quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Jargões do cinema

As palavras mais usadas no cinema estadunidense, aquele cheio de explosões, gente bonita e efeitos especiais.

National security: no mundo construído pelas câmeras de Hollywood, tudo ameaça a segurança. Desde aparições de supostos OVNIs até o alvejante que você usa pra lavar suas cuecas. É quase um mantra, que justifica tudo: roubar carros de cidadãos de bem durante perseguições policiais, dilapidar patrimônio alheio, torturar de leve o vizinho de baixo... o céu é o limite para eles. E mesmo assim... vai que o filme seja sobre uma expedição espacial com a missão de destruir um asteróide em rota de colisão com a terra, ou simplesmente combater ETs maus antes que eles coloquem seus tentáculos viscosos em solo terrestre. Pois é.

Are you hitting on me
, Is this a date e variantes: isso dá uma amostra do quão recalcada é a sociedade dessa gentezinha, que considera flerte um mero esbarrar na rua ou um cisco no olho. Eles praticamente exigem a assinatura de um contrato pra estabelecer se estão num encontro amoroso ou não. Uma garantia de que a garota não vai tentar processá-lo por assédio. Sem falar que os xavecos são sempre metalinguísticos demais e cheios de ganchos, recursos de retórica para amaciar um possível fora. Fala sério, tem coisas que a gente não fala, faz. Povinho frustrado. Comece a contar nos dedos quantos filmes teen você já viu que um loser qualquer tenta se dar bem com uma garota levando-a a um encontro com uma escuta telefônica, sendo guiado por um amiguinho com maior desenvoltura com o sexo oposto. Escondido dentro duma van, como se fosse uma missão de espionagem. Então. Essas cenas de comédias românticas não são engraçadas, são simplesmente tristes.

I think I'm gonna throw up
: esse pessoal vive numa terra sem bailes funk, música sertaneja, Faustão, livros do Paulo Coelho, Renato Aragão, José Sarney, blogs como o Kibeloco, atrizes no ostracismo que entram pro pornô, Rio Grande do Sul, Tom Cavalcante, e ainda se sentem nauseabundos com qualqur merda que acontece em seus filmezinhos medíocres? Fala sério, se a náusea for gerada por gente como Meg Ryan, Eddie Murphy ou Renée Zellwegger eu até alivio. Mas raramente é o caso.

F*ck
: conveniente palavrinha usada pra tapar os inúmeros buracos dos diálogos dos filmes de guerra. Quando falar ideias pro roteiro, coloque uma meia dúzia de machos na tela soltando palavrões a torto e a direita. E, claro, sempre com aquela panca de esperto, de quem já nasceu pronto. É como se fosse nosso famoso blablabla, ou como o yada yada yada de Seinfeld: é um recurso linguístico que presume um discurso genérico, cuja função é mais externar o humor do personagem do que ter algo a dizer. Os homens das cavernas se limitavam a rosnar e se saíam melhor. Por outro lado, quando não usado em filmes de guerra, esse termo é útil para conotar pessoas à margem de convenções sociais, descoladas e criativas. Mas só pra conotar, mesmo.

Mr. President
: momento em que é inegável o imperialismo do país da única indústria cinematográfica do mundo. O mandatário da nação é, literalmente, tratado como um imperador. Suas vontades são absolutas e, vai saber porque, sempre fica em seu poder os códigos dos arsenais nucleares. O engravatado mal sabe o que come no café da manhã, vai ele saber como manejar adequadamente tal poder de fogo? É como dar uma AK-47 a um adolescente. Imagina a diversão que vai ser ele ir à escola com uma. Pensem comigo, nos filmes nunca se fala da ONU. É como se o presidente deles fosse uma espécie de xerife desse faroeste chamado de comunidade internacional.

I love you
: taí um termo que virou bom dia nos filmes. Não importa quanta merda eu faça entre o início e o fim de uma história, se eu fizer uma loucura pirotécnica o bastante pra comover minha amada, vai ficar tudo bem. Nos filmes o amor é uma espécie de pique, como nas brincadeiras infantis. Quem chega no ponto combinado antes da outra criança não pode ser pega. Caraca, tô ficando velho mess; precisei recorrer à Wikipedia pra me lembrar do termo 'pique'. Wikipédia é meu pastor; mais tarde vou pesquisar o que é 'vida real' lá. =p

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Jovens, este é o último texto do ano. Confesso que os últimos três meses foram quase parando aqui. Mas foi melhor assim; jogar aqui textos medíocres seria ridículo. Talvez adote como resolução para 2010 atualizar mais essa bagaça. Eu disse talvez. Em todo caso, feliz ano novo a todos. E lembrem-se, o que acontecer em 2009 fica em 2009. Então encham a cara, passem vergonha e mandem alguém à merda. Usemos os últimos dias sugerindo que faremos diferente nos próximos 365. Assim seja. Fui...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Bloco de notas (XIII)

Estado civil de Edney Silvestre, segundo a Contigo (na mesa da sala): semissolteiro! Todo artista parece ter saído duma novela do Manoel Carlos, hoje em dia (sorrisos de paisagem, vidas medíocres folhetinadas em tabloides e algum projeto pessoal que não interessa a ninguém). Inclusive os ex-grobo. Tirando as tendências homossexuais/suicidas e o senso de ridículo destes últimos, claro.

8 de dezembro é, por incrível que pareça, o feriado do qual ninguém se lembra. Já aconteceu de eu ir ao trabalho só pra descobrir, por meio do chefe e uma hora depois, que ninguém mais viria, presumindo ponto facultativo. Peculiar, isso. Pelo fato de se tratar de um feriado religioso, católico, e por se tratar de um feriado, uai. No país cujo excesso deles até originou aquela lei forçando feriados sempre às segundas para evitar emendas. Pra gente ver a força do natal (não o que ele realmente significa, mas o que o comércio quer que ele signifique) faz com os costumes. Lembram da Consciência Negra (feriado (sic) forçado goela abaixo para nós) mas não do dia da Bandeira. O Brasil não é um país sério...

Desde o começo do ano comento aqui que 2009 tem sido o mais inusitado dos anos. A maior prova disso foi a última rodada do Brasileirão: todo mundo preferia o hexa do Flamengo! Um verdadeiro parto, esse título: os são-paulinos precisaram de bem menos que os dezessete anos da nação rubro-negra pra erguer a taça seis vezes. Mais inesperado que isso, só se a reunião dos líderes mundiais em Copenhagem der em alguma coisa.

Esses dias passou na TVE um documentário chamado '3 irmãos de sangue', filme que conta a história de Henfil, Betinho e Chico Mário. Sim, eu ignorava o fato de eles serem irmãos. Aí, com a fantástica transmissão do decano canal, fui tentando assistir a trajetória dos três irmãos e o simbolismo deles na História moderna do Brasil em meio aos chuviscos, que mais pareciam coadjuvantes, dada sua onipresença em minha tela. Bateu uma nostalgia quando um trechinho de vinheta daquela campanha de natal sem fome do Betinho passou. Bateu também certa vergonha por ver como o brasileiro desconhece sua própria história. Achamos que pessoas produtivas para a sociedade só servem pra dar nome de rua. Como é fácil enrolar esse povo, pensam as autoridades. Viver num país em que os vetores de nossa cultura são estranhos a nós mesmos, tão habituados a influências estrangeiras, é triste. Culturalmente falando: se nosso país, entre os emergentes, fosse uma banda popular qualquer, decertos seríamos George Harrison: o que tem som, mas ao qual só é dado o ostracismo.


A doutrina Monroe é levada à risca no Direito há séculos e ninguém fala nada. Afinal de contas, é mais fácil domesticar a turba quando falamos que o fato de enriquecermos à custa de sua pobreza e alienação constitui em efeitos ex nunc do que darmos educação a eles. Deixemos eles apinhados em favelas perpetuando a desigualdade social com o pó que a gente consome, pensam as elites. Essa herança histórica que não tem nada a ver com a gente é ex tunc mesmo...

A geração anime conseguiu deixar brega um dos mais sofisticados seres lendários consagrados no auge do ultrarromantismo do século XIX: o vampiro. Aquele vampiro ao qual estávamos acostumados, que vivia num castelo, tinha excelente dicção, se vestia muito bem, entendia de literatura, sempre dava uma boa ambientação pra histórias de suspense e só saía de casa à noite (hábitos diurnos, faça-me o favo-or) foi demolido pela nova franquia hollywoodiana feita pra ganhar dinheiro em cima do público feminino: falo da saga Crepúsculo. Saga esta que profanou o lendário personagem fazendo com que agora nem a luz do sol, nem alho ou símbolos religiosos o afetem, que tenha superpoderes, tenha cara de anêmico e tenha vilões que mais parecem pokémons, transformando-se em lobisomens e tals. Fariseus!!!

Meu fim de ano será mais feliz: Flavia Alessandra pra Playboy. Meu S2 sempre terá um lugar especial pras morenas, mas às vezes, humildemente, preciso fazer algumas concessões. Como vilã de novela das seis, como mocinha da das sete, Flavia é tudo de bom, com sua voz levemente rouca e um corpo de parar o trânsito. Enfim, mais uma pra listas das mulheres que vou morrer na vontade. Juliana Paes e Deborah Secco, duas atrizes que só lembro que ainda existem por causa de seus ensaios na supracitada revista, também tem um espaço em minha memória. Outro dia faço um post com mais testosterona e relaciono algumas musas de meu gosto pessoal.

Estava pensando, esta seção do site às vezes funciona como a um rascunho daquelas piadinhas manjadas de stand up, que de tão exploradas pela nova geração trazendo a novidade a palcos de todo o Brasil-il, começou a ficar manjada. Hermes e Renato explicam isso beeem melhor por meio de Dudu Marchioli, comediante fictício que ironiza a atual geração stand up. Ou seja, old school mostrando como é que faz. Recomendo o vídeo. Você se pergunta, como funciona o humor stand up? Funciona assim: você pega uma situação cotidiana, reflete com certa rabugice sobre algum detalhe irrelevante, e conduz esse detalhe, por meio de um silogismo vagabundo, a uma situação nonsense. Se tiver cunho sexual, melhor ainda. Faça isso por 90 minutos e você será ovacionado por plateias fáceis de fazer rir país afora. Mas porque o Bloco de notas (daqui do site, não o da Maicrossóftio) funciona como a um rascunho de stand up, você se pergunta. Pelo simples fato de que aqui ficam as reflexões as quais não me delongo o bastante pra fazer um texto relevante nem me dou ao trabalho de constrangê-los com uma pífia tentativa minha de fazer humor. Até porque pra mim o humor de verdade é aquele que vem sem avisar, e isso é raríssimo acontecer (como gordinhas de biquíni que entalam em trampolins nas videocassetadas, em vez daqueles diálogos forçados e sem naturalidade de algumas comédias). Principalmente em atrações que se firmam como comédias. Ou talvez eu seja apenas rabugento, mesmo...