quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Aurea mediocritas despedaçada

Me lembrei daquele filme medíocre do Santoro ao escrever este título. Talvez também seja meu abril que assim esteja, mas isso é outra história. Fato é que minha AM não é perfeitamente do jeito que gostaria, mas é satisfatória, por assim dizer. O conforto trazido por ela tranqüiliza a um espírito orgulhoso e perfeccionista, ávido por uma paz de espírito que nunca se entende com o tédio. Mas as eventuais quebras da AM são barulhentas: coisas que ninguém ouve, pelo fato de outrem sempre insistirem apenas em ouvir o que bem lhes aprouverem. A evidência autêntica de si mesmo, sem AM pra tapar buraco ou evitar atritos. A insegurança de reprovação de um inofensivo modus essendi, a conivência e negligência perante os caprichos de personalidade. Raramente pede-se de mais, mas sempre atende-se de menos. Egoísmo é não se colocar no lugar de ninguém, atolado em seu próprio lugar-comum, que não é sinônimo de AM, infelizmente. Fazer o quê: mesmo que fossem, não existem sinônimos perfeitos. Campos semânticos sempre se entrelaçam, mas nem sempre por osmose. E a gramática corrobora esta assertiva.

Elementos cotidianos facilmente chacoalham a AM. Com a quebra desta, razões para se considerar a insuportabilidade nossa de cada dia aparecem. E a alheia também, ora. O que se quer cá expor é que é comprometedor se considerar entrelaçado a um espírito diverso. Que nem sempre o que está dentro e fora da AM (adivinha o quê...) trata-se de escolhas. Lutar eventualmente contra a própria sorte é uma verdade que adiciona aventura ao espírito linear do Mochileiro. E de todos os mochileiros do mundo, lógico. Isso significa pôr em risco a AM como se se fizesse a um vaso ruim de quebrar. A menos que seja feito de ferro, todo vaso quebra. O temperamento lapida tal vaso. O vaso lapida o ambiente. O ambiente... é, não há designers para ambientes assim. Nem sempre se está cansado demais para exercer posturas fixas de manifestação pessoal. Cada vez mais o Mochileiro se distancia da aurea e se contenta com a mediocritas. Deixa de ter graça exercer-se como se é, ou mesmo como tenta-se ser. Não é o tipo de mantimento que se pode carregar atrás das costas. Se exercer apenas por meio de colisões não pode ser a única forma de coexistir? Seria a AM a forma mais fácil e condescendente de se contentar?

"Seu orgulho ainda vai te destruir!", ouvi dia desses. Ouvi também a descrição dum um fidedigno sonho sobre uma pessoa que representa o que poderia ter sido mas não foi. A reprovação do que não foi, o acontecer que não aconteceu mas acabou estocado em sonho alheio, arquivado pela imaginação dessa salada mental de Morfeu. Não sei se será temporária essa ambientação em que não se vive, se coleciona os dias. Se tivesse ao menos curingas na manga, vai saber. Curingas estão por toda parte, mas as cartas de efeito para se dar alguma opção ao curinga são mais difíceis de se achar. Desígnios da razão são esperados que percam a relevância à medida que a lei de oferta e procura de conquistas se amplia, mas os desígnios da emoção são no mínimo estranhos. Imprevisíveis, transigem o mundo com regozijo desconcertante e parecem não ceder a conivências da índole e da razão juntas. Se recolher a seu canto não é o suficiente para se ignorar os desígnios emocionais. Não se esquece, nem se ignora, mas se coexiste no desconhecido palpitante não tão psicológico assim. Ser feliz é um jogo de azar, e a AM é mero curinga? O Mochileiro só faz perguntas retóricas, portanto contente-se com o fim deste post.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Drops

_ Nenhum homem presta!
_ Tem razão! Só eu sou fiel...

_ E se eu pedisse um aumento?
_ Sabe as possibilidades de você levar um pé?
_ Uma possibilidade impossível, realmente.

_ Só tenho mais vinta anos de vida.
_ Não diga besteira. Sua família é propensa a superar a média nacional de longevidade. Olhe sua mãe.
_ Sei não...
_ Era só o que me faltava. Você tem prazo de validade, é?

_ Deixa eu pegar.
_ Calma, cara: ele não é um saco de arroz! [o outro está carregando o bebê virado pra baixo]
_ Tá me estranhando, é? Já pratiquei o suficiente com três lá em casa. Isso aqui é pra evitar cólica...

_ Adorava caminhar na praia, nas férias.
_ Cara, você é muito branco! Olha só essa pele! Devia se torrar todo.
_ Cale-se! Você é tão branca que isso aí mais parece um exoesqueleto!
_ Queimava muito as panturrilhas?
_ Nos primeiros dias, sim. Não podia agachar...
_ Nossa, imagino a cena: você gemendo toda vez que precisasse se abaixar.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

17o. Concurso maldito
Cosmogonia


Livros sagrados são textos milenares de auto-ajuda engenhosamente utilizados por líderes religiosos para perpetuarem seu poder social sobre as massas. Seriam estes rascunhos cosmogônicos ou versões fabulescas destes? Sim, me sustento no inconsciente coletivo de Jung. Simbolismos são álibis do que o homem desconhece, assim como o misticismo. Hermetismo, alquimia e outras formas de conhecimento cifradas evidenciam como o homem possui o conhecimento necessário pra evoluir infinitamente, mas não o psicológico e o empírico sócio-histórico pra tornar isso sustentável. O inconsciente coletivo é um ábaco divino, embora os ateus prefiram a isenção de culpa cristã e ode absoluto à sagacidade do pensamento linear de ciências e filõsofos de cabeceira. Quando se pensa que os comunistas destruíram mais de 90% das igrejas russas em nome da destruição da instituição tachada como o "ópio do povo", observa-se que o tráfico do ópio apenas mudou de mãos à época: dos religiosos passou pros políticos! Quem assistiu O círculo do poder sabe o que quero dizer; Stalin era tomado por Deus por muitos. O conceito de entidade superior, visto sob essa elasticidade aplicada a um homem, torna difícil conceber que a criação do universo foi feita à imagem e semelhança de alguém; implicaria se afirmar que o mundo como o conhecemos implica no reflexo duma personalidade matriz. E talvez as coisas do mundo não passem disso: um conluio de implicações meramente quânticas (coisas que são e não são ao mesmo tempo, olha que viagem) cujos fenômenos nos induzam a crer em caprichos de entidades espirituais superiores. Esse papo de espírito se trata meramente de faculdades psíquicas, nada a ver com os romanceados relatos de Zilba e companhia. A espontaneidade de conhecimento produzido por gênios como Hermes, não é novidade, sofreram ridículo preconceito com o conceito emergente de ciência da Idade Média pra frente. Um retrocesso perante os orientais que ainda relutamos em perceber. A cosmogonia não foi feita pra ser investigada pela ciência, com certeza. Mas meu interesse pelo assunto se extinguiu a partir do momento em que a carência de conhecimento de minha humanidade superou meu interesse pelas diretrizes nebulosas do universo. Não é algo para nosso conhecimento por ora; melhor se descobrir antes de se estudar sobre um mundo ainda muito preso a simbolismos e mitologias. Meu desdém é infundamentado, mas é fato que a humanidade insiste em estudar coisas fora de hora. Como criança querendo aprender a escrever antes de ler, possivelmente. É hora de reaprendermos como funcionava a mentalidade na Antigüidade Clássica; só assim esses conhecimentos começarão a se tornar acessíveis. Menos dissipações empíricas de séculos de intercâmbio cultural, mais centrar em questões intrínsecas a nós e ao universo. Vai entender a cosmogonia...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Mania por papel

Sob esse artefato de celulose é que a maioria de minhas neuras são regidas. Detesto papel dobrado, detesto quem rabisca ao telefone e detesto os hediondos desperdícios de celulose. Não que eu seja um ecochato, mas ao conceber o poder de ene dimensões de uma folha de papel, e como a mesquinheza da maioria das funções às quais ao papel é atribuído é demais comum, uma inquietação me arrebata. Quando pequeno, eu e meus universos com personagens maneiristas de quadrinhos éramos sedentos por folhas. Poucas mães não se descabelariam com a facilidade com que papel se acumula, e em tenra idade não era diferente comigo. Em pequeno, criava personagens e deenhos. Em grande, criava códigos, alfabetos, linguagens, e as formas mais absurdas de comprimir informação. A sina por economia celulósica era tão grande que parei de comprar papel em 2000; desde então, nunca mais comprei um pedacinho que fosse. Passei a reaproveitar todas as folhas brancas que sobravam dos cadernos durante os anos letivos, assim como reutilizar várias capas-duras recauchutando-as com sobras de cadernos anteriores, quando não utilizar avulso os fechos de fichário. Isso quando o tradicional hábito de copiar em verso de apostila não impera. A idéia de pensar que estou copiando coisas já escritas me traz repúdio. O papel me bloqueia. Deve ser por isso que só comecei a criar gosto pra escrever quando abri um blog...
Os idiotas exercem desmedidamente o orgulho

Um dos incidentes mais engraçados dessas férias ocorreu bem na primeira quinzena fora de casa. Voltava eu pro village quando, sorridente e pateticamente confiante, o primo irritante chega com as novas, ao sair do quarto:

_ Acabei de fazer uma aposta com He-man. Se passar os próximos quinze dias, ou seja, até voltarmos pra casa, sem comer um doce que seja, ganho o tênis e boné de marca, e o celular dele!

É lógico que He-man e meu outro primo reviraram o armário pra porem termo aos doces que ele escondera antes da aposta. No dia seguinte, fomos à Barra. He-man fez questão de ficar ao lado dele o tempo todo, pra iniciar o terrorismo psicológico. Ao sair do outro carro, não parava mais de debochar do imbecil: ele abrira o papel de uma balinha e quase o encostava à língua. Naquele momento, a pressão psicológica se iniciou: nenhuma sorte de doce valia, nada! Açúcares, balas, bolos, sucos, refrigerantes, absolutamente nada! Um garoto de dez anos ficar metade das férias bebendo tudo com adoçante foi uma das coisas mais tristes que eu já vi. Mas como a maioria das coisas mais tristes que eu já vi foram comigo, pouco estou me lixando pra desespero alheio. Os dias se passavam, e as cenas risíveis aumentavam. Durante um almoço, He-man, com um copo de regrigerante, procurava um lugar para se sentar. Estranhando o perfurar silencioso que apenas os olhares fixos têm, olha para trás: o primo olhava pro copo dele de forma quase hipnótica! Seguia o objeto com o globo ocular como se fosse o Santo Graal. Houve dia em que He-man o permitia ingerir algum açúcar ao menos no café da manhã, mas ele bravamente resistia, recusando a tentadora proposta. Não houve quem faltasse pra lhe alertar que He-man era uma víbora ególatra e mesquinha o suficiente prea jamais cumprir a aposta, mas não quis ouvir. O próprio He-man me confessava:

_ Cara, é absurdo! Eu só debocho da cara dele, só o insulto, só o humilho, e ele continua achando de verdade que darei meu tênis pra ele!

Numa ocasião, saímos pra comprar bebida e carne. Na falta de açougue, foi só bebida, mesmo. O primo, só no suco com adoçante. Compráramos uma suculenta caixa de Bis pra depois da porção gigante de camarão no jardim. Enquanto ele assistia tevê, se mordendo por ter de permanecer impotente face à tentadora caixa dum azul que devia parecer celeste pr'aquele momento, abrimos a caixa. He-man, bem ao pé da orelha, esboça devorar buma bocada só o seu, mas lambuza o bombom lentamente sobre os lábios dele, e impõe:

_ Se lamber, perde a aposta! É melhor ir ao banheiro e lavar isso aí, viu?

Cara, como ri nesse dia. A aflição do primo era tamanha que He-man nem precisava mais estar por perto pra aura de perseguição dominá-lo. Passava longe de qualquer garrafa pet, se recusava a entrar nos cômodos com alguém comendo doces e tudo o mais, ma sempre tinha sua pança protuberante pra lembrá-lo de que aquilo parecia não passar de mera provação infundada. Bufês inteiros o mantiveram irredutível, mas quanto mais o dia de irmos embora chegava, mas He-man percebia que perderia a aposta. Então, pra se divertir um pouco, ele, um dia o encontra dormindo no sofá da sala. Não pensa duas vezes: pega um pote de açúcar e despeja lentamente alguns grãos. Tira foto e espera. Percebendo seu pouco efetivo ato, pega um pote de mel e derrama um pouco sob os lábios dele, e espera. Ele acaba lambendo, ainda dormindo. E faz questão de pegar a câmera pra tirar foto daquele lindo momento. Lógico que todos encararam a prova irrefutável, registrada em câmera digital, como mero engodo cínico e trapaceiro da parte do He-man, mas ele se derramava tanto de rir que pouco se lixava pra isso. Houve até momentos em que temíamos pela baixa na taxa de glicose no sangue do gordinho, mas isso era um mero detalhe; qualquer agulhada em farmácia resolveria aquilo. O óbvio, ao voltarmos pra casa, aconteceu: fizemos todo o trajeto de volta e nada da aposta ser cunmprida! Ele tinha tanto medo de perder a aposta na última hora que nem no avião se aproximava de He-man. O que foi suficiente pra pegarmos nossas malas, irmos pra casa, e o assunto morrer. Foi então que percebi como ele é sádico. E como os ingênuos são as pessoas mais patéticas do mundo. Teve um dia que até sugeri que aumentassem a aposta, incluindo o veto a massas, mas seria sacanagem demais: seria mais fácil meter logo uma bala na cabeça do gordinho!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Aceita uma água-de-coco?

Enrolei pra caramba em contar como foram as férias deste ano. Imagina, fazia já seis anos que de casa não saía. Pois bem, como destino para este ano, escolhi o estado mais hedonista do Brasil. Local onde o povo raciocina lentamente para tudo, exceto para as mesquinhezas da carne. Não raro, se encontram pelas ruas de lá casais apaixonados que, em vez de comportadas mãos dadas e periódicos beijos, dispensam todas as cerimônias e partem é pra língua mesmo que ninguém é de ferro. Isso quando, ao perambular pelas calçadas, não se encontrar exemplares locais se encoxando contra a parede do primeiro quiosque que encontrarem pela frente, naquele inusitado empurra-empurra de lascívia concentrada. O dia em que parti foi uma Quinta. Melhor, uma madrugada de Quinta. Chuvosa, que raro. Diazinho que minha conta bancária não esquecerá tão cedo. Fazendo escala no pretensamente modernoso aeroporto de Brasília -- que parecia mais é ter saído dum episódios d'Os Jetsons, com aquelas janelas redondas de vidro temperado, cores beges e amplos espaços --, em pouco mais de uma hora depois subíamos ao próximo avião que nos deixaria em definitivo em Salvador. Não sem, de relance, encontrar o Ministro da Cultura fazendo check-in (me deu uma vontade de mandá-lo tomar no cu, mas lembrei na hora que sou razoável demais pra isso), e o Presidente atrasando nosso vôo em meia hora por causa da construção da segunda pista. Chegados em solo baiano, após o ônibus nos levar à casa em que passaríamos a maior parte do tempo, deixamos as malas num outro imóvel a poucos metros de lá, que é onde ficaria em definitivo. Era um village, como os imóveis lá são chamados. Enfim, revia o mar. Apesar do local de area afrodisíacos, não esperava muito dessas férias. E com razão, talvez.


_ Essa asa tá me deixando nervoso! Olha como sacoleja a fuselagem!
_ Vai tomar banho, Mochileiro!
_ Cara, adoro mulher de cabelo preso...
_ Desconhecia essa sua tara por aeromoças.


Os dias seguintes tiveram pouca variação: o itinerário casa-praia-casa era o suficiente por ora. Três dias depois, chegava o natal. Igualmente de pouca variação. Exceto por uma moreninha e sua amiga, às quais fui introduzido pela anfitriã, que afirmou às meninas que eu fazia computação. Para a moça, eu sou um hacker em potencial, veja só. Para camuflar um pouco o acanhamento do momento, pouco antes me dirigira ao refrigerador pra simular pegar alguma coisa, pra depois me deslocar até elas, mais preparado psicologicamente para aqueles segundos que parecem durar minutos às vezes. Assim que as encontrei a sós, tratei de socializar, mas quando os olhos verdes pretendidos são tímidos como uma tábua, apesar da sagaz personalidade, pouco havia a se fazer. Mas fiz. E eis a tragédia de qualquer tímido: ser barrado libidinosamente por alguém ainda mais tímido. Os dias passavam e só restava deixá-las pra lá. Como ficava a maior parte do tempo na casa, quando não na praia ou no village, acabo ouvindo d'algumas pessoas a intenção de ir-se conhecer o Centro Histórico. Me incluo nessa após ser convidado. Meia dúzia de aborrescentes, eu e uma tiazona entendida do assunto: Mestrado em História. Trajes típicos de professora de faculdade: colar indígena gigante no peito, cabelo curto, roupas bem simples, New balance no pé, uma pontada de academês em suas discorrências... Não economizei nas perguntas, nem em acompanhar os comentários dela perante as igrejas e casarões seculares do Pelourinho. Tudo bem que, na primeira vez em que batemos sola no Centro Histórico, pegamos uma linha de ônibus que levou mais de duas horas pra chegar até onde queríamos, mas esse foi um erro evitado no futuro. Subindo e descendo do elevador da Penha, boa parte do início dos tempos coloniais do Brasil passa por meus olhos.


_ Os azulejos devem ter sido a maior descoberta científica já feita pelos portugueses! Tudo que eles fizeram envolvia usá-los.
_ Do povo que inventou o fado, muita coisa não se pode esperar...
_ Ser mais pobre que a Grécia deve ser uma humilhação grande pra eles.


Dias depois, o réveillon chega. Faltou bebida e sobrou pulinhos pra Iemanjá nas ondas à meia-noite. O que eu pedi? Óbvio, óbvio. Os fogos foram estourados tão perto da casa que pedaços de papelão não raro me atingiam. Nem papel picado sujaria tanto o gramado. Para os dias seguintes, muitas gratificantes sestas na rede da casa (pouco havia a se fazer no village), algumas passagens pelos shoppings do local, inclusive um a céu aberto, pertinho da orla salvadorenha (era isso ou ir aos shows, tão freqüentes que são chamados de "ensaios" pelos locais; o que será que eles chamam de show, afinal?). Sempre havia local pra ir: praia do forte, buraco da velha, Interlagos, day-use na Costa do Sauípe... esse dia do day-use em especial foi comédia demais: típico caso de pobre se metendo em muquifo de rico morde-fronha. Chegamos pela manhã, demos entrada na recepção e fomos às piscinas do resort. Enquanto o povo perdia tempo no buraco d'água azulejado no chão, caminhava pelas passagens entre as pontes do lago que mais parecia um pântano dada a profusão de vitórias-régias. Via tudo que gente rica gosta nesses lugares: aulas de dança na praia, instalações nababescas, carrinhos de golfe para maior facilidade ao se circular no local que mais parecia uma cidadela dado o impressionante tamanho... quando um dos desocupados que estava conosco decide alugar um (estava eu, ele e a namorada dele, a Lu e um sobrinho pra pentelhar), conhecemos em poucos minutos boa parte do local.


_ Cara, preste atenção no trajeto! Depois você lubrifica a Suelen! [sim, eles estavam se beijando, e desviando atenção do trajeto]
_ Cale-se!


Passamos pelos campos de golfe, pela tirolesa, pelas pousadas mais à frente, até que o engraçadinho resolve se exibir querendo car um cavalo-de-pau com o fraco motor do carrinho (pasme) num banco de areia perto de um dos campos de golfe (sim, é um desesperado pra chegar aos dezoito anos). O previsível aconteceu: atolou! Eu é que não ia perder tempo empurrando aquela merda, então tratei de procurar, com sucesso, algumas tábuas pra tirar o carrinho de lá. Se esgoelando, ele, o sobrinho e as meninas conseguem tirar o carro sem as tábuas que eu acabara de encontrar (sim, o pé-repado se deu ao trabalho de deixar as meninas ajudá-lo). Com as tábuas, aplicaria a lei do menor esforço e a lei da alavanca, mas os ímpios preferiram a força bruta. Se esgoelaram à toa, óbvio. E ainda ficaram todo o resto do trajeto me rechaçando, fazendo pouco caso da engenhosa solução em minhas mãos que eles dispensara, alegando negligência minha. Foda-se, com molecagem do tipo atolar carrinho de golfe, sou negligente, sim! Experimente beber como um gambá e esperar que eu ajude a levar pra casa em fim de festa. Mais fácil beijar o chão batizado com seus fluidos intestinais do que ter uma mãozinha minha. Enfim, nos dias que se passaram, vi de tudo pelas praias: esquizofrênicos conversando com autoridades marinhas antes do primeiro mergulho; transatlânticos no horizonte; gringo abrindo quiosque sem falar quase nada de português...

_ Se eu fosse você, dispensaria o caranguejo, patrão! Não o recomendo pra intestinos fracos...

Sim, nessa ocasião sacamos perfeitamente o eufemismo pra duvidosa procedência do fruto do mar, e fomos almoçar na casa; no villagem a bóia era sempre no improviso, portanto evitava por lá ficar. Numa ocasião em que estávamos na praia, voltava de uma caminhada e me sentei com o pessoal numa mesa. Pouco depois descubro que um integrante da mesa, entre um pileque e outro, contratara um repentista. Quer algo mais constrangedor que um nordestino cantando metade da sua vida com aquelas rimas rápidas e sincopadas? Devia ter coisa sobre a gente naquela música que nem minha mãe devia saber; por sorte ela não estava conosco nesse dia. Como dispensei sabiamente todos os ensaios, tinha mais é que aproveitar o que acontecia, que não envolvesse ouvir Calypso no ambiente. O que era difícil, uma vez que esta merda tocava nas rádios, nas ruas, nos sons automotivos... praticamente uma seita! Cantos islâmicos pareciam pouco sincopados e entediantes perto da abundância apavorante com que as músicas dessa banda eram tocadas. Mas é melhor eu evitar referências ao Islã antes que venha um chato me torrar a paciência como fizeram com o chargista dinamarquês. Face ao previsível na nightlife soteropolitana, só me restava aproveitar as coisas que aconteciam antes das noitadas, como as peixadas, a ida à Lagoa do Abaeté e ao Farol da Barra, obrigatório, apesar da mais de uma hora de carro até lá que dispendiei. Pra matar a saudade, só LAN mesmo, e mesmo assim nunca encontrava um inútil na web pra trocar as novas; me limitava ao browser, mesmo. Quinze dias antes de ir embora, não agüentava mais a mesmice: tem baiano demais naquela terra! O que pensar dum lugar em que programas como o Biguebróder são entidade estadual culturalmente tombadas? Como o povinho de lá carrega a imensa frustração de ver seus principais clubes rebaixados pra terceira divisão do futebol, só lhes resta torcer pros conterrâneos que topam ficar confinados no reality show global, que pra mim, não passa duma versão televisionada do The Sims. Will Wright devia cobrar seus royalties, numa boa...


_ Esse moleque é mais chato que dar pernil pra banguela!
_ [meia hora de discurso politicamente correto, típico de gente que se acha um exemplo de vida]
_ Ah, tá, em que livro de auto-ajuda você leu isso?
_ Vá à merda, Mochileiro! Espero que ainda se foda bastante, no bom sentido, pra tomar jeito! Você sempre está certo, não é mesmo?
_ Lógico!


Pra piorar, não raro tinha uma turminha farofeira se hospedando ao lado do nosso village, assassinando O Rappa e fazendo aquele churrasco de gato. Quando não eram eles, eram os amigos do espanhol dono do imóvel tocando Beatles e clássicos do blues, do soul e outros ritmos de velho que não sei dizer o nome agora. Tudo no último volume. Mas isso não era pra piorar; até compartilhava de certos gostos musicais. O que é pra escrachar de vez era quando o banheiro entupia e aquele cheiro carinhoso subia pela casa toda. Sem falar das briguinhas dum casal que dividiu o imóvel com a gente, das crianças violentando meus tímpanos com a habitual gritaria por causa de bonecas (não bastasse ser crianças, só tinham meninas), e gente te expulsando da cama pela manhã. Parecia não chegar nunca o dia de ir embora. Quando por fim chega, ao meio dia estou de volta, em terra natal. Todas as mazelas daqui pareciam o máximo ao chegar: a faculdade voltando de greve, o trabalho no Gabinete, a despensa magra, a minha vida medíocre e sem perspectiva social de sempre... dias depois, até tentaram trazer alguns camarões (trazidos como bagagem extra) pros que ficaram saborear um pouco, mas foi algo como Magal fazer cover do Lennon. Percebeu como os camarões saíram naquela tarde, não? Falando do Magal, me lembrei que, enquanto esperava a hora de fazer check-in no aeroporto, passava um programa de entrevistas com ele e Tom Zé juntos. Um evento, como pode-se perceber. Magal e Tom endeusando as Sandras Marias Madalenas da vida, sob as eternamente dúbias discorrências do segundo. Um abominando o academês, o outro parecendo ter saído dum episódio daquele programa de caminhoneiros da Grobo, o Carga pesada, programa cult dos profissionais da estrada. É, a tevê foi uma espécie de último recurso dessas férias, tragicamente falando.


Bonus track: overheard conversations


_ Teve uma vez em que eu tava na casa de Fulano. Ele tinha um cachorro velho, mais de catorze anos de vida, mal conseguia andar. E banguela. Ele sempre sacaneava o cachorro jogando um pedaço de osso ao chegar do açougue. Por instinto, o animal ia lá e tentava roer o osso. Ele chorava frustrado por não conseguir consumir o osso, e a galera caindo de rir do coitado do bicho. Porra, moleque: era maldade, mas era muito engraçado...

_ Sabiam que a Michelle tem um ponto nervoso no pescoço? Toquem nessa pinta e ela se retorce como uma toalha velha.
_ É mesmo? [toca na pinta no pescoço]
_ Aaaaaai!
_ Deixa eu tentar!
_ Aaaaaai!
_ Ah, eu também quero!
_ Aaaaaai!
_ E não é que dá certo? Tenta aí, Vi.
_ Vão pro inferno, todos vocês!
_ Acho que vou dar uma echarpe de presente no aniversário dela...
_ Seria como dar muleta pra aleijado de presente. Sadomasoquista demais.

_ Meus pêsames, Mochileiro. Com um irmão desses, você vai direto pro céu. Sem dar entrada na recepção nem nada: direto pra área VIP!
_ Eu sei...
_ Mas cara, em Campo Grande só tem paulista misturado com paranaense! É trigo entupido de joio, uma cidade assim!
_ Não disse?
_ O bairrismo nunca termina...

_ É, com ela o sistema é bruto! Vai dar pra trás, é?
_ Seria difícil encontrar meu pau em meio a tantas estrias; o coitado poderia ficar entalado no meio de uma delas...
_ Deixa de drama: conheço um motel aqui perto. Ela é de boa família...
_ Pode esquecer. Devia estar fora de mim quando cogitei isso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Essa boneca tem manual, é? E nota fiscal, tem também?

Odeio essa minha propensão a atrair -- e me sentir atraído -- por porra-loucas. Aquele tipo de menina que camufla sua personalidade insegura com comportamento irascível, sempre tenta posar de pseudo-intelectual com comentários pretensiosos, infundamentados e risivelmente vagos, e detentoras de temperamento explosivo o suficiente pra reclamar de tudo e todos. Não que reclamar seja um defeito, mas quando este nobre hábito se direciona em excesso a familiares e pessoas incomodativas, percebe-se que uma paciência irregular destoa qualquer reclamação de qualidade. Que não precisa ser fundamentada, precisa apenas ser sagaz. Como muitas coisas na vida: a lógica, aliada ao argumento bem constituído e a técnicas retóricas, é poderosa, mas seu escopo torna-se ainda maior se houver um falante esprituoso. E sagacidade, sempre. Por vezes, falta certa racionalidade nas porra-loucas, mas isso a gente acaba relevando. A cruz de todo idiota que se cega ao se enamorar: relevar os (d)efeitos, quando o que é preciso é admirá-los; relevar os defeitos do objeto amado é como se se deixasse pra depois uma irritação --, proveniente dos limites sempre existentes de quaisquer paciências --, esperada mas insistentemente negada pela falida empresa do gostar.

Como viúvas-negras, seu visual pseudossubversivo capta com facilidade os sentimentos mais desavisados. Piercings, tatuagens, cabelos com mechas coloridas, peças de roupa que divergem vertiginosamente entre o tradicional e o moderninho, o arsenal é amplo. Antíteses parecem confortá-las. A pressa em ser correspondida, não. E isso justificará sempre os atos impensados, a atitude nula de evitar se colocar no lugar de outras pessoas, no calor da distração delas durante a fuga por causa de alguma coisa que as assusta como a lebres fugindo da alcatéia. Mas é pra isso que o visual reacionário delas -- de cores escuras, gradientes opacos e estampas alternativas de butique -- serve: esconder isso. Esconder isso e buscar uma identidade silogista: vestir-se diferentemente igual para ser diferente, portanto igual (embora seja o cúmulo elas admitirem isso). Se o visual for confundido com uniforme típico de rockeiro de shopping, não tem problema: basta freqüentar as festas mais fubangas possíveis e se entupir de vícios. O tabaco é a chupeta dos frustrados. A pinga também. Sem falar que a excessiva profusão de metais no rosto, por vezes no umbigo, pode acbar funcionando como pára-raios, ou mesmo como ímas para atrair a polaridade oposta do íma daquele pseudohippie imundo e cabeludo da qual elas costumam estar a fim. Muitas tribos indígenas costumam atribuir estética a peitos caídos e pescoços alargados por argolas douradas; as porra-loucas preferem dar essa atribuição aos longos cabelos deles, quando não aos cavanhaques.

Sua forma hiperbólica de reclamar da vida, previsivelmente turbinada pelo temperamento, é patente: todos reclamam de barriga cheia de alguma coisa, mas elas têm Ph.D nesse quesito; várias coisas são projetadas (concepção freudiana, dá licença) por elas. É normal o comportamento arisco das pessoas perante as novas descobertas de si mesmos, mas as porra-loucas forçam a barra. E desenvolvem habilidades avançadas em afastar os cativantes, e manter próximos os incomodativos. Indesejada inversão produzida por uma personalidade calejada por intempéries e mimos gratuitos, e conivente demais pra fazer algo a respeito. É fácil usar saias quando o tacapa acaba por quebrar o nariz de alguém. Seria fácil racionalizar tudo isso querendo crer ser mera questão de maturidade, mas o conceito de facilidde é mera bagagem empírica, portanto ainda espero me foder muito nesse quesito. Se fodendo e não aprendendo, como sempre. Poderiam também dizer se tratar de um subproduto inferior duma sociedade consumista que endeusa a estética, as tais porra-loucas. Pois é, nunca foi fácil se lidar com personalidades ingratas. Agora então que elas se encontram ingratas a ponto de se confundir constantemente com agressividade tão condenada nos homens, sempre usados como pretexto pra sustentar um sufocado argumento ideológico de ascensão social feminina, é bom começar a se questionar se certas impulsividades são passíveis de se atribuir sexo, ou não. Provavelmente, sim, quanto às porra-loucas. Sim, além de machista, sou generalizante. Há!

Já chega: perdi dois posts lá em casa, com o mavioso computador que tenho de usar por lá. Este aqui digito é do serviço mesmo, que é pra acabar com imprevistos. Tomara... ;-)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Espasmos...

Autonomia quanto aos transeuntes que passam pela gente? Quem dera isso ter, mas se empenhar a isso ter é se distrair infundadamente. Seriedade e diversão independem de recíprocas em vários aspectos afetivos, mas tomar para si falhas emocionais alheias acaba acidentalmente acontecendo.

...e alguns aforismos idiotas

A covardia não é exclusivamente masculina.
Pretinho básico deixa de ser básico em dia de casamento.
Acusado não é sinônimo de culpado

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Antes amava com seriedade. Agora, apenas como mera diversão. Talvez como sempre devesse ter sido, ou não. A realidade que sucede espasmos apaixonados, de toda sorte, sempre diz algo diferente. É quando diz a mesma coisa que deve-se preocupar: mas preocupar-se com o quê? Gente como o Mochileiro não encontra resposta. Gente como o Mochileiro não tem laços produzidos por meios independentes, apenas tem aqueles já consagrados -- consagrados sequer por si mesmo, mas pelo mundo, de forma indesejada por terceiros, porque o orgulho também se projeta na extensão da independência de expansão social a que se tem --, aqueles de sempre. Mas gente como o Mochileiro já está acostumada a conviver com tal constatação, se dspreocupando o suficiente e se voltando ao próprio ego. Caminho inverso tão arduamente percorrido. Talvez o mais ingrato da via crucus não seja a ida, mas descobrir-se obrigado a fazer a volta pelo simples fato de que personalidade e destino não têm a mesma velocidade. O pensamento não tem marchas suficientes para acompanhar ritmos tão díspares. A velocidade deste é constante, como dizem na cinemática? É quando os frutos (maduros ou não) da imaginação, na incógnita de quando cairão de seus pomares, desafiam os Newtons e os distraem dos questionamentos necessários a acompanharem a velocidade não da personalidade, nem do destino ou do pensamento, mas sim daquele músculo do lado esquerdo que, por mais que bata como a um pistão, simplesmente não sai do lugar; sua velocidade independe das outras três variáveis ora constantes. Por fim, antes era com seriedade. Como mera diversão por ora. Sempre sem odômetros. A empresa do gostar perde a graça, perdendo o sentido por tabela, quando a velocidade excede o desafio geográfico do trajeto e as possibilidades físicas de locomoção da tríade psíquica das pessoas. Não é à toa que, cada vez mais, o Mochileiro prefira simplesmente se contentar com suas próprias pernas. A demora produzida pelo caminhar pedestre dá um tempo de reflexão que as outras velocidades nem sempre dão. Quando o hiato está presente, a reflexão é quem exercita a ação...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Senhores dos anéis

A união afetiva e a semiexclusão social, conjunção que se convém chamar de casamento, rende certas facetas da comédia social. O buquê da noiva que denuncia as solteiras, os amigos que denunciam a cisão que será feita na vida do casal, a idade dos envolvidos no evento. Como se fosse um vestibular do destino: quem gabaritar as questões provenientes da cerimônia posui altas chances de uma ligação afetiva qualificada. Por outro lado, seria tal cerimônia um luto social (morte do solteiro e nascimento do casado, como numa cerimônia iniciática em que a vida profana é deixada pra trás) ou mero exercício de adivinhação da felicidade? Sim, porque a aura que ronda o tal do casamento é essa: obrigar-se a preencher sua vida com uma relevante companhia, e assim manter o dom humano de continuar. Apesar de, cada vez mais, tal cerimônia se mostrar uma das tradições sociais mais descontinuadas nos últimos anos. Já por mim passaram várias uniões desconstruídas: separações legais com uniões mantidas, motivadas pela manutenção da criação dos filhos (afeição opcional em nome dum dado respeito requerido pelas diretrizes do destino); separação legal com uniões mantidas, mas sem centralização de conquistas (espaços individuais incompatíveis?), e a famosa junção de trapos sem aval legal. Ou seja, casamento deixou de ser hábito e compromisso para se tornar mero título social.

Nunca vou me esquecer do casamento em que fui numa cidadezinha interiorana: a festa após a cerimônia na igreja ocorreu dentro duma olaria! No sereno mesmo, em meio à argila e às pilhas de tijolos e telhas. Ou seja, tornou-se uma espécie de requisito para prestígio social, o tal do casamento (embora muitas vezes torne-se requisito para se legitimar o dom de continuar, mas isso é coisa pro Ratinho e seus testes de DNA na tevê...). Trata-se de um favorável adorno à imagem do indivíduo; não é à toa que políticos raramente se encontram desquitados. Símbolo social de credibilidade e respeito. Não estranharei se um dia o estado conjugal se tornar requisito rigorosamente exigido para admissões em certos lugares, por exemplo. Afinal de contas, é um clube restrito, uma seita de legiões de fóbicos por solidão e imagem social. Os favores prestados pelo casamento à Previdência social, aliás, deviam ser motivos suficientes para casais terem direitos exclusivos. Como uma bonificação pelas exigências impossíveis propostas pelo fatídico título social. Afinal, trata-se duma "solução final" pros esteticamente excluídos. E álibi pra desigualdade social! Sem se falar nas vantagens estatísticas. Ou seja, quanto mais casamentos, menos impostos para as coisas que os casados jamais poderão fazer em teoria. Um golpe de misericórdia do Leão para com os que sabem que passarão o resto da vida tendo de esfacelar suas economias com gastos ingratos. Quase como a prática de se libertar escravos depois dos 60 anos, como feito no século XIX...