terça-feira, 25 de novembro de 2008

Só pra dizer que não falei de flores




"America is a mistake."
Sigmund Freud

Certo, agora eles têm um presidente negro. Mas cadê o Jack Bauer? E 'o rei da vela'?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Casual bagunçado

Sou vanguarda da moda desde a adolescência, sabiam? Desd'aquel'época eu e o pente não somos muito amigos por causa dum intermediário rebelde nessa equação: meu cabelo. Uma palha de aço premiada pelos genes loiros que me deixa com poucas alternaivas estéticas toda vez que cresce. A única alternativa é um tique que tenho quando este fica grande o bastante: fico enrolando as mechas da nuca indefinidamente. Fato é que, para justificar minha inépcia com aquele instrumento dentado feito para em teoria botar certa ordem em meu emaranhado capilar, inventei um estilo revolucionário para a época (em parte, pequena, pra evitar o espelho): o casual bagunçado. Não importa pra onde eu saísse, o que viesse a fazer, ele sempre me acompanhava. Indiferente à aprovação alheia, prático o suficiente pra dispensar produtos e eficiente expressão de seu usuário, o casual bagunçado viera pra ficar. Mesmo sob coações maternas por um penteado cafona, os infrutíferos penteados não duravam muito: minhas próprias madeixas começavam a clamar pelo casual bagunçado e, quando menos esperava, elas já haviam se rebelado, como pequenas cristas de ondas, pequenas pontas de iceberg zombando da gravidade. É raro rolarem umas pontas mais alfalfeanas (não me façam explicar essa referência óbvia), mas não posso reclamar. Um estilo tão contracultura como o meu tinha de ter seus efeitos colaterais. Hoje em dia, como tudo bacana e que salta aos olhos, foi covardemente expropriado pelo pop, meu estimado casual bagunçado. Hoje em dia, boybands emo de todas as partes do mundo passam horas no cabeleireiro pra despentearem estrategicamente seus cabelos. Fariseus. Acabaram com a proposta original. O casual bagunçado não era grunge nem punk, era apenas um descompromisso com a ditadura do pente, um louvor à natureza de cada cabelo. O casual estava acima de falsas estéticas de rebeldia. Não era anarquista nem niilista, era mero ode à preguiça aliado à desnecessidade, em muitas fases da vida dos que adotam esse penteado, com efemérides da vaidade (vaidade é placebo do ego). Uma amostra da penetração do tolerismo na moda (leiam meu manifesto nos arquivos). Mas o pop estigmatizou meu estimado casual bagunçado. Além de jamais me terem feito milionário por minha idéia boa o suficiente pra iconizar décadas inteiras, ainda a roubaram e a associaram a bandas morde-fronhas de filhos de dono de gravadora. Ardam no inferno, ladrões! Agonizem com a chegada de décadas novas que inventarão penteados idiotas o suficiente pra levarem o falso penteado bagunçado (só meu penteado era tr00. Tão tr00 que se esquivava do mainstream, do establishment) pro ostracismo e ocupar as mentes jovens com alguma estética pastelã. Quero uma nota sobre mim na Vogue, porra!


Puta merda, sou quase um porta-voz do Herchcovitch. Em vez de ter perdido quatro anos brincando de fazer faculdade, devia ter posado de estilista pra passar o resto de minha vida fazendo teste do sofá com modelos anoréxicas, pagando uma de consultor de moda (em vez de poeta de boteco, como os pobres do meu curso insistem em fazer). Odeio a certeza de que só os idiotas criativos e/ou espertos enriquecem hoje em dia...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Nem parece banco

Brasil pode ganhar poder com 'nova ordem mundial', dizem especialistas
Alessandra Corrêa
Da BBC Brasil em São Paulo


A crise econômica mundial está provocando mudanças profundas na geopolítica e, nesse novo cenário, o Brasil pode assumir um papel de maior destaque, afirmaram especialistas reunidos nesta sexta-feira em São Paulo. Segundo o historiador Paul Kennedy, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, o "momento unipolar" (expressão cunhada pelo analista Charles Krauthammer) surgido após a Guerra Fria, em que os Estados Unidos assumiram uma posição de grande poder, dá mostras de estar chegando ao fim.

Diretor de Estudos de Segurança Internacional de Yale, Kennedy atraiu atenção mundial no final da década de 80, ao lançar o livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, em que discutia o declínio dos Estados Unidos. De acordo com o professor, se no aspecto militar os Estados Unidos continuam sendo uma grande potência, na área econômica e de finanças o cenário é diferente.

"Mesmo antes da crise dos mercados de subprime já era possível perceber uma mudança de poder, com a crescente influência de outras partes do mundo, como a Ásia", disse Kennedy, um dos palestrantes da conferência "Mudanças na balança de poder global: perspectivas econômicas e geopolíticas", promovida pelo Centro de Estudos Americanos da FAAP e pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso.

Segundo Kennedy, a atual crise deve marcar o início de um mundo multipolar, no qual os países são interdependentes e estão interconectados. "A crise mostrou que o Fed já não pode agir sozinho", disse. "Os países devem trabalhar juntos". Com essa nova realidade, disse Kennedy, ganha cada vez mais importância o chamado "soft power" - termo criado pelo professor de Harvard Joseph Nye para definir o poder de uma nação de influenciar e persuadir, sem uso de força militar, mas pela diplomacia. Entre os países que poderiam exercer esse tipo de influência, os especialistas citam o Brasil.

De acordo com o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, que também participou da conferência, apesar de o Brasil não ter poder militar, tem relevância na área de cooperação econômica e pode exercer o "soft power".


Mudanças

O consenso entre os especialistas que participaram da conferência é de que as relações entre os países não serão as mesmas depois da crise. (...) O diretor de publicações do Centro para o Estudo da Globalização da Universidade de Yale, Nayan Chanda, disse que o mundo atual está baseado em quatro pilares: sistema capitalista, equilíbrio nuclear, manutenção da governança por meio da ONU e o sistema de comércio global. "Os quatro estão abalados", afirmou.

De acordo com Chanda, o equilíbrio do poder nuclear foi quebrado com o surgimento de novos países nesse cenário, como Israel, Índia, Paquistão, Coréia do Norte e, possivelmente no futuro, Irã. O comércio global também dá sinais de enfraquecimento, principalmente após o fracasso das negociações da Rodada Doha, afirmou Chanda.

Ele citou ainda o aumento do protecionismo e do sentimento contrário aos imigrantes como aspectos do novo cenário mundial. Nessa nova realidade, Chanda destacou a rapidez com que os países reagiram à crise, a diáspora que faz com que a população mundial tenha se espalhado e pode ser uma barreira contra o nacionalismo, e o papel de destaque das comunicações no sentido de integrar o mundo.

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Já repararam como esse tipo de notícia nunca figura nos meios de comunicação em massa? Pra gente ver como catastrofismo vende mais jornais. Pensam os editores, vale mais a pena focarmos na choradeira previsível de especuladores, que usam até a própria alma como commodities, do que pensarmos o contexto atual com sobriedade e considerarmos cenários futuros. Noticiário sempre diz que o mercado tá tenso, que os investidores estão inseguros. Porra, nem se o PIB nacional duplicasse em seis meses esses putos ficariam otimistas, pelo menos nas palavras cínicas das linhas editoriais dos jornaizinhos de grêmio estudantil que consideramos jornalismo. Puta merda, será que ninguém nunca estudou História nos telejornais? Falam dessa crisezinha de merda como se nós, consumidores de produtos finais, tivéssemos a obrigação de agir do jeito que os bancos querem: comprando dólares, gastando menos e vendendo mais ações da bolsa. Os banqueiros estão se afogando na própria ganância e acham que precisamos nos importar com isso. O crescimento de nosso PIB deixou de ser uma bolha faz tempo. Pena que esses babacas têm dinheiro suficiente pra nos fazer preocupar com falácias como risco-Brasil, índices de exportação de carne e outros cabrestos, em vez de nos focarmos nos ingredientes dessa receita de bolo globalizada que chamamos de capitalismo. No final das contas, o dinheiro vai apenas mudar de mãos: morre um modelo econômico, nasce outro. Num mundo onde dinheiro não tem nacionalidade, crises são apátridas e agiotas têm múltiplas nacionalidades. Ou seja, há momentos em que o primo rico precisa de dez mangos emprestados do primo pobre...