sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Segregação genética

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.

Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.

A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.

Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.


Esse texto, escrito no Polegar opositor, me fez lembrar de Gattaca, um dos meus filmes de ficção científica favoritos. É dos meus favoritos porque fala de temas universais sem ficar fazendo futurologia demais nos cenários e nas locações. Sem falar da atmosfera meio anos 50 das locações e dos ângulos de câmera usados, numa inesperada mistura de passado com futuro. Como na tagline do filme, "Não existe gene para o espírito humano". É uma história que me agrada em particular porque não usa os avanços da ciência per se como bode expiatório de um possível futuro pós-apocalíptico o bastante pra justificar a pirotecnia habitual dos filmes-pipoca de Hollywood. Aqui, o vilão é a consciência humana. A mentalidade de uma sociedade que agora se segrega não por raças ou credos, mas por caracteres genéticos. Aqui a desculpinha de a tecnologia se voltando contra a humanidade não cola, e é bom ver que alguns filmes ainda são feitos com essa maturidade.

sábado, 21 de novembro de 2009

Cortesia


O Tumblr está quaaaaaase me convencendo a criar uma conta lá e desistir dessa mídia pedante dos blogs. Meter um monte de imagens conceituais e algumas referências pop sem ter que pensar em nada pra escrever, quem precisa fazer mais do que isso na Internet hoje em dia? =p

Sim, eu sou um fraco.

P.S.: versão em português desse cartão aqui.
P.P.S.: devia mandar imprimir alguns desse pra toda vez que um idiota vier falar comigo...

domingo, 15 de novembro de 2009

Chatice

Chatice provê imunidade? Estes dias estava a divagar sobre isso durante um jogo na TV. Estava conversando com o irmão quando ele sugeriu que a chatice ajudava as pessoas a adoecerem menos, e mencionou como as pessoas legais sempre morriam cedo. Do lado dos chatos, mencionou Galvão Bueno; do dos legais, dispensa exemplos (escolha você um). E não, Tadeu Schmidt não é um exemplo de cara legal. É como se olhar apenas pro próprio umbigo, violar ouvidos alheios com obviedades e lambuzar gente famosa com lisonjas escarradas fizesse algum tipo de bem ao organismo. Talvez retarde o envelhecimento, vá saber. Ou talvez a falta de noção e de senso de ridículo traga algum equilibrio de substâncias no cérebro atípico em pessoas minimamente suportáveis. Ou então apenas o apelo popular desses purgantes lhes garanta afinidade com o público e lhes garanta mordomias que, por si só, lhes traga maior longevidade. Sei lá, um dia ainda vai aparecer nos noticiários alguma notícia inútil do tipo 'cientistas britânicos descobrem que o gene da chatice proporciona maior longevidade às pessoas, além de reduzir em 50% as chances de câncer de colo do útero e em 30% as chances de se desenvolver síndrome de Tourette'.

A poprósito, vou testar essa teoria minha da chatice e terminarei este post com este excerto enfadonho e inútil. Pois bem. Ontem foi um dia bem monótono: vi alguns filmes, comi besteira e li alguns feeds no Google reader enquanto tentava fazer alguma coisa com minha minguada vida social. Zapeando por alguns canais depois de ficar sem ideias de como me distrair, percebo que um filme dito cult acaba de começar: 9 canções. Tinha ouvido falar deste filme nas horas e horas que fico a clicar nos links de filmes relacionados do IMDb. Pensei com meus botões, 'legal, deve ser daqueles filmes meio indie, falando um pouco da cena rock alternativa inglesa ou algo assim, com uma meia dúzia de diálogos espirituosos, mulheres meio baranguinhas e cenas gratuitas de sexo'. Só errei o primeiro item da frase anterior; pouco se aproveitava da película. E por 'pouco', não me refiro à cena em que a mulher masturba o cara com os pés, na banheira. Ou quando ela recebe sexo oral em cima da mesa de seu apê. O fato é que a história se desenrola contando um encontro amoroso de duas pessoas que se encontram num festival de rock, sendo que, a cada música que a banda (medíocre, por sinal) toca entremeia uma crescente intimidade entre os dois. Desculpa pra se fazer um filme com cenas de sexo em excesso? Pode ser, mas seria leviano generalizar isso. 'Na cama', filme chileno de 2005, por exemplo, é mil vezes melhor. E tem bastante nudez. Mas os diálogos são bem sacados, os dois protagonistas tem lá sua profundidade, e a trama é interessante o bastante para afastar a sensação de claustrofobia de se assistir um filme que se passa todo em um quarto de motel. Aliás, já falei pra vocês como Telecine mudou minha vida (tática fantástica pra se parecer -- ou ser -- chato: falar em excesso sobre si mesmo; aprendam, gafanhotos)? Sim sim. O pacote é bem mais barato que o da HBO e a oferta de filmes é mais interessante. Enquanto a HBO se gaba de exclusividade com filmes recordistas de bilheteria e séries que ninguém assiste exatamente por causa dessa maldita exclusividade, o Telecine proiriza antes a qualidade. Não é à toa que entro no site da rede umas duas ou três vezes por semana pra conferir a programação, além de ler o Cultblog do Janot. Esse cara fala de cinema de forma acessível e não-pedante. Coisa que o Rubens Ewald Filho nunca conseguirá fazer, com seu visual de diretor frustrado. Será que a HBO ainda perde tempo contratando-o pra aquele quadro de meia hora que passa antes de suas estreias? Pouco me importa; fico com Janot. Chegando até este ponto do texto, começo a me lembrar porque abandonei a tendência diarinho que eu tinha no passado de falar sobre meu cotidiano. Antes era porque meu cotidiano era incrivelmente chato; agora, é porque quase todas as pessoas que fazem parte dele o são. Ou talvez seja apenas eu. Em todo caso, a ordem dos fatores não altera o produto, não é mesmo? Se eu tivesse filhos começaria a falar deles só pro texto ficar definitivamente insuportável, mas serei benevolente com vocês e encerrarei meus profílicos e vãos dizeres por aqui. E isso porque apenas desfiei aqui uma pseudo crítica sobre alguns filmes metidos a besta que andei vendo nos últimos tempos. O que me leva a cogitar a um dia fazer um blog pra relacionar os filmes que já vi e destilar toda minha pedância pros poucos incautos que se atreverem a ler as palavras desnecessárias que (não) tenho a dizer. Com minha média atual (2,5/semana), não faltará material; só faltará vontade para isso, mesmo. E know-how.


...

Se continuar terminando meus textos assim, acho que vou viver para sempre.

domingo, 8 de novembro de 2009

Burburinho

[curso de gestão do tempo. O professor dá um exemplo de pessoas difíceis]
_ Lá no meu setor, teve uma vez que chegou um aluno para falar com uma funcionária. Ele disse: --Moça, o equipamento tá com problema. -- O que tá com problema é isso que você tem entre as pernas --, ela responde.
[mulher ao lado comenta comigo]
_ Puxa, que mulher frustrada. Você já teve esse tipo de problema?
_ Não, o meu sempre funcionou direitinho.

[mostrando a barriga pelada pra mim]
_ Eu tô te falando, as mulheres preferem um cara depilado, lisinho.
_ Certeza que elas preferem esse filete de gordura que você chama de barriga. Sou mais meu abdômen viril e cabeludo.
_ Cara, depila essa coisa nojenta. Porra, olha quanta sujeira que esse trem deve acumular.
_ Dá um tempo, a natureza me fez com pêlos para o corpo ter uma forma de deter microorganismos invasores.
_ A mulherada não gosta, elas vão ficar com nojo.
_ Elas nunca reclamaram comigo. E mais: depilar a virilha é coisa de ator ponô, meu. Fica nessa pra você ver...
[assistindo Tv acompanhado desse interlocutor. Matéria do CQC sobre Dita von Teese. Cara, que mulher...]
_ Dita, vou usar suas dicas e fazer um strip pra você. [vai fazendo o strip] Repara não que eu sou meio cabeludo, tipo o Tony Ramos.
_ Sem problema, eu adoro homens de verdade.
[réplica a meu intelrocutor]
_ Se a Dita falou, tá falado.

Vem cá, qual o nome daquela atriz que namorou o presidente americano, o Kennedy?
_ Ah, é a Marylin.
_ E quem é essa atriz que aparece atrás dessa montagem nessa sua foto de formatura?
_ É a Grace Kelly.
_ Não, não é ela.
_ Claro que é, uai.
_ Não, você está confundindo o nome com aquele da dança da chuva.
_ Gene Kelly? Meu deus, não ouvi essa.
_ Então, não é ela a Gene Kelly?
_ Cara, essa foi pior que a maçã elétrica.*


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* Essa estava em meu blog anterior, mas foi tão surreal e antológica que merece um repeteco. Segue a cena abaixo:

_ Que raio de filme é esse? Desde quando alguém perde tempo na poeira das prateleiras de VHS alugando maçã elétrica?
_ É laranja mecânica, ô cabeça!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009