sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A propaganda de natal mais monga que eu já vi


Apostar na culpinha cristã da classe média todo mundo faz. Mas fazer isso de forma tão óbvia, infantil e constrangedora como essa? Só mesmo a publicidade daqui do estado. Nem num desenho animado encontraria uma analogia tão pobre como essa. Porque estou pautando isso aqui? Porque, nessa época do ano, sempre tem aquela legião de chato falando sobre como o Natal é uma comemoração jeca que fomenta o consumismo e nada tem a ver com a ideologia de preceitos cristãos que a Igreja e a Coca-cola tanto vendem. Bom, creio que uma imagem vale mais que mil palavras...

Achei que não encontraria mais essa ação publicitária (do final de 2008) na interwebs; mas, para minha sorte, mediocridade também perdura no tempo. Reparem as atuações globais. A associação do consumismo à de santidade. Imagina se eu tivesse jogado fora quatro anos de minha vida fazendo publicidade. E se hoje em dia não é preciso diploma pra se fazer "jornalismo", aparantemente isso não é muito diferente na publicidade. Quanto nerd por aí que se acha criativo o suficiente pra mexer com isso só porque consegue usar o photoshop!... Quanta legião de desocupado que passava o dia inteiro em redes sociais que, de repente, viraram experts em mídias sociais. Afe...


E terminamos mais um ano. Com um textículo sem vergonha, diga-se de passagem. 2010 foi um ano produtivo. Em vários aspectos. Se a vida é 10% inspiração e 90% transpiração, digo que este blog tá encharcado. Os criativos não revelam suas fontes. As escondem bem. E é isso. Feliz 2011 a todos. Você não é as coisas que tem, então torre suas economias com experiências boas, e não com coisas. Fica a dica de aspiração pro ano que se segue, seu consumistazinho sem-vergonha. E beba muita champanhe por mim: a humanidade precisa de menos sobriedade e mais coisas ínúteis. Boas festas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Adoração ao homem do saco

Li numa tirinha dos malvados que Deus é uma espécie de Papai-noel dos adultos. Creio que o raciocício inverso também procede. Sim, é um aforismo de teor ateísta, provocativo, mas vem bem a meu propósito. Para mim, Papai-noel funciona como uma espécie de treinamento, de estágio para a religiosidade futura das crianças. A devoção com que cada uma delas espera seu presente do bom velhinho é um bom indicativo de como o indivíduo lida com sua aptidão humana de idolatrar figuras espirituais. Porque, assim como divindades, as crianças nunca veem Papai-noel pessoalmente. Mesmo quando elas o veem nos shoppings e tiram foto ao lado dele, estou certo que há um lado de suas psiquês que os deixa alertas sobre a possibilidade de aquele senhor todo vestido de vermelho se tratar apenas de uma personificação, criada pelos adultos, de seu objeto de adoração.

Felizmente, para as crianças, a realidade não importa: para elas, é mais importante o que imaginamos do que o que vemos. Faz sentido. É uma fase da vida em que elas não estão preparadas para a vida como ela é. Na piscina da vida, elas acabaram de botar o pé. Já com os adultos, mesmo que eles não O vejam, eles precisam, nem que seja no âmago de seu ser, ter certeza de que seu Deus existe. Dá pra ver que não há fé mais incondicional que a das crianças. O cérebro delas é muito mais plástico do que o nosso, portanto a mudança é algo bem mais aceitável e comum na vida delas. A personalidade delas já está lá; basta vir o mundo pra estragar tudo. Talvez o mesmo se opere com a fé de cada uma delas: para elas, o poder do mito supera evidências físicas de uma crença. Elas não querem um Deus intercedendo por elas; querem apenas ser recompensadas pelo que são. Um culto a si próprias. Até porque elas não precisam de santidades; elas têm os pais, figuras que as amam e protegem e que atuarão no longo processo de criação de referenciais masculinos e femininos para elas. Então, as crianças não precisam temer a "Deus" para admirar e amar uma figura cuja existência não podem comprovar. Elas priorizam as pessoas que já estão por perto, e tomam o amor que recebem delas como suficiente para suas existências.

Ou seja, com tanta maturidade espiritual latente, dá pra entender porque padres, aparentemente, preferem atentar contra o pudor de criancinhas do que se dedicarem a seu celibato: elas são perigosas para o evangelho que tanto defendem. A espiritualidade delas está num estado que eles, que se acham tão próximos a Deus, jamais alcançarão. Crianças não precisam de abstinências para sustentar sua fé. Não me espanta que elas detestem igrejas: que ousadia desse bando de adultos achar que vão encontrar Papai-noel Deus só porque construíram uma casa pontuda cheia de pinturas Dele na parede...! Elas, em vez disso, celebram o que já têm em mãos: suas vidas. Não ficam usando a fé como álibi para seus insucessos pessoais nem ficam pensando no que há após a morte -- O que é paradoxal, porque crianças são impacientes por natureza --, nada disso.

Claro, a gente percebe o lado pragmático das crianças quando lembra que Papai-noel não vem a elas de mãos vazias: traz consigo um saco, cheio de presentes para as crianças boas. Mas o saco, para mim, é uma metáfora da vida adulta: com quantas coisas a gente espera encher esse saco, e mesmo assim conseguir descer a tal da chaminé! Não parece irônico a gente lembrar que Papai-noel trata-se de mera adaptação da vida de são Nicolau para fins comerciais (vender referigerante de cola, por exemplo)? Adaptação esta feita pela própria igreja que tanto se afasta da fé com a qual as crianças já nascem? E ainda por cima feita num contexto de países de clima frio. Dou uma mariola pra quem encontrar uma chaminé que seja em seu bairro. Pois é, Papa, da próxima vez que criar um santo qualquer com fins comerciais, trate de universalizá-lo, pra não gerar decorações tão jecas nos shoppings da vida...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

The office (III)

_ Prepara um cartaz pra mim avisando que os alunos devem usar uniforme e que não poderão mais assistir minhas aulas de calça ou bermuda, sim
_ Sem calça nem bermuda
_ Sim, especialmente com chinelo de dedo. Agora, só de uniforme.
_ Ah sim, tinha entendido outra coisa.
_ Que eu queria proibi-los de assistir minhas aulas com roupa de baixo?
_ Sim…

_ E aí, tá saindo com ela novamente? Agora é sério?
_ Cara, figurinha repetida não completa álbum.
_ Sei. Seu álbum só tem figurinha dela, então...

_ Você não vai esssa barriguinha pra sempre...

_ Finalmente você levou esse carro pra lavar. Ele estava imundo!
_ Ele não estava imundo, estava estilo offroad.
_ Offroad?
_ Claro. Carro é como all-star. E all-star bom é all-star sujo, com história pra contar. Veja essas madames que compram sedãs disfarçados de offroad, como a Ecosport. Até poeira é hype hoje em dia...
_ Dá pra conhecer uma pessoa pela forma como ela trata seu carro...

_ Você devia parar de beber.
_ Espere, tem uma coisa que tô tentando lembrar.
_ O quê?
_ O momento em que pedi sua opinião.

_ Teve um amigo meu que já afogava o ganso antes do ensino médio.
_ Povo precoce...
_ Dá pra ver que eles faziam muita aula de campo. De campo, de arquibancada, de cama... às vezes de matinho...


_ Ai, para, tem gente olhando.
_ O vidro é fumê, eles não vão ver nada...
(pouco depois, dois pedreiros passam rindo pelo carro)
_ Gosta de ser observada?
_ Safadinho...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Minha biblioteca particular

Meu pai foi um homem de inteligência ímpar. Sempre respondia a minhas perguntas*, sempre trazia porquês às coisas que observava no universo e buscava a excelência em tudo que fazia. Só de sacanagem, eu fazia as mais absurdas e específicas perguntas. Era sempre derrotado por seu conhecimento invejável. Ele só esboçava certo cambalear perto de sua morte, quando minhas perguntas tomavam caráter por demais filosófico ou subjetivo. Mas não o julgava por isso; a vida o amaciara bastante antes de eu atingir o nível intelectual necessário para explorar adequadamente as dimensões de sua mente. Ele é um exemplo de pessoa que carregarei para sempre comigo, independente das cirandas que a vida me faça entrar.

Ele se foi há muitos anos. Deixou uma saudade** sem tamanho. As lembranças se esvaem cada vez mais, como o horizonte em um dia nublado. O que nos resta são, além das memórias construídas no auge de minha individualidade, seus livros. Eu, muito humildemente, confesso que li poucos de sua considerável biblioteca, mas afirmo que li o suficiente para perceber o quão sofisticado era aquele homem. O tamanho de sua visão de mundo. As dimensões intrincadas de suas perspectivas pessoais. Com ele aprendi a nunca ter medo de minhas próprias opiniões. Muito pelo contrário; desde sempre me senti motivado a incrementá-las e alimentá-las com fatos novos, comparações e visões de mundo próprias. Ou seja, ele me ensinava a não ser mero papagaio de livro de sebo; me ensinava a compor meu próprio mostruário intelectual. Deve ser por isso que sou o mais pedante membro da família, mas isso é outra história.

Recentemente sobrou para mim a tarefa de organizar seu antigo escritório, aqui em casa. Fechado há muitos anos, com um acúmulo de poeira que é o pesadelo de qualquer asmático, sempre sobra para mim isso. Para vocês terem uma noção: passei o fim de semana inteiro organizando a balbúrdia gerada por um escritório, outrora intensamente usado por ele, abandonado por anos e reduzido a porão. Enchi sete caixas de livros, entulhei a entrada com papeis que dificultavam minha saída e cortei com papel uns dois dedos. E ainda há coisa por fazer. Mas por mais que eu esteja convencido de este abandono do escritório ser algo lamentável, é sempre uma tarefa agradável: é como passear pela mente dele. Confesso que aquele volume aterrador de papel me assusta, mas me chateia (algo que secretamente guardo a mim mesmo) observar que, durante todo esse tempo, nada foi feito para aquele lugar se tornar minimamente agradável para alguém ler um bom livro ou se recolher longe dos profanos ruídos cotidianos de uma família que acha aceitável conversar em cômodos diferentes da casa e têm opiniões banais. Ele também se irritava com várias coisas que me tiram do sério em relação às pequenas fatalidades do convívio familiar, mas ele vivera o suficiente pra achar que tudo aquilo valia mais a pena do que a solidão. Eu sou filho de um segundo casamento dele, e se com minha idade atual as exigências dessa instituição do casamento já me horrorizam, prefiro não sofrer por antecipação e imaginar o futuro. Talvez ele visse em mim sua capacidade de se indignar de outrora.

Revirar os livros e papeis não se limita a passear pela mente dele. Também resulta num passeio pelo tempo. Em modismos de outrora, em conquistas pessoais e inquietudes do espírito dele traduzidos em dezenas de livros sobre misticismo (muitos de ordens secretas cujo teor de seus ensinamentos não convém cá expor); sobre sua carreira militar; sobre história (ele inclusive tinha um projeto de lançar seu próprio livro sobre a história do Estado, projeto este frustrado por um computador que teve de ser formatado. Eram tempos sem pen drive e com gravadores de CD caríssimos, mas o material recolhido ainda existe); sobre matemática ('O homem que calculava' se destaca); sobre pequenos hobbies que ele cultivava (pequenos reparos em casa, consertos simples em automóveis, até um livro sobre fotografia encontrei), e muitos de informática (o mais notório de seus hobbies; chegou inclusive a se formar numa faculdade perto de casa). Entre os vários objetos pessoais, encontro vários LPs. Trilhas originais de vários filmes clássicos (como Lawrence da Arábia), várias bandas que identificaram décadas inteiras (fã incondicional dos Beatles, tinha vários livros sobre a filosofia indiana que eles promoveram mundo afora, o hinduísmo, como o Bhavagad Gita). Certa feita tentei ver quanto estava se pagando por aquelas raridades. Pôr preço em memória afetiva nunca dá certo, como podem presumir. O mais triste é que, nas constantes mudanças de domicílio que sua carreira exigia, muitos desses discos se perderam. A do Star wars e dos Beatles foram as perdas que mais sentiu.

Uma das coletâneas que mais confiro valor afetivo é uma que a Editora Abril (quando a logomarca ainda era do galo) lançou nos ânos 70 (antes do acordo ortográfico que precedeu o do ano passado, vejam só) com cinquenta grandes autores da Literatura universal. Só livraço. Capa dura, vermelha, escrita em dourado. Até hoje esnobo os preços das livrarias e dos sebos graças a essa coleção de valor inestimável. De cinquenta volumes, 47 ou 48 estão presentes. Alguém, por exemplo, pegou Anna Karenina e nunca mais devolveu. Uma situação chata que ele mesmo, como vítima, confessou ter feito outros passarem. Muitos livros do escritório lhe foram emprestados, mas a oportunidade -- ou vontade -- de devolver não se fizeram presente. Enfim. Dessa coleção, tive prazerosas leituras como O retrato de Dorian Gray, Pais e Filhos, Werther, alguns contos de Voltaire, O estrangeiro de Camus, O primo basílio, Dom Casmurro...

Graças a esse inestimável espólio intelectual, até hoje sei muito bem o que merece ser lido. Tanto que eu nunca caio nesses modismos fabricados por editores. Harry Potter, Senhor dos anéis... façam-me o favor! Com um pretenso bibliófilo em casa, não precisava disso. Ainda não preciso. E desde tenra idade ele me introduzia aos livros indispensáveis. Ele não exercia uma influência direta; não era com frequência que me indicava leituras, mas eu nunca errava quando ele o fazia. Guardo como peça de museu, por exemplo, um dos primeiros livros que li na minha vida: O pequeno príncipe***. Uma edição de 1963, com a capa presa com fita adesiva. Li outros antes deste, mas nenhum me marcou como a obra-prima de Exupéry. Primeiro pelo mundo de fantasia; em seguida, com o passar dos anos, pelos detalhes que a gente vai saboreando à medida que lê mais e mais vezes um livro que gosta. E olha que sou uma pessoa extremamente avessa a consumir alguma coisa mais de uma vez. Quando gosto de um filme, por exemplo, até compro o DVD, mas me seguro pra não assistir uma vez atrás da outra. A magia da primeira assistida nunca se repete. E parece que essa magia se esvai nas mãos do senso crítico à medida que se assiste indiscriminadamente. A beleza é efêmera; depois de sua breve presença, o resto é nostalgia, é projeção de si em histórias que te trazem algum tipo de identidade.

Inclusive muitas raridades se encontravam no escritório: livros que não se encontram em português, como La grammaire hébraïque restituée, de Fabre D'Olivet, ou mesmo títulos extremamente desafiadores, como A doutrina secreta, de Helena Blavatsky. Na onda da revolução sexual dos anos 70, encontro inclusive Os prazeres do sexo, de Alex Comfort. Aparentemente, a gilete ainda não havia sido criada na época, como atesta o genial Stewie Griffin: as gravuras são cheias de pelos! Também, algumas curiosidades, como o livro de mórmon (volta e meia encontrava textos de outras religiões em meio à bagunça; esse não era o único), poemas de Gibran e muitas, muuuuitas revistas! Parece absurdo, mas houve um tempo em que as pessoas compravam periódicos na banca mais próxima, em vez de esgotar todo o conhecimento elementar sobre um assunto em meia dúzia de resultados de pesquisas no Google. Uma pena isso; as bancas rareiam cada vez mais. Essa descentralização da informação só aumenta mais o fosso entre as pequenas editoras e o público. O iPad vai tentar reinventar isso, com assinaturas para leitura no próprio portátil. Revistas de grande circulação como a Veja postam nisso. É ver para crer; eu, feliz proprietário de um tablet fazendo as vezes de e-reader, não arrisco palpite.

Além dos livros, encontrava também muitas evidências beirando o arqueológico de um passado que ele preferia esquecer. Livreto do grupo de bandeirantes que a filha dele (do casamento anterior) participava, com a qual passou quase 20 anos sem falar. Um ano antes de ele partir, o convenci a procurá-la. Mas não o fiz sozinho: eu havia iniciado tratamento psicológico por motivos alheios ao mote deste texto. E durante as sessões tive essa ideia. Reconhecia claramente nele a infinita mania de cultivar rancor que tenho. Ele era do tipo de pessoa que nunca mais falava com alguém caso a pessoa o magoasse. Sou assim também; comigo não tem essa de fazer caras e bocas, de fazer a social, de fingir qu tá tudo bem quando na verdade quando quero mandar a pessoa pro inferno. Até nos defeitos me orgulho dos genes que carrego. Me recordo inclusive, que quando, no auge da pedância da adolescência, reclamava das coisas que discordava na nossa família, ele não retrucava com cortes bruscos ou correções morais incisivas. Mesmo quando o fazia, ele o fazia entendendo porque eu agia daquela forma.

Eram tempos diferentes. Pessoas com mais de quatro dedos ainda governavam o país, clubes tradicionais irem para a série B ainda chocavam os torcedores mais conservadores, inclusão digital era um termo que não existia e ele descobria maravilhado que, via Napster (Napster!), podia matar a saudade das bobagens que outrora ouvia. Aliás, esse trabalho arqueológico que fiz com os livros dele fiz bem antes com as músicas que ele gostava. Embalado pela ascensão dos CDs em meados dos anos 90, com várias revistas trazendo a nova mídia em materiais promocionais, a gente também enchia caixas e mais caixas de CDs. Mas tratei de pôr um fim nisso sem o menor saudosismo. Queimei vários desses CDs em uma meia dúzia de DVDs e me livrei de muitos sem sequer me dar ao trabalho de aproveitar o que poderia julgar interessante. Quem precisa de CDs com um apanhado de programas vagabundos quando se tem o oceano da internet pra isso? Foi a pá de cal sobre aquele monte de disquinho brilhante. Mas voltando ao espólio musical dele, o encerrado em CDs, eu fiz um levantamento de tudo que considerava interessante (MPB, clássico, trilhas sonoras de filmes), joguei tudo no computador com alguns torrents, enchi uns dois DVDs com MP3 e nunca mais perdi tempo com os disquinhos ocupando espaço nas prateleiras. A tecnologia é da informação, e não do espaço. Sim, eu já disse isso antes. Tudo volta ao pó, e hoje em dia não é apenas o tempo que debocha da gente nesse aspecto; a tecnologia também.

Eu era o superego dele, em alguns aspectos: absurdos que a gente não diz para não magoar nem atingir a insegurança dos que amamos, eu dizia. Se sou quase sociável hoje em dia, devo um pouco a isso, a essa moderação que ele fazia comigo. A vida é curta demais pra se irritar com permissividade. Meu pragmatismo ainda escondia muito bem meus anseios. Pelo menos assim o julgava. Em contrapartida, eu era o id em situações bestas: o que não acreditava em mim, ele o fazia por conta própria por mim. Será que ele tinha ciência das aspirações absurdas que eu fazia a respeito do futuro e do amor? Eu era refém de mim mesmo e não percebia. A adolescência não passou de um engano para mim. Eu esperava a vida começar e ignorava seu incessante progressso a meu redor. Descobri isso da pior maneira. Foi a última lição que ele me deu. Num fim de tarde de segunda. Um dia após o aniversário de mamãe. Não tive tempo para pergunta alguma. O silêncio foi a mais eloquente das respostas a uma pergunta que preferia não fazer. E a que mais levei tempo para interpretar adequadamente. A vida havia começado.


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* Me recordei agora dum texto que escrevi com um exemplo de como ele me explicava o mundo.
** Texto que escrevi há cinco anos atrás sobre o tamanho dessa saudade.
*** Ixe, mais um texto de referência. Não imaginava que um post sobre o passado viesse a promover um flashback aqui no blog também.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Oração e dízimo

Sabe o que me chama a atenção em relação a bancos? Como é que uma atividade econômica que se iniciou em templos, nos primórdios da humanidade, e funcionava à base de permuta e de depósitos de grãos, de repente, ao longo da era cristã, se afasta de quaisquer premissas dogmáticas e se torna uma espécie de golpe institucionalizado, com aceitação social? Sem falar essa hipócrita busca por cristalização da ordem social de poucos ricos e muitos pobres (esse meio termo só começaria a surgir com a burguesia, séculos depois) que a ascensão dos bancos mantém tão rigorosamente. Em alguns momentos da história, inclusive, às custas de perseguição a judeus por estes cobrarem juros, como se o cristianismo jamais tivesse feito isso, quiçá até antes mesmo deles. Talvez isso não passasse de uma desculpa esfarrapada para justificar perseguição religiosa.

Invenção que precede a criação de dinheiro, não é de se espantar que 90% de todo o dinheiro que os bancos negociam simplesmente não exista*. O vil metal é tão metafísico quanto o suposto destino dos dízimos que as mesmas igrejas precursoras de transações financeiras exigem de seus fiéis. Exemplos vem de cima, e os pecados associados a dinheiro começaram todos de clérigos. Assim, dinheiro, como a publicidade e a Visa nos ensinas à exaustão, é valor agregado. Você não é as coisas que compra (discurso do Clube da luta, eu e minhas citações pop), mas sim o valor agregado a elas.

As instituições financeiras tem tanto peso em nossas vidas que eles sempre estão atentos a quaisquer mudanças sociais que possam vir a ameaçar seus negócios. Porque assim, eles vendem serviços financeiros, não vendem nada físico. Assim como a informática, isso os força a sempre se porem atentos a tendências. Por exemplo, o microcrédito de Mohammed Yunus foi copiado e replicado por eles; ascensão de candidatos com visões ideológicas que ameacem suas zonas de conforto são seguidos de perto e rapidamente conduzidos a seu esquema (lembram-se da cotação do dólar faltando dias para Lula ganhar as eleições de 2002? Absurdos R$4,00); tecnologias são rapidamente abraçadas e vendidas como mais um serviço (e não como ferramenta) deles... e por aí vai.


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Ler este artigo para melhor compreensão de minha colocação, que citei nesse post.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pleonasmos do jornalismo brasileiro

  • Candidato xis tem 30% dos votos, com margem de erro de três pontos, para mais ou para menos: não bastasse os telejornais (quaquaqua, jornal... e na TV...) papaguearem isso toda vez que fazem uma pesquisa, eles ainda por cima fazem questão de falar o intervalo de porcentagem compreendido pela margem de erro. Matemática não é assunto popular, como podem ver. O simples fato de se considerar quem encomanda essas pesquisas, apesar de registro no TSE, já não sugere o que certos segmentos da sociedade esperam das eleições?
  • O goleiro será indiciado por homicídio culposo, sem intenção de matar: para o povão, só existe crime quando eu tenho vontade de matar alguém. E nossa mídia parece querer perpetuar esse entendimento com esse pleonasmo. Talvez pra ficar mais fácil de, no futuro, vender esse tipo de notícia de forma mais fácil, caso alguma celebridade do canal cometa um homicídio culposo. Sem intenção de matar, viu gente? A sentença ainda não tem trânsito em julgado mas foi SEM INTENÇÃO DE MATAR, então tá tudo certo.
  • Duas pessoas morreram e centenas ficaram desabrigadas no interior de Minas Gerais: essa geralmente rola no começo do ano. Entra ano, sai ano, e sempre rola o mesmo copy-paste nas pautas de começo de ano. E, curiosamente, nunca se buscam culpados para essa situação. Políticos, secretários de infra-estrutura, empresários... tragédias naturais nunca tem nome. Ninguém se lembra dessas pessoas. O jornalismo no Brazil só se dá ao trabalho de fazer denúncia em programas que não são de estética essencialmente jornalística. E é sempre coisa superficial, nunca tem banco nem político de direita envolvido.
  • Atriz de novela passeia com seu cachorro nas areias de Copacabana: esse é o atual loren ipsum do jornalismo brazileiro. Quando o V do teclado das redações país afora começa a descolar de tanto copy-paste, esse tipo de notícia começa a pipocar em página de portal de internet. E quando der preguiça pra ler, tem sempre aqueles videozinhos engraçados que todo mundo viu pra colocar na página inicial como se fosse conteúdo exclusivo.
  • Dez pessoas morrem e trinta ficam feridas em atentado em [inserir nome de região do Oriente Médio aqui]: esse é o equivalente internacional ao pleonasmo acima. Nada mais a declarar.
  • Fulano vai recorrer da decisão: quando estudava pra cursinho, certa feita uma professora criticou essa mania da imprensa de falar do andamento de um processo como se cada novidade fosse uma decisão definitiva e final. Nesse ínterim, o fato de alguém recorrer de uma decisão não tem nada de esporádico ou digno de nota. Porra, é direito do safado. Nossas leis, vulneráveis a falhas decorrentes de tantas possibilidades de revisão de decisões, tornam um simples recurso algo ridiculamente redundante. Se existisse ética de verdade na imprensa, notícias de processos judiciais só deveriam ser veiculadas depois de trânsito em julgado. Mas se isso rolasse, decerto muito jornal por aí teria falido faz teeeempo...
  • E agora os gols da rodada: além de pleonasmo, é eufemismo da imprensa para "não quero me indispor com ninguém e/ou não tenho pauta escandalosa o suficiente pra derrubar ninguém, então vou cortar esse clima tenso falando de futebol". Me lembrou duma peça de Nelson Rodrigues que vi nas férias, 'A vida como ela é...'. Um dos contos transcritos para o teatro foi aquele do marido traído. A mulher começa a se engraçar com outro em plena época de copa do mundo. Durante esse período, os pensamentos do marido oscilam radicalmente entre limpar sua honra metendo o ferro na mulher ou comemorar de forma catártica o primeiro título mundial do Brasil em copas. Adivinhem o que aconteceu...
  • E a festa não tem hora pra acabar: cobertura de festas de carnaval Brasil afora. O repórter no meio da muvuca, nos carnavais de rua, conversando com bêbados, ou no camarote, acompanhando desfile das escolas de samba e fingindo entender os porquês das alegorias elaboradas pelos Joãozinhos trinta da vida. É o mais próximo que o brazileiro chega de se interessar por arte ou história. Seria interessante se houvesse uma formalização disso: vejam a Carvalhada, por exemplo. É uma festa popular que ensina História com propriedade. A única diferença entre ela e o carnaval carioca é a falta de interesse da Grobo e da Brahma em cima disso...
  • Aumentam os casos de latrocínio: roubo seguido de morte. Pode até este ser um termo mais jurídico, daquelas palavras divertidas que a turma da toga cria pra pobre não entender. Mas repetir feito papagaio que é "roubo seguido de morte" é demais. Repetir isso no começo de uma matéria, vá lá. Mas tem jornalista imbecil que repete a definição "roubo seguido de morte" toda vez que menciona a palavra durante sua matéria. Como um tique nervoso ou algum sintoma de Tourette. Fala sério! Você até chega a pensar que o "roubo seguido de mrote" faz parte do substantivo em si. Como quando você ouve tanto o nome de dupla musical que não consegue mais individualizá-las, sabe? Então.
  • Atriz/ex-BBB/ex-gostosa/pistoleira-que-ganhou-fama-com-vídeo-que-caiu-na-net ar-ra-sa com vestido Gucci em evento xis: típica matéria de jornalista (sic) escrevendo pra mulher frustrada que mal cabe no próprio pijama, assina a Contigo! religiosamente e sempre pede coca-cola light depois de se entupir de feijoada no self-service. A vida é mais do que isso, minha senhora. E, na minha opinião, reality shows só promovem desserviço ao institucionalizar a fofoca. Transformam um poderoso canal de fofoca -- um ambiente de confinação cheio de playboy, modelos e algumas ex-atrizes pornô escondidas no meio -- em pão e circo, na forma de competição. Ou seja, reality shows são uma espécie de Campeonato brasileiro feminino.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lotação máxima

A quem interessar possa, estou com um novo "projeto pessoal" (como os artistas gostam de dizer): é o Jornalismo FAIL, onde, a partir de minha lupa, desconstruirei toda a vergonha alheia presente na depravação intelectual que convimos chamar de notícia hoje em dia. É rir para não chorar. Se você achava o máximo escrever textos revolucionários com jogos de palavras pobres em zines ou folhetins em época de faculdade, lave sua alma aqui: uma tiragem de milhares de exemplares não torna um texto merda relevante. Sem mais.

Voltando à programação normal


(texto inacabado)

Nas férias, observei uma iniciativa interessante da prefeitura local. Todo local que recebe aglomerações como bares, restaurantes ou boates, por exemplo, possuem uma plaquinha que informa o número exato de pessoas que cabe no recinto, dentro de condições mínimas de saúde e de conforto. Já rolou comigo de sair na noite com uma prima num lugar tão, mas tão apertado e cheio de gente que estavam deixando apenas as mulheres entrar, e mesmo assim, ela ficou menos de meia hora, dada a concentração insuportável de gente. Eu fiquei quase uma hora na fila só pra ela se dar ao luxo de botar os pés dentro do local. Mais tarde, depois de procurarmos outro local, fui deixá-la em casa. Qual a minha surpresa quando ela simplesmente desmaia feito uma jaca, caindo inconsciente no chão, enquanto abria a porta de casa! Ela tinha epilepsia. Cortou legal a cabeça. Nem preciso dizer que provavelmente a lotação insalubre a qual ela se submeteu desencadeou o desmaio, certo? Tarde demais, acabei de dizer.

Isso exposto, quero propor que medida semelhante fosse aplicada não apenas em minha cidade, mas no trânsito dela também! Se merda acontece em balada superlotada, imagina em vias públicas cheias de máquinas acima de 1 tonelada disputando espaço. Seria tão prático. Pensem comigo, essa coisa ridícula do rodízio que São Paulo tenta fazer em vão. Esses inúmeros acessos alternativos e viadutos que as autoridades insistem em inaugurar sem nunca admitir que se tratam de apenas um caminho mais longo ao mesmo destino. Já com uma lotação máxima para cada rua, olhem que prático isso seria: displays eletrônicos nas extremidades de cada sentido da via exibiriam a lotação máxima aceitável para que a fluidez do tráfego não seja prejudicada. Com sensores no asfalto, seria possível se realizar uma contagem eletrônica e, portanto, um controle desse fluxo. A contenção desse fluxo poderia ser feito via cancelas reforçadas ou semáforos. Não seria nada tão intangível assim; se pensarmos um pouco, o fato de multidões itneiras respeitarem luzesinhas dispostas ao alto em postes no meio de uma rua parece algo meio bizarro se supuséssemos isso em épocas diferentes.

Chocado? Achou radical o que proponho? Ótimo! Entretanto, não caio no lugar-comum de achar que a culpa dos congestionamentos é dos consumidores fúteis que insistem em comprar carros cada vez maiores e mais beberrões. Nãããão, não caiam nesse lobby cretino da indústria automobilística! Esses vermes são piores que banco, em alguns aspectos. Banco te endivida mas não te mata por causa dum recall adiado, carro sem airbag ou motor com potência bem maior do que deveria ser dada a pessoas comuns. As grandes indústrias teimam em culpar o consumidor pelas mazelas do planeta. Aquecimento global? Culpa minha, que não reciclo meu lixo e uso produtos cuja emissão de gases colabora pro efeito estufa. Congestionamento? Culpa minha, que não quero andar a pé. Obesidade? Culpa minha que como demais. E sabe o mais engraçado de tudo isso? A pegada ecológica de nós, pessoas comuns, não chega nem a 15% das emissões que culminam nessas mazelas do clima que se convencionou denominar aquecimento global. Pesquise fontes séries e confirme por si próprio.

Esse tipo de iniciativa no trânsito faria as pessoas investir mais em formas alternativas de transporte, como bicicletas ou transporte público. Esse último, infelizmente, depende diretamente de vontade política. Só um transporte público de qualidade fará as pessoas abrirem mão de seus carros gigantes, aquela gentalha jeca que compra 4 x4 mas nunca anda em fazenda. Se bem que, do jeito que brazileiro adora fazer as coisas de última hora, o período de adaptação seria beeem longo.

Vários fatores decerto viriam a complicar minha proposta. Um deles é o de pessoas que vão ao trabalho de carro. Ou seja, pessoas que têm horários a cumprir. Outro é o período de validade da "lotação máxima" (serve como nome para esse projeto): apenas dias úteis? E veículos que prestam serviços essenciais, como ambulâncias ou caminhões do corpo de bombeiros? Bom, isso já descarta o uso de cancelas reforçadas, outrora proposto. Mas reforça o uso de um outro recurso: o do chip veicular. É uma proposta polêmica, que pessoalmente discordo, mas seria o único recurso tecnológico a tornar possível o controle de veículos que viessem a desrespeitar a lotação máxima de vias públicas. Alguns podem discordar de mim e apostar na popularização do GPS. Mas contar com o fator humano é uma variável que não funciona no trânsito. Todo mundo tenta atalhos, tenta burlar blitze, tenta alguma gambiarra. O chip, portanto, mais difícil de ser desarmado dependendo da forma como fosse implantado, seria mais viável.

O que inevitavelmente nos conduzirá ao pedágio urbano. O que talvez indiretamente também viesse a forçar as pessoas a buscar formas alternativas de transporte. Sozinha, a "lotação máxima" pode não funcionar, então outras medidas precisariam ser tomadas: por exemplo, a proibição de construção de postos em avenidas. Outras sugestões:

  • Abolição do uso de calçadas para uso como estacionamento, mesmo as de 45 graus: problema grave aqui; em muitas calçadas simplesmente não se consegue andar;
  • Compra de veículos novos condicionada à quantidade de pessoas a se transportar: nos EUA, a prática do carpooling é comum nas vias expressas, que possuem faixas exclusivas para quem usa o carro para dar carona a alguém pro trabalho, por exemplo; mas aqui proponho controle mais radical disso: no momento da compra, mesmo;
  • Limitar o estacionamento de veículos numa região às pessoas que nela moram. Isso é feito em pequenas cidades da Inglaterra e funciona.
  • Transformar quaisquer vias com menos de 2,50m em calçadões. Sem exceções.
  • Estabelecer um ângulo mínimo para as esquinas que dão para avenidas. O modelo reto da maioria das esquinas dificulta o acesso do motorista às grandes avenidas e emperra o fluxo desta.

Tirinha de Bruno Maron, do genial Dinâmica de bruto. Já que o texto não saiu como eu esperava, ficam as observações incisivas dele em forma de quadrinho. Fui.

sábado, 20 de novembro de 2010

Conselhos que médicos nunca dão

Masturbe-se: rapazes, sabe o que acontece em seu corpo quando há ausência de atividade sexual? Ocorre o acúmulo de esperma. Sem ter como eliminar esse excedente, esse material vai perdendo a qualidade e a temperatura dos testículos se altera, portanto sua taxa de fertilidade diminui. O que acaba culminando na varicocele: inclusive a simetria entre os testículos se reduz; um acaba ficando maior que o outro. Então não se engane: embora a varicocele seja hereditária, a natureza te projetou pra prestar muita homenagem no banheiro, jovem impúbere. Na ausência de uma mulher pra te manter ocupado, é claro. Em resumo, quero dizer que esse conselho é daqueles bastante negligenciados por médicos: já imaginou se esse tipo de orientação caísse no senso comum e começasse em figurar naqueles especiais sobre sexo da Capricho, por exemplo? Você imagina Jairo Bouer com aquela carinha de orientador pedagógico dando essa dica? Imagina o Ministério da Saúde, além das propagandas sobre camisinha e DSTs, veiculando campanhas incentivando o cinco a um? Pois é.

Ande descalço: esses pais morde-fronha que nunca deixam os filhos rolar na sujeira ou sequer andar descalço atentam contra o sistema imunológico dessas pobres crianças. Quantas defesas simples o corpo deixa de criar com essas frescuras que nossa geração, criada no concreto, inventa! A mágica da infância é exatamente por ser uma fase mais simples da vida; esse nazismo materno pra se usar calçados eternamente é mais uma daquelas amostras de como ser mãe é o emprego mais chato do mundo. Pode reparar: crianças assim sempre se tornam futuros hipocondríacos. É gente que, ao crescer, nunca fica descalço. Pra nada! Gente que inclusive transa com meiões. Percebem o desserviço que pais assim fazem à sociedade?

Beba uma latinha ao acordar de ressaca: você sujeita seu corpo a doses medievais e álcool e ainda acha estranho acordar péssimo de manhã? Oras, como qualquer substância que entra em excesso em seu corpo, proveniente de dependência que esta gera, é de se esperar que haja uma crise de abstinência. Seria estranho o corpo não sentir uma radical cessão no consumo de determinada substância, assim do nada. Então, não ligue se você parecer um alcólatra pela manhã, ao abrir sua latinha: você está apenas preparando seu corpo para abandonar o consumo de álcool. Aos poucos, e não de forma brusca, cortando de vez. Se seus pais tomam uma tacinha de vinho pela amanhã pra "prevenir ataques cardíacos", você também pode, porra.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Bloco de notas (XVI)

Banheiros para portadores de necessidade. Se isso por si só já não é exclusão, não sei mais o que é. Os banheiros atuais já possuem cabinazinhas e privadas com tamanho especial para eles, bem como barra auxiliar (se pensou nos anões, pense novamente) e pia e espelho em altura mais baixa; pra quê então criar um lavatório apenas pra eles? Na época da luta pelos direitos civis, nos EUA, rolava essa aberração de banheiros diferenciados para brancos e negros. Não parece que nossa sociedade repete um erro histórico ao, em vez de promover iniciativas inclusivas como os banheiros modernos atualmente recebem, promover iniciativas que rotulam e estigmatizam essas pessoas? Reconheço todas as conquistas que essas pessoas têm adquirido em nossa sociedade, mas não é um exagero darmos a eles banheiros exclusivos? Como se ser um PNE fosse um terceiro sexo? Se essas pessoas querem se sentir incluídas e tratadas de igual para igual, como um banheiro à parte vai ajudar nisso se já o fazemos por lei em nossos próprios?

Hoje em dia o hype é ser espírita. Comprar livros que gente morta escreveu psicografado por vivos, ler ensinamentos de Allan Kardec, assistir filmes e novelas deles... quanto aos filmes, eles inclusive alçaram uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Sempre que me falam de Nosso lar, me lembro dum filme que passava no Cinema em casa (ou Sessão da tarde, não lembro) em que o sujeito morre atropelado e vai para um céu muito parecido com o retratado no filme. Ele chega num metrô celestial e encontra todo mundo vestido de bata branca e cara de paisagem. Tem inclusive um momento do filme em que ele tem acesso a uma máquina que revela quem ele foi em vidas passadas. Ele descobre que foi um índio. Achei curioso eu lembrar desse filme porque o espiritismo só tem espaço em seu berço, na França, e aqui. Acho ainda mais curioso como o ser humano tende a imaginar coisas apenas se baseando no que ele conhece em terra. O que é natural. Peguemos por exemplo as danações que livros sagrados nos contam pra nos botar culpinha cristã. Todas elas não passam de sublimações terrenas, de uma forma ou outra tangíveis, de sofrimentos que ocorrem ainda em terra, certo? Então pra quê ese terrorismo pré-morte? Coisa mais infantil, papa. Façam como os espíritas; eles não precisam criar anjos da morte pra ter fiéis...

O horário de verão começou há quase um mês. E me pôs a pensar. Quando ele chega ao fim, algo paradoxal poderia ocorrer. Se temos de atrasar o relógio em uma hora, ele volta a ter 23 horas do último dia do horário de verão. Portanto, teríamos um círculo vicioso onde teríamos de atrasar o relógio até o fim dos tempos. Sob essa perspectiva, passaríamos o resto de nossas vidas presos num continuum espaço-temporal. Ou seja, seria mais lógico que o horário de verão terminasse a uma da manhã, e não a meia noite, como ocorre. Pra gente ver como as coisas são. No ano 2000, o mundo temia o bug do milênio, achando que os computadores entrariam em parafuso. Mas curiosamente algo sobre o fim do horário de verão nunca foi cogitado. Nem quando o dia 29 de fevereiro surge no calendário esse tipo de paranoia tem espaço. Não é espantoso imaginar que, há mais de dez anos atrás, milhares de idiotas começaram a estocar comida em casa como se a remota possibilidade de sistemas de informática não conseguirem interpretar datas adequadamente fosse suficiente pra acabar com o mundo? Mais fácil o Google fazer isso hoje em dia: eles sabem onde moro, tem meus dados pessoais… se eles derrubarem algum governo mundo afora, estamos todos perdidos!

Que medo da internet do trabalho! Mês passado tava escrevendo um texto e mencionei o or***. Aquele site de relacionamento roxinho, febre entre os brasileiros, que virou favela hoje em dia, sabe? Então. Eu não sei o que acontece, mas o sistema de bloqueio deles é tão nazista que qualquer site que contenha a palavra or*** simplesmente não entra. Fiquei feito uma besta aquele dia, tentando digitar o mesmo texto, sem saber porque o Blogger não salvava o texto enquanto digitava. Aí, crendo ser viagem na maionese minha, resolvo truncar a palavra como faço aqui. O texto salvou imediatamente! Só falta eu estar sendo vigiado nesse buraco e nem fazer ideia disso. Ainda bem que não usei esses dedos afiados pra falar de ninguém! Se eu me importasse o bastante com a vida de certos boçais daqui, talvez viesse a fazer isso: criar blog novo e escrever anonimamente. Material decerto não faltaria...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Muro das lamentações humorísticas

Esse texto servirá como um paredón para a atual geração de "humoristas" do Brazil. Gente anódina e bunda-mole que nunca se indispõe com ninguém e nunca fala de política. Ou seja, um humor que não incomoda. Nunca ouvi falar de humor assim, e vocês? Pois é, esse humor politicamente correto de merda está contaminando nossos "humoristas", e cabe a mim, um chato profissional, botá-los no seu devido lugar. Hermes e Renato já fizeram isso bem melhor que eu com seu personagem Dudu Marchioli, mas vou me limitar a chutar cachorro morto aqui. Esse texto vai funcionar como uma espécie de variante do quadro do Ral Gil, aquele de tirar ou não o chapéu pras pessoas, sabe? Então. Provavelmente alguns fãs chatos aparecerão pra proteger seus idolozinhos, mas fazer o quê. Vamos começar.

  • Rafinha Bastos: um gauchinho metido a besta que se acha engraçado só porque é judeu. Um portal de internet disse que ele era engraçado e ele acreditou, isso há muitos anos atrás, bem antes dessa modinha standup. Ele tinha uma página superamadora chamada Página do Rafinha, com um humor primário, tão sofisticado quanto as letras do Restart. Hoje em dia ele paga uma de antenado, de ativista, fazendo jornalismo (sic) de protesto (sic) na Band. Ele tenta fazer uma mescla de rabugice com humor, quando, na verdade, ambos são a mesma coisa nele: mediocridade. No final das contas, acaba fazendo o mesmo "humor" que todos do ramo: contando meia dúzia de silogismos forçados, histórias do cotidiano e incidentes irrelevantes que ocorreram do trajeto do aeroporto até o local onde se apresentam. Sem mais.
  • Danilo Gentili: esse tenta passar uma imagem loser, com uma retórica lacônica, monótona e adolescente. Ele tenta construir um estilo, mas não consegue. É outro que gosta de bancar o engajado ao mesmo tempo que dota suas piadinhas de um niilismo vagabundo. Sua voz lembra quando você precisa pedir um documento qualquer em repartição pública e um servidor supemotivado vem te atender, sabe? Talvez com um bordão o Zorra total pudesse aproveitá-lo...
  • Bruno Mazzeo: o Chico Anysio Jr.. Parece que ele quer ser o novo Luiz Fernando Guimarães ou algo assim. Todos os programas que lança parecem versões paraguaias d'Os normais. A diferença dele pro pai é que ele prefere ser si próprio (socialmente desajustado, levemente neurótico) do que fazer papeis. Grande erro. Só falta ele também fazer standup nas horas vagas...
  • Felipe Andreoli: um oportunista. Ele é um comentarista esportivo, não um humorista. O lugar dele é ao lado de Milton Neves, tornando os programas deste quase assistíveis (fazer aquele cara calar a boca um pouquinho já seria lucro). Com sotaque forte, seu humor é óbvio. Só tem fluência no que diz quando fala de esporte. Sociável demais pra fazer humor...
  • Marcelo Adnet: este alia seu "humor" a imitações e improvisos, o que se mostra um diferencial. Infelizmente isso nem sempre consegue camuflar as limitações de seu humor. Com esse adicional, ele deveria explorar o humor político como ninguém, mas não o faz. É só mais um bunda-mole do ramo. O nonsense é matéria-prima principal de suas tiradas, mas este não funciona em todos os contextos, especialmente com o público nacional, acostumado a imitações de tipos regionais e apolíticas. Nem com celebridade ele mexe, porra! Silvio Santos não conta; ele é uma espécie de Nirvana do humor: ou seja, é daquele tipo de material que, como quem tá aprendendo a violar tocão, só humorista iniciante usa, pra pegar as manhas de imitar e tals. É, Marcelo, não deu. Eu quase tentei ajudar pro teu lado, mas não deu. Ser carioca não significa que você seja "engraçado", sorry.
  • Marcos Mion:  ele, humorista? Ráááááá, pegadinha do Mallandro...!
  • Sergio Mallandro: tá, ele não é humorista, é apenas chato. Mas também inventou de fazer standup. Um oportunista de carreira. Tão de carreira que, quando ele veio se apresentar em minha cidade, deu um rolo com a organização do show e cancelaram a parada. Não me perguntem se devolveram o dinheiro... deve ter sido mais uma das pegadinhas dele, vai saber.
  • Marco Luque: é impressão minha ou ele se daria melhor no Legendários?
  • Tom Cavalcante: perfeita amostra do que acontece quando você deixa à solta o ego de um humorista. O programa dele é reduto das mais homofóbicas, racistas e preconceituosas piadinhas do país. Ele se acha um Ari Toledo paraibano, que triste. Nem a Grobo aguentava mais ele, aí vem a emissora do bispo e perpetua nas telas esse modelo retrógrado de humor.
  • Leandro Hassum e Marcius Melhem: o gordo e o magro ganham versão global. Pelo menos isolaram os dois nos domingos ao medio-dia, que é pra poucos terem o acidente de assisti-los. Não por o humor deles ser de todo primário, mas por ainda não ter saído da fase Zorra total. Perderam pontos porque ambos fazem standup. Sorry guys...
Se eu esquecer de alguém, não tem problema: posso sempre escrever texto novo pra malhar gente nova. Me despeço aqui. Até o próximo post e bebam com moderação. Beber sozinho é chato (moderação, apelido esquisito, esse)...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Chovendo no molhado

Tem coisas que a gente só vai conquistar quando formos atrás delas não como objeto de nossa realização, mas como realização de nosso objeto. Explico: materializar metas. Situá-las em coisas tangíveis. Isso nos fará alcançar o que queremos. A busca pela realização flutua. O que flutua se dissipa e se afasta. Como nuvens, mesmo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O esporte mais antigo do mundo

Antes de prosseguir: o post anterior ganhou uma pequena atualização. Convém conferir; é algo comum a todos nós. De volta à programação normal...


(tirem as crianças da sala)

A hiperbanalização do sexo que a mídia promove atualmente me dá a impressão de que hoje em dia esse importante ato de intimidade entre um casal tem mais status de esporte que de envolvimento e entrega afetivos, por assim dizer. Vejam só, a promiscuidade é valorizada como se a quantidade de parceiros(as) te fizesse melhor, com mais vigor físico ou mais descolado que alguém, o desempenho de proporções irreais e hercúleas que certos vídeos por aí sugerem, sem falar na perfeita sincronia e falta de imprevistos como cheiros esquisitos, posições incômodas e gestos que involuntariamente brocham o parceiro(a). Outrossim, levando em conta esses elementos que fazem com que o ato sexual soe mais como uma apresentação acrobática ou uma cena de ação bem elaborada dum enlatado qualquer de Hollywood, venho até aqui propor a conferência ao sexo do status de esporte. Tipo uma variante da ginástica. Porque, segundo os diretores e os atores (não necessariamente os célebres por seu talento dramático), sexo não é para pessoas comuns. Para eles, homens nunca falham e mulheres nunca menstruam. De acordo com as cenas perfeitamente editadas e com iluminação impecável, aliada a diálogos pertinentes ao momento, pessoas normais não tem condições de chegar até lá. Portanto, normatizemos um pouco a parada, introduzindo inclusive alguns elementos e regras como critérios de competição, a fim de sensibilizar o COI num futuro não tão distante.
  • Delimitação da área de cópula: em torneios de artes marciais, seu objetivo não é descer o cacete no adversário até ele ficar inconsciente (você não precisa matar ninguém; a petite morte serve). Pelo menos nos sérios; a menos que você considere torneios abjetos como o Ultimate fighting, cheio de esteróides, um esporte digno de nota. Assim, se eu estou lutando judô e quero derrubar meu adversário, devo fazê-lo dentro do tatame, ao redor das linhas que delimitam o espaço deste. O mesmo deve ser aplicado a nosso novo esporte; imagina você estar lá com sua parceira, se remexendo mais que lagartixa que acaba de perder o rabo durante o coito. O que vai acontecer? Você no mínimo vai derrubá-la da cama. Ou perder o equilíbrio e escorregar pro lado. Inclusive, poderíamos criar duas categorias: estilo livre, num assoalho levemente acolchoado, ou em cima de uma cama king size, mesmo. Com penalidades previstas para qualquer parte do corpo que ultrapasse a linha ou, no caso da cama, toque no chão (podendo haver variações nesta regra de acordo com a categoria a ser praticada).
  • Quilômetros rodados: algo possível de ser feito se instalando odômetros na base do genital masculino. Porque apenas duração não é o bastante; é preciso se aliar isso ao desempenho do macho penetrador.
  • Triatlon: múltiplos parceiros. Ao mesmo tempo, um de cada vez ou alternado. Exigiria grande preparo físico, muita concentração e resistência física, além de um timing perfeito. Ao contrário do triatlo tradicional, o desempenho daqui seria interpretado pela duração, e não pelo melhor tempo, associado a outros critérios de pontuação. Chegar ao final da prova seria uma conquista em si já considerável.
  • Posições realizadas: cada qual teria um grau de dificuldade definido, e por conseguinte uma pontuação associada a isso. Se na ginástica deve-se realizar uma combinação de movimentos, aliados a alguns mandatórios, não teria porque ser diferente aqui. Só não vale entrar em combate de meião, né campeão? Se quer honrar as cores da bandeira de sua nação, tatue nas costas, porra.
  • Graça: sabiam que esse é um critério de pontuação na ginástica feminina (poderia-se criar um paralelo aqui, possivelmente até estendê-lo aos homens)? Inclusive com o vigor com que a moça chega/simula seu orgasmo. O trabalho de cintura dela poderia sustentar um sistema de pontuação complexo, inclusive levando-se em conta a sincronia com os movimentos pélvicos do parceiro. O grau de ousadia e de sedução poderiam também ser levados em conta. Uma dancinha sexy, um strip... até uma musiquinha poderia rolar durante a performance. Mas, pelo amor de Deus, nada de Kenny G. Suplico a vocês. A menos que você seja dono de motel, procure uma trilha sonora decente em sua casa e capriche...
  • Zonas erógenas: a geração de estímulos, aliada à posição escolhida e ao grau de excitação, devidamente monitorado pro recurso a ser futuramente decidido, seria outro critério de pontuação. Como um massagista acessando os pontos de energia do corpo do paciente ou um boxeador buscando os pontos fracos do adversário.
  • Flexibilidade de sexualidade: um outro fator a ser estudado nas performances é a troca de papéis ou combinação destas. Muitos esportes têm provas de revezamento e de duplas. Só a imaginação dita as possibilidades aqui. O que seria levado em conta aqui é a capacidade de excitar e ser excitado. Não seria nada de muito diferente do que muitos atletas fazem na vida privada; pergunte a pessoas que jogam vôlei...
  • Aparelhos: propomos um esporte com óbvios paralelos com a ginástica artística e não falamos de aparelhos? Não, senhor: eles podem se fazer presentes aqui. O cavalo é o mais óbvio deles. Barras laterais, assimétricas, trampolins... são muitas possibilidades. Inclusive possibilidades inéditas, como levantamento de peso ou ginástica rítmica, com aquelas fitinhas. Já assistiram 'Queime depois de ler'? Então, o invento do George Clooney serviria bem como um dos aparelhos a ser aplicados...
  • Duração: contagem progressiva, não regressiva. A regressiva é algo que já rola na realidade. E como constatamos há pouco, ninguém quer falar de realidade na hora do entra-e-sai. Aqui, teríamos um critério que funcionaria melhor como desempate, após os outros elementos de pontuação terem sido levados em conta. Os exames antidoping teriam de ser bastante rigorosos; uma certa pílula azul anda fazendo muita gente ter um pouco mais de alegria na cama...
Bonus track: elementos do esporte em si além de sua prática.
  • Mesas-redondas: em vez daquele monte de velho que não sai do atraso faz tempo, e pior de tudo, falando de futebol, teríamos pessoas falando sobre um esporte que realmente entendem. O futebol, esporte excludente que é, com jogadores reservas, caneleiros e craques frustrados que viram comentaristas, perderia espaço fácil pro nosso novo esporte. No nosso, não tem reservas nem uniformes brochantes (a menos que você curta um látex), e o melhor que você faz é ignorar seu técnico. Sem falar que os tira-teimas seriam beeeem mais interessantes. E sem o Tiago Leifert, Galvão Bueno ou qualquer um da turma da Grobo. Já imaginou? Sensacional!!!
  • Técnico: no país de 190 milhões de técnicos, quem perderia tempo querendo ser técnico? Todos prefeririam ser titular, oras!
  • Não-alienação: o futebol tradicionalmente é a melhor forma de distrair a população de decisões impopulares de governantes. Essa carapuça não serviria a nosso esporte; já te fodem no trabalho, mesmo... sem falar a esposa vendo a gravidade brincar com o corpo dela. Então, tentar usar esse artifício pra te distrair teria é efeito contrário, isso sim. Seria como usar a F1 pra tentar nos distrair...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Forever alone

Esse meme, que surgiu como variante do FFFFUUUU e do fuck yea já me fez rir litros na interwebs. E como não tenho nada de relevante pra escrever por ora, inicio texto novo tendo como mote este nosso querido personagem do imaginário cybercoletivo e suas constantes explorações de sua falta de dignidade. Não chego aos pés dele, mas farei um paralelo com algumas situações por que passo (a partir da terceira, nenhuma delas diz respeito a mim). Vamos lá.


  • Cumprimentar conhecidos remotos na rua: você está comendo alguma coisa ou vendo os preços em uma vitrine, e chega a pessoa pra falar com você. Só que vocês nunca conversaram nem sequer se apresentaram formalmente. Ou seja, são daquelas pessoas que você conhece apenas indiretamente. Irmão da amiga da sua irmã, amigo da amiga, sobrinha da esposa do seu tio, estranho que um amigo seu apresentou numa festa cujo nome o álcool não te permite lembrar... gente assim. Aí a pessoa te cumprimenta achando que você tem obrigação de lembrar quem ela é. Esses dias chegou uma menina assim, dessas que "conheço indiretamente". Lembro que houve até uma ocasião, num aniversário, em que houve uma remota chance de a gente conversar brevemente, mas ela preferiu travar diálogo com outra pessoa na ocasião. Detalhe importante: era uma mesa longa, e ela estava sentada DO MEU LADO! E minha irmã, que estava na minha frente numa mesa, esse dia, ainda achou inadmissível minha conduta. Ah, dá licença! A pessoa te vê em eventos sociais com amigos em comum e, em vez de estabelecer mais um ramo em seu círculo social para ao menos afirmar algum tipo de empatia com -- que seja -- amenidades, se volta a panelinhas consagradas, e ainda quer algum tipo de atenção minha? Faça-me o favor...
  • Conhecidos indiretos que só vem falar com você pra saber como uma terceira pessoa está: ironicamente, a última amostra dessa situação aconteceu no mesmo local do item anterior. Como escrevi em junho desse ano, a pesoa puxa assunto com você só pra saber de uma outra pessoa. Além de entregar seu desinteresse em você, a pessoa mostra que você está sobrando na roda. [1] Ignoro sumariamente, sem dó. 
  • Entrar compulsivamente em redes sociais em busca de pequenas amostras de atenção: você sempre tem coisa melhor pra fazer. Sempre tem alguma coisa pra terminar em prazo apertado. Mas você é carente o bastante pra, em meio a esses afazeres, arrumar tempo pra conferir mensagens e fotos novas. Por exemplo, nesse momento ninguém no msn está online e não recebo mensagens novas há dias.
  • Criar perfis para animais de estimação: sintoma de que sua vida social é mínima. Mas pior que isso é gente que trata cachorro melhor que gente. Eu tenho uma amiga que já deixou de sair inúmeras vezes com os amigos porque um de seus cães estava doente. Tem histórias que ela conta, de quando alguns deles passam mal ou comem veneno, que parecem episódio do ER (Plantão médico) ou do E24. É gente que acha que cães são seres angelicais. Ou seja, confundem instinto com ideais de caráter humano. Cães e gente dá concessão quando compara com donos de gatos. Eles se acham acima do céu e da terra só porque tem um animal de estimação que os despreza o tempo todo. Parece que a estes encontram maior facilidade de interpretar personalidade. Mesmo caso: confundem instinto com ideal blasé de personalidade.
  • Considera redes sociais extensão de sua vida social: triste. A pessoa considera o simples fato de conversar com você via MSN ou te mandar recadinho como um evento social. Ela acha que isso é o bastante pra manter uma amizade. Pra quê te chamar pra sair no fim de semana se ela pode muito bem fazer isso sozinha, subir algumas fotos, conversar com quem foi e se inteirar sobre as novas da sociedade em casa? Vida social (ou melhor, IRL) é sooooo last decade...
  • Gente que não sai com os amigos porque não gostam de certos lugares que frequentam: ando percebendo que, depois que o período que compreende uma geração (por volta de 25 anos) se encerra, os padrões de vida social das pessoas ficam alto ou baixo demais. Fica virtualmente impossível encontrar um lugar em comum que todos de seu grupo de amigos queira ou acabe indo. Todos se acham importantes demais, achando que você deve adequar as coisas que deseja fazer no fim de semana ao que eles gostam. E eu achando que a adolescência passava para todos...
  • Os assuntos nas rodas são modismos nerds: você está saindo com aqueles amigos de longa data, e de repente falta assunto. Para evitar que o ego deles salte à frente e eles comecem a falar sem parar de si próprios ou se gabarem da última viagem deles, alguém pergunta se eles conhecem link tal ou vídeo tal. Ou seja, a partir de momentos assim, sua vida social depende do tamanho de sua lista de favoritos ou de quantos feeds e vídeos você acessa. Não condeno totalmente isso, mas deixo avisado: se não quer que pelo menos metade das conversas termine assim, evite publicitários, designers ou nerds.
  • Namoros: você não leu errado não. Eles são excelentes pra isolar amizades. E pra reduzir radicamente o leque de assuntos abordados nas rodas sociais. Quaisquer assuntos que resvalem em mínima amostra de machismo serão suficientes para DRs. Você nunca mais será você mesmo. Pelo menos quando com ela, então já viu. Mas o pior é quando ela deixar de pudores e começar a mandar abertamente em sua vida. Você deixará de ir a certos lugares, deixará de falar com certas pessoas e terá de fingir que certas manias dela não te fazem brochar. E não se engane: elas só acham que o relacionamento vai bem quando você ceder a algumas dessas imposições. Você não serve, e precisa "mudar" de acordo com o que elas querem. Como se você fosse um penduricalho de brechó qualquer, sabe? Que precisa de remendos, reparos? Pois é, elas são inseguras o bastante pra achar que precisam mandar em você pra ter a impressão de que você não tomará a lógica decisão de abandoná-las.
  • Puxar assunto por meio de críticas: essa independe de quanto tempo você conhece a pessoa. Se acaba de conhecê-la ou não. Infelizmente as pessoas têm dificuldade de perceber como reclamar é uma arte, e que críticas não são mera amostra de animosidade do espírito. Simplesmente tratam-se de uma opinião, de uma impressão a respeito de algo que você observou. Só isso. A exaltação apenas demonstra o peso disso em seu espírito. Mas não, os outros veem crítica como sinônimo de ranzinzice. Como se isso fosse ruim; os ranzinzas são as pessoas mais sinceras do mundo. Contudo, será em vão alertá-las disso; críticas são ótimas pra detonar primeiras impressões e o alerta definitivo pra algumas pessoas te evitarem, achando que você não está de bom humor. Outra coisa que as pessoas não percebem é que a melhor maneira de unir duas pessoas, que aparentemente não têm motivos pra travar um contato, uma conversa mais próxima, é achar algo em comum que detestam ou discordam. Vejam os filmes, crianças: vilões não se juntam por causa do trabalho em equipe...
  • Gente que você vê mais na rua do que convive: à primeira vista, lembra os conhecidos indiretos que citei no primeiro tópico. A diferença é que esta gente você conhece. Você fez curso ou faculdade com eles, trabalhou com eles, enfim, realizou alguma atividade com eles. Só que, além de o contato não ter sido aprofundado e vocês não terem nada em comum, você os vê na rua com uma frequência muito maior do que os momentos de interação social por meio do qual vocês originalmente se conheceram. Como quando você encontra um amigo na rua mas, quinze minutos depois, passa por ele sem querer, sabe? Fica sempre a dúvida: cumprimenta de novo ou não? Então. Cumprimentar gente assim acaba se tornando uma obrigação porque, com o tempo, fica cada vez mais difícil lembrar o nome da pessoa, ou como você a conheceu, ou ao menos fingir interesse com a presença dela. Você não tem nada contra essas pessoas. O que ocorre é que o contato social e a empatia foram insuficientes para se estabelecer um contato mais duradouro. Insuficiente para se configurar em uma pessoa conhecida, ou conhecido indireto, quiçá amizade.

Atualização: falando em solidão, tem o blog de uma cartunista dos Estados Unidos que recomendo bastante, como bonus track. Não por haver poucas meninas no ramo, mas por causa da forma sincera e não-rancorosa com que ela fala do tema. Porque, não se enganem, a maioria das mulheres tendem a glamurizar a solidão, inclusive as que desenham. Esta não cai neste erro, e a imersão da personagem neste aspecto é natural. É como um diário visual. Aquelas peculiaridades que a vida só nos traz são retratadas com propriedade, sem melodramas típicos de comédia romântica. Senhoras e senhores, apresento-vos Liz Prince.
Atualização 2: adicionei o último tópico menos de uma semana após publicação do texto. Tava entalado; bastou um momento caótico de inspiração (como todos são) pra deglutir aqui. Enjoy.

      sábado, 30 de outubro de 2010

      Chaves!!!

      Esse texto é de um fã. Coloquemos isso logo de início, sem constrangimento. E sem rodeios: Chaves e Chapolin estão de volta! Dessa vez sem termos de depender dos horários esquizofrênicos de tio Senor, o canal pago Cartoon network compra os direitos de exibição do programa. A partir de novembro começam a exibir os episódios. Com Chapolin vindo junto. Como fã incondicional, devo dizer que estou super animado com essa novidade. O Sbt deixou de passar Chapolin há dez anos, sem a menor possibilidade de voltar a transmitir os episódios. Eles alegam motivos mercadológicos. Provavelmente seja isso; nossa nostalgia não passa de curvas em gráficos de audiência para eles. Enfim, isso não importa. O que importa é quantas memórias afetivas esse seriado me traz!...

      O CN está ficando bom em vender poeira. Sete anos atrás, fizeram isso com os Cavaleiros do zodíaco. Não só trouxeram os episódios novos como trouxeram no pacote a saga Hades! Pegaram no ponto fraco de muita gente: nostalgia! Que é o meu também, como devem ter percebido. Isso pouco antes das mídias sociais e dos sites de vídeo. Jogada de mestre: mexer com nerd dá dinheiro.

      Nossa, esse seriado tem um papel tão importante em minha infância que me lembro como, religiosamente, ligava a TV depois da escola pra assistir aos episódios (ligava não, ainda ligo). Sentava em cima de um baú de madeira antigo e assistia a tudo atentamente, por uma TV facilmente mais velha que eu, na época. Peguei umas três aberturas diferentes do seriado. Eu era tão vidrado nas históras que chegava até a usar referências do seriado nas aulas! Isso é perigoso quando se está sendo alfabetizado; a professora me sujeitou a chacota naquele dia. Bom ver que a pedagogia avançou bastante de uns anos pra cá: hoje em dia, se aluno fica bravinho com professor, eles resolvem no tapa ou jogam videozinho caliente na net. Dizia eu que a aritmética...

      Bom, além disso, eu enchia o saco de meus pais pra comprar tudo quanto era bobagem franqueada, como as revistinhas, a marreta biônica e aqueles óculos que funcionavam como canudo.

      Essa notícia de o seriado agora ser transmitido na TV paga ganha um peso de grande novidade não pelo tempo absurdo que o seriado perdura na TV e na memória das pessoas, mas por causa da negligência com que o Sbt transmite os episódios. Gravações de péssima qualidade, episódios porcamente tesourados e emendados, horários arbitrários demais, episódios banidos por problemas judiciais cômicos (um dos casos é daqueles onde a realidade vence a ficção: tem um episódio em que Quico engole um radinho de pilha. Uma criança burra inventou de fazer o mesmo, e desde então o judeu nunca mais passou o episódio)...

      Com a inclusão digital e a ascensão das redes sociais, a nostalgia ao redor do seriado atingiu níveis de seita. Inúmeras comunidades de or*** e sites correlatos surgiram, as mais obscuras referências do seriado começaram a surgir, e episódios e cenas que jamais foram exibidas no país tomaram de assalto a internet em sincronia com o surgimento dos sites de compartilhamento de vídeo. O peso do seriado na cultura popular é tão grande que os mais inimagináveis crossovers foram e ainda são feitos pelas mesmas pessoas que assistiam o seriado há quinze, vinte anos atrás, agora chegando à vida adulta, mas cultivando uma segunda infância subindo dublagens adulteradas, edições bizarras e cenas favoritas.

      O humor universal que o seriado ostenta é fascinante. Funciona com quaisquer classes sociais, e ainda por cima reveste a própria genialidade com despretensão, por meio de um personagem de ingenuidade irritante que, enquanto diverte a criançada com humor pastelão, inocula leves ironias e inteligentes jogos de palavras. Quem acha que o humor de Chespirito é menor deve dar atenção especial a Chapolin, brilhante crítica social feita por meio de um anti-herói que, sob uma análise mais cuidadosa, mostra toda sua grandeza cômica. Mesmo em Chaves e em seus exageros, temos sacadas geniais de conflitos de classes sociais, de elementos de identidade cultural entre os latinoamericanos e uma reprodução bastante sincera da índole das massas.

      Quando eu falo que sou fã incondicional, não brinco. Já vi entrevista que o Quico deu pro finado programa Jô soares onze e meia, a que a Chiquinha deu para o programa vespertino da Sonia Abrão, e a manha que a turma do Pânico na Tv teve de entrevistar o Quico lá no México, mesmo! Sensacional. Até aqueles bonequinhos do Chaves que o Mcdonald's lançou no seu McLanche feliz no começo desse ano eu tenho! Uma pena pensar que a rede estadunidense de fast-food só fez isso porque seu contrato com a Disney havia acabado, mas azar! Eu tenho bonequinhos do Chaves e não te do-ou!!! Uma lástima foi a Chiquinha, já meio esclerosada, não topar ceder sua imagem para fabricação dos bonequinhos. Colocaram a insossa Paty no lugar dela! Sentiram o drama? Assim, uma das poucas omissões imperdoáveis minha como fanboy foi ainda não ter comprado o livro Chaves: foi sem querer querendo?, de um autor nacional, nem ter assistido a rapidíssima passagem de Quico pela Band, que comprara alguns episódios de seu programa solo, depois que ele e Roberto Gómez Bolaños tiveram suas "diferenças criativas".


      E, bom, é isso. O texto ficou uma merda, com coerência reduzida. Quando a gente é fã, fica assim. Imagine se eu fosse fã do Restart. Só pra deixar meu registro. Iiiiisso isso isso...
      (a quem interessar possa, mais um texto exumado de meus arquivos, quase legível


      Atualização: seguem alguns links com mais nostalgia, a quem interessar possa. Criei inclusive uma tag só para o nosso querido seriado, como podem ver ao final do texto, logo acima dos comentários. Me aguardem; ano que vem vou publicar mais alguns textos de um projeto que não toquei pra frente, envolvendo o garoto do barril (e com sorte até dar continuidade a este). Sem enrolar mais, eis os links:

      quarta-feira, 27 de outubro de 2010

      Lei de Pinheiro

      Lei de Godwin: quanto mais uma discussão durar, maior a possibilidade de alguém realizar uma comparação nazista contra seu desafeto. Possibilidade em progressão geométrica.
      Lei de Murphy: se alguma coisa puder dar errado, dará. As coisas deixam de funcionar exatamente quando mais se precisa delas e vice-versa.
      Lei de Pinheiro: durante uma conversa, no momento em que alguém demonstrar que não gosta de certa pessoa, uma terceira aparecerá para fazer suposições a respeito da sexualidade da pessoa criticada.


      Cabe expor aqui o contexto que me fez, no auge de minha prepotência, criar esta pretensa lei. Hoje de manhã estava conversando com uma colega de trabalho. Nesse ínterim, uma professora passa (trabalho em uma faculdade), com uma cara que, à primeira vista, pode-se dizer fechada. Digo à primeira vista porque geralmente a vejo com esse semblante mas isso não sugere a mim que a pessoa esteja de bode; apenas sugere uma pessoa mais reservada. Eu pelo menos nunca tive problema com ela. Enfim. Essa colega comenta comigo que não gosta muito dela. Ressalta a cara ranzinza com que, segundo ela, a outra passou por nós. Menos de um minuto nessa conversa de corredor, aparece uma terceira pessoa, um supervisor. Quando essa colega de trabalho comenta suas observações, ele comenta que dizem que ela "gosta da mesma coisa que eu". Algo fora de contexto, gratuito, semelhante à lei de Godwin.

      Mas o diferencial de minha lei é como ela testa, in loco, a velocidade do que a boca pequena diz das pessoas. Mais rápido que notícia na internet. E observem: nenhuma crítica tangível a respeito dela foi feita! Nenhum incidente que apoie as impressões dessa colega foi trazido à tona. Agora, se fosse uma pessoa hetero, decerto defeitos pululariam de todos! Não é impressionante como a orientação sexual alheia funciona como a um álibi pra nossa falta de argumento em falar da vida alheia? Ou como eufemismo para "frustrado(a)"? Não tiro a validade do argumento de se apontar evidências negativas de comportamento buscando-se argumentos pseudopsicológicos (muitas pessoas são mal-resolvidas mesmo, embora não caiba a nós avaliarmos isso). Mas tiro quando vira uma forma de criticar terceiros. Você pode me dizer que não é crítica, que apenas tratam-se de comentários que não passam de fofoca.

      Se você pensa assim, fale abertamente com seus colegas de trabalho sobre suas amantes, campeão. Se abra com seu colega sobre aqueles sonhos esquisitos que você tem com ele. Fale abertamente a alguém que chegou um momento de sua vida em que você percebeu que seu casamento virou uma prisão, um teatrinho social, e que apenas alguém do mesmo sexo parece habilitado a te fazer sentir vivo novamente. É, deu pra perceber onde você esconde seus preconceitos. E como a vida dos outros não interessa. Se bem que essa última observação poucos alcançam. "Grandes mentes discutem ideias, mentes médias discutem eventos, e pequenas mentes discutem pessoas". Eleanor Rossevelt sabia das coisas...


      Para fechar o post com meu pensamento, creio que a imagem abaixo fará mais justiça.


      segunda-feira, 25 de outubro de 2010

      Porque não vale a pena ser criativo com nomes

      Alguns exemplos:
      • Nomes de mulher com júnior no final;
      • Nome de escola pública;
      • Nome de banda;
      • Nomes de pet shop;
      • Siglas de sindicatos:
      • Apelidos carinhosos entre casais;
      • Apelidos carinhosos ao genital masculino;
      • Nome de linhas de móveis;
      • Pokémons;
      • Toponímia de Star wars;
      • Histórias que inventam seus próprios idiomas.

      sexta-feira, 22 de outubro de 2010

      A taça do mundo é noooooossaaaaa...

      No Brasil, os jogadores de futebol são como artistas: adotam um "nome artístico": um apelido mongo qualquer que os seguirá por toda carreira futebolística. Já com os cartunistas, isso não ocorre, salvo exceções que confirmam a regra. Por outro lado, na Argentina, ocorre exatamente o oposto. Os cartunistas de lá, inclusive, figuram constantemente em bancas e livrarias, ao passo que os daqui se consideram com sorte se ganharem um espacinho reduto de centímetros no caderno de entretenimento d'O Globo. Os jogadores daqui, por sua vez, são objeto de uma deificação patética. São vistos como se o futebol fosse a única forma nobre de mobilidade social, por não ser trabalho e por envolver inteligência corporal. Ou seja, o brazileiro é convenientemente mantido num curralzinho cultural, longe de artistas que os façam pensar. Se acha que isso é discurso de DCE, fale pra mim o nome de pelo menos cinco artistas, de quaisquer segmentos, cuja técnica e/ou postura crítica ante o público seja reconhecida mais aqui do que lá fora, sem aparecer na rede Grobo nem ser citado pela Veja. E o mais importante, sem copiar ninguém nem assumir zonas de conforto em excesso em seu trabalho.

      Sabe aquele pai turco que acha que o filho é obrigado a seguir carreira tocando os negócios da família? Sem liberdade de escolha nem nada? Vejo o futebol mais ou menos assim por aqui. Como se nosso passado com a bola fosse uma herança a ser preservada a todo custo. Como se fosse aceitável compensarmos nossa insegurança intelectual com nossa egotrip esportiva. Não estou dizendo que seja tão diferente assim com os hermanos; a diferença é que lá não há 190 milhões de técnicos pegando dirigentes esportivos pra cristo a cada eliminação em copa, enquanto os políticos, com essa distração em voga, aprovam tradicionais aumentos salariais e medidas impopulares. Pelo menos não tão descaradamente. Aliás, analisando como o futebol manipula as esperanças das massas aqui, é como se a função dele fosse semelhante à da política: chega um técnico novo, nos promete o céu e o máximo que obtemos disso é uma taça erguida a dois metros do solo. Com o diferencial de o futebol atuar como um tribunal de pequenas causas; o resultado de nossas expectativas vem mais rápido, e mais facilmente observável. Cabe metáfora. A seleção nacional são os escravos capturados; a torcida, os leões; as massas, a plateia desse Coliseu infame, e o César da vez... bom, esse tá ocupado demais arrumando sua coroa de louros e jogando aviõezinhos pro auditório, rarraáiiii.

      Por sua vez, os hermanos compensam o período de vacas magras de seu futebol com seus expoentes culturais. E não apenas isso: independente do período porque o futebol deles passe, não usam o esporte como catarse. Muito pelo contrário: a postura bairrista deles é bem menor que a nossa nesse quesito. Dias após a eliminação deles, a mídia de lá ainda comentava sobe o assunto. Se por um lado tinha os nazistas da bola, querendo o couro de Maradona, por outro tínhamos gente disposta a analisar de forma crítica o que saiu errado. Fica difícil embasar tudo isso quando nos lembramos das declarações polêmicas do ex-técnico deles. A diferença é que eles colocam o esporte no seu devido lugar: como apenas uma competição, nada mais. Já a gente, não; o futebol é álibi pra tudo quanto é tipo de omissão. Inclusive temos a petulância de nos intitularmos "o país do futebol", como se o mundo inteiro nos devesse royalties (levando em conta quanta gente nós importamos pra time europeu, é algo a se pensar, mas você entendeu meu raciocínio agora). Mas todo esporte tem o Piquet que merece, fazer o quê…

      domingo, 17 de outubro de 2010

      O melhor de todos os mundos possíveis

      Eu tenho um amigo que é uma espécie de versão masculina da Pollyanna. O mais irônico da história é que ele já teve seus dias de São Jorge e pegou uma Poliana diametralmente oposta à criada por Eleanor H. Porter em seu livro. Adendo maldoso aqui: Deus do céu, a guria parece uma trombadinha; tinha os olhos tão arregalados que sempre tinha a impressão de que pulariam pra fora do rosto a qualquer momento. Fim do adendo maldoso. Inclusive, uma vez encontrei esse livro na estante da sala de estar da casa dele. A vida é engraçada. E eu achando que só cinema podia nos fornecer referências e simbolismos tão específicos assim.

      Para perceberem que não exagero: quando nas rodas, sempre que rolava alguma fofoca, ele era sempre o único que relativizava o veneno que a gente soltava. E ainda por cima conseguia encontrar as mais absordas, intangíveis e diplomáticas qualidades no objeto de crítica nosso. Tudo bem que o povo gaúcho é meio assim. Sem querer botar um povo inteiro numa caixa, claro. Essa mania de encaixar todas as coisas do mundo em sua visão particular é bem deles, mesmo. Quando em relacionamentos, esse meu amigo era sempre o mais apaixonado, portanto sempre o mais suscetível a ser usado pelas meninas. O último relacionamento dele foi algo trágico o bastante para afastá-lo de todos os amigos. O saldo disso foi um galho que ele levou. E mesmo assim ele acabou voltando para ela depois de um tempo. Esta menina em questão fez de tudo: causava ciúmes nele (ele estuda fora) contando dos caras que davam em cima dela, ofendia verbalmente as amigas mais próximas dele, invadia todas as contas de redes sociais dele e pintava e bordava. Uma verdadeira censora. Eu costumava chamá-la não de namorada, mas de cão de guarda.

      Mas não se preocupem, não vou borrar a tela com historinha pessoal enfadonha. Serei mais pragmático. O título do post refere-se a uma frase usada como argumento central da Teodiceia, ensaio do filósofo alemão Gottfried Leibniz, cujo raciocínio de segue. Se Deus é onipresente, onibenevolente e onisciente, como explicamos o sofrimento e injustiça existentes no mundo? Para Leibniz, havia de se levar em conta uma preocupação central: a de se reconciliar a liberdade humana (de fato, a própria liberdade de Deus) com o determinismo inerente à sua própria teoria do universo. A solução proposta por Leibniz confere a Deus a função de otimizador da coleção de todas as possibilidades originais. Já que ele é bom e onipotente, e já que Ele escolheu este mundo de todas as possibilidades existentes, este mundo deve ser bom. Assim, este mundo é o melhor de todos os mundos possíveis. Seguindo esse raciocínio, precisamos do mal para trabalharmos os melhores aspectos da humanidade. Deus, apesar de onipotente, não poderia melhorar o mundo de um jeito sem piorá-lo do outro. Ou seja, errar não é apenas humano. É divino também, vejam só que epifania fantástica a minha.

      Poderia isso servir como um bom argumento para tentar compreender o vão e mesquinho problema que temos em relação a esse amigo meu? Pessoas que confundem falta de amor-próprio com amor romântico são inconscientemente imbuídos por isso? Eu compenso falhas graves de meu parceiro tentando ser o melhor amante possível? Não soa como a certa autodestruição, isso? Se bem que dizem que a gente destrói tudo o que ama. Deve ser por isso que odeio coisas/pessoas/situações novas; fico com medo de estragar ou me cansar fácil. Vejam só, o amor parece ser dos poucos momentos em que a humanidade não é movida pela força-motriz da curiosidade. Pelo menos no que tange sua duração. Em todo caso, creio que chegou o momento oportuno para deliberarmos a respeito da...

      Schadenfreude!

      Ah, essas palavras legais que os alemães criam... seria ela a razão por que o destino nos inquieta tanto? Felicidade alheia nos incomoda quando nos sentimos carentes e tristes, e ainda por cima nos estagna. E a Schadenfreude? Dá na mesma. Mas talvez nesta última nossa inveja atinja níveis altamente deterministas. O mundo não parece justo ou acolhedor para meu lado e quero extravasar minha frustração em pessoas que são objetos dessa distribuição de alegria desigual. Além do fator autoestima, poderíamos determinar a Schadenfreud como um mecanismo de manutenção do mal pela humanidade? Quando desejamos a pior pena possível para um criminoso, não seria isso um recurso natural de nosso intelecto para não banalizarmos atos criminosos que atentam contra o convívio social? Essa mesma perseguição à banalização não se pode observar quando em situações menores? Ou você acha que arquirrivais não se comprazem mutuamente com a Schadenfreude? Chega a ser algo tão importante que esta acaba de transformando em motivação nos casos mais ferrenhos de rivalidade.

      Engraçado quando tentam nos empurrar culpa cristã. Quando questionam nossos valores porque nos desviamos de padrões morais. Essa culpa é gerada pela mesma religião cujos fieis tem a Schadenfreude legitimada em textos sagrados. Benditas sejam as religiões que não vigiam nem punem, mas antes guiam e trabalham a harmonia do ser com o universo! E vejam só: dum ponto de vista mais sagaz, nossas leis não seriam uma forma institucionalizada de... Schadenfreude? Então. Essa disciplina social que as leis nos trazem não servem para manutenção do bem, servem para que as mesquinhezas de nosso caráter não se voltem contra nós mesmos nem contra outrem. Não importa a instituição; até crime tem que ser organizado para que um dia se institucionalize. Se o bem não é instituição, é no mínimo uma ideologia.

      Já que não temos como institucionalizar o amor, como ficamos com a questão do meu amigo sem dignidade? Pelo jeito, creio que cada um tem sua forma de expor sua sinceridade no amor. Alguns pisando, outros acariciando. Falo de sinceridade porque sem ela não temos amor. Podemos até tê-lo com interesses, mas não sem sinceridade. Nem que esta seja apenas para consigo próprio. Amor não pede princípios nobres; isso é idealização, além de arroubo adolescente. Você apenas não quer morrer sozinho. Quer medir as pessoas, botá-las em caixas. Quando elas não cabem, eis a Schadenfreude! O ser humano é vaidoso, e por bem ou por mal ele precisa se orgulhar de como ele é lembrado pelo próximo. Ele não quer ter a certeza de que é a ocasião é que faz o ladrão. Ele quer ser essencial, e às vezes acha que conseguirá isso por meio do demérito a outrem. O amor é uma questão de timing (frase do fime 2046, de Wong kar wai).

      E termino este texto com um célebre poema de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos. Beijo nos seus empedernidos corações.


      Toda emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela.
      Toda a emoção tem portanto uma expressão falsa.
      Exprimir-se é dizer o que não se sente.
      Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria.
      Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões.
      O lugar é que faz a localidade. Estar é ser.
      Fingir é conhecer-se.

      sexta-feira, 15 de outubro de 2010

      Críticas genéricas a filmes

      Quando você descobrir que não consegue gostar daquele filme em cima da qual os críticos ou os amigos babam aquele ovo, não passe vergonha: use uma de nossas pílulas pra sua opinião adversa não passar batida nem parecer solitária ou fruto de um gosto pessoal limitado.

      • Esse ator faz exatamente o mesmo papel há anos!
      • Quando é que a história começa nesse filme?
      • Mais uma história superestimada. Essa meia dúzia de cenas longas e silenciosas de paisagem não transmitem introspecção alguma! Se eu quisesse ver tanta paisagem assim assistia um documentário do Animal planet, porra!
      • O que esse cara tinha na cabeça? Provavelmente algo como, "Vou canalizar toda minha segunda adolescência nesse meu último filme, colocando todas as musiquinhas de brit rock que eu ouvia na época e fazer o elenco inteiro se vestir com roupas de brechó".
      • Não gostei da fotografia, pretensiosa demais.
      • Hahahaha, quem escreveu esses diálogos? Algum roteirista do Zorra total?
      • Olhem só esse ângulo arrogante da câmera. Se acha o novo Kubrick, só pode.
      • Minino, quanta cena de nudez. O elenco da Brasileirinhas coraria...
      • Filme nacional, fazer o quê.
      • O diretor não consegue esconder sua simpatia pelos personagens retratados.
      • Ficou com medo de polemizar (numa frase, acabo de contar toda a história do cinema nacional)
      • Que finalzinho cheio de soluções fáceis e concessões!!
      • Se eu quisesse ver tanta gente assim pintada de azul, baixava episódios dos Smurfs pelo torrent.
      • Quanta verborragia, minha cabeça até começou a doer. É filme de italiano ou judeu?
      • Esse é daquele tipo de filme em que, em vez de o elenco fazer laboratório para os personagens que incorporarão, o diretor faz isso com a audiência.
      • É só um filme de terror (eufemismo para extravagante, inverossímil e sensacionalista)!
      • Meryl Streep (é possível com vária atrizes)? Faça-me o favor. Há quantos anos ela não consegue expressar emoções! Não deve nem ser culpa do botox, deve ser o embalsamador que ela usa...
      • O livro é melhor.
      • Trilha sonora legal... pra quê fizeram um clip tão grande? Ah, é um filme? Me avisem com antecedência na próxima...
      • Tinha que ser bobagem de Hollywood pra enfiarem romancezinho onde não tem. É uma história real, porra! Pouco interessa quem dá pro protagonista; preocupem-se apenas em contar bem a história, raios!
      • Filme de balzaca.
      • É tão ruim que é kitsch...
      • Esse filme vai ser mais útil pra onanista procurando peitinho de fora do que pra figurar em centros culturais...

      terça-feira, 12 de outubro de 2010

      Mínimas diferenças (III)

      Paris Hilton não é Perez Hilton. E, com toda a sinceridade do mundo, prefiro não saber o porquê.

      Lingerie day não é casual day nem propaganda da Duloren: mas decerto pode ter sido marketing viral da última. Em todo caso, uma desculpa bem-vinda pra ver tanta mulher nerd por aí com pouco tecido.

      Robbie Williams não é Robin Williams: um acha que canta; o outro acha que faz humor. Alguém disse isso a ambos e eles acreditaram.

      Cheryl Cole não é Sheryl Crow nem Cherry Coke: uma delas é cantora country; a outra posso morrer sem saber o que toca (se é que toca), e a última é uma Coca-cola metida a besta que lançaram nos anos 90, na minha adolescência. Ficou menos de seis meses no mercado, mas é a bobagem pop, das três mencionadas, da qual mais vividamente me lembro.

      PEC não é PEC: a primeira, Proposta de emenda constitucional, nada tem a ver com a segunda, a Pre-existing condition. A primeira mata com força de lei; a segunda, com força do dinheiro. A primeira mata aos poucos; a segunda, às vezes mais rápido: é o eufemismo das seguradoras americanas pra dizerem que preferem te ver morrendo a pagar exames simples para tratamentos de saúde. Lembre-se disso ao tentar embromar o plano de saúde com cirurgias estéticas...

      JK não é JK: ambos foram presidentes, um americano, outro brasileiro. Um era a bitch do outro. Nossa malha ferroviária e dívida externa que o digam. Irônico o nosso ter morrido num "acidente" de carro e o outro, bem, ter morrido dentro de um carro também. Creio que essa combinação de fatos históricos diz algo sobre ambos os países...

      David Cardoso não é David Caruso: o primeiro se acha um presente de Deus pras mulheres, uma espécie de Pereio sóbrio; o segundo se acha um Chuck Norris senil com lentes escuras bifocais. Um soube quando se aposentar, já o outro... parece agente funerário brincando de detetive em Miami.

      sexta-feira, 8 de outubro de 2010

      Pequenos negócios, grandes solidões

      Sites de namoro cobram por seus serviços. O problema nisso é que eles querem te cobrar antes de você sequer conseguir usar o serviço. Quer mandar uma mensagem? Eles cobram antes. Quer ler um e-mail? Idem. Quer colocar mais fotos em seu álbum ou ter mais visualizações nas pesquisas? Mesma coisa. Não vou falar aqui dessa exploração perversa da solidão alheia, usada como mais um segmento de mercado. Seria redundante. Mas decerto eu teria mais visão, se eu fosse dono de uma empreitada virtual dessas.

      Se você usa um programa de mensagens instantâneas, tipo os MSN da vida, as softhouses não vão te cobrar antes de você usar o serviço, certo? Então não há porque o raciocínio não funcionar aqui. Alguma loja virtual te cobra por um produto antes de mostrá-lo? Algum site de relacionamento te cobra pra você poder adicionar um amigo que te encontrou numa pesquisa? Alguém já tentou te cobrar pra criar uma conta de e-mail? Nos tempos de internet discada, recordo que isso acontecia. E o que se sucedeu? Simples, o serviço só se popularizou horrores quando se tornou gratuito.

      Não é à toa que sites de relacionamento só sobrevivem porque se aliam a grandes portais, que crêem produzir conteúdo relevante, como os Uols e Terras da vida. Esse modelo de negócio é falido e oportunista, e avilta o saudável hábito de se conhecer pessoas novas pela internet. Defensores desses sites podem argumentar que se paga por controle de qualidade, já que usuários fake e trollers são devidamente monitorados. Isso não é verdade. Pessoas enganadas por conquistadores baratos em busca de pensão e dinheiro fácil não faltam, e independem desse tipo de controle. A internet atual prova que é perfeitamente possível realizar controle de qualidade de conteúdo transferindo-se essa tarefa aos próprios usuários. Sites de vídeo e blogs permitem que usuários categorizem seus vídeos com tags. Sites de relacionamento permitem que você sinalize (flag), caso considere um usuário suspeito. E por aí vai. Então, controle de qualidade aqui é falácia.

      Se eu fosse dono de um site desses, seria mais honesto. Não cobraria pelo serviço em si. Mas cobraria por serviços extras, opcionais. Mais visualizações em pesquisas, dados pessoais como idade/formação/gostos pessoais, inserções de sua imagem em banners no site (se é que isso não é feito), exibição de fotos, acesso a comunidades/fóruns para se conversar sobre determinados temas… redes sociais apostam em comunidades e a mobilidade social de seus usuários não só é positiva como aponta tendências, conteúdo de pesquisa mercadológica -- interessante a várias empresas -- que pode perfeitamente servir como fonte de renda para o site. Percebam: apostar na busca das pessoas por exclusividade não tem porque não dar certo.

      Nos tempos áureos de Fotolog, por exemplo, eles se davam ao trabalho de cobrar pra você ter uma conta gold, que te permitia adicionar mais de uma foto por dia. O que de certo modo bate com o que sugeri no parágrafo anterior. O problema é que o site em si nunca se preocupava em melhorar o serviço aos visitantes: a resolução das imagens era baixa, a interface era limitada e até mesmo a quantidade de comentários a se receber era limitada a 10. Pararam no tempo. Aí vieram vários genéricos, pra suprir as melhorias que o Fotolog negava aos usuários, e por fim veio o Flickr pra enterrar a popularidade desse serviço. Erro semelhante cometem o Formspring e o Chatroulette: de tendência cairá rápido pro ostracismo, se já não o ocorreu. A diferença é que o Fotolog não permitia integração alguma com outros sites. O que foi fatal para ele, já que em seu auge, antes da ascensão das redes sociais, o Fotolog funcionava como uma espécie de coluna social de jovens. Não souberam enxergar isso, não mantinham um diálogo com o usuário, e terminaram em seu atual isolamento virtual.

      Para escrever esse texto, entrei por curiosidade no Fotolog pra ver se algo mudou. É incrível; não mudaram uma vírgula. A mesma interface de uns sete, oito anos atrás, praticamente intocada. Isso é preciosismo virtual, simplesmente um suicídio em termos de internet. Sites de relacionamento, em linhas gerais, tem mais sorte que o Fotolog porque eles estão lidando com pessoas carentes, senão teriam o mesmo merecido destino do Fotolog. Essa falta de visão dos sites de namoro me entristece. Não porque poda o livre-arbítrio do usuário de pagar apenas se quiser pelo serviço. Mas porque atenta contra a proposta original da internet, que é compartilhar, e não ilhar, a informação. É nessas horas que faz-se urgente uma legislação adequada para isso. Imagine você numa loja de eletrodomésticos querendo comprar uma geladeira. Ou num cabeleireiro, querendo cortar o cabelo. Já imaginou se te cobrassem antes pelo serviço? Percebem como esse tipo de negócio deixa o consumidor numa posição frágil? Se escrever uma legislação própria dá tanto trabalho assim, que pelo menos adaptem o código de defesa do consumidor pra isso, oras.

      Admito que há alguns negócios que dependem da sorte. Por exemplo, se tenho problemas de infertilidade e quero tentar ter um filho, o tratamento para isso é um serviço que me é vendido sem garantia absoluta de sucesso. Isso não se aplica a sites de namoro: eles não dependem de ciência pra funcionar, e quem faz todo o trabalho é o próprio usuário. Porra, vou pagar a terceiros pra realizar uma tarefa em meu benefício por tempo limitado? Por outro lado, se compro um terreno sem nada, é problema meu construir alguma coisa. A diferença é que, nesse processo, tenho garantias legais. Não se tem garantia alguma com sites de relacionamento. Pode-se terminar o processo magoado, ludibriado por golpistas. Então, tenham certeza: não é problema nosso o fato de sites de relacionamento não saberem lucrar com seus serviços.

      Querem nos vender o direito a uma comunicação, por natureza cheia de ruídos, que a internet proporciona. Ou seja, vender iglu pra esquimó. Eles precisam nos oferecer mais. Mas sabem que seus usuários não querem exposição, então é por isso que as coisas ficam como estão. Se você, meu caro, já perdeu tempo, em algum momento de sua vida com esse tipo de site, aposte em seu amor-próprio e busque no mundo real a pessoa que procura. As "histórias de sucesso" que esses sites contam de casais apaixonados são como os antes e depois em propagandas de aparelhos pra emagrecer. Tomara que a Polishop não me leia; daqui a pouco esses putos acabam tendo a idéia de criar um site desse tipo. Vender produtos dessa forma eles já vendem...