domingo, 18 de novembro de 2007

Bloco de notas (V)

Duas amostras de minha memória fotográfica...

_ Oi, você é a Mayara?
_ Não, sou a irmã dela.
_ Vocês são gêmeas?
_ Não...

[mostrando perfil dum conhecido nosso com quem estudamos]
_ Olha só essa foto... reconhece a figura?
[dez segundos depois]
_ Cara, estudamos com ele há mais de três meses.
[dois segundos depois]
_ O Bruno, porra! Não lembra?
_ Aaaahhh...


...e uma de dicção alheia:

[digita na tela do computador, em um texto]
> Nessecidade
[apaga e corrige]
> Nessescidade
[apaga novamente e corrige]
> Nescessidade
[e eu do lado observando tudo, me segurando...]


E agora, mais algumas dicas de moda:
* Fala, fronhinha! [para menina com blusa azul bem escuro, de tecido liso, parecido com seda]
* Ainda estou pra entender o que se passa na cabeça de meninas que usam cortes de cabelo do século passado... [para menina querendo pagar uma de pinup com laquê em seu novo corte Chanel]
* Bolinhas... [para meninas abusando do meu fraco: bolinhas...]


Aviso para os supostos leitores dessa bagaça: só volto ano que vem. Minha cota de textos para esse ano já foi atingida. Portanto, pra não ficarem catando milho aqui, assinem meu feed RSS e sejam felizes. Até o ano que vem, são exatos 45 dias. Tempo suficiente pra preparar posts que não sejam totalmente inúteis. Fecho este ano com uma média mensal de 13 posts. Passeiem pelos arquivos com a certeza de que poderiam estar lendo coisa pior. Hasta la vista, baby...!


Sim, mudei de idéia. Às vezes os hiatos criativos terminam antes do que esperamos... enfim, sem mais desculpa esfarrapada, voltamos à programação (a)normal.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Filosofia de pano de prato

Deus é a paz que você procura. A mulher, inquietação que você acha.
A verdade ilumina. A mentira é gerador pra mantê-la acesa.
Eu e minha casa serviremos ao Senhor. Até porque todo o resto não servirá pra mais nada, mesmo... frasezinha mais feudalista, essa.

Nossa, só frase de cunho religioso. Até na cozinha padre tem seus meios de arrebanhar fiel e acalmá-lo ante suas ridícula existência...

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Hábitos virtuais...

...e implicações psicológicas das quais prefiro não começar a cogitar
* Gravar fotos de desconhecidos no computador;
* Dar mais credibilidade a textos com pontos-de-vista criativos do que a textos acadêmicos;
* Memorizar as mais obscuras referências em filmes, imagens e textos e, a partir delas, ramificar suas preferências em direção a coisas que ignorava há pouco;
* Contendas virtuais. Uma comunidade de cada vez. Uma vez ao trimestre, em média. Ou mais...;
* Confirmar a veracidade de dicas de filmes e músicas que lhes são repassadas por meio de críticas;
* Descobrir o afrodisíaco em coisas estranhas;
* Confirmar, qualquer que seja a forma, que pessoas interessantes se repelem, infelizmente. E que as que não são opostas, se repelem mais ainda;
* Evitar bookmarks. Rss são melhores;
* Desdenhar o e-mail, o sistema virtual de troca de mensagens mais capenga de todos os tempos;
* Brincar de censor. Apagar informações que não te interessam em seus espaços virtuais e ter acesso a vídeos e músicas polêmicos que, antes do computador, apenas os mal-comidos responsáveis oficialmente por censuras, tinham acesso.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Nascer mulher não tem graça...

Do site do Fantástico:


O isolamento foi capaz de esconder um fenômeno ainda hoje desconhecido, que teve origem séculos atrás, no norte da Albânia: mulheres que se comportam como homens. Elas cortam os cabelos, vestem-se como machos e fazem um juramento de virgindade, porque esta é a tradição.

“Eu sou uma virgem jurada”, conta uma delas.

Saímos de Tirana, capital do pequeno país balcânico de 3,5 milhões de habitantes. A caminho do norte, onde vivem as mulheres-homens, a nação islâmica tem mais cor. Nessas montanhas, um dia existiu um código de honra que ainda hoje inspira os moradores do lugar. Conhecemos Lule em uma igreja. Aos 53 anos, a encanadora está desempregada. Lule diz que no passado as mulheres do campo não tinham nenhum direito. Tornar-se homem era uma tentativa desesperada para sobreviver ou fugir da exploração.

"Para o macho, a vida é mais simples. A mulher tinha que trabalhar em casa e na terra. Os esforços físicos eram feitos pelas mulheres, mais escravas do que seres humanos”, explica Lule.

Elas eram impedidas até de herdar propriedades. Os homens faziam livremente o que queriam, quando desejavam. A conversão é prevista no Kanun, o código de honra medieval, de ética cristã, que contém as regras criadas pelos camponeses do norte da Albânia. O Kanun reconhece o direito da mulher de proclamar-se homem, de comportar-se socialmente como um homem e de conquistar todos os direitos reservados exclusivamente aos homens. O preço é a renúncia definitiva à maternidade, ao casamento, ao sexo. Uma virgem jurada deve manter uma vida celibatária para sempre.Foi assim que, aos 15 anos, Lule vestiu as calças compridas e aprendeu a conduzir um trator. Os pais ficaram felizes. Tinham dez filhas e apenas um menino. Lule tornou-se o segundo homem da família. Quando guiou pela primeira vez, sentiu o mundo nas mãos. Se ela tem namorada? “Não”, responde. "O meu afeto vai para os amigos".

Vida tem 70 anos, vividos com a liberdade de um homem de sociedade patriarcal e com a castidade de um monge. "Talvez eu seja fêmea, mas não me sinto mulher. Eu me considero mais um braço para trabalhar e ajudar”, diz. Vida passou os anos caçando e lidando com motores. Não se arrepende. Para fugir de um futuro marido imposto sem ferir a honra da família, fez os votos de homem.

"Quando tomei a decisão, 55 anos atrás, acho que choquei as pessoas, mas as mulheres já usavam calças embaixo das saias na lavoura. Fui também a primeira a andar de bicicleta neste povoado”, lembra.

Lendita, de 46 anos é muçulmana. Não vai à mesquita e nunca leu o Alcorão. Vive modestamente com a pensão da mãe. Foi por ela que muito cedo mudou de identidade. "Eu tinha 5 anos. Aconteceu uma tragédia na minha família. O meu pai morreu e então assumi o lugar dele para cuidar da minha mãe, porque ela não tinha filho homem”, explica.

Lendita passou sete anos na prisão por ter falado mal do regime stalinista. Hoje escreve suas histórias do cárcere. Gosta do que era proibido às mulheres, como o raki, a cachaça albanesa. Sem luz elétrica, Vida divide com amigos raki e tabaco. Na Albânia, elas são menos de 30, talvez as últimas virgens juradas.

"Não se pode voltar atrás. No passado, o juramento era feito diante das 12 pessoas mais velhas do povoado. Significava um papel assumido na sociedade, que não podia ser abandonado sem punição. O desprezo seria tão grande que era pior do que morrer”, observa o sociólogo Leke Sokóli.

"Jurei para mim mesma. E é para toda a vida”, garante Lule.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Pobreza viciosa

Ser pobre não é ruim, o ruim é quando a resignação a isso chega a tal ponto que sua alma torna-se tão barata que ninguém deseja comprá-la. Quando sua incapacidade ante quaisquer mecanismos sociais de subsistência é gritante. Quando sua única razão de existir é a de justificar o salário do assistente social fingindo se importar contigo para que sua presença como pedinte não machuque os olhos da classe média alta). Ser totalmente desprovido de dignidade e metas normais à maioria das pessoas é de um desapego às coisas materiais que apenas messias, profetas, monges e outras entidades religiosas entenderiam. Tem gente cuja existência é tão irrelevante que em absolutamente nada contribui à sociedade. Impostos, trabalhos indesejáveis, família, em nada eles são relevantes. Antes fosse; só atrapalham o mundo com uma prole de tamanho desconhecido, falta de formação pra tudo e existência tão desesperadora a ponto de gerar uma bestialização em sua personalidade.

Não estou dizendo que essa gente é a única culpada por sua infeliz existência. Organismos geridos por gente que vendeu a alma ao diabo, simpático representante de vendas do submundo, fazem isso muito bem. Mas estou dizendo que há gente, já desprovida de tantas coisas, que deixam de ser aptas a viver em sociedade. Algumas voluntariamente, o que é pior: quanta gente por aí que deixa de trabalhar por causa do Bolsa-família, Bolsa-gás, Bolsa-escola e outras constrangedoras esmolas do governo? Assim, as autoridades até que tentam arrebanhar esses exemplares indesejados de nossa sociedade, esses insumos da desigualdade social, com albergues, programas habitacionais e toda sorte de projetos sociais, mas tem gente lisa, que a nada disso consegue-se manter a pessoa ocupada. Gente que simplesmente se recusa a trabalhar ou, de alguma forma, se mostrar úteis. Gente que prefere viver nas ruas até perder o nariz de tanto cheirar e obrigar os filhos a mendigar quando a degradante vida nas ruas lhes minar a saúde.

Exemplos concretos? Flanelinhas que cuidam do seu carro sem serem solicitados. Além de ser um tipo de "ocupação" que incentiva perigosamente a informalidade, é o tipo de coisa que já legitimou no imaginário popular o trabalho dessa gentalha. Como se as ruas de toda uma cidade fossem uma enorme zona de prostituição livres pra quem bem entender pegar um trecho, chamar de ponto e começar a cobrar. Outro exemplo? Retirantes. Gente que vive em regiões de climas hostis do país e emigram para outras sem nada a oferecer. Não existe terra de oportunidades, existe terra de oportunismo. De gente que empreende até ter condições de manter seu patrimônio com gente que nunca perceberá essa realidade. Outro exemplo: pedintes (os voluntários, que se recusam a buscar trabalho), inclusive os com algum tipo de deficiência/doença (que posam de coitadinho). Usar da compaixão alheia pra ganhar uns trocados? Porra, isso é uma prostituição moral. Se desprovir de qualquer tipo de orgulho e dignidade pra isso é deixar de ser um ser social. A pessoa deixou de ser cidadão quando se sujeita a depender de capital alheio pra comprar pinga. Toda sociedade é um ecossistema, e quando se passa a apenas extrair pra nada a ela retornar, algo está errado.

Tem país que não admite mendigagem sob hipótese alguma. Nosso país não, parece incentivar a degradação humana ao ser conivente com isso. Parece se sentir confortável em ficar nessa política de morde-e-assopra com seus pobres sem se importar com o ocasional transbordar dessa pobreza que ninguém quer ver. Nós incentivamos o conformismo. Incentivamos o hábito de não buscarmos as coisas com nossas próprias mãos e pensarmos por nós mesmos. Incentivamos o hábito de nos fazermos dependentes do paternalismo e do assistencialismo preguiçoso usado como álibi pra justificar voto. Ignoramos nossos pobres até que sua revolta se transpareça nas indesejadas mudanças em nosso estilo de vida. Os ignoramos até o momento em que eles se transformam em problemas pra sociedade, imersos numa tal ignorância que, quando justamente precisarmos deles pra tentarmos buscar soluções, eles estão inaptos a nos auxiliar. Fazemos por merecer o jovem desperdiçando sua infância cuidando de nossos carros...

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Flíper de rodô


Jovens, este meu achado refere-se a um dos arcades mais peculiares pelos quais já passei. Esta aberração responde por Power Instinct. Lançado em findos de 1993, este jogo de luta tinha uma peculiaridade, aliás a única que lhe faz fugir por pouco do abismo do ocaso de muitos jogadores: um de seus personagens é uma velhinha, pertencente a um clã ao redor do qual a trama do jogo se desenrola. Ela poderia estar em casa tricotando, ou entando em decomposição numa fila do INSS, mas não: ela se mete a descer o cacete numa galerinha com idade pra ser seus netos. O curioso nela é que a anciã é inderrotável. O Chin do KOF é inofensivo perto dela. Ele usa sua garrafinha de saquê pra te descer o cacete, ela usa a própria dentadura. Escatológico, não? Com isso, enfrentar essa personagem e derrotá-la é daquelas façanhas que adquirem caráter de lendário, de tão difíceis que são. Lembram-se da impossibilidade física de se derrotar o Ken quando ele começava a soltar hadoukens em zigue-zague nos Street Fighters de rodoviária? Pois digo, sem brincadeira, que toda vez que eu passava por essa máquina, via sempre a mesma história: o cara podia estar abafando, derrubando todos os personagens, mas não tinha choro: chegava a velhinha, a brincadeira acabava. E um detalhe: repararam no ninjinha ao fundo? Ele era uma espécie de bandeirinha do jogo, indicando cada golpe. Além desse jogo, só em Samurai Shodown eu vi tamanha inutilidade.


Tava pensando à toa, se eu trabalhasse com o marketing da Corega e tivesse visão, tranqüilamente lançaria um viral na web com imagens desse jogo, apostando no quesito nostalgia e agregando valor com uma referência kitsch do mundo dos videogames (com certeza, resultaria em algo menos mongolóide que as propaganda da Colgate). Melhor que pagar cachê pra atriz decadente na Grobo. Nada pessoal, Arlete Salles... =p

domingo, 4 de novembro de 2007

Beleza é ópio


Você acredita em pessoas irresistíveis? A dona desse blog aqui diz que não, mas eu penso duas vezes antes de me responder a essa pergunta. Nunca vou me esquecer dum incidente de quando eu estava começando a faculdade. Jogando conversa fora com alguns amigos que conhecia ainda há pouco tempo, uma loira que iniciou com a gente nos acompanha. Ela pediu preu deixá-la num shopping nas imediações. Aí beleza, fomos os quatro ambulando estacionamento adentro. Os outros se despedem mas eu estranhamente fico estático por alguns segundos. E ela lá, quase sem entender. Deve ter sido a primeira vez que eu fiquei paralisado por causa de beleza alheia. Não estou babando ovo pra menina mas, por Deus, que guria linda! Do tipo perigosíssima, que se um dia cogitar usar a atração que exerce nos outros pode facilmente destruir reputações. Segundos depois me recomponho, tento não ficar desengonçado enquanto a peço para entrar no carro. O percurso até o shopping é menos de 150 metros mas juro, juro mesmo, que achei que ia bater de tão balançado que aquilo me deixou. Um loser enrustido que jamais leva mulher alguma em seu carro, e de repente aquilo no meu banco do passageiro. Foi estranho. Não por eu ser ridiculamente tímido na época, mas por como eu fiquei. Eu nunca fui do tipo de ficar beijando chão onde mulher pisa; pelo contrário, preciso me vigiar o tempo todo pra não ser seco, cínico ou ao menos passar essa imagem. Eu não conseguia olhar pro banco do passageiro; as palavras pareciam se emaranhar cabeça adentro. Ela não era areia demais, era uma praia inteira demais pro meu caminhão! Sei lá, atribuo meu estranho comportamento a feromônios, não é possível. Lembram-se de Perfume, aquele filme em que Jean-Pierre cria a fragrância definitiva, que destitui, a todos que a cheiram, de qualquer tipo de discernimento? Meu, me senti daquele jeito. A guria ficou apenas uns dois meses lá no curso. Uma irreparável perda. Fiquei sem onde fugir com o olhar durante as aulas. As outras que ficaram pareciam auxiliares de pedreiro perto dela. Tá, admito que na época eu era vulnerável demais, mas muitos teriam minha mesma reação nesse caso. Definitivamente, o mal do mundo é mulher bonita. Não pela futilidade ou por quaisquer outros caracteres de sua personalidade (prioritariamente), mas pelo fulminante efeito que suas agradáveis presenças acometem aos cuecas a seu redor. Gente assim devia andar de véu na cabeça; voz meiga e rostinho bonito são mais fracos que carne. Para obter acesso à carne, o mundo tem suas formas de impor impostos; a todo o resto, bastam os olhos de quem estiver por perto.


A imagem deste post é parte do portfolio de Ann Stewart Anderson, artista plástica cujo tema 'Mulheres mitológicas justapostas' pode ser conferido em seu site oficial, clicando-se na imagem. Pensei em adicionar a justaposição Afrodite-Marylin, mas a descrição desta funciona bem melhor... confira abaixo:

Circe was the daughter of the sun and was attractive to men. She seduced them by feeding them delicious food to which she had added potions which produced incapacitating effects so that they became focused on sensuality. When Odysseus visited her island domicile he was tempted by her charms, and barely escaped becoming one of the host of men whom the sorceress had changed into beasts.

Monica was a young woman who was attractive to men. She enchanted them by giving gifts, encouraging clandestine sexual activities and engaging in nocturnal phone sex. She used her seductive powers to produce incapacitating effects on men so that they became focused on sex and could not do productive work. Through her sorcery men were changed into beasts.

sábado, 3 de novembro de 2007

Império do academês

Sabe o que mais me irrita no mundinho acadêmico nacional? É o preciosismo. Há tanta preocupação do brasileiro, pesquisador com complexo de inferioridade por natureza, que o que acontece? O texto fica tão emperequitado com extravagâncias vernaculares (como as duas palavras que acabo de usar) que há pouca precisão nas terminologias. Teorias que poderiam ser introduzidas ao estudante de forma concisa e prática é escondida em textos enfadonhos e prolixos. Aliás, a prolixidade é outro tumor na cultura do academês de nossas universidades. Brasileiro se preocupa com tamanho. Ele prefere ler 350 páginas de um autor conhecido mas chegado em rodeios do que ler um menos conhecido que vai direto ao ponto, que não precisa usar sua influência nas rodinhas acadêmicas como pedestal pra combater sua auto-crítica. Digo isso com propriedade por causa do projeto de pesquisa que estou fazendo barrigando nos últimos meses. Alguns textos eu li em inglês e, jovens, quanta diferença! Em inglês, a terminologia é usada com confiança e precisão pelos pesquisadores, as limitações de alguns textos são reconhecidas pelos próprios autores, os argumentos que sustentam o que é exposto na pesquisa é trazido à tona sem medo de que isso reduza o que o texto científico teve a dizer... agora, o que encontramos nos autores nacionais? Uma teorização temerosa e covarde. Que muitas vezes tenta desesperadamente afastar de si mesmo a idéia de charlatanismo dando status de pioneirismo e empirismo a gente como Paulo Freire. Fala sério, só porque o velhinho deu aula pra meia dúzida de criancinhas na África ele merece toda essa veneração que as pedagogas dão a ele hoje em dia? Pelo jeito, a condição de exilado confere uma injusta ascensão intelectual a certos autores. Ou seja, brasilriro tem muito desse ranço com política. O vigor teórico de nossos intelectuais é tão tímido que eles preferem nos distrair fazendo sondagens sobre as motivações políticas por trás de nossa produção científica. Que merda meu, até nossa mão-de-obra acadêmica se rebaixa a ser cabo eleitoral de ideologias políticas falidas. E quando isso não acontece, o que resta? A resignada mediocridade de sempre, empalhada com o maledetto preciosismo!

Observando isso, o que concluo? Que o mestrado, e seus textos em outras línguas, será bem mais cativante do que essa graduação de merda cheio de autores medrosos com pouco a me dizer. A falta de confiança é tanta que sequer nos é confiado os autores que criaram as teorias. Em vez disso não, somos rebaixadso a ler textos sofríveis de outros atores e seus pálidos pareceres a respeito dos autores. Só pra citar um exemplo, foi exatamente o que ocorreu comigo ao estudar o Estruturalismo. Poderia ter estudado os livros escritos por gente como Saussure, Lévi-Strauss, Barthes, Bakhtin, gente que teve algo a dizer, mas não: a mentalidade da universidade em nosso país é secundarista. Ainda há aquela mentalidade de "abram o livro na página tal, decorem essas regrinhas inúteis e estudem apenas até a página tal para a prova". Como se se dar ao trabalho de ler um livro inteiro fosse um obstáculo intrsnsponível, atenuado por aquele monte de folhas de xerox que só servem pra calço de porta. Sinceramente: o Brasil só teria a ganhar se demitisse todos os atuais professores de suas planilhas das universidades públicas, exportasse todos os seus docentes e cogitasse seriamente em privatizar essa merda toda ou fechar todas as universidades públicas. Um ou outro: porque hoje em dia universidade serve pra quê? Serve pros CAs virarem albergue de riponga e depósito de vinho barato pros saraus. E as vagas oferecidas? Mais de trinta cursos ruins de doer só continuam abertos pro título de universidade não se perder enquanto que apenas os cursos que realmente têm procura permanecem abertos, aumentando ainda mais essa ferida exposta da desigualdade social. A função da universidade pública, em teoria, é a de democratizar o acesso ao ensino superior. Já que isso não acontece nos cursos mais exigentes e procurados, o melhor seria fechá-los. Gastar nossos impostos pra quê? Pros berços-de-ouro se formar às nossas custas? Pra cursos horríveis continuarem a gastar o tempo de quem os adentra esperando uma formação decente? Num país em que mais de 90% da educação superior é particular, a razão de ser das universidades públicas se perdeu há muito. Empreguem nossos impostos pra outras coisas e não iludam mais nossa juventudade com essa aura paternalista de levar o ensino aos nossos jovens. Porque isso, sinceramente, nunca aconteceu. Não é porque eu sei onde fica Roma que terei condições de ir pra lá um dia. E assim se procede com nosso ensino. Sabemos onde chegar, mas não nos é dado recursos para tal. Como toda a produção científica nacional que iniciei o post falando.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Coisas que não fariam falta nesse mundo

_ O primeiro filme pornô das Gretchen, ex-gostosa evangélica (que encontrei certa vez entre os torrents que o povo baixa aqui em casa). Por Deus, o que leva alguém a isso? Uma aparição no Superpop? Uma bronhazinha alheia? Aluguel atrasado? Felizmente, o primeiro pornô geriátrico brasuca da história deve ser o último. Foi ao menos o que a própria disse esses dias na tevê. Houve quem se deixasse vitimar pelo trauma indelével de assistir tal aberração, e essa gente garante que numa das cenas pode-se ouvir a velhinha soltando um metanozinho básico durante as cenas. O horror, o horror.
_ A reconquista, filme de teor cientológico do John Travolta. Não, espere um pouco: esse filme merece o troféu BNO; numa outra ocasião falo dele...
_ A pareidolia dos apaixonados. Tanta gente ao meu redor, radicamente imbecilizada por uma paixonitezinha que os impede de empunhar quaisquer tipos de rédeas. Gente que dá a sua vida pra alguém que não precisa dela. E que, mesmo se julgasse precisar, não saberia o que fazer com ela, eterna residência do perigo. Mal sabemos o que fazemos com a nossa, que o diga com a alheia.
_ Vídeos de mulheres bêbadas tropeçando, conspirando e se beijando, bagunças em sala de aula, tombos e fraturas expostas de dar inveja a muito dublê e outros momentos antológicos do ócio alheio. Meus quase 4 giga de vídeos que o digam...
_ Quadros televisivos do tipo "faça uma encalhada feliz por semestre". Porra, que desperdício: micaretas servem pra isso. E pra aumentar os índices de natalidade...
_ Propagandas de toda sorte de produtos odontológicos. Das medonhas escovas falantes da Colgate à Arlete Sales vendendo Corega, ninguém está a salvo.
_ Concursos públicos. Se quisesse tanto vagabundo assim empregado à custa de meus impostos, abriria uma empresa fantasma. Mais fácil que arrumar um pistolão decente e menos burocrático. A única sindicância feita em respeito ao modus operandi de suas atividades atende por simpáticos nomes como CPIs e processos dos MPs da vida.
_ Blusas com ombreiras. Daqueles fantasmas dos anos 80 que as mulheres mais bregas caem no acinte de usar, normalmente com tailleurs em ambiente de trabalho. Queridas, ombros não são afrodisíacos! Deformar o tornozelo com saltos masoquistas e retomar práticas vitorianas com calças dois números menores que o de vocês tudo bem, mas me poupem dos ombros, sim? A menos que você não se importe em parecer um morcego de asas atrofiadas...
_ Talk shows. As opiniões realmente interessantes não precisam perder tempo buscando o melhor ângulo para a câmera. Sem falar que a opinião de certas corjas tem efeitos, ainda a ser comprovados, de retardo mental. Músico, ator e diretor: se quisesse atrofiar algumas de minhas funções cognitivas passaria a ler a Contigo, e não a zapear no Jô... wow!
_ Telemarketing. O (des)serviço que as empresas mais conseguem desagregar valor: reúnem em apenas um serviço tudo o que o público mais detesta. Propaganda não solicitada (seu nome deve ter sido vendido até pra sex shop e você nem fica sabendo), atendentes treinados em insultar a inteligência do cliente, gravações irônicas que debocham da auto-estima do consumidor, demora no atendimento, músicas de elevador durante as esperas, e o fato mais apavorante de todos de se constatar que toda essa tecnologia é usada em vão não pra se eliminar, mas pra se ressaltar o intermediário humano. Prestação de serviço não é pra isso; SACs e campanhas publicitárias são pra isso. Porra, hoje em dia faço quase tudo em banco sem ter de aturar um moleque em treinamento do outro lado do balcão tentando disfarças as gírias da periferia ao me atender. Mas nããããão, a maioria das companhias precisa insistir nesse teatrinho infame de dar ouvidos ao consumidor e fornece esse maldito serviço. Sonho com o dia em que, como nos filmes, possa fazer tudo por conta própria, por meio de máquinas de xerox públicas, máquinas fotográficas públicas, terminais de auto-atendimento de toda sorte, drive thrus que me poupem do rosto sardento do atendente sendo sodomizado em seu primeiro emprego...
_ Agiotas. O que uso atualmente nem parece um banco.
_ Prostituição. Hoje em dia não há mais pontos, o que há é filiais. De quatro rodas, importadas, e cujo IPVA sai mais caro que o computador em que digito este texto. Sabe aquelas etiquetinhas colocadas em maçanetas de hotéis? Uma dessas para a de carros assim faz-se muito necessária. Sabe como é, a fila anda... e quanto às prestadoras de serviço, você se pergunta. Disputar espaço nas calçadas com flanelinha tira o glamour da profissão, entende? O esquema é ir até o cliente. E usar o pé-de-meia pra faculdade (afogar o ganso com gírias da periferia é broxante, não é mesmo, minha gente?). Sabe como é, hoje em dia, só com ensino médio, nem elas...

Resetting

Vontade de sumir. Cansaço. Não falo de mais uma ressaca existencialista, aparentemente: falo de niilismo. Não há vontade de crer em instituição alguma; ideais viraram sinônimo de ideologias e idéias de repente se rebaixaram a mera propaganda de coisas e conceitos sem data de lançamento. Esse é um aspecto desse meu desejo; o outro seria referente às conveniências pessoais. Sumir seria muito conveniente por vários motivos: pra zerar preocupações, zerar expectativas, zerar esse corpus por demais hierárquico de nosso dia-a-dia, zerar o tédio e constrangimento por trás das limitações nas relações humanas simplesmente evitando-as e anulando a incidência delas. Dizia Oscar Wilde que a ambição é o último recurso do fracasso. Que provocante, essa citação. Como todas dele, naturalmente. Fico apenas com essa pra não ter de escrever outro post só com citações...

Quando chega-se ao ponto de se rejeitar o socialmente aceitável e se besuntar de cinismo para nada reter (aparentemente, lógico) do grotesto da sociedade, o que acontece? Quando é que conquistas perdem a graça? Quando é que conhecemos aos outros mais do que deveríamos, e menos a nós mesmos do que deveríamos? Quando é que a vida torna-se um filme ruim sem trilha sonora, sem elenco e apenas com figurantes? Caio no lugar comum de dizer que faria tudo igual se houvesse uma segunda oportunidade de refazer certas coisas. Mas digo isso porque, tenha certeza, toda a força que temos pra marcar algo em nossas inúteis existências já foi empregada. Todos vivemos com todas as forças; desperdício só é algo sinceramente consciente quando discorremos sobre o que vivemos. Se aparentemente isso não acontece contigo, então tem gente se superestimando demais por aqui...

As emoções nos aprisionam. A ausência de algumas delas, aumenta a pena. E esse tipo de paradoxo nos faz buscar por efemeridades que nos distraem do que realmente importa. No final das contas, a vida acaba se reduzindo ao microcosmo de um emprego que você detesta: você só continua empregado pelo que você aparenta ser capacitado, e só não pede demissão porque a única reciprocidade entre você e seu chefe é a mesma letargia de hábitos. Ambos estão cansados demais pra atender a suas vontades: um por comodismo, outro por niilismo. Atribuir culpa disso a algo/alguém torna-se um recurso tentador e confortável. E nisso sua vida se transforma: numa contravenção sem álibis decentes...