sexta-feira, 16 de junho de 2006

Ponto final


Outrora já comentara sobre as diferentes formas de evasão de que me utilizei. Desenho para uma juventude de esboço sem esquadro, conhecimento para uma vida vendada, e escrita para um espírito letárgico e submerso na vazante das melancolias. Só faltou mexer com fotografias, mas nunca me agradou de todo a dissimulação trazida pelas imagens que implicitamente afirmam dizer mais que mil palavras. Resisti o quanto pude à vindoura perde de mais uma evasão, mas o ocaso dos manifestos produzidos pelas idéias íntegras não ajuda. Hora de evitar a chegada da mediocridade (se é que a evitei um dia) e parar. Cada vez mais, tudo o que escrevo parece igual. Argumento aproveitado para o abandono passado das outras evasões. Mas, dessa vez, é como se o fato de estar perdendo essa evasão em particular fosse culpa de, ó, negligência minha: omissão da vontade, ode aos pontos fortes de minha mediocridade. Palavras mtam lentamente, mas a ausência delas é morte súita. Afinal, contar o quê, quando, após o tiro de misericórdia, as entrelinhas sangram desatadamente perante a essência? Embora seja outra coisa que coagule as palavras em sua volta ao pó. Isso não significa que para sempre abolirei as palavras de meu cotidiano: indica apenas que os momentos de catarse tinham de acabar; hora de diversificar, abandonar um pouco a escrita honesta pra parar de se enganar. Ou não.

Tudo até aqui escrito só serviu para eu perceber que em nada mudo. Mas caminhos em círculos levam àlgum lugar. Não somente ao ponto de partida, mas ao ponto em que outra circunscrição ampliará seu percurso. Aproveito estas últimas linhas para agradecer aos incautos que perderam tempo lendo algo por cá. Por um bom tempo, pude fingir ter algo indelével e único a dizer ao mundo. Por isso, sou grato. Grato por me orgulhar de um fim significativo, ao que sei, somente a mim. Mas nem assim consegui minha meta de chegar ao milésimo post. Teria conseguido se não tivesse removido algumas gordurinhas dos arquivos; cerca de 7,5% de notas que não farão falta. Em linhas gerais, este é o fim do BR. A linha do horizonte por onde o Mochileiro para sempre desaparece. Este olha brevemente para trás, acena negativamente a cabeça, e some enquanto os lacustres lampejos solares ainda resistem ao pôr-do-sol. Atrás dele, um vulto ocultado pela sombra das cordilheiras em frente à estrela-anã o contempla anonimamente. Algumas memórias recíprocas se encontram, num evento psíquico desconhecido aos dois. Uma pontada quase imperceptível no espírito. E a sede por novos vislumbres os separa em definitivo. O trajeto deixou de ser imaginário. O mundo terá de ser o bastante.

Acabou... agora dêem o fora daqui e percam tempo lendo algo melhor.

domingo, 4 de junho de 2006

Você é artista? Isso passa...

Talvez a única razão por que eu ainda tope ir a eventos ditos culturais é para me divertir vendo a galerinha querendo pagar uma de cult, com suas roupas de brechó e ares de sofisticados. Tinha de tudo um pouco: dotores fazendo presença, tatuagens gratamente proeminentes em dorsos femininos, seguidores estéticos de Enéas com suas barbas grenhas (cuidadosamente armadas com laquê pra ficarem tão volumosas quanto a do Marcelo Camelo) e bonés que pareciam ter sido roubados de guadador de carros, palheiros cheios de agulhas (leia-se: difícil saber o que era mais escabroso em seres assim, se a quantidade díspare de pêlos faciais, facilmente confundidos com os púbicos, ou a quantidade de alfinetes cuidadosamente disfarçada de piercings no rosto)... os que tinham banda se reconhecia de longe. Nas imediações, duas meninas -- uma se achando A Sarah Connor e xará desta, possivelmente, com seus cabelos loiros volumosos e camisa listrada, e a outra de cabelo curto, bolsa riot e uma blusa peculiar, rosada -- imediatamente me remeteram a mais uma bandinha fomentada no colégio salesiano da cidade (só de meninas, dá licença). O padre gosta de tirar um som, ao que se vê. Mas essas só no domingo tocam. E na Zumzum. Vai ser tudo pra ala GLS, com certeza. Vestimenta oitentista de butique faz sucesso entre as bibas. Ao vislumbrar, do fundo da sala e debaixo e uma logomarca de chapa galvanizada da instituição, um ser de vermelho e cabelo curupira tentando, ao que parecia, desesperadamente imitar o penteado do Julian Casablancas por meio de um penteado encaracolado e esculpido por horas de Neutrox, confiro rapidamente na programação: era a banda que tocaria após a peça (sim, o pior é que chamaram aquilo de peça). Só acredito no semáforo, enfim. Resumo da ópera: sábado teve a abertura do primeiro festival nacional de teatro da cidade. No teatro da univesidade. Segundo os organizadores, se tornaria internacional um dia. O que os holofotes de um palco não fazem ao ego dos outros, não? Após mais de uma hora de atraso esperando na antesala, finalmente entro e pego uma cadeira numa das últimas fileiras. Arrependimento: à minha esquerda, uma menina que ria quase cumpulsivamente das asneiras ditas pelo idiota no palco (beleza não compensa certas disfunções de personalidade), e à direita, um esquisito que deve ter esquecido da existência de um chuveiro em sua casa. Nada que eu devesse estranhar em ambientes como aquele. Sem contar que uma generosa lasca de madeira caiu bem na minha cabeça durante a peça. O local era tão desolador que, fora os sinais de mofo perto dos tubos de ventilação, uns quinze morcegos devem ter sobrevoado o local durante a peça. Seria um fiasco absurdo se o pequeno mamífero tentasse se misturar entre os expectadores. Bom, antes da peça em si, houve o que eles chamaram de abertura, que consistia em meia dúzia de representantes de prefeito e governador, organizadores e bajuladores mais próximos, dando uma introdução sobre o que o festival pretendia.

Na hora em que a peça em si começou, aparece um figura. Surtado como os baixinhos tendem a ser. Basicamente se tratava de um monólogo: uma hora ouvindo o figura, sob várias facetas, fazendo uma criticazinha social bem fraquinha, tentando fazer espuma com algumas tiradas, no máximo aceitáveis, e muitos surtos e berros frenéticos. Por isso que odeio teatro e nada me impele e a mudar de opinião: sempre rola aquele corporativismo e aquela pseudometalinguagem, agregadas a vícios pavorosos que a dramaturgia nacional insiste em perpetuar. Vícios como piadas de baixo calão, gritos descontrolados (porra, nunca ouviram falar de microfone? Devem achar que meu ouvido é penico) e conivente complexo perante as diretrizes do que é culturalmente feito nos Estados Unidos. A conivência perante os europeus já é algo de herança colonial; perante os norte-americanos, não. Me dá um tempo. E quando diretor inventa de escrever peça baseada em livro dum qualquer que ele tem a certeza de que ninguém leu? Porra, admita logo sua mediocridade e faça uma versão do livro, em vez de abduzir obras alheias. Colcha de retalhos com tecido dos outros é triste. Mas não era o caso dessa peça em questão. Por meio de situações desconexas, tentava mascarar a natural superficialidade de seu discurso com uma ausência de roteiro. Não bastasse a abissal falta de educação do brasileiro em saber se portar dentro de um ambiente como aquele (ligações em celulares: o inferno definitivamente são os outros), ainda se carece de uma crítica teatral. De que ainda termos jornais se eles sequer tentam tecer críticas de sua própria ossada quanto às atrações que amplamente divulgam? Sem falar isso ser totalmente inexistente quanto ao teatro; simplesmente divulgam a peça, copiando um releasezinho maquiado e pronto. É uma punheta cultural sem fim, onde não há coragem pra se criticar. Na abertura, o secretário municipal de cultura afirmara sobre um comentário da Aline de Barros (sapata mais macho que um pelotão inteiro), crítica de arte, que afirmara em meados dos anos 70 que o teatro não existia aqui na cidade, apesar da construção física. É fato. Companhias teatrais e apresentações são inúteis se simplesmente não se tenta propagar essa vertente cultural com críticas de colunistas, preços simbólicos para que se dê valor ao que se apresenta, e um mínimo de seriedade com a gestão dos recursos para a Cultura. É pedir demais no estado, isso. Ah, revoltei. Melhor parar de falar da peça senão não termino este post.

Um adendo: odeio ambiente fechado em que as portas permanecem sempre semiabertas e luzes de origens diversas me distraem da atração; da vez em que vi Espíritos no cinema, uma coisa que me deixou puto foi aqueles lanterninhas boçais entrando pela saída ininterruptamente, e a plaquinha indicando a saída de emergência com uma luz verde mais fluorescente do que o filme que estava em projeção naquele momento. Difícil se concentrar assim. E olha que havia apenas quatro pessoas, comigo contando, naquela sessão. Fim do adendo. Após a peça (cabeça doía um pouco após o cretino gritando por mais de uma hora), circulei pelo ambiente para conferir mais espécimes esquisitos do risível cabide cultural da cidade. Ao tirar água do joelho, só intercâmbio dos musicalmente desamparados procurando por baixistas e oferecendo seus suspeitos dotes musicais pra bandas que ainda não descobriram o insumo fétido de que se trata seu som. Nada de surpresas. Após a banda do rapaz de vermelho outrora citado, o Flanders, começar a tocar, a baderna se instaura de vez. Góticos da periferia chegando com o fraque um número menor que o seu emprestado do pai; headbangers; idiotas em geral com camisas pretas de camelô com suas bandas preferidas (como se fosse essencial divulgar ao mundo suas preferências musicais)... não foi à toa que, dez minutos depois, deu pena do que fizeram à antesala do teatro: impotentes, os funcionários observavam as mesas de centro serem arrebentadas, empurra-empurra dos pobres (brincando de grunge, talvez) que quase resultou em tumulto, tudo isso sem o ar condicionado ter sido ligado (a banda suando em bicas, quase implorando, entre as músicas, com eufemismos para que alguém ligasse a refrigeração). Imagina isso num ambiente encarpetado, com dezenas de desocupados circulando. Dá pra acrescentar um mínimo de sobriedade à cena cultural da cidade com incidentes assim? Não falo da banda do Flanders, mas falo dos baderneiros. Não é à toa que, com isso, retorno ao que disse no início do post: só vou mesmo pra me divertir com o armário dos cults da cidade, mesmo...