domingo, 25 de maio de 2008

Fascínio

O que mais nos fascina nos revolta na mesma proporção.

Deve ser por isso que gente me assusta. Quando vejo alguém, às vezes, involuntariamente, imagino como essa pessoa era quando criança. Isso deve ocorrer porque, além de me fazer lembrar que as pessoas nunca mudam, me faz pensar: por mais que o meio molde o sujeito, porque elas se deixam ser tão suscetíveis às influências negativas e experiências daninhas? Mais: porque gestos, cores e expressões me dizem tanto? Porque me atenho tanto a supostas convenções e presumidas impressões? Isso tudo fica para um segundo plano quando me espanto com o que outrem tomam por ambição, com as bobagens materiais que elas confundem com transcendência e tomam por filosofia de vida. Fico pensando nas hierarquias sociais tediosas e ridículas que as pessoas tomam por absoluto. E que eu, inevitavelmente, também assim as entendi um dia. Fico inferindo que não precisamos de mais fontes de frustração do que as que já temos. Temos traços de personalidade que nunca mudarão, pessoas que amamos cujas características também nunca mudarão, e realidades eficientes em sovar ideais e aspectos que nos trazem satisfação. Então pra quê mais metas unilaterais e rasas?

Mas não. Por mais que nos recusemos a acreditar na humanidade e nos ponhamos à margem dela, o que acontece? Somos envoltos pelo magnetismo duma coletividade que nos engole. Nos iludimos conscientemente com um olhar ambíguo, um argumento raso e uma impressão sofisticada. Queremos buscar o único nos outros. Ou ao menos algo único entre nós e eles. Não só não conseguimos como acabamos tendo de nos resignar ao que a mesmice pode nos proporcionar. Por vezes o que ela nos traz é suficiente; quando sabemos relativizar o que buscamos e domar o que nos entedia em nome de algumas reciprocidades, isso acontece. Mas estamos cercados de abismos. E pouco dispostos a procurar pontes entre as duas bordas. O trivial nos cansa na mesma medida em que nos inebria. Se afastar dele indica anseio por se aproximar não do inesperado, mas por encontrar o novo. Só o novo permite a nossos olhos revisitar a ingenuidade, a neutralidade e sinceridade de seus julgamentos. Permitir-se o agradável é mais um daqueles orgulhos que aprendemos a cultivar. Pensamos, 'não basta ser o suficiente, eu preciso querer'. Pensamento estranho este que encontra em outra precipitada inferência, 'só é suficiente se houver aprovação alheia', seu álibi. Ser senhor de si mesmo não significa deturpar o que sua natureza clama...

E é por isso que multidões me deixam envolto nesse inesperado estudo de caso. Vemos, in natura, as pessoas enxergando apenas o que querem. Querendo nos propagandear, com os mais variados sinais e gestos, que são independentes. As vemos fugindo do que condenam e sendo condescendentes em relação ao que condenam nos outros, e adaptando suas escolhas ao que não podem escolher. Ou seja, sabemos o que queremos, mas não sabemos ser sinceros em relação a isso. Precisamos o tempo todo buscar respostas fora de nós. O que não raro só traz mas perguntas, além de nos distrair da pergunta inicial. É preciso compromisso pra sermos nós mesmos. É quando estou entre multidões que observo hordas de pessoas dissidindo de si mesmas, sem álibis pra suas falhas nem vontade de se resignar a admiti-las. Legiões sem comandantes, passageiros sem tripulação. Não olhar pra trás, às vezes, parece uma opção simplista demais. A verdade é que nunca sabemos pra onde olhar. Então, até descobrirmos onde e o quê devemos vislumbrar, é mais divertido pensar os outros como peças de mostruário em vitrine. Onde, caso a peça não nos agrade, simplesmente andamos mais um pouco até encontrar uma outra que nos encante com algo que queiramos julgar único. Só o fascínio infundamentado nos faz continuar...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Manifesto tolerista

Rápido exemplo de tolerismo:

_ Cara, esse CD novo dos Loser manos é o máximo! Vou ouvir até furar! Que letras, que arranjos. E você, gosta da banda?
_ Não, eu tolero.
_ Como assim, tolera?
_ Ora, é uma bandinha com uma qualidade musical razoável, mas com pretensões artísticas altas demais. Resumindo: eles são razoáveis, apenas não estão com essa bola toda.
_ Nossa, você não gosta deles mesmo, hein?
_ Não, já falei que tolero.
_ Isso é implicância com o vocalista?
_ Não, é tolerância com ele. E com os outros integrantes também. Embora seja difícil distinguir um do outro, com tanta barba na cara deles...
_ Sei. E o que você gosta de ouvir nas horas vagas, bróder?
_ Gostar? Só tolero...
_ Cara, você já tá enchendo o saco. Quais suas bandas favoritas?
_ Você quer dizer as mais toleráveis?
_ Você tem cara daqueles que ficam o dia inteiro ouvindo música clássica.
_ Eu tolero sua suposição.
_ Mas sua antipatia, eu duvido que alguém tolere.
_ Ainda bem que tolero sua opinião. Principalmente agora, que ela veio sem ser solicitada.
_ Babaca...
_ Eu tolero sua exaltação.
_ Vou dar o fora. Fala com o Batman.
_ Eu tolero heróis que projetam suas estranhas taras por pássaros em suas fantasias...


Algumas súmulas a respeito do tolerismo:

* O tolerismo é uma evolução espiritual. Está acima do amor e do ódio. Acima do desgaste desnecessário em torno dos gostos alheios. Acima da necessidade de persuasão.

* O tolerismo tolera seus críticos. O tolerismo é falta de vontade. Ausência da necessidade de se apegar ao passível de se gostar ou de se odiar.

* Um tolerista de verdade nega até a morte divulgar as bandas e filmes que costuma ouvir/assistir. O sigilo é preceito fundamental ao tolerismo.

* Se deixar envolver pelos conceitos de belo contidos nas coisas que se gosta, cuja exposição um dia as fadará ao brega e ao clichê, é algo do qual o tolerismo poupa a seus seguidores. Apenas o universal e imutável interessa aos toleristas. Apenas o intrínseco, o necessário e o empírico.

* Tolerar envolve aceitação. Envolve perceber que gostos pessoais são mera extensão de umbigo alheio. Gostar ou odiar algo envolve caprichos desnecessários do espírito alheio. Efemeridades há muito superadas por um verdadeiro tolerista.

* Tolerar envolve desapego. Gostos pessoais moldam, discriminam e criam presunções alheias. O espírito tolerista repudia isso, mas incentiva, com propriedade, a crítica isenta aos elementos que constituem as preferências alheias.

* A isenção da visão de mundo de um tolerista, aos não-iniciados, facilmente se confunde com teorias malucas e observações infundadas. Mas isso é comum: se profetas permanecem incompreendidos em seu tempo, porque seria diferente com os toleristas?

* Alguns seguidores mais radicais por vezes acabam por fundar seitas dissidentes como o considerismo. Que, naturalmente, não passam de modas passageiras.

* Os não-iniciados presumem de imediato que os preceitos toleristas se aplicam a pessoas. Erro clássico: o tolerismo se estende a preferências as quais as pessoas têm arbitrariedade pra escolher, como bandas, filmes e livros. Pessoas são acidentes: elas não são como menus de restaurante, com opções pré-estabelecidas. Gostos pessoais são acidentes planejados.

* Apego a causas provenientes de gostos pessoais são exaltações condenadas pelo tolerismo. Que não se confunde com niilismo barato por se incumbir da nobre tarefa de escancarar as limitações de um derivado cultural qualquer, ao mesmo tempo que ressalta a individualidade de seus seguidores.

* Um tolerista não é eclético. Nunca!

* Tolerismo não é dogma! Historinha pra dormir é coisa de criança. Tolerismo não é ateísmo, já que não não envolve crença, mas sim coragem de se pôr contra o mainstream ao mesmo tempo que desdenha o underground. Uma busca por independência sob uma singularidade que se esquiva de qualquer tipo de modismo.

* Tampouco tolerismo é filosofia. O tolerismo tolera rótulos. Tolera definições. O tolerismo também tolera o súbito paralelo com certas filosofias orientais que ficou implícito neste momento.

* A essência do tolerismo é o mistério. Seus seguidores devem incutir aos a seu redor uma total incógnita em relação a seus gostos pessoais, para que com isso obtenham uma forma de pensar sem obstáculos impostos por seus gostos pessoais. Tolerar envolve não levar a vaidade, proveniente do amor ou do ódio, a sério. Vaidade cega.

* Tolerismo envolve civismo. Tanto é que, em qualquer parte do mundo em que o ódio abate diferentes povos, o que o mundo deseja a eles não é amor nem ódio: é tolerância.

* O tolerismo não é covarde. Ele se esquiva da cessão ao belo, mas se atém firmemente às inferências extraídas desse afastamento.

* O tolerismo tolera templos, ritos e outras efemeridades ritualísticas. É uma descoberta pessoal. Afinal de contas, gosto pessoal não se discute: lamenta-se. Mas se tolera quando o acesso a ele for involuntário e inevitável.

* Tolerismo não é subserviência: é repúdio ao fanatismo e estímulo a se reparar nos detalhes das coisas. O que as faz atraentes, as referências que as compõem, suas implicações e efeitos colaterais no comportamento alheio.

* Um tolerista de verdade desconcerta os que o abordam. Ele não deve buscar identificação; deve, antes, evitá-la. Identificação presume exaltações que levam ao amor e ao ódio. E é por isso que um tolerista de verdade, por obrigação, nunca deve reconhecer outro, mesmo que possa fazê-lo ou haja elementos que sugiram isso. Um tolerista busca individualidade, como outrora dito.

* O tolerismo vê o bom-humor com bons olhos. Estudos antropológicos hipotéticos sugerem que o tolerismo possui remotas origens deste. Não por ele ser um álibi perfeito de seus preceitos, mas por expressar, da forma mais leve possível, seus preceitos, sem necessariamente relegar, quem vier a usar dele, à indiferença.

* Ironia e sarcasmo, por outro lado, são primos pobres do tolerismo. Quando não o anulam de vez, tiram-lhe a isenção por relegar os falsos profetas à afetação. O tolerismo condena a afetação. Mas sua simpatia ao niilismo nos força a reformular a frase anterior: o tolerismo tolera a afetação.

* A opinião é a manifestação pessoal mais valiosa do tolerismo. Não basta tolerar, é importante fazê-lo com convicção, sem inclinações ao ecletismo, à indiferença ou à subserviência. Um tolerista de verdade teoriza infinitamente sobre seu distanciamento.

* O último grau do tolerismo é ter o tolerismo tão arraigado em seu ser a ponto de desconhecer o fato de se ser tolerista e alcançar a absoluta autenticidade de seu desapego às vãs buscas por auto-afirmação que o mundo oferece. Pensando bem, é mais fácil você ir morar nas montanhas.

* Tolerar, às vezes, envolve gradações. Por exemplo, quando fores questionado se gostas ou não de algo, não raro a única resposta sincera será 'eu não os tolero o suficiente pra assisti/ouvi-los.



Ao final da leitura desse manifesto, realize seu primeiro exercício em busca do nirvana tolerista. Repita a frase abaixo em voz alta:
EU TOLERO MANIFESTOS.

Agora pegue uma banda que você goste/deteste e, aplicando o tolerismo, repita três vezes em frente ao espelho:
EU TOLERO [NOME DA BANDA]

Agora pense num gênero de filme que você gosta/detesta e repita três vezes:
CANDYMAN


Pronto, já é um começo. Agora dê o fora e vá tolerar o mundo, filho.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pílulas

* Só tem graça sair de casa quando há um motivo pra voltar;
* Os melhores professores de matemática nunca se formaram na área;
* O que pensar quando o mercado 24 horas da cidade parece ter virado sucursal da vida noturna de onde você acaba de sair? Sim, é isso mesmo: que é um local muito do jeca de se viver...;
* Primeiro verbete de meu futuro Thesaurus para eufemismos: "vale-momento";
* Bandas que abatem minhas tentativas de treinar o otimismo quanto ao processo criativo da cena independente nacional: Ecos falsos, porcas borboletas, Zefirina bomba... lástima;
* Peças de teatro organizadas por turmas de Comunicação social: só eu me preocupo com a licença poética que esse povo usa pra escrever aquelas coisas? Definitivamente, leis de incentivo à cultura têm lá seus efeitos colaterais.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

É bom porque é trash (II)

É redundante eu me manifestar sobre o quão desinteressante é a programação da tevê à tarde. Mas não é eu constatar o seguinte: que os infomerciais, nesse ínterim, conseguem ser mais interessantes do que a programação habitual. Assim, pra vocês sentirem um pouco o drama da coisa, hoje acompanhei algumas chamadas de salão de acabeleireiro que vende peruca, e adivinhem: os dois malucos apresentando estavam de peruca. E uma propaganda de pet shop em que um dos apresentadores aparecia dentro de uma das casinhas de cachorro à venda no recinto. Um troço -- involuntariamente, lógico --, à la Hermes e Renato. O que dizer, então, duma outra chamada duma loja de persianas cuja dona tinha uma prosódia tão lenta que me lembrou dum professor meu que quase me fazia dormir, posto que o timbre de voz dele era quase um mantra de tão monótono e lento. Como dá pra perceber, dá de dez nos shows de caça-talentos dos outros canais; nestes, o povo crê piamente que os quinze segundos de fama que obtêm num quadro qualquer funcionam como a uma espécie de vestibular de comunicador, já nos infomerciais não, o ridículo alheio é 100% autêntico. Veja bem, neles dá pra você observar gente sem dicção alguma tentando propagandear o próprio negócio, dá pra ver os apresentadores puxando sardinha pros empreendimentos deles próprios e ainda dá pra ver os principiantes se constrangendo com escabrosas chamadas para as empresas que estão propagandeando (a impressão que fica é que às vezes até calouros de publicidade escreveriam esquetes melhores; digamos que seria uma disputa acirrada). Gente com tudo quanto é tipo de cacoete, sotaque, idioleto, vícios de linguagem... tem de tudo, meu. Pensa nos classificados de jornais, só que o povo dando a infeliz idéia de, em vez de dar dez palavras, dar um minuto (pois é: não estranharei se um dia criarem infomerciais pra acompanhantes, como os classificados de papel fazem). Convenhamos: é isso ou a) assistir a Marcia ouvindo um cara casado que atua na indústria pornô, com a esposa a seu lado no palco, b) um ator mirim qualquer aprontando altas confusões num clima de muita azaração na sessão da tarde, ou c) ouvir o Datena com aquela copiosa canastrice de sempre pra cima da criminalidade. Assim, gente que sente falta de programas como o Show de calouros tem em infomerciais a chance de disfarçar o vácuo deixado pela infame fórmula (se eu quisesse ouvir anônimos arrombando meus ouvidos em busca de fama, freqüentaria os circuitos alternativos de rock de minha cidade). Sei lá, eu admito que os anos estão me deixando cada vez mais tosco. Coisas que necessariamente deviam me fazer rir não o fazem mais. Em vez disso, o que me estimula algumas risadas é gente que as induz de forma involuntária. Assim, pega uma versão regional do Ciro Bottini e enfia num generoso espaço televisionado que se alterna nas tardes, nas manhãs e nas madrugadas? Pois é, é por aí o que tenho na lastimável programação daqui de casa. Respondendo à sua pergunta: sim, vocês vão agüentar textos sem propósito como esse até eu ter minha tevê a cabo de volta! Ela partiu há um mês e deixou saudade. Foi embora só porque fiquei quase seis meses sem pagar a mensalidade. E só porque os trouxas levaram quatro meses pra perceber o equívoco e cortar meu sinal. Vida besta...

Veja só, estou de volta. Mas não se preocupem, nos próximos hiatos pouparei vocês do draminha. Mas o período máximo de 30 dias entre um texto e outro permanece. Só pra isso aqui não se perder na poeira, mesmo...