quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Da série: não anotar reminiscências de sonhos

Sonhei com uma menina cúmplice. Daquelas que parecem ler o que você pensa. Cujos olhos acolhem como a uma radicial neblina. Abstrações oníricas, enfim. Parecia aproximar-se como se não tocasse o chão. Algo uma estranha subversão à gravidade de si mesmo. E todo esse estado de espírito se esvaindo perpendicularmente a uma noite de substancial descanso. Incensando o peito e esmaecendo a retina. No vácuo da evasão esquecida ao fundo da mente. Presença que ecoa, ausência que silencia. Grave calmaria ante aguda perturbação. Sensação por ser vernacularizada. Resposta a perguntas que não quero fazer, articulações para o cativar: a menina romanceia os acasos, cria razões para a felicidade e amansa a besta do ceticismo no encalço do errante de sua própria mente. Momento que flui como brisas sapecando as madeixas soerguendo-se por entre as máscaras. Que se encerra com uma avalanche fotocinética ante os olhos. E se encerra neste impreciso adorno verbal.

Daqueles posts que se configuram num mix de voluntário suspiro com excessos líricos. E então, usei clichês suficientes ou deu realmente pra considerar alguma coisa desse post? Por hoje já deu, esse tal de realizar testes sensuais. Por mais que tente manter o hábito de escrever sonhos em blog, o conteúdo líquido sempre estará perdido...

Outra coisa: volto só mês que vem. Aproveite os cinco minutos que não voltam mais de sua vida besta lendo algo mais edificante do que este execrável blog. Scram!!!

domingo, 12 de agosto de 2007

Subindo...

Elevadores propiciam uma variável peculiar no convívio social: pessoas randomicamente dispostas em um espaço que impossibilita a ausência de contato físico (e fisiológico também, lamentam-se minhas duas narinas). Não sei como até hoje os fetichistas não pensaram em usar elevadores como peep shows (até onde eu sei, naturalmente): pensa, tá lá o maluco em seu andar, aparece a ninfeta dentro do cubículo mecânico, duvido que não haja ninguém com fantasias congêneres. Mas deixando a divagação de lado (?), tem ainda a estranha tensão que rola durante o percurso vertical do aparelho: um silêncio esquisito, por vezes, rompido por conversas breves. Porquê isso? Onde foi que a individualidade das pessoas tornou qualquer proximidade física algo que beira o insuportável? Dinâmicas, infames por natureza por explorarem desavisadamente as máscaras alheias, às vezes lidam com essa questão, no caso esse estranho sopão de valores pessoais que se configura na estranheza que os populares sentem ao serem arrebanhados dentro de um claustro de metal suspenso por cordas de aço. Tem uma que presenciei quando fazendo um cursinho vagabundo de contabilidade, se não me engano. Constava no seguinte (não fosse São google, ficaria devendo o texto vagabundo, ao qual me sujeitei à época, pra vocês):

Imaginem que nossa cidade está sob ameaça de um bombardeio. Aproxima-se um homem e lhes solicita uma decisão imediata. Existe um abrigo subterrâneo que só pode acomodar seis pessoas. Há doze que pretendem entrar. Abaixo há uma relação das doze pessoas interessadas a entrar no abrigo. Faça sua escolha, destacando seis tão-somente.
_ Um violinista, com 40 anos de idade, narcótico, viciado;
_ Um advogado, com 25 anos de idade, alcoólatra;
_ A mulher do advogado, com 24 anos de idade, que acaba de sair do manicômio. Ambos preferem ou ficar juntos no abrigo, ou fora dele;
_ Um sacerdote, com a idade de setenta e cinco anos;
_ Uma prostituta, com 34 anos de idade;
_ Um ateu, médico, com 20 anos de idade, autor de vários assassinatos;
_ Uma universitária que fez voto de castidade;
_ Um físico, com 28 anos de idade, que só aceita entrar no abrigo se puder levar consigo sua arma;
_ Um declamador fanático, com 21 anos de idade;
_ Uma menina, com 12 anos de idade, e baixo QI;
_ Um homossexual, com 47 anos de idade, portador de HIV;
_ Um débil mental, com 32 anos de idade, que sofre de ataques epilépticos.


Hã, você achou mesmo que eu teceria um argumento interessante o suficiente pra você continuar lendo este post? Aiai, rio de você nesse momento. Me limito a dizer que talvez não tarde para que um desocupado o suficiente (leia-se entusiastas do empreendedorismo, gentalha que mexe com recursos humanos e sistemáticos em geral) crie uma dinâmica baseada no estranho momento de se utilizar um elevador com estranhos. O cara tá lá, na frente do computador, inicialmente pensa: "vou encher o saco dos meus amigos com esse texto pretensamente reflexivo que eu mesmo escrevi. Vou mandar por e-mail a todos eles e creio piamente que minha autoria será sacramente preservada." Aí maluco recebe a mensagem, ignorando o fato quando o filtro anti-spam popupa seu tempo do vão texto, e a vida continua. O que quero dizer, desconsiderando todo esse palavrório de distração, é que todos nós parecemos ter uma espécie de dispositivo de sociabilidade, distinto a cada um. Responsável pela velocidade com que suas ramificações sociais se proliferam, pela opinião alheia que tal ramificação gera e pela relação direta entre o que você pensa/sente dos a seu redor e sua auto-estima, tal dispositivo parece ir à loucura quando dentro dum elevador. Dentro dele, não há recursos extras para se mudar um assunto/evento/pessoa desagradável, nem a liberdade de ir e vir, suspensa até o momento em que o aparelho chegue a seu andar. É uma sensação um tanto maquiavélica, sei lá. Os mais agnósticos, espirituais e frescurentos poderiam argumentar que é uma experiência de relativa espiritualidade, uma analogia a um evento em que a pessoa se encontra à total mercê do tempo que se encontra encerrado numa subida. Os céticos se sairiam com algum clichê, batizado com senso comum, da teoria da psicanálise. Os chatos poderiam começar a falar do tempo, mesmo o maldito aparelho, na maioria das vezes, não possuir visão alguma para o mundo exterior. Os tagarelas não dariam a mínima a essa irrelevante questão e começariam a prender a porta só pra terminar aquela interessantíssima conversa sobre como está o sobrinho da Odete. Os motoboys questionariam constntemente a relatividade do tempo, olhando compulsivamente pro relógio e pro prazo absurdo dado pelo chefe pra entregar aquele pacote. Já os normais pediriam pra apertar o sete e cuidariam das suas vidas. Faltam normais nesse mundo...


Nota mental: o blogueiro desocupado não é claustrofóbico. Talvez um pouco misantropo. Não o suficiente pra se isolar nas montanhas. Pena...

sábado, 11 de agosto de 2007

Treinando o escárnio (IV)

Fiz essa com filmes meses atrás. Agora chegou a vez da tevê a cabo. Não vai ficar pedra sobre pedra. Vamuvê no que dá...

Warner Ch.: canal de mulherzinha.
Fox: canal de dublador.
Fx: canal de broxa.
Cartoon network: canal de retardado.
Boomerang: forma genial de vender iglu pra esquimó (pensaram os executivos, vamos ganhar uma grana extra vendendo desenho velho pra marmanjo nostálgico, já que não temos mais espaço pra abarrotar nosso acéfalo canal de cartoons com mais besteiras).
Nickelodeon: canal de reprises.
MGM: hã, esse canal ainda tá no ar?
Hallmark: ganhariam mais produzindo apenas cartões.
Jetix: Disney a cabo para as massas.
TNT: canal de banco trazendo sessões de filmes empoeirados de locadora pra fazer merchan.
Bandnews: um zine vagabundo, devidamente televisionado.
Bloomberg: quando cortarem a internet em sua casa, acompanhe o streaming ordinário de informações do mercado financeiro fornecido pelo canal.
ESPN: canal de esportes (esportes inventados pelo próprio canal, claro, como bilhar e o world's strongest man).
E!: canal de papparazi.
Discovery channel: canal de cultura inútil, é como se fosse uma versão televisionada da Superinteressante hoje em dia (isso NÃO foi um elogio).
HBO: a locadora mais cara do mundo (oferece filmes que todo mundo vai alugar em poucas semanas a preços absurdos).
Cinemax: fundos da locadora mais cara do mundo (que é onde ficam os filmes de baixo orçamento e os eróticos)
Cinemax prime: seção indie da locadora mais cara do mundo.
Sony: canal de reality show.
Discovery kids: outro canal de retardado.
Discovery home and health: canal de hipocondríaco e de pobre sem dinheiro pra fazer cirurgias não-corretivas.
Bandsports: mais uma opção pro Silvio Luis ignorar a idade de aposentadoria e pentelhar o telespectador.
CNN: bastidores das infâmias estadunidenses (aquelas imagens de extras do DVD mais bizarro do mundo chamado de Nova Ordem Mundial, conhece?).
CNN en español: bastidores das infâmias estadunidenses para imigrantes.
Futura: geladeira refrigerador horizontal de ator galã da Grobo.
Cultura: quanta pretensão num só nome de canal...
Discovery travel and adventure: canal de mochileiro, com grana suficiente pra conhecer o mundo e gravar tudo pra você, pobre fudido sem dinheiro pra viajar no final do ano, morrer de raiva enquanto assiste!
AXN: o único canal a cabo para homens (a menos que você não se importe de ficar vendo o pau do Ashley em Sin cities...), com ação testosteronada o suficiente pra te poupar de pensar...
ESPN Brasil: Esporte espetacular unlimited (difícil meter o malho num dos poucos canais que não precisam dublar/legendar sua programação...)!
Multipremier: paraíso dos filmes B.
Shoptime: canal de bugigangas pra casalzinho classe média recém-casado querendo impressionar os amigos...
Animal planet: canal de videocassetadas executadas a quatro patas (ou mais), ímã de seguidores de Steve Irwin e de mulheres sem filhos compensando tal carência nos enchendo o saco com seus bichinhos de estimação.
A&E: exemplo clássico de como transformar um canal de programação cultural de qualidade numa gororoba pra pobre assistir.
People and arts: não consegui encontrar programação em meio aos reality show tapando meu campo de visão; quando encontrar algo assistível volto pra escrever uma frase...
MTV: babá eletrônica de roqueirinhos pré-adolescentes, emos, minilésbicas de treze anos e afins.
RAI: espancamento sonoro propiciado pelo italiano da emissora.
ART: outro espancamento sonoro propiciado dessa vez pelo árabe.
SBT: canal de judeu pão-duro insultando a inteligência do telespectador com dezenas de fórmulas decanas e séries compradas a preço de banana.
Record: wannabe da Grobo.
Band: o que dizer dum canal que contrata gente como Otavio Mesquita e Marcos Mion?
RedeTv! sensacionalismo suficiente pra vexar cortiço.
Grobo: puxa-saco de governo que se gaba de rechear sua programação com as futilidades de sua terra natal.
Multishow: cover da rede Grobo, só que pior.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O mundo segundo os judeus

Não, nada de tratado religioso nessas parcas linhas. No máximo, um apanhado de estereótipos involuntários. Intento falar desse povo sob a ótica cultural (mas só intento mesmo; descobrirás porquê). Sobre a fina melancolia em que seus livros, quadrinhos e filmes encontram-se imersos. O sentimento de inadequação que os personagens por ele criados emitem, o pessimismo resignado, as manias que beiram o TOC. Uma aura de eterno descrédito parece rondar tais personagens. Argumentos antropológicos poderiam ser usados para defender isso, mas são tão óbvios que não cá cito. A propensão desse povo ao fanatismo (palavra usada, aliás, pra se referir mais amplamente à forma como quaisquer ambições em vários outros aspectos da vida são sustentadas por esse povo) ressalta certa insegurança em sua índole. Suas produções culturais revelam um ponto-de-vista sóbrio da vida, sem muitos ufanismos ou pretensões, pelo menos explícitas. Ambições são pensadas como coisas que a Providência lhes parece tentar tirar a qualquer momento, como uma constante avaliação de sua persistência. Como uma tentativa de serem ouvidos. Me parece difícil observar a aura de vingança -- que rege os mais extremistas que viram nota de rodapé de telejornal, por exemplo -- refletida em sua produção cultural. Talvez isso se deva ao fato de a maior parte de tais manifestações serem produzidas por autores bem longe de sua problemática terra natal, não contaminados por cegos impulsos extremistas e políticos. Uma constante sensação de tentativa de se recuperar algo perdido se observa nas obras de autores judeus, mas nada que eu vá comentar me limitando a uma interpretação ingênua. A banalização do sofrimento parece ser vista por eles como menos cármica do que casual: deixar raízes é melhor do que desaparecer por preocupar-se demais onde fincá-las e com quais recursos naturais mantê-las. Mas chega de matáfora tornando meu argumento vago demais.

Quando pensamos nas ramificações socioculturais exercidas por esse povo, que transformam a questão do Oriente Médio (um dos trechos mais inóspitos e inférteis da Ásia) num círculo vicioso e fazem a criação do estado judaico parecer um dos piores erros da ONU, torna-se confuso ter um juízo de valor a respeito desse povo tão perseguido historicamente. Até onde eles usam isso como álibi para algumas de suas atitudes? A partir de quando o cenário geopolítico naquele pedacinho enrugado de terra virou um infame tabuleiro de War com vidas à revelia de interesses perversos? Não há ideais legítimos num mundo tantalizador como o nosso, e os judeus são uma amostra disso. Sempre à mercê das arbitrariedades das nações que os fingem tolerar. Um estado de espírito de eterno deslocamento e adaptação forçada. Surpreende como tamanha dispersão de um povo inteiro não foi suficiente para a dissolução completa de sua identidade cultural. Porque em qualquer terra você encontra dois tipos de nativos: os que amam sua terra e não saem dela por nada independente do quanto sejam maltratados pelos humores agrestes da região, e os que não adotam tal ufanismo e sairão dela o quanto antes, independente de suas chances fora dela. Em um povo que tem suas delimitações geopolíticas constantemente questionadas, qual dos dois tipos de cidadão resta? Eles se agarram ao que representa um círculo vicioso (pegue qualquer literatura e dá pra encontrar exemplos do círculo vicioso de povos oprimidos que tentam se esquivar dos infortúnios da própria terra ao qual me refiro; Vidas secas é um deles) ou adotam perspectivas diferentes numa existência cujo governo não tem condições de amparar seu próprio povo? Quando o fio condutor de um povo é regido pela fé, espaço suficiente para conceitos infelizes como 'guerras santas' é aberto. O ódio é argumentado como legítima defesa. Não há legitimidade em revides na base do olho por olho. O mundo fica cego mas os judeus não intencionam cessar sua busca por uma justiça de argumentos frágeis, há muito pisoteados por forças anteriores ao renovado patriotismo trazido pelo jubileu de ouro do estado judeu.


Não me surpreenderei se alguém me acusar de algo com esse texto. Escolher lados já gera propensão a precipitações (coisa que não fiz, poupe-se de presumir isso com sua leviandade). A maior vítima desse embate patrocinado por indústrias armamentistas, células terroristas e especuladores afins é a verdade. Mais perigosa que a opinião alheia é a sua própria...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Treinando o escárnio (III)

Dessa vez o assunto é dicas de moda. Escolhendo a dedo nossos modelos, tecerei algumas considerações a respeito das trágicas escolhas estéticas de nossos modelos. Nos focaremos na moda urbana. Gloria Kalil vai dar piti. Vamos lá:

Visual dono de auto-escola:
fácil seguir essa tendência. Case-se, tenha filhos, ganhe peso, divorcie-se e continue economizando na vaidade ao desfilar na rua com sua camisa de gola de três botões desabotoados, duas protuberantes manchas de suor em cada braço e milhares de pêlos corporais saltando à vista. Não se esqueça da atitude: passe cantada em todas as pedestres com seu Gol quadrado exalando status, sensualidade e um aromatizador com cheirinho de chiclete.
Visual motoboy: use e abuse das jaquetas de couro. Amantes da liberdade, seu capacete é tão inseparável quanto as camisas de manga longa -- e cores num misto de psicodelia com ponta de estoque de malharia -- contra o atrito do vento das longas jornadas de trabalho no trânsito. Amantes não só da liberdade, são fáceis aspirantes a gigolô: realizam entrega nos lugares mais ermos e recebem as cantadas mais porcas de donas-de-casa que não vêem um quibe em seu pastel há tempos. Melhor que esperar o entregador de pizza; economiza-se em gorjeta.
Roupas de brechó: cada vez mais aderida entre os jovens, as roupas dos pais caem como uma luva entre os exemplares da juventude sem auto-estima o suficiente pra consumirem marcas mainstream. Ver esses seres nas ruas é como se sentir num clipe dos Beastie Boys; a qualquer momento a garotada por trás dos óculos Ambervision vai dizer alguma besteira desconexa e esparramar sua falta de atenção entre seus lastimáveis grupos de amigos. Losers demais pra conquistarem alguém pela beleza, compensam isso sabotando-a de vez com roupas pra tentar implicitar discrição a uma vaidade que não existe. Nunca foi tão mainstream bancar o grunge empesteando ambientes públicos inteiros com tal falta de asseio.
Visual funcionários de empresa terceirizada: usuários das peças de roupa mais degradantes e berrante possíveis, são resultado de leis de responsabilidade social. Gente que só é contratada pra patrão tentar deduzir imposto. Seu vestuário salta aos olhos como a mancha de sangue em banheiro de ladrilho branco. Seria proposital a elaboração desses uniformes? Seria tão fácil assim que essas pessoas se misturassem entre os comuns se usassem uniformes que respeitassem um pouquinho a auto-estima de cada um? Devíamos perguntar isso aos sardentos que trabalham no McDonald's e usam o pus das próprias brotoejas como banha pros hambúrgueres...
Visual pedreiro: camisas sempre desbotadas, com várias manchas de cal, e boné de propaganda política compoem este visual descolado, de pessoas desgarradas de futilidades da moda. Mais contracultura que esse look, impossível. Uma crítica visual que constantemente questiona o que os estilistas consideram over nas pistas. Perto de modelos desfilando com câmaras de pneus na Fashion Week, o visual pedreiro conota inesperada atitude...

Perguntas que ninguém faz

* Para que time um técnico torce?
* Quando mulheres afirmam fingir, porque também não se dão ao trabalho de perguntar se o desavisado se importa com isso?
* Elogio de mãe e discurso pra político falecido proferido por alguém de oposição, qual deles é o mais cara-de-pau?
* Ponto G é o álibi perfeito das frígidas?
* Carrascos lêem livros de auto-ajuda?
* O que torna um palavrão ofensivo, o que ele insinua ou o que ele confirma?

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Status da dor

Ela endurece, enfraquece, sublima ou incorre nos três ao mesmo tempo? A aura de superação por trás de uma chaga profunda é inegável. A eficácia como álibi, também. Sempre vivemos tentando nos esquivar dela, sendo que a verdade é que sabemos que nunca sabemos de onde virá a próxima rajada cortante. Isso incita o medo de tentar; mobiliza uma legião de omissos nesse mundo nunca tão pragmático. A certeza de certos insucessos hoje em dia nos faz glamourizar nossas próprias lamentações. A vergonha de se expor sempre houve, mas nem sempre houve a de se saber porquê se sustenta certos flagelos. Alguns esperam redenção, outros maturidade, outros tantos matar a esperança, outros mais apenas deixar de ser hospedeiro dela. Fato é que, como tudo na vida, até dor é objeto de vaidade. [momento cretino=on] A propósito, um recadinho aos que se acham um exemplo de vida e exaltam as próprias agruras: vocês fariam um bem maior ao mundo se recebessem uma gravata colombiana. Guardem a privacidade de suas chagas para si e vão encher o saco de outro, porra! E não, nem tentem me pedir esmola novamente enquanto dirijo de volta pra casa: não é pra ficar bordando meu remorso que dispendiarei trocados pra vagaba comprar pinga. Vivam com sua inépcia sem encher o saco dos outros! Escolham melhor as formas de prescindir de dignidade. [momento cretino=off] O que irrita na maioria das pessoas, afinal, é que elas sequer tentam canalizar tanta dor. Artistas conseguem, e (poucos) alcançam a genialidade ao nos agonizar voluntariamente como meros expectadores de um trágico espetáculo que se configura em eficaz ária do regizojo do florescer da humanidade outrora obstruída pelo pus da satisfação. Você vai sofrer, vai rasgar vários orgulhos de tanto apalpá-los compulsivamente, vai gritar aos céus de punhos estirados para cima. Você vai morrer. Saia de sua toca e aprecie a hemorragia: veja-a traçando caoticamente seu percurso, veja-a te imunizando após gemidos inúteis. Você pode estancá-la com as próprias mãos, chorão. Faça isso e não perca tanto tempo lambuzando ombro alheio com suas lamúrias!

sábado, 4 de agosto de 2007

Sutis formas de o destino desacreditar o carma


_ Sorte de principiante;
_ Sorte de experiente;
_ Relações diametralmente opostas entre distintos aspectos da vida das pessoas;
_ Serendipidades;
_ Persuasão maquiavélica;
_ Arbitrariedades femininas;
_ Eventos caóticos sem semiologia ou passividade de interpretação alguma;
_ Escambo de méritos;
_ Alimentação de ego com agruras alheias;
_ Presença de vaidade;
_ Mitificação de tudo alheio a interesses;
_ Estatísticas;
_ Geração espontânea de culpa;
_ Álibis de toda sorte;
_ Generalizações;
_ Exceções;
_ Dilemas

Você foi bonzinho esse ano? Problema seu... se Papai-Noel existisse, com certeza seria um lobista de multinacional que fabrica brinquedos às custas de órfãos chineses. Ou isso ou uma espécie de Silvio Santos, dando brinquedinhos vagabundos pra deduzir imposto. Em todo caso, não raro carma se confunde com ideologia. Uma sensação de harmonia de que as pessoas precisam...


A imagem acima é um fractal de autoria de Nuno Dias, que concorreu ao ICM 2006 Benoit Mandelbrot Fractal Awards. Dezesseis deles foram escolhidos para uma exposição realizada no evento, ocorrido no ano passado em Madri. Impressiona como a qualidade das imagens produzidas matematicamente tem melhorado; a primeira impressão que tive desse fractal foi ter sido produzido fortuitamente por um photoshop da vida. A propósito, a imagem acima não foi escolhida para a exposição. Essas peculiaridades que apenasmente o Google me traz...

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

"Se tem fila deve ser bom..."

Brasileiro adora uma fila. Gosta tanto que até leis para ela existem. Não estou sendo leviano ao afirmar isso. Pare pra observar a quantidade de filas inúteis a seu redor. Gente que poderia muito bem resolver problemas de banco com um computador à frente, que poderia ser mais rapidamente atendido se se desse ao trabalho de evitar horários de pico, que poderia cumprir suas pendências cotidianas mais rapidamente se não deixasse tudo pra última hora. Portanto, sim, brasileiro adora ser currado em filas indianas só pra, ao chegarem ao final delas, serem sodomizados por gerente de banco e lisonjeados por empresas de crédito pessoal prometendo o Éden com juros infernais. É como se o sujeito se sentisse tratado mais igualitariamente quando em uma fila. Pobre, rico, quem estiver nela espera da mesma forma. É uma exposição grande demais, deslocar-se em frente ao sujeito à frente. Deve ser um dos poucos contextos em que brasileiro repudia o hábito de sair por cima por meio do jeitinho. E justamente por isso que a valoriza tanto; pelo menos em UMA situação em que se encontra prestes a ser feito de trouxa o brasileiro se leva a sério, olha só. Uma boa amostra do que a instituição pensa dos que se prostam de pé esperando atendimento. Um pálido retrato da mentalidade de muitas instituições nacionais, seja as que centralizam o descaso, seja as que o descentralizam com exigências fortuitas. Sem falar na metáfora visual constituída por populares aglomerados uns atrás dos outros. Como se, por aquele momento, classes e outras indumentárias sociais fossem momentaneamente suspensas. "Não importa se você é médico, eu cheguei primeiro, porra! Se nós formos presos um dia, você pode até esquentar colchonete em prédio da PF em prisão especial, mas aqui não tem caô não mermão: vai ficar de pé dormente do mesmo jeito que todo mundo, valeu?" Um outro aspecto a se considerar é o exercício de paciência: não importa o quanto eu seja desrespeitado por esta companhia, tudo que me importa é ser recebido pelo funcionário mais próximo. O luxo de se exigir um serviço de qualidade é prescindido pela vontade de ser atendido. O sujeito age como se não tivesse nada assegurado (seja quais forem os âmbitos que a situação sugere) quando em uma fila. Como se o simples fato de ter de se arrebanhar atrás de outras pessoas significasse ter voltado à Idade Média. Nesses tempos em que os guichês e suas sentenciosas senhas eletrônicas parecem cada vez mais distantes do cidadão, o diálogo empresa-cliente virou uma gravação de companhia telefônica tentando vender plano de minutos. Você virou um número pra eles. Uma lasquinhas de cascalho presa nesse funil acintoso denominado fila! Agora suma daqui que seu número está aproximando... mas sei que voltarás logo: provavelmente você terá esquecido de tirar três vias de um dos documentos pedidos pela recepcionista disfarçando a janelinha do Msn do outro lado do balcão.

Notas musicais de quem não gosta de nada

_ Bandas como Portishead são um perigo para a sociedade. Sintam o drama: até em propagandas do CVV já usaram trilha sonora dela...
_ O rock tem prazo de validade. A necessidade de produção de certas bandas de rock é tão efêmera quanto a juventude de onde foram paridas. Ou ninguém acha ridículo bandas como os Titãs ou os Stones fazendo mais do mesmo há décadas?
_ A integridade criativa foi assassinada pelo marketing. Agora é oficial. Um projeto chamado Estúdio Coca-cola juntou CPM22 e Babado novo, duas bandas de pobreza lírica evidente, para cantarem juntas. Pena que eles não tiveram o mínimo de bom-senso que a Sempre livre fez quando juntou Skank e o Rappa, por exemplo. Percebam: a produção musical nesse país se reduziu à experimentação sem critérios e a uma mala-direta sonora produzida sempre pelos mesmos produtores musicais, pela mesma cena musical aristocrática e pela mesma indústria fonográfica acovardada.
_ A qualidade musical fugiu (eufemismos, eufemismos) do mainstream pra se vender como underground (ou algo que o valha). Quanto menos a banda for conhecida, mais motivos pra meterem a peixeira na hora de vender disco. Tempos em que talento foi expulso das cenas pela unanimidade burra. Nossa cena musical virou um videokê pavoroso no canto do salão em fim de festa...
_ Hoje em dia a cena alternativa anda tão, mas tão democrática com seus rebanhozinhos de covers de Julian Casablancas -- que nunca tiveram tanta facilidade de exibir seu produto -- que periga acontecer a ela o mesmo efeito entorpecente da mediocridade do mercado mainstream: a seleção natural da criatividade (a quem quero enganar: criatividade o caramba, me refiro à proximidade obtida ante a unanimidade burra) ser preterida pelo marketing.


Sim, eu não gosto de nada, mesmo. É quase um desperdício eu ter nascido com ouvidos...

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Dublagem

Insulto maior a quem assiste um filme, não tem. Quer dizer, o insulto pode ser ainda maior se o elenco escolhido para a inglória tarefa for ruim. Nunca vou perdoar a Fox por ter começado a dublar TODA a sua programação; não precisava de mais notícias ruins para esse ano. Alguns exemplos trágicos dessa prática (e seus respectivos nomes -- quando possível -- para que nossa antipatia ganhe identidade):
_ Dublador do Al Pacino e do John Cusack (Nestor Chiesse, acho): já tentaram assistir qualquer filme desses dois com seu habitual dublador? Parece que o cara tá cochichando o filme inteiro! De tom levemente renitente e agudo nos sons com 's', é tarefa de paciência acompanhar filmes com esse cara. Alta fidelidade na TNT é uma experiência decepcionante por causa desse maledetto...
_ Dublador do Seiya (Hermes Baroli): célebre por dublar o mais chato de todos os Cavaleiros do Zodíaco, em em linhas gerais todo o resto do currículo desse ator é óbvio: fora do Clube da Luta e dos Cavaleiros, você só o encontra dublando imigrante chinês de filme de kickboxe. Quando a Alamo não tá a fim de montar uma equipe mais experiente para dublar um filme qualquer, é batata: coloca o Seiya pra dublar o china daquele filme do Jet Li que tá tudo beleza...
_ Dublador de bonachões e genéricos de Sargento Garcia: toda vez que você encontrar um gordinho numa comédia qualquer, não tenha dúvida; este cara estará batendo ponto. É um figura tão decadente que até ponta no Zorra total faz hoje em dia. Podemos dizer que Mauro Ramos (Pumbaa e Abu de Samurai Jack) e Marcelo Coutinho (Bafo da Turma do Pateta) são uma versão aspirante a ele...
_ Dubladora teen dos anos 80: se tiver cabelo armado, blusinha de estampa chamativa e namorar o protagonista, ela estará lá. Arroz-de-festa da Sessão da tarde, essa moça já aprontou altos agitos, num clima de muita azaração, já diria o narrador do supracitado programa.
_ Dublador teen dos anos 80: pra citar um exemplo desse lugar-comum em ação, cito o protagonista de Splash - uma sereia em minha vida. Sentiram o drama?
_ Dublador de desenhinho pré-adolescente (Luis Sergio): como ele arruma namorada com uma voz dessas? Ele ganharia mais narrando promoção de supermercado naqueles carros com alto-falante que circulam seu bairro adentro e enchem o saco bem na hora daquele programa imperdível (que, com certeza, só por ser imperdível não será por ele dublado). Pra aliviar pro lado do Luiz, digo que o dublador do Daniel san continua sendo mais chato que ele (posto vitalício, fazer o quê)... a propósito, se não me engano a namorada do Dani é um bom exemplo de dubladora teen oitentista acima citado.
_ Dubladora fofinha (Christiane Monteiro): odeio coisinhas meiguinhas e coloridinhas e mais outras inhas que as miguxinhas adorinham! Tenta imaginar uma mulher dessas, mãe de família, precisando dar uma reprimenda com uma voz dessa? Mais fácil o caos se instaurar na residência do que ela ser ouvida. A agudeza da voz dessa atriz ainda vai trincar as taças de vidro da copa daqui de casa... a propósito: personagens como Lindinhas d'as Meninas Superpoderosas não me deixam exagerar!
_ Dupla do enfado: me refiro a Orlando Drummond e Mário Monjardim, dubladores de Scooby Doo e Salsicha, respectivamente. Meus parabéns aos dois: conseguiram a proeza de tornar um desenho inassistível apenas com suas vozes! Se isso não for suficiente pra te deter, a historinha que se seguir será. Só mesmo os gringos pra acharem graça em historinhas de halloween...

Nota mental: admiro essa profissão NOS DESENHOS ANIMADOS! Não sou xiita a ponto de desejar o banimento dessa classe. Mas que devíamos ter opções, ah, isso devíamos. Fala sério, pago TV a cabo todo mês pra Fox me obrigar a assistir programação dublada? Sifudê! Antigamente eles davam a opção para se assistir a algumas séries em versão dublada ou legendada; fãs de Buffy e Angel tiveram essa sorte. Agora, quererem me forçar a ver 24 horas dublado é demais pra minha cabeça! Ditadura, isso... os tradutores responsáveis pela legendagem não mereciam essa marginalização. Uma pena ver como esses profissionais estão vendo seu trabalho ser feito com cada vez mais discplicência; cada tradução simplória que encontro por aí... um verdadeiro amputamento do conceito que os roteiristas planejaram para a audiência final.
Nota mental 2: algumas menções honrosas de dubladores que reconheço terem dado gás aos programas dos quais participaram: Jussara Marques, Guilherme Briggs, Marcelo Gastaldi, Carlos Seidl, Rodrigo Andreotto, Fábio Lucindo (só pra constar nos autos), Nelson Machado, Daoiz Cabezudo, Selma Lopes...