanecido intacta.
Links externos
Tetris A-Hack: página da indispensável The Mushroon Kingdom que conta como TA, por meio da engine de um game modificado no Japão, chegou até nós.

(observação: o post tinha imagens, mas o servidor onde o texto fora originalmente postado as deletou. Isso rolou com os outros posts também, então paciência. Vejamos se esse ano estarei inspirado pra escrever; estou há semanas sem ideias...)

sábado, 15 de janeiro de 2011

World's best parents

Resolvi elaborar um guia didático e elucidativo de como destruir infâncias. Não por sadismo nem por problemas em minha criação (muito longe disso, aliás), mas porque "as piores coisas são feitas com as melhores das intenções". O autor desta citação, por exemplo, deve ter tido seus altos e baixo com seus respectivos pais. Depois de começar esse texto de forma clichê, citando Oscar Wilde, vamos acrescentar que a infância é um momento da vida de grande vulnerabilidade psicológica. Há uma busca por identidade pessoal que só terminará após a adolescência. Até lá, você estará à deriva no mundo, achando que festas em família e videogames de última geração tem algum tipo de relevância em sua vida social e bagagem cultural. Felizmente, sua rasa experiência de vida te impossibilitará de perceber isso. Você já terá todos os defeitos que uma pessoa adulta tem; apenas terá de desenvolver essas infames faculdades mentais enquanto a puberdade brinca com seu corpo e te faz achar que todo mundo te odeia.

Nessa fase, tem-se uma vontade excessiva de ser ouvido, mesmo quando a busca por afirmação pessoal em grupos sociais de pessoas da sua idade faça parecer isso soar como paradoxal. Temos tudo que precisamos pra ganhar o mundo, mas sempre precisamos de pistas disso no Outro. Não é á toa que crianças sempre fazem perguntas cujas respostas muitas vezes têm condições de buscar sozinhas. Queremos ser ouvidos porque ainda não vivemos o suficiente pra virarmos rascunhos de nossa sociedade e rasuras da maturidade. Queremos mostrar o mais autêntico e essencial em nós, mas ninguém tem paciência nem merece ver isso.

Confesso que não lembro de minha infância e adolescência com muita saudade. Odiava a escola em que estudei boa parte de minha vida escolar, nenhum de meus amigos nada tinha a ver comigo, passei quase todos os recreios sem ninguém pra conversar (até porque não conseguia fazê-lo), gostava mais de ficar em casa do que sair, nunca saía de casa nos finais de semana e tava tão imerso em meu mundo que não conseguia perceber quando as meninas se interessavam por mim. Cego por ideais de conduta vendidos por filmes infantis e uma educação decente, virei refém de minhas aspirações. Não me permitia quase nada e perdi muita coisa por causa disso. O resultado disso foi óbvio: eu era um fantasma em qualquer lugar. Estava em queda livre no abismo da depressão antes dos 18 anos. E não interessa aqui como saí dele; o assunto do texto é outro.

Abaixo relaciono alguns absurdos que de vez em quando rolam durante esse longo processo de formação de caráter que o poder familiar confere aos filhos.
  • Bullying: a maioria dos pais presume que os filhos não sabem se defender quando levam uma coça de coleguinha na escola. Eles querem que os filhos falem a respeito. O que atenta gravemente contra a forte busca por afirmação que se busca nessa idade. Muitos pais ensinam os filhos a revidarem, mas ignoram em presumir que se esse fato ocorreu de forma visível com o filho é porque ele não tem condições de se virar fisicamente. Maravilha de diplomacia que pais assim ensinam. Chega a ser engraçado: quando é na infância, somos ensinados como se nossas leis seguissem o código de Hamurábi. Levou um soco na têmpora? Revida com outro soco. Aí, quando chega na adolescência, eles vem com essa hipocrisia de sugerirem o diálogo ou ignorar a ofensa que encadeou a agressão, querendo que os filhos criem uma autoestima e afirmação que nem sequer tiveram condições de desenvolver ainda! Ou seja, tudo errado. Em vez de ensinarem os filhos a buscarem uma outra atividade caso uma específica tenha encrenqueiros demais, insistem pra que falem com a direção do colégio. Ou, no caso de ser uma atividade que o filho goste, buscar uma acareação. Percebem? O discurso dos pais e das escolas tem vários conflitos. O que dá margem à maldade alheia. Nem sempre os adultos conseguem ouvir seus jovens...
  • Carro novo pra quem entra em universidade pública: duas palavras. Chantagem emocional. Oferece-se um prêmio ao jovem como se passar em uma prova de vestibular fosse um concurso qualquer. Como se corresponder ao estudo que os pais oferecessem não fosse uma obrigação. O futuro foi transformado, permutado em premiação. Fomenta-se a concorrência entre pessoas com pouca estabilidade psicológica. Sugere-se sutilmente que os pais só terão orgulho do filho se não precisarem mais pagar por seus estudos. Uma perversão. Como se o fato de os estudantes pobres estudarem escola pública e os ricos estudarem em particular, mas apenas os ricos entrarem nos cursos decentes das universidades públicas não fosse inversão cruel o suficiente.
  • Iniciação sexual em casas de tolerância: a princípio, não há problema nisso. O problema é quando o pai usa esse momento para estigmatizar no filho a figura do feminino. Ele leva o filho, alheio à vontade -- e aos pesos e medidas que ele dá ao ato sexual e os fatores afetivos nele envolvidos neste -- deste, trata as mulheres desse lugar de forma "autêntica", desprovido de máscaras e valores padronizados que a paternidade o faz passar ao filho no cotidiano (às vezes esses valores em si já são distorcidos). Aí o que acontece? Em vez de ver os serviços da moça como uma forma de entretenimento, vê como uma forma de dominação sexual. Como uma licença ética para aplicar nessas mulheres tudo que ele não aplica em sociedade. Ou seja, uma institucionalização da hipocrisia e do machismo. Promovida pelo próprio pai. O filho tem minado seus futuros pilares para uma relação familiar saudável. Recalca seus sentimentos e relativiza os alheios. Passa a ver o feminino sem respeito e o coisifica. Reduz sua relação com o feminino ao instintivo: só o que há entre as pernas dela interessa. De novo: não são as casas de tolerância quem corrompem a inocência afetiva de nossos jovens; são suas companhias e o quanto ele se deixa influenciar...
  • Pais que ensinam filhos a fumar: estender o raciocínio a quaisquer outros vícios, legais ou não. Não basta ter seus vícios, é importante dar continuidade a eles. Geralmente isso falha; comportamentos negativos nos pais tendem a funcionar como estímulos repulsivos nos filhos. Quando não funciona, você está incentivando os monstrinhos a canalizar seus anseios e frustrações por meio de substâncias nocivas. Super maduro, esse ensinamento. A criança cresce vendo os pais atentarem contra a própria saúde dessa forma, aprendem esse comportamento destrutivo e acabam crescendo achando que o corpo foi feito pra isso, ser degradado dessa forma, como um muro a ser pichado com suas frustrações. O vício vira uma segunda chupeta. A fase oral é perpetuada. Só que, em vez de dentes crescendo errado, teremos outras não levantando, se é que me entendem...
  • Pais que relativizam e banalizam tudo: eufemismos para pais negligentes. Do tipo que vivem reclamando em voz alta porque transaram bêbados na adolescência. Aqueles que não dão a atenção que os filhos esperam, lidam com banalidade com quaisquer situações importantes para o desenvolvimento das crianças (um tio meu comemorou o aniversário do filho numa pizzaria e nem um bolinho encomendou) e tentam realizar compensações cretinas com necessidades não-atendidas dos filhos. Por exemplo, um pai ausente que começa a te dar presentes todo ano depois que você fica velho. Ou uma mãe que solta frases de afetividade vazia, critica em forma de elogio ou dá elogios condescendentes pra tentar se livrar do filho carente por perto. Criam os filhos como gado, sem cerimônias nem esforços para mostrar como consideram especiais os momentos-chave da vida deles.
  • Pais que fazem os filhos perder a virgindade com cabras: aiai, esqueçam todos os besteirois americanos que vocês já viram. A realidade sempre vence a ficção (nem acredito que esse texto ainda exista). Isso é comum em famílias hippie. Além de uma história familiar boa o suficiente pra beirar a lenda urbana. Você vai virar uma lenda pra seus netos. Ficará com traumas indeléveis quanto a sua sexualidade, mas verá as mais absurdas histórias surgirem a respeito de seu insaciável vigor sexual... (segue um trecho do artigo do link)

    Primeiro trauma sério da minha infância. Minha mãe pegou no meu pau e começou a acariciar levemente. E o Freud que se foda aqui, a experiência foi horrível, apesar dos efeitos físicos serem inevitáveis. Pô, minha mãe era gostosona.

    Como a internet é uma mídia efêmera, creio que convinha expor esse trecho aqui pra vocês perceberem que sorte você tem de seus pais jamais terem tentado acariciar seus genitais. Imagino que esse tipo de educação sexual bizarra decerto reduziria os índices de gravidez na adolescência. Quem voltaria a cogitar em sexo , tão cedo, depois dum episódio desses? Quem diria, os hippies rivalizando com os japoneses no aspecto bizarrice...
  • Intimidade excessiva: pais que beijam os filhos nos lábios, por exemplo. Num episódio da sitcom Two and a half men, Alan conta como a mãe deles o ensinou a beijar: com uma laranja descascada. Ou então pais que falam abertamente de sua vida sexual perto dos filhos. Não é nada confortável para um filho constatar que seus maiores referenciais também têm vida sexual. Amor filial nada tem a ver com libido, e expor os filhos a esse tipo de comentário viola a frágil sensação de santidade que conferimos a essas pessoas que nos botam no mundo. Consideramos os pais pessoas especiais. Vê-los falando desse asunto nos força a perceber que são pessoas normais, como quaisquer outras. Algo nada confortável de se lembrar. Já em alguns países "desenvolvidos", os pais inclusive preferem que os filhos transem com seus namorados em casa. Fico sem ter o que dizer de famílias asssim...
  • Ensinar exageradamente pelo exemplo (ou pelo medo): alguns pais gostam de reforçar as reprimendas que dão aos filhos por meio de exempos marcantes. Mais ou menos como os russos, que reprimem seus conflitos separatistas não apenas prendendo rebeldes e tomando cidades, mas matando vilas e cidades inteiras. Pais assim, por exemplo, quando querem punir os filhos por sair escondidos no final de semana, os acorrentam à cama. Os mais antigos inventavam os mais absurdos ridículos pra controlar seus filhos. Inventavam bichos-papões, falavam que comer banana verde enrolava a língua, que borboletas cegavam se você se aproximasse demais delas...
  • Crise de identidade: pais sem noção que vestem filhos gêmeos da mesma forma (já vi isso com filhos não-idênticos).Ou mesmo pais que, quando não tem o filho com o sexo que desejavam, ensinam vários trejeitos de seu próprio sexo à pobre criaturinha desavisada. Ou seja, é pai que leva filha pra geral em jogo de futebol, é mãe que ensina filho a costurar, pai que coloca filha pra praticar artes marciais, mãe que só deixa filho ver novela... sem falar aqueles que decidem tudo pelos filhos. Desde o que vestem ao que serão da vida.
  • Pais que projetam suas frustrações nos filhos: tudo que os pais não conseguiram ser na juventude, exigem que o filho o seja. Para isso, os submetem a rotinas exageradas de estudo e sempre mostram insatisfação ou pouco feedback positivo em relação às conquistas do rebento. A criança cresce com expectativas pouco realistas, cultivando crescente recalque em relação a suas verdadeiras aspirações e aptidões pessoais, e os pais não percebem. Acham que o simples fato de o filho ser uma pessoa de sucesso profissional resolve tudo.
  • Realidade: ela sempre vence a ficção. Entrem nesse site porque nem se eu passasse o resto do ano escrevendo esse post eu esgotaria o tema. Porque tem pais que levam a sério demais o mote "seja você mesmo". Gente, assumimos vários papeis sociais. E provavelmente o único deles em que jamais devemos ser nós mesmos é quando somos pais. Os preconceitos, as manias, os desvios de caráter... a sociedade já vai gerar tudo isso nos seus bacuris; você não precisa ter esse trabalho como pai...

Bom, creio que é isso. Termino este texto com algumas limitações. Nem sempre dá pra articular as ideias de forma eficiente. Até a próxima.
(antes de ir, deixo um texto de referência, um artigo científico. Bem melhor do que essas obviedades que você acaba de ler. A tradução tem algumas falhs e poucas quebras de linha, mas vale muito a leitura. Releia-o quando você se pegar fazendo caça às bruxas de sua infância. Não recomendado para estômagos fracos)

      quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

      O mundo precisa de menos filmes

      Ando observando que documentários tem ganhado mais espaço nos cinemas nacionais. Isso é bom. Se você, diretor, é medíocre demais pra contar uma história relevante, então conte uma história sobre gente morta que teve uma vida bem mais fascinante que a sua, porra! Olha que economia fascinante com celulose e elenco você vai ter. O oceano de mediocridade empurrado por Hollywood sai caro. Documentários devem ser bem mais baratos. Não há locações, figurantes, efeitos especiais... é você, usando material que a realidade já fabricou, a seu favor. Pois é. O mundo precisa talvez não de mais documentários. Mas de mais espaço para eles na telona. Para que as salas de cinema não se limitem à formalidade de histórias de ficção. Para que o cinema converse mais com o público, como um dia os cinemas de rua fizeram, com programações mais triviais, por meio de noticiários, desenhos animados...


      Crianças, neste momento estou nos céus, me dirigindo a meu destino das férias desse ano. Mas relaxem: até eu voltar, tem uma meia dúzia de bobagens programadas pra ser publicadas aqui nos próximos dias. Tomarei uma água de coco por vocês. Até breve.

      segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

      Hoje acordei meio cético

      (essas pílulas são old mas gold)

      A forma mais visível de se observar uma mulher querendo mandar em seu relacionamento é a quantidade de filme ruim que você terá de assistir na companhia dela. Ela mesma achará o filme uma merda algumas vezes, mas só se dará por satisfeita ao observar você gastando seu valioso tempo com ela, como se apenas estar com ela fosse, ou tivesse de ser, sempre suficiente para que um evento não seja completamente tedioso.

      É com frases de msn que você percebe os subterrâneos da mente das pessoas. O que elas não dizem, o que insinuam e o que seu inconsciente essencialmente elabora e esconde. Na vida real você é o médico; na virtual, o monstro. Ou Hulk...

      [conversa de bar com os amigos. Confesso que, com um amigo como eu, eles irão pro céu]
      _ Quando estive em Berlim, ofereceram um passeio no albergue. Uma espécie de maratona etílica: você passava por cinco bares ao longo da noite. Começava às oito da noite e terminava só na tarde do dia seguinte.
      _ Que massa, meu.
      _ Nos três primeiros bares, a bebida era grátis.
      _ E a gente no Brasil achando que sabe se divertir...
      _ Lógico, você chega nos dois últimos bares sem o menor discernimento. E aí, se bobear gasta adoidado, mesmo. Tinha um casal italiano muito louco que não se aguentava em pé.
      _ Chegou a fazer esse passeio?
      _ Não fui, a namorada não bebe. Aí não rolou.
      _ Que pena.
      _ Eram apenas 40 euros, valia a pena.
      _ Quem quer ficar tanto tempo assim dando atenção a namorada?

      quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

      Sasha Grey e o cinema

      Cena preocupante que vi esses dias no cabo: Sasha Grey num filme do Telecine Cult! Acho que o filme era 'Confissões de uma garota de programa'. Infelizmente peguei no finalzinho; tem uma cena depois que os créditos rolam. Dela massageando um cara na banheira. Massageando mesmo, sem duplo sentido. Sem roupa, mas tudo bem. Sei lá, espero sinceramente que isso não sugira uma redução nos padrões do canal. Mas confio no taco do canal; pelo que li, a história é bem conduzida; foi uma escolha de elenco mais intuitiva que técnica, que mistura documentário com ficção. Sem querer desmerecer a Sasha: ela é bem talentosa. Mas é difícil a gente ignorar o fosso que existe entre atuação de acordo com os cânones do cinema e a atuação que ela habitualmente faz em seus filmes. Entre o almoço e a sobremesa. Por isso que neste post afirmo que o sexo é o esporte mais antigo do mundo. Ele (pelo menos quando reduzido a pornografia) não é assunto pra filme; é recurso dramático. Fazer filmes apenas com esse recurso deixa os personagens sem background algum. Fica uma história frouxa, com personagens sem motivações ou sequer seguindo algum tipo de verossimilhança. Ou seja, literalmente é como ver uma competição esportiva com os atletas sem roupa. Porque em esporte não interessam seus motivos pessoais pra vencer. Importa é levar o caneco pra casa, certo?

      Infelizmente, a paridade entre atuação dramática e atuação física parou nos anos 70, no pornô moleque da época. A porta verde, Garganta profunda... como a atuação sexual de atores sempre foi estigmatizada pelo cinema, não é de se espantar que esta forma de atuação tenha se isolado num nicho ainda no final deaquela década. Hoje em dia tudo que nos resta fora desse nicho são aqueles filmezinhos B, softcore sem vergonha das madrugadas, que nunca ousam dramaticamente. Eu coçando meu sovaco é mais sedutor que esse tipo de filme! Tem diretores que tentam ir contra isso, como Julio Medem, Michael Winterbottom ou Tinto Brass. É algo. Mas todo o resto não passa de uma meia dúzia de cenas gratuitas que Hollywood coloca em filmes pra segurar o público mais simplório. Hollywood nos trata como se a gente nunca viesse a fazer 18 anos de idade. Como se cada cena de sexo tivesse de ser envolta numa aura de proibido, de pecaminoso. Culpinha cristã pra cima de moi? Vindo dum país cheio de presbiteriano hipócrita como os EUA? Terra da Westboro baptist church? Dos mórmons? Faça-me o favor!

      Um outro exemplo mais recente de pontas que atores pornô fazem no cinema mainstream é Zak and Miri make a porno, do Kevin Smith. Comédia insana onde dois amigos filmam uma película pornô pra tentar sanar seus problemas financeiros. Se você jogar no IMDB, vai encontrar diversos exemplos. O que quero dizer é que até há atores que, quando ganham algum na indústria do sexo, investem em carreira dramática entrando em cursos. É por reconhecer essas eventualidades entre o cinema povão e o cinema pornográfico que venho até aqui expor a necessidade de se criar um gênero a parte: o cinema erótico. Aquele que não se limite a um casal fornicando como animais procriando. Aquele que invista nos detalhes da sexualidade humana. No jogo de dominação e submissão envolvido. Que dê personalidade aos amantes, que forneça detalhes mais intimistas envoltos no processo de sedução de cada um. Como um toca o outro, quais zonas erógenas funcionam melhor, como um provoca o outro, como um conta histórias picantes para outro. Que mostre o sexo não como acrobacias inviáveis pra pessoas comuns, mas como ele realmente é. Ouso inclusive sugerir que se dê uma dimensão psicológica a um cinema nesse contexto. Uma estética levemente literária. Ou seja, um cinema que fale com mais maturidade do sexo, que fale deste para adultos, e não pruma legião de recalcados presos numa segunda adolescência. Porque não se engane: quando um diretor mete uma cena mais picante do nada numa história, comece a se perguntar de que forma ele tá te tratando feito um impúbere.


      (3, 2, 1... que venha a turma da mão cabeluda cair no blog de paraquedas.)