domingo, 28 de maio de 2006

Falhei fragorosamente. No quê? No simples fato de não se preocupar em julgar falhar. A estagnação denuncia a falta de planejamento cujo improviso é nulo, falho e insosso o suficiente pra impor descrédito a tudo que se faça e se deixe de fazer. Falhar é pior que desistir em apenas uma circunstância: quando se falha sem sequer se ter tentado. Omissão de tentativa esta ocasionada por uma aterradora indiferença que está matando lentamente. Não se vale mais a pena pra nada. Se é peça facultativa dum efeito dominó; solilóquio que nem o próprio transmissor ouve. A única conquista sincera que temos é se gabar da ausência desta: se afogar numa distração que condecora a desolação é o destino opaco e ambivalente dos que se atrevem a se execrar sem um mínimo de honestidade. A auto-crítica não deixa de ser uma auto-promoção obscura. Sua inércia é sua lacuna. Sua lacuna é a ausência que formiga no espírito. Seu espírito é seu pavio.

Altas doses de abstração. Pra cobrir o rombo que a finda fase biográfica do BR deixou. E não reclamem: aqui é onde a criança chora e a mãe não ouve...

sábado, 27 de maio de 2006

Carma

Ao se maturar com os mundanos motes do tempo, o mundo passa aquela sensação de ser pequeno demais pra vocês dois: você e seu carma. Restando apenas levar-se, aprcialmente, em consideração a sugestão de simetria e equilíbrio embutida no carma, não raro aquela vontade de se apontar pro céu -- de forma petulante -- e praguejar contra o pestilento e paradoxal pragmatismo do universo, vem à tona.Veredito na surdina. Descompromisso com a visceral verdade de crer haver coisas que valham a pena, sem vínculos com falsos altruísmos e ambições. O mundo é um órgão burocrático que exige expedição de ene vias autenticadas de documentos cuja veracidade apenas se sugere. E sabe o que é mais irônico? Rascunho este post niilista no verso dum panfleto paroquial. Dêem um oi ao pior cronista do mundo!

O critério de comparação ao qual o carma sempre induz enfraquece a todos que se esquecem da senil nulidade do intervalo disponível pra seus legados, denominado tempo. Num mundo em que a justiça é mero sentimento, vidas são meros murais. Carmas são releases de seu ghost writer. O amanhça, especulação. Pragmática como as três fúrias. Sumário como os momentos que precedem o recobrar da consciência descortinando os embustes condescendentes da felicidade. A resignação não é, sozinha, ópio da mente. Mas misturada a sordidezas racionais, é. Como qualquer droga: só chega até você misturada com outras coisas presumidamente inofensivas. Pra fechar o post sem argumentos superficiais, um desafio: substitua as cinco palavras sublinhadas deste texto sem alterar o sentido do discurso. Ou não. Com isso, esquadrinhe o comportamento de seu carma. Com o meu, talvez já o tenha feito sem perceber...

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Em regozijo ao breu dos sentidos

O mundo precisa de mais artistas. Não pra lotar galerias e prateleiras. Mas pra esvaziar cubículos. Pra enfraquecer regras sociais psiquicamente obnubilantes. Pra incentivar o nomadismo anímico. Pra emocionar com responsabilidade. Porque formigas são groupies de cigarras. Não há muito tempo pra se explorar o essencial. Essencial não é arte, mas o ousar taxar de arte as reminiscências cristalizadas por cores, letras, acordes e ene outras formas. Todos insistem em lutar pra não se tornarem o que mais odeiam, mas persistem em manter certa imagem perante esses mesmos. Quem, em dados momentos, nunca acabou se vendo contraproducente em relação aos fomentos de seu próprio estado de espírito? Agir de forma a inevitavelmente se mergulhar em negação após idades avançadas não se inclui nesse conceito há pouco exposto na frase anterior. Todos têm sua casa no tempo, e a decoram com um esmero que chega não raro a se mostrar um desserviço. Sim, têm razão, metáfora simbolista demais, essa. A questão é que a produção de artistas torna muitas casas, simplesmente, pré-moldadas. Estes se tornam visitantes que sempre dizem o que se quer ouvir. Que não te obrigam a acreditar e considerar nada do que dizem e ainda por cima, com suas utópicas mísseis jactâncias de humor, te impelem a ornamentar o espírito, como a um flautista de Hamelin* expulsando todos os ratos de uma cidade por meio de sua música. É esse um mérito a se dar a artistas, já que rotulá-los de socialmente inúteis é mais prático, mesmo. Inflar a mente de mesmerizações rotineiras e motivações voláteis é muitas vezes em vão. Toda formiga é groupie, afinal. O inverno é mais uma daquelas hierarquias indissociáveis da vida. Não é preciso tantas hierarquias artificiais para seis patas. Nem pras quatro da cigarra, muito menos pras cem das centopéias. Independente do viço pelas responsabilidades -- e pelos excessos inconseqüentes -- que se tenha, é dos artistas a missão de significar arbitrariedades estéticas e de cunhar na coletividade mensagens que os tornem mais, mais adeptos da resolução de se afeitarem a regiões desconhecidas de suas personalidades. Artistas são bandeirantes, pessoas são posseiras culturais. A vontade -- propulsão da inspiração -- traçada pelos artistas é de contornos topográficos: depressões que dão alguma utilidade ao ócio. Que nos distraem e desafiam, fazendo frente a coisas que somos obrigados a levar a sério...

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* A história, baseada num fato provavelmente ocorrido em 1284, se passa em Hamelin, na Alemanha. Uma terrível invasão de ratos assolava a cidade, deixando o povo desesperado. Quando todas as tentativas de acabar com a praga parecem frustradas, surge um personagem estranho e misterioso - um Flautista - que promete livrar Hamelin dos ratos mediante o pagamento de certa soma em dinheiro. Ele cumpre sua promessa, mas quando volta para receber seu pagamento é ridicularizado e enganado pelas autoridades. O Flautista, então, decide vingar-se de Hamelin, tirando da cidade seu bem mais precioso. Mas, com certeza, alguém por cá já deve ter visto desenhos animados dos tempos do Pica-pau que contam essa história, não?