sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A propaganda de natal mais monga que eu já vi


Apostar na culpinha cristã da classe média todo mundo faz. Mas fazer isso de forma tão óbvia, infantil e constrangedora como essa? Só mesmo a publicidade daqui do estado. Nem num desenho animado encontraria uma analogia tão pobre como essa. Porque estou pautando isso aqui? Porque, nessa época do ano, sempre tem aquela legião de chato falando sobre como o Natal é uma comemoração jeca que fomenta o consumismo e nada tem a ver com a ideologia de preceitos cristãos que a Igreja e a Coca-cola tanto vendem. Bom, creio que uma imagem vale mais que mil palavras...

Achei que não encontraria mais essa ação publicitária (do final de 2008) na interwebs; mas, para minha sorte, mediocridade também perdura no tempo. Reparem as atuações globais. A associação do consumismo à de santidade. Imagina se eu tivesse jogado fora quatro anos de minha vida fazendo publicidade. E se hoje em dia não é preciso diploma pra se fazer "jornalismo", aparantemente isso não é muito diferente na publicidade. Quanto nerd por aí que se acha criativo o suficiente pra mexer com isso só porque consegue usar o photoshop!... Quanta legião de desocupado que passava o dia inteiro em redes sociais que, de repente, viraram experts em mídias sociais. Afe...


E terminamos mais um ano. Com um textículo sem vergonha, diga-se de passagem. 2010 foi um ano produtivo. Em vários aspectos. Se a vida é 10% inspiração e 90% transpiração, digo que este blog tá encharcado. Os criativos não revelam suas fontes. As escondem bem. E é isso. Feliz 2011 a todos. Você não é as coisas que tem, então torre suas economias com experiências boas, e não com coisas. Fica a dica de aspiração pro ano que se segue, seu consumistazinho sem-vergonha. E beba muita champanhe por mim: a humanidade precisa de menos sobriedade e mais coisas ínúteis. Boas festas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Adoração ao homem do saco

Li numa tirinha dos malvados que Deus é uma espécie de Papai-noel dos adultos. Creio que o raciocício inverso também procede. Sim, é um aforismo de teor ateísta, provocativo, mas vem bem a meu propósito. Para mim, Papai-noel funciona como uma espécie de treinamento, de estágio para a religiosidade futura das crianças. A devoção com que cada uma delas espera seu presente do bom velhinho é um bom indicativo de como o indivíduo lida com sua aptidão humana de idolatrar figuras espirituais. Porque, assim como divindades, as crianças nunca veem Papai-noel pessoalmente. Mesmo quando elas o veem nos shoppings e tiram foto ao lado dele, estou certo que há um lado de suas psiquês que os deixa alertas sobre a possibilidade de aquele senhor todo vestido de vermelho se tratar apenas de uma personificação, criada pelos adultos, de seu objeto de adoração.

Felizmente, para as crianças, a realidade não importa: para elas, é mais importante o que imaginamos do que o que vemos. Faz sentido. É uma fase da vida em que elas não estão preparadas para a vida como ela é. Na piscina da vida, elas acabaram de botar o pé. Já com os adultos, mesmo que eles não O vejam, eles precisam, nem que seja no âmago de seu ser, ter certeza de que seu Deus existe. Dá pra ver que não há fé mais incondicional que a das crianças. O cérebro delas é muito mais plástico do que o nosso, portanto a mudança é algo bem mais aceitável e comum na vida delas. A personalidade delas já está lá; basta vir o mundo pra estragar tudo. Talvez o mesmo se opere com a fé de cada uma delas: para elas, o poder do mito supera evidências físicas de uma crença. Elas não querem um Deus intercedendo por elas; querem apenas ser recompensadas pelo que são. Um culto a si próprias. Até porque elas não precisam de santidades; elas têm os pais, figuras que as amam e protegem e que atuarão no longo processo de criação de referenciais masculinos e femininos para elas. Então, as crianças não precisam temer a "Deus" para admirar e amar uma figura cuja existência não podem comprovar. Elas priorizam as pessoas que já estão por perto, e tomam o amor que recebem delas como suficiente para suas existências.

Ou seja, com tanta maturidade espiritual latente, dá pra entender porque padres, aparentemente, preferem atentar contra o pudor de criancinhas do que se dedicarem a seu celibato: elas são perigosas para o evangelho que tanto defendem. A espiritualidade delas está num estado que eles, que se acham tão próximos a Deus, jamais alcançarão. Crianças não precisam de abstinências para sustentar sua fé. Não me espanta que elas detestem igrejas: que ousadia desse bando de adultos achar que vão encontrar Papai-noel Deus só porque construíram uma casa pontuda cheia de pinturas Dele na parede...! Elas, em vez disso, celebram o que já têm em mãos: suas vidas. Não ficam usando a fé como álibi para seus insucessos pessoais nem ficam pensando no que há após a morte -- O que é paradoxal, porque crianças são impacientes por natureza --, nada disso.

Claro, a gente percebe o lado pragmático das crianças quando lembra que Papai-noel não vem a elas de mãos vazias: traz consigo um saco, cheio de presentes para as crianças boas. Mas o saco, para mim, é uma metáfora da vida adulta: com quantas coisas a gente espera encher esse saco, e mesmo assim conseguir descer a tal da chaminé! Não parece irônico a gente lembrar que Papai-noel trata-se de mera adaptação da vida de são Nicolau para fins comerciais (vender referigerante de cola, por exemplo)? Adaptação esta feita pela própria igreja que tanto se afasta da fé com a qual as crianças já nascem? E ainda por cima feita num contexto de países de clima frio. Dou uma mariola pra quem encontrar uma chaminé que seja em seu bairro. Pois é, Papa, da próxima vez que criar um santo qualquer com fins comerciais, trate de universalizá-lo, pra não gerar decorações tão jecas nos shoppings da vida...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

The office (III)

_ Prepara um cartaz pra mim avisando que os alunos devem usar uniforme e que não poderão mais assistir minhas aulas de calça ou bermuda, sim
_ Sem calça nem bermuda
_ Sim, especialmente com chinelo de dedo. Agora, só de uniforme.
_ Ah sim, tinha entendido outra coisa.
_ Que eu queria proibi-los de assistir minhas aulas com roupa de baixo?
_ Sim…

_ E aí, tá saindo com ela novamente? Agora é sério?
_ Cara, figurinha repetida não completa álbum.
_ Sei. Seu álbum só tem figurinha dela, então...

_ Você não vai esssa barriguinha pra sempre...

_ Finalmente você levou esse carro pra lavar. Ele estava imundo!
_ Ele não estava imundo, estava estilo offroad.
_ Offroad?
_ Claro. Carro é como all-star. E all-star bom é all-star sujo, com história pra contar. Veja essas madames que compram sedãs disfarçados de offroad, como a Ecosport. Até poeira é hype hoje em dia...
_ Dá pra conhecer uma pessoa pela forma como ela trata seu carro...

_ Você devia parar de beber.
_ Espere, tem uma coisa que tô tentando lembrar.
_ O quê?
_ O momento em que pedi sua opinião.

_ Teve um amigo meu que já afogava o ganso antes do ensino médio.
_ Povo precoce...
_ Dá pra ver que eles faziam muita aula de campo. De campo, de arquibancada, de cama... às vezes de matinho...


_ Ai, para, tem gente olhando.
_ O vidro é fumê, eles não vão ver nada...
(pouco depois, dois pedreiros passam rindo pelo carro)
_ Gosta de ser observada?
_ Safadinho...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Minha biblioteca particular

Meu pai foi um homem de inteligência ímpar. Sempre respondia a minhas perguntas*, sempre trazia porquês às coisas que observava no universo e buscava a excelência em tudo que fazia. Só de sacanagem, eu fazia as mais absurdas e específicas perguntas. Era sempre derrotado por seu conhecimento invejável. Ele só esboçava certo cambalear perto de sua morte, quando minhas perguntas tomavam caráter por demais filosófico ou subjetivo. Mas não o julgava por isso; a vida o amaciara bastante antes de eu atingir o nível intelectual necessário para explorar adequadamente as dimensões de sua mente. Ele é um exemplo de pessoa que carregarei para sempre comigo, independente das cirandas que a vida me faça entrar.

Ele se foi há muitos anos. Deixou uma saudade** sem tamanho. As lembranças se esvaem cada vez mais, como o horizonte em um dia nublado. O que nos resta são, além das memórias construídas no auge de minha individualidade, seus livros. Eu, muito humildemente, confesso que li poucos de sua considerável biblioteca, mas afirmo que li o suficiente para perceber o quão sofisticado era aquele homem. O tamanho de sua visão de mundo. As dimensões intrincadas de suas perspectivas pessoais. Com ele aprendi a nunca ter medo de minhas próprias opiniões. Muito pelo contrário; desde sempre me senti motivado a incrementá-las e alimentá-las com fatos novos, comparações e visões de mundo próprias. Ou seja, ele me ensinava a não ser mero papagaio de livro de sebo; me ensinava a compor meu próprio mostruário intelectual. Deve ser por isso que sou o mais pedante membro da família, mas isso é outra história.

Recentemente sobrou para mim a tarefa de organizar seu antigo escritório, aqui em casa. Fechado há muitos anos, com um acúmulo de poeira que é o pesadelo de qualquer asmático, sempre sobra para mim isso. Para vocês terem uma noção: passei o fim de semana inteiro organizando a balbúrdia gerada por um escritório, outrora intensamente usado por ele, abandonado por anos e reduzido a porão. Enchi sete caixas de livros, entulhei a entrada com papeis que dificultavam minha saída e cortei com papel uns dois dedos. E ainda há coisa por fazer. Mas por mais que eu esteja convencido de este abandono do escritório ser algo lamentável, é sempre uma tarefa agradável: é como passear pela mente dele. Confesso que aquele volume aterrador de papel me assusta, mas me chateia (algo que secretamente guardo a mim mesmo) observar que, durante todo esse tempo, nada foi feito para aquele lugar se tornar minimamente agradável para alguém ler um bom livro ou se recolher longe dos profanos ruídos cotidianos de uma família que acha aceitável conversar em cômodos diferentes da casa e têm opiniões banais. Ele também se irritava com várias coisas que me tiram do sério em relação às pequenas fatalidades do convívio familiar, mas ele vivera o suficiente pra achar que tudo aquilo valia mais a pena do que a solidão. Eu sou filho de um segundo casamento dele, e se com minha idade atual as exigências dessa instituição do casamento já me horrorizam, prefiro não sofrer por antecipação e imaginar o futuro. Talvez ele visse em mim sua capacidade de se indignar de outrora.

Revirar os livros e papeis não se limita a passear pela mente dele. Também resulta num passeio pelo tempo. Em modismos de outrora, em conquistas pessoais e inquietudes do espírito dele traduzidos em dezenas de livros sobre misticismo (muitos de ordens secretas cujo teor de seus ensinamentos não convém cá expor); sobre sua carreira militar; sobre história (ele inclusive tinha um projeto de lançar seu próprio livro sobre a história do Estado, projeto este frustrado por um computador que teve de ser formatado. Eram tempos sem pen drive e com gravadores de CD caríssimos, mas o material recolhido ainda existe); sobre matemática ('O homem que calculava' se destaca); sobre pequenos hobbies que ele cultivava (pequenos reparos em casa, consertos simples em automóveis, até um livro sobre fotografia encontrei), e muitos de informática (o mais notório de seus hobbies; chegou inclusive a se formar numa faculdade perto de casa). Entre os vários objetos pessoais, encontro vários LPs. Trilhas originais de vários filmes clássicos (como Lawrence da Arábia), várias bandas que identificaram décadas inteiras (fã incondicional dos Beatles, tinha vários livros sobre a filosofia indiana que eles promoveram mundo afora, o hinduísmo, como o Bhavagad Gita). Certa feita tentei ver quanto estava se pagando por aquelas raridades. Pôr preço em memória afetiva nunca dá certo, como podem presumir. O mais triste é que, nas constantes mudanças de domicílio que sua carreira exigia, muitos desses discos se perderam. A do Star wars e dos Beatles foram as perdas que mais sentiu.

Uma das coletâneas que mais confiro valor afetivo é uma que a Editora Abril (quando a logomarca ainda era do galo) lançou nos ânos 70 (antes do acordo ortográfico que precedeu o do ano passado, vejam só) com cinquenta grandes autores da Literatura universal. Só livraço. Capa dura, vermelha, escrita em dourado. Até hoje esnobo os preços das livrarias e dos sebos graças a essa coleção de valor inestimável. De cinquenta volumes, 47 ou 48 estão presentes. Alguém, por exemplo, pegou Anna Karenina e nunca mais devolveu. Uma situação chata que ele mesmo, como vítima, confessou ter feito outros passarem. Muitos livros do escritório lhe foram emprestados, mas a oportunidade -- ou vontade -- de devolver não se fizeram presente. Enfim. Dessa coleção, tive prazerosas leituras como O retrato de Dorian Gray, Pais e Filhos, Werther, alguns contos de Voltaire, O estrangeiro de Camus, O primo basílio, Dom Casmurro...

Graças a esse inestimável espólio intelectual, até hoje sei muito bem o que merece ser lido. Tanto que eu nunca caio nesses modismos fabricados por editores. Harry Potter, Senhor dos anéis... façam-me o favor! Com um pretenso bibliófilo em casa, não precisava disso. Ainda não preciso. E desde tenra idade ele me introduzia aos livros indispensáveis. Ele não exercia uma influência direta; não era com frequência que me indicava leituras, mas eu nunca errava quando ele o fazia. Guardo como peça de museu, por exemplo, um dos primeiros livros que li na minha vida: O pequeno príncipe***. Uma edição de 1963, com a capa presa com fita adesiva. Li outros antes deste, mas nenhum me marcou como a obra-prima de Exupéry. Primeiro pelo mundo de fantasia; em seguida, com o passar dos anos, pelos detalhes que a gente vai saboreando à medida que lê mais e mais vezes um livro que gosta. E olha que sou uma pessoa extremamente avessa a consumir alguma coisa mais de uma vez. Quando gosto de um filme, por exemplo, até compro o DVD, mas me seguro pra não assistir uma vez atrás da outra. A magia da primeira assistida nunca se repete. E parece que essa magia se esvai nas mãos do senso crítico à medida que se assiste indiscriminadamente. A beleza é efêmera; depois de sua breve presença, o resto é nostalgia, é projeção de si em histórias que te trazem algum tipo de identidade.

Inclusive muitas raridades se encontravam no escritório: livros que não se encontram em português, como La grammaire hébraïque restituée, de Fabre D'Olivet, ou mesmo títulos extremamente desafiadores, como A doutrina secreta, de Helena Blavatsky. Na onda da revolução sexual dos anos 70, encontro inclusive Os prazeres do sexo, de Alex Comfort. Aparentemente, a gilete ainda não havia sido criada na época, como atesta o genial Stewie Griffin: as gravuras são cheias de pelos! Também, algumas curiosidades, como o livro de mórmon (volta e meia encontrava textos de outras religiões em meio à bagunça; esse não era o único), poemas de Gibran e muitas, muuuuitas revistas! Parece absurdo, mas houve um tempo em que as pessoas compravam periódicos na banca mais próxima, em vez de esgotar todo o conhecimento elementar sobre um assunto em meia dúzia de resultados de pesquisas no Google. Uma pena isso; as bancas rareiam cada vez mais. Essa descentralização da informação só aumenta mais o fosso entre as pequenas editoras e o público. O iPad vai tentar reinventar isso, com assinaturas para leitura no próprio portátil. Revistas de grande circulação como a Veja postam nisso. É ver para crer; eu, feliz proprietário de um tablet fazendo as vezes de e-reader, não arrisco palpite.

Além dos livros, encontrava também muitas evidências beirando o arqueológico de um passado que ele preferia esquecer. Livreto do grupo de bandeirantes que a filha dele (do casamento anterior) participava, com a qual passou quase 20 anos sem falar. Um ano antes de ele partir, o convenci a procurá-la. Mas não o fiz sozinho: eu havia iniciado tratamento psicológico por motivos alheios ao mote deste texto. E durante as sessões tive essa ideia. Reconhecia claramente nele a infinita mania de cultivar rancor que tenho. Ele era do tipo de pessoa que nunca mais falava com alguém caso a pessoa o magoasse. Sou assim também; comigo não tem essa de fazer caras e bocas, de fazer a social, de fingir qu tá tudo bem quando na verdade quando quero mandar a pessoa pro inferno. Até nos defeitos me orgulho dos genes que carrego. Me recordo inclusive, que quando, no auge da pedância da adolescência, reclamava das coisas que discordava na nossa família, ele não retrucava com cortes bruscos ou correções morais incisivas. Mesmo quando o fazia, ele o fazia entendendo porque eu agia daquela forma.

Eram tempos diferentes. Pessoas com mais de quatro dedos ainda governavam o país, clubes tradicionais irem para a série B ainda chocavam os torcedores mais conservadores, inclusão digital era um termo que não existia e ele descobria maravilhado que, via Napster (Napster!), podia matar a saudade das bobagens que outrora ouvia. Aliás, esse trabalho arqueológico que fiz com os livros dele fiz bem antes com as músicas que ele gostava. Embalado pela ascensão dos CDs em meados dos anos 90, com várias revistas trazendo a nova mídia em materiais promocionais, a gente também enchia caixas e mais caixas de CDs. Mas tratei de pôr um fim nisso sem o menor saudosismo. Queimei vários desses CDs em uma meia dúzia de DVDs e me livrei de muitos sem sequer me dar ao trabalho de aproveitar o que poderia julgar interessante. Quem precisa de CDs com um apanhado de programas vagabundos quando se tem o oceano da internet pra isso? Foi a pá de cal sobre aquele monte de disquinho brilhante. Mas voltando ao espólio musical dele, o encerrado em CDs, eu fiz um levantamento de tudo que considerava interessante (MPB, clássico, trilhas sonoras de filmes), joguei tudo no computador com alguns torrents, enchi uns dois DVDs com MP3 e nunca mais perdi tempo com os disquinhos ocupando espaço nas prateleiras. A tecnologia é da informação, e não do espaço. Sim, eu já disse isso antes. Tudo volta ao pó, e hoje em dia não é apenas o tempo que debocha da gente nesse aspecto; a tecnologia também.

Eu era o superego dele, em alguns aspectos: absurdos que a gente não diz para não magoar nem atingir a insegurança dos que amamos, eu dizia. Se sou quase sociável hoje em dia, devo um pouco a isso, a essa moderação que ele fazia comigo. A vida é curta demais pra se irritar com permissividade. Meu pragmatismo ainda escondia muito bem meus anseios. Pelo menos assim o julgava. Em contrapartida, eu era o id em situações bestas: o que não acreditava em mim, ele o fazia por conta própria por mim. Será que ele tinha ciência das aspirações absurdas que eu fazia a respeito do futuro e do amor? Eu era refém de mim mesmo e não percebia. A adolescência não passou de um engano para mim. Eu esperava a vida começar e ignorava seu incessante progressso a meu redor. Descobri isso da pior maneira. Foi a última lição que ele me deu. Num fim de tarde de segunda. Um dia após o aniversário de mamãe. Não tive tempo para pergunta alguma. O silêncio foi a mais eloquente das respostas a uma pergunta que preferia não fazer. E a que mais levei tempo para interpretar adequadamente. A vida havia começado.


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* Me recordei agora dum texto que escrevi com um exemplo de como ele me explicava o mundo.
** Texto que escrevi há cinco anos atrás sobre o tamanho dessa saudade.
*** Ixe, mais um texto de referência. Não imaginava que um post sobre o passado viesse a promover um flashback aqui no blog também.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Oração e dízimo

Sabe o que me chama a atenção em relação a bancos? Como é que uma atividade econômica que se iniciou em templos, nos primórdios da humanidade, e funcionava à base de permuta e de depósitos de grãos, de repente, ao longo da era cristã, se afasta de quaisquer premissas dogmáticas e se torna uma espécie de golpe institucionalizado, com aceitação social? Sem falar essa hipócrita busca por cristalização da ordem social de poucos ricos e muitos pobres (esse meio termo só começaria a surgir com a burguesia, séculos depois) que a ascensão dos bancos mantém tão rigorosamente. Em alguns momentos da história, inclusive, às custas de perseguição a judeus por estes cobrarem juros, como se o cristianismo jamais tivesse feito isso, quiçá até antes mesmo deles. Talvez isso não passasse de uma desculpa esfarrapada para justificar perseguição religiosa.

Invenção que precede a criação de dinheiro, não é de se espantar que 90% de todo o dinheiro que os bancos negociam simplesmente não exista*. O vil metal é tão metafísico quanto o suposto destino dos dízimos que as mesmas igrejas precursoras de transações financeiras exigem de seus fiéis. Exemplos vem de cima, e os pecados associados a dinheiro começaram todos de clérigos. Assim, dinheiro, como a publicidade e a Visa nos ensinas à exaustão, é valor agregado. Você não é as coisas que compra (discurso do Clube da luta, eu e minhas citações pop), mas sim o valor agregado a elas.

As instituições financeiras tem tanto peso em nossas vidas que eles sempre estão atentos a quaisquer mudanças sociais que possam vir a ameaçar seus negócios. Porque assim, eles vendem serviços financeiros, não vendem nada físico. Assim como a informática, isso os força a sempre se porem atentos a tendências. Por exemplo, o microcrédito de Mohammed Yunus foi copiado e replicado por eles; ascensão de candidatos com visões ideológicas que ameacem suas zonas de conforto são seguidos de perto e rapidamente conduzidos a seu esquema (lembram-se da cotação do dólar faltando dias para Lula ganhar as eleições de 2002? Absurdos R$4,00); tecnologias são rapidamente abraçadas e vendidas como mais um serviço (e não como ferramenta) deles... e por aí vai.


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Ler este artigo para melhor compreensão de minha colocação, que citei nesse post.