terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Shalalalala...

Certa vez perguntei a um amigo músico o porquê de ter tanta música nesse mundo com chalalalala (os indies, aqueles roqueiros de guitarras adocicadas e letras de mulherzinha adoram um chalalalala), ieiei, uouou e outros insumos fonéticos sem sentido. Ele não tinha uma resposta precisa, mas afirmou, na opinião dele, que muita gente usa isso pra encher lingüiça, mesmo. Eu acrescentei à minha dúvida se não havia algum motivo de ordem mais subjetiva, relacionado à alguma influência no cérebro que esses tipos de som possam ter no ouvinte (seja subliminarmente, seja para assimilação), mas ele não avançou muito nesse ponto que eu levantei. Creio que seja possível, minha hipótese. Talvez esses sons sejam usados também quando a métrica ou a veia poética do compositor falha e ele precisa transmitir algum tipo de sentimento em sua letra. Sons vocálicos, cuja sonoridade de uma vogal é sempre próxima de outra em encontros vocálicos, devem também funcionar como ponte entre partes diferentes da música.


Post pra ler ao som de Shalala Lala dos Vengaboys, só pra ilustrar o embromation fonético que a indústria phonographica a-do-ra!
(sim, isso foi uma ironia)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Mínimas diferenças

James Redfield não é James Hetfield. Afinal de contas, new wave tried to kill the metal. But they failed!!! (Tenacious D)

Marco Uchôa não é Marcos Uchôa. São farinha do mesmo saco, mas um já foi pro saco.

Vida louca não é vidaloka. Na época do Cazuza não existia miguxês. Na do hip-hop mainstream, sim.

Juliana Paes não é Julia Paes. Uma fez teste do sofá, a outra não se limita a móveis para seus testes...

Daniela Cicarelli e sex on the beach não são a mesma coisa. Uma você só bebe; a outra, o Ronaldo já pirocou. Pelo menos essa é XX. Fazendo XXX com ele à milanesa...

Gozar, gozar e gozar não são a mesma coisa. Eu fui adolescente na época em que ainda não eram. Mas as pessoas se esqueceram disso hoje em dia. Portanto, crianças, não gozem de nada nem de alguém. Em alguém, só com camisinha...

Eric Johnson não é Eri Johnson. Um está no Guitar hero; o outro, na geladeira da Grobo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Personalidade grampeada

Se pensássemos nos elementos de nossa índole como a uma agência secreta, a esperança seria como aquele agente duplo que simula a própria morte pra evitar ser capturado numa perseguição da qual não pode escapar. A teimosia, aquele agente de fidelidade canina à Inteligência que realiza coisas alheias a seus valores. A rejeição, aquele outro tipo de agente que já inicia discussões para troca de prisineiros sem sequer pisar em território estrangeiro e obter informações vitais. A raiva, o chefe que observa os desmandos da política externa de seu país e ainda vocifera, no auge de seu esforço em não enxergar o peso de suas decisões, quando algo dá errado. A imprudência, aquele agente cabeça-quente que não gosta de regras e só consegue pegar o terrorista malvado quando é desligado duma missão.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Bloco de notas (XII)

A informática é uma das profissões mais paradoxais que eu já vi. Você é valorizado por tarefas simples, mas radicalmente subestimado por tarefas complexas. Para as pessoas, é um serviço de utilidade pública você configurar a rede de seus computadores infestados de vírus pra eles poderes usar Msn, e uma total trivialidade desenvolver um sistema e implantá-lo numa empresa. Por isso que larguei mão de seguir carreira nisso. Se vou ser incompetente em algo, quero ao menos sê-lo por méritos próprios, e não pelos da máquina.

Perfeição é algo tão intangível que não passa de um conceito. Não é nada concreto nem fixo. É só uma idealização, no final das contas. Amostra dessa mania nossa de querer ranquear tudo nessa vida...

Amor é como ouvir os seus direitos ao ser preso em flagrante: você tem o direito de permanecer calado e tudo que disser poderá ser usado contra você.

Palavras que aprendi com o pai:
_ Interoposição;
_ Nequícia;
_ Zimbrar;
_ Subenfiteuticar;
_ Esborcinar;
_ Buduna;
_ Béguin;
_ Letomania;
_ Perissologia;
_ Persolver;
_ Ricto

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Sem lenço e sem documento...

Alegria, alegria
Composição: Caetano Veloso

Caminhando contra o vento

Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...


Essa música me acomete de uma estranha nostalgia. Não era tão fã assim da minissérie com essa música como tema nem sou tão fã assim do Caetano, apesar de admitir que o homem tem lá sua veia artística para compor. Mas poesia é a arte de jogar verde, e por isso desconsidero o Caetano pessoa; prefiro me focar apenas no artista (de outrora, diga-se de passagem). Melodia que me remete a juventude perdida, a ideais esfarelados e a uma forma apolínea de seguir pela vida. Enfim, daquelas letras que expressam com fidelidade a mentalidade rasa e egoísta, mas muito valiosa e necessária, de quem foi jovem de verdade um dia. Jovem o suficiente pra incomodar aos a seu redor com as bobagens que idealizava.
Jovem o suficiente pra achar que auto-afirmação está nas coisas. Jovem o suficiente pra não conseguir rir de si mesmo. Pra achar que não há escolhas. Pra achar que ideologias são dogmas. Pois é: essa é daquele tipo de letra tocante que apenas épocas de cerceamento de liberdades consegue produzir. É apenas quando temos privilégios ameaçados que aprendemos a extrair o máximo de lirismo deles. Que não precisemos envelhecer demais pra perceber que os ridículos da mocidade são os louros da velhice...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vozes femininas

Sabe, uma sina minha -- que pelo jeito me acompanhará pra sempre --, é a de sempre ter mulheres demais ao redor (é sina quando poucas delas são de sua idade). Fiz uma faculdade majoritariamente frequentada por elas, a falta de paciência pra me misturar entre os confrades (no ensino médio) por meio de trocadilhos me fez andar mais com elas e trabalho num local em que 3/4 do pessoal usa calcinhas. Consequência desse convívio excessivo com estrógeno: parece cada vez mais chato sair com amigos homens. Nas cervejadas, só rola conversas de um contando vantagem sobre o time do outro, alguém contando sobre suas peguetes e mais alguém conversando sobre o carro novo do Fulano ou a nova placamãe (essa obsesão fálica dos filologistas por hífens nos manterá pra sempre na dúvida sobre a necessidade dele) que comprou pro computador (nerds também bebem, fazer o quê). Essa preterência minha (gostei desse meu neologismo) não se deve ao fato de ser mais fácil expor sua introspecção por meio de uma amizade colorida, nem de ser mais divertido falar mal dos outros assim. Deve-se à margem ao silêncio eloquente que uma companhia XX permite. Que pode se transformar em silêncio constrangedor, mas isso pode ser evitado com uma menina que fale o suficiente pra que ela não consiga perceber que apenas ela fala. Voltando ao raciocínio, as pessoas só ouvem o que querem e ainda por cima não sabem ouvir. Elevem isso à n potência num representante da espécie cuja natureza foi criada para querer sempre se sentir especial, dar mais importância que o necessário ao que sente e achar que idealizar é uma obrigação. Pois é. Mas você, mancebo que precisa de vez em quando espairecer e quer sair com uma amiga mas está com o saco cheio demais pra querer se dar bem com ela, precisa se atentar para um importante detalhe para que a presença dela se torne agradável ou, ao menos, suportável: a voz dela. Delonguemo-nos para externar o porquê de minha colocação.

Levando em conta que qualquer mulher fala, em média, pelo menos o dobro que você, convém que ela tenha uma voz agradável. Nem muito aguda, nem muito grave. Eu que o diga no campo profissional: minha chefe adora reuniões. Encontros de meia hora pulam rapidamente pra duas. Com ela praticamente falando sozinha! Imagine então no campo pessoal. Com isso, é importante observar se a voz de sua companhia é aguda o suficiente pra sua cabeça começar a doer durante uma longa exposição, ou se é grave o bastante pra arruinar qualquer tipo de atmosfera a que você se proponha ao vê-la. Outros pontos cruciais são tom de voz e rapidez da fala. Excessos indicam pessoas nervosas. Voz alta demais, rápida demais indica pessoas que não estão dispostas a deixar ninguém falar mais que elas. Nem toda conversa é um debate entre políticos, mas são raras as meninas com essa dosagem. Voz baixa demais e lenta demais indicam pessoas desinteressantes, de personalidade apagada, com pouco a oferecer para que a presença dela lhe desperte vontade de vê-la novamente. E isso não ocorre porque a pessoa é trivial demais: ocorre porque a menina não caga. Pensa mais no que a pessoa vai pensar dela do que efetivamente poderia dizer. Do tipo que acha a espontaneidade algo vulgar (a elite chinesa anterior ao século XX considerava, mas um povo que cospe no chão até hoje não merece ser levado em conta nesse ponto). Quando nenhum desses quesitos condena a mulher, observe os tons que voz que conotam a personalidade dela. Me refiro a: voz de coitada, voz de adolescente, voz de filha única, voz de mãe, voz de frígida, voz de orgasmo, voz de dissimulação (essa mais difícil de se distinguir), voz de introspecção, voz de distância, voz de bem com a vida, voz de surtada, voz de volúvel, voz de mulher brava... eu, pelo menos, abomino mulher que rosna! Sinal de agressividade que em nada combina com o sexo feminino. Há quem goste, mas o mundo tá cheio de heróis dispostos a copular com mulheres fora de cogitação pra pessoas normais.

Seguindo em frente, temos também a questão da maturidade da fala. Não sou chegado em Marílias Gabrielas, mas pra mim é tão sexy uma voz feminina madura. Aquela tonalidade que denota uma vida bem vivida, com experiências necessárias à verdadeira sabedoria e a uma personalidade interessante (isso, claro, antes da menopausa, quando a voz começa a ficar cansada e tals). Já vi meninas de 18 anos com uma maturidade na voz que assusta falando "ai, miga, acredita que vi o Fulano no shopping com a vaca da Sicrana?". Pois é. Hormônios não contam aqui. Só o tempo. A voz madura traz tudo que há de bom numa fala feminina. O tom correto, um equilíbrio entre o agudo e o grave, harmonia entre a quantia de palavras usada e a velocidade em externá-las. Tudo isso me deixa doidinho. Felizmente essa parada de mulher mais velha balançando suas dobrinhas em contato com carne jovem (no popular: sendo pirocada) é bobagem de novela das oito. Tem coisas que prefiro só observar. Como coisas bonitas em relacionamentos alheios que se repara rapidamente: quer saber o quanto foi necessário para se atingir aquele ponto? Ninguém quer. Outros detalhes: sotaque é algo muito variável; difícil aprovar ou condenar sumariamente. Linguagem, não: palavrões, arroubos adolescentes em gírias e internas em excesso não dá! Justamente o que há de mais legal numa conversa é o que se tem a dizer, e não os elementos que se usa para enfatizar. A subjetividade reina nos discursos das mulheres, e tentar negar isso com os vícios supracitados causa um contraste que me desagrada. Nós conversamos apenas com a boca; elas, com os olhos, as mãos, os decotes... tudo depende do quão respeitada ela deseja ser.

A questão da risada é outro ponto muito importante. Algumas alegram o espírito, outras simplesmente broxam. Vejam a Ana Paula Arósio: aquela risada horrível arruina o conjunto da obra. É mister observar se a risada é nervosa, espontânea, exagerada, alta, compulsiva, gostosa, engraçadinha ou contida. Dá pra observar coisas mil com isso. E mais: a freqüência com que ela ri de suas bobagens. Mulher que ri por qualquer coisa merece atenção redobrada: meninas assim acham tudo muito gozado. Se é que você me entende. As que riem demais querem chamar a atenção: demarcar território, mostrar a algum ex que estão melhores sem ele, ou apenas provocar. As que riem de menos possuem decerto um universo afetivo que muitas vezes vale a pena desbravar. Não que você precise chafurdar no melodrama alheio, mas descobrir pessoas com formas menos fúteis de sentir é sempre válido.

E o assunto das conversas, você se pergunta? Cuidado: as mulheres fazem uma associação perigosa entre uma boa conversa e a personalidade da pessoa. Não à toa, são seres mais sensoriais que visuais. Uma sacanagem bem dita ao pé do ouvido funciona melhor do que uma bola de meia no saco (ou uma Ferrari, caso você tenha dinheiro). Não que homens acabem não sendo assim: a diferença é que eles são mais objetivos e tem (sim, o acôrdo ortográphico matou o acento diferencial também) menos a dizer, portanto isso só se torna um agravante se estivermos falando de um nerd virgem qualquer que acredita piamente em tudo que sua amiguinha biscate diz, a respeita mais do que ela merece e não percebe indiretas por nada. De novo voltando ao raciocínio, é difícil evitar trivialidades numa conversa, porque isso é um elemento que independe de quanto tempo você conheça a pessoa. Portanto, sempre memorize algumas frases espirituosas pra rapidamente despistar o assunto lugar-comum. Não se impressione com opiniões nem com quantos livros ela leu: ninguém tira as calças por causa disso, mesmo não sendo essa sua intenção. Gostos pessoais não são monumentos. Apenas elementos da personalidade. Afinal de contas, você não a convidará pra sair pra falar algo que necessariamente se aproveite (ela não vai te ouvir, não se esqueça disso; também não se esqueça de que a recíproca é verdadeira a maior parte do tempo, quer você queira ou não). Vai sair pra se divertir, correto? Então, além de frases eficientes pra se direcionar o rumo de uma conversa, prepare também perguntas vagas o suficiente pra fingir (se necessário) interesse. O objetivo de conversas assim não é fazer um simpósio ou uma mesa-redonda, é apenas se conhecer melhor. Então, considere tudo o que você diz como amostras grátis de quem você é. Você é o que você come, e não o que fala.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Harry Potter de cu é rola

Não fui uma criança de cultivar fantasias. Eu, por exemplo, nunca consegui assistir A história sem fim até o fim na tevê. Fui daquelas crianças que cultivava ideais. Princípios de caráter que eu julgava não existir apenas em filmes. Eu cultivava ideais de heroísmo, de amor romântico, de amor filial, de desapego a coisas materiais... eu gostava de pensar que, por trás da forma como as pessoas viviam, de forma superficial e com orgulhos, havia uma beleza magnética na essência desses princípios (presente em tudo que se fazia, julgava eu) que sempre valia a pena buscar. Filmes não me emocionavam porque não via neles projeções enfeitadas do que eu observava na realidade. Via enfeites de caráter que eu queria ostentar para sempre. Semana passada me disseram que preciso parar com essa mania de querer adaptar o mundo a mim. Mas é tão bacana construir monumentos, calcando-os com nuvens e com os caprichos e rituais de seu coração, que freqüentemente desisto de seguir essa sugestão. Não me entendam como um hedonista cujo vício pela liberdade me destitua de qualquer capacidade de gerir a própria vida, mas é que acredito que precisamos saber sorrir ante nossas fantasias quando ninguém nos vê. E fazer-lhe careta quando alguém aparece. Isso, meus caros, película alguma com animação 3D faz por nós. Quando a beleza e a paixão vivem de aluguel em seu S2, eles não perdem tempo descendo à locadora mais próxima pra alugar algum filme tolo com mais uma metáfora sobre alguma história arquetípica já gasta. Eles fazem a história. Em sua imaginação. Sem atores, sem cenários. Apenas com o calor de suas abstrações e essa incansável pesquisa sensorial que fazemos mundo afora. Às vezes a visão pode ser o mais vulgar dos sentidos...