sexta-feira, 25 de junho de 2010

O povo é figuração

O Brazil não possui tradição de participação popular em sua história. A inconfidência mineira foi sufocada, a independência foi meramente simbólica e a ditadura bagunçou toda a frágil ordem socioeconômica de cinquenta anos atrás. Sendo que esta última só pediu arrego quando deixou de ter apoio dos americanos. Prova maior da participação deles, na minha super humilde opinião, pode ser vista em documentários como Pan air do Brasil, facilmente encontrado no Canal Brasil.

Isso sozinho poderia explicar nossa falta de identidade política? Porque vejam bem, cultural nós temos. Num país de dimensões continentais como o nosso, estranho seria não ter, nesse caldeirão de miscigenação nosso. Quando falamos sobre política, as pessoas falam que "religião e política não se discutem". Puta merda, existe alguma igreja nesse mundo que se dá ao trabalho de canonizar pessoas pelo simples fato de terem sido eleitas pelo povo? Me avisem quando existir uma, porque esse tipo de ditado mostra como é distorcida e conformista nossa visão política. A corrupção aqui não é endêmica, ela é mais cultural, mesmo. Vemos desvios de conduta de parlamentares não como falhas de caráter, mas como vícios naturais trazidos pelo "conforto" do poder. Pensamos na responsabilidade que conferimos a essas pessoas, a de gerir nossa sociedade, não como uma função pública per se, mas como mero conforto legitimada por uma tradição daninha. Vemos cargos públicos como escala a um Olimpo infame.

Como toda ditadura, a nossa desmantelou os principais pilares da iniciativa privada, tomou decisões estratégicas à revelia de todos e ainda por cima tomou a cruel decisão de alienar a população censurando a produção intelectual e aviltando as instituições de ensino com currículos que convenientemente as privam de recursos necessários para pensar por si próprias. Não à toa, até hoje o conhecimento que buscamos é metrificado por vestibulares e concursos de toda sorte. Transformaram o conhecimento em tabu e tentaram sugerir que a burocracia é um entrave logístico que justificava quisquer meios. Pegaram a gente de surpresa. Mais uma vez a população fora derrotada. A democracia que voltava é apenas uma das normas dessa franquia mundial infame conhecida por capitalismo.

A opinião pública é um acesso de fúria momentâneo, facilmente dispersável, como num cão. Parece algo que Milton Friedman diria, mas assim é nosso povo sem memória, rebotalho dos degredados do mundo inteiro. Herdeiros de imigrantes famélicos fugindo de guerra, de escravos libertos, de prostitutas, assassinos e tudo de pior da metrópole do tempo das grandes navegações. Este país uma festa cuja maioria não foi convidada, a lista amiga é tão grande que atrai tudo quanto é gentalha e não há banheiros suficientes para todos. Pelo menos ainda é festa; em outros os convidados começara a brigar faz tempo e não há seguranças pra expulsá-los.

Percebam: nos prendemos a ideais políticos sem coragem pra trabalhar com ideias. Não temos forma e queremos trabalhar conteúdo, no aspecto sociopolítico.

domingo, 20 de junho de 2010

Mínimas diferenças (II)

Ada Lovelace não é Linda Lovelace. A primeira tem o mérito de ter seu nome numa nota de rodapé da história dos primórdios da computação; a outra é do tempo em que as locadoras não tinham aquela salinha escondida nos fundos.

Roy Scheider não é Rob Schneider: ambos são atores, mas só um tem dignidade.

Morgan Freeman não é Deus: um fez papel do outro no cinema, mas o outro é onipresente além do cinema. Ou talvez não: Morgan já foi boxeador, fornecedor do Batman, Nelson Mandela… moleza pra ele atuar como o Criador no cinema. Ele (o Morgan) deve estar lendo este blog (fazendo laboratório pra seu próximo filme sobre mídias sociais) e nem percebi ainda…

Roberto Carlos não é Roberto Carlos: um tem perna mecânica; o outro, apesar de ter as duas, fica mais tempo ajeitando o meião do que marcando o ataque do futebol francês...

Sylvia Krystel não é Sylvia Saint: ambas iniciaram muita gente e ambas já receberam muita homenagem nos banheiros mundo afora, mas só uma abre as pernas de verdade; a outra, no auge de seus delírios esquizofrênicos, prefere usar uma tiarazinha em forma de coração -- roubada do kit Barbie da filha -- pra sublimar suas fantasias (e as alheias também). Acredite se quiser: softcore cult/kitsch/trash existe. Hora de o médico dela repensar o que receita em suas bulas azuis...

O jogador marfinense Keita não é Rede Globo: um, ao se esbarrar de propósito em jogador adversário e se jogar descaradamente no chão, numa amostra de talento dramático inconteste e inversamente proporcional a seu talento no futebol, que culminou na expulsão do Kaká (kkkkkkkkkk), mostra ao mundo a postura mais antidesportiva possível a um jogador; a outra, só porque precisa fazer uma cobertura de uma equipe dirigida por um treinador marrento que odeia imprensa e não aceita ninguém pendurado em suas bolas, fica bravinha e solta matérias metralhando o zangado dos sete anões, mostrando ao país a postura mais antiética possível de uma equipe de jornalismo (sic). Bom, levando em conta o bairrismo dos dois, as semelhanças éticas (de atuação também) são maiores que as diferenças...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Desastres da retórica (VI)

Eu não consigo ficar bravo com você: essa frase é música para os ouvidos de pistoleiras. Finalizar qualquer discussão num beco desses é pedir pra sempre ser usado pelos outros. Ou então pra usar os próprios sentimentos como moeda de troca, chantagem.

E Fulano, como está?: a pesoa puxa assunto com você só pra saber de uma outra pessoa. Além de entregar seu desinteresse em você, a pessoa mostra que você está sobrando na roda. Há quem reclame que nem sempre puxo assunto, mas se for pra ficar falando essas merdas, insira um objeto fálico em seu esfíncter retal e pare de poluir meu campo de visão com sua presença descartável. E aí, ainda quer saber como Fulano está? Joga no google, boneca. Ele não se importa em dizer como vão os outros.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Isso porque o Galvão ainda não abriu o bico...

Agora é oficial: a transmissão global da Copa do mundo já deu no saco com estilo (perdendo talvez apenas para Pequim). Confiram algumas sacadas geniais dos redatores da emissora platinada:

Em ano de copa, o coração do brasileiro bate em ritmo diferente. Em vez de o coração bater tum-tum, tum-tum, tum-tum, vai bater: hexa-hexa, hexa-hexa, hexa-hexa...

[no Jornal (sic) Nacional]

Fiquei sem palavras, então vou jogar um print aqui do lado pra vocês sentirem o drama.

Vuvuzelas são mais barulhentas que helicóptero e trânsito de SP

A cereja do bolo foi a transmissão da Grobo em festa de abertura. Além da tradução simultânea que conseguiu ficar mais macarrônica do que o inglês de Joseph Blatter, teve uma hora em que Galvão, Fátima e um outro carioca tagarela qualquer conseguiram a proeza de tentar falar ao mesmo tempo, exatamente na hora em que o presidente do país-sede da Copa, Jacob Zuma, começa a falar. Sabe aqueles momentos durante uma aula em que você percebe que as conversas em sala são mais proeminente que o monólogo do docente? Foi algo assim.

domingo, 6 de junho de 2010

Porque os Estados Unidos são um país culturalmente brega (III)

Calçada da fama: décadas de fama, de carreiras cuidadosamente arquitetadas por diversos atores e atrizes, sumariamente encerradas num pedaço de chão disposto na badalada Hollywood. O que há de glamuroso nisso? Se ostentar seu nome na terra fosse grande coisa, cemitérios seriam amplamente procurados como circuitos sociais pros finais de semana. Os mausoléus seriam os ambientes; o relento, o DJ, e o fogo-fátuo, pirotecnia temática. Façam-me o favor! Isso é corporativismo demais pra minha cabeça. Séculos atrás, por exemplo, era comuns padres serem enterrados debaixo, por exemplo, dos altares das paróquias cujas vidas eles se dedicaram. Nada higiênico, diga-se de passagem. Agora Hollywood, pra perpetuar os inúmeros ícones de beleza e juventude que criam pra vender esse produto sem forma física chamado de entretenimento, mantém rigorosa analogia com essa efemeridade do cinema cravando seus nomes numa calçada que é o primor da cafonice. Aquele museu de cera de Londres é quase não-brega perto da calçada da fama...


O excerto abaixo é de um texto que escrevi em dezembro de 2002 (dum blog que apaguei). Sim, faz tempo que testo a paciência de desconhecidos com esses garranchos aqui. Como seu teor se adequava ao conteúdo desse post, coloco aqui como complemento. Me deu um déja-vu porque esses dias descobri que a novela das oito tem Puccini como tema de abertura. Fiquei muito preocupado, como vocês comigo concordarão ao lerem o texto abaixo. Fiquei preocupado não por esse fato isolado (uma escolha da emissora que supostamente indicará na popularização do gênero erudito), mas por como a música será banalizada (Pour Elise, de Beethoven, lamentavelmente o é; até pra música de caminhão de gás já foi usada). Leiam abaixo e entendam minha preocupação, expressa com um rápido cálculo matemático.

Como saber se o brega americano é um brega americano: basta ver o título da música; se tiver a palavra Feat. (featuring), é brega de certo! Hip-hop lá é o equivalente do funk brega daqui!... ah, se tiver arranjos eletrônicos demais, não hesite! É mais um brega enlatado!... stay away! Se nada disso se aplica, observe se é uma mulher solo cantando! Todas fazem parte do filão brega de lá! Na mais comum das hipóteses, verifique se a música toca na novela! Pode até não ser brega à primeira vista, mas será após a 998a. execução em horário nobre. Exemplo? Blue moon, da novela vapiromaníaca das sete! Segundo meus cálculos, admitindo que, junto com a abertura, mais as vinhetas de "estamos apresentando" e "voltamos a apresentar" somam a 12 por dia, multiplicado por uma média de 120 capítulos, temos 1440 execuções parciais da música ao ano! Nem rádio toca tanto uma mesma música!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Tecnoburocracia

A gente percebe que o vício da burocracia chegou até a Internet quando se depara com sites abjetos como o Rapidshare. Porra, antigamente você entrava no site, baixava o arquivo e pronto. Mas nããããão, por causa de uma meia dúzia de parasitas sem criatividade que criam sites e roubam links alheios, tooooodos tem que ser atingidos. É desanimador ver como a popularidade de uma mídia a torna mais truncada. A mesma web 2.0 que torna o conteúdo infinitamnete mais fácil de ser gerado, categorizado, relacionado e socializado, é o mesmo que trouxe pedras como o captcha, o rapidshare, projetos de lei tentando censurar conteúdo da Internet, decisões judiciais reacionárias e sem amparo doutrinário, eventos sociais adaptados para rolarem dentro de um site, pirracinhas de direitos autorais... pois é. Me lembro que, há quase dez anos atrás, lera na Info Exame que o espírito freeware que regia a Internet até o começo da década passada passaria. Merda, eles estavam certos. Qualquer coisa ridícula é cobrada hoje em dia, e os freewares à disposição são feitos por gente que ainda tá no primeiro ano da faculdade de computação, sem vida social suficiente pra fazer outra coisa. Antigamente, beeem antigamente mesmo, navegávamos na web para nos mantermos como consumidor ativo de informação; hoje em dia não, nivelaram essa bodega toda com a TV. Quanto blog por aí monetizando seu "conteúdo" e copiando, da forma mais institucionalizada e antiética possível, conteúdo uns dos outros, outrora copiado de pessoas criativas ou desocuopadas o bastante! Ou seja, todo mundo quer fazer espetáculo hoje em dia. Aquela coisa casual de antigamente, underground, espontânea, mais suscetível aos insights que quem gerava o conteúdo, foi dizimado por sites de nomes tão inteliegntes quanto seus criadores. Naturalmente, 'criadores' foi uma forma de dizer; quando você tem um filho, você não é criador de porra nenhuma. Você é o procriador, correto? Mantenha a analogia com a web. Inclusive retomando a que eu fiz com o Rapidshare. Se antigamente uma parteira bastava, agora só com plano de saúde e uma equipe médica completa seu barrigudinho vai chegar ao mundo. Se ele for seu, claro; desconfie da pele morena dele... ;-)