quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Jargões do cinema

As palavras mais usadas no cinema estadunidense, aquele cheio de explosões, gente bonita e efeitos especiais.

National security: no mundo construído pelas câmeras de Hollywood, tudo ameaça a segurança. Desde aparições de supostos OVNIs até o alvejante que você usa pra lavar suas cuecas. É quase um mantra, que justifica tudo: roubar carros de cidadãos de bem durante perseguições policiais, dilapidar patrimônio alheio, torturar de leve o vizinho de baixo... o céu é o limite para eles. E mesmo assim... vai que o filme seja sobre uma expedição espacial com a missão de destruir um asteróide em rota de colisão com a terra, ou simplesmente combater ETs maus antes que eles coloquem seus tentáculos viscosos em solo terrestre. Pois é.

Are you hitting on me
, Is this a date e variantes: isso dá uma amostra do quão recalcada é a sociedade dessa gentezinha, que considera flerte um mero esbarrar na rua ou um cisco no olho. Eles praticamente exigem a assinatura de um contrato pra estabelecer se estão num encontro amoroso ou não. Uma garantia de que a garota não vai tentar processá-lo por assédio. Sem falar que os xavecos são sempre metalinguísticos demais e cheios de ganchos, recursos de retórica para amaciar um possível fora. Fala sério, tem coisas que a gente não fala, faz. Povinho frustrado. Comece a contar nos dedos quantos filmes teen você já viu que um loser qualquer tenta se dar bem com uma garota levando-a a um encontro com uma escuta telefônica, sendo guiado por um amiguinho com maior desenvoltura com o sexo oposto. Escondido dentro duma van, como se fosse uma missão de espionagem. Então. Essas cenas de comédias românticas não são engraçadas, são simplesmente tristes.

I think I'm gonna throw up
: esse pessoal vive numa terra sem bailes funk, música sertaneja, Faustão, livros do Paulo Coelho, Renato Aragão, José Sarney, blogs como o Kibeloco, atrizes no ostracismo que entram pro pornô, Rio Grande do Sul, Tom Cavalcante, e ainda se sentem nauseabundos com qualqur merda que acontece em seus filmezinhos medíocres? Fala sério, se a náusea for gerada por gente como Meg Ryan, Eddie Murphy ou Renée Zellwegger eu até alivio. Mas raramente é o caso.

F*ck
: conveniente palavrinha usada pra tapar os inúmeros buracos dos diálogos dos filmes de guerra. Quando falar ideias pro roteiro, coloque uma meia dúzia de machos na tela soltando palavrões a torto e a direita. E, claro, sempre com aquela panca de esperto, de quem já nasceu pronto. É como se fosse nosso famoso blablabla, ou como o yada yada yada de Seinfeld: é um recurso linguístico que presume um discurso genérico, cuja função é mais externar o humor do personagem do que ter algo a dizer. Os homens das cavernas se limitavam a rosnar e se saíam melhor. Por outro lado, quando não usado em filmes de guerra, esse termo é útil para conotar pessoas à margem de convenções sociais, descoladas e criativas. Mas só pra conotar, mesmo.

Mr. President
: momento em que é inegável o imperialismo do país da única indústria cinematográfica do mundo. O mandatário da nação é, literalmente, tratado como um imperador. Suas vontades são absolutas e, vai saber porque, sempre fica em seu poder os códigos dos arsenais nucleares. O engravatado mal sabe o que come no café da manhã, vai ele saber como manejar adequadamente tal poder de fogo? É como dar uma AK-47 a um adolescente. Imagina a diversão que vai ser ele ir à escola com uma. Pensem comigo, nos filmes nunca se fala da ONU. É como se o presidente deles fosse uma espécie de xerife desse faroeste chamado de comunidade internacional.

I love you
: taí um termo que virou bom dia nos filmes. Não importa quanta merda eu faça entre o início e o fim de uma história, se eu fizer uma loucura pirotécnica o bastante pra comover minha amada, vai ficar tudo bem. Nos filmes o amor é uma espécie de pique, como nas brincadeiras infantis. Quem chega no ponto combinado antes da outra criança não pode ser pega. Caraca, tô ficando velho mess; precisei recorrer à Wikipedia pra me lembrar do termo 'pique'. Wikipédia é meu pastor; mais tarde vou pesquisar o que é 'vida real' lá. =p

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Jovens, este é o último texto do ano. Confesso que os últimos três meses foram quase parando aqui. Mas foi melhor assim; jogar aqui textos medíocres seria ridículo. Talvez adote como resolução para 2010 atualizar mais essa bagaça. Eu disse talvez. Em todo caso, feliz ano novo a todos. E lembrem-se, o que acontecer em 2009 fica em 2009. Então encham a cara, passem vergonha e mandem alguém à merda. Usemos os últimos dias sugerindo que faremos diferente nos próximos 365. Assim seja. Fui...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Bloco de notas (XIII)

Estado civil de Edney Silvestre, segundo a Contigo (na mesa da sala): semissolteiro! Todo artista parece ter saído duma novela do Manoel Carlos, hoje em dia (sorrisos de paisagem, vidas medíocres folhetinadas em tabloides e algum projeto pessoal que não interessa a ninguém). Inclusive os ex-grobo. Tirando as tendências homossexuais/suicidas e o senso de ridículo destes últimos, claro.

8 de dezembro é, por incrível que pareça, o feriado do qual ninguém se lembra. Já aconteceu de eu ir ao trabalho só pra descobrir, por meio do chefe e uma hora depois, que ninguém mais viria, presumindo ponto facultativo. Peculiar, isso. Pelo fato de se tratar de um feriado religioso, católico, e por se tratar de um feriado, uai. No país cujo excesso deles até originou aquela lei forçando feriados sempre às segundas para evitar emendas. Pra gente ver a força do natal (não o que ele realmente significa, mas o que o comércio quer que ele signifique) faz com os costumes. Lembram da Consciência Negra (feriado (sic) forçado goela abaixo para nós) mas não do dia da Bandeira. O Brasil não é um país sério...

Desde o começo do ano comento aqui que 2009 tem sido o mais inusitado dos anos. A maior prova disso foi a última rodada do Brasileirão: todo mundo preferia o hexa do Flamengo! Um verdadeiro parto, esse título: os são-paulinos precisaram de bem menos que os dezessete anos da nação rubro-negra pra erguer a taça seis vezes. Mais inesperado que isso, só se a reunião dos líderes mundiais em Copenhagem der em alguma coisa.

Esses dias passou na TVE um documentário chamado '3 irmãos de sangue', filme que conta a história de Henfil, Betinho e Chico Mário. Sim, eu ignorava o fato de eles serem irmãos. Aí, com a fantástica transmissão do decano canal, fui tentando assistir a trajetória dos três irmãos e o simbolismo deles na História moderna do Brasil em meio aos chuviscos, que mais pareciam coadjuvantes, dada sua onipresença em minha tela. Bateu uma nostalgia quando um trechinho de vinheta daquela campanha de natal sem fome do Betinho passou. Bateu também certa vergonha por ver como o brasileiro desconhece sua própria história. Achamos que pessoas produtivas para a sociedade só servem pra dar nome de rua. Como é fácil enrolar esse povo, pensam as autoridades. Viver num país em que os vetores de nossa cultura são estranhos a nós mesmos, tão habituados a influências estrangeiras, é triste. Culturalmente falando: se nosso país, entre os emergentes, fosse uma banda popular qualquer, decertos seríamos George Harrison: o que tem som, mas ao qual só é dado o ostracismo.


A doutrina Monroe é levada à risca no Direito há séculos e ninguém fala nada. Afinal de contas, é mais fácil domesticar a turba quando falamos que o fato de enriquecermos à custa de sua pobreza e alienação constitui em efeitos ex nunc do que darmos educação a eles. Deixemos eles apinhados em favelas perpetuando a desigualdade social com o pó que a gente consome, pensam as elites. Essa herança histórica que não tem nada a ver com a gente é ex tunc mesmo...

A geração anime conseguiu deixar brega um dos mais sofisticados seres lendários consagrados no auge do ultrarromantismo do século XIX: o vampiro. Aquele vampiro ao qual estávamos acostumados, que vivia num castelo, tinha excelente dicção, se vestia muito bem, entendia de literatura, sempre dava uma boa ambientação pra histórias de suspense e só saía de casa à noite (hábitos diurnos, faça-me o favo-or) foi demolido pela nova franquia hollywoodiana feita pra ganhar dinheiro em cima do público feminino: falo da saga Crepúsculo. Saga esta que profanou o lendário personagem fazendo com que agora nem a luz do sol, nem alho ou símbolos religiosos o afetem, que tenha superpoderes, tenha cara de anêmico e tenha vilões que mais parecem pokémons, transformando-se em lobisomens e tals. Fariseus!!!

Meu fim de ano será mais feliz: Flavia Alessandra pra Playboy. Meu S2 sempre terá um lugar especial pras morenas, mas às vezes, humildemente, preciso fazer algumas concessões. Como vilã de novela das seis, como mocinha da das sete, Flavia é tudo de bom, com sua voz levemente rouca e um corpo de parar o trânsito. Enfim, mais uma pra listas das mulheres que vou morrer na vontade. Juliana Paes e Deborah Secco, duas atrizes que só lembro que ainda existem por causa de seus ensaios na supracitada revista, também tem um espaço em minha memória. Outro dia faço um post com mais testosterona e relaciono algumas musas de meu gosto pessoal.

Estava pensando, esta seção do site às vezes funciona como a um rascunho daquelas piadinhas manjadas de stand up, que de tão exploradas pela nova geração trazendo a novidade a palcos de todo o Brasil-il, começou a ficar manjada. Hermes e Renato explicam isso beeem melhor por meio de Dudu Marchioli, comediante fictício que ironiza a atual geração stand up. Ou seja, old school mostrando como é que faz. Recomendo o vídeo. Você se pergunta, como funciona o humor stand up? Funciona assim: você pega uma situação cotidiana, reflete com certa rabugice sobre algum detalhe irrelevante, e conduz esse detalhe, por meio de um silogismo vagabundo, a uma situação nonsense. Se tiver cunho sexual, melhor ainda. Faça isso por 90 minutos e você será ovacionado por plateias fáceis de fazer rir país afora. Mas porque o Bloco de notas (daqui do site, não o da Maicrossóftio) funciona como a um rascunho de stand up, você se pergunta. Pelo simples fato de que aqui ficam as reflexões as quais não me delongo o bastante pra fazer um texto relevante nem me dou ao trabalho de constrangê-los com uma pífia tentativa minha de fazer humor. Até porque pra mim o humor de verdade é aquele que vem sem avisar, e isso é raríssimo acontecer (como gordinhas de biquíni que entalam em trampolins nas videocassetadas, em vez daqueles diálogos forçados e sem naturalidade de algumas comédias). Principalmente em atrações que se firmam como comédias. Ou talvez eu seja apenas rabugento, mesmo...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Segregação genética

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.

Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.

A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.

Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.


Esse texto, escrito no Polegar opositor, me fez lembrar de Gattaca, um dos meus filmes de ficção científica favoritos. É dos meus favoritos porque fala de temas universais sem ficar fazendo futurologia demais nos cenários e nas locações. Sem falar da atmosfera meio anos 50 das locações e dos ângulos de câmera usados, numa inesperada mistura de passado com futuro. Como na tagline do filme, "Não existe gene para o espírito humano". É uma história que me agrada em particular porque não usa os avanços da ciência per se como bode expiatório de um possível futuro pós-apocalíptico o bastante pra justificar a pirotecnia habitual dos filmes-pipoca de Hollywood. Aqui, o vilão é a consciência humana. A mentalidade de uma sociedade que agora se segrega não por raças ou credos, mas por caracteres genéticos. Aqui a desculpinha de a tecnologia se voltando contra a humanidade não cola, e é bom ver que alguns filmes ainda são feitos com essa maturidade.

sábado, 21 de novembro de 2009

Cortesia


O Tumblr está quaaaaaase me convencendo a criar uma conta lá e desistir dessa mídia pedante dos blogs. Meter um monte de imagens conceituais e algumas referências pop sem ter que pensar em nada pra escrever, quem precisa fazer mais do que isso na Internet hoje em dia? =p

Sim, eu sou um fraco.

P.S.: versão em português desse cartão aqui.
P.P.S.: devia mandar imprimir alguns desse pra toda vez que um idiota vier falar comigo...

domingo, 15 de novembro de 2009

Chatice

Chatice provê imunidade? Estes dias estava a divagar sobre isso durante um jogo na TV. Estava conversando com o irmão quando ele sugeriu que a chatice ajudava as pessoas a adoecerem menos, e mencionou como as pessoas legais sempre morriam cedo. Do lado dos chatos, mencionou Galvão Bueno; do dos legais, dispensa exemplos (escolha você um). E não, Tadeu Schmidt não é um exemplo de cara legal. É como se olhar apenas pro próprio umbigo, violar ouvidos alheios com obviedades e lambuzar gente famosa com lisonjas escarradas fizesse algum tipo de bem ao organismo. Talvez retarde o envelhecimento, vá saber. Ou talvez a falta de noção e de senso de ridículo traga algum equilibrio de substâncias no cérebro atípico em pessoas minimamente suportáveis. Ou então apenas o apelo popular desses purgantes lhes garanta afinidade com o público e lhes garanta mordomias que, por si só, lhes traga maior longevidade. Sei lá, um dia ainda vai aparecer nos noticiários alguma notícia inútil do tipo 'cientistas britânicos descobrem que o gene da chatice proporciona maior longevidade às pessoas, além de reduzir em 50% as chances de câncer de colo do útero e em 30% as chances de se desenvolver síndrome de Tourette'.

A poprósito, vou testar essa teoria minha da chatice e terminarei este post com este excerto enfadonho e inútil. Pois bem. Ontem foi um dia bem monótono: vi alguns filmes, comi besteira e li alguns feeds no Google reader enquanto tentava fazer alguma coisa com minha minguada vida social. Zapeando por alguns canais depois de ficar sem ideias de como me distrair, percebo que um filme dito cult acaba de começar: 9 canções. Tinha ouvido falar deste filme nas horas e horas que fico a clicar nos links de filmes relacionados do IMDb. Pensei com meus botões, 'legal, deve ser daqueles filmes meio indie, falando um pouco da cena rock alternativa inglesa ou algo assim, com uma meia dúzia de diálogos espirituosos, mulheres meio baranguinhas e cenas gratuitas de sexo'. Só errei o primeiro item da frase anterior; pouco se aproveitava da película. E por 'pouco', não me refiro à cena em que a mulher masturba o cara com os pés, na banheira. Ou quando ela recebe sexo oral em cima da mesa de seu apê. O fato é que a história se desenrola contando um encontro amoroso de duas pessoas que se encontram num festival de rock, sendo que, a cada música que a banda (medíocre, por sinal) toca entremeia uma crescente intimidade entre os dois. Desculpa pra se fazer um filme com cenas de sexo em excesso? Pode ser, mas seria leviano generalizar isso. 'Na cama', filme chileno de 2005, por exemplo, é mil vezes melhor. E tem bastante nudez. Mas os diálogos são bem sacados, os dois protagonistas tem lá sua profundidade, e a trama é interessante o bastante para afastar a sensação de claustrofobia de se assistir um filme que se passa todo em um quarto de motel. Aliás, já falei pra vocês como Telecine mudou minha vida (tática fantástica pra se parecer -- ou ser -- chato: falar em excesso sobre si mesmo; aprendam, gafanhotos)? Sim sim. O pacote é bem mais barato que o da HBO e a oferta de filmes é mais interessante. Enquanto a HBO se gaba de exclusividade com filmes recordistas de bilheteria e séries que ninguém assiste exatamente por causa dessa maldita exclusividade, o Telecine proiriza antes a qualidade. Não é à toa que entro no site da rede umas duas ou três vezes por semana pra conferir a programação, além de ler o Cultblog do Janot. Esse cara fala de cinema de forma acessível e não-pedante. Coisa que o Rubens Ewald Filho nunca conseguirá fazer, com seu visual de diretor frustrado. Será que a HBO ainda perde tempo contratando-o pra aquele quadro de meia hora que passa antes de suas estreias? Pouco me importa; fico com Janot. Chegando até este ponto do texto, começo a me lembrar porque abandonei a tendência diarinho que eu tinha no passado de falar sobre meu cotidiano. Antes era porque meu cotidiano era incrivelmente chato; agora, é porque quase todas as pessoas que fazem parte dele o são. Ou talvez seja apenas eu. Em todo caso, a ordem dos fatores não altera o produto, não é mesmo? Se eu tivesse filhos começaria a falar deles só pro texto ficar definitivamente insuportável, mas serei benevolente com vocês e encerrarei meus profílicos e vãos dizeres por aqui. E isso porque apenas desfiei aqui uma pseudo crítica sobre alguns filmes metidos a besta que andei vendo nos últimos tempos. O que me leva a cogitar a um dia fazer um blog pra relacionar os filmes que já vi e destilar toda minha pedância pros poucos incautos que se atreverem a ler as palavras desnecessárias que (não) tenho a dizer. Com minha média atual (2,5/semana), não faltará material; só faltará vontade para isso, mesmo. E know-how.


...

Se continuar terminando meus textos assim, acho que vou viver para sempre.

domingo, 8 de novembro de 2009

Burburinho

[curso de gestão do tempo. O professor dá um exemplo de pessoas difíceis]
_ Lá no meu setor, teve uma vez que chegou um aluno para falar com uma funcionária. Ele disse: --Moça, o equipamento tá com problema. -- O que tá com problema é isso que você tem entre as pernas --, ela responde.
[mulher ao lado comenta comigo]
_ Puxa, que mulher frustrada. Você já teve esse tipo de problema?
_ Não, o meu sempre funcionou direitinho.

[mostrando a barriga pelada pra mim]
_ Eu tô te falando, as mulheres preferem um cara depilado, lisinho.
_ Certeza que elas preferem esse filete de gordura que você chama de barriga. Sou mais meu abdômen viril e cabeludo.
_ Cara, depila essa coisa nojenta. Porra, olha quanta sujeira que esse trem deve acumular.
_ Dá um tempo, a natureza me fez com pêlos para o corpo ter uma forma de deter microorganismos invasores.
_ A mulherada não gosta, elas vão ficar com nojo.
_ Elas nunca reclamaram comigo. E mais: depilar a virilha é coisa de ator ponô, meu. Fica nessa pra você ver...
[assistindo Tv acompanhado desse interlocutor. Matéria do CQC sobre Dita von Teese. Cara, que mulher...]
_ Dita, vou usar suas dicas e fazer um strip pra você. [vai fazendo o strip] Repara não que eu sou meio cabeludo, tipo o Tony Ramos.
_ Sem problema, eu adoro homens de verdade.
[réplica a meu intelrocutor]
_ Se a Dita falou, tá falado.

Vem cá, qual o nome daquela atriz que namorou o presidente americano, o Kennedy?
_ Ah, é a Marylin.
_ E quem é essa atriz que aparece atrás dessa montagem nessa sua foto de formatura?
_ É a Grace Kelly.
_ Não, não é ela.
_ Claro que é, uai.
_ Não, você está confundindo o nome com aquele da dança da chuva.
_ Gene Kelly? Meu deus, não ouvi essa.
_ Então, não é ela a Gene Kelly?
_ Cara, essa foi pior que a maçã elétrica.*


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* Essa estava em meu blog anterior, mas foi tão surreal e antológica que merece um repeteco. Segue a cena abaixo:

_ Que raio de filme é esse? Desde quando alguém perde tempo na poeira das prateleiras de VHS alugando maçã elétrica?
_ É laranja mecânica, ô cabeça!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A realidade sempre supera a ficção

"Homem é assassinado a tiros e com uma cruz cravada na boca nesta madrugada"
de TV CENTRO AMÉRICA

Dois assassinatos e uma tentativa de homicídio foram registrados entre a noite de quinta-feira e a madrugada desta sexta-feira em Várzea Grande. No bairro Mapim, um homem foi morto a tiros dentro do banheiro de uma lanchonete. A vítima foi identificada pela polícia como Natal Estevão Roz.

E a polícia está neste momento no cemitério Parque do Lago, onde um homem foi morto a tiros e com uma cruz cravada na boca e outro foi baleado. O homem baleado, identificado como Júnior Severino da Cruz, foi levado ao Pronto Socorro de Várzea Grande. A Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP) vai investigar os casos.


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Uma cruz cravada na boca... o povão anda assistindo filmes de vampiro demais. Ou isso ou o cara devia ter caninos invejáveis. Um despacho no coração seria o bastante, gente. Mesmo assim, essa nota ainda é menos pirotécnico do que Crepúsculo, aqueeeeeele filme cheio vampiros com carinha de emo saltitando e transformando-se em animais. Pfff...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pequenas verdades

_ Ninguém leva ninguém a sério quando alguém está irritado com algo. Tenha a mais absoluta certeza disso;
_ Você não será ouvido se disser alguma coisa com o coração. Se tem algo dentro dele, não conte a ninguém que o guardou lá;
_ De pé não engravida;
_ Donos de lojas de brinquedos não vão para o céu;
_ Arnaldo Antunes veio ao mundo com erro de fábrica;
_ Cartazes de filmes B são como os filmes por si só: são tão ruins que são bons;
_ Tem pessoas que a gente não conhece ou entende, apenas descobre;
_ Precisamos de regras sociais mais específicas e menos dúbias para o constrangedor ato de se puxar assunto. É chato ver como os outros reagem a essa singela abordagem, achando que se trata de bajulação ou tentativa de dar em cima do sexo oposto;

_ Ortodontistas odeiam adolescentes;
_ Mulheres que se perfumam usando talquinho e alfazema é a coisa mais triste desse mundo. Hmm, já falei isso antes, mas não custa frisar;
_ Contracultura tá virando pop. Ou seja, atrizes pornô dando entrevista no Superpop é só o começo. Um dia a novela das oito será protagonizada por uma delas, escrevam o que digo. Fazendo par romântico com o Kid Bengala;
_ Trabalhar não é ruim. O ruim é ter que trabalhar. (minhas sinceras desculpas a Seu Madruga);
_ Três coisas que levaria pruma ilha deserta: Nicole Kidman, Telecine e um carregamento vitalício de Amendocrem;
_ A palavra 'Educação', na mais profunda de suas raízes etimológicas, deve ter sido um eufemismo para dinheiro no alvorecer da humanidade. Seja qual for o idioma, decerto esta acepção deu uma voltinha no grupo fino-úgrico e uma passada no grupo anglo-saxônico antes de chegar a nós do jeito que chegou;
_ Se tem uma coisa nesse mundo que a criatividade não cai bem é na hora de escolher nome pra filho. Aprendam isso, pais de primeira viagem e casais hollywoodianos que adotam crianças por atacado;
_ Todo mundo gosta de sadomasoquismo;
_ Fotos de gatos com legendas cheias de internetês e corruptelas bizarras sempre são engraçadas. Ou melhor, 'saum ROFL'...;
_ Tetris é o jogo abstrato mais onírico de todos os tempos;
_ Nem as mulheres aguentam sua própria inconstância. E olha que isso já constatei ouvindo de soslaio algumas conversas entre mulheres que passaram da meia idade faz tempo. Isso observado, chega a parecer algo incongruente a homossexualidade feminina ser algo possível (uma aguentando a TPM da outra, a outra esperando a uma se arrumar)...;
_ Renée Zellwegger é uma das atrizes mais broxantes que eu já vi. E ela nem precisou de dezenas de cirurgias plásticas para isso, impressionante;
_ A verdade dói, liberta... mas esquecem de nos dizer que, às vezes, cansa também;
_ Quer estragar um filme? Coloque o Mark Wahlberg ou o Tom Cruise como protagonista. Já imaginaram se Crepúsculo, aqueeeeele filme do vampiro que gosta de pular, que nunca come aquela vadia e que gosta de se transformar em outros animais, fosse estrelado por Mark Wahlberg? Pois é;
_ Helena Bonham-Carter parece um garotinho, mas mesmo assim tem menos cara de paisagem que a Zooey Deschanel. Fato.


Sim, meu humor não está dos melhores hoje. Esse blog tem esse nome por um motivo, sabiam? (nota: atualizações em itálico acima)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Chamadas infelizes de programas de televisão

Músicas que mudaram o mundo: músicas pararam guerras? Derrubaram ditadores? Mudaram hábitos? Salvaram alguém? Então calem-se, redatores medíocres! Música não é um assunto importante. É mera fruição, mero hobby, mero passatempo. Dar importância a ela é tirar a diversão e emoção que ela traz. E isso é desnecessário.

Jornalismo com credibilidade: gente, o jornalismo de hoje considera mais importante o nascimento da filha da Xuxa do que qualquer acordo internacional firmado em toda uma década. E isso porque peguei apenas os anos 90 como referencial. Fala sério. Desde quando a geração que passa mais tempo rindo de gafes jornalistas em sites de vídeo do que consumindo jornalismo de verdade tem condições de se manter informado com um mínimo de credibilidade? Estamos falando do jornalismo que conta com gente como Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor em suas fileiras. E do jornalismo que não exige mais diploma pros profissionais das redações país afora escreverem suas asneiras.

Qualquer uma que conte o que vai acontecer em capítulo de novela: elemento surpresa é um conceito desconhecido entre os autores nacionais. O brasileiro não gosta de ser chocado, e é seguindo esse pensamento recalcado dum país católico demais que a linha editorial age. É por isso que a literatura nacional, antes do século XX (feitas ressalvas óbvias, tá?) é um porre. Em primeiro lugar, por causa do Romantismo tedioso praticado por autores sem tradição literária duma nova nação que ainda buscava identidade cultural. Em segundo, porque ela surgiu de folhetins, e não tinha a menor intenção de realizar experimentações narrativas. Intencionava apenas alienar a elite fútil da época, e isso faziam bem. Emocionar, só preparando o público. Nesse ritmo, os beijos gays jamais sairão dos últimos capítulos de novela...

Só que essa galerinha...: propaganda de filmes são hors concours. Parecem uma mala-direta; você só muda o nome dos personagens e pronto. Não é à toa que aquele vídeo em que um sujeito oleta dezenas de vinhetas da Sessão da tarde contendo a palavra confusão virou febre na internet uns três anos atrás. A parada ficou tão escancarada depois desse vídeo que a Grobo simplesmente baniu a supracitada palavra de suas vinhetas. Hoje em dia acontece de tudo nos filmes pipoca deles, menos confusão. Vou sentir falta dessa palavrinha; até hoje assisto as vinhetas atentando o ouvido pra ver se essa palavra sai. Não adianta, por nada sai.

...num filme indicado ao Oscar: pra que serve o Oscar hoje em dia? Além de sex toy pra Marisa Tomei ou peso de porta pro Peter Jackson, acho que nada. Fala sério, filme bom não precisa usar a merda duma indicação como status. Que lógica mercadológica mais infantil da parte das distribuidoras! Chega a ser uma atitude meio loser da parte delas. É como se elas dissessem pra nós, "olha, nosso filme quase ganhou um prêmio; infelizmente não conseguimos puxar o saco de gente o bastante pra levar o caneco, mas assistam nosso filme mesmo assim, valeu?". Alguém homenageia o Rubinho quando ele deixa o alemão passar ou termina o campeonato em vice porque a escuderia mandou? Então porque fazem isso com filmes? Tománocu...

Hoje, depois do programa tal...: por acaso eu sou obrigado a decorar toda a programação de um canal? Prepotência descarada, isso. A humanidade inventou as horas para isso, pra gente se programar. Quando esse conceito de tempo for substituído pelas novelas da Grobo como referencial para quando alguma coisa começar, me avisem. Até lá, quero mais que seja sodomizado o insolente que me vem com essa forma de divulgar as ditas atrações de um canal...

O clima está esquentando na casa: ah, os reality shows... redundância fazer uma vinheta dessas. Qualquer casa com mais de cinco mulheres confinadas é ambiente propício prum pandemônio. Cinco TPMs, cinco crises de abstinência (de todo tipo), cinco egos femininos sem seus respectivos machos pra aguentar suas reclamações inconsequentes, cinco canais de geração de fofocas... não me espanta que só os homens ganhem essa bagaça. Ficar dois meses coçando os bagos em rede nacional enquanto a emissora pensa em provas idiotas que justifiquem você dar uns pegas nas participantes mais carentes é moleza. Difícil é aguentar as calcinhas penduradas no banheiro...

Acompanhe flashes ao vivo do carnaval nas principais capitais do País: isso, meus caros, é encher linguiça. Se jornalismo de verdade fosse eu ficar me acabando na avenida entrevistando bêbados, ninfomaníacas e tarados país afora, essa decerto seria a profissão mais cobiçada do mundo. Mas não é. E continuam a insultar nossa inteligência durante o começo de cada ano...

Hoje tem programa tal, especial de natal: se alguma coisa acontece todo ano, ela deixa de ser especial exatamente pelo fato de sabermos que vai acontecer, não? A menos que produzam um especial de natal e o exibam em agosto, não há nada de especial nisso, portanto.

Vamos abrir aquele sorrisão, essa galerinha vai tirar todo mundo do sério e variantes: todo programa de humor da TV aberta tem esse complexo de superioridade disfarçado. Eles precisam avisar que estão tentando fazer humor. Como se fosse etiqueta rir de piada ruim. Para esses redatores, falta de etiqueta deve ser rir de piada criativa e sofisticada. Tendo esse fato cá exposto, me espanta como ainda deixam a Fernanda Young escrever pra Grobo. Onde fica a inspiração pra se escrever um programa que será cancelado pela ignorância do público que prefere piadas rasteiras e com trocadilhos infames? Talvez no mesmo lugar que faz o público rir das piadinhas de labareda dos cassetas...

domingo, 11 de outubro de 2009

Duplo sentido em Chaves (III)

_ O que está fazendo, Chaves?
_ Estou caçando incestos.
_ Não se diz incestos, se diz inseptos!
_ Ahhh... então. Eu estou caçando inseptos.

_ Ele tem voz de Cipriano.
_ Voz de soprano.
_ Isso, isso, isso...

_ A Chiquinha não pode ir brincar agora, está na cama com 45.
_ Cabem todos?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Coisas essencialmente bregas

_ Novos ricos;
_ Rappers cujos clipes tem mais mulher do que todas as que você traçou em sua vida juntas;
_ Gírias reducionistas: mara, sensáci...
_ Fotos de formatura cujo uso excessivo de flash mais parece uma mão de cal na cara da pessoa o que uma mera luz projetada em seu rosto;
_ Gente que usa ternos sem gravata;
_ Depoimentos de reality shows;
_ Backing vocal de grupos de pagode (além do grupo em si, claro);
_ Debates em programas de auditório sobre assuntos polêmicos;
_ O arquivo confidencial do Faustão;
_ Entrevistas de jogadores de futebol;
_ Eventos que usam músicas do Kenny G enquanto os convidados não tomam a palavra;
_ Comédias românticas onde os pombinhos só declaram seu amor na cena final quando começa a chover;
_ Qualquer clichê de filme de terror enlatado, a saber: lâmpadas que nunca se acendem, mulheres que passam o fim de semana sozinhas em casa, tombos que nem minha avó levaria, irmão gêmeo morto no parto querendo vingança...
_ Cartazes de filmes cujo fundo é branco: filmes assim nunca prestam. Nunca!
_ Dinâmicas de grupo feitas pra emocionar;
_ Calças com estampas;
_ Canetas com glitter;
_ Propagandas da Colgate;
_ Qualquer ator antes da fama;
_ Strip-teases caseiros no Iutúbe;
_ Programas de namoro na TV;
_ Usuários de caminhonetes 4x4 na cidade;
_ Softcore (de qualquer coisa).

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Confissões de uma memória fotográfica horrível

Voltando do feriado de Independência, enquanto faço check-in de minhas malas, com a possibilidade de acabar ficando no chão por causa duma cagada master da agência de viagens, meu irmão pede para que eu olhe à minha esquerda. 'Olha, é aquela atriz de Confissões de adolescente', diz. Lógico que tento dar uma olhada discreta; era fã da série. Umas seis olhadas discretas depois, acabo me recordando da merda de memória fotográfica que tenho e desisto. E ainda indago sobre a possibilidade de ele estar enganado. Porra, as três irmãs do seriado eram a Deborah Secco (do tempo que ela não tinha bunda o bastante nem pra posar na Capricho), a Paloma Duarte e uma terceira que não me lembro. Depois de muito pensar, ainda pergunto a ele: só pode ser a autora, a Maria Mariana. Não há outra possibilidade. Mas tudo ficou mais embananado ainda quando ele falou que a autora era uma das irmãs. Será?

Só mesmo a tecnologia pra cobrir as lacunas de minha memória televisiva, e lá fui eu. Antes de fazer essa pesquisa, me lembrei duma entrevista que ela deu pra Época, falando do orgulho que tinha de ser mãe, e irritando as feministas com sua opinião sobre o casamento (ao dizer que "Deus quer o homem no leme", frase dita nessa entrevista sob um contexto que a imprensa não estava disposta a expor com a sinceridade devida) e a posição da mulher nele. Uma posição bastante articulada, madura, materna e feminina -- que pensa uma união afetiva como um processo de compleição, e não como a uma zona de conforto feita para esquecermos quem somos, como placebo da solidão --, distante dessa mentalidade competitiva e hedonista que domina as mulheres de nossa geração. A autora possui uma opinião e senso de justiça próprios que por vezes desafiam involuntariamente algumas convenções sociais preguiçosas. Por isso mesmo a pessoa da artista me agrada tanto. Coisa que é raríssimo acontecer (adendo meu: jamais assistam entrevistas de cantores da MPB). Enfim. Fiz a pesquisa e... sim, minha memória fotográfica é uma merda. Paloma Duarte NUNCA atuou na série. Pior: eram QUATRO, e não três irmãs, como imaginava. Que a Maria não leia esses deslizes meus.

O episódio que ficou mais vívido em minha cabeça foi o do primeiro beijo. A forma como a mais introspectiva delas lidou com isso sempre me trouxe certa identificação; até mencionei isso no passado aqui no blog. A rodinha pra beijar que a turma da sala da Deborah Secco fez... e a cena do espelho, lembram? Elas ensaiando nele? Sim, a adolescência é uma época triste. Tudo durante ela parece especial, até nossa falta de dignidade (a presença dela é imaginária, e como vamos rir disso ainda...). Bom, só sei que, uma escala e seis horas de entra-e-sai de avião depois, ao pegar minha bagagem já em casa, nós dois encontramos a mesma menina, que supúnhamos ser a Maria Mariana, pegando sua bagagem. Mas mesmo que eu não tivesse me equivocado, não pediria autógrafo; passo longe desse tipo de tietagem. O valor sentimental do trabalho de um autor passa longe de uma mera amostra de sua caligrafia. Pois é. Aquele narizinho me enganou. O olhar também, talvez. Espero que a polícia nunca precise de mim para realizar um retrato falado. Temo pela pobre alma que pode ver o sol nascer quadrado por causa de mim...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Começo de semana

Boa maneira de começar a semana. Essa folhinha fica bem em frente à minha mesa no trabalho...

Filtro social

Brian Stelter has a great piece in the New York Times that I urge anyone interested in the media business to go and read right now — I’ll wait — and that includes reporters, editors and (most of all) managers, and probably IT departments and designers as well. The context of the piece is political reporting and political news, but I think the points Brian is making are relevant to the entire industry as a whole.

It’s not that there is anything earth-shatteringly new in the piece, mind you. But I think it does a great job of describing how digital “word of mouth” — in other words, social networking of all kinds including Twitter, IM, Facebook and so on — has become a dominant means of news delivery for young people in a way that I’m not sure old geezers like myself quite grasp, no matter how often people describe it (...). As Brian describes it in the story:

In essence, they are replacing the professional filter (reading The Washington Post, clicking on CNN.com) with a social one.

And then Stelter mentions Jane Buckingham of the Intelligence Group, a market research company, and says that during a focus group, one of the subjects — a college student — said to her:

"If the news is that important, it will find me."

Think about that for a second (...). I think that sums up, in ten simple words, what has happened to the way that many people (and not just young people, but those who use RSS readers and blogs and social networks as well) consume the news (...). Not only is there just so much of it out there that it’s virtually impossible to consume it all, but the very fact that someone you know — or trust — has passed on or blogged or Twittered or posted a link makes it more likely that you will read it.

Are most websites designed with this kind of principle in mind? Not really. Most of them are still designed as though people read the news the same way they do in the paper — starting at the front and moving page by page towards the back (of course, many people don’t read the newspaper this way either, but that’s another story). In reality, people come from every conceivable angle, dropping into stories and then disappearing, finding them through links and posts and Digg and elsewhere.


(texto daqui, encontrado aqui. Ambos via RSS no Google Reader, o que indica que me incluo na geração do filtro social, aquela que se guia mais pelas tendências e indicações alheias de uma informação do que pela reputação da fonte que a produziu. Folhear revistas ficou sooooo last week...)

domingo, 13 de setembro de 2009

Mulheres de óculos

(Foto por Makesmelaugh, em www.deviantart.com)

Tem coisa mais bonita que mulher de óculos? Os dois globinhos oculares sambando por detrás das lentes são o máximo. O franzir de sobrancelhas ladeando o estado de espírito, as armações funcionando como a escudos dos pudores denunciados pela dilatação das pupilas e as lentes trazendo aquele ar de sofisticação. Como se óculos fossem a cortina e os olhos, os bastidores da alma. Todo o resto em seu gestuário, um elenco à mercê de um diretor cheio de manias em sua cabeça.

Muitos, inclusive meios de comunicação, associam o uso de óculos à introspecção ou ao intelecto. Bobagens. Primeiras impressões. Já que acabo de expor estes tolos mitos, falemos do que cada elemento de um óculos diz sobre elas. As armações, por si só, já dizem muito: a cor do aro, a grossura das hastes, se estas são vazadas ou não... as mais básicas -- grossas, com cores lisas -- indicam meninas que priorizam o conhecimento à estética (sem descuidar do segundo); as de grifes famosas, classe (e menos propensão a se ater a causas ideológicas); as sem muitas surpresas (geralmente metálicas, mesmo), indicam meninas com um conhecimento invejável em suas áreas de atuação, mas considerável ignorância quanto aos assuntos relevantes do mundo. Uma outra coisa importante a se observar são o formato das lentes. As retangulares mostram uma preocupação com a adequação das lentes ao formato do rosto (vaidade em primeiro lugar); as circulares e grandes, uma preocupação maior com o alcance das lentes; as retangulares com altura um pouco maior, quase quadradas, mostram uma tendência meio vintage, além de denotar uma menina que quer se auto-afirmar mais pelo conhecimento que tem do que pelo rostinho bonito.

Comentei isso com uma ficante uma vez e ela ficou indignada. Não conseguia entender o porquê daquilo; achava tara de nerd. Porra, tara de nerd é anime. Mas sei lá, óculos dão um quê de pudor que me atrai. Se pararmos pra pensar, óculos são um acessório bastante subestimado pelas mulheres. Elas se enchem de penduricalhos como brincos, piercings, presilhas e pulseiras e ninguém fala nada. Agora, se em determinado contexto elas usam óculos, são tomadas por pessoas ultrapassadas, desligadas de um mínimo de estética. Um exagero. Afinal de contas, óculos adornam uma das mais ariscas expressões da linguagem corporal, os olhos. Há que se dar uma importância estética maior a isso, sob esse aspecto. Em alguns grupamentos sociais, certos nós num lenço ao pescoço ou alguma marca corporal dizem muito sobre a posição social da pessoa; devíamos repensar isso por meio dos óculos. São o tipo de acessório que, por serem úteis, não têm porque saírem de moda. Ou seja, um elemento universal da indumentária pessoal.

sábado, 29 de agosto de 2009

Texto que não deu certo

Excertos de um texto cuja linha de pensamento eu perdi. Como não tenho mais onde enfiar esses insumos de palavras, vou deixar aqui mesmo, pro sofrimento de vocês, Enjoy. =p


#1
Mas fala sério, a única coisa que evita o homem se sentir deslocado são as provações do momento em que ele vive na História? Quer dizer que uma vida sem desafios e formas de opressão desse tipo levam gerações inteiras ao ocaso de ideais que calcam sua sociedade? Devagar aí. Não é porque não abraçamos ideologias com força (como nossos avós faziam) que estamos à deriva no mundo, não é? A geopolítica mundial se converteu numa espécie de teoria do caos, é vero. Isso avassala quaisquer princípios viciosos de nacionalismo com a simples intenção de nos transformar em cãezinhos obedientes do Estado? Ih, aí tem coisa. Estamos em tempos em que as mídias atingiram uma tal abrangência que a fabricação de heróis torna-se cada vez mais difícil. O que é um ponto positivo: será que o século XXI conseguirá ter um imbecil como Che Guevara tendo seu infame nome tomado para se criar um ídolo das massas? Veja como é fácil distrair a juventude das questões importantes: nossos universitários preferem brincar de salvar os pobres -- desfilando com camisas com aquele estêncil cretino do argentino que só sabia matar civis nos países dos outros -- do que repensar gente que poderia ser, com mais propriedade, elevada a heróis nacionais. Digo elevada, e não investida, porque, obviamente, não há heróis na História. O que há é gente mais forte pra agregar valor (dá-lhe publicidade) à sua imagem. Mas pensando bem, estou subestimando muita gente ao questionar o fato de o século XXI ter um idiota como "líder espiritual" entre os jovens...


#2
Findo esse irrelevante parágrafo, pondero. Gente como (...), convivendo com tal deslocamento, seria poupado(s) por um Estado que levasse a eugenia ao extremo? Há solução aos males sociais fora das leis da Biologia? Lembro-me de quando assisti Gattaca. A eugenia sufoca a mediocridade ou amputa a genialidade? Mais: quais os limiares da motivação? O excesso de cobranças (intrínsecas e extrínsecas) ou ausência delas? Imagino o teor de uma juventude cujo investimento da parte dos pais começa em seu código genético. É correto ou apenas confortável privar a juventude de certos fatores do livre-arbítrio? O que cada um considera razão de viver se esquiva dessas investidas sistemáticas? Talvez uma realidade assim só viesse a acentuar essa sensação de deslocamento de nossa geração. Já sofremos triagem de todas as formas possíveis, imagina passar por uma antes mesmo de nascermos. Isso funcionaria como um álibi pra anular as fontes de preconceito ante minorias, mas rapidamente um outro tipo de minoria seria encontrado. De certo modo, a humanidade passaria a ser controlada e aperfeiçoada (?) como fazemos com os bovinos que chegam a nossas mesas. O que embola tudo é que o homem não é mera estatística. É sentimento (se bem que a ausência disso em animais é um conveniente mito sustentado por empresas que vendem derivados de animais), é constante desafio -- em seu lado que flerta com a natureza -- ante obstáculos artificiais. Falta-nos atribuir alguma utilidade a tempos de dúvidas como o nosso ou falta sabermos trabalhar a mão-de-obra por meio da motivação disponível? Ainda precisamos entender o mundo de forma multilateral, porque ficar se segurando em certas expectativas é um luxo ao qual não podemos mais nos dar...


#3
(...) Os jovens crescemos não sabendo como desfrutar das coisas boas do mundo numa ideal correlação sentidos-razão. Algo inevitável que me faz às vezes constatar a mim mesmo que 'a vida é uma sucessão de desperdícios'. Talvez seja tal percepção de desperdício que traga esse estranhamento: as mesmas possibilidades que ramificam loucamente nossas aspirações são as mesmas que nos causam dúvidas que não existiam antes. Temos o direito a escolhas que nos são atribuídas muitas vezes sem sequer termos de demonstrar merecimento. Hoje em dia leva-se a sério demais as impúberes iniciativas da juventude. Com a presença de gente tirando proveito disso, ocorre que se sucede uma indevida legitimação dos atos dos jovens. Não há mais títulos, apenas glamurização de certas vulgaridades. Um caminhar ao nada. Niilismo pós-moderno este que mina quase todo o ímpeto e louvor de pessoas que, mesmo na juventude, já conhecem os domínios de seu destino. Expressar-se ficou fácil demais. Estabelecer metas, difícil demais. Um mundo que louva as manifestações da ignorância sob os argumentos do politicamente correto e economicamente viável e várias formas de afrouxo ético me constrange mais freqüentemente do que devia. Até o jeitinho é globalizado hoje em dia. A ambição pelo tédio, eis as peças que teriam sido trocadas em meu destino se vida tivesse assistência técnica.

domingo, 23 de agosto de 2009

Tentativa de silogismo

Devagar ou rápido, para qual caminho vamos?
Quando não se sabe o caminho a percorrer, qualquer caminho serve.
Portanto, não é pela velocidade que se escolhe um caminho.

sábado, 22 de agosto de 2009

Fotos...

Nino Quicampoix tinha a mania de colecionar, em um álbum, passos feitos no cimento fresco. Esta pouco romântica coleção, entretanto, foi substituída pela de fotos (rasgadas, danificadas e envelhecidas), achadas embaixo de photomatons, de estranhos. Eu não me sinto atraído por impressões visuais contidas em fotos 3x4 como Nino sentia. Mas me sinto pelas peculiaridades que as pessoas lhes confere ao publicar fotos suas na web. Efeitos de iluminação, cores cujo brilho é reduzido propositadamente, detalhes cuja proporção são engrandecidos em detrimento do trivial (como nucas e suíças, por exemplo)... dá o que pensar. Queremos aquarelas sem pincel pra delinear, vejam só.

É como se todo mundo hoje em dia quisesse fazer pose de vocalista depressivo de banda britânica. Quando não pretensioso, acho algo divertido. É como se a pessoa tentasse carimbar um pouco de seu estado de espírito á foto. Bom, isso hoje em dia é inevitável: certos sites de relacionamentos funcionam como a uma photomaton gigantesca para mim. Ou seja, não são frases copiadas de filmes ou referências pop que me chamam prioritariamente a atenção. Mas a personalidade com que uma foto é produzida. O universo alheio que é revelado em cada clique. Essa vontade de todo mundo de querer ser único. Como se houvesse alguma foto no mundo capaz de ler um olhar...


Texto medíocre que tava encalhado na gaveta há mais de ano. Era deixar aqui ou descartar sumariamente. Prefiro não saber qual a melhor opção...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Assim eu broxo

Diálogos esparsos, ouvidos ao acaso. Desaprendam com elas, meninas...

_ Pois é, e ele faz questão de lavar a própria roupa quando chega do trabalho.
_ Cuma?
_ Ele disse que já estava acostumado, já que vivia só com a mãe. Nem lavar a louça ele deixa. Ela diz que, quando acorda no dia seguinte, a casa já está limpa.

_ Ah, miga, pra gente ver: metade dos hábitos ruins dos homens é por culpa nossa. A gente que os acomoda com certas coisas.

_ Detalhe: ela não trabalha fora, só ele.


_ Ah, saia mais algumas vezes com ele. Se ele não mudar, dê o fora.

_ Verdade. Se você não consegue dar um jeito nele agora, não consegue mais.


_ Ah, ele é tão carinhoso. Olha só esse presentinho lindo que ele me deu.

_ Mas você parece estranha, algo te incomoda?

_ Ele me faz uma coisa dessas, justo agora que tô pensando em terminar com ele.
_ O que você esperava que ele fizesse em plena semana dos namorados?
_ Eu sei, eu sei... ai.

_ Querida, pau fino só machuca.

_ Estava olhando minha lista de amigos... sabe com quantos deles eu fiquei?
_ Não. E nem quero saber.
_ Sim. Foi mais gente do que você, óbvio. Mas putz, era um bocado, viu?

_ Sabe, uma vez uma amiga tava contando da primeira vez. Ela disse que, na hora, perguntou pro cara, 'eu perciso abrir as pernas'? Cara, chorei de rir aquele dia.
_ Pergunta besta. Abrir, não precisa.
_ Não?
_ Basta virar de costas que a gente faz o resto...

_ Não consigo imprimir esse documento.
_ O botão tá vermelho?
_ Querido, meu botão tá é roxo!

_ Caralho, eu tô f*** com esse povo! Olha que eu gosto de ser f***, mas não desse jeito...!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Uma interna (VI)

Um espírito livre, que ainda busca seu caminho. Como o vento, que vem e vai alheado. De volta. Porque, em vez de esperar, eu quis. Que saudade que eu tava...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Já falei que GraphJam detona hoje?


Já que falei isso, pra não ficar no repeteco, fica aqui uma outra dica de site em que viciei também: Tetrisfriends.com! Tetris com tudo que se tem direito! Partidas online, com outros jogadores ou sozinho, com dez modos de jogo, rankings, possibilidade de se personalizar as peças e muito mais! E tudo isso feito com a responsa de The Tetris Company. Esse site ainda vai me deixar com LER, certeza...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Poderia ser pior

* Quando comentarem contigo a respeito da arquitetura datada de Brasília, lembre sempre do que poderia ter acontecido se Tomie Ohtake tivesse projetado a cidade.
* Quando alguém reclamar de dor de cotovelo ao criticar um político no qual ele votou mas não admite, lembre seu interlocutor daqueeeeele ex-presidente impichado que foi ressuscitado pelo atual presidente. Pra bancar o xenófobo, troque o pollítico recém-mencionado pelo Malluf, mesmo.
* Quando reclamar que sua sitcom favorita tá ficando cansativa pelo fato de os personagens estarem amadurecendo e aprendendo a conviver mais harmonicamente no esquete televisivo, lembre-se sempre de que de repente seu canal de bobagens estadunidenses favorito pode chutar o balde a qualquer momento e começar a dublar a merda toda. Ou então seguir o exemplo do Sony e efeminar todos os seriados da nova geração, com romancezinhos mal-resolvidos e intriguinhas infantis.
* Quando começar a enjoar do perfume da namorada, lembre-se sempre de que ela poderia estar usando alfazema, colônia ou talquinho emprestado da avó. Não ria, isso é sério. Existe gente assim.
* Quando reclamar da programação do cinema, lembre-se sempre de que um dia seu filho catarrento te fará assistir às mesmas merdas que você repudia agora.
* Quando reclamar do design do controle amorfo, sem graça e com analógico feito pra pedreiros do Playstation, lembre-se de que há a alta possibilidade de a Sony cometer a imbecilidade de manter o mesmo controle inalterado para um possível Playstation 4.
* Quando reclamar de seu time, lembre-se do futebol carioca.
* Quando se perguntar porque cantores e atores fazem tanto sucesso na política, lembre-se de que o contrário pode não ser tão improvável assim. Atuar políticos já sabem.
* Quando reclamar das colunas medonhas de Doigo Mainardi, lembre-se do perigoso precedente que Lya Luft abriu: escritora de auto-ajuda ganhando coluna.
* Quando reclamar daquelas palestras motivacionais com um mala sem alça macaqueando na sua frente, lembre-se de que alguém como Michael Scott poderia ser seu chefe. O House é uma boneca perto do estilo agressivo de Michael...
* Quando estiver numa crise existencial olhando pro relógio no serviço e anseando pelos próximos trinta anos até a aposentadoria, lembre-se do velhinho vendendo picolé na praça que reclamava da mesma coisa e que viu seu pé de meia reduzido a ki-suco batizado com mais de 40% de corante.
* Quando reclamar do quanto alguma coisa engorda, lembre-se das gorduras trans. Elas serão o novo câncer nos próximos 20 anos...
* Quando reclamar de algum filme medíocre, lembre-se de que sempre haverá gente disposta a fazer versões de LIVROS medíocres para o cinema. Paulo Coelho vai virar filme com Veronika decide morrer. Oremos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Graph jam detona!




Porra, que site viciante. A responsa é tanta que tem até uma ferramenta pra você criar seus próprios gráficos. Acima, alguns toscos que criei antes de postar este texto.
(hmm, eu devia começar a cobrar um jabazinho pra colocar eses links aqui... =p)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Túnel do tempo



Universidades públicas são ímas de maluco. Isso não se discute. Até acrescentei num texto anterior que as considero museus a céu aberto. Isso ideologicamente falando, também. Não me limito a constatar os adesivos da campanha de Lula em 1998. Serei mais original com este post. Jã vi muita coisa velha por lá, como se certos setores daquele lugar tivessem congelado no tempo. Mas há algumas coisas que encontro de vez em quando que me impressionam:

_ Um boleto de uma organização monarquista, solicitando doações. Encontrei enquanto organizava a bagunça duma sala que viria a trabalhar nos próximos dias. Uma bagunça de anos, diga-se de passagem; saí espirrando poeira por uns dois dias. Enfim, o supracitado boleto estava num envelope que continha o nome do conveniado, um maluco que trabalha numa sala do outro lado do corredor onde trabalho. No envelope, o brasão de armas da família real, a heráldica e toda aquela viadagem que só gente que viveu na nobreza um dia ainda dá algum valor. E dizeres ressaltando as "grandes" conquistas da família real, os tempos áureos da monarquia e outros textos de um pedantismo catedrático tão ridículo e metido a besta quanto os dois termos que acabei de usar nesta frase. Monarquistas no Brasil, quem diria... a cereja em cima do sundae foi quando, após arrumar toda aquela baderna, fui pegar alguns materiais de escritório no almoxarifado e me deparo, no alto da parede da sala do simpatizante da monarquia, um brasão de metal (talvez um latão bem cuidado, vá saber) com duas espadas cruzadas, orgulhosamente ostentado em cima de um armário caindo aos pedaços. Talvez fosse uma heráldica qualquer, mas tô pouco me lixando pra diferença. Simpatizar por um regime político que sustenta gerações inteiras de dândis apenas pra usá-los como mascotes de políticos é ridículo. Mascote é coisa de time de futebol; não tracemos tal paralelo (novamente) com política... deixemos isso pros ingleses e outros que perdem tempo com coroas...

_ Um exemplar de uma revista destinada à comunidade soviética, datada de outubro de 1989: a Sputnik. Uma espécie de Reader's digest (as Seleções) dos soviéticos. Encontrei esta quando, ao terminar o expediente meia hora mais cedo, me dirigi a um outro setor pra ficar de papo furado com uma amiga. Numa gaveta encontro esta pérola. Impossível dizer o que é mais bizarro naquela publicação. Impossível. Vou elencar algumas observações e deixar essa tarefa com vocês: o português (de portugal) meio eslavizado e cujo vernáculo contém estranhíssimas escolhas do tradutor (possivelmente por palavras que viessem a facilitar a leitura e fonética dos assinantes de origem eurasiática) é um; as matérias condescentes sobre os acontecimentos políticos que culminariam na inevitável perestroika são dois; as propagandas são três; uma coluna descrevendo emocionantes partidas de xadrez como um esporte, exatamente como um colunista descreveria a última rodada do Brasileirão são quatro (a poprósito, algumas partidas eram de Kasparov); uma coluna falando de uma festa tradicional com um urso decapitado são cinco (se você achava que aquele urso decapitado no finalzinho de Borat era zoeira de Sacha Baron Cohen, lembre-se de que a realidade sempre vence a ficção); a seção de carta ao leitor onde um leitor rebate a carta de outro que sugere a volta ao stalinismo, sendo que na réplica em questão o leitor afirma que algo assim decerto resultaria na prisão e tortura de toda a redação da revista em questão são seis; uma coluna de cultura absolutamente incompreensível são sete (é como juntar Gerald Thomas, um cantor da MPB e algum filósofo alemão qualquer pra uma mesa-redonda); e uma seção de humor (se eles não me tivessem avisado se tratar duma seção de humor, ficaria a ver navios... espere, ainda estou a vê-los) em que se critica a mediocridade do cinema hollywoodiano enlatado são oito. Tudo isso impresso com papel da melhor qualidade em Helsinque. Surreal. Livro de História algum poderia me oferecer informação e amostra da História mais improvável que esse.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Você percebe que está ficando velho quando...

_ O acôrdo ortográphico altera a graphía de marcas consagradas como Azaleia;
_ Um ex-presidente, dono de um estado inteiro, assume a presidência do Senado, apronta todas com atos secretos e, ainda por cima, é protegido do atual presidente;
_ Um outro ex-presidente, mesmo tendo roubado as poupanças de milhões de brasileiros, levando muito deles à inanição, volta ao Senado também. O presidente atual, que ele derrotou há mais de quinze anos atrás, deixa mais uma vez sua pele de cordeiro escorregar por entre os ombros (se essa tendência se mantiver, imaginemos do que nosso atual, ao ser ex-prsidente, será capaz);
_ O acidente mais grave da F1 dos últimos quinze anos é uma mola saltando da traseira de um carro, a 300 por hora, em direção ao capacete de um piloto da Ferrari. Felizmente, ressalto; chega de tragédias;
_ O funeral de astros pop têm ingressos limitados para os fãs que desejam prestar seu respeito;
_ O conteúdo gerado pelos portais de Internet ficou tristemente alinhado com o da TV;
_ Uma companhia de teatro, ao divulgar suas peças, não perde mais tempo propagandeando seu evento mencionando a quantidade de telespectadores ou críticas favoráveis; ela se limita a mencionar a quantidade de pageviews que seus vídeos clandestinamente colocados no Youtube tiveram;
_ A habilidade de escrita de uma geração inteira está se limitando a 140 caracteres via Twitter;
_ Niilismo virou atitude na mão de marcas escusas;
_ O indie rock se confunde facilmente com o new age e ninguém acha isso ruim;
_ As empresas querem assumir uma postura ecologicamente correta ao imprimir flyers com papel reciclado ao mesmo tempo que entopem nossos rios e bacias hidrográficas em geral com embalagens excessivas e derivados do plástico totalmente desnecessários;
_ As guerras que os americanos criam, nessa busca desesperada por vaidade histórica deles, são perpetuadas pelas mesmas nações que eles financiam;
_ Começa a se preocupar com o que as pessoas terão como referencial ao pensar a música brasileira criada no começo desse século, daqui a umas décadas: Jorge Vercilo? É o tchan? Los hermanos? É tchubaruba demais para uma década só...;
_ Intelecutalidade virou estilo, e não significa mais nada além disso. O mundo atual não tem mais formadores de opinião, num mundo em que a informação te afoga antes que você possa se apoiar seguramente em uma;
_ As mulheres te tratam como um cão sarnento apenas pra ver por quanto tempo você consegue ficar ao lado delas, exatamente como as propagandas de absorvente e as comédias românticas ensinam, nessa glamourização doente à vida profissional e ao ego que a mídia faz em cima delas;
_ Todos os desenhos que você assistia inocentemente na infância parecem, subitamente, conter ideologias e valores deturpados para crianças que, incrivelmente, eram aceitáveis na época de produção deles. E que os atuais fazem exatamente o contrário: trazem, de propósito, conflitos psicológicos que ninguém abaixo de dez anos precisa ser exposto, e ninguém acha isso ruim;
_ Tem remédio pra levantar tudo: a autoestima, o amor-próprio, as rugas, o pau...
_ Só as zebras das eliminatórias ganham copas do mundo;
_ Descobre que o mundo é gay e que pelo menos (pelo MENOS) metade das pessoas que trabalham com você tem tendências bicuriosas, digamos assim;
_ Até as calças estão sendo fabricadas com estampas;
_ Os celulares fazem tanta coisa hoje em dia que os equipamentos de espionagem estão perdendo a razão de existir. Como locadoras de vídeo em meio à pirataria e ao P2P.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Porque todo mundo tem mãos brancas?

Resposta careta do Yahoo! respostas:

Não são só as pessoas negras que possuem " mãos brancas". Indivíduos de todas os grupos raciais possuem as "mãos brancas". Isso ocorre por que nas palmas das mãos e nas plantas dos pés de TODOS os seres humanos não se verificam a presença de células pigmentares chamadas MELANÓCITOS. Esses melanócitos, presentes em quase toda extensão da pele produzem a MELANINA, que confere proteção à pele contra os nocivos raios solares. Todos possuem melanócitos produzindo melanina em maior ou menor grau, dependendo de vários fatores. Todo efeito evolutivo sobre as espécies leva em consideração a ocorrência de mutações no material genético da população e à vantagem adaptativa que essas mutações conferem a essas populações, haja vista às exigências do meio-ambiente. Essas exigências do meio conduzem à seleção natural. Tudo isso recebe o nome de ESPECIAÇÃO. Se os membros de diversas raças não se cruzarem e não se misturarem, então poderemos, depois de muitas gerações, observar a formação de Espécies Distintas. Mas, naõ se preocupe. Os diversos grupamentos humanos tém uma Forte Tendência ao cruzamento interracial, o que, na linguagem científica, chama-se FLUXO GÊNICO, proporcionando uma maior homogeneidade genética na popúlação. "Raça pura" não existe. Nem em sonho.


Resposta que tive na infância:

Reza a lenda que, antes de enviar os homens à Terra, Deus sorteou várias faculdades aos homens. Uma delas dizia respeito à cor de pele: a pigmentação branca era obtida por meio de um líquido abundante em um lago. Confortáveis com a vida no Paraíso, muitas pessoas acabaram se acomodando e foram postergando sua ida a esse lago. Mas havia um prazo para a humanidade residir ao lado do Senhor, e este se expirou um dia. Os portões se abriram, e todos os humanos foram sendo atirados à Terra, à própria sorte, com seus poderes limitados ao que o conhecimento poderia proporcionar. À medida que o inevitável acontecia, as pessoas que ainda não tinham ido ao lago iniciaram um êxodo desesperado até ele, mergulhando o máximo do corpo que podiam, antes de serem jogados à Terra. Algumas pessoas, em meio ao pânico gerado por multidões querendo entrar num lago ao mesmo tempo, viram o líquido se minguar rapidamente, e conseguiram apenas mergulhar as palmas das mãos e dos pés, antes de o firmamento se esvaecer entre seus pés e serem sentenciados à vida mortal. Todos tentavam o máximo de contato corporal possível com o líquido, mas alguns não tiveram 'sorte': para estas, houve tempo apenas para as mãos e os pés.


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Eu sempre tinha resposta às minhas perguntas na infância. E olha que fui uma criança curiosa. Esses dias estava me lembrando disso e me veio à mente esse episódio. Quando a resposta que eu obtinha não tinha caráter científico, tinha ao menos caráter de mitologia. Com isso, as melhores respostas eram sempre sobre História. Perguntas envolvendo biologia ou química envolviam saídas pela tangente como essa. É uma explicação um tanto racista, a desse mito, mas não no contexto em que me foi dada, essa resposta. Usar o mito para responder o que desconhecemos é o lado mais imaginativo do espírito inquisidor do homem. E, convenhamos, foi uma resposta suficiente para uma criança. Para não fazê-la pensar que tudo a seu redor é caótico e sem porquês; seria muito chato viver assim. Um mito não corresponde necessariamente ao que pensa quem o passa à frente, mas sim à mente que criou tal explicação fantasiosa. Corresponde também às limitações do pensamento humano de gerações inteiras, então pelo menos um caráter antropológico isso tem. O legal de mitos é isso: eles antes nos abrem os olhos a coisas às quais nos distraímos do que oferecer uma resposta definitiva e estéril às nossas dúvidas. O mito é uma espécie de poesia do futuro. Um desenho que cabe ao conhecimento humano apagar as rasuras necessárias.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Eu confesso

Ela tinha um equilíbrio raro numa voz feminina. Era uma voz madura, mas não grave nem aguda demais. Encorpada, que denotava maturidade, diligência, habilidade para ouvir e serenidade para refletir relevâncias. Delicada, que conotava fragilidade, inquietude, resistência a certas palavras e pânico a certas inferências a que o tempo nos leva. Era quase um sussurro musicado. Como se cada palavra fosse um afago aos ouvidos. Uma crítica furiosa ou um desabafo soavam como a um arroubo pueril de indignação de uma situação que logo se sanaria, por mais intangível que fosse o que ela tivesse a dizer. Um timbre que me dava uma paz para a mente e levava o coração ao caos. Como se de repente ser feliz tivesse se tornado mais fácil. Em todo caso, não caio na sinestesia barata de resumir a voz dela como doce; antes diria contemplativa, pacífica, solitária. Porque a solidão está em nossa fala, e adorna nosso universo afetivo de forma nababesca. Uma tremenda decoradora de interiores. Com uma vozinha daquelas, se ela me dissesse "Cara, eu acabei de matar meu professor de Metodologia com três facadas no peito, me ajuda a desová-lo no mato?", eu iria. Meio mesmerizado e achando a coisa mais normal do mundo. Sem medo das consequências. Mas constatar que se faria de tudo por alguém é inútil quando se sabe que este ainda procura seu lugar. Ninguém é um porto seguro. E bússola alguma tem norte quando a distância não é apenas geográfica.

Coisa de quem não ama o suficiente a si próprio, eu sei. Para gente assim, encontrar alguém que lhe entenda é o momento mais valioso de suas vidas. Desse instante pra frente, rajadas e mais rajadas de palavras difíceis de se ouvir virão. Mas o que fazer quando elas vem em sua direção como se fossem invisíveis? Quando o mesmo feixe que te perfura é o mesmo cuja frequência sonora de seu trajeto lhe traz um paradoxal acalento? Porque as deixamos fazer algo assim com a gente? Desde quando o verbo (assim tão sedutor e cheio de entrelinhas) virou uma algema? O fato é que ninguém quer se perguntar isso quando ouve mentiras sinceras. Tentativas desesperadas do outro de se contar apenas a verdade. Isso pouco importa com uma voz daquelas. Você está feliz. Sabe que aquilo vai terminar. Que verdade sem amor não passa de crueldade, mais tarde descobrirá. Mas não importa. Enquanto durar, a monotonia terá ido embora. O ventinho bom que aquela voz traz passeará pelas memórias. As que se perderem, se abrigarão nos sentidos; bastará fechar os olhos para sentir; lembrar será secundário. Você terá mais uma saudade para tornar a vida um pouco mais suportável. Terá a seu lado aquele egoísmo que apenas a paixão traz: aquele de andar pelo mundo como se apenas você e ela estivessem nele. Sem rotina, sem cobranças: não haverá tempo para isso; tudo será tão efêmero quanto a voz dela ecoando pelo vento e sua imagem se esvaecendo na penumbra dum sonho bom.

...

Começo a conjeturar porque nunca tentei perder dinheiro com literatura. Deve ser por isso, porque é mais barato ter blog. Não tem críticos nem sua autocrítica rindo das besteiras medíocres que eu viria a escrever num romance.

A poprósito, esse ano dediquei um texto só às vozes femininas. Confiram.

domingo, 26 de julho de 2009

...ao próximo

A gente sabe o quanto as pessoas tornam-se especiais quando os silêncios deixam de se tornar constrangedores. Sabe também que certas coisas a gente não tenta, consegue. Tentar gostar não soa como fazer um hábito? Então. Uma outra coisa é quando percebemos que estamos melhor sem alguém. Não porque a gente a deteste, mas porque percebemos que nosso tempo não está acabando. Percebemos que conheceremos um outro alguém. Que a vida se tornará suportável com amigos e com algumas saudades. Que os ideais de felicidade que a sociedade calca em relacionamentos como namoros, família e casamentos não são regra -- como somos condicionados a pressupor --, são por si só ideais. O mundo é dos solitários. O destino não é de ninguém. A intimidade é uma necessidade que esnoba qualquer imediatismo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Desejar e esperar

Espero Desejo um dia, apesar de saber a diferença entre eles, assumir a escolha óbvia. A única que vai me acalmar.

domingo, 19 de julho de 2009

Ai, meu carma...

Eu tenho uma habilidade sobrenatural para implicar com detalhes irrelevantes. Tão sobrenatural que crio teorias malucas, debocho de pessoas que mal conheço só por causa de impressões que juro serem certezas, generalizo com uma força vigorosa, uso tudo que observo contra quem é observado e ainda me divirto com isso (pois é, eu não presto). Mas às vezes isso volta contra mim, redundante dizer. Neste texto não implicarei com algum tipo de pessoa ou alguma efeméride que beire ao neurótico: me delongarei sobre minha mania de perseguição contra um signo do zodíaco inteiro. Sério. A vida inteira passei me fudendo com pessoas do signo de... leão. Qual outro poderia ser? O signo mais ególatra dos astros. Feito de pessoas impossíveis de se conviver. Que têm o rei na barriga. Que acham que apenas elas próprias têm dilemas pessoais. Que passam por cima de qualquer um pelos motivos mais banais. Especialmente quando se sentem acuados. E cujo espírito livre me fascina na mesma medida que me fere. Não raro me sinto como uma presa ensanguentada correndo não deles, mas em direção a eles. Pois é. O mundo não é o bastante para eles. Afinal de contas, leonino não nasce, estreia (com ou sem acento, Pasquale?). Estou tão escaldado com elas que penso seriamente em, para não contaminar o mundo com genes configurados a estes astros regidos por este signo, a tentar ter filhos em qualquer parte do ano, menos de outubro até o final do ano. Sim, estou ignorando a possibilidade de partos prematuros. Se topar com pessoas assim já é zica, imagine ser responsável pela educação de alguém assim. Com isso, segue abaixo uma relação, com base empírica, do porque às vezes me bate a impressão de que o mundo precisa de menos juba...

_ Ex-vizinha: efusiva, comunicativa, proativa... e espaçosa. Imagina conviver com alguém assim em pleno ardor da adolescência. Sair com ela era como ter camarote para um monólogo. Uma das poucas coisas que não fiz da qual não me arrependo foi nunca cogitar uma relação com ela. Quem ouve apenas a si próprio acaba sempre usando as pessoas a seu redor. Mas isso é algo que eu nunca aprendo. Dotada de uma atitude predatória quando se via vestindo a carapuça da ambição, virou uma das inúmeras ex-melhores amigas de muita gente. Amizades de anos desfiguradas por uma vaidade cega. Felizmente, sem homens envolvidos. Apenas o ego dela, mesmo...

_ Gótica: impaciente, pseudo, colérica, matreira, dotada de covardia instantânea ante ataques pessoais cotidianos. Uma relação faiscante com a mãe sintetiza bem sua relação com a família. Inquietude e apetite por liberdade. Instabilidade emocional às alturas. Se mulheres nunca sabem o que querem, esta sequer sabe o que fazer com o que realmente quer. Dela fui vítima de minha própria ingenuidade. Leoninas comem ingenuidade no café da manhã. E usam sua atenção como carpete pra tirar a lama dos sapatos. Nunca mais fui o mesmo depois dela, mas isso acho que seria inevitável. Especialmente para alguém como eu.

_ Um cara aí: este é um amigo homem. Sabe aproveitar a vida mas, no auge de sua natureza de leonino, só consegue se envolver com meninas bem mais novas. Depois dos 30 isso vai pega mal. Que ele perceba isto a tempo. É o tipo de pessoa que, em alguns aspectos, desafia rótulos, mas veste a carapuça dos que mais lhe convier. A vaidade é sua droga favorita. Nunca tive motivos pra me estranhar com ele, mas é algo que decerto aconteceria se tivéssemos uma convivência mais próxima. Quem tem pressa de viver sempre atropela quem estiver por perto. Este, como vocês vão perceber, é o único homem da lista. Isso se deve ao fato de não ser da natureza do homem se vitimizar e usar isso como pedra pra tacar nos outros...

_ A do olhar enigmático: esta foi tão rápido quanto veio. As coisas em comum entre a gente eram tão grandes que até assustava. Um espírito livre que ainda procura seu lugar. Cuja habilidade de observação me absorvia irremediavelmente. Mas uma dificuldade imensa em exercer confiança parece sempre dominar as meninas com quem me envolvo. Com as leoninas, isso atinge níveis que perpassam a falta de dignidade. Muitas vezes, de ambos os lados. Dela levei o fora mais estarrecedor de todos. Que sintetizarei numa citação: amor sem verdade é apenas paixão; verdade sem amor não passa de crueldade.

_ Colega de trabalho: não nos moldes de Silvio Santos, naturalmente. Mesmo esta tendo idade pra ser minha mãe, as garras, como de toda leonina, não tardariam a aparecer. O olhar de desprezo toda vez que cometo alguma distração é inconfundível. Os comentários felinos debochando de minha idade, também. Sua voz renitente e amassada de uma ex-miguxa podem enganar de início, mas sei com quem lido agora. O semblante de quem se faz de coitada é mera indução de estresse. Que leonino nunca se faz de coitado, afinal?

_ A do olho de peixe: daquele tipo de pessoa que parece tomar um litro de café pela manhã antes de falar com você. Insiste em falar da própria vida como uma pequena odisseia e demonstra indiferença total quanto ao que os outros sentem. Numa constante tentativa de se impor, fatiga qualquer um com sua voz irritante, parecida com a de um trombadinha. Sabe aquele tipo de gente que usa a música como placebo pra suas neuras, a ponto de usar camisetas de bandas de letras infantis e sentimentalóides, numa clara evidência de ainda estar algemada à adolescência? Pois é. O mundo não precisa de tanta gente volúvel assim...

terça-feira, 14 de julho de 2009

Uma interna (V)

Estranho conforto.
Decepção como prazo de validade.
Gente que nunca te ouve.
Palavras surdas.
Expectativa, ansiedade, desespero.
Fuga estática.
Condescendência viciosa.
Distrair-se tornou-se um luxo.
Cansaço pertinente, contínuo.
Continuum do tédio.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Conto de areia

Clara Nunes

É água no mar, é maré cheia ô, mareia ô mareia, é água no mar
É água no mar é maré cheia ô mareia ô mareia
Contam que toda tristeza que tem na Bahia
Nasceu de uns olhos morenos molhados de mar
Não sei se é conto de areia ou se é fantasia
Que a luz da candeia alumia pra gente contar
Um dia a morena enfeitada de rosas e rendas
Abriu seu sorriso de moça e pediu pra dançar
A noite emprestou as estrelas bordadas de prata
E as águas de Amaralina eram gotas de luar
Era um peito só cheio de promessa era só
Era um peito só cheio de promessa era só
Quem foi que mandou o seu amor se fazer de canoeiro
O vento que rola nas palmas arrasta o veleiro
E leva pro meio das águas de Iemanjá
E o mestre valente vagueia olhando pra areia sem poder chegar
Adeus amor, adeus meu amor não me espere porque eu já vou me embora
Pro reino que esconde os tesouros de minha senhora
Desfia colares de conchas pra vida passar
E deixa de olhar pro veleiro
Adeus meu amor eu não vou mais voltar
Foi beira-mar, foi beira-mar quem chamou
Foi beira-mar ê, foi beira-mar

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Futuro anunciado

Eu concordo com o fato de não existirem acasos, mas superestimar o poder da sugestão é um caminho perigoso. Isso a humanidade já faz mais do que deveria; pra quê estender esse exagero de forma análoga em sua vida? Nem tudo pode ser resumido a bons conselhos e algumas citações. Ter mais medo de não tentar do que errar tem algo de admirável. O que sei é que o caos mantém nossos destinos toleráveis. Ou seja, não sei nada. Quem sabe envelhecer me ensine algo mais...

terça-feira, 30 de junho de 2009

Abaixo o deslumbramento, acima à serenidade

Deixe a grandeza para os sonhos. Ponha a descontração na realidade. E tente parar de correr antes que suas pernas cedam a tanta fadiga. Abra alas ao tempo e erga os braços ao céu. Empunhe sua imaginação. Se nada disso for o bastante, não importa. Não precisa ser o bastante. Nem único. Contentemo-nos com o que nos apraz...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Como menosprezar faculdades mainstream

Quando encontrar algum chato com o rei na barriga, falando como o curso dele é foda, saia com uma dessas pílulas de cinismo:

Medicina: a vida é muito curta pra se mexer com sangue.
Direito: a vida é muito curta pra se estudar códigos.
Matemática: a vida é muito curta pra se perder com números.
Administração: a vida é muito curta pra se gastar fazendo declaração do imposto de renda dos outros.
Enfermagem: a vida é muito curta pra limpar baba de idosos. Ou pra gastar metade do salário em cursinho tentando passar pra Medicina.
Letras: a vida é muito curta pra brincar de poeta maldito. Eu que o diga.
Filosofia: a vida é muito curta pra queimar fumo durante as discussões sobre Schoppenhauer.
Psicologia: a vida é muito curta pra criar estratagemas e ficar testando sua sexualidade com suas amiguinhas de faculdade, meninas.
Nutrição: a vida é muito curta pra fazer dietas, então gaste a vida curta alheia tirando-lhes a alegria de viver.
Física: a vida é muito curta pra tentar entender quando o universo vai extinguir toda a vida no planeta.
Química: a vida é muito curta pra ficar fabrincando água sanitária no fundo de casa...
Jornalismo: a vida é muito curta pra passar o resto dela sendo confundido com estagiário ou freelancer.
Publicidade: a vida é curta demais pra dar Ctrl-C Ctrl-V nas ideias dos outros até ganhar LER.
Rádio e TV: a vida é curta demais pra ficar tocando Fábio Jr. na Band FM.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Rapidinha de bar

_ Vou pedir um Sex on the beach.
_ É 'sexY'!
_ Não, é sex!
_ É sexY!
_ Porra, já conferi isso em tudo quanto é cardápio, e nunca vi ninguém chamando esse drinque de sexY!
_ Joga no Google então, criança.
_ Estava pensando, porque eles não aportuguesam logo o nome desse drinque? Podiam chamá-lo de Cicarelli. Seria até mais fácil pra lembrar na hora de pedir...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ideias que queria ter tido




Por muito tempo tenho me entediado com a Internet. Sempre os mesmos links, sempre os mesmos blogs querendo fazer humor copiando montagens engraçadinhas dos outros, sempre as mesmas pessoinhas querendo te adicionar em sites de relacionamentos... o fato é que o Google, ao mesmo tempo que deixou a net "menor", a condicionou para seus usuários. Não saímos, de um roteiro programado em nossas cabeças, ao acessar sites. Não fazemos nada sem ele (Google), e isso é triste: toda a autonomia em se buscar informação e buscar referências novas está indo embora. Nesse marasmo virtual, comecei a recorrer aos feeds. Tecnologia bacana, essa. Me poupa um tempo fenomenal que eu dispendiaria para catar milho em vários sites. Em vez disso, obtenho tudo que esses sites produzem num lugar só e peneiro tudo o que agrada mais. Me sinto um funcionário do Ministério da Justiça lidando com censura. Só o que me interessa permanece em meus bookmarks. Nesse contexto, descubro o conceito de bookmarking. Sites como FFFFound passam a fazer parte de meu roteiro cotidiano no computador. O que se inicia como uma mera peregrinação por imagens conceituais, ensaios pretensamente artísticos e ocasional pornografia acidental, passa para uma rica experiência de troca de sites. Cada imagem possui o local de onde ela veio. Como se o site fosse um mural gigante onde ao lado de um flyer de uma festa você encontra um cartaz informando um curso, por exemplo. Bem instrutivo. E caótico, como um mural. E como a vida. Assim, ando descobrindo as coisas mais inusitadas. Entre elas, uma idéia simplérrima, mas genial. Sem mais palavrório, confiram The Nietzche Family Circus. O conceito do site é tão simples quanto brilhante: uma imagem, retirada de uma série de tirinhas famosas nos jornais estadunidenses, é combinada com uma frase de Nietzche. As possibilidades são tão dadaístas e intrigantes quanto as do FFFFound. Cada vez que você atualiza o site, uma combinação nova. Gostou de uma em particular? Sem problema, clique em permalink e gere um link para repassar aos amigos. No link deste post tem um exemplo de uma tirinha para a qual criei um permalink.

Ainda vou adaptar uma ideia dessas por aqui... (sim, confesso que criatividade é para os fracos. Os fortes as roubam, clamam autoria e vendem os direitos... nada se cria. =p)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O país da piada pronta

Relacionarei abaixo uma notícia desse ano (com algumas notas pessoais) que prova rapidamente o título do post. Seguido de alguns pontos que andei levantando a respeito disso. Chargistas, humoristas, comentaristas... todos eles tornam-se inúteis quando nos limitamos a ler as notícias desse país.

STF derruba exigência de diploma em Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista.

_ Ah, era exigido? Fico feliz de saber que aquela meia dúzia de zines que chamam de jornal em minha cidade são feitos por gente com ensino superior. Gente preparada para me deixar bem informado. Quem diria que eu precisaria gastar quatro anos esquentando assento de faculdade só pra copiar notas de correspondentes internacionais, não conferir as fontes, escrever colunas de opinião obviamente equivocadas e levianas e fazer montagens engraçadinhas no photoshop! Seria mais rápido eu criar um blog... agora será ainda mais rápido sem eu precisar de um canudo. O Brasil inovou mais uma vez: nosso jornalismo já não era dos jornalitas; agora então será, de vez, dos freelancers. Tenham medo, teóricos da conspiração... muito medo.

_ E eu achando que meu curso estava desmoralizado. Curso este que até hoje não possui um conselho para regular o exercício da atividade, que é sempre vítima de corte de recursos públicos e que só atrai aspirantes a poeta maldito para suas fileiras. Dizem que um mal profissional de humanas é tão negligenciado assim porque não vai derrubar prédios nem matar ninguém. Agora, também
não saberá (sic) informar. Como fico feliz de não ter feito jornalismo; as chances de eu ter escolhido esta nefasta profissão foram altas depois que terminei o Ensino Médio. Fala sério, facultar um diploma para o exercício de uma profissão é, no mínimo, uma glorificação cega à meritocracia. Vício que até mesmo o serviço público tem combatido, mas que o profissional da informação se verá acometido sob poder de justiça. Sim, o Brasil não é um país sério. Chegaremos ao final deste ano com material surrealista o bastante para desafiar as gerações futuras a acreditar no que fomos capazes de fazer...

Vejo isso como uma forma desonesta de nossas autoridades usarem a atual tendência colaboracionista de nossas mídias. Jornais na web tem seções como 'vc repórter'; canais de TV tem quadros que incentivam o envio de vídeos amadores sobre eventos recentes (tipo pegadinhas, com a diferença de que o humor está em sua alienação); a mídia impressa imprime suas matérias como, muitas vezes, meras prévias de um conteúdo mais completo na Internet... ou seja, a opinião está sendo tratada como um subproduto. Isso é uma clara tentativa de se enfraquecer a opinião pública e de fragilizar a já bamba credibilidade de nosso jornalismo, que baixa a cabeça pra muitos fatos importantes para não incomodar o país dos outros. Alguém avisa pro STJ que jornalismo, por mais desprezível que essa atividade seja in loco, é termômetro de qualquer democracia (ou mesmo da ausência dela), faz favor.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Demasiado humanos...

Sentimentos. Só os que são força da natureza existem de verdade. Todo o resto é invenção dos homens. O que não derivamos de um atribuímos a outro a fim de seguir convenções. Com ou sem eles, acabamos sempre alvejando alguém. Por eles somos alvejados, sejam verdadeiros, sejam falsos. Quando por vontade própria, é hora de pensarmos: estamos derivando o que sentimos ou o que o outro sente? Não importa a resposta: um fato não muda em relação a isso tudo. Estamos sempre fugindo da solidão, o mais irredutível dos sentimentos. O único que nasce com a gente, o único que nunca te abandona e um dos mais simbióticos de todos. E às vezes fonte de todos os outros...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Muggles

"HARRY POTTER" é uma série que marcou a primeira geração para a qual celular, computador e mundo virtual são naturais. Naturais como Nutella. Ao tratar de magia, fala, no fundo, do admirável mundo novo virtual.

A série reserva o nome de "Muggles" para pessoas que não têm poderes mágicos. Traduzido em novos termos, são pessoas que não conseguem se orientar na magia do mundo digital.
Quem passou por experiências como as do mimeógrafo, da máquina de escrever, dos LPs e do fax é um sério candidato a Muggle. Mas, ao contrário do que apregoa a série, ser Muggle não é destino. É uma construção social.

A discussão sobre a chamada "pirataria" na internet, por exemplo, é assunto de Muggles. Parte da falsa premissa de que é possível estabelecer direitos de propriedade na rede como no mundo não virtual.

Na vida da rede, dinheiro e autoria têm novo significado. As práticas colaborativas não têm autor definido. Seus produtos são obras coletivas que se valem de ferramentas inovadoras como as de tipo "wiki" (cujo produto mais conhecido é a "Wikipédia"). Refletem a realidade como produto cotidiano coletivo e não segundo a imagem romântica de um mundo forjado por uns poucos gênios e líderes incomuns.

Não que o espaço para o desenvolvimento de individualidades e de grupos tenha desaparecido. Pelo contrário. Consumir cultura na rede transforma a relação de consumo clássica. Já não é absurdo que artistas e grupos possam pensar em viver de contribuições diretas, pulverizadas e praticamente anônimas. E que expressam algo como uma adesão voluntária a um projeto, a uma ideia, a uma forma de levar a vida. Uma maneira direta de financiar a produção cultural e artística que mina o oligopólio da indústria e dos mecenas, estatais ou privados.

A eficácia da repressão e das campanhas que estigmatizam o compartilhamento de arquivos como "pirataria" não tem que ver com punições, cada vez menos aplicáveis. Tem que ver com o cultivo e a sobrevida do espírito Muggle, com que os detentores de direitos autorais de expressão procuram adiar o inevitável. Aproveitam esse período de transição para explorar ao máximo o patrimônio de que ainda dispõem, até inventarem novas maneiras de ganhar dinheiro com arte e cultura.

Defender a propriedade no mundo virtual nos mesmos moldes do mundo não virtual só tem sentido enquanto ainda sobreviver o mugglismo. Coisa para uma ou duas décadas talvez. Ou para daqui a pouco, caso um súbito movimento organizado de terabytes resolva engoli-lo de uma hora para outra.


Fonte: Folha, 26 de maio de 2009. Lido em http://textosdoblog0news.blogspot.com