quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Troféu Bonitinha mas Ordinária (IV)


Nada contra essa louraça, mas não posso perdoar as recentes investidas no nefasto universo da comédia romântica perpretadas por essa atriz. Até O pagamento, que ela fez com Aaron Eckhart, parece perdoável. Mas novamente ressalto que não gosto de obviedades, e não é (apenas) por isso que emprego esse dedilhar no teclado torpedeando a Uma o suficiente pra justificar minha indicação ao troféu Bonitinha mas ordinária. Sustento meus argumentos com um surrealista filme de Gus Van Sant: Even cowgirls get the blues. Gus conseguiu reunir um considerável elenco para um filme tão dadaísta e bizarro como esse: Keanu Reeves e Pat Morita estão por lá também. Além de japonês estereotipado, qual era a utilidade do Pat em Hollywood? E o Keanu? Como ele se atrevia a se considerar ator no começo dos anos 90, pouco após Muito barulho por nada e Billy e Ted? Melhor ainda, qual a utilidade da Uma num filme desses? Protagonizando uma personagem esquisitona cujos polegares são de tamanho bem acima do normal, ela segue sem rumo pela vida pegando carona por todo o país, tirando proveito de sua inusitada dádiva que a genética lhe proporciona na película. Nesse ínterim, sua agente lhe indica uma propaganda que está sendo feita um racho com gente ainda mais bizarra do que as que aparecem no começo do filme. E daqui pra frente não tenho mais nada a dizer; só vi trinta minutos desse dispensável filme. E isso porque eu o vi na toda-prepotente HBO. Fazer o quê, até a locadora mais cara do mundo exibe filmes cujas fitas VHS servem apenas como calço de porta da seção erótica.

A propósito: pra não abarrotar o blog com edições de nosso troféu, anuncio neste momento que tornarei a premiação quinzenal a premiação se tornará bem mais esporádica. Já posto besteiras mais do que suficientes pra ficar testando a paciência de vocês (e a minha) com posts assim.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Empregos inúteis

Vivemos num mundo estranho o suficiente pra constatar que pessoas com trabalhos irrelevantes para a sociedade ganham muito mais que você. Modelos, dublês, maquiadores de defunto, investidores de risco, fotógrafos de nu, assistentes (de todo tipo, dos que limpam as intimidades de lutador de sumô aos que ajudam a arrancar calças de couro de roqueiro), vices, flanelinhas (e toda sorte de emprego informal que impõe às pessoas serviços que elas não solicitam)... Em vez de me revoltar com esse injusto deslocamento de riquezas para os idiotas, tento levar em conta a seguinte constatação: a única utilidade de empregos inúteis é o fato de desafogarem a procura pelos úteis. Pena que a profusão disso seja mínima. O comunismo tentou sustentar o cerne desse meu aforismo, mas falharam miseravelmente. Repare: os governos sob essa ideologia, na tola tentativa de pôr os camaradas de igual para igual, tentavam encaixar todos os populares num ocupação qualquer. Ignoravam os conceitos de vaidade, ambição e aspirações do indivíduo. Ignoravam também a necessidade de eficácia: quanta função inútil que era criada apenas pra sustentar uma hierarquia propagandista dos governos! E mesmo quando o conceito de eficácia era levado em conta, este era drasticamente seguido ao pé da letra, submetido aos caprichos do orgulho ufanista, de proporções economicamente insustentáveis, de seus políticos; não que a máquina de nosso Estado seja muito diferente disso. E quanta função útil desprestigiada em busca dum impossível equilíbrio dessa balança social.

Bom, os ventos da História passaram: provaram que eles estavam terrivelmente errados, mas não conseguiram deter a propagação de empregos inúteis que levam vários fúteis e medíocres ao prestígio social, em detrimento dos empregados em trabalhos úteis. Se a globalização pode nos trazer algum consolo a respeito disso, é o fato de democratizar o empreendedorismo. Espero ainda viver num mundo em que haja cotas para certos empregos. Seria mais honesto do que observarmos nos telejornais as intangíveis tentativas de nossos políticos de aumentar o número de empregos formais. Imagina: maluco termina a faculdade, constata que a cota nacional para profissionais em sua região já foi atingida, e o que faz? Pode tomar a cota como incentivo para buscar uma outra área que precise de seus préstimos, ou pode ficar chorando as pitangas tentando entrar de pistolão num emprego qualquer em sua área. Vai me dizer que precisamos de tantos advogados assim no mundo (por exemplo)? O estabelecimento de cotas incentivaria um remanejamento de mão-de-obra que seria mais prático à pessoa do que esta se tornar um profissional medíocre numa desesperada tentativa de manter o emprego e outros motivos de ordem pessoal que necessariamente confluem pra seu desempenho profissional. Se bem que uma proposta dessas resultaria em algo parecido que ocorre hoje em dia com os sem-terra (eufemismo sindicalizado pra arruaceiros). Outra forma de emprego inútil. Porque esmola de governo, faça-me o favor, não tem tanta utilidade quanto nosso presidente gosta de nos fazer pensar. Veja bem, o ganancioso pensa, "vou trabalhar honestamente pra quê? Eu vou é me filiar ao MST pra passar o resto da vida grilando terra e ganhando o meu à custa duma distribuição fundiária irresponsável!" Pensando bem, eu devia me filiar ao MST; já estou usando meu canudo como calço de porta, mesmo...

Mas voltando a falar duma positiva função social que os empregos inúteis poderiam vir a ter, tomemos como exemplo a mentalidade das autoridades européias em relação a emprego. A qualidade de vida nos nativos é tal que eles, recebendo uma boa educação aliada a oportunidades reais, se recusam a assumir certas funções. Ninguém estuda pra ser gari, certo? Taí a política do "dêem-me seus pobres" da UE: não se deixe enganar pelos xenófobos esperneando enquanto espancam um taxista indiano até a morte; eles precisam dos pobres dos outros, já que nem os seus próprios querem fazer certos trabalhos. Onde os empregos inúteis entram aqui? Simples, num continente em que as autoridades preferem pagar um razoável seguro desemprego pra você não procurar um emprego, em busca de estabilizar as poucas vagas que surgem, os empregos inúteis caem como uma luva: devia haver incentivos fiscais pras ocupações bizarras, mediante uma comprovação (socialmente inúteis, mas com oferta e procura suficientes pra sempre existirem). Se eu fosse um governante, não veria mal algum em dar incentivos fiscais a assistentes duma dominatriz, por exemplo. Veja só, a pessoa não está esquentando assento de repartição nenhuma nem tirando vaga de outros; está apenas trabalhando com as esquisitices sexuais alheias. Ou seja: um trabalho que não demanda gastos públicos sustentados por impostos, nem assina carteira. A menos que você conheça um daqueles auxiliares -- que passam óleo em modelo posando pra revista masculina -- com carteira assinada (imagina o que geral lê no SINE, quando o maluco apresentar sua carteira: "experiência anterior, besuntei a Juliana Paes"). Se bem que hoje em dia até gandula é sindicalizado, então é melhor eu ser cuidadoso com certos argumentos...


Só pra provocar: quiroprático é charlatão ou emprego inútil?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Bem amigos da Rede Grobo, falamos ao vivo...

Porque não assisto ao campeonato brasileiro (e congêneres futebolísticos), pergunta-se o desavisado leitor? Não, não é prioritariamente pelo fato de tal campeonato atrair vovôs demais que se recusam a se aposentar, como o Romário ou o Edmundo. Nem as fortes emoções dignas de episódio de ER (sic) de ver arquibancadas desabando ou jogadores morrendo em campo. Muito menos pra ficar por dentro ao acompanhar as acaloradas e bem-resolvidas mesas-redondas canais afora. É porque não há surpresas. Veja bem, o São Paulo provavelmente vai angariar outro caneco pra sua prateleira, os times cariocas vão passar o torneio todo tentando escapar do rebaixamento, os corintianos com certeza vão fazer pirraça arrumando briga com outras torcidas, a existência futebolística dos gaúchos só será lembrada quando conquistarem um campeonato menor sul-americano (em final contra um timeco boliviano qualquer desacostumado à baixa altitude) e quaisquer times do norte ou do nordeste terão a única função de figurantes na tabela: em cinco ou seis rodadas voltarão à segunda divisão. Outro motivo plausível é o êxodo de talentos: quando um jogador decente salta aos olhos da torcida, do bolso dos campeonatos europeus saltam generosos passes pra levarem esses jogadores embora. E depois reclamam porque nossa seleção nem em amistosos exibe entrosamento. Mas enfim. Encontrei neste blog uma inferência muito melhor que a minha pra menosprezar bretão esporte. Segue:

O esporte em si é uma atividade nobre. Nobre enquanto for um lugar para jovens aprenderem a trabalhar em equipe, aprenderem um pouco de disciplina e solidariedade. Após esta contribuição, o esporte não é mais importante que qualquer outra atividade. Mas no Brasil nos rendemos a tudo, inclusive a idéia de que uma vitória no futebol representa uma vitória em nossas próprias vidas… E isso nunca vai ser verdade. É só uma diversão queridos…

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Troféu Bonitinha mas ordinária (III)


Melanie Griffith e uma ponta fortuita de Malcolm McDowell? Esse é Tempo, típico filme de história solta o suficiente pra figurar no Corujão que um sábado entediante me fez assistir. Aqui tenta-se contar uma história por meio de flashback. Mas o enredo é tão desinteressante que esse valioso recurso cronológico foi lamentavelmente empregado aqui. Difícil saber o que é mais caidinho, se as pretensas reviravoltas tentadas pela trama ou se o rosto da atriz, que mais parece seringueira sem látex de tão repuxado e sovado pela idade que está. Ponhamos a situação nesses termos, pra vocês terem uma imagem melhor da Melanie nesse filme: as têmporas de Felicity Huffman parecem um tapete perto das da Melanie. Sem falar nos ridículos erros de pós-produção: uma morna perseguição em Paris que passa por uma rua de Berlin. Sim, tá lá; (não) assista e confira. Filme típico de bandejão das Americanas7 considere-se com sorte: apenas acessos de sadismo do acaso farão esse filme cair em suas mãos (ou no canal pelo qual você estiver zapeando).

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Coisas nas quais sou bom

_ Ser especialista em não ter visto filmes que TODOS já viram;
_ Me indispor com pessoas sem sequer falar com elas;
_ Ter opiniões heterodoxas o suficiente pra eu mesmo me levar a sério;
_ Fingir que as manias alheias não me irritam. Tome nota que só faço isso pra não considerar as pessoas imbecis o suficiente pra privá-las de minha companhia. E pra não reprovar por falta na faculdade, claro;
_ Dar privacidade aos outros;
_ Encontrar coisas pra gostar que ninguém mais gosta. Não é o máximo admirar algo sem ninguém, de seu conhecimento, pra demonstrar maior conhecimento acerca de sua nova predileção?;
_ Camuflar minhas preterências (pre-te-rên-cias) tentando usar a situação indesejada de forma racional;
_ Encontrar conhecidos contra a vontade justo naquele dia em que você quer assistir a um filme ou a uma peça sem ser encontrado por terceiros pra verem como você é patético o suficiente pra ser forçado a sair sempre sozinho pra certos programas (e como a vaidade lhe é secundária);
_ Usar a antipatia de forma homeopática ao espírito;
_ Permanecer isolado pelo simples fato de não haver identificação alguma entre os a seu redor;
_ Alimentar essa sensação de desajuste e indiferença que me desafia cada dia mais a me levantar da cama;
_ Abortar o estabelecimento de novos contatos virtuais por estes não propiciarem uma proximidade que apenas o contato real daria às relações pessoais;
_ Não conhecer as bandinhas da moda;
_ Fazer pouco caso de como os outros se vestem;
_ Colocar-se no lugar dos outros. Uma recíproca que nunca é verdadeira;
_ Usar comparações esdrúxulas pra reduzir a pompa de comentários alheios;
_ Auto-crítica;
_ Fantasias megalomaníacas em que despejo doses infundadas de ira aos a meu redor;
_ Imaginar formas de dominação aliadas ao sadismo e à criatividade quando alguém passa por mim e tais divagações surgem tendo este alguém como alvo;
_ Lembrar detalhes técnicos muitas vezes inúteis;
_ Subestimar minhas virtudes e escondê-las com defeitos pra ninguém ficar criando expectativa;
_ Usar do pragmatismo pra evitar tentativas de intimidade (em quaisquer níveis);
_ Monólogos internos (se meu inconsciente soubesse empunhar lápis e papel, humilharia Cícero toda vez que me pusesse a conversar com os dois pólos de meu cérebro);
_ Esconder as preferências pra evitar escamoteamento, sem permissão, de minha personalidade;
_ Ter sonhos em preto-e-branco cheios de experiências sinestésicas pra me expressarem muito sem dizer nada.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Troféu Bonitinha mas Ordinária (II)


E com vocês mais uma edição do troféu BNO (Bonitinha mas ordinária). Mais um rostinho lindo cuja penosa aparição na película nem a bronha dos de mão cabeluda justifica. Valiosas lições de como queimar dinheiro de executivo hollywoodiano. De como travestir filme de fundo de locadora de relevante alternativa indie. O único prêmio na sétima arte dedicado à mediocridade você encontra aqui. Hora de apertar o botão voltar de seu browser e se poupar de algumas aberrações... lembre-se disso toda semana: tenho a intenção de tornar esta premiação encosto semanal.


Um filme com a Meg Ryan sem um romancezinho açucarado? Sim, isso existe. Mas não tem nada de kitsch como a loirinha gostaria; é só ruim, mesmo. Nem ruim é o suficiente pra virar cult, trash ou símbolo de geração/zeitgeist. Que loser, essa atriz. Como facilmente se constata, a Meg é daquelas atrizes que fica tanto tempo atuando num gênero só que, quando tenta crescer como atriz num filme mais sério, o que acontece? Vira vítima fácil de filme indie ruim cuja única razão de ser produzido é gente querendo tirar casquinha de produtora desavisada. Eis o mote de Em carne viva, filminho independente que ela protagonizou como... como Meg Ryan, claro! Ela é tipo Robin Williams e Eddie Murphy, sempre encarna o mesmo personagem em seus filmes. A única diferença são algumas cenas de nu devidamente distribuídas ao longo do filme numa tentativa desonesta de prender a atenção de quem assiste. Nessa queda livre ela se junta a Kevin Bacon, que ganharia mais abrindo escola de dança pra ensinar seus passinhos démodé dos tempos de Flashdance do que tentando incorporar um personagem, de alguma relevância dramática. Um cara cuja existência você só lembra quando faz pontas em sitcoms e faz thrillers sofríveis com crianças possuídas. Não sabe de que filme este último se refere? Sorte sua.

Esta indicação me leva a considerar a possibilidade de indicar a Sandra Bullock um dia. Suas infelizes escolhas artísticas me levam a crer que errar a mão tantas vezes ao escolher seus trabalhos deve se tratar mais de azar (ou pendência cármica, vá saber) do que simplesmente pequenez artística. Analisem meus argumentos: ela não é tão dada a comediazinhas românticas como a Meg (que fundou o infame gênero com o rançoso Harry e Sally) e é mais versátil que ela. Tudo bem que sua versatilidade quase sempre tropeça em filmes pouco substanciais. Mas prefiro relevar isso a uma atriz que serviu de exemplos a eficazes indutores de vômito como as Bridget Jones da vida e suas respectivas faltas de falo pra rechear seus vazios existenciais. Mas falando do filme... não há muito o que dizer. Olhem acima a carinha de quem descobriu que o cordão do OB tava aparecendo ao encontrar um erro de continuidade registrado nalgum site de filmes. Mais uma película escolhida pelas sessões de cinema patrocinadas por banco da TNT. As pilhas do controle devem ter acabado nesse dia; o que mais explicaria eu ter visto um trecho disso (e sobrevivido ao tédio) pra contar a história? Talvez o mesmo que me ocorre toda vez que vejo filme de ator que detesto fora de seus padrões. Como Justiça vermelha, com o Richard Gere. Valeu a pena engolir a pachorrinha de americano coitadinho se dando mal em país dos outros só pra vê-lo levando couro das autoridades chinesas do filme. Tudo bem que as cenas são devidamente feitas com jogos de câmera, sangue falso e dublês, mas deixem-me com meu acesso de sadismo...

Putz, esqueci de falar sobre o quê era o filme, não é mesmo? Mas nós dois sabemos que isso não faz diferença. Não me culpem por só saber atacar com meu morteiro verbal; já tentei uma vez escrever sobre filmes que gostei. Mas o problema de escrever sobre filmes que gosto nem é o tendencioso nesse gesto; é o fato de que nem sempre serei capaz de descrever porque certo filme tem tanto apelo comigo. Me incomoda saber que algo me agrada sem conhecer os promenores disso. Sem falar que filme bom nunca se fecha a críticq; sempre haverá algo substancial a se dizer. Com filme ruim não; é meter o malho e tentar se livrar do encosto no sebo mais próximo. Esclarecimento feito, até semana que vem, com mais um... Troféu Bonitinha mas ordinária.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O horror, o horror



Jovens, assusta freqüentar as escolas de hoje em dia. Mês passado eu tava estagiando numa escola, e juro, encontro na sala que fiquei um guri travestido de menina. Só se sentava com garotas. Tipo, cabelo longo, pernas depiladas, perfeito aspirante a futuro traveco fazendo ponto no Centro. Meu, achei que aquilo era impactante (num guri/guria, sei lá o que era aquilo, de 16 anos), mas esse vídeo... tenho medo de contaminar o mundo com meus genes depois de ter essa noção de como a nova geração está. Muuuito medo.

Comentário que deixei numa comunidade a respeito do vídeo acima. Assista, estarreça-se, e cogite seriamente em obrigar seus monstrinhos a usar cintos de castidade ao matriculá-los na escola.

Chantageado por spammers


Ó não, e agora? Como conseguiram esse vídeo? O que é que eu faço? Mando o link pro Dedada ou tento negociar com o spammer? Dúvida cruel!... ó céus, ó vida...!

domingo, 9 de setembro de 2007

Pílulas

Comentários são despedidas do raciocínio alheio. Ninguém gosta de despedidas. Nem quando elas são impessoais. Talvez também seja por isso que todos evitamos solicitar opinião alheia. Ver outrem se despedindo de seu juízo de valor acerca de você é como ver um filho rebelde fugindo de casa. A diferença é que os filhos voltam pra casa; a opinião, não. Esta é como primeira impressão, é mera fachada duma edificação que os olhos sozinhos não alcançam.

Não gosto de odores fortes. Me estranha um pouco a idéia de que as pessoas se adornam com fragrâncias. Pra mim, quase toda a linha d'o Boticário, por exemplo, não passa de um Bom ar bem maquiado. Pra mim, quanto mais discreto for um aroma, melhor: não nasci cachorro pra ficar farejando os outros, ora bolas pipocas! Prefiro odores cítricos pela mesma razão que prefiro sorvetes com o mesmo sabor: são levemente azedos, ideal pra romper com a excessiva doçura de um aroma/sabor. Um moderador para os sentidos...

Uma das contradições que mais me deixam mordido nessa vida besta é estar certo em uma questão e, quando isso acarreta num atrito com os outros, eu precisar voltar atrás não por causa de teimosia alheia, mas por causa de como seu comportamento as afetou. Saco... o mundo devia erigir monumentos aos pragmáticos e creches aos subjetivos. Não me entenda mal, eu me sinto culpado por contaminar os outros com meu pragmatismo sincero, mas porra, geral exagera: se alguém está endurecido pelo pragmatismo, pra quê amolecer pedra dura com água mole? Pegue uma britadeira: quero ver alguma pedra resistir...

Militares já aprontaram tudo o que puderam nas últimas décadas, mas tem algumas sutis colaborações sociais deles que nos passam desapercebidos. Veja só, uniformes militares são de uma extensiva colaboração social. Quanto pregão por aí fazendo a alegria de indigente graças à pompa de indumentárias militares inteiras esquecidas em armários cheios de traças que só vêem a luz do sol quando alguma campanha do agasalho convoca o dono dos artefatos têxteis a doarem suas peças há muito não usadas. Pois é, quanto caseiro, peão de obra e fudido em geral vê em tal instituição a oportunidade de alguma mobilidade social mesmo sabendo que dentro dum quartel não fará nada muito diferente de seus bicos (pintar muro, capinar, prestar guarda, ser humilhado...). Mas podia ser pior: nossas forças armadas não são paranóicas ou beligerantes como algumas, que jogam fora a juventude à sua disposição, investindo-a contra civis inocentes do Oriente Médio. É tendência de civil ficar chorando pitanga quando o assunto é esse. Mas não é função dessas instituições agradar a gente, mesmo: como todo trabalho sujo, a execução é melhor quando os que desfrutam desses préstimos te odeiam. Não menosprezemos as hierarquias... louvemos cinismos baratos como esse do uniforme que acabei de usar.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Deserto de concreto

Eu odeio a devastação aos hábitos de gerações inteiras que a modernidade traz! Esse vociferar me foi evocado consciente adentro ao passar por uma locadora tradicional daqui da cidade. Perto da faculdade, eles tinham uma invejável loja. Mas, nos últimos meses, o surgimento de locadoras na forma de terminais de auto-atendimento e o desenfreado compartilhamento digital de mídia legaram esses acervos de filmes à poeira do esquecimento. Enfim, era uma sobrevivente nessa era de entretenimento globalizado. Seu agonizante fim ecoou enfaticamente em mim a caminho de casa. Pela manhã, lembro-me dum cartaz anunciando liquidação total do acervo, já há uns dez, quinze dias pendurado ao lado do que antes era um outdoor (sim, a locadora tinha seu próprio outdoor pra jabá de distribuidora), com os dizeres: Liquidação total, DVDs a R$5, VHS a R$0,50. Os valores que costumávamos atribuir a certos objetos de nosso cotidiano se esvaíram de vez no consumismo e propagação incontroláveis incitados pelas novas tecnologias. Ampliou-se o acesso às manifestações pop de cultura, ampliou-se a horda de medíocres pondo abaixo o caráter seletivo de outrora da maior dificuldade de acesso à elementos culturais. Conseqüência? Inanição do bom-gosto. Industrialização do belo.

O mais lastimável não é o fechamento de toda uma rede de locadoras em si; não era exatamente um cliente costumaz. Mas sim o que dará lugar ao espaço físico do local: uma igreja evangélica. Mais uma! Sem falar a drogaria que construirão ao lado. Com um McDonald's à direita, que chegou há apenas alguns anos. Pois é, até as regiões mais nobres da cidade estão ficando jecas hoje em dia! Igreja, farmácia e crédito pessoal: essa maldita tríade polui nosso esqueleto imobiliário enquanto a paranóia/sedentarismo dos populares os levam cada vez mais a centros comerciais hermeticamente fechados como shoppings. A vida das cidades cada vez mais está sendo encerrada e escondida em recintos de concreto com aparelhos de ar condicionado industrial refrescando o traseiro gordo de socialites e adolescentes esgotando os estoques municipais de all-star, chapinha e senso de ridículo. O mundo entra cada vez em nossos bolsos, e ignoramos o que este buraco negro tecnológico anda fazendo com as coisas simples de antes. Veja só, no futuro seremos ridicularizados por nossos filhos por um dia nos termos sujeitado a alugar filmes! Vai faltar museus pra nossa geração? Eu acho que vai...

Seria trivial demais eu usar argumentos para a indústria fonográfica e usar do apelo nostágico ao mencionar como locadoras me pareciam atraentes em criança. Continuo então com o argumento de que as relações pessoais estão tão subversivas para com distâncias e percepções dos sentidos que não é de se estranhar como as pessoas soam tão estranhas a si mesmas às vezes. Queríamos o quê? Tal avalanche de impressões e experiências trazidas pelas mídias, que impregnam vivências incoerentes nas pessoas, as estão fazendo sublimar o mundo a seu redor. A aldeia global mais parece uma legião de pessoas invisíveis do que um mundo mais interligado. A propósito, aproveitei o desmoronar de um dos pilares da mídia de minha geração levando pra casa 5 DVDs e 6 VHS pela surreal importância de R$22,50. Com todo o valor agregado pelos fabricantes e responsáveis pela propriedade intelectual, embutida em cada um dos vídeos, a que tinha direito. Morram de inveja, exilados de seus próprios gravadores de DVD! Não estranhem as conseqüências de um mundo cujo prestígio de um artista está cada vez mais se medindo por cliques. O volátil ainda fará evaporar o sólido...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Troféu Bonitinha mas Ordinária


Humilde condecoração que nosso desrespeitável blog concederá àqueles valiosos insumos de dramaturgia, registrados em película ou vídeo, que o blogueiro em questão teve o desprazer de assistir. Atuações ruins, adaptações ruins, frases de efeito ruins, é ampla a gama de opções levada em consideração para a escolha de nossos premiados. Sim, ex-BBBs são alvos preferenciais e Gianecchini é nosso líder espiritual nessa crua empreitada pela busca da atuação mais sofrível.

Estréio essa nobre e concorrida premiação com... Thandie Newton. Escalada pra embelezar a indigesta adaptação de Jonathan Demme de "Charada", thriller clássico com Cary Grant e Audrey Hepburn, sua carinha de "só cuspo, não engulo" é a única coisa que fará o desavisado se ver acometido pelo trágico fardo de ter assistido um filme desses. Poderia ter usado a première de nossa premiação com Jessica Alba em Quarteto Fantástico que daria na mesma (um rostinho bonito), mas não gosto de obviedades. Os efeitos especiais costumam ser suficientes pra ninguém se engasgar com a pipoca quando ante a apatia do quarteto propriamente dito.

Mas voltando a falar da Thandie, a uso como bode expiatório do filme, mas tudo é ruim n'o segredo de Charlie: Mark Wahlberg (o cara é invisível; n'o Planeta dos macacos, fiquei o filme inteiro procurando o protagonista; Thade caçando carrapatos tinha mais densidade e presença que ele) e Charles Aznavour fazendo umas canjas (por Deus, o que é que deu no Demme em me submeter a isso?) são exemplos. Mas enfim. Muitos já expressaram melhor que eu o quão crassa foi a investida desse diretor com essa película. Mas também, eu deveria esperar o quê duma sessão de cinema patrocinada por banco e marca de carros? Cada armadilha na qual a TNT me prende... esperem só pra ver quem será o próximo premiado.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

'Hã, isso é uma banda?'

[sábado, ao me aproximar duma barraquinha]
_ Oiiii, quer comprar o Cd? Leva a camisa junto.
_ Hã, isso é uma banda?
[nome da banda em questão: Big trip. Parece miais é nome de franquia de shopping...]

[hoje no msn]
_ E aí, você foi sábado?
_ Sim, fui pra ver móveis coloniais de acaju.
_ Eu só fui sábado. Perda de tempo total.
_ Pois é, eu te vi.
_ E porquê não veio falar comigo? Achei que minha primeira impressão já tinha passado...
_ É que você não estava com fulano, fiquei com medo de você não me agüentar sem ele por perto...
[me assusto quando vejo as pessoas estarem tão certas a meu respeito...]
_ Fiquei pouco lá, pouco mais de uma hora.
_ Única coisa que prestou foi o último show. Se dependesse de mim, deletaria os outros da minha mente.
_ Qual foi o último show?
_ Móveis coloniais de acaju.
_ Nossa, eu levei ao pé da letra quando você disse isso... comecei até a estranhar seu gosto por mobília antiga.
[risadas histéricas na tela do monitor. Não era pra tanto...]

domingo, 2 de setembro de 2007

Bloco de notas (IV)

Não é errado ser modesto; errado é ser medíocre.

Já repararam que depois que a China foi confirmada como próxima sede dos Jogos Olímpicos, ninguém mais se refere à sua capital como Pequim? Agora é Beijing pra lá, Beijing pra cá... no começo cheguei até a pensar que tinham mudado os jogos olímpicos pra Índia. Imposição cultural é isso aí.

Filme de terror só presta se tiver diretor oriental. Mas mesmo assim o cinema pipoca de sustos fáceis continua a vender. Sonho com o dia em que o terror americano se afogará na própria mediocridade e o mercado desse tipo de filme venha a ser reinado pelos orientais. A espiritualidade da galerinha dos olhos puxados é muito maior, assim como a agressividade psicológica de suas produções. Nunca há adolescentes chatos nem ninguém mascarado tentando te matar nestas produções. Ganham bilheteria minha só por causa desses dois fatores; filmes como Pânico são aberrações pra mim.

Seu cotidiano é mais catafórico do que você pensa.

sábado, 1 de setembro de 2007

Eu entendo os solitários

O mundo está cheio de pessoas incompreendidas. Pessoas cujas inaptidões para algumas atividades sociais as relegam a um segundo plano na percepção dos outros. Essa gente é mais distingüível entre professores. Digo isso porque, sempre que tenho um que a unanimidade burra tacha de mal-comida/mal amado, esquisito, frustrado, anti-social, maltrapilho e outros petardos supérfluos, eu me coloco no lugar dessa gente. Porquê? Porque, em vários momentos específicos de minha vida besta, fui amplamente assolado por um aspecto ou outro. Todos provenientes da solidão, companhia essa que confere hábitos peculiares (pelo menos na visão dos que sempre se sentem acompanhados). Todos que, em maior ou menor grau, me acompanharão para sempre. A introspecção gera uma individualidade que as pessoas desdenham. E que não entendem: o que é desleixo para elas, por exemplo, para um solitário é um aspecto de seu ser que não tem importância. Como um membro do corpo que não se usa, é assim aos poucos que as peculiaridades dos solitários vão surgindo. De novo, isso se torna proeminente em professores porque é uma profissão de grande exposição. Em qualquer outra posição profissional, o solitário se camuflará com facilidade. Como professor, não: nunca lhe faltará legiões de gente julgando-o.

Já ouvi todo tipo de comentário a respeito de professores peculiares. E todos eles, por vezes diretamente constrangedores, em algum nível se aplicavam a mim. Por exemplo: uma professora cuja vida pessoal ninguém conhecia, sempre vinha com os mesmos pares de sapatos e era tão sistemática que a escola em que eu estudava na época, em má fase e paparicando os mimados com medo de perder aluno, se antipatizava com ela pelo simples fato de não estarem dispostos a estudar tanto quanto o conteúdo -- responsavelmente por ela repassado -- exigia. Outro exemplo: um professor de cálculo de quem estou tendo aulas no momento, ridicularizado por insinuarem ainda morar com a mãe e por usar em excesso um certo adjetivo para tentar convencer a gente da facilidade de sua matéria. Esse último tipo de comentário é comum; alunos são seres desprezíveis que estão constantemente a buscar fraquezas nas pessoas que se empenham na inglória tarefa de lhes orientar ao aprendizado. Encerrando por aqui as linhas gerais a respeito do assunto, partamos pra abordagens mais particulares:

* Fazendo uma observação dos elementos que normalmente levam as pessoas a segregar a individualidade dos solitários, o que temos? Pra começar, temos a sondagem alheia a respeito da vida sexual que se resume ao maldoso bordão "mal-comido". Que forma mais simplista e impúbere de pensar! Nossas convenções sociais tentam nos esquivar do constrangimento de nos submetermos a interpretações tribais (com conceitos como o do macho-alfa), mas isso acaba sendo inevitável. Toda uma evolução das espécies pra quê? Pra neguim ficar querendo comparar o desempanho sexual do cara como se isso fosse uma espécie de esporte clandestino envolvendo a auto-estima alheia? Porra, inventaram o dinheiro pra isso hoje em dia, seus merdas! Não é à toa que o infame pedaço de papel é carregado de tanta agressividade psicológica até hoje...

* A excentricidade, marca registrada de uma instrospecção forçadamente trabalhada por solidão compulsória, se configura em pequenas manias geradas por impulsos psicomotores dos quais não tenho leitura suficiente pra detalhar aqui. Deixando esse aspecto de lado, temos a excentricidade aplicada a roupas, ao idioleto do solitário, à forma como ele raciocina e pensa o mundo, e por aí vai. Normalmente, esse tipo de curva ante o que se denomina normalidade na personalidade duma pessoa não afeta diretamente as breves relações imediatamente sociais dos solitários. Mas há casos em que a pessoa, abatida pela dificuldade de se sentir ouvida, fala em excesso mesmo quando nada tem a dizer. Essa é da mais irritante espécie de excêntricos, porque transborda vários insumos inúteis de seus processos mentais devido à ausência de trocas lingûísticas reciprocamente voluntárias.

* A frustração é não raro fonte de julgamento maldoso dos a redor do solitário. Atribuem ao insucesso dele, em algum aspecto de sua vida, o surgimento duma suposta lacuna cujos processos mentais tentam em vão suprir e que, por conseguinte, se deixam notar por negativos traços de personalidade. Condições de felicidade que não foram devidamente atendidas na juventude, requisitos de ambição ou sensação de satisfação: quaisquer que sejam as carências do solitário, toda sua personalidade será julgada por isso, por meras lacunas. Eu tenho medo dos simplificadores...

* A vontade de se comunicar nunca é vinculada à capacidade de fazê-lo, quando os críticos do solitário mostram suas linguinhas de cobra pra soltar o veneno. Mais fácil tachar o sujeito de anti-social, mesmo. Como se se comunicar fosse uma gorjeta pela atenção que se recebe das pessoas a seu redor. Essas nunca estarão preparadas para entender o universo do solitário, esse vácuo que clama por uma combinação de interesses rara de se obter no outro.

* Por maltrapilho, me refiro à forma como um solitário se veste. Este desapego à própria aparência é outro elemento que outrem não compreende. Estes podem afirmar que certas mudanças na vida do solitário, como encontrar um amor, obter conquistas importantes ou conhecer pessoas especiais, podem fazer com que uma esquecida auto-estima seja reanimada. Sim, é possível. Mas o contrário também é: há uma legião de pessoas a seu redor, sem grandes guinadas na vida, que simplesmente mergulham vários fatores de seu ser numa pastosa letargia pra conseguirem levantar da cama no dia seguinte, guardar questionamentos existencialistas num lugar fácil de se esquecer, e tocarem a vida com metas cartesianas o suficiente pra não passarem pelo medo de se desiludir com a aparente proximidade de alguma mudança em suas vidas. No final das contas, o visual do solitário é uma parte de seu ser fossilizada. Uma amostra de sua agridoce razão de viver.

Saiba se seu namorado anda pulando a cerca com nosso teste

O que faz mulher gostar tanto de revistas de comportamento? Repare, tem pra todas as idades, credos e classes sociais. Pras modernas, pras Amélias, pras fofoqueiras, pras prendadas, pras hipocondríacas, pras sem vida social, pras adolescentes, pras ninfetas... sei lá, elas realmente devem achar interessante ler pretensos ensaios sobre sua natureza estampado em matérias sobre o que a modernidade gosta de aprontar com suas neuras. E com essa auto-estima que mais de meio século de mudanças sociais fez fermentar coisas perigosas nelas, como glamourização do sexo, incentivo à sedução para motivos escusos, legitimação de seus atos se estes vierem do coração (aberração atemporal, essa), entre outros. Imediatamente após ler o início desse post, as reacionárias dirão, "ah mas eu já peguei meu (irmão, namorado e outros) dando uma lidinha". Acontece. Salas de espera com revistas contendo manchetes sobre o atentado às torres gêmeas levam as pessoas a lerem muita besteira. Leituras fortuitas não contam, vá. Uma hora cansa ficar lendo sobre a bandinha da moda, a posição sexual da moda, ficar vendo o novo pôster do atorzinho grobal da moda e dicas de moda. E também, sei lá, pensem bem: não é comum nem bem visto ao sexo masculino ficar socializando o que sente; portanto, algumas raras vezes, talvez seja natural que tal curiosidade de se folhear uma revista cheia de dicas de condicionador e de bugigangas pra ganhar dinheiro extra acometa ao (irmão, namorado e outros). Sem falar que algumas são bem calientes. O que tem de moleque da mão cabeluda que só acompanha a mãe pra ler a seção "só pra maiores" da Nova no salão, por exemplo, não tá no gibi. Sim, é impossível mencionar episódios da puberdade sem ser patético. E sim, minha adolescência foi uma merda. Mas não tome por base o exemplo fictício que acabo de usar: tome por base eu mesmo como um todo. O tédio me acompanha. E lê tudo que escrevo neste cretino blog.

Mas prefiro, nas raras vezes em que tais desperdícios de celulose vêm parar em minhas mãos, folheá-las mais como um estudo de caso. Análises de campo, empíricas, são mais freqüentes, porém não nos esqueçamos das salas de espera nos condenando a folhear revistas velhas. Comecemos. Gosto de observar as propagandas, ver as ideologias vendidas por aquelas sandálias que vão moer seus lindos pezinhos, aqueles vestidos cuja única coisa que vão ressaltar é sua barriguinha mole que mais parece uma câmara de pneu saltando aos olhos. Enfim, o eterno culto à vaidade. Outra coisa a se analisar são as mudanças de comportamento (não é à toa que revistas de comportamento não funcionam com o sexo masculino; a bênção do pragmatismo dá aos homens a sensação de que a vida é simples e obetiva): o que era feito com bom-gosto antes e agora é refutado. A eterna sensação de serem injustiçadas pela natureza. E pelos homens. Não me refiro necessariamente aos bairrismos da guerra dos sexos; isso eu deixo pra momentos mais oportunos, alguns até neste blog, porque não. Voltando: é interessante observar as diretrizes comportamentais conveniente elaboradas por redações inteiras pra vender produtos pré-congelados e outras facilidades que louvam o lucro e denigrem os pequenos valores da vida familiar. Veja só, é motivo de vergonha usar de tradicionais hierarquias sociais hoje em dia. Deixa pra lá, aquela sensação de que já escrevi isso me bateu agora. Ao próximo parágrafo!

As seções de sexo são um tanto curiosas também. O século XIX tinha o romantismo pra injetar glicose no coraçãozinho das balzacas; o XX, as telenovelas. As salas de espera (e a mulher moderna, segundo a Nova, quaquaqua...), os romances eróticos. Mulherio fazendo as unhas lendo aqueles artigos com causos de concubinas posando de bem-resolvidas é hilário. Talvez nem tanto quanto imaginar que tem gente que realmente lê a Men's health, mas (não) deixo esses comentários pro próximo post. O que quero dizer é que a última década conseguiu banalizar a prática sexual de tal forma que não dá mais pra dizer o que é tabu; ninguém agrega mais nada ao entra-e-sai. O zelo e moderação propostos pelo pudor, que justamente existia pra não tirar a graça duma das poucas coisas que ainda não eram banalizadas pelas mídias, se foi. Muita mina na balada é mais macho alfa que você, cuidado! Muitas delas têm carro mais bacana que o seu, têm mais pegada que você, têm mais grana que você, e têm mais vontade de te devorar do que as suas comadres de outras gerações. Onde é que tá se escondendo aquele monte de mulherzinha submissa e subserviente, sem vergonha de ser feminina? Na literatura barata ensinando a escolher a melhor cor pro esmalte de unha de revistas de comportamento? Pensem bem: o feminismo não é unanimidade nem entre as próprias calcinhas! Já encontrei muita menina de família afirmando tranqüilamente que lhes agradam os valores familiares, injetados com doses salutares de machismo, como antigamente. Ao contrário do feminismo, machismo nunca foi bandeira; apenas orgulho viril. Muitas vezes, apenas seu orgulho vai fazer com que elas não se afastem de você. Sim, estou falando de você, baixinho, feio, narigudo e pobre. Não existe amor romântico; ele é mera idealização engessada sob a égide de mito. Vendem a idéia de que é mito por causa do desapego das pessoas, o que é inválido; é a natureza nossa que o repele: você quer a mais gostosa e isso nem sempre depende de afeição. Tal mito faz com que os mais inexperientes no campo amoroso se estabaquem dolorosamente na trajetória afetiva. E revistas de comportamento em nada ajudam isso. Comportamento é como previsão do tempo; mídia alguma captura com honestidade. Agora enfie esse teste de fidelidade naquele lugar e vá arranjar algo melhor pra fazer, balzaca!...

Nota mental: porra, criei um marcador só pra mulher? Que desperdício... blé. Tá virando bagunça, isso aqui. Então, jovens: duas semanas sem postar nada, né? Pronto, jejum quebrado.