sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Padrões

Eu ganhei um livro muito bom sobre relacionamentos entre homens e mulheres (sim, é um livro bem hetero) que me fez pensar sobre porque um monte de coisa é como é, principalmente porque os homens são idiotas como são. Além disso, foi legal ver ideias que eu já tinha desde antes organizadas e justificadas por alguém que tem autoridade pra isso. (...) E aí que esse livro diz que a gente tem um padrão das pessoas pelas quais vamos nos apaixonar. Quando a gente se apaixona por alguém, é porque esse fulano tem lá umas características que batem com o que a gente, inconscientemente, quer. Ok, algumas coisas são conscientes, mas a maioria não é. Por isso aquela coisa do "Fulano é tudo que eu sempre quis, mas tem alguma coisa no Beltrano, que é um filho da puta, que me faz querer ficar é com ele". Ou o famoso "o que ela tem que eu não tenho, afinal?!". Esse padrão começa a ser formado ainda na infância, em torno dos 7 ou 8 anos, e é consolidado na adolescência. Ou seja, a merda já tá feita, meus caros.

É um modelo óbvio e simples, mas eu nunca tinha organizado essas ideias direito. Imagina uma forminha, daquelas que a gente usava pra fazer coisinhas de gesso. Esse é o padrão. Agora imagina o Fulano como uma massa de modelar. O que a gente faz é pegar o sujeito, que já é mais ou menos do formato da forma, e forçar pra caber lá. Só que inevitavelmente vai sobrar - ou faltar - alguma massinha, fato este que é ignorado porque estamos desesperados demais pra conseguir fazer com que alguém caiba na forminha. E quando você percebe que a coisa não é tão certinha como deveria, a paixão acaba. Pronto. Simples assim. Ah, outra coisa. A gente só consegue perceber se tá faltando ou sobrando massa se há intenso contato - físico, inclusive. É por isso que o amor romântico dura. E é por isso que tem gente por aí defendendo virgindade antes do casamento, com o argumento de que, se rolar sexo antes, um vai "enjoar" do outro antes do tempo. Ou melhor, segundo essas pessoas, o homem vai enjoar da mulher. Ainda justificam isso dizendo que homem só quer sexo mesmo (...) Eu discordo fortemente dessa teoria. O cara vai enjoar é porque a mulher não cabe no padrão dele - e vice versa! -, não porque ele "já teve o que queria". O negócio é que eles só vão descobrir isso depois da convivência sexual e não-sexual.

Dito isso, eu passei os últimos dias pensando em qual seria o meu padrão. Tenho consciência de algums coisas, mas a maioria é mesmo inexplicável. E pra tentar descobrir, só tentando lembrar dos caras que eu gostei e fazer uma interseção. O que eles tinham em comum? Não consegui pensar em muita coisa, mas percebi que todos eram muito irônicos. E ironia era uma coisa pela qual eu vivia brigando com meu ex-namorado, dizendo que não gostava. Vai entender. Também sempre gostei dos caras que têm sacadas legais e que me fazem rir. E, contraditoriamente, gosto de homens sérios, com pose séria. Os que ficam rindo demais pra tudo e pra todos não me atraem, parecem crianças bobas. Coisa consciente que me broxa: analfabetismo digital. Em todos os sentidos. Caberia aqui uma lista sobre isso, mas deixa pra lá. (...) Já deixei de sair com caras que só escrevem em internetês ou com letras mAiuScuLAaas e mInUUsculaAAsSS e rEpeTiiiDDas. Ou letras muito coloridas. Ou muitos emoticons. Isso é MUITO broxante, muito mesmo. Tem gente que não liga, mas de alguma forma meu cérebro faz uma ligação entre o jeito de escrever no MSN e a personalidade idiota do cara, e eu simplesmente não consigo sentir tesão por essas pessoas depois de conversar com elas pela internet.

Sinto muito.

Daqui.

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Não sou de ficar copiando textos alheios, mas este trata de um assunto recorrente. Sem me dar conta, mencionara em uma meia dúzia de ocasiões, em conversas. Então fica aqui antes que eu perca o link.

sábado, 18 de setembro de 2010

Os nerds também amam

9gag é um de meus vícios. Image bookmarking ainda vai me deixar com LER, amiguinhos. Deixo abaixo uma imagem que me chamou a atenção para como encontramos as mais tocantes mensagens nos mais inesperados lugares. Veja só, apesar desse empedernido coração meu, de vez em quando me derreto com certas coisas. Segue:

Update: como a animação não está mais rodando nem no blog nem no link, algué subiu a parada em forma de vídeo no Youtube. Taqui o link.


(se a gif não rodar, clique no link acima)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Julgue um DVD pela capa

As distribuidoras no Brasil tem uma mania de colocar filmes indie no mercado com capa em verde e branco. Devem achar que todo mundo que curte filmes mais afastados do circuito de Hollywood é ecochato. Já os besteiróis e comédias românticas, de branco e vermelho, sem surpresa: esses filmes são todos iguais, mesmo. Esse tipo de estigmatização afasta as pessoas de muitos filmes bons. Quanto DVD por aí com sinopse que barateia a história que o filme tem a contar! E quanto trailer que vende dramas como comédias (já viu o trailer de Full Frontal?) e vice-versa! Sei lá, porque esse povo não se dá ao trabalho de, nas sinopses, falar brevemente APENAS sobre as cenas iniciais e pronto? Agora não, me vem nego treinar seu poder de síntese pra cima de moi e sai cada coisa escabrosa que vou te contar. Senhores, roteiro de filme não é receita de bolo! Tem filme impossível de descrever, cujo espectro da história só é compreensível assistindo, mesmo. Nessas horas, sinopses ficam parecendo paródias do filme que tentam vender.

Essa cultura nossa, acostumada a ler sinopses de capítulo de novela (cujos acontecimentos se tornam conhecidos semanas antes dos episódios irem ao ar), empurra pros filmes essa mesma cultura acéfala e contraproducente que vende muita coisa legal como se fosse mais um enlatado sem criatividade.

sábado, 11 de setembro de 2010

Será que rio dessa cena?


Numa conversa, o tema 'reação das pessoas no cinema' surgiu. Esse meu amigo em questão falava de Inception. Mas citei um exemplo mais emblemático na ocasião: quando fui ver Brokeback mountain (cinema do primeiro escalão, com sutilezas que afastam o público tradicional), a sensação era de que as pessoas estavam fugindo da polícia. Sério. As pessoas saíam horrorizadas durante a sessão. Curioso: tudo na vida pode chocar, até o amor. Já n'o Fabuloso destino de Amélie Poulain, um dos hobbies da protagonista era fazer isso: observar as reações das pessoas durante as películas.

Fico triste quando observo que as pessoas buscam identidade e aceitação até mesmo durante uma sessão de entretenimento. É como se elas esquecessem (na verdade elas não esquecem; confundem, mesmo) que o cinema não é encontro com a realidade; é fuga dela: contar uma história, por natureza, é criar e incorporar pedaços da realidade à condição humana e lhes conferir algum significado histórico, que seja estético ou cultural. Poucos vão ao cinema com a isenção e interesse necessários para se obter fruição dos detalhes, das referências, dos questionamentos e reflexões da história, da trilha sonora, da fotografia, enfim, de todo o espectro de realidade criado por um diretor. Não: o pensamento de tribo é condensado em filmes de fácil absorção, condicionando as pessoas a nunca quererem se emocionar; elas apenas querem uma válvula de escape. Nessa cultura do cinema-pipoca, é condenável um filme ter seu próprio ritmo ou não possuir nada que funciona ao menos como alívio cômico. Recorde-se de sua adolescência: não importava se um filme era bom ou ruim. Ai de você se achasse algo legal que mais ninguém de sua turma achasse.

De certo modo, audiências de cinema são amostras de como a coletividade pensa. Seus preconceitos, suas hipocrisias, seu grau de banalização ante certas situações expostas no filme. Os diretores mais hábeis testam nossa flexibilidade moral com roteiros que manipulam nossas emoções. Histórias que chocam apontam temas que ainda não caíram na banalização. Além de apontar os limites que as convenções sociais delimitam, e a disposição do público de lidar com eles. Voltando a Brokeback mountain, temos um tema ainda cru no imaginário das pessoas. Os mais velhos, por exemplo, sentem-se ameaçados. Veem a homossexualidade como corrupção de valores sociais. Visão compartilhada também por nossa juventude, conservadora, sujeita a um ensino tecnicista e nada antropocêntrico, essa classe média que tem em novelas das oito seu termômetro. Essa visão de ameaça não é fomentada apenas por uma igreja cheia de padres de sexualidade frustrada; é acentuada por um grupo que se esconde e por uma sociedade que transforma em humor tudo que condena.

O cinema estadunidense, nesse ínterim, tem uma banalização da violência que assusta. Soluções agressivas a problemas levantados durante as histórias são comuns e enaltecidos, e excessos são constantemente promovidos. O público mais atento, que consegue pensar sozinho, percebe essa lapidação de um american way insano e autodestrutivo. Mas não importa; se arrumarem uma forma de transformar isso em entretenimento, tá tudo certo. Quem se indigna com o cinema de Tarantino não percebe a grande sátira que ele faz disso, ao mesmo tempo em que presta homenagem às extravagâncias criativas que o cinema mais marginal do xploitation se permitia. O xploitation é nosso inconsciente coletivo à solta, selvagem, sem metrificações estéticas tradicionais, se orgulhando de sua ingenuidade e mediocridade. O diretor é o mediador, o alter ego. O público é a tábula rasa. Quando o filme falha em enganar bem o público, este vira superego.

Por mim, cinemas deviam ser como bibliotecas: com uma política do silêncio mais rigorosa. Se já fazemos essas legiões de idiotas usarem aqueles óculos 3D mongos, poderíamos muito bem proibi-los de comer durante as sessões e instalar aparelhos que bloqueiem o sinal de celulares. Tudo perfeitamente viável. Lanterninhas menos coniventes com a má educação alheia ajudaria. Porque no final das contas pouco me interessa a reação desses idiotas; eu quero é curtir meu filme em paz, porra! Saí de casa pra ver um filme, não pra ver uma partida de futebol rodeado de torcedores vibrando com as glórias do mocinho!


Bonus track: Acho que algo que ajudaria seria dispor as cadeiras de forma triangular, com a base começando da tela e a ponta se dirigindo ao fundo da sala. Olhem que genial: seria menos vagabundo ao fundo pra fazer barulho impune, com a vantagem de manter esses chatos perto da projeção o suficiente pra quase cegá-los. Como lição por serem tão sem costume. De acordo com a evolução da tecnologia 3D, quando o 3D for de verdade, e não essa coisa vagabunda praticada hoje em dia, poderíamos inclusive cogitar dispor as cadeiras em forma circular. Ou mesmo se construir cinemas com mezanino, tipo uma área VIP. Onde todas as restrições expostas no parágrafo anterior se aplicassem. Tecnicamente possível; muitas salas hoje em dia usam aparelhos que realizam a projeção automaticamente, sem a ajuda de técnico. Uma outra atitude mais ousada seria a reprimenda: o fator psicológico. Pensem comigo: filmes não são passados de uma vez; são divididos em rolos. Assim, entre um rolo e outro, se estritamente necessário, o lanterninha poderia passar um comando e alto-falantes o transmitiriam à sala toda. Como quando seu carro tá fechando a saída de um outro num evento público qualquer e uma voz amplificada te avisa disso, sabe? Mas em vez de uma voz educada te avisar a respeito de como você estacionou, ela avisaria à sala toda de que fileira e quais cadeiras está vindo o barulho de pessoas atrapalhando as outras assistindo ao filme, pedindo para que estes desocupados façam silêncio. Seria lindo ver isso em prática...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O amor segundo Abraham Maslow...

  • S-Amor: amor pelo ser. D-amor: o amor deficiente, a necessidade do amor, o amor egoísta.
  • O S-Amor torna possível uma percepção mais verdadeira e mais penetrante do outro. De reação tanto cognitiva quanto emocional-volitiva. Isso vai contra o lugar-comum de que o amor é cego; na verdade é o oposto: o não-amor nos cega.
  • O S-Amor é acolhido na consciência e completamente fruído. Visto que é não-posessivo, e mais admirador que exigente, não causa perturbações e é quase sempre fonte de prazer. Nunca pode ser saciado; pode ser interminavelmente fruído. Em vez de desaparecer, cresce a avoluma-se.
  • O D-Amor pode ser satisfeito.
  • Finalmente, o S-Amor, num sentido mais profundo, cria o parceiro. Dá-lhe uma imagem e aceitação do próprio eu, um sentimento de dignidade no amor, o que lhe permite crescer. A verdadeira questão é se o pleno desenvolvimento do ser humano é possível sem ele.
Fonte: A psicologia do ser.

...e segundo Luís Felipe Pondé, colunista da Folha de São Paulo:

Amor não é uma experiência política, nem gramatical, mas afetiva e moral. Não quero que me ensinem a amar da forma correta. Ninguém ama corretamente nem politicamente. Amor é sempre errado.

Quando a política se "finge" amorosa é para matar o homem real em nome do amor por uma ideia de homem.

sábado, 4 de setembro de 2010

Sexo e virgindade

Sabe o que andei observando? Que muitos patrimônios culturais das quais uma nação se orgulha se iniciam marginalizados. O tango começou assim, na periferia de Buenos Aires, entre estivadores e prostitutas, bem como nosso samba e nossa feijoada, e as várias expressões culturais no Japão carregadas por suas 'cortesãs' (ainda na Ásia, as prostitutas do século XVII, no Sul do continente, chegavam a lançar tendências entre as mulheres da época). Esse tipo de constatação não serve apenas pra destacarmos a hipocrisia envolvendo a profissão; serve também pra talvez postularmos como as classes mais altas tendem apenas a cristalizar e importar as estéticas culturais que adotam, em vez de criar novas, como ocorre com as pessoas mais humildes de uma sociedade, por vezes de reputação questionável. Tanto é que a literatura, em seus primórdios, nem sempre contavam histórias de pobre (vide a inglesa); muitas vezes contavam histórias de reis ou grandes nobres. Exatamente por isso, são histórias que contam mais sobre elementos universais da natureza humana do que sobre o povo de uma nação por si só. Portanto, o sofrimento de um povo sempre será o melhor combustível pra arte...

Pesquisando sobre a prostituição sob um prisma histórico, inclusive descobrimos seu caráter de iniciação e de reverência pagã adotado por algumas culturas. Ou seja, já houve um tempo onde a humanidade via o hedonismo como algo perfeitamente natural. O prazer antes nos aproximava do que distanciava dos deuses. Bem antes da era cristã, os prazeres não eram estigmatizados nem usados como eterna fonte de pecado. Inclusive até observamos motivações políticas nesse sentido, na ocasião da elaboração dos dez mandamentos. 'Não trairás' não surgiu necessariamente por causa da preocupação daquele monte de judeu frustrado com a castidade alheia; surgiu porque os índices de adultério da época eram alarmantes e atentavam contra a ordem familiar da sociedade. Dá pra culpá-los? Não havia televisão na época...

Pra não perder o raciocínio, uma colocação nova. Acho que só quando pegamos as pessoas mais marginalizadas de uma sociedade é que obtemos o verdadeiro espírito desta. Essas pessoas são o 'espelho de nossos preconceitos morais'.[1]. Aquele desprovido das aparências que convenções sociais impõem, que compõem sua própria sabedoria longe de instituições tradicionais de ensino, que melhor representam a autoestima e personalidade de um país exatamente por serem as pessoas mais sujeitas às vulnerabilidades da realidade de sua terra. Fazendo um paralelo com a carreira de um artista, as classes mais baixas são como se fossem os anos iniciais de trabalho deste: cheio de ingenuidade, esperanças, limitações e ausência de confortos e posições privilegiadas que viciam o caráter. Justamente os anos mais profílicos de qualquer artista; tudo que vem depois é mero refinamento. Ainda mantendo o paralelo, no caso, a elitização de expressões culturais que se iniciam na periferia. Ou seja, o Zeitgeist, o espírito de coletividades está é na esbórnia.

Virgindade e sua desconstrução social

Peguemos elementos com papel em ordens sociais. Quando observo a relação de pureza de caráter que muitas sociedades conferiam à virgindade, penso se isto não se limita a uma mera questão de amostra de reputação ou de devoção religiosa. Quanto ao último, vejo mais como propaganda, mesmo: parece que as religiões gostam de perseguir ideais de conduta inúteis só para perpetuar nosso status de pecadores. Ou seja, pouco interessa pro padre sua vida sexual; interessa você continuar pagando seu dízimo e que seu caráter não influencie o juízo de valor dos demais fiéis da paróquia. Afinal de contas, porque vocês acham que padres não podem se casar? Outro artifício propagandista e político. A Igreja tem de pagar para sustentar um homem que nunca vai arrumar um trabalho de verdade e vai passar a vida inteira dedicando-se à sua própria fé. Não era interessante a eles terem de fazer o mesmo com uma companheira. Em vez disso, preferem sujeitar esses homens a um regime de privação sexual radicalmente contra os mais primários instintos do ser humano (grave deficiência de uma das mais elementares necessidades do homem, na teoria de Maslow).

Assim, prefere-se submeter esses homens a um regime de clausura que mais parece uma escola de homossexualidade, onde a virilidade é aos poucos castrada. Essa perda de identidade, como se observa cada vez mais frequentemente, acaba se canalizando para inocentes coroinhas que confiam seus pecados a esses homens. Frustração gera raiva, e esta é decerto canalizada sob a forma de abusos sexuais. Raiva esta que nada tem a ver com desvio de fé; tem a ver com uma exigência não-cumprida da natureza. Na oportunidade, transcrevo inclusive uma leitura recente minha, ainda de Maslow, que creio convir agora:


Um enunciado alternativo do âmago (para nós, americanos) do existencialismo europeu é que se ocupa, radicalmente, daquela situação humana criada pelo hiato entre as aspirações e limitações do homem (entre o que o ser humano é, gostaria de ser e poderia ser). Isso não está tão longe quanto pdoerá parecer, à primeira vista, do problema de identidade. Uma pessoa é realidade e potencialidade.

Uma preocupação séria como essa poderia revolucionar a psicologia. Várias literaturas já apontam tal conclusão, por exemplo, os testes projetivos, a individuação, as várias peak-experiences (em que esse hiato é superado), as psicologias junguianas, os vários pensadores teológicos, etc.

Não só isso, mas também levantam os problemas e técnicas de integração dessa natureza dupla do homem, a inferior e a superior, e sua condição de criatura e sua sublimação divina. De modo geral, a maioria dos filósofos e religiosos ocidentais e orientais procedeu a uma dicotomia dessa natureza dupla, ensinando que a forma de nos tornarmos "superiores"é renunciando e subjugando a "inferior". Contudo, os existencialistas nos ensinam que ambas são, simultaneamente, características definidoras duma natureza humana. Nenhuma delas pode ser repudiada; só integradas.

Mas já conhecemos algumas dessas técnicas de integração -- a introversão insight), o intelecto na sua mais ampla acepção, o amor, a criatividade, o humor e a tragédia, o jogo, a arte.

Com isso, conferimos à virgindade um papel alheio à sua função evolutiva. Que sociedade ocidental é essa que repreende mulheres que vendem serviços prestados com o próprio corpo mas olha com naturalidade (no máximo com uma contrariedade contida que conflita discretamente com sua mentalidade capitalista) uma mulher vendendo a um homem o direito de este deflorá-la, de ser o primeiro a realizar coito com ela? Observemos que isso não nos distancia do observável na natureza no aspecto sexual; a única diferença entre nós e outras espécies são conceitos como dinheiro, dote ou casamento: todas as outras espécies cortejam e barganham favores sexuais na base da permuta.

Esse conflito tem base religiosa: um aspecto mais subjetivo de nossa mente se pondo acima do que sua carne pode oferecer ou desejar. O que muda foi a forma que a mulher encontra de se dar algum tipo de valor. Estas põem números; as que julgamos de bem, decentes, não deixam isso claro e subjetivam essa questão com elementos como busca por fidelidade, posses ou caráter no parceiro que procura. A busca delas (talvez a deles também) no sexo oposto não tem aspectos oficiais, como podemos postular, por mais que nossa sociedade tente. Aparentemente, o mistério e indefinição por meio do qual o feminino se define e se expõe é bem mais valioso do que exposições explícitas de valores. Mas no contexto pós-moderno em que vivemos, até a virgindade passa por experimentalismos. Uma desconstrução, por assim dizer.

Sexo e sua construção social

Observo que o sexo hoje em dia é vendido (óbvio), mas isolado de seu propósito original. Como parte de um produto que antes vinha incluso num pacote, mas é vendido à parte atualmente. Nesse sentido é que é interessante a desnaturalização por que este passa. Sendo o sexo a força-motriz de qualquer forma de vida, este está sendo oferecido de forma a causar dependência. Como a uma droga vendida nas ruas. Você vende um prazer passageiro por natureza mas não entrega o produto. Genial. Quantas produções midiáticas mostram gente bonita tendo intercurso, fazendo você desejar ser tão bonito quanto os atores ou ter o mesmo desempenho cuidadosamente editado para dar a impressão de que o cara nasceu com priapismo! E como a revolução sexual, refluxo da contracultura, tornou o sexo algo mais natural do que nunca, um contra-ataque era necessário. E cada vez mais os tabus foram e vão caindo, transformando a experiência sexual em algo cada vez mais baixo. Querem nos proibir de nos contentar com um simples orgasmo. Querem que desejemos ser bonitos e vigorosos. Que deixemos o amor e o cultivo de intimidade pra lá. Querem transformar o amor em mais uma commodity, à mercê da máxima da lei de oferta e procura. Capitalismo selvagem...

As mídias estão fazendo o que as religiões fazem há milênios: querem dissociar nosso lado sagrado do do profano, nosso intelecto dos nossos impulsos. O deus que eles seguem? O dinheiro, claro. A ideologia? Talvez a da libertação. Se satisfazer não é o bastante; é preciso mostrar ao outro que sexo é uma forma de independência. Me pergunta pra quê incutir esse pensamento nas pessoas! Quando vejo essas meninas se beijando na TV, sugerindo que ceder à atração ou paixão por alguém do sexo oposto é uma prisão, caímos numa armadilha: por 'armadilha', entenda um outro nome a amor dado por eles. Relações de dominância e submissão no comportamento humano sofrem radical inversão. E não me venha com esse discurso de que a cultura humana é circular, que o que está caindo de moda vai voltar a ser popular e vice-versa. Preocupa-se tanto em fazer laboratório com os valores das pessoas que estão dissolvendo os que elas já carregam consigo. Esse niilismo afetivo está nos levando à frustração por coisas que sequer precisamos ou queremos atingir. Queremos apenas ser amados e querem nos obrigar a querer mais. Nos apontam para um ponto de crescimento interno que eles criaram. Essa sim, uma armadilha. No pleno sentido da palavra.

A reputação tem o mesmo status de marca. Pegue uma marca barata e outra cara, feitas exatamente da mesma forma. A diferença entre elas é o valor agregado, que pode ser estabelecido ou definido por uma sociedade. A questão é que o sexo, quando envolve dinheiro, é visto como subterfúgio de homens que falham em conseguir mulheres por méritos próprios. Temos dois estigmas: hipocrisia a solidão. Se somos todos iguais ante a morte, com sexo não é diferente; pouco importa sua posição social: esta é uma motivação de crescimento; sexo é necessidade básica (terminologias de Maslow). Não deveria haver dissociação do que somos e do que alcançamos.

Assim, para a maioria de nós, sexo tem mais a ver com a imagem externa, dos outros para com a gente, do que com a interna. Dá trabalho organizarmos nossa imagem interna como queremos, e é por fora a única forma de começar. É nesse contexto que o sexo pago é conveniente: não é preciso haver implicação afetiva alguma nem é preciso escolher entre o subjetivo e o objetivo. Apenas sublimamos o que de qualquer forma a natureza quer que façamos. Acho que um dia vou fazer isso: ir a um confessionário e soltar pro padre o raciocínio da última frase. Só de sacanagem, acho que vou perguntar se ele segue o mesmo pensamento ao colecionar freiras ou coroinhas...


Créditos das imagens: SMBC Theater e 9gag, respectivamente.
Texto dedicado à Zuma. Espero que goste; esse deu trabalho... =p