sexta-feira, 27 de abril de 2007

Não posso falar isso nesse horário...


Polêmica não é uma mera violação de tabu. A polêmica de verdade não viola pudores gratuitamente, muito menos se dedica a se inclinar vertiginosamente a tendências anarquistas: a polêmica de verdade se dedica a escarrar, na cara de quem estiver por perto, coisas que estão bem à frente do nariz. As pessoas só vêem o que querem, e é por causa dessa verdade na natureza humana que a polêmica é necessária em nossas vidas. Precisamos nos atrever a nos aceitar ser questionados. Precisamos combater nossas certezas antes que elas se petrifiquem na prepotência de gerações inteiras. O bem-estar é um comodismo cego. A justiça, mero sentimento, fruto de ingênua abstração humana. A provocação, miragem retórica. A polêmica, ereção ante nossos conceitos. Em que orifício a polêmica entra? É aqui que a diversão começa: a polêmica não escolhe onde entrar; apenas arromba escancara.

domingo, 22 de abril de 2007

Ninguém tem inveja de você, seu merda!

Os invejosos são pessimistas enrustidos metidos a futurista. Pensemos bem: que motivo há pra invejar...
Celebridades?: novos-ricos deslumbrados que vão necessariamente morrer na pobreza. Nunca ouvi falar de previdência social para a fama, que sequer é profissão, é status. O que esperar de gente que, em vez de ser produtiva para a sociedade e garantir currículo, prefere se limitar ao teste do sofá e se jogar na esbórnia por trás da fama, num hedonismo cego como criança dentro duma loja de fliperama achando que dinheiro é capim?
Jogador de futebol?: mais proeminente que os gols do craque, só mesmo a legião de filhos bastardos em sua trajetória. Tempo demais que gente assim perde disputando pensão. Esse deve ser um quesito em que Romário passou do milésimo há tempos, entende?
Valentões da escola?: disléxicos que passarão o resto de suas vidas como empacotadores de supermercado, cuja única diversão em suas patéticas vidas será cultivar barriga de chopp com a família aos finais de semana enquanto a mulher fura a terceira cadeira de fios no mês por causa daquela dieta que nunca começa.
As meninas mais bonitas da escola?: metade delas vai engravidar antes de terminar o Ensino Médio, mesmo. Que é um período de nossas vidas de mais fertilidade que a cheia do Nilo ou um baile funk, com certeza. E de mais oportunidades para os idiotas procriarem, não esqueçamos disso: afinal de contas, de pé não engravida, não é mesmo? Depois do Ensino Médio, os idiotas serão objetificados. Ou seja: você é seu carro, você é seu emprego. Tyler Durden coraria...
Gente que coleciona medalhas?: derretendo todo esse latão, acho que dá pra comprar uma latinha de Malt 90...
Gente perfeita?: frigidez, impotência, doses de Rivotril que o psiquiatra desconhece ou todas as anteriores: bons pastores que arrastam bolas-de-neve de recalques e que são os seres mais detestáveis pela simples razão de ser difícil aos invejosos malhá-los com propriedade.
Gente famosa nas colunas sociais?: gente que recebeu atenção demais na infância e desconta esse excesso desperdiçando toneladas e mais toneladas de celulose em fotos nas revistas destinadas a empregadas de infância diametralmente oposta a deles. Triste destino para um eucalipto...
Estudantes de Direito?: berços-de-ouro que não sabem o que querem da vida mas pegaram o bonde dos amiguinhos e dos pais prometendo um carro novo. Se fosse apenas esse o lastimável em gente assim, estava bom, mas não: essa gentalha acha que, por carregar aqueles livros de leis escrito por gente arbitrária e estóica, se acha bom entendedor de qualquer assunto (ao menos o suficiente pra distorcer os fatos como lhe aprouver). Acham que podem palestrar tranqüilamente sobre qualquer assunto, por mais vagamente que suas leis de araque o abarquem. Como professora de primário querendo discutir física quântica, sabe? Sem exame da ordem, todos eles não passam de insetos estercorários no mercado de trabalho, mas adoram posar de super-heróis. Alguém tem que avisá-los que aquelas capinhas maneiras dos magistrados não dão habilidades como visão de raio-x...
Estudantes de Medicina?: como se já não faltasse açougueiro nesse país, a cada ano nossa população abarca gente que acaba de sair das fraldas pra brincar com nossos órgãos em cima duma mesa de cirurgia. E lembre-se: sempre desconfie do que essa gente te disser; tudo que eles sabem é ingenuamente endossado por pesquisas (eles sempre citarão uma pra tentar conferir veracidade ao que dizem). Ou seja, não raro trata-se de uma ciência cujo arreio é a mensurabilidade ("ah, eu acho que é uma virose..."). Sem falar que viver com gente assim deve ser lamentável: por passarem tempo demais em ambientes nefastos como hospitais e ambulatórios, acabam ficando institucionalizados demais por causa das coisas que presenciam, sem falar no 'institucionalismo' entre os próprio colegas de trabalho, se é que me entendem... ou seja, não estranhe se aquele teu amigo certinho se tornar um viciado em sexo movido a doses de morfina nos poucos minutos de descanso entre troca de turnos que ele tiver.

sábado, 21 de abril de 2007

Religião é ópio; ciência é placebo

Num mundo em que o pensamento não é mais suficiente para guiar os passos da humanidade e seus atos quando com as ciências em mãos, o que resta ver quando se olha para trás na história? Resta um tempo em que pontos-de-vista ainda tinham condições de exibirem a opulência necessária para persuadir a realidade a seu redor. Ainda não nos restringíamos ao que sabemos em termos me mensurabilidade e propensões: restringíamo-nos à nossa audácia, nossa perspectiva. Ainda nos encontrávamos acima dos conceitos que regem nossas vidas. Ainda havia condições de enxergar a imensidão de coisas que não podemos controlar; estas ainda não tinham crescido fora de controle a ponto de não termos condições de percebermos o que nos detém.

...não se discute: lamenta-se

Gostos são amostras de passividade? Pra que servem as preferências pessoais? Não me digam que é pra nos distinguirmos uns dos outros: pessoas são joguinhos de montar, mas tais quebra-cabeças não se limitam a conveniências. Adornos, disso não passam nossas coisas em comum. Como trailers de filmes que nunca estréiam... como hinos que ninguém canta em estádios.

Nada pessoal


Ainda vou encomendar alguns desse para mim...

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Parental advisory: Explicit antipathy (II)

_ Já ouviu as coisas que ele fala pro povo? Cara, se eu não te conhecesse, juro que já tinha te quebrado o nariz.
_ Que pena, você me conhece...

[após colocar duas gotas de pimenta no chopp dela]
_ Foi idéia sua, né, seu imprestável?
_ Ei, não foi minha não! Mas admito que simpatizei com a idéia...

_ Deixei a carteira em casa. Depois eu te pago.
_ Sei...
_ Sabe, ele já aprontou tanto comigo! Já pegou dinheiro emprestado e nunca devolveu, já me convenceu, depois dum porre, que tínhamos dormido juntos, já falou mal da forma como me visto...
_ Então encha a cara às custas dele, hoje.
_ Ei, não vá dando idéias a ela assim...

terça-feira, 17 de abril de 2007

Vou brincar de existencialismo e já volto

O problema em se abrir demais é banalizar-se. Você se torna o que todo mundo acha que você é. Portanto, rapidamente torna-se tudo o que mais odeia. E resigna-se a isso. Não de forma derrotada ou cansada, mas de forma indiferente: você percebe que não é tão enigmático quanto pensava. Percebe que se escondia de algo que não existia. A leveza de seu ser torna-se insustentável.


_________________
À guisa de ilustração, cito um trecho como apêncide em relação ao que escrevi (abordagem filosófica usada no livro acima referenciado). Pirotecnia pra não deixar o post dadaísta demais. Não se preocupem, reduzi o academês pra vocês (minha fonte é esta, a única enciclopédia do mundo que ensina coisas legais como nós para praticar bondage):

A questão da leveza e do peso possui amparo na filosofia de Parmênides, filósofo pré-socrático, que situou sua problemática em torno das dualidades ontológicas do Ser. Estas, porém, por força de sua perspectiva unitária de Ser, surgem da presença e da ausência de uma entidade. Neste sentido, o frio é apenas a ausência de calor, o não-calor. As trevas são a ausência de luz, a não-luz. Para Parmênides, entretanto, ao contrário do que o pensamento lógico-formal com o qual estamos habituados nos faria supor, a problemática da dualidade leveza/peso revela o peso como ausência, como não-leveza. Kundera desloca a dualidade do peso e da leveza para uma perspectiva existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana em uma perspectiva próxima a do existencialismo. Para ele, a leveza decorre de uma vida levada sob o teto da liberdade descompromissada, e segue-se de um não-engajamento, um não-comprometimento com situações quaisquer, aproximando-se, nesse sentido, das idéias de Jean-Paul Sartre sobre a condição humana. O personagem Tomas é a metáfora pela qual Kundera ilustra as consequências existenciais do comprometimento da liberdade para com uma situação qualquer - no caso, o vínculo afetivo com Tereza. A partir de então Tomas experimenta o peso do comprometimento, peso opressivo de um engajamento qualquer, uma situação qualquer. A leveza, porém, despe a vida de seu sentido. O peso do comprometimento é uma âncora que finca a vida a uma razão de ser, qualquer, que se constrói - sob uma perspectiva existencialista, evidentemente. Sob a perspectiva da filosofia nietzscheana, porém, Tomas levava uma vida autêntica, construindo os próprios valores sob os quais conduzia sua vida. Tereza ilustra a problemática da moralidade de escravos: incapaz de realizar um empreendimento como o de Tomas, amarra-o pela força de sua impotência, chegando ao final à admissão do fato de ter "destruído sua vida", no final do livro. Tomás, encarnando metaforicamente a noção nietzscheana de amor fati, revela que não se arrepende de nada, remetendo à doutrina do Eterno Retorno, mencionada no início do livro.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Amostra grátis

Com que idade as pessoas começam a perceber que a vida nunca passará daquilo que já as entedia? Que, por mais que faça-se acontecer as coisas, há trechos que milagre algum altera? Felicidade é amostra grátis de quê, mesmo?

domingo, 15 de abril de 2007

Estranhas tendências do mundo (III)

Foto de mulher: creio que elas nascem com uma propensão genética a desenvolverem tiques nervosos da mais sortida abundância, antes de um clique. A vaidade de sua natureza implica a elas uma pesada bagagem genética. Não importa o ambiente, a ocasião: uma mulher sempre fará a mesma pose ao tirar uma foto. Um sorriso mecânico saltará ao rosto, uma postura automatista se fará presente na foto, e mais uma foto igual sairá. O criador de brinquedos como o Potato Head deve ter se inspirado nas fotos que as mulheres de sua família tiravam: não importa a ordem com que as feições sejam plantadas no rosto delas, a impressão será sempre a mesma (a primeira, mas isso já estava implícito). Não que toda menininha se ache uma modelo em potencial, mas deve haver lá alguma explicação se forçarmos uma abordagem evolucionista aqui...
Festas com flashback: nada de estranho inicialmente. Mas que é um motivo perfeito pra tocar Cindi Lauper sem tacharem sua casa noturna de gueto GLS, ah, isso é. Não denoto estranheza ao acervo tocado em locais assim, já que desde sempre vende-se o velho com roupagem nova. Falo da atmosfera: freqüentar savanas sociais como essas e ser passado pra trás por predadores mais preparados para a noite é esperado. O que não é é encontrar gente com idade bem mais avançada que a sua, claramente botando mais pressão na pista que muita ninfetinha por aí. Que tempos horrendos são esses em que gente com idade pra ser tio não tem mais pudor algum pra aumentar a faixa etária de certos eventos? Nada de condenável em ver algumas pelanquinhas balançando ao ar durante aquela música do Renato Russo (sic), mas... quanta gente sem infância, meu. Mas ainda é melhor esses frustrados se divertirem dessa forma do que se tornarem o que a maioria das pessoas se torna, ao serem cansados pelas fulminantes mazelas da vida, como casamento, filhos e trabalho: passar finais de semana inteiros em fundo de quintal, cultivando barrigas e mais barrigas de chopp, se escondendo de quaisquer manifestações sociais, cavando sua cova em meio a engradados. Há quem goste de simplicidade, mas vaticino: ainda acho esses tempos muito bizarros. Tempos esses em que os mais velhos compartilham as mesmas efemeridades que os jovens. As pessoas não crescem nunca...
Demonstrar gratidão: nos tempos atuais, a única coisa que ainda lhe permite viver com um mínimo de dignidade é o orgulho. Não que isso tenha sido necessariamente diferente um dia. Mas num tempo em que qualquer exposição de seu estado de espírito resulta em se presumir uma fragilidade, parece que as pessoas desaprendem cada vez mais rápido a demonstrar gratidão. Será isso fenômeno de se viver em um centro urbano que cresce cada vez mais rápido, ou apenas um fato que desconhece fronteiras? Uma certeza no tocante a isso é que desenvolve-se cada vez mais visivelmente um recalque em relação a isso: gratidão tornou-se supostamente um sentimento mimético demais...

sábado, 14 de abril de 2007

O imutável é uma mudança delongada...

Um mundo sem absoluções. Mas povoados por seres criativos o suficiente para imaginarem as suas. Destino parece ser mero exercício de imaginação quando manipulamos fórmulas instáveis como as que formam o futuro. Ninguém tem razão pra chegar ao mundo, e ainda por cima tentam buscar uma pra quando deste se forem.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

'Onde foi que erramos', perguntam-se os pais de gente como Marilena Chaui...

Pra que servem os intelectuais? Qual a diferença entre o que essa gentalha pensa e o que nós pensamos? Talvez uma utilidade deles seja termos uma alternativa à opinião de jornalistas a respeito de atualidades. Quer coisa mais lamentável que a opinião de gente como ex-jornalistas da Grobo querer ter seu próprio jornal, com formato que mais parece um programa de auditório, querendo ser o próximo Paulo Francis? Se essa não for uma utilidade necessariamente direta de um intelectual, ainda podemos dizer que eles funcionam como uma forma velada de usar o povo como laboratório político. Uma espécie de ombudsmen posando de cientistas políticos. Esses ditos pretensos cientistas sociológicos teriam a intenção de realizar avaliações a respeito da flexibilidade da opinião pública, ao mesmo tempo que finge questioná-la e/ou incrementá-la com seus comentários evasivos. Sabe, nunca vi pensador algum mudar o mundo. Nunca vi um livro do Foucault com resultados visíveis ante nossa vassala mão-de-obra acadêmica. É como se o livro dessa gente se tratasse de ensaios que, por motivos estranhos (algo como blogs que fazem sucesso), escaparam de passar sua existência em arquivos mortos de faculdades até virar comida pra fungo. São textos de exercícios mentais e ideológicos que não passam disso: exercícios. Ponderações sem laços com o vicioso tecnicismo com que nossos acadêmicos são formados. Adornos de pedantismo flutuando sem rumo por um espaço de poucas cabeças dispostas e preparadas para encaixar tais discorrências em sua experiência cognitiva. Estamos em uma época em que existe forte ideologia de que os intelectuais não têm ideologia alguma. Um niilismo constrangedor para ditos formadores de opinião. Mas há constrangimentos maiores... tenho medo do que farão com a ABL daqui há una dez anos.

domingo, 8 de abril de 2007

Estranhas tendências do mundo (II)

Animes chatos: o enredo da maioria dos enlatados japoneses possui lá suas pontas na mitologia e na religião típicos do país, o que resulta em histórias que, mesmo sendo desperdiçadas com personagens chatos e exagerados, deixam a impressão de que poderiam render coisa boa nas mãos certas. Mas o que mata mesmo nos animes de hoje em dia é o fato de que a pior coisa neles são seus protagonistas. Por mais que as relações entre os personagens tenham uma constituição aceitável e que algumas escolhas impossível dêem certa rotatividade ao roteiro, o protagonista inexoravelmente se configura no pior elemento da podução. Estereotipado, humano demais, raso demais, ou seja: é linguarudo, impulsivo, insolente... várias características que empobrecem a história e enaltecem convenientemente a natureza violenta necessária ao personagem. Até o oriente é pop hoje em dia, que trágico...
Bandas como Red hot chili peppers ainda não terem se aposentado: numa época em que qualquer extravagância musical lançava muitos cocainômanos ao estrelato (leia-se anos 80, para os desavisados), bandas como a de Anthony Kiedis tiraram sua casquinha em cima das massas adolescentes, fazendo pirotecnia em cima dessa fase de transição da vida das pessoas. Mas é hora de essa gente pegar uma folhinha e se descobrir em pleno século XXI: o som deles não empolga mais, não há mais nada de atual e empolgante em seus riffs, e ninguém mais consegue vender discos de forma proporcional a seu consumo de drogas. As drogas em si deixaram de ser o que se cheira pra ser o que se pendura nas lojinhas de CDs, fadadas a desaparecer cada vez mais rápido. Numa época em que o experimental quase se confunde com o pop (sendo que esse quase não se delimita mais pelas cópias vendidas, mas pelos downloads), o cosmético da indústria fonográfica oitentista perdeu o sentido de vez. A "atitude" de hoje, vinculada ao politicamente correto e cambaleada por uma época de raros tabus, não sabe mais como chocar, o que inevitavalmente aconteceria. Enfim, um ambiente ao qual muita banda por aí deveria ter se resignado há muito...
Anonimato à genialidade dos desocupados: que força poderosa é essa que condena ao anonimato as criações mais divertidas a espirituosas do imaginário popular, seja qual for a forma em que se manifeste? Deve ser a velocidade de proliferação que uma manifestaçõa dessas ganha quando sua natureza reflete tão intimamente o inconsciente das massas, vá saber. Deve haver alguma explicação para isso segundo o inconsciente coletivo de Jung, mas não tô a fim de bancar o ensaísta hoje...

sexta-feira, 6 de abril de 2007

As piores coisas são feitas com as melhores das intenções

Abomino contradições. Porque evoco essa frase agora? Por causa duma conversa que me fez pensar após algo mal-resolvido de tempos atrás: mesmo após o insucesso (anunciado) de uma relação, após as visíveis evidências de que um lamentável desfecho se fez, a sensação de que a atitude correta parece ao mesmo tempo ser dura, unilateral demais, é ridiculamente contraditória. Ter atitudes retas e fundamentadas, às vezes, parece ser completamente inúteis quando envolvemos gente no meio do problema. Não importa o quão bonitamente você se f*** com uma pessoa, a natureza de suas atitudes nada podem dizer do que vai assentar o mínimo que restou entre vocês. Estamos condenados até mesmo a nossos atos de retidão. O futuro é um dilema; o presente, um silogismo menos elaborado... passado é rascunho.

Nota: o título do post é uma célebre frase de Oscar Wilde.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

"Amarre seu cadarço", vaticina a voz

Vi na BBc Brasil (site e vídeo) uma nota sobre a intenção, na Inglaterra, de se instalar altos-falantes junto com câmeras. Reproduzo abaixo a chamada:

A Grã-Bretanha já é o país com maior número de câmeras de vigilância instalada nas ruas por habitante, mas até há pouco tempo os operadores, isolados em salas, só podiam assistir às cenas de desordem se não houvesse policiais por perto ou se o caso não fosse grave o suficiente para acionar um deles. Mas, em uma experiência iniciada na cidade de Middlesbrough, as autoridades instalaram caixas de som junto com as câmeras para alertar a qualquer desordeiro que ele está sendo observado. Em um dos casos presenciados pela reportagem da BBC, uma mulher joga um papel na rua quando o operador ordena pelo alto-falante que ela pare e coloque tudo na lixeira. E ela obedece.


Vou poupá-los das óbvias referências a Orwell e vaticinar: tudo bem que as massas são como crianças ignorantes que precisam de babás, mas analisemos a ridícula distorção da realidade aqui: o que muito nerd faz há anos com jogos como The Sims, agora é almejado pelas autoridades britânicas. Sim, também vou poupá-los das óbvias implicações filosóficas e dizer o seguinte: com o tempo, será que as pessoas começarão a dar bola para o que uma voz proveniente dum objeto inanimado tem a lhes dizer? A tendência do homem perante uma proibição é transgredi-la (por exemplo: a vida besta na juventude só tem graça por causa da certeza de que sempre haverá algo a se transgredir; mesmo quando nos referimos a proibições veladas e hipócritas, como a relativa ao consumo de bebidas alcoólicas). Usar a tecnologia pra tentar se esquivar de limitações sociológicas com esse samba do crioulo doido é demais. Vai ter muito mendigo por aí fundando seita sob a égide da mensagem de um suposto Messias. Mas os ingleses são bons em escrever sátiras sociais; talvez eles percebam o ridículo em que estão incutindo. Mas talvez isso não seja suficiente para seus políticos...

Sob um ponto de vista psicológico, o estímulo repulsivo de uma voz te julgando pode ter lá sua eficácia. Gente sem vontade própria, de sanidade baqueada e suscetível a desmandos alheios é o que não vai faltar para que resultados de ordem estatística apareçam. Mas que é uma derrota para a humanidade, ah, isso é. Chega a ser irônico eu ter assistido a'O demolidor ontem; me lembrei das cenas em que o Stallone era advertido por uma voz toda vez que emitia um vigoroso palavrão. Ver que o mundo está se equiparando cada vez mais a clássicos da Sessão da Tarde como O Demolidor nos faz pensar: a sociedade anda por vias tortas. Por becos também. Com câmeras e alto-falantes em cada um deles, se duvidar. Só imagino o que isso, a longo prazo, poderá fazer à auto-estima de uma sociedade inteira. Um efeito positivo denota um flerte com o paternalismo; um negativo, uma população mais consciente e menos suscetível a gestos de pulso puramente político como esse. De qualquer modo, algumas atribuições às quais as autoridades se dão se aproximam de comparações que se alinham perigosamente com aptidões outrora apenas divinas, como uma pretensa onipresença que cá se busca. Creio que a Inglaterra é vista como um laboratório social por seus intelectuais; isso facilmente se deduz pela cultura das sátiras sociais de seus escritores, por exemplo...

"Mulher, cheguei!..."

Foi-se o tempo em que era divertido ser hétero. Tempos em que o machismo era motivo de orgulho e demonstração de vigor. Tempos em que os pais nos ensinavam a desprespeitar as mulheres. Porque hoje em dia, com essas viadagens do politicamente correto e essa ideologia imbecil de igualdade entre os sexos, o que acontece? Os homens aprendem a respeitar o sexo oposto, mas não a desrespeitá-los nas proporções necessárias. Aí, o que acontece? Um desequilíbrio nas relações que culmina em uma trágica inversão de valores, que por ora nossa sociedade reage com negação (afinal de contas, se existe igualdade apesar da natureza alheia, isso é apenas sinal dos tempos, pedindo por adaptações). Antigamente, como as coisas funcionavam? No tempo de nossos avós, a garotada era incentivada a predar pra cima da primeira porção de maçãs glúteas que lhes passasse pela frente. Chegar junto, jogar contra a parede, se impor despudoradamente, nada disso era condenado. O desconexo na índole delas era sumariamente ignorado (como assim, está "com dor-de-cabeça?"). Como diria vovô, "só dançava pra comer as menininhas". Mas voltando a abordar o assunto com um mínimo de sobriedade, o que aconteceu so sexo masculino até o presente momento? Teve sua virilidade devorada não por uma calcinha em particular, mas por toda uma sociedade que o vê como um pária. Espremeram todo seu espírito como a um tubo de pasta de dente e usaram pra lustrar o salto dez daquela modelo de beleza irreal que convence, de forma quase lobotômica, que beleza (e que apenas um aspecto dela realmente vale de algo) é artigo à venda. O século XXI é dos dissidentes. Do que restou das pessoas após perderem sua vontade própria para um mundo que recalca cada vez menos suas perversões. Tabus viraram mera questão de ausência de precedentes. A auto-estima das pessoas se transformou numa estranha simbiose de ambições distorcidas com marketings virais. Ninguém sabe mais qual o seu lugar. Principalmente os homens de nosso século, que desaprendem cada vez mais a passar a mão na bunda de uma mulher sem pensar duas vezes.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Seres detestáveis, mas (aparentemente) inofensivos

Tem coisa pior do que gente que vincula a própria índole aos escritos religiosos que lê? Gente que os usa como escoteiros usam seus manuais? Gente que amputa seu modus essendi e insiste em esconder a necrose exposta com as mais variadas arbitrariedades bordadas com lampejos do que lêem em seus valiosos livros de fé? Religião é adorno, e não manual de instruções! As pessoas vêm ao mundo sem manual! Nunca vi um produto ter manual escrito após seu lançamento...

Estranhas tendências do mundo

Eu ser confundido com Tiago: na faculdade, na assistência técnica... se fosse fazer uma lista de onde já me chamaram assim, começaria a pensar que tenho dupla personalidade. No caso, é a mais abjeta delas que não responde por Tiago.
Gordinhas usarem piercing labial (superior, que fique claro): deve haver alguma explicação de cunho fálico, relativo a comida (em todos os sentidos), vá saber. Ursinho carinhoso querendo pagar uma de Robotnik...
Novos-ricos comprando aparição na Caras: ir prum castelo empoeirado na Europa, tirar foto de roupão e exibir o maridão trinta anos mais velho que você (um otário pra bancá, já vaticinava o sabedoria popular incrustada nas letras do funk carioca). Praticamente uma versão adulta daquelas famosas barraquinhas, famosas em shoppings, onde a criançada fica atrás dum tapume em forma de super-herói e coloca a cabeça no buraco do rosto pra tirar foto. Melhor que isso, só pagando jabá pra revista enaltecer os dotes sexuais dos entrevistados...
Refrigerante Light: sua namorada come feito uma porca na praça de alimentação do shopping, mas pede um refri light pra não engordar. A mensagem implícita embutida nesse gesto? "Logo os pés da nossa cama king-size vão ceder coom nosso peso, mas eu fiz a minha parte, amor. Comecei a dieta hoje!"
Extinção dos potes de condimentos por sachês: sachê é coisa de vendedor dando amostra grátis em supermercado! Vendedoras da Avon já deram pra minha mãe sachês maiores do que os que uso na comida. Sem falar na aura murphiana por trás desse maldito desserviço da engenharia: quando mais se quer realçar o sabor daquele salgado esperto, a merda do sachê não abre! A modernidade (que preferiu desprezar a qualidade pela quantidade, nesse caso) resolveu investir em outros campos para a atuação de Murphy; a gravidade exercida sobre bolas de sorvete começou a cair em desuso com os self-service. Até com os pés-frios esse mundo é globalizado hoje em dia...
Sexo de gente famosa: no Youtube, na praia, em gravações clandestinas, não importa; se o sujeito tiver uma bundinha legal, tiver passado por um teste do sofá e tiver aparecido em reality show (ou na Malhação, o que é quase a mesma coisa), terá seus pageviews. Um paradoxo no mundinho softcore da sacanagem: os mais amadores, os menos dotados e os menos fetichistas são mais vistos. Hoje em dia é comum ver ex-atrizes pornôs vendo sua carreira vingar em reality show, mas do jeito que a lascívia está se banalizando no imaginário das pessoas, não estranharei se o inverso se tornar comum um dia. Quer currículo melhor que o Youtube? A Cicarelli tentou. Com aquela boca, vá saber...

terça-feira, 3 de abril de 2007

É uma selva lá fora. Também.

Matar ou morrer é uma máxima eterna da natureza. Tanto a intrínseca quanto a extrínseca a nós. Vegetarianos crêem piamente subverter essa verdade ao passarem o resto de suas vidas se privando de carne e se enfartando de vegetais. Achando que o que tem raíz -- mas não tem feições para expressar seu desespero em ter sua existência abreviada para fins de ingestão alheia -- não tem vida. Como são altruístas, esses desocupados. Pior que eles, só os freegans, mesmo. Até mendigagem é pop hoje em dia. Mendigagem de calouro pra não ter as sobrancelhas raspadas é coisa do passado. Desviando-nos desse prisma social, extrínseco, temos o intrínseco: nós matamos o quê pra não morrermos mais do que devíamos? Extinguimos valores ou os criamos em currais até um pastor tomar posse de alguns deles pra atender às demandas de seu distribuidor? Zumbis, as pessoas tornam-se sombras do que eram com uma rapidez que constrange. Não importa o instrumento cortante com que puseram termo no sujeito, ele está vagando por aí, penado, condenado a nunca perceber que não foi rápido o suficiente pra matar, apenas pra morrer. Quanto mais o tempo passa, mais o homem parece querer extinguir o eterno em sua natureza. A modernidade parece ser uma temporada de caça sem dia pra terminar.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Manhê, passei na Federal...!

_ Mas filha, que merda de curso é essa?
_ Serviço social, pai. Nunca ouviu falar? Sempre gostei de gente...
_ A única coisa que você vai aprender lá é a jogar truco...
_ Eu quero mudar o mundo.
_ Comece não me dando esse desgosto, então!...

Num país cujas universidades não humanizam, o que acontece? O que você estudar em nível superior vai se resumir ao constrangedor, ao peru cantando de galo. Eu já parei pra pensar: "esta merda de faculdade mais parece um curso da Microlins. Nem pra limpar a bunda esse canudo vai servir; o papel do diploma é áspero demais". Exercer a profissão no curso em que você se formar se tornará um altruísmo cego: pelo reconhecimento (e não somente ele, naturalmente) que você receberá, parecerá mais trabalho voluntário -- o que você terá de fazer pra não deixar a frustração alimentar o laissez-faire -- do que outra coisa o simples exercício de sua graduação. Não é à toa que muitos cursos nas áreas de Humanas, por exemplo, são predominantemente ocupadas por mulheres. Sua índole passiva, metódica, diligente e cúmplice favorece sua permanência em uma graduação que, como as más-línguas vaticinam, só serve pra esperar marido. Cursos que deveriam ser fechados há, no mínimo anos, devido ao opulento ocaso em suas dependências, continuam firmes e fortes sob o alicerce da ideologia que permeia o imaginário popular de muitos brasileiros de querer 'ser dotô'. E eles acham que obterão isso com uma graduação feita no Brasil! Ai, esse povo me mata de rir. Só de pensar que ainda chamam aquele cursinho pré-vestibular pra alfabetização de Ensino Médio... mas esperávamos o quê? A uma universidade que não humaniza só resta tentar formar uma legião de operários desesperados pra passar em concursos públicos, sem desenvoltura intelectual alguma em sua especialidade. É como aprender a ler mas não saber escrever...

domingo, 1 de abril de 2007

Memento

É só uma lata de sopa, Andy!...

Que mundo é esse em que qualquer idiossincrasia, na mão de alguém com -- tragicamente -- um mínimo de coordenação motora para utilizar instrumentos por fins de expressão, acaba se tornando pretexto pra arte? E que mundo é esse em que ainda tem trouxa que leva a própria arte a sério? Penso a arte como Platão pensava em sua República: a licença poética, idiossincrática por natureza, é como tablóide ruim, nem pra embrulhar peixe você usa no dia seguinte. Não passa de um grito romântico, de declamação solitária dum manifesto onírico sem laços com o mundo exterior do qual o artista prefere se exilar. Resumo da ópera: frescura posando de epistemologia.