sexta-feira, 22 de junho de 2007

Tédio

Sabe essa sensação de missão cumprida que se vê facilmente estampado no rosto de qualquer pessoa idosa? Tenho a nítida impressão de que isso me acomtece às vezes. Mas essa sensação de missão cumprida que em mim descrevo não é recompensadora e abonadora como quando chega na hora certa, que é quando envelhecemos. Ela conota uma vida sem mais nenhuma meta relevante. Sem desafios grandes o suficiente para fomentar quaisquer insumos de vontade de querer mais de qualquer coisa. Há algo errado de isso se acometer em minha idade, lógico. Que tipo de serenidade daninha é essa que me impele a ceder a um manipulador conformismo e a uma envolvente resignação? Maturidade implica em saber se satisfazer com o que se tem, mas o que acontece quando sequer se preocupa mais com a localização de sua própria satisfação? Que estranho niilismo é esse que entorpece gente rancorosa como eu? As convenções sociais mínimas necessárias para se obter uma posição social são naturalmente seguidas, mas não surtem efeito algum em detentores dessa sensação de missãso cumprida, como nós. Eu não morri antes da hora. Mas decerto nem sempre é fácil se contentar com o fato de não haver certos porquês...


Posts novos só mês que vem, crianças. Comportem-se até lá e não sujem o tapete...

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Bloco de notas (II)

Negócios, negócios, amigos à parte.

Os audaciosos têm um dom passível de ser desenvolvido: o de criar imunidade antes às incessantes hesitações e empecilhos de seus superegos.

Cara, ainda bem que Deus inventou a mulher vagabunda...
[frase de autoria do meu irmão, um cara romântico...]

_ Pô mãe, minha namorada acha que você não gosta dela.
_ O que você quer, filho? Que bata altos papos com ela, que fique fuçando a vida dela?
_ Não, mas ao menos demonstre algum interesse. Pergunte sobre o emprego dela, sobre a faculdade, sei lá. Demonstre algum interesse.
_ E eu, posso continuar demonstrando desinteresse? [não tinha como deixar essa escapar]
_ Você pode é ir pro inferno, seu babaca!

_ Deus do céu, ela não pára de falar!
_ Tenho vontade de subir pelas paredes quando certas pessoas começam a tagarelar sem parar!
_ O horror, o horror!
_ Pode soar irônico o fato de um microfone, às vezes, ser a única forma de calar a boca delas...

_ Aí eu estava voltando pra minha cabine no serviço, quando de repente aquela mocréia veio até mim e...
_ Hã? Você ainda está falando comigo?

Maus perdedores...


Não vai ser dessa vez que as ruas do centro da cidade ficarão cheias de gaudérios fazendo buzinaço...

terça-feira, 19 de junho de 2007

Ah, mas ele me faz rir...

Mulheres não são engraçadas. Um motivo cabal o suficiente para entender porque elas buscam, com tanta prioridade, ter acesso a homens divertidos. Não exatamente por tédio, mas... agüentar sua própria existência feminina, tendo de lidar constantemente com a inveja das fêmeas a seu redor e, por conseguinte, ter sempre de impressionar a elas e a uma sociedade hipócrita de alguma forma, o que impede qualquer tentativa de a mulher deixar de se levar a sério nem que seja por alguns instantes, é por demais desgastante. Não dá tempo de esboçar descontração. Não que elas não saibam fazer humor de suas limitações e de suas peculiaridades. Só não sabem fazer isso descompromissadamente. Tendo isso em pauta, é conveniente a mulher ser dotada de várias facetas em seu espírito, mas ser substancialmente desprovida de humor. Humor autêntico automaticamente conota uma pessoa que não se leva muito a sério. Algo que desabona muito mais as mulheres: a volubilidade de seu ser as condenará eternamente a ser alvo de julgamentos hesitantes, e observar uma com humor com certeza torna essa formação de opinião bem mais difícil e instável. No final das contas, as mulheres não precisam de humor para tirar um homem do sério; a natureza deu a elas várias ferramentas pra devorar (decifrar é supérfluo para elas) os exemplares masculinos a seu redor, a saber: sedução, dissimulação, persuasão, chantagem, útero, pensões... coisa pra fazer qualquer cabra macho rir. Quando não quiser chorar, claro.

sábado, 16 de junho de 2007

Hamtaro é o caralho. Meu nome é Ebichu porra!




Sim, este post está nerd demais. Não, tua opinião não me importa. Mas tenham certeza, jovens: Shin Chan fez escola! Isso deve ser o suficiente pra você se dar ao trabalho de dar o play. Não sabe quem é Shin Chan? Procura no Google e talvez voltemos a conversar um dia...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Coisa de menininha...!

Do fórum do site da BBC Brasil:

Uma famosa loja de brinquedos francesa criou um espaço para que meninos possam brincar com bonecas. Além do objetivo comercial de aumentar a venda dos brinquedos, a loja argumenta que a brincadeira com bonecas refletiria o homem atual, mais participativo nas tarefas domésticas e na educação dos filhos. No material de divulgação distribuído pela loja, a pediatra Edwige Antier diz que ao brincar de bonecas a menina se sente potente ao representar a mãe, já o menino evolui para dois estágios: antes dos três anos, ele se identifica com sua mãe mais do que a imita. Às vezes ele coloca seu 'bebê' sob a camisa e afirma que está 'grávido' e por volta dos três anos, ele toma consciência não apenas de que é um menino, mas também de que é diferente das meninas, e passa a manipular o seu bebê com os mesmos gestos firmes que seu pai.



Os mais conservadores, no fórum, se posicionaram fortemente contra, sob a afirmação de que as brincadeiras de infância servem como 'treinamento' para a vida adulta e a vocação biológica da mulher é cuidar dos filhos, amamentá-los etc. O papel do homem é garantir condições para que sua mulher cuide bem da criança. (...) induzir uma criança a brincar com bonecas é induzir-lo ao homossexualismo. Tendo esse comentário, de um dos usuários, sintetizado confortavelmente a mentalidade conservadora e um tanto machista do brasileiro, coloco meu irrelevante ponto-de-vista em pauta. Nem f****** eu penso, ao cometer o conivente erro de me casar, em dividir certas atividades domésticas. Não que eu queira me casar com uma perfeita Amélia, mas subverter certas convenções sociais é algo perigoso que rompe com confortos e conveniências com os quais nunca estaria disposto a abrir mão. Sem falar que hoje em dia, com essa autonomia das mulheres, os valores agregados em hábitos cotidianos está se perdendo; elas estão começando a ver as atividades domésticas como práticas retrógradas e preconceituosas. Como se fosse uma enorme ofensa ter a gestão de uma casa sob sua égide. Me poupem, vá. Não é à toa que as mulheres de hoje em dia estão se saindo desastrosas donas-de-casa, maltratando a saúde de seus incautos maridos com pífias habilidades na cozinha. Em nossa sociedade moderna, isso acontece porque as pequenas coisas do cotidiano estão tão radicalmente desvirtuadas que as coisas antes das suspeitas facilidades da modernidade são vistas como estigmas. Observemos as criancinhas japonesas, que desde pequenas têm aulas de economia doméstica. Em tenra idade, começam a ser adaptadas a pensar hábitos tão nobres do cotidiano, quanto o de se alimentar e de cozinhar, como algo natural, belo e digno de se praticar. É lógico que os pais se preocuparão com essa proposta da loja francesa: eles foram acostumados, em suas infâncias, a serem moldados pela sociedade, sem sequer terem certos elementos dela -- com os quesitos pedagógicos apropriados -- abordados de forma natural em atividades escolares. Como se a escola, em vez de amiga das particularidades do cotidiano, fosse refúgio onde o saber, destituído de compromisso com os elementos mais singelos do cotidiano, se escondesse.

É normal, na infância, alguns meninos manifestarem estranho hábito de experimentar as roupas da mãe e brincar de boneca com a irmã (vovó contava que um tio meu era chegado em brincar com as roupas dela; ou seja, se confiássemos apenas nesse fator pra taxar outrem, meu tio nunca teria se casado). Devia até ser visto como algo normal: as brincadeiras às quais os meninos são incentivados são não raro destituídas de contexto; não envolvem elementos da realidade. Esses elementos, esquivados nas atividades lúdicas às quais praticam, entram com um baque maior em suas vidas do que entrariam na vida de meninas, habituadas a lidar com elementos da vida como coisas intrínsecas e naturais. Esse mundo desconhecido se configura em perigosas conseqüências em certos casos clínicos, então porque torcer o nariz para um gesto como o proposto pela loja supracitada, de sugerir a mulher como algo natural? Com as meninas, a maternidade é sugerida naturalmente. Já com os meninos não; só começam a brincar de papai-e-mamãe quando a camisinha fura, se é que me entendem. Observar meninos demonstrando interesse por coisas do universo feminino expressa, no máximo, admiração da parte do monstrinho em relação a toda a instituição física, psicológica e social que é o ser mulher. Nada mais. Opção sexual não é opção. O indivíduo nasce com ela, tendo que aprender a tocar sua vida com uma forma diferente de pensar o mundo e de se pensar. Toda uma gama de conflitos que, em definitivo, não se manifestam nas crianças pelo simples fato de se encontrarem em uma fase de desenvolvimento que não envolve maturação sexual de qualquer espécie. Tanta coisa para se descobrir do mundo quando se é criança e a opção sexual entra nesse rol? Nada disso, ridículo. São preconceitos que fincam recalques inúteis na vida desses futuros adultos. Ou seja, a experiência da loja francesa é inofensiva; é puramente mercadológica, mesmo. Não é de se considerar uma atitude feminista; crianças são curiosas, e é importante que os adultos saibam obter correspondência à naturalidade com que essa curiosidade lhes é proposta pelas crianças.

A culpa é do governo, mesmo...


Você não vê suíço falando mal da Suíça. Você não vê italiano falar mal da Itália. Mas o brasileiro...


Essa é frase de nosso simplista presidente reclamando da mania de brasileiro de reclamar impulsivamente (?) de seu país. Bocejo só de reproduzir essa pérola presidencial. Fora de solo pátrio, é LÓGICO que todo mundo vai falar bem de sua terra natal. Agora começa a abordar populares em ruas parisienses ou romanas, por exemplo: o resultado dessa abordagem será universal; as mazelas sempre prevalecerão. Elogios não têm graça. Dor-de-cotovelo da parte de nosso presidente, já tão escaldado com a mídia e suas inúmeras piadas referentes a suas gafes que poderiam quase todas ser evitadas com um mínimo de respeito a protocolos. Nem Boris Yeltsin deve ter sido tão achincalhado quanto ao hábito de beber... falando em presidentes russos, tergiverso (palavrinha horrenda...): o Brasil é uma Rússia (pós-comunista, diga-se de passagem) tropical! Pensem: são duas máquinas do Estado enferrujadas por infundadas estatizações, políticos caricatos, saudosismos de teorias políticas derrotadas e certa inconseqüência de todo um imaginário popular que dificulta o exercício de se levar a sério uma nação. Eles têm a Chechênia e outras províncias querendo independência; nós temos os gaúchos (argentinos morando no lugar errado) e sua causa separatista. Nós tivemos os caudilhos; eles, os bolcheviques. Nós tivemos o trabalho de sediar uma copa do mundo só pra ter o privilégio de ser vice em casa; eles, os jogos olímpicos só pra zicar todo um símbolo de espírito esportivo, com boicotes e práticas suspeitas dos organizadores. Cada país com seu jeitinho...

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Boca-do-inferno não teria a menor chance hoje em dia...

O pós-modernismo deixou a crítica pop demais! Hoje em dia, incomodar já virou uma forma de obter público para algum empreendimento comunicativo. A fúria dos criticados é usada para agregar valor polêmico à sátira feita em cima de, por exemplo, minorias. O fato de uma crítica incomodar de frente está sendo usada para dar uma visibilidade mercadológica atraída pela aversão dos ofendidos. Isso quando o fator de ofensa chega a ser uma crítica. Peguemos o pop, que precisa constantemente arrumar asneiras diferentes pra vender como atitude. Liberação sexual, indiferença ante relacionamentos, falso niilismo, obtenção de felicidade por meio de coisas materiais e bobagens congêneres. Nada disso é crítica, é efeméride maquiada de tabu em letras constrangedoramente medíocres! Eu devia é ter nascido nos tempos em que críticas mordazes eram suficientes para fuzilamentos; você sangrava até a morte mas ao menos tinha algo a dizer... e acreditava no que dizia, o que era pior! Sua antipatia e cinismo eram levados a sério como algo potencialmente perigoso, olha que beleza. Você era mais irremediavelmente reprimido, mas te davam importância mais do que suficiente para isso. Hoje em dia não tem mais graça ser contra nem criticar nada; todo mundo acha que é tentativa de vender atitude (ou, no máximo, uma saída retórica pela tangente em um debate...).

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Insight?

Uso a falha alheia (às vezes, talvez apenas eu assim o julgue) como álibi para nunca me envolver e pra esconder a vontade. Sentimentos são acidentes: estados de espírito em vias opostas, um deles sempre andando na contramão. Felicidade é mão única. Sem a devida sinalização, diga-se de passagem. Em todo caso, a vida te consome espiritualmente; a morte, só fisicamente. Um desgaste mais altruísta, impulsivo e voluntário do que parece. Agulha em balão, pra usar da metáfora pobre. Uma sucessão de desperdícios necessários. Mas essa última constatação já postara no meu blog anterior...

terça-feira, 12 de junho de 2007

Bloco de notas

Já lhe ocorreu que, por mais plena que o curso de sua vida tenha sido, permaneça uma tênue sensação de que faltou algo? Oportunidades postergadas, infância vivida de forma hesitante ou decisões amargamente erradas? Isso é lacuna ou uma implícita manifestação de motivação?

Com o quê a tristeza se parece?
( ) Um trem sem escalas?
( ) Um déja-vu onírico?
( ) Uma cor que manipula dos sentidos?
( ) Um espírito desarmado ou armado em excesso?
Sim, isso é uma pesquisa...

Às vezes acho que a única contribuição efetiva de Auguste Comte para o mundo foi nos ensinar a pesquisar. Teorias de intelectuais franceses são como tratados filosóficos: onanista rodeio em cima da própria retórica adornada. Ou seja: discurso! Abre-alas que não agüenta o peso da própria indumentária.

Em nossas faculdades, os profissionais não são formados. São capacitados. Quando se inicia uma graduação, a preocupação-mor presente à cabeça do estudante é quando se formar. Quando se termina, passa a ser O FATO de que ele vai se formar.

Porque artistas (quase) nunca passam de um eu-lírico legal de uma pessoa boçal? Uma pena que a convergência de um eu-lírico fascinante com um eu interessante seja rara. O que dificulta essa osmose de personalidade? Vaidade? Comodismo com a suposta genialidade com que o artista se acha dadivado? Equilíbrio? Talvez equilíbrio: onde quer que o espírito se esmere em sua manifestação, o outro lado fica a desejar. É como se o eu artista fosse uma tese a ser constantemente defendida pelo eu primeiro; talvez seja mais do que comum o eu primeiro falhar: difícil ser cúmplice de certos graus de estética presente no eu lírico de certas pessoas...

Prazo de validade

As pessoas morrem bem antes de serem desovadas a sete palmos. A vida em si trata de matá-las aos poucos, nada de novo aqui. Nem a diferença entre homens e mulheres nesse quesito. Eles vão morrendo quando a vida lhes rouba despudoradamente a honra. Já elas, quando lhes é roubada o direito à vaidade. Isso na juventude, creio eu de forma até simplista. Depois dela, pouca mudança há. Acrescente a isso novas formas de se suprimir o vigor de espírito: enquanto o homem definha à medida que perde a imponência e o limitado livre-arbítrio de sua validez social, o mesmo acontece à mulher quando esta vê os objetos de seu amor ganharem independência suficiente para descartarem a desgarrada vaidade incrustada em seus cuidados aos que detêm seu apreço.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Estranhas tendências da humanidade (IV)

Sacos de plástico: num século em que a todo tempo ouvimos alarmantes prognósticos sobre o esgotamento de recursos naturais, o que aprontam na década de 70 do século passado? Inventam um horrendo aparato para facilitar a vida de donas-de-casa durante as idas ao supermercado. Uma forma prática de se livrar de sobras de petróleo, diriam algum. Diria eu se tratar de uma brilhante forma de se poluir. Uma fútil aplicação para um produto biodegradável. Há países que souberam lidar com essa questão de forma inteligente; os governos mais perspicazes souberam até usar isso como pretexto para novos impostos, olha que fantástico. Recomendo este artigo para maior esclarecimento da questão.
Ginásios: que nosso país, dada sua displicência quanto ao patrocínio da prática esportiva, só lembra da existência de certos esportes quando algum atleta acidentalmente ganha notoriedade por uma zebra num campeonato qualquer, isso não é novidade. Também não é o que as autoridades constróem para a população, só pra dar a impressão de que o Estado faz presença em bairros ermos, para a prática esportiva: falo dos ginásios poliesportivos. Passar do monoesportivo já é lucro. O pavoroso aqui não é a escabrosa arquitetura por trás dessas construções, mas é o incrível desrespeito com a população que se sujeita a prestigiar os eventos esportivos de sua comunidade -- fomentando timidamente um espírito de competição que pouco tem para ser incentivado --, da parte da estrutura desses lugares. Os assentos SEMPRE são de cimento bruto, JAMAIS esses lugares contam com sistemas de refrigeração para as implicações de nosso tropical país, e a suspeita salubridade desses lugares é sempre um fator negativo. Ginásios no Brasil são praticamente currais pra distrair a pobraiada por uns tempos. Tempo que se distrai com esporte é tempo que povão não fica pensando em política ou não fica de cabeça vazia matutando bobagens ditas pelo cão...

sábado, 9 de junho de 2007

A carne é fraca



Desde segunda tem rolado lá no campus da universidade um festival de cinema. Um telão ao ar livre exibe os filmes que jamais teriam espaço nos cinemas comerciais. Apenasmente produções nacionais. Trata-se do Festival Guará. Chega a ser difícil eu me recordar dum evento cultural desses que não tenha se limitado à canastrice nos últimos anos: queria cortar meus pulsos por ter ido, nessa mesma época do ano, ao 1o. Festival Nacional de Teatro do ano passado. Que aberração. Faço uma necessária ressalva à SBPC de 2004: apesar de meu curso ser pouco suscetível às novidades mais quentes do mundinho restrito da ciência, foi interessante. Só assim mesmo preu ir a uma SBPC... enfim, chega de divagar. Coloco o vídeo acima de um dos documentários que mais gostei. A maioria dos documentários falou sobre a questão dos sem-terra e dos índios, dois lugares-comum inevitáveis quando lidamos com documentários. Não reprovo de todo essa tendência; vi coisas relevantes a respeito. O paralelo entre a Rubinéia de seu Galdino e a Canudos de Antônio Conselheiro no longa da quinta foi bastante proveitoso também. Mas me limito a colocar o trailer desse documentário por ter sido o mais marcante do festival. As cenas são fortes. Um tapa na cara. Daqueles que mostra coisas à frente do nariz de todos nós...

Treinando o escárnio (II)

O alvo dessa vez é... cursinhos! Caça-níqueis que arrebanham centenas de frustrados tentando desesperadamente buscar aprovação em universidades públicas, num claro ranço da mentalidade do brasileiro de querer tirar sua casquinha das benesses (?) dos serviços públicos. E, claro, um eficiente desvio de foco da opinião pública quanto quanto à -- não raro -- duvidosa eficiência do conhecimento repassado pelo ensino Médio, constrangedoramente subordinado a uma prova opressora que gera desnecessária concorrência entre nossos jovens. Passam-se os séculos, mas certas coisas não mudam. Hoje em dia filho de rico não precisa mais estudar na Europa para ter acesso a uma educação aceitável; pode ter acesso a ela estuprando o bolso dos pais com mensalidades de um cursinho preparatório que se configura num enorme desserviço à educação nacional: uma modalidade 100% comercial de ensino que engessa o debilitado braço da educação em nosso país. Ou seja, vejam só o paralelo aqui: os locais mais hype para se ter acesso à educação tiveram singela democratização; (quase) ninguém mais vai à Europa pra fazer sua faculdade. Mas o abismo sociocultural para se ter acesso a isso permanece o mesmo! E detalhe: as instituições de ensino, nesse mundinho sem distâncias, estão a praticamente uma passagem de ônibus de distância dos estudantes de hoje em dia. Dos do século XIX, a uma passagem de navio. Quanta diferença...

Ou seja: o Ensino Superior é divulgado como se fosse um favor que o governo coloca à disposição da população que busca nela uma ascensão social. Tal cínica ideologia poderia até proceder se, em nosso País, o Ensino Superior não se enveredasse lamentavelmente pra elementos tecnicistas. A função do Ensino Superior deveria ser a de proporcionar à sociedade recursos e conhecimentos para melhor ingerência dos interesses do bem-comum, e não um mero instrumento de ambição de individuais para 'ser o primeiro médico da família'. Entendo que a descrição que acabo de fazer mais parece originalmente dirigida a um processo licitatório; por isso me desculpo sinceramente, apesar de isso, de forma meio serendípica, refletir a natureza de nossas faculdades. O que os jovens não entendem é que o Ensino Superior deveria formar profissionais com uma independência intelectual suficiente para vir a somar ao mecanismo de uma faculdade e das ferramentas que ela proporciona para o crescimento científico de uma sociedade. Essa visão romântica embutida nas universidades federais precisa acabar; ela atrai muitos idiotas, comunitas de butique brincando de política nos DCEs da vida. Nossa juventude, nesse contexto, acaba se tornando egoísta, vendo a faculdade como mero capricho social, sem conseguir se ver inserida num universo científico ao qual muito poderiam contribuir (salvo centenas de ressalvas impostas pelos vergonhosos investimentos à educação, claro). Pensa num conhecimento como um laboratório. Agora pensa nas pessoas que utilizam esse laboratório, sem sequer chegar perto dos béqueres e dos instrumentos próprios a pesquisas, se limitando a brincar de malabarismo com seus canudos em cima de um velocípede, querendo aparecer. Taí a metáfora.

Sabe, poderiam até dizer que o que afirmarei a seguir é altamente tendencioso a perpetuar o elitismo nas universides públicas. Azar o seu, pense o que quiser porque digo mesmo assim. Pensem também nisso que direi como num direcionamento mais eficaz de nossos estudantes; os mais passíveis de serem intelectualmente preparados que fiquem com o Ensino Superior; os mais passíveis de serem profissionalmente preparados, que fiquem com outras opções de conhecimento. Segue os dizeres, depois de exaustiva ressalva. O cursinho, nesse meio-tempo, fica a deificar indevidamente uma forma de ensino, quando na verdade existem várias, todas elas se direcionando muito mais eficazmente ao mercado de trabalho. Imagine se um dia as propagandas do governo conseguissem desviar o foco do ensino superior para formações que realmente atendessem as necessidades empregatícias mais imediatas dos jovens. Seria uma relevante mudança de pensamento. Não adianta uma legião de medíocres continuarem a adentrar numa universidade que ainda tem muito a aprender com sua prática. Só pra citar um exemplo: os médicos têm o CRM, os advogados, a OAB, os engenheiros, o CREA, e assim por diante. Adivinha qual o órgão regulador dos professores de língua portuguesa, por exemplo? Quem acertar ganha um doce...

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Hadouken!


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A lei do mais forte

A imposição, por uma força maior que a sua, é uma indolente forma de pensar (ou somente de agir) da parte do opressor? Pra quê aprender com as diversidades se posso oprimi-las com requintes de crueldade e perpetuar as futilidades de uma existência que me proporcionou força necessária para isso? Pra quê aprender a compreender o surdo grito de desespero do oprimido? Pra quê me preocupar em cultivar elementos de humanidade, dispensáveis em excessivamente favorável condição, como a compaixão? Isso me faz lembrar da fábula do lobo e do cordeiro, e de como lições de moral são opacas aquarelas criando uma estranha ilusão de ótica com as escarlates nuances dessa pintura íntima que é nosso mundo. As pessoas têm cânones intrínsecos e extrínsecos, mas também têm arbitrários esboços destes escritos pelos 'mais fortes', subvertendo e reescrevendo à versão que mais lhes aprouver, sua personalizada verdade. Quando a perversidade ganha legitimidade, a derrota humana pende pra que lado? Pra anabolizada ética do opressor ou pra dignidade do oprimido? Não à toa, os infernos são criações dos homens. Quando o outro deixa de ser inferno, é uma existência -- subordinada à opressão -- que passa a sê-lo.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Behind the scenes

* Tomada 16. Scarlett, senta na janela e divaga!
* Tomada 19. Bill, saia do quarto e olhe para o nada.
* Tomada 23. Bill, vá até o saguão e fique parado em frente ao elevador.
Gravar Encontros e Desencontros deve ter sido uma extenuente tarefa, com certeza.

Parental advisory: explicit antipathy (IV)

[conversando com uma pessoa, é insistentemente abordado por outra]
_ Que dia vai ser a prova?
_ ...e você pega a teoria do sicrano para perceber que...
_ Que dia vai ser a prova?
_ ...a soma dos quadrados dos catetos...
_ Que dia vai ser a prova?
_ Você não odeia gente que não sabe esperar os outros parar de falar? [para a 'uma', após pergunta da outra] Vou estabelecer uma cota pra você, a partir de agora: toda vez que ouvir a mesma pergunta de você, parecendo um impúbere adolescente fazendo pergunta em final de aula, você será sumariamente igmorada. Combinado?
_ Que dia vai ser a prova?

_ E essas botas, jovem? De que comitiva você veio?

_ Não entendi.
_ Que bom...

_ Admito que foi engraçado, mas nem por isso desejei ou planejei o ocorrido.
_ Caramba, você me perturbou tanto que acabei mudando de lugar. Mas, no que fiz isso, esqueci de que tinha colocado meu chiclete nesse mesmo lugar. Olha como ficou minha calça...

[após tomar o valioso tempo de aula pra dar um recado irrelevante, sai da sala quase se arrastando pelas paredes]
_ É, eu adestrei bem esse povo...
_ Calouro burro...

_ Ah, finalmente você veio.
_ Algum motivo em especial?
_ Sim, estava fazendo a atividade com a Sicrana, só que estou terminando rápido demais. Ela não está conseguindo me atrapalhar o suficiente, como você faz...

_ Porque você a chamou pra sair também? Sempre existe a possibilidade de ela aceitar o convite, sabia?
_ Você não apanhou o suficiente na infância, não é mesmo?

terça-feira, 5 de junho de 2007

Está em alguém o que se procura de verdade. Não está?

Você ficaria com alguém por conformismo e cansaço? Por solidão, resignação ou auto-conhecimento em excesso? Por aparente falta de opções a seu redor? Inutilmente indago-me isso porque, toda vez que o mundo começa a rumorar sobre certas pessoas, é essa a sensação que me dá. E toda vez o mesmo acontece: a tempestade é em copo d'água. Tudo o que parecia ter sido agregado fora mero prelúdio. Não havia garantias. Tudo fora um cativar inconseqüente. Assim o julgo porque às vezes tenho a nítida impressão de que me enjôo fácil das pessoas. E que, quando encontro uma que julgo demorar um período mais aceitável de tempo preu, ciente e convenientemente, me cansar, ela é quem acaba se cansando de mim primeiro. Se é o momento em que provo de meu veneno? Não há ofiúrico algum envolvido aqui, cara-pálida: não subjugo, ao menos extrinsecamente, os sentimentosa de ninguém; raros são os momentos relevantes o suficiente para que ao menos a ocasião para isso fosse verossímil de acontecer nessa vida besta que é a minha. Se acho que vou me tornar daquelas pessoas que passarão o resto (melhor, dividendo) de suas vidas na solidão? Acho, mas não vejo isso de forma romantizada; isso já reduz um pouco quaisquer teores de petulância nesse inútil post catártico. Voltando à premissa desse post, talvez seja esse meu defeito: não fico com ninguém pelos motivos acima introduzidos. O que disso o seguinte pode-se inferir: sequer tento. Abomino a noção de pensar no amor como tentativa e erro. Sim, sei que é algo fatal a se carregar como mantra. Sim, sou hermeticamente fechado; chega a ser difícil pensar como existe gente que me conhece tão bem como nem sempre posso conceber. Não espero muita coisa do amor não por conformismo, mas por precaução: não dá pra se esperar muito das pessoas. Sim, digo isso subestimando-as, mas não raro vai parecer que digo isso superestimando. Não superestimando a elas propriamente ditas, mas a seus desvios. Há melhor hora pra calar os poetas?

sábado, 2 de junho de 2007

Não sou legal, tô te dando mole

_ Já reparou que toda mulher linda sempre tem amigas gordas?
_ É mesmo, entre as mulheres sempre existe uma relação diametralmente oposta quando são amigas.
_ Sem falar nas feias que têm amigas magérrimas, de corpo perfeito.
_ É um palpite, mas vejo isso como uma questão de vaidade. Na cabeça doente delas, deve passar o seguinte pensamento: é melhor eu cultivar amizades com essas mocréias, que tenho certeza que jamais terão condições de roubar meus namorados, do que andar com uma bonitinha mas ordinária. Já com a mulher feia, deve rolar o seguinte raciocínio: talvez se eu andar com ela, eu atraia mais os rapazes. Afinal de contas, se o maluco não se der bem com ela, pode sempre me usar como estepe pra não perder a noite...
_ Sem falar o quesito atenção: numa festa, os holofotes se voltam pras orcas ou pras saradas?
_ É como se toda mulher precisasse manter amizade com uma baranga para que a feiúra desta ressalte sua beleza.
_ Genial. Bem diferente dessa relação homogênea presente na amizade entre homens...
_ Pois é: os idiotas só conhecem idiotas, os mais espertos, só espertos, e por aí vai.
_ E os chatos?
_ Ninguém os conhece. Eles é que conhecem todo mundo. Contra a vontade de todos, claro.
_ É mesmo, chatos são pólos iguais de um íma: sempre se repelem...

Eles me dão sono...

_ Gosto desse disco por causa da questão política, religiosa, que já era abordada de forma tão criativa.
[Tico Santa Cruz comentando, provavelmente lendo no teleprompter da emetevê, sobre Cabeça Dinossauro, disco dos Titãs]


E daí? Que me interessa encontrar uma música, com versos não raro dadaístas, que têm a insossa pretensão de forjar conteúdo por meio de sugestão? Me lembro de quando O Rappa fez aquela música com o Sepultura e, ao serem entrevistados anos depois sobre uma obscura guerra no Golfo, se é que em entendem. Ficaram se gabando, se achando proféticos com aquela letra de conteúdo espasmo político. Fala sério, já tive aulas de geografia mais substanciais do que as obviedades que eles tentam vender como genialidade (sic) nessas letras. Lirismo não é, e nunca será, cartilha de cenário geopolítico algum! Música, assim como várias efemérides de expressão artística, só servem pros temas universais. Por que vocês acham que a literatura universal, por exemplo, tem tantos imortais? Engajamento político é que não foi: na acepção da palavra, engajamento político é coisa datada. O que parece libertário ou conservador hoje poderá facilmente soar o contrário amanhã. Não, não me iludo: mesmo quando uma obra fica famosa por seu engajamento, tenha uma certeza: algo de universal e isento houve para que até nosso dias ela chegasse. Mantendo o raciocínio, porque vocês acham que artes visuais e cênicas têm seus imortais também? De novo, engajamento político é que não foi. Pelo contrário, muitas das grandes manifestações nesse sentido eram continuístas: não caíam no constrangedor de se limitarem a um grito romântico. Quem se importa com as acepções políticas dos impressionistas, por exemplo? Por vezes, é salutar se rever essa noção de que arte expressão de verdade é combativa, questionadora. Expressão, no máximo, incita a isso (sic²). Bobagens assim são um raquítico Zeitgeist que há muito definharam em compêndios de críticos. Como aquelas bobagens que todos estudam na escola e nunca usam, sabe? Assim é o que a expressão tem a dizer ao mundo: sumárias reminiscências numa relação de amor e ódio com o belo...

Grandes pendências da humanidade

Já pararam pra pensar que o além, na forma ocidental de concebê-lo, é um apartheid celestial?

Computadores deviam vir com retrovisores. Tem coisa mais detestável do que gente atrás enquanto você está lendo e-mails?

Suicidas falam sério e são levados a sério, ao mesmo tempo, apenas uma vez na vida. É quando a forma mais extrema de egoísmo engole o instrumento (pessoa) pelo qual é desferido.

A diferença entre a hipocrisia e a contradição está na intenção ou no dolo?

Toda uma semântica pujante reduzida a uma gíria iraaaaaada. Quando o desuso tira a verve do léxico e o limita não raro a fachada de discursos vazios.

Enquanto funcionar a gente usa. Em um aforismo, a cultura do serviço público...

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Assim copia a humanidade

Blogs brasileiros podem facilmente ser abordados de forma paralela a como a literatura brasileira abarcou todas as vanguardas européias: uma mera importação indiscriminada e descontextualizada de tendências. Só isso poderia explicar o tanto de celebridade instantânea que alcança relativa fama agrupando seus copy-pastes em um weblog. Gente com nada a dizer, mas com boas estratégias de socialização de seu conteúdo. Mais ou menos como aquele monte de gagá que entra na ABL só pra tirar onda dos amigos. Quando não é o caminho de Santiago, é uma vaga na ABL que funciona como status pruma faixa etária da elite em que o vigor de coisas exclusivas à juventude não serve mais. Com blogs não é diferente: milhares de visitas aleatórias e sem compromisso com o conteúdo ainda mais sem compromisso acabam sendo usados como status. Uma situação em que blogs acabam num triste paralelo com apresentadores de tevê: apenas o carisma, não o conteúdo, lhes garante os holofotes virtuais. Exemplos como este, este e mais este corroboram o que digo: blogs, assim como a literatura, mais parecem coluna social de elite (sic) com aspirações intelectuais. Exceções são em bom número para os blogs desconhecidos, mas regras em absoluto para blogs "famosos demais". Por famosos demais, entenda aquele tipo de gentalha que dá entrevista no Programa do Jô pelo simples mérito de adaptar bem um copy-paste ao paladar das massas.