domingo, 19 de março de 2006

A índole dos homens descasca dia após dia. Perece de aspirações e gangrena com resignações parasitas. O mordaz e o descontraído colaboram nisso, mas não são os únicos. Correspondências impossíveis nos iludem cada vez mais incisivamente. Em vários âmbitos. Inclusive entre as sem combinação alguma; não raro se buscam as discrepâncias pra se confortar da ausência das correspondências. Viver se trata dum estranho otimismo. Qual é o último sarcasmo divino, mesmo? Conhecer sua ignorância ou ignorar seu conhecimento? Ignorância de quê? Conhecimento de quê? O estranho otimismo ainda nos faz dar ouvidos a nossos próprios questionamentos...

quarta-feira, 15 de março de 2006

Esboços silogistas

_ Todos os caminhos levam a Roma. Se você tiver boca, é claro.
_ Se a filosofia é o mito da caverna, a ciência é a caverna do mito?
_ Deus põe a mão por baixo para proteger. É por isso que escolhas impossíveis raramente envolvem reciprocamente a malandragem do pecado.
_ Possibilidade impossível e regular irregularidade: haja teoria pra tal caos fake...

domingo, 12 de março de 2006

Nada se diz, nada se desdiz, tudo se repete...

Citações são o aristocrático no pensamento coletivo, que elitiza a individualidade e banaliza a coletividade. Comecemos com uma linha de raciocínio pra isso exemplificar. Dizia Sócrates que o ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem seja surdo. Complementado pelo grande Lorde Henry Wotton, ao qual o homem sente atração pelos olhos e a mulher, pelos ouvidos. Ou mesmo sua mais prioritária: Quando uma mulher se casa de novo é porque detestava seu marido. Quando um homem se torna a casar, é porque adorava sua primeira mulher. As mulheres tentam a sorte; os homens arriscam a sua. Contrabalançado pela incisiva verdade proferida pela Madame de Staël, ao afirmar que o desejo do homem é pela mulher, mas o desejo da mulher é pelo desejo do homem. Há momentos em que cessões se confundem com tanta arbitrariedade e beleza que ideais de índole acabam se tornando a prosódia prosopopéica de onipresente lirismo individual. O ultrarromântico Byron, num daqueles casos em que o ultra do romântico parece ser meramente arquetípico, e não excessivo, alicerça tudo o que até agora foi citado afirmando que na vida do homem, o amor é uma coisa à parte, enquanto que na vida da mulher, é toda a vida. Gurumayi Chidvilasananda (guru indiana) já catequisava que, para se tornar uma esposa melhor, a mulher não deve tentar fazer do marido um esposo melhor. Uma das tragédias da vida inserida no cinismo, novamente, de Oscar Wilde. "Existem apenas duas tragédias: uma é não conseguir o que se quer, a outra é conseguir." Pra fechar a tessitura de citações, torno minhas as palavras de Roberto Freire: quem começa a entender o Amor, a explicá-lo, a qualificá-lo, e quantificá-lo, já não está amando. Como boa parte das coisas que desarolamos nessa vida besta, isso também fazemos sem perceber, e apenas assim acabamos sendo capaz de produzir e demarcar algo num destino curto demais pra se conceber planejamento.

sábado, 11 de março de 2006

Lerolero futebol clube

Tristes tempos esses em que ouvir música se tornou um hábito de idolatria indumentária semelhante ao observado nos torcedores mais fanáticos. Cada um considera um dado gênero musical como segunda divisão auditiva: os moderninhos consideram tudo o que toda nas rádios; a geração MTV, tudo o que não toca em seu canalzinho medíocre; os chatos, todos que se sujeitam a pagar jabá pro Faustão tocar; os críticos de tudo (me incluo nesse), tudo, e por aí vai. Hoje em dia poucos jovens ficam a se gabar dos feitos heróicos de outrora de seu time do coração; preferem é adotar certas bandas como seus porta-vozes, nesse campo sem linha de fundo que é o gosto alheio. Se sempre evntei apontar um time favorito pra evitar bairrismos futebolísticos, com música nunca foi diferente. Pra mim, música não é insígnia (óbvio que pensara o contrário na adolescência, quando subjugava todos que ouviam algo díspare ao que acostumava colocar em meu discman, como se houvesse alguma verdade edificante embutida em acordes e domovojs), nem ideologia, muito menos uma competição. Tudo bem que a profusão de músicas que detestamos nos incita a uma induzido senso de competição proveniente do desprezo auditivo xiita, mas música é mera abstração de beleza -- uma delas, aliás -- dos homens. Algo em que a bola acaba se tornando também, mas a vantagem é que o futebol não invade seus ouvidos como a bandeirantes ensandecidos, como a música faz; pro futebol, os barões das mídias acabam preferindo fazer isso majoritariamente com seu campo de visão. Música, poesia auditiva, alucinógeno visual e formigante olfativo: tudo menos ponto de referência cultural. Música que chega aos seus ouvidos,como na literatura, trata-se sempre de mero resquício elitista de épocas passadas ou presentes, e só. Se vangloriar de resquícios seria ufanismo cultural infundado, como muita coisa no conceito em si de cultura que abraçamos...

sexta-feira, 10 de março de 2006

R$1,60 já é roubo; redução já

O vigor patético de jovens que brincam de mudar o mundo lutando por causas natimortas é admirável. Na aula de hoje, enquanto matava o tempo no baralho, dois impúberes sobem num ímpeto a rampa do bloco, nos avisa da passeata que haveria na avenida em poucos minutos, onde "fechariam os dois sentidos para se fazerem ouvidos." Tudo bem que o máximo que conseguiram fechar foi a calçada, mas logo chego lá. Partem direto pra coordenação, realmente achando que encontrariam alguém (à noite, ainda por cima). Isso, num curso de graduação, de humanas ainda por cima, é ridículo: o homem invisível é nosso coordenador e não sabemos. Ao receber em mãos uma cópia duma prova ferrada que fizemos na terça, trato de guardá-la e avisar a uma quase ex-caloura (uma baixinha, de preto no branco listrado, cabelo escorrido e óculos típicos de websedigner, publicitário emergente e moderninhos em geral) do conteúdo que tenho em mãos, para futuras consultas.

_ Procure-nos no ano que vem.
_ Porra, corrompendo a novata?
_ Corrompendo? Mas foi o Bilac aqui quem m repassou a informação sigilosa...
_ Não se esquive assim tão descaradamente! Você é cúmplice, com uma cópia do escorpião na pasta.
_ Peraí, mas você não acabou de me oferecer isso aqui, não?
_ Sou inocente, coagido, juro.
_ Te pegamos, cara.
_ Mas gente, ela ainda acredita que aprenderá alguma coisa aqui nesse antro de pseudos. Vamos prepará-la aos poucos pra realidade.
_ Sei. De quem você copiou essa citação pedante?
_ Do meu caderninho de citações. Procurei um filósofo alemão qualquer, aleatoriamente, e decorei pra fazer bonito ao tentar impressionar as novatas...


Pegara meu material há um bom tempo a essa hora, prevendo a farofa colateral de incidentes assim, e desço pouco depois. Mato aula do enfadonho Danilo (de voz tão lenta que os covers produzidos pelo Omega até vertiam secreções aquosas dos olhos de tanto rir; imagina ouvir Sociedade alternativa na versão voz soprano grave dele. Admito que sou partidário da idéia de se organizar um videokê com versões danilescas de algumas músicas) e dou rápida passada na avenida conferir como andam as manifestações pouco manifestas, por assim dizer. Três montinhos de palha em cima do piche morno da noite, umas três dúzias, no máximo, de desocupados na manifestação, policiais, caminhão dos bombeiros (ironia mordaz face às fogueirinhas fajutas no meio da avenida) e duas escopetas fantasiando a hora em que afundariam os miolos de alguém com chumbo. Depois do esperado chega-pra-lá das autoridades, descem a avenida e -- pasmem -- se resignam a voltar a entrar no campus. Simplesmente deplorável, daqueles eventos que minam qualquer suposta dignidade de DCEs e comitês inteiros. Não chegou nem perto de ser tão divertido quanto as manifestações internacionais, com gente lambendo o chão pra chamar a atenção enquanto a patrulha de choque desce o cassetete, ou mesmo alguém tirando a roupa, ateando fogo ao próprio corpo; nem uma mísera bombinha de gás lacrimogênio rolou. Nas universidades federais de hoje sempre, até as mobilizações estão falidas...

quinta-feira, 9 de março de 2006

Drops (II)

_ Há gosto pra tudo. E isso toma proporções inimagináveis -- incontroláveis, diria -- no universo feminino. Não fosse isso, os feios não se procriariam tão rapidamente...
_ É como se elas usassem a tendência delas de deixar a estética pra segundo plano a favor delas mesmas, contrabalançando com trejeitos de mandonas e fácil cessão a paparicos materiais.
_ Os diamantes são pra sempre, o resto não...

_ Tenha um mínimo de simancol, droga!
_ Isso que vocês consideram um ato de constrangimento é mera amostra de minha espontaneidade.
_ Pagar mico nada tem a ver com espontaneidade. É uma questão psico-sócio-estatítica!
_ Sei...

_ O pecado é o placebo da humanidade.
_ Acordou com o pé esquerdo hoje? Dizem que o salário do pecado é a morte...
_ Nem pecado altruísta temos hoje em dia...