quinta-feira, 30 de julho de 2009

Porque todo mundo tem mãos brancas?

Resposta careta do Yahoo! respostas:

Não são só as pessoas negras que possuem " mãos brancas". Indivíduos de todas os grupos raciais possuem as "mãos brancas". Isso ocorre por que nas palmas das mãos e nas plantas dos pés de TODOS os seres humanos não se verificam a presença de células pigmentares chamadas MELANÓCITOS. Esses melanócitos, presentes em quase toda extensão da pele produzem a MELANINA, que confere proteção à pele contra os nocivos raios solares. Todos possuem melanócitos produzindo melanina em maior ou menor grau, dependendo de vários fatores. Todo efeito evolutivo sobre as espécies leva em consideração a ocorrência de mutações no material genético da população e à vantagem adaptativa que essas mutações conferem a essas populações, haja vista às exigências do meio-ambiente. Essas exigências do meio conduzem à seleção natural. Tudo isso recebe o nome de ESPECIAÇÃO. Se os membros de diversas raças não se cruzarem e não se misturarem, então poderemos, depois de muitas gerações, observar a formação de Espécies Distintas. Mas, naõ se preocupe. Os diversos grupamentos humanos tém uma Forte Tendência ao cruzamento interracial, o que, na linguagem científica, chama-se FLUXO GÊNICO, proporcionando uma maior homogeneidade genética na popúlação. "Raça pura" não existe. Nem em sonho.


Resposta que tive na infância:

Reza a lenda que, antes de enviar os homens à Terra, Deus sorteou várias faculdades aos homens. Uma delas dizia respeito à cor de pele: a pigmentação branca era obtida por meio de um líquido abundante em um lago. Confortáveis com a vida no Paraíso, muitas pessoas acabaram se acomodando e foram postergando sua ida a esse lago. Mas havia um prazo para a humanidade residir ao lado do Senhor, e este se expirou um dia. Os portões se abriram, e todos os humanos foram sendo atirados à Terra, à própria sorte, com seus poderes limitados ao que o conhecimento poderia proporcionar. À medida que o inevitável acontecia, as pessoas que ainda não tinham ido ao lago iniciaram um êxodo desesperado até ele, mergulhando o máximo do corpo que podiam, antes de serem jogados à Terra. Algumas pessoas, em meio ao pânico gerado por multidões querendo entrar num lago ao mesmo tempo, viram o líquido se minguar rapidamente, e conseguiram apenas mergulhar as palmas das mãos e dos pés, antes de o firmamento se esvaecer entre seus pés e serem sentenciados à vida mortal. Todos tentavam o máximo de contato corporal possível com o líquido, mas alguns não tiveram 'sorte': para estas, houve tempo apenas para as mãos e os pés.


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Eu sempre tinha resposta às minhas perguntas na infância. E olha que fui uma criança curiosa. Esses dias estava me lembrando disso e me veio à mente esse episódio. Quando a resposta que eu obtinha não tinha caráter científico, tinha ao menos caráter de mitologia. Com isso, as melhores respostas eram sempre sobre História. Perguntas envolvendo biologia ou química envolviam saídas pela tangente como essa. É uma explicação um tanto racista, a desse mito, mas não no contexto em que me foi dada, essa resposta. Usar o mito para responder o que desconhecemos é o lado mais imaginativo do espírito inquisidor do homem. E, convenhamos, foi uma resposta suficiente para uma criança. Para não fazê-la pensar que tudo a seu redor é caótico e sem porquês; seria muito chato viver assim. Um mito não corresponde necessariamente ao que pensa quem o passa à frente, mas sim à mente que criou tal explicação fantasiosa. Corresponde também às limitações do pensamento humano de gerações inteiras, então pelo menos um caráter antropológico isso tem. O legal de mitos é isso: eles antes nos abrem os olhos a coisas às quais nos distraímos do que oferecer uma resposta definitiva e estéril às nossas dúvidas. O mito é uma espécie de poesia do futuro. Um desenho que cabe ao conhecimento humano apagar as rasuras necessárias.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Eu confesso

Ela tinha um equilíbrio raro numa voz feminina. Era uma voz madura, mas não grave nem aguda demais. Encorpada, que denotava maturidade, diligência, habilidade para ouvir e serenidade para refletir relevâncias. Delicada, que conotava fragilidade, inquietude, resistência a certas palavras e pânico a certas inferências a que o tempo nos leva. Era quase um sussurro musicado. Como se cada palavra fosse um afago aos ouvidos. Uma crítica furiosa ou um desabafo soavam como a um arroubo pueril de indignação de uma situação que logo se sanaria, por mais intangível que fosse o que ela tivesse a dizer. Um timbre que me dava uma paz para a mente e levava o coração ao caos. Como se de repente ser feliz tivesse se tornado mais fácil. Em todo caso, não caio na sinestesia barata de resumir a voz dela como doce; antes diria contemplativa, pacífica, solitária. Porque a solidão está em nossa fala, e adorna nosso universo afetivo de forma nababesca. Uma tremenda decoradora de interiores. Com uma vozinha daquelas, se ela me dissesse "Cara, eu acabei de matar meu professor de Metodologia com três facadas no peito, me ajuda a desová-lo no mato?", eu iria. Meio mesmerizado e achando a coisa mais normal do mundo. Sem medo das consequências. Mas constatar que se faria de tudo por alguém é inútil quando se sabe que este ainda procura seu lugar. Ninguém é um porto seguro. E bússola alguma tem norte quando a distância não é apenas geográfica.

Coisa de quem não ama o suficiente a si próprio, eu sei. Para gente assim, encontrar alguém que lhe entenda é o momento mais valioso de suas vidas. Desse instante pra frente, rajadas e mais rajadas de palavras difíceis de se ouvir virão. Mas o que fazer quando elas vem em sua direção como se fossem invisíveis? Quando o mesmo feixe que te perfura é o mesmo cuja frequência sonora de seu trajeto lhe traz um paradoxal acalento? Porque as deixamos fazer algo assim com a gente? Desde quando o verbo (assim tão sedutor e cheio de entrelinhas) virou uma algema? O fato é que ninguém quer se perguntar isso quando ouve mentiras sinceras. Tentativas desesperadas do outro de se contar apenas a verdade. Isso pouco importa com uma voz daquelas. Você está feliz. Sabe que aquilo vai terminar. Que verdade sem amor não passa de crueldade, mais tarde descobrirá. Mas não importa. Enquanto durar, a monotonia terá ido embora. O ventinho bom que aquela voz traz passeará pelas memórias. As que se perderem, se abrigarão nos sentidos; bastará fechar os olhos para sentir; lembrar será secundário. Você terá mais uma saudade para tornar a vida um pouco mais suportável. Terá a seu lado aquele egoísmo que apenas a paixão traz: aquele de andar pelo mundo como se apenas você e ela estivessem nele. Sem rotina, sem cobranças: não haverá tempo para isso; tudo será tão efêmero quanto a voz dela ecoando pelo vento e sua imagem se esvaecendo na penumbra dum sonho bom.

...

Começo a conjeturar porque nunca tentei perder dinheiro com literatura. Deve ser por isso, porque é mais barato ter blog. Não tem críticos nem sua autocrítica rindo das besteiras medíocres que eu viria a escrever num romance.

A poprósito, esse ano dediquei um texto só às vozes femininas. Confiram.

domingo, 26 de julho de 2009

...ao próximo

A gente sabe o quanto as pessoas tornam-se especiais quando os silêncios deixam de se tornar constrangedores. Sabe também que certas coisas a gente não tenta, consegue. Tentar gostar não soa como fazer um hábito? Então. Uma outra coisa é quando percebemos que estamos melhor sem alguém. Não porque a gente a deteste, mas porque percebemos que nosso tempo não está acabando. Percebemos que conheceremos um outro alguém. Que a vida se tornará suportável com amigos e com algumas saudades. Que os ideais de felicidade que a sociedade calca em relacionamentos como namoros, família e casamentos não são regra -- como somos condicionados a pressupor --, são por si só ideais. O mundo é dos solitários. O destino não é de ninguém. A intimidade é uma necessidade que esnoba qualquer imediatismo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Desejar e esperar

Espero Desejo um dia, apesar de saber a diferença entre eles, assumir a escolha óbvia. A única que vai me acalmar.

domingo, 19 de julho de 2009

Ai, meu carma...

Eu tenho uma habilidade sobrenatural para implicar com detalhes irrelevantes. Tão sobrenatural que crio teorias malucas, debocho de pessoas que mal conheço só por causa de impressões que juro serem certezas, generalizo com uma força vigorosa, uso tudo que observo contra quem é observado e ainda me divirto com isso (pois é, eu não presto). Mas às vezes isso volta contra mim, redundante dizer. Neste texto não implicarei com algum tipo de pessoa ou alguma efeméride que beire ao neurótico: me delongarei sobre minha mania de perseguição contra um signo do zodíaco inteiro. Sério. A vida inteira passei me fudendo com pessoas do signo de... leão. Qual outro poderia ser? O signo mais ególatra dos astros. Feito de pessoas impossíveis de se conviver. Que têm o rei na barriga. Que acham que apenas elas próprias têm dilemas pessoais. Que passam por cima de qualquer um pelos motivos mais banais. Especialmente quando se sentem acuados. E cujo espírito livre me fascina na mesma medida que me fere. Não raro me sinto como uma presa ensanguentada correndo não deles, mas em direção a eles. Pois é. O mundo não é o bastante para eles. Afinal de contas, leonino não nasce, estreia (com ou sem acento, Pasquale?). Estou tão escaldado com elas que penso seriamente em, para não contaminar o mundo com genes configurados a estes astros regidos por este signo, a tentar ter filhos em qualquer parte do ano, menos de outubro até o final do ano. Sim, estou ignorando a possibilidade de partos prematuros. Se topar com pessoas assim já é zica, imagine ser responsável pela educação de alguém assim. Com isso, segue abaixo uma relação, com base empírica, do porque às vezes me bate a impressão de que o mundo precisa de menos juba...

_ Ex-vizinha: efusiva, comunicativa, proativa... e espaçosa. Imagina conviver com alguém assim em pleno ardor da adolescência. Sair com ela era como ter camarote para um monólogo. Uma das poucas coisas que não fiz da qual não me arrependo foi nunca cogitar uma relação com ela. Quem ouve apenas a si próprio acaba sempre usando as pessoas a seu redor. Mas isso é algo que eu nunca aprendo. Dotada de uma atitude predatória quando se via vestindo a carapuça da ambição, virou uma das inúmeras ex-melhores amigas de muita gente. Amizades de anos desfiguradas por uma vaidade cega. Felizmente, sem homens envolvidos. Apenas o ego dela, mesmo...

_ Gótica: impaciente, pseudo, colérica, matreira, dotada de covardia instantânea ante ataques pessoais cotidianos. Uma relação faiscante com a mãe sintetiza bem sua relação com a família. Inquietude e apetite por liberdade. Instabilidade emocional às alturas. Se mulheres nunca sabem o que querem, esta sequer sabe o que fazer com o que realmente quer. Dela fui vítima de minha própria ingenuidade. Leoninas comem ingenuidade no café da manhã. E usam sua atenção como carpete pra tirar a lama dos sapatos. Nunca mais fui o mesmo depois dela, mas isso acho que seria inevitável. Especialmente para alguém como eu.

_ Um cara aí: este é um amigo homem. Sabe aproveitar a vida mas, no auge de sua natureza de leonino, só consegue se envolver com meninas bem mais novas. Depois dos 30 isso vai pega mal. Que ele perceba isto a tempo. É o tipo de pessoa que, em alguns aspectos, desafia rótulos, mas veste a carapuça dos que mais lhe convier. A vaidade é sua droga favorita. Nunca tive motivos pra me estranhar com ele, mas é algo que decerto aconteceria se tivéssemos uma convivência mais próxima. Quem tem pressa de viver sempre atropela quem estiver por perto. Este, como vocês vão perceber, é o único homem da lista. Isso se deve ao fato de não ser da natureza do homem se vitimizar e usar isso como pedra pra tacar nos outros...

_ A do olhar enigmático: esta foi tão rápido quanto veio. As coisas em comum entre a gente eram tão grandes que até assustava. Um espírito livre que ainda procura seu lugar. Cuja habilidade de observação me absorvia irremediavelmente. Mas uma dificuldade imensa em exercer confiança parece sempre dominar as meninas com quem me envolvo. Com as leoninas, isso atinge níveis que perpassam a falta de dignidade. Muitas vezes, de ambos os lados. Dela levei o fora mais estarrecedor de todos. Que sintetizarei numa citação: amor sem verdade é apenas paixão; verdade sem amor não passa de crueldade.

_ Colega de trabalho: não nos moldes de Silvio Santos, naturalmente. Mesmo esta tendo idade pra ser minha mãe, as garras, como de toda leonina, não tardariam a aparecer. O olhar de desprezo toda vez que cometo alguma distração é inconfundível. Os comentários felinos debochando de minha idade, também. Sua voz renitente e amassada de uma ex-miguxa podem enganar de início, mas sei com quem lido agora. O semblante de quem se faz de coitada é mera indução de estresse. Que leonino nunca se faz de coitado, afinal?

_ A do olho de peixe: daquele tipo de pessoa que parece tomar um litro de café pela manhã antes de falar com você. Insiste em falar da própria vida como uma pequena odisseia e demonstra indiferença total quanto ao que os outros sentem. Numa constante tentativa de se impor, fatiga qualquer um com sua voz irritante, parecida com a de um trombadinha. Sabe aquele tipo de gente que usa a música como placebo pra suas neuras, a ponto de usar camisetas de bandas de letras infantis e sentimentalóides, numa clara evidência de ainda estar algemada à adolescência? Pois é. O mundo não precisa de tanta gente volúvel assim...

terça-feira, 14 de julho de 2009

Uma interna (V)

Estranho conforto.
Decepção como prazo de validade.
Gente que nunca te ouve.
Palavras surdas.
Expectativa, ansiedade, desespero.
Fuga estática.
Condescendência viciosa.
Distrair-se tornou-se um luxo.
Cansaço pertinente, contínuo.
Continuum do tédio.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Conto de areia

Clara Nunes

É água no mar, é maré cheia ô, mareia ô mareia, é água no mar
É água no mar é maré cheia ô mareia ô mareia
Contam que toda tristeza que tem na Bahia
Nasceu de uns olhos morenos molhados de mar
Não sei se é conto de areia ou se é fantasia
Que a luz da candeia alumia pra gente contar
Um dia a morena enfeitada de rosas e rendas
Abriu seu sorriso de moça e pediu pra dançar
A noite emprestou as estrelas bordadas de prata
E as águas de Amaralina eram gotas de luar
Era um peito só cheio de promessa era só
Era um peito só cheio de promessa era só
Quem foi que mandou o seu amor se fazer de canoeiro
O vento que rola nas palmas arrasta o veleiro
E leva pro meio das águas de Iemanjá
E o mestre valente vagueia olhando pra areia sem poder chegar
Adeus amor, adeus meu amor não me espere porque eu já vou me embora
Pro reino que esconde os tesouros de minha senhora
Desfia colares de conchas pra vida passar
E deixa de olhar pro veleiro
Adeus meu amor eu não vou mais voltar
Foi beira-mar, foi beira-mar quem chamou
Foi beira-mar ê, foi beira-mar

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Futuro anunciado

Eu concordo com o fato de não existirem acasos, mas superestimar o poder da sugestão é um caminho perigoso. Isso a humanidade já faz mais do que deveria; pra quê estender esse exagero de forma análoga em sua vida? Nem tudo pode ser resumido a bons conselhos e algumas citações. Ter mais medo de não tentar do que errar tem algo de admirável. O que sei é que o caos mantém nossos destinos toleráveis. Ou seja, não sei nada. Quem sabe envelhecer me ensine algo mais...