domingo, 30 de abril de 2006

Dinheiro não traz felicidade. Mas não repito essa máxima sob um estado de espírito positivo. Nem pelo hábito de não vincular minha aurea mediocritas a este pedaço de papel semeador de vácuos. Digo por, digo, há muito ter chegado à conclusão de que não faz o menor sentido (querer) ter sucesso -- ou algo que o valha -- em qualquer aspecto da vida. O mundo não vai mudar (só melhorar), ascensões honoríficas e conquistas oníricas não me atraem em nada, e simplesmente nem vontade de obter o que o dinheiro não compra tenho. O máximo que acontece é eu me dar ao trabalho de me enveredar na tarefa ingrata de arranjar inspiração -- de onde nem faço idéia -- pra me encaixar o máximo possível nessa oferta de mão-única chamada satisfação. Chamariam isto de falta de motivação? Lógico, mas não vou me justificar afirmando me satisfazer com pouco, o que não é mentira nem álibi pra justificar a meiocridade cotidiana. Tentarei dizendo que, mesmo quando não se consegue de todo abstrair interesse em si próprio por meio do ego, ainda há a sensação de que há alguns desconhecidos -- ainda não percorrendo pelo pontilhado errante de nossos julgamentos -- de efemérides liadas a si. As pequenas lapidadas que se dá no mármore da escultura alheia, essa imagem sólida si mesmo que ninguém mostra. Imagina se me omito de tal responsa. Argumento ególatra? Ter vontade de acordar depende de coisas tênues assim. Se lapidar como? O escultor é um míope cujas cravadas na pedra bruta alheia são orientadas por quem vê apenas a pedra, não o que ela virá a ser com os golpes de machadinha. Todos são Aleijadinhos...

Apesar de os posts conotarem um Mochileiro negativo, eles na verdade denotam haver pouco a se dizer. O cotidiano não interessa, a maioria das reflexões, também. Porque escrevi este post, mesmo?


Hora dum hiato. Urgente. Por tempo indeterminado, do BR o Mochileiro some. Para que a decrescente qualidade dos textos não fique tão exposta assim...

terça-feira, 25 de abril de 2006

Não dá...

Nada mais adolescente do que ficar se perguntando sobre o futuro. Dessa fase não sentirei muita falta. Até porque sentir falta parece se tratar de um novo privilégio a ser descoberto aos poucos com a idade. Aquele papo new age de se encontrar sabedoria vivendo com pouco parece ganhar estranha validade. Estranha porque não se vive com pouco. Ninguém a seu redor é monge. Muito que parece pouco continua sendo muito, lógico. Não no tocante a tempo. E a outras coisas menores, talvez. Tergiverse (palavrinha feia de dar dó, essa): a indiferença transforma o muito em pouco, ou exerce perante este sua pior função, a de nulidade? Outro questionamento: ao ver-se os dias esfarelando aos poucos o muito passando aos poucos a aparentar pouco, onde se chega com isso? A um punhado de migalhas e cinzas se resume qualquer aspiração, esta por natureza muito, até o fim -- de vários meios nem sempre dotados de justificativa --, pouco? Fazer e não fazer, ser e não ser, ter e não ter: qual a diferença? O que se é erguido antes que a Providência venha a tudo transformar em migalhas? É a trilha não percorrida pelo Mochileiro -- restando-lhe com isso as paisagens ermas -- que o perece aos poucos...

Não sei o que tem se sucedido com os servidores do Blogger, mas esse fim-de-semana estava impossível postar. Tendo em vista a fase de inanição verborrágica do BR, isso não é bom sinal. Pessimismo à parte, tava com saudades do meu cafofo verborrágico virtual. O BR é meu hobby incondicional...

sábado, 8 de abril de 2006

Montanha-russa

A inércia em queda vertiginosa.
O suspiro que o peito insufla sem vontade. Os raspões cromáticos das leis da Física.
Os sentidos passeando descompromissadamente. A indigente responsabilidade pela própria aflição. O mundo escorrendo por um funil imaginário.
A fruição de detalhes que não flui mais com tanta turbulência faiscando pelos trilhos. O percurso cientemente nauseabundo. O brusco solavanco. Os próximos da fila.

sábado, 1 de abril de 2006

Sem mais para o momento

Nada mais faz sentido. Há muito. Nem ir embora, ou buscar evasões, dá mais vontade. Não é à toa que o século em que nasci tratou de assassinar o Romantismo à queima-roupa, com a warm gun que a modernidade chama de happiness. O Mochileiro é, literalmente, frustrado. Sua mais desejada catarse, a de cair no mundo sem rumo, é mera variação dum subjetivismo, duma individualidade isolada, por natureza falida, no claustro duma existência aparentemente já traçada. Os anos podem ser difíceis sem boas lembranças. Eles se tornam mais difíceis à medida em que as lembranças que supostamente podem ser categorizadas como boas indiferentemente começam a ser categorizadas como meras reminiscências que sequer parecem mais merecer importância. Entendam: novas boas lembranças não mais se consolidam convictamente por conta da ausência empírica de lembranças boas. O presente vai deixar saudade, mas não a certeza de que o que valeu a pena valeu de alguma coisa. Nem o que vale a pena parece poder se gabar de ter um peso significante numa índole que se consome não com a idade, mas com a exaustiva, prolongada ilusão de tempo que uma vida tediosa, previsível e com brechas lamentáveis proporciona. A bagagem do Mochileiro é temporal. Esta nunca é maior do que se pode carregar, como é facilmente interpretável em dizeres messiânicos de livros sagrados, mas quando as dubiedades se reduzem ao pó da nulidade lógica, todo o sentido elaborado por evasões se vai. Porres, evasões, óbitos, todos eles têm uma duração. Pra quê? Nada vai ser diferente. Queime os volumes de seu filósofo existencialista favorito e vai pro inferno se você discorda do que digo. O Mochileiro é tão estrangeiro assim? O sobrenome do Mochileiro seria Meursalt?

Ter objetivos e hierarquias é catártico? Cada vez mais, me parece que sim. E quando eles isso deixam de ser? Aí é como o Mochileiro atualmente se encontra. Faz tempo que ele perdeu o sentido da vida, mas ele parece se lembrar vagamente duma força da natureza estranhamente vangloriada, e que apesar da reverenciação a qual lhe é dedicada, não possui representantes monoteístas ou politeístas. Os idiotas costumam chamá-lo de amor. Os idiotas nele e com ele se autodestróem. Realmente, a única coisa que traz felicidade -- e isso, mesmo gente como o Mochileiro, sem sentido há tempos e ignorante do porquê ainda perder tempo sendo -- é a destruição. Recíproca, voluntária, ou não. O mundo seria praticamente impossível de se arrebanhar se ensinassem isso nas escolas. "Olhem, crianças: sua vida não vale nada. Por mais que vocês tenham sucesso em suas empresas, vocês acabarão virando adubo. Adotem, como único regime político e ideológico e filosofia de vida, o efeito imbecilizante do amor, e brinquem de ser felizes nesse meio-tempo, nesse cínico hiato psíquico da natureza. Mas evitem o hedonismo inconseqüente: os neurônios estão na cabeça de cima, não na de baixo!" Literalmente, se derrubariam muito mais reis assim. Mas como as pessoas teimam em procurar chifre em cabeça de cavalo, atribuindo o sentido de suas vidas cretinas a seus sistemas teológicos e sócio-culturais, talvez apenas um dos sexos agüentaria viver em imprevisíveis condições. Qual deles? Teria um deles predominado durante a esmagadora maioria da história evolutiva, social, histórica e cultural? Faça suas aposta e guarde pra si a resposta.

April's fool: je reste le même, n'oubliez pas ça...