sexta-feira, 30 de julho de 2010

Live!

De 2007. Com Eva Mendez, esse provavelmente será o único filme dela, um projeto mais pessoal que conta com ela mesma como produtora executiva, que poderei dizer que assisti sem me vexar por ser mais uma expressão pop datada. A premissa do filme é a de uma executiva da Tv que tenta a todo custo botar no ar um reality show onde os participantes participam de uma roleta russa. O filme explora bem os limites éticos que a televisão insiste em lassear, por assim dizer. Seis balas são colocadas no tambor de um revólver. Só uma delas não é de festim. "Só é válido porque está na TV?", argumenta os pais de um dos participantes, durante a gravação de um dos vídeos introdutórios dos participantes, a respeito da noção de realidade e de ética que a TV empurra ao grande público. E como a realidade sempre supera a ficção, cito uma notícia do blog do Paulo Lopes a respeito. Clique no link para ler na íntegra:


Pela primeira vez, desde que esse tipo de programa foi criado, há dez anos, um reality show mostra a agonia e a morte de um de seus participantes. Os patrocinadores não têm do que se queixar: a audiência está bombando.

Quando, há cinco anos, o carismático capitão Phil Harris (foto) e sua tripulação (da qual fazem parte seus filhos Jack e Harris) começaram a gravar a perigosa pesca de caranguejos no Alasca, no Estreito de Bering, o Discovery Channel deu ao programa um nome que se tornou o seu epitáfio: “Pesca Mortal” (Deadliest Catch).

Harris morreu no dia 10 de fevereiro deste ano, e os episódios do derrame que o vitimou em janeiro e os de sua morte estão sendo levados ao ar nos Estados Unidos para cerca de quatro milhões de espectadores. No último episódio, os filhos vão jogar no mar as cinzas da cremação do corpo do pai.

O programa passa em 150 países, incluindo o Brasil.
Na imprensa americana, tem havido crítica ao Discovery Channel por apresentar a morte como espetáculo e lucrar com isso. Clark Bunting, presidente da emissora, se defende com o argumento de que as gravações foram feitas a pedido de Harris.

(...)


Como a morte do capitão, tudo que ele diz no programa obtém nova dimensão, como no episódio em que fala que aquela pesca seria inesquecível, porque "a vida é bela" e tem de ser vivida porque "amanhã pode ser muito tarde".

(...)

Fim da temporada. No ano que vem, tem novos episódios, agora com os filhos de Harris no comando, porque o reality show não pode parar.


Uma fala de Eva Mendez que me chama atenção no filme é quando ela diz que "a realidade começa a se mesclar com a ficção". Isso, involuntariamente, é um pouco filosófico. O cinema em si, por onde essa história é contada, é uma realidade fabricada, com ruídos cotidianos padronizados por exemplo, numa imensa gama de regras estéticas que a semiótica tanto regula na arte. Quando direcionamos esse argumento para reality shows, que lida com pessoas comuns sob holofotes, temos uma das poucas coisas que faltava à TV fazer: transformar a vida em espetáculo. Levar o niilismo da coletividade às últimas consequências do suicídio assistido. No caso de Pesca mortal, talvez a morte seja tratada como um aspecto inevitável da vida, um elemento alheio a pós-produções; já no filme, é transformada em evento, em vez de ser descrita como a palavra final do tempo sob o espírito humano. É a TV pondo um valor, dando um número, definindo um ibope à morte.

A personagem principal inclusive compara o conceito do show ao do Coliseu e as sumárias execuções de cristãos que ocorriam pouco antes da era cristã. Ou seja, numa era de constante banalização e massificação de emoções coletivas como a nossa, essa auodestruição, essa antropofagia ética às vezes não parece tão intangível assim. Houve momentos na História em que atitudes assim eram usadas como exemplo ou outro motivo fútil de poderes dominantes; aqui não, reduzimos esse desprezo pelo próximo a puro entretenimento. Não mais como sublimação de desejos sádicos de uma coletividade, mas como a mais legítima transformação da dor alheia em espetáculo. ficou fácil demais fazer comédia hoje em dia, já que o pós-modernismo usa tudo a seu favor, inclusive as críticas a si próprio. Chocar as pessoas está mais difícil, e os urubus do espetáculos descobrirão extremos cada vez mais extremos para chegarem lá...

domingo, 25 de julho de 2010

Pica-pau e a realidade

O pássaro encrenqueiro era realmente um desenho de macho. Diferenças eram resolvidas no tapa, valorizava-se o mais esperto em detrimento do mais esforçado e o individualismo atingia níveis radicais. Sadismo gráfico constante, sugestões de homossexualidade com clara intenção de humilhar e dominar os personagens vítimas das pegadinhas do narigudo e consumo indiscriminado de tabaco, além da administração irresponsável de explosivos.

E como em todos os desenhos anteriores aos anos 70, mulheres só apareciam pra decorar (e ficarem beeem quietinhas, beirando o catatônico). Afinal de contas, a única função delas na época era cozinhar, nada mais justo. Havia alguns poucos episódios em que a presença delas era central na história, mas foram momentos raríssimos. Num episódio chamado de 'The cat's blues', o gato Tom sofre pela rejeição de sua amada. Ele, um pobretão, vê todas suas desesperadas tentativas de conquistar sua gatinha irem por água abaixo, de forma gradualmente mais e mais constrangedora, à medida que um outro gato, com mais dinheiro, frustra seus planos de conquistar o amor da gata. No final do episódio (talvez o único dele narrado em primeira pessoa pelo próprio Tom, imerso em amargura), ele tenta por termo à própria vida se prostrando nos trilhos de um trem.

Já com Pica-pau, não. Não tem essa viadagem de ficar sofrendo por amor não correspondido. Não tem essa de cortesia, de arte da conquista. Porra nenhuma. É chegar e ir passando a mão mesmo. Em muitos episódios, as fêmeas dos episódios eram disputadas em apostas esdrúxulas! Pra gente ver como cada época tem o tacape que merece. Na Pré-História, os primeiros homens usavam uns baita duns porretes e arrastavam suas fêmeas pelo cabelo; nos desenhos do Pica-pau, não há necessidade disso. Aliás, muitas vezes o sexo feminino é retratado como uma restrição à liberdade individual dos personagens. Ou Walter Lantz era meio misógino ou era uma lenda na cama, porque em seus desenhos as fêmeas são sempre solícitas, mudas e carentes (um Pepe le pew às avessas).

Me espanta como antigamente a mídia tinha um status de universo paralelo, onde valia tudo e quaisquer subversões a valores morais podia ser feita contanto que se contassem as histórias com o mesmo grau de hipocrisia, misturado com estética que suaviza o impacto psicológico da violência e reafirma desvios sociais em forma de humor para ambiguar interpretações (como hoje em dia, se pensarmos bem). E isso tudo nos tempos do código Hayes! Bom, depois desses comentários sobre o saudoso desenho do pássaro filha-da-puta, vou pontuar alguns elementos do desenho e traçar um paralelo vagabundo com a realidade. Tirem as crianças da sala. Até o próximo episódio do Pica começar, claro. Lá vamos nós:

  • Explosivos: teriam os homens-bomba buscado inspiração no tresloucado personagem? Quantas bananas de dinamite disfarçadas de charuto, quantos sanduíches de explosivos foram usados nos episódios? Que ideologia fantástica, essa: se você não pensa como eu, te mando pelos ares com meio quilo de pólvora. Intolerância desde criancinha. Com esse pensamento, muitos episódios do Pica soam irônicos agora; só faltava mesmo ele usar uma bandana. Mentirinha, não falta: em alguns episódios, o Pica está no deserto e usa turbantes. Com a ausência de religião como combustível nos episódios (o dinheiro assume esse papel no desenho), temos aqui o exercício doente do invidualismo.
  • Bitocas homo: aqui, a atração por alguém do mesmo sexo é vista com pilhéria. Como se fosse mera extravagância dos prazeres corporais das pessoas. Mera curiosidade física. A troca de papéis sexuais é feita de forma tão natural quanto trocar de roupa, e sempre com o intuito de se enganar alguém. Ou seja, associa-se a dissimulação ao feminino. E associam-se manifestações de afeto por alguém do mesmo sexo como deboche, como uma fraqueza.
  • Vadiagem: o trabalho é visto como uma rendição lamentável ao establishment. Como algo que vai roubar sua juventude e te transformar num robozinho atrás de dinheiro. Nada contra essa visão, mas quem reclama do jeitinho brasileiro, fique sabendo que este é fichinha perto do que o Pica aprontava nos episódios pra sobreviver. Um eterno laissez-faire imperava nos desenhos. Qualquer tipo de interrupção do modo de vida do personagem era inconsequentemente revidada, como se um acesso de ingenuidade qualquer legitimasse atos de grosseria. A lei do menor esforço é elevada a níveis maquiavélicos, simples assim.
  • Política e sociedade: o contexto da época de produção dos desenhos, naturalmente, se via em muitos episódios. O racionamento de comida dos EUA pós-depressão econômica, o esforço de guerra deles e as mudanças de valores que se iniciavam nos anos 60 são alguns exemplos. Inclusive a índole do pássaro precisou se adequar à nova audiência trazida pela televisão, mais familiar.
  • Família: personagens femininos eram raros. Os infantis, então, bem mais. Mas houve um momento em que o Pica ganhou uma namoradinha e sobrinhos. Em tempos de crescente revolução sexual, os episódios contemporâneos da série do Batman devem ter sido vítima de insinuações maldosas do imaginário coletivo sobre a sexualidade do pássaro. Reparem: nesse momento as bitocas homo ficam menos frequentes. Pode parecer um contrassenso, mas nesse momento o traço do desenho se aproxima mais dos padrões Disney, mais convidativo e menos agressivo. A geração pós-guerra trazia milhões de órfãos de soldados, mais suscetível a ideologias ridículas trazidas pela contracultura, como o movimento hippie, por exemplo. Talvez conviesse não bater de frente com os pais das crianças, público-alvo dos desenhos. Em todo caso, contrassenso de verdade é feito hoje em dia, com um desenho chamado As aventuras de Billy e Mandy. A violência psicológica é grande e a atmosfera mórbida é desenvolvida sem muitos pudores. Aqui, os explosivos e a violência gráfica do Pica parecem inofensivas... detalhe importante: a censura de Billy e Mandy é livre.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Observações de finalzinho de férias

O que há de tão genial no ateísmo? Contestação é comodismo, indolência, preguiça intelectual, se isolada. Sim, isso é com você, Saramago. Fé não é necessariamente complexo de inferioridade nem ignorância. Busca por alento, ou algum tipo de ambição espiritual, não faz de ninguém um rebanho incorrigível, oras. Repare: falo de fé, e não de dogmas ou livros sagrados. Por serem obras dos homens, que se afirmam mensageiros de seus respectivos messias, são manifestações sujeitas a políticas, interesses dos homens.

Me lembro dum episódio de Seinfeld em que George e Jerry, em mais uma de suas filosofias de mesa de bar, conversam sobre a viabilidade de instalação de esteiras horizontais em Nova York. A discussão é breve mas é apaixonadamente sustentada por George, em sua eterna tendência a adotar a lei do menor esforço. Podemos fazer um paralelo com o retrofuturismo dos Jetsons: George (mesmo nome, olha só) indo ao trabalho de esteira horizontal. Andar é soooooo last century. Esse tipo de ode ao sedentarismo seria apenas engraçado se não fosse verdade em algumas partes do mundo. Esperando meu voo em Ezeiza, por exempo, encontro uma... esteira horizontal. Tudo bem que o piso superior é enorme, tendo até uma galeria de arte, mas porra... uma esteira? Usando outra referência pop, talvez terminemos ainda como os humanos de Wall-e, do século XXII pra frente: de pernas redutas, atrofiadas, com circunferência corpórea tão grande que as mantenha constantemente afastadas do chão. Medo. Só não me façam imaginar aonde a tecnologia do atomobilismo vai chegar, desse jeito...

Encontrei um livro legal do Reinaldo Azevedo na Laselva de Curitiba. Livro pequeno, de bolso, com várias pílulas sobre diferentes aspectos do país. Pena que os preços dos livros no Brasil sejam impraticáveis. Porra, é papel e tinta. Custo de produção barato. Não tem porque receber tantos tributos assim. Os livros, hoje em dia, encontram o mesmo status mercadológico dos CDs, há dez anos atrás: são vendidos com preços que as pessoas não estão dispostas a pagar, em plena época de ascensão de uma tecnologia que ameaça o status quo da mídia papel (e olha que a pirataria não é aplicável aqui). O P2p praticamente dizimou lojas de CDs no mundo inteiro; só grandes franquias ainda conseguem vender seus CDs. Quem tentar viver só disso dança. A indústria do papel está com a mesma autismo cego do da indústria fonográfica e não faz nada. Iniciativas isoladas como as da Editora três, enchendo o saco de transeuntes em lugares públicos, distribuindo suas revistas gratuitamente, não servem. Soam apenas como desesperadas. Temos blackberry, e-books, tecnologias que cansam menos a vista, e as editoras ainda apostam no romantismo do papel. Aposta arriscada... se as livrarias me oferecessem preços atraentes para adquirir e-readers no momento em que entro em uma, quiçá oferecendo alguns títulos de brinde para familizarização da tecnologia, não teria pensado duas vezes em levar esse livro em particular. Mas não. Fui embora sem nada, na certeza de que a internet pode falar comigo sobre qualquer assunto, sem se encerrar em algumas centenas de páginas de papel processado. A tecnologia é da informação, e não do espaço...

sábado, 3 de julho de 2010

Diálogos

[comprando ventilador com vendedor das Casas Bahia, com uma cara de filho de retirante, que veio de SP há pouco tempo]
_ Ah, leva essa marca não, é muito Beretta.
_ Cuma?
_ Beretta. Sabe, aquilo que...
_ Entendi, produto vagabundo, que quebra fácil.
_ Iiiiiisso...

_ Hahahahahahahaha...
_ Que foi?
_ Nada, é melhor eu não falar nada.
_ Ah, fala logo.
_ Tá vendo aquele bebê ali?
_ Ohn, que coisa mais fofa!
_ Hahahahaha, olha a carinha dele. [encostando no ombro da mãe, com uma carinha de sono super engraçada, quase orgásmica] Não parece que a cabeça dele tá vazando?
_ Credo, isso lá é coisa de se falar de uma criança?
_ Sim, é como se a cabeça dele fosse uma espinha gigante, saindo pus do outro lado.
_ Coitada da sua esposa...
_ Ela em entenderia...
_ Não entenderia mesmo!
_ Huahuahauhauahuahuhaua
_ Que foi agora?
_ Agora essa imagem da espinha não sai mais da minha cabeça!


Crianças, nos próximos dias estarei de férias. Vivendo um pouco, por assim dizer. O blog está em marcha lenta como sempre, mas sempre com alguma epifania não-idiota o bastante pra distraí-los. Ou seja, um conteúdo quase interessante. Em 15 dias eu volto. Para o bem ou para o mal. Beijo nos seus corações empedernidos.