segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Efeito borboleta

Foi em Maceió que nasceu Eloá Pimentel, e foi lá que a menina passou os dois primeiros anos de vida em um ambiente conturbado e de violência. Você vai conhecer agora detalhes do passado do pai dela. Foragido, ele foi acusado de pertencer a um grupo de extermínio antes de fugir da capital alagoana com a família.

O seqüestro que durou cinco dias revelou o passado de violência de Everaldo Pereira dos Santos, o pai de Eloá. A imagem chamou a atenção do perito Ailton Villanova, em Maceió. “Quando a câmera flagrou bem, que eu olhei, eu reconheci. Na hora, fiquei na dúvida: mas o que ele está fazendo ali?”, ele conta. Foi Ailton quem descobriu a coincidência: Everaldo Pereira dos Santos, o pai de Eloá, era foragido da Justiça havia 13 anos, acusado de uma série de assassinatos. Uma marca no rosto foi decisiva na identificação.

Everaldo não apareceu nem no enterro da filha e está foragido. “Do jeito que eles estão dizendo que eu sou o bicho de sete cabeças, eles vão querer me executar para queimar um arquivo”, alega Everaldo. As acusações trouxeram ao público histórias de violência dos anos 90. “A minha irmã foi morta porque sabia demais. Ela sabia dos crimes dele”, denuncia Rita de Cássia Alves Vieira, irmã de Marta.

Rita de Cássia e Claudinete vivem em Maceió. Elas são irmãs de Marta Lúcia Vieira, esquartejada em 1993. Marta tinha sido mulher de Everaldo. Quando foi morta, eles já estavam separados. “Ele vivia com ela há cinco anos e, quando entrou na polícia, se transformou. Já não era mais aquele homem e ela sentia medo”, conta Rita de Cássia. (...) Um irmão de Everaldo disse ao Fantástico que o foragido vai se entregar daqui a dez dias, a contar deste domingo. Se isso realmente acontecer, a polícia deve deixar Lindemberg e o pai de Eloá frente a frente, para que digam se cometeram mesmo crimes juntos.


Fonte: globo.com
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Não devo ser o único que vê ironia entre o passado do pai da pobre menina do seqüestro de Santo André e o triste destino de sua filha. Não vou massagear o lombo da redundância com ponderações sobre o carma dos outros, mas não consigo deixar de esboçar surpresa com essa peculiar amostra da teoria do caos. Vejam só do que é feito o tortouso percurso da vida neste caso: ex-PM participa de grupo de extermínio em seu estado. Entre suas vítimas -- a menos citada nos noticiários -- encontra-se uma ex-esposa. Possível crime passional. Vendo sua lista de pendências com a Justiça aumentando, ele faz o que qualquer nordestino brincando de jagunço em sua terra natal faria: brincar de retirante e se mudar para São Paulo, esperando com isso fugir de seu passado. Lá, cria sua família como um cidadão comum, até que um ex-namorado de sua filha a mantém refém e a mata depois de mais de cem horas de cárcere privado, por motivos que se aproximam dos que ele mesmo teve pra matar no passado. Pra você ver: bastou uma meia dúzia de gente da imprensa, doida pra vender jornais, fazer pão e circo do triste fim da menina, para as autoridades perceberem a inesperada coincidência. Pois é, cabo Everaldo, Deus adora dar sustos. Vai fazer falta os tempos em que os retirantes apenas trabalhavam em garagens paulistanas, sem fazer seus semelhantes de reféns. Sim, todos os envolvidos na tragédia têm origens nordestinas (a região mais machista, paternalista e coronelista do país). Gente com a esperança tentada de várias formas que acabam parando numa metrópole impiedosa que acaba atuando como pós-graduação de surtos psicóticos. Alguém precisa avisar a essa gente que São Paulo jamais foi terra de oportunidades para retirante algum. No máximo, serve como celeiro de foragidos, como o ex-cabo nos mostrou. Nem Linha direta faria melhor. Que sociedade é essa que precisa de requintes de crueldade pra se lembrar de se perguntar porquê?

Os mais sensibilizados poderiam afirmar ser isso apenas um caso isolado de tragédia mobilizada por adolescentes sucumbindo às dúvidas ao amor. Mas não é. O Brasil é um país machista. Crescemos aprendendo a nunca aceitar não de uma mulher (os adolescentes americanos viram franco-atiradores por falta de aceitação social; os nossos, por orgulho caricato). Prova palpável disso é que, após o trágico desfecho desse seqüestro, pelo menos outros dois casos semelhantes ocorreram país afora, alguns dias depois. As furiosas conseqüências do ciúme masculino não são novidade, mas o é legitimarmos isso, como ficou evidenciado de forma implícita pela atuação da polícia paulista. Lindemberg não foi visto como um crimimoso na ocasião, mas apenas como um jovem que não sabia lidar com a rejeição, que havia falhado em lidar com sua mulher. Temos um estigma de que o amor nas mulheres é condicionado. De que os sentimentos delas não passam de um mero condicionamento. De que quem falha ao obter o amor delas deve fazer de tudo para limpar sua honra. Essa ideologia de boteco precisa acabar, sob pena de esse tipo de incidente continuar a ser freqüente. Novelas com mulheres personagens que gostam de apanhar, que cedem a chantagens emocionais de seus maridos e que sempre perdoam as puladas de cerca deles em nada ajudam nisso. Só reforçam um perigoso estigma de violência. A vida não é uma peça rodrigueana, e isso precisa ser transmitido a nossos jovens desde cedo. Antes de educação sexual, precisamos dar educação emocional. Ensinar que mulheres não são causa, e sim efeito de nossas vidas. Nossas escolas, definitivamente, não são da vida...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Guerras esquecidas

Vivemos num país onde o único G4 sobre o qual a população discute é o do Brasileirão. Com isso, o Brasil tem algo muito em comum com os Estados Unidos. Sua população não sabe nada sobre política externa. Isso pode se dever às trocas culturais e econômicas, efervescentes no velho continente, que por cá apenas ecoam de forma pálida nos noticiários. Mas viver num país que não conhece seus personagens históricos é preocupante. Pode-se dizer que os americanos conhecem seus personagens históricos. Mas, zente, decorar a lista de presidentes que esquentaram a poltrona da Casa Branca ao longo do século XX nada diz sobre a consciência política de uma nação. Isso foi algo que me chamou atenção ao assistir um documentário do History Channel contando sobre um conflito armado entre Bolívia, Chile e Peru (a chamada Guerra do Pacífico), sobre o qual as populações das três nações nada sabem. Sim, cada um tem a Guerra do Paraguai que merece. No consciente coletivo desse canto da América do Sul, há um bairrismo em relação ao sentimento que cada vitória ou derrota inspirou em uma população toda. Mas não há um entendimento de quem foram essas pessoas por trás desses conflitos, muito menos o parecer deles mesmos, como população, a respeito disso tanto na época quanto hoje. Uma opinião pública sem âncora alguma. Pra gente ver: pelo menos três países da América do Sul querem mudar suas constituições e nada se fala a respeito disso! O que nos difere dos americanos é que não tentamos reescrever nossa própria política externa à base de chumbo -- derrubando governantes e iniciando guerras pra garantir o leitinho das crianças dos CEOs de empresas maquiavélicas --, querendo vender aço pra armas que o mundo só precisa porque o mesmo governo que subsidia essas indústrias é o mesmo que leva desgraça para fora de seu país, a fim de agradar seus pagadores de impostos preferidos. Ou seja, aquela historinha anarquista pré-adolescente do Clube da Luta pareceria menos ingênua se, em vez de atacarem os prédios do sistema financeiro norte-americano, Tyler Durden atacasse refinarias árabes de petróleo. Aí sim a merda iria fundo. De preto.

Mas não é pra falar das conseqüências da miragem jurídica, que os americanos convencionam chamar de eleições, que escrevo. O que motivou a guerra do Pacífico foi a disputa pelo nitrato do Atacama, mas o que sobra nos livros de história dos locais é uma falácia patriotista alienante. Uma América do Sul que não sabe lidar com seus recursos naturais. A mesma pirracinha boliviana de aumentar arbitrariamente os custos de seu nitrato no século XIX ecoa no gás natural do século XXI. Eles são tão sortudos de lidar com o país dum presidente cujos resquícios socialistas de sua juventude como metalúrgico não lhe permitem um certo egoísmo, compreensível de um país na posição de potência econômica dum continente, de se impor. Até mesmo nos esportes a América do Sul se comporta como se seus hermanos fossem de planetas diferentes. Os acordos comerciais são tímidos, o intercâmbio é pouco incentivado e os presidentes dos DCEs Brasil afora me lembram perigosamente de nossos atuais líderes. Esse autismo político, de um lado, poderia ter sua culpa na posição afastada em relação ao resto do mundo que a América do Sul tem, o que favoreceu poucas trocas político-econômicas por muito tempo, mas daí pra se acomodar nesse argumento fraco... não dá. O ruim é que nosso continente não tem tradição de participação popular em decisões importantes. E ainda por cima quer ver representantes de seu povo no poder. Pra quê? Pra quê termos representantes de um povo despreparado para pensar seu país de forma sensata? Pra ser marionete do empresariado ou, na mais infantil das hipóteses, começar a nacionalizar as coisas pra esconder suas vaidades políticas? Por isso que falei, no começo do blog, que Lula é brasileiro demais pra nos governar. Ser governado por representantes de elites não é exclusão. Condenar isso é ser reacionário sem causa. O preparo pra se representar uma nação está além da classe social de quem esquenta poltrona no Palácio do Planalto. Felizmente o tempo está nos ensinando a escrever nossa própria história, embora sem condições de participação popular. Aprender os interesses de uma nação não é sempre ouvir os gritos de ignorância da população. É antes fazê-la entender sua condição social, econômica, histórica...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Cólera catártica

Quem não odeia o lamentável impasse de, ao sair com amigos, sempre encontrar um babaca pra chamar uma ex para o mesmo evento? Considero simplesmente desprezível essa mania dos outros de achar que você tem a obrigação de fazer cara de paisagem ao encontrar alguém que preferia não ver. Puta merda, é muita hipocrisia! Lógico, todos argumentarão que nem sempre será possível marcar alguma coisa sem incluir alguém que você prefere evitar, mas daí pra não te alertarem a respeito disso é de uma canalhice que me ofende. Sim, pra mim é algo MUITO pessoal. E aquele outro argumento cretino de que não vale a pena deixar de ver os amigos por causa disso? Enfiem essa frase feita de auto-ajuda no esfíncter retal de vocês e me esqueçam. As pessoas falam como se elas fossem os únicos amigos que você tem. É direito de todos intransigir quando alguém te decepciona. Mas ninguém está disposto a respeitar isso hoje em dia. Somos forçados a ver tudo com naturalidade numa época em que a humanidade tenta a todo custo esgotar tabus sociais, afetivos e pessoais, às vezes os três convergindo. Tem gente que vê nobreza nisso. Não há nobreza alguma em deixar o amor-próprio de lado. Há quando se deseja o melhor a alguém, e não quando alguém te olha com desprezo toda vez que você a vê. Portanto, vamos combinar assim com quem insistir em contaminar minha vida social com essa sujeira espessa de minha vida amorosa: quero que vocês vão à merda e parem de poluir meu campo de visão enquanto perderem tempo refocilando em cima de minha paciência. Beijomeliga.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O inferno é...

_ James Blunt narrando uma partida de futebol;
_ Maratona de filmes do Didi;
_ Música dos anos 80 de fundo em correntes de e-mail das quais você será vítima durante palestras;
_ Filmes que nem os críticos conseguem dizer porque eles acham bom;
_ Faustão como atendente de SAC;
_ Galvão Bueno fazendo cobertura do velório de alguém famoso;
_ Transmissões de esportes praticados por mulheres;
_ Arquivo confidencial (sim, aquele quadro do Faustão) com um dos integrantes do Nx zero;
_ Desenhos da Warner;
_ Mesas redondas mediadas por gaúchos;
_ Musicais dublados (sim, essa eu já mencionei antes);
_ Pobre querendo ser bom em coisas que os ricos inventaram, de propósito, pra pobre nunca ser bom (tipo aqueles projetos de inclusão social que ensinam crianças a jogar golfe, sabe?);
_ Conversar por mais de três minutos com um economista;
_ Ver um advogado discorrendo sobre física quântica (vale qualquer outro assunto que ele nada entenda) pra defender um empregado vítima de acidente de trabalho;
_ Casais famosos cuja junção de nomes os transformam num ser ainda mais pedante e chato do que os dois separados;
_ Esudante de Comunicação social tentando ser macho ao perguntar o nome da sua amiga;
_ Corte da cabelo de recém-formados em Direito;
_ Corporativismos ridículos como a "Farmááááácia do adevogado";
_ Dublagens em que é possível ouvir sobras do áudio original;
_ Gente que só consegue falar de um assunto;
_ Jim Carrey como funcionário do CVV;
_ Membros da família que insistem em conversar quando cada um se encontra em membros diferentes da casa;
_ Ver o Jô Soares falando de assuntos que ele julga entender;
_ Gente que, ao falar, prolonga palavras que antecedem vírgulas ou pontos finais (comum em mulheres);
_ Lobão como militar, dando importantes instruções ao pelotão se aproximando do inimigo;
_ Banners prometendo ringtones grátis;
_ Ronaldinho Gaúcho fazendo um discurso de casamento;
_ Paulo Francis declamando num sarau;
_ Evaristo Costa e Sandra Annenberg fingindo ser amigos de infância após darem uma notícia inútil;
_ Notícias de celebridades no Terra ou no Ego;
_ Gente que fica mais de dez minutos contando uma mesma história, sem te dar tempo pra fingir interesse com uma indagação;
_ Bar que só vende Kaiser;
_ Um fime do Woody Allen estrelado pelo Eddie Murphy e pela Meg Ryan como casal romântico;
_ Filmes que você quer ver, cujos cartazes só são pendurados no shopping com a única função de tapar a infiltração da parede do cinema;
_ Remorso por atitudes das quais você se orgulha;
_ Medley de canções de Engenheiros do Hawaii;
_ Quando se descobre que apenas os defeitos conservam uma amizade (ou algo mais);
_ Estacionamentos maiores do que o local em que se quer ir após balizar o carro;
_ Momentos que precedem um fora;
_ Expectativas paridas por estatísticas;
_ Aulas de dança com Angela Guadagnin.

sábado, 4 de outubro de 2008

É bom porque é trash (III)

Ficar muito tempo à toa em casa, no mais absoluto sedentarismo, nos deixa mais propensos a nos apegarmos ao trash. Nesse contexto, volta e meia me encontro assistindo na TV aos famosos programas-barraco, aqueles em que uma apresentadora traz a pobraiada pra falar de seus problemas. Como diriam os Malvados numa de suas tirinhas, é daqueles momentos em que a TV vira "o psicólogo despreparado dos pobres". Tanto que quando vem alguma visita inesperada, tipo o primo que passa em sua casa depois da faculdade, ligo em programas, tipo os da Marcia, pra dar umas boas risadas. E pra fazê-lo ir embora mais cedo também, claro. Com abstração, você consegue se acabar de rir com a falta de dignidade dos outros. Tipo, tem cada caso que parece esquete do Zorra total. Alguns exemplos: a mulher que reclamava do irmão que não tomava banho, o marido ator pornô, o ricardão que começa a se cansar da amante... enfim, uma amostra de decadência melhor que a outra! O que só melhora com inovações como o uso de polígrafos. No SBT, o programa desse gênero deles é bem piegas. Regina Volpato é quase uma Silvia Poppovic com uns quilos a menos. Sem sal mess. Já a Marcia é aquela típica colega de trabalho que faz parte da turma do deixa disso, mas que adooooora dar um palpite sobre os recalques, frustrações e inseguranças alheias. Ela é também aquela coroa de classe média que sai do seu Corolla pra tirar satisfação contigo depois de bater em você ao tentar te cortar pela direita. Bem que eles podiam reformular esse tipo de programa para os artistas (sic) emergentes. Assim, convidar modelos, dançarinas do Faustão, atores de Malhação, gente desesperada pra aparecer, pra responder perguntas interessantes. Imagina o circo básico que a Marica faria. "Você já sentiu atração por algum ator durante uma cena picante? Você disse que não. Para o polígrafo..." ou então "Você já fez favores sexuais pra ganhar fala em algum episódio de Malhação? Você disse sim, e para o polígrafo...". Deixar o Superpop com esse monopólio não é justo.

Mas chega de falar de programas-barraco. Talvez o programa que mais adequadamente atenda à minha vontade de ver gente involuntariamente tosca (sim, tem que ser involuntário; isso em pobre na Marcia é redundância...) é O melhor do Brasil. Tem coisa melhor do que ver motoboy vestindo as roupas cheias de traça que a produção arruma, do fundo de seus armários de figurino, tentando xavecar meninas bem-nascidas? Cara, é quase uma seleção natural o que rola lá dentro; Darwin ficaria envaidecido. Marceneiro xavecando estudante de odonto, vendedor dando em cima de estudante de Direito, aquilo é um show de romances impossíveis. Tipo, o namoro na TV deve ter sido a única merda que a Record não copiou da Grobo nos últimos tempos. E o naipe das provas? Cheirar cangote do(a) pretendente, trazer presentinho pruma desconhecida... falo com convicção: o inferno é alguém ter a brilhante idéia de, um dia, colocar o Celso Portiolli (o mini-Silvio Santos) comandando um programa desse tipo (se já fizeram isso, perdoem abençoem minha enguenorança). Quer coisa mais linda, o cara com aquela voz de oferta de supermercado trocando idéias com aquela macharada solta sobre a melhor cantada? Porra, melhor que isso, só colocando o narrador da Sessão da tarde pra apresentar um programa desses. Já imaginaram (hmm, me lembrei agora que a Desciclopédia já)? Ia rolar algo assim: "este cara vai aprontar altas loucuras em busca de um grande amor. Só que essa gata vai dar o maior trabalho pra ele. Não perca isso e tudo mais no programa de hoje, com várias provas e convidados num clima de muuuuuita azaração."