quinta-feira, 21 de maio de 2009

Mordendo a língua

Neste textículo aqui destilei minha rabugice frente a um ano que supunha cheio de obviedades e coisas que nunca mudam. Mas vejam só, às vezes me sinto como que num universo paralelo quando passo os olhos nos noticiários e constato o que está acontecendo em 2009. Ferrari ameaçando deixar a F1? Ronaldo marcando mais gols no Brasil do que na Europa? Cheias no nordeste e estiagem no sul? Farra corporativista de passagens aéreas sendo condenada pela opinião pública e com gente no Congresso tomando providêcias temendo desmoralização? Afe, mais bizarro que isso tudo, só se o Renato Aragão voltar a ser engraçado. Detalhe que nem precisei esperar o ano acabar pra expor com clareza os absurdos que andam acontecendo, compreendidos em 365 dias. Pra vocês terem uma noção: achei que ia morrer sem saber se Silvio Santos usa peruca, mas bastou uma tampinha de cinco anos de idade para dirimir minhas dúvidas em rede nacional, e o Youtube pra me mostrar isso quantas vezes eu quiser. Até no âmbito pessoal essa estranha conjunção dos astros, que nos anda proporcionando um ano peculiar, anda fazendo efeito. Mas partamos para exemplos mais pragmáticos. Em tempos de crise, aquela esmola ordinária denominada redução do IPI impulsiona a venda de carros novos. Marcos Pasquim ainda não tirou a roupa na novela das 7. A Nintendo continua vendendo mais de seu controle remoto do que a Sony e todo seu hardware. A Playboy desse mês conseguiu dar uma photoshopada tosca o bastante pra ser feita apenas com aquela apostila que você baixou da net. Flavio Migliaccio ainda está vivo. Ainda não cancelaram os Simpsons. As religiões estão roubando meus amigos a ponto de faltar gente preu convocar pros finais de semana. O papa conseguiu cometer gafes com duas religiões ao mesmo tempo. Calças com estampas, por incrível que pareça, só aumentaram a ambiguidade sexual dos novos tempos. E a Folha, com o incidente da ditabranda, conseguiu ser mais reacionária e infantil que a linha editorial da Veja. Tá bom pra você? Defitivamente esse começo de século tá estranho...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Good mornin', good moooorning...

Good mornin', good mornin'!
We've danced the whole night through,
good mornin', good mornin' to you.

Good mornin', good mornin'!
It's great to stay up late,
good mornin', good mornin' to you.

When the band began to play
the sun was shinin' bright.
Now the milkman's on his way,
it's too late to say goodnight.

So, good mornin', good mornin'!
Sunbeams will soon smile through,
good mornin', my darlin', to you.

Here we are together,
a couple of stand-uppers.
Our day is done, breakfast time
starts with our supper.

Here we are together,
ah, but the best of friends must party.
So let me sing this party song
from the bottom of my hearty.

Good morning, it's a lovely morning.
Good morning, what a wonderful day.
We danced the whole night through.
Good morning, good morning to you.

I said good morning, see the sun is shinin'.
Good morning, hear the birdies sing.
It's great to stay up late.
Good mornin', good mornin' to you.

When the band began to play
the stars were shinin' bright.
Now the milkman's on his way,
it's too late to say goodnight.

Good morning, good morning!
Sunbeams will soon smile through.
Good mornin', good morning',
Good mornin', my darlin', to you!



Se um dia eu for acordado com essa música, meto o ferro na pobre alma que teve a idéia. Um hino das segundas de manhã: ao dar bom dia pro seu chefe, lembre-se dessa música pra não desejá-lo tomar no cu pelo resto do dia. Deve funcionar melhor do que contar até dez. Mas falando sério, impressiona a presença dessa música no imaginário popular norte-americano (quando estou de bom humor, essa música parece quase legalzinha). Posso citar pelo menos duas ocasiões em que essa música foi referenciada: o terceiro filme do Sherek (ui) e Family guy. Típica música de mala sem alça zombando de seu sono de beleza ao irromper cruamente em seu momento de descanso. Leia-se: gente que acha ser obrigatório todo mundo acordar no mesmo horário que ele. Um dia as correntes de e-mail ainda virão com essa música. Ou os call centers. Enfim, de quem chegar primeiro. Musicais não passam de uma forma brilhante de se vender músicas cantadas no chuveiro como entretenimento. Esses americanos frustrados sem jeito pra escrever óperas... =p

sábado, 9 de maio de 2009

Cotas no além

Se o inferno tivesse cotas, elas com certeza estariam reservadas a...

_ Endocrinologistas (especialmente os que lançam livros);
_ Banqueiros;
_ Advogados;
_ Especuladores;
_ Críticos de cinema que conseguem falar de tudo menos do filme do qual estão falando;
_ Publicitários que colocam crianças em propagandas de banco;
_ Comunicadores que seguem carreira política;
_ Engenheiros que desenvolveram o Lada;
_ Lobistas dos transgênicos (do álcool e do tabaco só libero porque tratam-se de saídas pela tangente da seleção natural, calcadas em vícios, e não em necessidades fisiológicas);
_ Médicos da rede pública;
_ Profissionais de consultoria (comprar uma Você S/a é mais barato do que pagar alguém pra te mimar com dinâmicas e auto-ajuda barata);
_ Executivos do cinema que ainda permitem a produção de filmes do Eddie Murphy;
_ Desenvolvedores de malas-diretas do Bradesco que entopem minha caixa postal com fabulosas e pirotécnicas promessas de juros baixos do cartão deles (passe livre pro décimo círculo);
_ Motoristas de ônibus (um day use é o bastante para eles);
_ Chefes mais preocupados em mandar do que trabalhar;
_ Filósofos que realmente conseguem mobilizar gente que faz (especialmente políticos) com seu chove-no-molhado hermeticamente fechado em teorias que ninguém com vida social se dá ao trabalho de ler (Marx foi o maior retrocesso no pensamento ocidental e ninguém se dá conta disso).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Perguntas

Adoro fazer perguntas. Não pelas respostas, mas pelo impacto delas. Gosto de atingir as pessoas no ponto mais frágil das fundações desse concreto armado que é nossa consciência. Isso tanto é verdade que minhas perguntas são as mais aleatórias possíveis, sempre em busca do máximo de espontaneidade na resposta. Meus questionamentos não tem a intenção de fragilizar ninguém. Até porque muitas de minhas perguntas são retóricas. Mas não me culpem por ser assim.

As pessoas me cansam com incrível rapidez. Porque isso acontece? Porque, à medida em que a gente as conhece melhor, elas começam a falar sobre uma quantidade bastante restrita de assuntos. Começam a entender achar que entendem melhor como você pensa. Começam a olhar apenas pro próprio umbigo. E aquela máscara que se usa no início de qualquer relação social cai. A que usamos para tentar mostrar ao outro que somos pessoas interessantes. Que somos únicos e que temos autonomia em relação a tudo que dizemos. E quando ela cai, é hora de lidar com a pessoa in natura. Do jeito que ela é, com suas limitações, com preguiça de fazer um mínimo de ginástica mental. A partir daqui, talvez quem deva começar a fazer aqueeeelas perguntas retóricas que eu mencionei há pouco, a si próprio, é você. É sua vez de ter aquele nó na garganta. De se indignar pelo fato de que o que te inquieta e chama a atenção é temporário.

Não falo aqui do novo. Falo dos conceitos que colecionamos. De até onde deixamos a busca por aceitação social nos oprimir. Só somos verdadeiramente livres quando perdemos o que mais apreciamos. Nesse sentido, minhas perguntas são valiosas. Eu cutuco pudores com vara curta. Eu expulso as pessoas de suas zonas de conforto. Isso não faz de mim um maniqueísta. Faz de mim um curioso pela natureza humana. Que, por mais que me horrorize, mais me prende. Afinal de contas, eu não manipulo: eu avalio. Palavras de quem é alvo fácil de joguinhos mentais...

Aceite isso: você passará o resto da vida sendo refém do julgamento alheio. E deve ser por isso que às vezes me distancio. Não aceito condescendência. Sou contemplativo, mas gosto de ver o sangue pulsando. Gosto de ver as pessoas exercitando o que sentem, quer queiram ou não. Os pequenos demônios partindo as correntes que prendemos ao... pois é. Nossa cabeça é uma prisão domiciliar. Trate de reduzir a superlotação com "pequenos acidentes" entre seus detentos. Entenda que existe uma relação predatória entre as coisas que você sente. E quando você entender isso, afaste-se das perguntas que você elabora com tanto cuidado. Ninguém merece ouvir, nem elaborar, certas respostas.

sábado, 2 de maio de 2009

A década da perversão

Os anos 70 foram muito loucos. Que o cinema tenha acompanhado o Zeitgeist dessa década de excessos não é surpresa. Até hoje a garotada impúbere querendo pagar uma de cult assiste Laranja mecânica e decora algumas frases horrorshow pra não ficar de fora das rodinhas pseudo. Mas laranja é filme pra mocinha perto do que outros diretores foram capazes de filmar na época. Incesto, coprofagia, violência, tudo isso aliado a enredos com interpretações tão copiosas quanto a crueza de suas tramas. Perturbador, pra dizer o mínimo. Os dois últimos eu ainda não vi, mas fica a dica no futuro. Confiram meu parecer sobre esses filmes, que ficarão em suas cabeças por dias após assisti-los:

_ Calígula: a contracultura começava a tornar comercial o mercado de filmes pornográficos. O que começava como uma meia dúzia de produções de atmosfera caseira se transformou numa forma empresarial de se ganhar dinheiro com sexo. Ou seja, a indústria do entretenimento começava a dissociar luxúria do entretenimento por si só, aproveitando um contexto de "revolução sexual", para dar uma estética pop àquela força da natureza que move a todos nós: o sexo. Nesse momento, onde o gênero erótico começava a ser cunhado, surge Tinto Brass. Italiano safado com obsessão por bunda que dá uma maquiagem de cult a seus filmes como pretexto pra mostrar muitas, muuuitas cenas de sexo. Pra vocês terem uma noção, o filme em questão tem mais gente pelada do que os ensaios fotográficos do Spencer Tunick. Sentiram o drama? Pois é. Não satisfeito em usar toda essa luxúria em sua película, ele ainda teve a manha de envolver Gore Vidal no esquema: este escreveu o roteiro, ajudou na produção e tudo. Hoje em dia não é algo do qual Vidal se orgulhe, mas Brass conseguiu o que queria: um filme de época, com cenários grandiosos, que expressa com soberba o show de excessos do império romano. Agora, quanto à precisão histórica, isso é algo que divide críticos e o público até hoje. Não sem razão: o excesso de erotismo e bizarrices destoa um pouco da carga dramática que, supostamente, Brass queria conferir ao infame imperador romano. Teria isso sido usado de propósito para se abrandar um pouco as pretensões dramáticas do diretor? Difícil dizer...
_ Salò ou os 120 dias de Sodoma: aqui temos outro italiano safado: Pier Paolo Pasolini. Esse sim um diretor cujos préstimos são bem mais fáceis de se reconhecer por quem entende de cinema. Nesse filme em questão, tudo funciona: as câmeras, as atuações, a ausência de música incidental para acentuar o horror e desespero dos protagonistas, a atmosfera de infindáveis perversões e coisificação do homem que ele confere à película... porra, o filme é bom o suficiente pra permitir muitas interpretações e metáforas. E nada político. A natureza humana é dissecada da forma mais niilista e chocante que eu já vi. Nesse filme, dignidade é para os fracos. Naturalmente, sempre haverá aquela galerinha politicamente correta acusando seu filme de mera coletânea de aberrações. Mas isso até filmes de matinê como Laranja mecânica são alvos. E aqui reside a magia do cinema arte: este não se preocupa em agradar o grande público; ele antes o desafia, o choca, o faz rever alguns de seus conceitos. Enfim, o arranca de sua zona de conforto moral e ética e propõe um ensaio que nem todos estão dispostos a fazer. No mínimo, uma sátira à roupagem pop banalizadora com que o cinema costuma dar à violência.

Algumas dicas para o futuro:
_ Sweet movie: enredo surrealista que preciso conferir num futuro próximo.
_ Pink flamingos: esse aqui é o queridinho de alguns críticos de cinema, que gostam de citá-lo de forma meio didática quando eles se propoem a realizar listas.
_ Garganta profunda e Atrás da porta verde: esses dois menciono mais por serem precursores da bilionária indústria do sexo de hoje em dia. Filmes que, acreditem, tinham roteiro, apesar de o grande tema ser o bom e velho sexo. Esses são difíceis de achar. Não que os outros não sejam, mas estes são o tipo de filme do qual você mais vai ouvir falar do que assistir. O cinema buscava se reinventar, já que a indústria saía dos anos 60 meio desgastada, e com sua viabilidade comercial para o grande público ameaçada. Não à toa, Tubarão é dessa época; Spielberg, para o bem ou para o mal, começava a relembrar os empresários do ramo que era possível contar histórias acessíveis ao povão e ganhar dinheiro com isso. Dito isso, quer linguagem mais universal que... pois é.


Ou seja, aquele lance de 'expandir a mente' e tals foi levado a cabo aqui. Metáforas grotescas foram elaboradas sem dó. Ditaduras mundo afora só deixavam a parada mais divertida, dando status de cult e subversivo a qualquer merda produzida no exterior. Num contexto de guerra fria em que regimes totalitários eram como figurinhas de bafo nas mãos de superpotências, o terreno era muito fértil para a contracultura. Não importa o que você fizesse: se contestasse, independente do grau de ingenuidade, o "sistema", tava valendo.