sexta-feira, 16 de junho de 2006

Ponto final


Outrora já comentara sobre as diferentes formas de evasão de que me utilizei. Desenho para uma juventude de esboço sem esquadro, conhecimento para uma vida vendada, e escrita para um espírito letárgico e submerso na vazante das melancolias. Só faltou mexer com fotografias, mas nunca me agradou de todo a dissimulação trazida pelas imagens que implicitamente afirmam dizer mais que mil palavras. Resisti o quanto pude à vindoura perde de mais uma evasão, mas o ocaso dos manifestos produzidos pelas idéias íntegras não ajuda. Hora de evitar a chegada da mediocridade (se é que a evitei um dia) e parar. Cada vez mais, tudo o que escrevo parece igual. Argumento aproveitado para o abandono passado das outras evasões. Mas, dessa vez, é como se o fato de estar perdendo essa evasão em particular fosse culpa de, ó, negligência minha: omissão da vontade, ode aos pontos fortes de minha mediocridade. Palavras mtam lentamente, mas a ausência delas é morte súita. Afinal, contar o quê, quando, após o tiro de misericórdia, as entrelinhas sangram desatadamente perante a essência? Embora seja outra coisa que coagule as palavras em sua volta ao pó. Isso não significa que para sempre abolirei as palavras de meu cotidiano: indica apenas que os momentos de catarse tinham de acabar; hora de diversificar, abandonar um pouco a escrita honesta pra parar de se enganar. Ou não.

Tudo até aqui escrito só serviu para eu perceber que em nada mudo. Mas caminhos em círculos levam àlgum lugar. Não somente ao ponto de partida, mas ao ponto em que outra circunscrição ampliará seu percurso. Aproveito estas últimas linhas para agradecer aos incautos que perderam tempo lendo algo por cá. Por um bom tempo, pude fingir ter algo indelével e único a dizer ao mundo. Por isso, sou grato. Grato por me orgulhar de um fim significativo, ao que sei, somente a mim. Mas nem assim consegui minha meta de chegar ao milésimo post. Teria conseguido se não tivesse removido algumas gordurinhas dos arquivos; cerca de 7,5% de notas que não farão falta. Em linhas gerais, este é o fim do BR. A linha do horizonte por onde o Mochileiro para sempre desaparece. Este olha brevemente para trás, acena negativamente a cabeça, e some enquanto os lacustres lampejos solares ainda resistem ao pôr-do-sol. Atrás dele, um vulto ocultado pela sombra das cordilheiras em frente à estrela-anã o contempla anonimamente. Algumas memórias recíprocas se encontram, num evento psíquico desconhecido aos dois. Uma pontada quase imperceptível no espírito. E a sede por novos vislumbres os separa em definitivo. O trajeto deixou de ser imaginário. O mundo terá de ser o bastante.

Acabou... agora dêem o fora daqui e percam tempo lendo algo melhor.

domingo, 4 de junho de 2006

Você é artista? Isso passa...

Talvez a única razão por que eu ainda tope ir a eventos ditos culturais é para me divertir vendo a galerinha querendo pagar uma de cult, com suas roupas de brechó e ares de sofisticados. Tinha de tudo um pouco: dotores fazendo presença, tatuagens gratamente proeminentes em dorsos femininos, seguidores estéticos de Enéas com suas barbas grenhas (cuidadosamente armadas com laquê pra ficarem tão volumosas quanto a do Marcelo Camelo) e bonés que pareciam ter sido roubados de guadador de carros, palheiros cheios de agulhas (leia-se: difícil saber o que era mais escabroso em seres assim, se a quantidade díspare de pêlos faciais, facilmente confundidos com os púbicos, ou a quantidade de alfinetes cuidadosamente disfarçada de piercings no rosto)... os que tinham banda se reconhecia de longe. Nas imediações, duas meninas -- uma se achando A Sarah Connor e xará desta, possivelmente, com seus cabelos loiros volumosos e camisa listrada, e a outra de cabelo curto, bolsa riot e uma blusa peculiar, rosada -- imediatamente me remeteram a mais uma bandinha fomentada no colégio salesiano da cidade (só de meninas, dá licença). O padre gosta de tirar um som, ao que se vê. Mas essas só no domingo tocam. E na Zumzum. Vai ser tudo pra ala GLS, com certeza. Vestimenta oitentista de butique faz sucesso entre as bibas. Ao vislumbrar, do fundo da sala e debaixo e uma logomarca de chapa galvanizada da instituição, um ser de vermelho e cabelo curupira tentando, ao que parecia, desesperadamente imitar o penteado do Julian Casablancas por meio de um penteado encaracolado e esculpido por horas de Neutrox, confiro rapidamente na programação: era a banda que tocaria após a peça (sim, o pior é que chamaram aquilo de peça). Só acredito no semáforo, enfim. Resumo da ópera: sábado teve a abertura do primeiro festival nacional de teatro da cidade. No teatro da univesidade. Segundo os organizadores, se tornaria internacional um dia. O que os holofotes de um palco não fazem ao ego dos outros, não? Após mais de uma hora de atraso esperando na antesala, finalmente entro e pego uma cadeira numa das últimas fileiras. Arrependimento: à minha esquerda, uma menina que ria quase cumpulsivamente das asneiras ditas pelo idiota no palco (beleza não compensa certas disfunções de personalidade), e à direita, um esquisito que deve ter esquecido da existência de um chuveiro em sua casa. Nada que eu devesse estranhar em ambientes como aquele. Sem contar que uma generosa lasca de madeira caiu bem na minha cabeça durante a peça. O local era tão desolador que, fora os sinais de mofo perto dos tubos de ventilação, uns quinze morcegos devem ter sobrevoado o local durante a peça. Seria um fiasco absurdo se o pequeno mamífero tentasse se misturar entre os expectadores. Bom, antes da peça em si, houve o que eles chamaram de abertura, que consistia em meia dúzia de representantes de prefeito e governador, organizadores e bajuladores mais próximos, dando uma introdução sobre o que o festival pretendia.

Na hora em que a peça em si começou, aparece um figura. Surtado como os baixinhos tendem a ser. Basicamente se tratava de um monólogo: uma hora ouvindo o figura, sob várias facetas, fazendo uma criticazinha social bem fraquinha, tentando fazer espuma com algumas tiradas, no máximo aceitáveis, e muitos surtos e berros frenéticos. Por isso que odeio teatro e nada me impele e a mudar de opinião: sempre rola aquele corporativismo e aquela pseudometalinguagem, agregadas a vícios pavorosos que a dramaturgia nacional insiste em perpetuar. Vícios como piadas de baixo calão, gritos descontrolados (porra, nunca ouviram falar de microfone? Devem achar que meu ouvido é penico) e conivente complexo perante as diretrizes do que é culturalmente feito nos Estados Unidos. A conivência perante os europeus já é algo de herança colonial; perante os norte-americanos, não. Me dá um tempo. E quando diretor inventa de escrever peça baseada em livro dum qualquer que ele tem a certeza de que ninguém leu? Porra, admita logo sua mediocridade e faça uma versão do livro, em vez de abduzir obras alheias. Colcha de retalhos com tecido dos outros é triste. Mas não era o caso dessa peça em questão. Por meio de situações desconexas, tentava mascarar a natural superficialidade de seu discurso com uma ausência de roteiro. Não bastasse a abissal falta de educação do brasileiro em saber se portar dentro de um ambiente como aquele (ligações em celulares: o inferno definitivamente são os outros), ainda se carece de uma crítica teatral. De que ainda termos jornais se eles sequer tentam tecer críticas de sua própria ossada quanto às atrações que amplamente divulgam? Sem falar isso ser totalmente inexistente quanto ao teatro; simplesmente divulgam a peça, copiando um releasezinho maquiado e pronto. É uma punheta cultural sem fim, onde não há coragem pra se criticar. Na abertura, o secretário municipal de cultura afirmara sobre um comentário da Aline de Barros (sapata mais macho que um pelotão inteiro), crítica de arte, que afirmara em meados dos anos 70 que o teatro não existia aqui na cidade, apesar da construção física. É fato. Companhias teatrais e apresentações são inúteis se simplesmente não se tenta propagar essa vertente cultural com críticas de colunistas, preços simbólicos para que se dê valor ao que se apresenta, e um mínimo de seriedade com a gestão dos recursos para a Cultura. É pedir demais no estado, isso. Ah, revoltei. Melhor parar de falar da peça senão não termino este post.

Um adendo: odeio ambiente fechado em que as portas permanecem sempre semiabertas e luzes de origens diversas me distraem da atração; da vez em que vi Espíritos no cinema, uma coisa que me deixou puto foi aqueles lanterninhas boçais entrando pela saída ininterruptamente, e a plaquinha indicando a saída de emergência com uma luz verde mais fluorescente do que o filme que estava em projeção naquele momento. Difícil se concentrar assim. E olha que havia apenas quatro pessoas, comigo contando, naquela sessão. Fim do adendo. Após a peça (cabeça doía um pouco após o cretino gritando por mais de uma hora), circulei pelo ambiente para conferir mais espécimes esquisitos do risível cabide cultural da cidade. Ao tirar água do joelho, só intercâmbio dos musicalmente desamparados procurando por baixistas e oferecendo seus suspeitos dotes musicais pra bandas que ainda não descobriram o insumo fétido de que se trata seu som. Nada de surpresas. Após a banda do rapaz de vermelho outrora citado, o Flanders, começar a tocar, a baderna se instaura de vez. Góticos da periferia chegando com o fraque um número menor que o seu emprestado do pai; headbangers; idiotas em geral com camisas pretas de camelô com suas bandas preferidas (como se fosse essencial divulgar ao mundo suas preferências musicais)... não foi à toa que, dez minutos depois, deu pena do que fizeram à antesala do teatro: impotentes, os funcionários observavam as mesas de centro serem arrebentadas, empurra-empurra dos pobres (brincando de grunge, talvez) que quase resultou em tumulto, tudo isso sem o ar condicionado ter sido ligado (a banda suando em bicas, quase implorando, entre as músicas, com eufemismos para que alguém ligasse a refrigeração). Imagina isso num ambiente encarpetado, com dezenas de desocupados circulando. Dá pra acrescentar um mínimo de sobriedade à cena cultural da cidade com incidentes assim? Não falo da banda do Flanders, mas falo dos baderneiros. Não é à toa que, com isso, retorno ao que disse no início do post: só vou mesmo pra me divertir com o armário dos cults da cidade, mesmo...

domingo, 28 de maio de 2006

Falhei fragorosamente. No quê? No simples fato de não se preocupar em julgar falhar. A estagnação denuncia a falta de planejamento cujo improviso é nulo, falho e insosso o suficiente pra impor descrédito a tudo que se faça e se deixe de fazer. Falhar é pior que desistir em apenas uma circunstância: quando se falha sem sequer se ter tentado. Omissão de tentativa esta ocasionada por uma aterradora indiferença que está matando lentamente. Não se vale mais a pena pra nada. Se é peça facultativa dum efeito dominó; solilóquio que nem o próprio transmissor ouve. A única conquista sincera que temos é se gabar da ausência desta: se afogar numa distração que condecora a desolação é o destino opaco e ambivalente dos que se atrevem a se execrar sem um mínimo de honestidade. A auto-crítica não deixa de ser uma auto-promoção obscura. Sua inércia é sua lacuna. Sua lacuna é a ausência que formiga no espírito. Seu espírito é seu pavio.

Altas doses de abstração. Pra cobrir o rombo que a finda fase biográfica do BR deixou. E não reclamem: aqui é onde a criança chora e a mãe não ouve...

sábado, 27 de maio de 2006

Carma

Ao se maturar com os mundanos motes do tempo, o mundo passa aquela sensação de ser pequeno demais pra vocês dois: você e seu carma. Restando apenas levar-se, aprcialmente, em consideração a sugestão de simetria e equilíbrio embutida no carma, não raro aquela vontade de se apontar pro céu -- de forma petulante -- e praguejar contra o pestilento e paradoxal pragmatismo do universo, vem à tona.Veredito na surdina. Descompromisso com a visceral verdade de crer haver coisas que valham a pena, sem vínculos com falsos altruísmos e ambições. O mundo é um órgão burocrático que exige expedição de ene vias autenticadas de documentos cuja veracidade apenas se sugere. E sabe o que é mais irônico? Rascunho este post niilista no verso dum panfleto paroquial. Dêem um oi ao pior cronista do mundo!

O critério de comparação ao qual o carma sempre induz enfraquece a todos que se esquecem da senil nulidade do intervalo disponível pra seus legados, denominado tempo. Num mundo em que a justiça é mero sentimento, vidas são meros murais. Carmas são releases de seu ghost writer. O amanhça, especulação. Pragmática como as três fúrias. Sumário como os momentos que precedem o recobrar da consciência descortinando os embustes condescendentes da felicidade. A resignação não é, sozinha, ópio da mente. Mas misturada a sordidezas racionais, é. Como qualquer droga: só chega até você misturada com outras coisas presumidamente inofensivas. Pra fechar o post sem argumentos superficiais, um desafio: substitua as cinco palavras sublinhadas deste texto sem alterar o sentido do discurso. Ou não. Com isso, esquadrinhe o comportamento de seu carma. Com o meu, talvez já o tenha feito sem perceber...

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Em regozijo ao breu dos sentidos

O mundo precisa de mais artistas. Não pra lotar galerias e prateleiras. Mas pra esvaziar cubículos. Pra enfraquecer regras sociais psiquicamente obnubilantes. Pra incentivar o nomadismo anímico. Pra emocionar com responsabilidade. Porque formigas são groupies de cigarras. Não há muito tempo pra se explorar o essencial. Essencial não é arte, mas o ousar taxar de arte as reminiscências cristalizadas por cores, letras, acordes e ene outras formas. Todos insistem em lutar pra não se tornarem o que mais odeiam, mas persistem em manter certa imagem perante esses mesmos. Quem, em dados momentos, nunca acabou se vendo contraproducente em relação aos fomentos de seu próprio estado de espírito? Agir de forma a inevitavelmente se mergulhar em negação após idades avançadas não se inclui nesse conceito há pouco exposto na frase anterior. Todos têm sua casa no tempo, e a decoram com um esmero que chega não raro a se mostrar um desserviço. Sim, têm razão, metáfora simbolista demais, essa. A questão é que a produção de artistas torna muitas casas, simplesmente, pré-moldadas. Estes se tornam visitantes que sempre dizem o que se quer ouvir. Que não te obrigam a acreditar e considerar nada do que dizem e ainda por cima, com suas utópicas mísseis jactâncias de humor, te impelem a ornamentar o espírito, como a um flautista de Hamelin* expulsando todos os ratos de uma cidade por meio de sua música. É esse um mérito a se dar a artistas, já que rotulá-los de socialmente inúteis é mais prático, mesmo. Inflar a mente de mesmerizações rotineiras e motivações voláteis é muitas vezes em vão. Toda formiga é groupie, afinal. O inverno é mais uma daquelas hierarquias indissociáveis da vida. Não é preciso tantas hierarquias artificiais para seis patas. Nem pras quatro da cigarra, muito menos pras cem das centopéias. Independente do viço pelas responsabilidades -- e pelos excessos inconseqüentes -- que se tenha, é dos artistas a missão de significar arbitrariedades estéticas e de cunhar na coletividade mensagens que os tornem mais, mais adeptos da resolução de se afeitarem a regiões desconhecidas de suas personalidades. Artistas são bandeirantes, pessoas são posseiras culturais. A vontade -- propulsão da inspiração -- traçada pelos artistas é de contornos topográficos: depressões que dão alguma utilidade ao ócio. Que nos distraem e desafiam, fazendo frente a coisas que somos obrigados a levar a sério...

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* A história, baseada num fato provavelmente ocorrido em 1284, se passa em Hamelin, na Alemanha. Uma terrível invasão de ratos assolava a cidade, deixando o povo desesperado. Quando todas as tentativas de acabar com a praga parecem frustradas, surge um personagem estranho e misterioso - um Flautista - que promete livrar Hamelin dos ratos mediante o pagamento de certa soma em dinheiro. Ele cumpre sua promessa, mas quando volta para receber seu pagamento é ridicularizado e enganado pelas autoridades. O Flautista, então, decide vingar-se de Hamelin, tirando da cidade seu bem mais precioso. Mas, com certeza, alguém por cá já deve ter visto desenhos animados dos tempos do Pica-pau que contam essa história, não?

domingo, 30 de abril de 2006

Dinheiro não traz felicidade. Mas não repito essa máxima sob um estado de espírito positivo. Nem pelo hábito de não vincular minha aurea mediocritas a este pedaço de papel semeador de vácuos. Digo por, digo, há muito ter chegado à conclusão de que não faz o menor sentido (querer) ter sucesso -- ou algo que o valha -- em qualquer aspecto da vida. O mundo não vai mudar (só melhorar), ascensões honoríficas e conquistas oníricas não me atraem em nada, e simplesmente nem vontade de obter o que o dinheiro não compra tenho. O máximo que acontece é eu me dar ao trabalho de me enveredar na tarefa ingrata de arranjar inspiração -- de onde nem faço idéia -- pra me encaixar o máximo possível nessa oferta de mão-única chamada satisfação. Chamariam isto de falta de motivação? Lógico, mas não vou me justificar afirmando me satisfazer com pouco, o que não é mentira nem álibi pra justificar a meiocridade cotidiana. Tentarei dizendo que, mesmo quando não se consegue de todo abstrair interesse em si próprio por meio do ego, ainda há a sensação de que há alguns desconhecidos -- ainda não percorrendo pelo pontilhado errante de nossos julgamentos -- de efemérides liadas a si. As pequenas lapidadas que se dá no mármore da escultura alheia, essa imagem sólida si mesmo que ninguém mostra. Imagina se me omito de tal responsa. Argumento ególatra? Ter vontade de acordar depende de coisas tênues assim. Se lapidar como? O escultor é um míope cujas cravadas na pedra bruta alheia são orientadas por quem vê apenas a pedra, não o que ela virá a ser com os golpes de machadinha. Todos são Aleijadinhos...

Apesar de os posts conotarem um Mochileiro negativo, eles na verdade denotam haver pouco a se dizer. O cotidiano não interessa, a maioria das reflexões, também. Porque escrevi este post, mesmo?


Hora dum hiato. Urgente. Por tempo indeterminado, do BR o Mochileiro some. Para que a decrescente qualidade dos textos não fique tão exposta assim...

terça-feira, 25 de abril de 2006

Não dá...

Nada mais adolescente do que ficar se perguntando sobre o futuro. Dessa fase não sentirei muita falta. Até porque sentir falta parece se tratar de um novo privilégio a ser descoberto aos poucos com a idade. Aquele papo new age de se encontrar sabedoria vivendo com pouco parece ganhar estranha validade. Estranha porque não se vive com pouco. Ninguém a seu redor é monge. Muito que parece pouco continua sendo muito, lógico. Não no tocante a tempo. E a outras coisas menores, talvez. Tergiverse (palavrinha feia de dar dó, essa): a indiferença transforma o muito em pouco, ou exerce perante este sua pior função, a de nulidade? Outro questionamento: ao ver-se os dias esfarelando aos poucos o muito passando aos poucos a aparentar pouco, onde se chega com isso? A um punhado de migalhas e cinzas se resume qualquer aspiração, esta por natureza muito, até o fim -- de vários meios nem sempre dotados de justificativa --, pouco? Fazer e não fazer, ser e não ser, ter e não ter: qual a diferença? O que se é erguido antes que a Providência venha a tudo transformar em migalhas? É a trilha não percorrida pelo Mochileiro -- restando-lhe com isso as paisagens ermas -- que o perece aos poucos...

Não sei o que tem se sucedido com os servidores do Blogger, mas esse fim-de-semana estava impossível postar. Tendo em vista a fase de inanição verborrágica do BR, isso não é bom sinal. Pessimismo à parte, tava com saudades do meu cafofo verborrágico virtual. O BR é meu hobby incondicional...

sábado, 8 de abril de 2006

Montanha-russa

A inércia em queda vertiginosa.
O suspiro que o peito insufla sem vontade. Os raspões cromáticos das leis da Física.
Os sentidos passeando descompromissadamente. A indigente responsabilidade pela própria aflição. O mundo escorrendo por um funil imaginário.
A fruição de detalhes que não flui mais com tanta turbulência faiscando pelos trilhos. O percurso cientemente nauseabundo. O brusco solavanco. Os próximos da fila.

sábado, 1 de abril de 2006

Sem mais para o momento

Nada mais faz sentido. Há muito. Nem ir embora, ou buscar evasões, dá mais vontade. Não é à toa que o século em que nasci tratou de assassinar o Romantismo à queima-roupa, com a warm gun que a modernidade chama de happiness. O Mochileiro é, literalmente, frustrado. Sua mais desejada catarse, a de cair no mundo sem rumo, é mera variação dum subjetivismo, duma individualidade isolada, por natureza falida, no claustro duma existência aparentemente já traçada. Os anos podem ser difíceis sem boas lembranças. Eles se tornam mais difíceis à medida em que as lembranças que supostamente podem ser categorizadas como boas indiferentemente começam a ser categorizadas como meras reminiscências que sequer parecem mais merecer importância. Entendam: novas boas lembranças não mais se consolidam convictamente por conta da ausência empírica de lembranças boas. O presente vai deixar saudade, mas não a certeza de que o que valeu a pena valeu de alguma coisa. Nem o que vale a pena parece poder se gabar de ter um peso significante numa índole que se consome não com a idade, mas com a exaustiva, prolongada ilusão de tempo que uma vida tediosa, previsível e com brechas lamentáveis proporciona. A bagagem do Mochileiro é temporal. Esta nunca é maior do que se pode carregar, como é facilmente interpretável em dizeres messiânicos de livros sagrados, mas quando as dubiedades se reduzem ao pó da nulidade lógica, todo o sentido elaborado por evasões se vai. Porres, evasões, óbitos, todos eles têm uma duração. Pra quê? Nada vai ser diferente. Queime os volumes de seu filósofo existencialista favorito e vai pro inferno se você discorda do que digo. O Mochileiro é tão estrangeiro assim? O sobrenome do Mochileiro seria Meursalt?

Ter objetivos e hierarquias é catártico? Cada vez mais, me parece que sim. E quando eles isso deixam de ser? Aí é como o Mochileiro atualmente se encontra. Faz tempo que ele perdeu o sentido da vida, mas ele parece se lembrar vagamente duma força da natureza estranhamente vangloriada, e que apesar da reverenciação a qual lhe é dedicada, não possui representantes monoteístas ou politeístas. Os idiotas costumam chamá-lo de amor. Os idiotas nele e com ele se autodestróem. Realmente, a única coisa que traz felicidade -- e isso, mesmo gente como o Mochileiro, sem sentido há tempos e ignorante do porquê ainda perder tempo sendo -- é a destruição. Recíproca, voluntária, ou não. O mundo seria praticamente impossível de se arrebanhar se ensinassem isso nas escolas. "Olhem, crianças: sua vida não vale nada. Por mais que vocês tenham sucesso em suas empresas, vocês acabarão virando adubo. Adotem, como único regime político e ideológico e filosofia de vida, o efeito imbecilizante do amor, e brinquem de ser felizes nesse meio-tempo, nesse cínico hiato psíquico da natureza. Mas evitem o hedonismo inconseqüente: os neurônios estão na cabeça de cima, não na de baixo!" Literalmente, se derrubariam muito mais reis assim. Mas como as pessoas teimam em procurar chifre em cabeça de cavalo, atribuindo o sentido de suas vidas cretinas a seus sistemas teológicos e sócio-culturais, talvez apenas um dos sexos agüentaria viver em imprevisíveis condições. Qual deles? Teria um deles predominado durante a esmagadora maioria da história evolutiva, social, histórica e cultural? Faça suas aposta e guarde pra si a resposta.

April's fool: je reste le même, n'oubliez pas ça...

domingo, 19 de março de 2006

A índole dos homens descasca dia após dia. Perece de aspirações e gangrena com resignações parasitas. O mordaz e o descontraído colaboram nisso, mas não são os únicos. Correspondências impossíveis nos iludem cada vez mais incisivamente. Em vários âmbitos. Inclusive entre as sem combinação alguma; não raro se buscam as discrepâncias pra se confortar da ausência das correspondências. Viver se trata dum estranho otimismo. Qual é o último sarcasmo divino, mesmo? Conhecer sua ignorância ou ignorar seu conhecimento? Ignorância de quê? Conhecimento de quê? O estranho otimismo ainda nos faz dar ouvidos a nossos próprios questionamentos...

quarta-feira, 15 de março de 2006

Esboços silogistas

_ Todos os caminhos levam a Roma. Se você tiver boca, é claro.
_ Se a filosofia é o mito da caverna, a ciência é a caverna do mito?
_ Deus põe a mão por baixo para proteger. É por isso que escolhas impossíveis raramente envolvem reciprocamente a malandragem do pecado.
_ Possibilidade impossível e regular irregularidade: haja teoria pra tal caos fake...

domingo, 12 de março de 2006

Nada se diz, nada se desdiz, tudo se repete...

Citações são o aristocrático no pensamento coletivo, que elitiza a individualidade e banaliza a coletividade. Comecemos com uma linha de raciocínio pra isso exemplificar. Dizia Sócrates que o ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem seja surdo. Complementado pelo grande Lorde Henry Wotton, ao qual o homem sente atração pelos olhos e a mulher, pelos ouvidos. Ou mesmo sua mais prioritária: Quando uma mulher se casa de novo é porque detestava seu marido. Quando um homem se torna a casar, é porque adorava sua primeira mulher. As mulheres tentam a sorte; os homens arriscam a sua. Contrabalançado pela incisiva verdade proferida pela Madame de Staël, ao afirmar que o desejo do homem é pela mulher, mas o desejo da mulher é pelo desejo do homem. Há momentos em que cessões se confundem com tanta arbitrariedade e beleza que ideais de índole acabam se tornando a prosódia prosopopéica de onipresente lirismo individual. O ultrarromântico Byron, num daqueles casos em que o ultra do romântico parece ser meramente arquetípico, e não excessivo, alicerça tudo o que até agora foi citado afirmando que na vida do homem, o amor é uma coisa à parte, enquanto que na vida da mulher, é toda a vida. Gurumayi Chidvilasananda (guru indiana) já catequisava que, para se tornar uma esposa melhor, a mulher não deve tentar fazer do marido um esposo melhor. Uma das tragédias da vida inserida no cinismo, novamente, de Oscar Wilde. "Existem apenas duas tragédias: uma é não conseguir o que se quer, a outra é conseguir." Pra fechar a tessitura de citações, torno minhas as palavras de Roberto Freire: quem começa a entender o Amor, a explicá-lo, a qualificá-lo, e quantificá-lo, já não está amando. Como boa parte das coisas que desarolamos nessa vida besta, isso também fazemos sem perceber, e apenas assim acabamos sendo capaz de produzir e demarcar algo num destino curto demais pra se conceber planejamento.

sábado, 11 de março de 2006

Lerolero futebol clube

Tristes tempos esses em que ouvir música se tornou um hábito de idolatria indumentária semelhante ao observado nos torcedores mais fanáticos. Cada um considera um dado gênero musical como segunda divisão auditiva: os moderninhos consideram tudo o que toda nas rádios; a geração MTV, tudo o que não toca em seu canalzinho medíocre; os chatos, todos que se sujeitam a pagar jabá pro Faustão tocar; os críticos de tudo (me incluo nesse), tudo, e por aí vai. Hoje em dia poucos jovens ficam a se gabar dos feitos heróicos de outrora de seu time do coração; preferem é adotar certas bandas como seus porta-vozes, nesse campo sem linha de fundo que é o gosto alheio. Se sempre evntei apontar um time favorito pra evitar bairrismos futebolísticos, com música nunca foi diferente. Pra mim, música não é insígnia (óbvio que pensara o contrário na adolescência, quando subjugava todos que ouviam algo díspare ao que acostumava colocar em meu discman, como se houvesse alguma verdade edificante embutida em acordes e domovojs), nem ideologia, muito menos uma competição. Tudo bem que a profusão de músicas que detestamos nos incita a uma induzido senso de competição proveniente do desprezo auditivo xiita, mas música é mera abstração de beleza -- uma delas, aliás -- dos homens. Algo em que a bola acaba se tornando também, mas a vantagem é que o futebol não invade seus ouvidos como a bandeirantes ensandecidos, como a música faz; pro futebol, os barões das mídias acabam preferindo fazer isso majoritariamente com seu campo de visão. Música, poesia auditiva, alucinógeno visual e formigante olfativo: tudo menos ponto de referência cultural. Música que chega aos seus ouvidos,como na literatura, trata-se sempre de mero resquício elitista de épocas passadas ou presentes, e só. Se vangloriar de resquícios seria ufanismo cultural infundado, como muita coisa no conceito em si de cultura que abraçamos...

sexta-feira, 10 de março de 2006

R$1,60 já é roubo; redução já

O vigor patético de jovens que brincam de mudar o mundo lutando por causas natimortas é admirável. Na aula de hoje, enquanto matava o tempo no baralho, dois impúberes sobem num ímpeto a rampa do bloco, nos avisa da passeata que haveria na avenida em poucos minutos, onde "fechariam os dois sentidos para se fazerem ouvidos." Tudo bem que o máximo que conseguiram fechar foi a calçada, mas logo chego lá. Partem direto pra coordenação, realmente achando que encontrariam alguém (à noite, ainda por cima). Isso, num curso de graduação, de humanas ainda por cima, é ridículo: o homem invisível é nosso coordenador e não sabemos. Ao receber em mãos uma cópia duma prova ferrada que fizemos na terça, trato de guardá-la e avisar a uma quase ex-caloura (uma baixinha, de preto no branco listrado, cabelo escorrido e óculos típicos de websedigner, publicitário emergente e moderninhos em geral) do conteúdo que tenho em mãos, para futuras consultas.

_ Procure-nos no ano que vem.
_ Porra, corrompendo a novata?
_ Corrompendo? Mas foi o Bilac aqui quem m repassou a informação sigilosa...
_ Não se esquive assim tão descaradamente! Você é cúmplice, com uma cópia do escorpião na pasta.
_ Peraí, mas você não acabou de me oferecer isso aqui, não?
_ Sou inocente, coagido, juro.
_ Te pegamos, cara.
_ Mas gente, ela ainda acredita que aprenderá alguma coisa aqui nesse antro de pseudos. Vamos prepará-la aos poucos pra realidade.
_ Sei. De quem você copiou essa citação pedante?
_ Do meu caderninho de citações. Procurei um filósofo alemão qualquer, aleatoriamente, e decorei pra fazer bonito ao tentar impressionar as novatas...


Pegara meu material há um bom tempo a essa hora, prevendo a farofa colateral de incidentes assim, e desço pouco depois. Mato aula do enfadonho Danilo (de voz tão lenta que os covers produzidos pelo Omega até vertiam secreções aquosas dos olhos de tanto rir; imagina ouvir Sociedade alternativa na versão voz soprano grave dele. Admito que sou partidário da idéia de se organizar um videokê com versões danilescas de algumas músicas) e dou rápida passada na avenida conferir como andam as manifestações pouco manifestas, por assim dizer. Três montinhos de palha em cima do piche morno da noite, umas três dúzias, no máximo, de desocupados na manifestação, policiais, caminhão dos bombeiros (ironia mordaz face às fogueirinhas fajutas no meio da avenida) e duas escopetas fantasiando a hora em que afundariam os miolos de alguém com chumbo. Depois do esperado chega-pra-lá das autoridades, descem a avenida e -- pasmem -- se resignam a voltar a entrar no campus. Simplesmente deplorável, daqueles eventos que minam qualquer suposta dignidade de DCEs e comitês inteiros. Não chegou nem perto de ser tão divertido quanto as manifestações internacionais, com gente lambendo o chão pra chamar a atenção enquanto a patrulha de choque desce o cassetete, ou mesmo alguém tirando a roupa, ateando fogo ao próprio corpo; nem uma mísera bombinha de gás lacrimogênio rolou. Nas universidades federais de hoje sempre, até as mobilizações estão falidas...

quinta-feira, 9 de março de 2006

Drops (II)

_ Há gosto pra tudo. E isso toma proporções inimagináveis -- incontroláveis, diria -- no universo feminino. Não fosse isso, os feios não se procriariam tão rapidamente...
_ É como se elas usassem a tendência delas de deixar a estética pra segundo plano a favor delas mesmas, contrabalançando com trejeitos de mandonas e fácil cessão a paparicos materiais.
_ Os diamantes são pra sempre, o resto não...

_ Tenha um mínimo de simancol, droga!
_ Isso que vocês consideram um ato de constrangimento é mera amostra de minha espontaneidade.
_ Pagar mico nada tem a ver com espontaneidade. É uma questão psico-sócio-estatítica!
_ Sei...

_ O pecado é o placebo da humanidade.
_ Acordou com o pé esquerdo hoje? Dizem que o salário do pecado é a morte...
_ Nem pecado altruísta temos hoje em dia...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Aurea mediocritas despedaçada

Me lembrei daquele filme medíocre do Santoro ao escrever este título. Talvez também seja meu abril que assim esteja, mas isso é outra história. Fato é que minha AM não é perfeitamente do jeito que gostaria, mas é satisfatória, por assim dizer. O conforto trazido por ela tranqüiliza a um espírito orgulhoso e perfeccionista, ávido por uma paz de espírito que nunca se entende com o tédio. Mas as eventuais quebras da AM são barulhentas: coisas que ninguém ouve, pelo fato de outrem sempre insistirem apenas em ouvir o que bem lhes aprouverem. A evidência autêntica de si mesmo, sem AM pra tapar buraco ou evitar atritos. A insegurança de reprovação de um inofensivo modus essendi, a conivência e negligência perante os caprichos de personalidade. Raramente pede-se de mais, mas sempre atende-se de menos. Egoísmo é não se colocar no lugar de ninguém, atolado em seu próprio lugar-comum, que não é sinônimo de AM, infelizmente. Fazer o quê: mesmo que fossem, não existem sinônimos perfeitos. Campos semânticos sempre se entrelaçam, mas nem sempre por osmose. E a gramática corrobora esta assertiva.

Elementos cotidianos facilmente chacoalham a AM. Com a quebra desta, razões para se considerar a insuportabilidade nossa de cada dia aparecem. E a alheia também, ora. O que se quer cá expor é que é comprometedor se considerar entrelaçado a um espírito diverso. Que nem sempre o que está dentro e fora da AM (adivinha o quê...) trata-se de escolhas. Lutar eventualmente contra a própria sorte é uma verdade que adiciona aventura ao espírito linear do Mochileiro. E de todos os mochileiros do mundo, lógico. Isso significa pôr em risco a AM como se se fizesse a um vaso ruim de quebrar. A menos que seja feito de ferro, todo vaso quebra. O temperamento lapida tal vaso. O vaso lapida o ambiente. O ambiente... é, não há designers para ambientes assim. Nem sempre se está cansado demais para exercer posturas fixas de manifestação pessoal. Cada vez mais o Mochileiro se distancia da aurea e se contenta com a mediocritas. Deixa de ter graça exercer-se como se é, ou mesmo como tenta-se ser. Não é o tipo de mantimento que se pode carregar atrás das costas. Se exercer apenas por meio de colisões não pode ser a única forma de coexistir? Seria a AM a forma mais fácil e condescendente de se contentar?

"Seu orgulho ainda vai te destruir!", ouvi dia desses. Ouvi também a descrição dum um fidedigno sonho sobre uma pessoa que representa o que poderia ter sido mas não foi. A reprovação do que não foi, o acontecer que não aconteceu mas acabou estocado em sonho alheio, arquivado pela imaginação dessa salada mental de Morfeu. Não sei se será temporária essa ambientação em que não se vive, se coleciona os dias. Se tivesse ao menos curingas na manga, vai saber. Curingas estão por toda parte, mas as cartas de efeito para se dar alguma opção ao curinga são mais difíceis de se achar. Desígnios da razão são esperados que percam a relevância à medida que a lei de oferta e procura de conquistas se amplia, mas os desígnios da emoção são no mínimo estranhos. Imprevisíveis, transigem o mundo com regozijo desconcertante e parecem não ceder a conivências da índole e da razão juntas. Se recolher a seu canto não é o suficiente para se ignorar os desígnios emocionais. Não se esquece, nem se ignora, mas se coexiste no desconhecido palpitante não tão psicológico assim. Ser feliz é um jogo de azar, e a AM é mero curinga? O Mochileiro só faz perguntas retóricas, portanto contente-se com o fim deste post.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Drops

_ Nenhum homem presta!
_ Tem razão! Só eu sou fiel...

_ E se eu pedisse um aumento?
_ Sabe as possibilidades de você levar um pé?
_ Uma possibilidade impossível, realmente.

_ Só tenho mais vinta anos de vida.
_ Não diga besteira. Sua família é propensa a superar a média nacional de longevidade. Olhe sua mãe.
_ Sei não...
_ Era só o que me faltava. Você tem prazo de validade, é?

_ Deixa eu pegar.
_ Calma, cara: ele não é um saco de arroz! [o outro está carregando o bebê virado pra baixo]
_ Tá me estranhando, é? Já pratiquei o suficiente com três lá em casa. Isso aqui é pra evitar cólica...

_ Adorava caminhar na praia, nas férias.
_ Cara, você é muito branco! Olha só essa pele! Devia se torrar todo.
_ Cale-se! Você é tão branca que isso aí mais parece um exoesqueleto!
_ Queimava muito as panturrilhas?
_ Nos primeiros dias, sim. Não podia agachar...
_ Nossa, imagino a cena: você gemendo toda vez que precisasse se abaixar.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

17o. Concurso maldito
Cosmogonia


Livros sagrados são textos milenares de auto-ajuda engenhosamente utilizados por líderes religiosos para perpetuarem seu poder social sobre as massas. Seriam estes rascunhos cosmogônicos ou versões fabulescas destes? Sim, me sustento no inconsciente coletivo de Jung. Simbolismos são álibis do que o homem desconhece, assim como o misticismo. Hermetismo, alquimia e outras formas de conhecimento cifradas evidenciam como o homem possui o conhecimento necessário pra evoluir infinitamente, mas não o psicológico e o empírico sócio-histórico pra tornar isso sustentável. O inconsciente coletivo é um ábaco divino, embora os ateus prefiram a isenção de culpa cristã e ode absoluto à sagacidade do pensamento linear de ciências e filõsofos de cabeceira. Quando se pensa que os comunistas destruíram mais de 90% das igrejas russas em nome da destruição da instituição tachada como o "ópio do povo", observa-se que o tráfico do ópio apenas mudou de mãos à época: dos religiosos passou pros políticos! Quem assistiu O círculo do poder sabe o que quero dizer; Stalin era tomado por Deus por muitos. O conceito de entidade superior, visto sob essa elasticidade aplicada a um homem, torna difícil conceber que a criação do universo foi feita à imagem e semelhança de alguém; implicaria se afirmar que o mundo como o conhecemos implica no reflexo duma personalidade matriz. E talvez as coisas do mundo não passem disso: um conluio de implicações meramente quânticas (coisas que são e não são ao mesmo tempo, olha que viagem) cujos fenômenos nos induzam a crer em caprichos de entidades espirituais superiores. Esse papo de espírito se trata meramente de faculdades psíquicas, nada a ver com os romanceados relatos de Zilba e companhia. A espontaneidade de conhecimento produzido por gênios como Hermes, não é novidade, sofreram ridículo preconceito com o conceito emergente de ciência da Idade Média pra frente. Um retrocesso perante os orientais que ainda relutamos em perceber. A cosmogonia não foi feita pra ser investigada pela ciência, com certeza. Mas meu interesse pelo assunto se extinguiu a partir do momento em que a carência de conhecimento de minha humanidade superou meu interesse pelas diretrizes nebulosas do universo. Não é algo para nosso conhecimento por ora; melhor se descobrir antes de se estudar sobre um mundo ainda muito preso a simbolismos e mitologias. Meu desdém é infundamentado, mas é fato que a humanidade insiste em estudar coisas fora de hora. Como criança querendo aprender a escrever antes de ler, possivelmente. É hora de reaprendermos como funcionava a mentalidade na Antigüidade Clássica; só assim esses conhecimentos começarão a se tornar acessíveis. Menos dissipações empíricas de séculos de intercâmbio cultural, mais centrar em questões intrínsecas a nós e ao universo. Vai entender a cosmogonia...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Mania por papel

Sob esse artefato de celulose é que a maioria de minhas neuras são regidas. Detesto papel dobrado, detesto quem rabisca ao telefone e detesto os hediondos desperdícios de celulose. Não que eu seja um ecochato, mas ao conceber o poder de ene dimensões de uma folha de papel, e como a mesquinheza da maioria das funções às quais ao papel é atribuído é demais comum, uma inquietação me arrebata. Quando pequeno, eu e meus universos com personagens maneiristas de quadrinhos éramos sedentos por folhas. Poucas mães não se descabelariam com a facilidade com que papel se acumula, e em tenra idade não era diferente comigo. Em pequeno, criava personagens e deenhos. Em grande, criava códigos, alfabetos, linguagens, e as formas mais absurdas de comprimir informação. A sina por economia celulósica era tão grande que parei de comprar papel em 2000; desde então, nunca mais comprei um pedacinho que fosse. Passei a reaproveitar todas as folhas brancas que sobravam dos cadernos durante os anos letivos, assim como reutilizar várias capas-duras recauchutando-as com sobras de cadernos anteriores, quando não utilizar avulso os fechos de fichário. Isso quando o tradicional hábito de copiar em verso de apostila não impera. A idéia de pensar que estou copiando coisas já escritas me traz repúdio. O papel me bloqueia. Deve ser por isso que só comecei a criar gosto pra escrever quando abri um blog...
Os idiotas exercem desmedidamente o orgulho

Um dos incidentes mais engraçados dessas férias ocorreu bem na primeira quinzena fora de casa. Voltava eu pro village quando, sorridente e pateticamente confiante, o primo irritante chega com as novas, ao sair do quarto:

_ Acabei de fazer uma aposta com He-man. Se passar os próximos quinze dias, ou seja, até voltarmos pra casa, sem comer um doce que seja, ganho o tênis e boné de marca, e o celular dele!

É lógico que He-man e meu outro primo reviraram o armário pra porem termo aos doces que ele escondera antes da aposta. No dia seguinte, fomos à Barra. He-man fez questão de ficar ao lado dele o tempo todo, pra iniciar o terrorismo psicológico. Ao sair do outro carro, não parava mais de debochar do imbecil: ele abrira o papel de uma balinha e quase o encostava à língua. Naquele momento, a pressão psicológica se iniciou: nenhuma sorte de doce valia, nada! Açúcares, balas, bolos, sucos, refrigerantes, absolutamente nada! Um garoto de dez anos ficar metade das férias bebendo tudo com adoçante foi uma das coisas mais tristes que eu já vi. Mas como a maioria das coisas mais tristes que eu já vi foram comigo, pouco estou me lixando pra desespero alheio. Os dias se passavam, e as cenas risíveis aumentavam. Durante um almoço, He-man, com um copo de regrigerante, procurava um lugar para se sentar. Estranhando o perfurar silencioso que apenas os olhares fixos têm, olha para trás: o primo olhava pro copo dele de forma quase hipnótica! Seguia o objeto com o globo ocular como se fosse o Santo Graal. Houve dia em que He-man o permitia ingerir algum açúcar ao menos no café da manhã, mas ele bravamente resistia, recusando a tentadora proposta. Não houve quem faltasse pra lhe alertar que He-man era uma víbora ególatra e mesquinha o suficiente prea jamais cumprir a aposta, mas não quis ouvir. O próprio He-man me confessava:

_ Cara, é absurdo! Eu só debocho da cara dele, só o insulto, só o humilho, e ele continua achando de verdade que darei meu tênis pra ele!

Numa ocasião, saímos pra comprar bebida e carne. Na falta de açougue, foi só bebida, mesmo. O primo, só no suco com adoçante. Compráramos uma suculenta caixa de Bis pra depois da porção gigante de camarão no jardim. Enquanto ele assistia tevê, se mordendo por ter de permanecer impotente face à tentadora caixa dum azul que devia parecer celeste pr'aquele momento, abrimos a caixa. He-man, bem ao pé da orelha, esboça devorar buma bocada só o seu, mas lambuza o bombom lentamente sobre os lábios dele, e impõe:

_ Se lamber, perde a aposta! É melhor ir ao banheiro e lavar isso aí, viu?

Cara, como ri nesse dia. A aflição do primo era tamanha que He-man nem precisava mais estar por perto pra aura de perseguição dominá-lo. Passava longe de qualquer garrafa pet, se recusava a entrar nos cômodos com alguém comendo doces e tudo o mais, ma sempre tinha sua pança protuberante pra lembrá-lo de que aquilo parecia não passar de mera provação infundada. Bufês inteiros o mantiveram irredutível, mas quanto mais o dia de irmos embora chegava, mas He-man percebia que perderia a aposta. Então, pra se divertir um pouco, ele, um dia o encontra dormindo no sofá da sala. Não pensa duas vezes: pega um pote de açúcar e despeja lentamente alguns grãos. Tira foto e espera. Percebendo seu pouco efetivo ato, pega um pote de mel e derrama um pouco sob os lábios dele, e espera. Ele acaba lambendo, ainda dormindo. E faz questão de pegar a câmera pra tirar foto daquele lindo momento. Lógico que todos encararam a prova irrefutável, registrada em câmera digital, como mero engodo cínico e trapaceiro da parte do He-man, mas ele se derramava tanto de rir que pouco se lixava pra isso. Houve até momentos em que temíamos pela baixa na taxa de glicose no sangue do gordinho, mas isso era um mero detalhe; qualquer agulhada em farmácia resolveria aquilo. O óbvio, ao voltarmos pra casa, aconteceu: fizemos todo o trajeto de volta e nada da aposta ser cunmprida! Ele tinha tanto medo de perder a aposta na última hora que nem no avião se aproximava de He-man. O que foi suficiente pra pegarmos nossas malas, irmos pra casa, e o assunto morrer. Foi então que percebi como ele é sádico. E como os ingênuos são as pessoas mais patéticas do mundo. Teve um dia que até sugeri que aumentassem a aposta, incluindo o veto a massas, mas seria sacanagem demais: seria mais fácil meter logo uma bala na cabeça do gordinho!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Aceita uma água-de-coco?

Enrolei pra caramba em contar como foram as férias deste ano. Imagina, fazia já seis anos que de casa não saía. Pois bem, como destino para este ano, escolhi o estado mais hedonista do Brasil. Local onde o povo raciocina lentamente para tudo, exceto para as mesquinhezas da carne. Não raro, se encontram pelas ruas de lá casais apaixonados que, em vez de comportadas mãos dadas e periódicos beijos, dispensam todas as cerimônias e partem é pra língua mesmo que ninguém é de ferro. Isso quando, ao perambular pelas calçadas, não se encontrar exemplares locais se encoxando contra a parede do primeiro quiosque que encontrarem pela frente, naquele inusitado empurra-empurra de lascívia concentrada. O dia em que parti foi uma Quinta. Melhor, uma madrugada de Quinta. Chuvosa, que raro. Diazinho que minha conta bancária não esquecerá tão cedo. Fazendo escala no pretensamente modernoso aeroporto de Brasília -- que parecia mais é ter saído dum episódios d'Os Jetsons, com aquelas janelas redondas de vidro temperado, cores beges e amplos espaços --, em pouco mais de uma hora depois subíamos ao próximo avião que nos deixaria em definitivo em Salvador. Não sem, de relance, encontrar o Ministro da Cultura fazendo check-in (me deu uma vontade de mandá-lo tomar no cu, mas lembrei na hora que sou razoável demais pra isso), e o Presidente atrasando nosso vôo em meia hora por causa da construção da segunda pista. Chegados em solo baiano, após o ônibus nos levar à casa em que passaríamos a maior parte do tempo, deixamos as malas num outro imóvel a poucos metros de lá, que é onde ficaria em definitivo. Era um village, como os imóveis lá são chamados. Enfim, revia o mar. Apesar do local de area afrodisíacos, não esperava muito dessas férias. E com razão, talvez.


_ Essa asa tá me deixando nervoso! Olha como sacoleja a fuselagem!
_ Vai tomar banho, Mochileiro!
_ Cara, adoro mulher de cabelo preso...
_ Desconhecia essa sua tara por aeromoças.


Os dias seguintes tiveram pouca variação: o itinerário casa-praia-casa era o suficiente por ora. Três dias depois, chegava o natal. Igualmente de pouca variação. Exceto por uma moreninha e sua amiga, às quais fui introduzido pela anfitriã, que afirmou às meninas que eu fazia computação. Para a moça, eu sou um hacker em potencial, veja só. Para camuflar um pouco o acanhamento do momento, pouco antes me dirigira ao refrigerador pra simular pegar alguma coisa, pra depois me deslocar até elas, mais preparado psicologicamente para aqueles segundos que parecem durar minutos às vezes. Assim que as encontrei a sós, tratei de socializar, mas quando os olhos verdes pretendidos são tímidos como uma tábua, apesar da sagaz personalidade, pouco havia a se fazer. Mas fiz. E eis a tragédia de qualquer tímido: ser barrado libidinosamente por alguém ainda mais tímido. Os dias passavam e só restava deixá-las pra lá. Como ficava a maior parte do tempo na casa, quando não na praia ou no village, acabo ouvindo d'algumas pessoas a intenção de ir-se conhecer o Centro Histórico. Me incluo nessa após ser convidado. Meia dúzia de aborrescentes, eu e uma tiazona entendida do assunto: Mestrado em História. Trajes típicos de professora de faculdade: colar indígena gigante no peito, cabelo curto, roupas bem simples, New balance no pé, uma pontada de academês em suas discorrências... Não economizei nas perguntas, nem em acompanhar os comentários dela perante as igrejas e casarões seculares do Pelourinho. Tudo bem que, na primeira vez em que batemos sola no Centro Histórico, pegamos uma linha de ônibus que levou mais de duas horas pra chegar até onde queríamos, mas esse foi um erro evitado no futuro. Subindo e descendo do elevador da Penha, boa parte do início dos tempos coloniais do Brasil passa por meus olhos.


_ Os azulejos devem ter sido a maior descoberta científica já feita pelos portugueses! Tudo que eles fizeram envolvia usá-los.
_ Do povo que inventou o fado, muita coisa não se pode esperar...
_ Ser mais pobre que a Grécia deve ser uma humilhação grande pra eles.


Dias depois, o réveillon chega. Faltou bebida e sobrou pulinhos pra Iemanjá nas ondas à meia-noite. O que eu pedi? Óbvio, óbvio. Os fogos foram estourados tão perto da casa que pedaços de papelão não raro me atingiam. Nem papel picado sujaria tanto o gramado. Para os dias seguintes, muitas gratificantes sestas na rede da casa (pouco havia a se fazer no village), algumas passagens pelos shoppings do local, inclusive um a céu aberto, pertinho da orla salvadorenha (era isso ou ir aos shows, tão freqüentes que são chamados de "ensaios" pelos locais; o que será que eles chamam de show, afinal?). Sempre havia local pra ir: praia do forte, buraco da velha, Interlagos, day-use na Costa do Sauípe... esse dia do day-use em especial foi comédia demais: típico caso de pobre se metendo em muquifo de rico morde-fronha. Chegamos pela manhã, demos entrada na recepção e fomos às piscinas do resort. Enquanto o povo perdia tempo no buraco d'água azulejado no chão, caminhava pelas passagens entre as pontes do lago que mais parecia um pântano dada a profusão de vitórias-régias. Via tudo que gente rica gosta nesses lugares: aulas de dança na praia, instalações nababescas, carrinhos de golfe para maior facilidade ao se circular no local que mais parecia uma cidadela dado o impressionante tamanho... quando um dos desocupados que estava conosco decide alugar um (estava eu, ele e a namorada dele, a Lu e um sobrinho pra pentelhar), conhecemos em poucos minutos boa parte do local.


_ Cara, preste atenção no trajeto! Depois você lubrifica a Suelen! [sim, eles estavam se beijando, e desviando atenção do trajeto]
_ Cale-se!


Passamos pelos campos de golfe, pela tirolesa, pelas pousadas mais à frente, até que o engraçadinho resolve se exibir querendo car um cavalo-de-pau com o fraco motor do carrinho (pasme) num banco de areia perto de um dos campos de golfe (sim, é um desesperado pra chegar aos dezoito anos). O previsível aconteceu: atolou! Eu é que não ia perder tempo empurrando aquela merda, então tratei de procurar, com sucesso, algumas tábuas pra tirar o carrinho de lá. Se esgoelando, ele, o sobrinho e as meninas conseguem tirar o carro sem as tábuas que eu acabara de encontrar (sim, o pé-repado se deu ao trabalho de deixar as meninas ajudá-lo). Com as tábuas, aplicaria a lei do menor esforço e a lei da alavanca, mas os ímpios preferiram a força bruta. Se esgoelaram à toa, óbvio. E ainda ficaram todo o resto do trajeto me rechaçando, fazendo pouco caso da engenhosa solução em minhas mãos que eles dispensara, alegando negligência minha. Foda-se, com molecagem do tipo atolar carrinho de golfe, sou negligente, sim! Experimente beber como um gambá e esperar que eu ajude a levar pra casa em fim de festa. Mais fácil beijar o chão batizado com seus fluidos intestinais do que ter uma mãozinha minha. Enfim, nos dias que se passaram, vi de tudo pelas praias: esquizofrênicos conversando com autoridades marinhas antes do primeiro mergulho; transatlânticos no horizonte; gringo abrindo quiosque sem falar quase nada de português...

_ Se eu fosse você, dispensaria o caranguejo, patrão! Não o recomendo pra intestinos fracos...

Sim, nessa ocasião sacamos perfeitamente o eufemismo pra duvidosa procedência do fruto do mar, e fomos almoçar na casa; no villagem a bóia era sempre no improviso, portanto evitava por lá ficar. Numa ocasião em que estávamos na praia, voltava de uma caminhada e me sentei com o pessoal numa mesa. Pouco depois descubro que um integrante da mesa, entre um pileque e outro, contratara um repentista. Quer algo mais constrangedor que um nordestino cantando metade da sua vida com aquelas rimas rápidas e sincopadas? Devia ter coisa sobre a gente naquela música que nem minha mãe devia saber; por sorte ela não estava conosco nesse dia. Como dispensei sabiamente todos os ensaios, tinha mais é que aproveitar o que acontecia, que não envolvesse ouvir Calypso no ambiente. O que era difícil, uma vez que esta merda tocava nas rádios, nas ruas, nos sons automotivos... praticamente uma seita! Cantos islâmicos pareciam pouco sincopados e entediantes perto da abundância apavorante com que as músicas dessa banda eram tocadas. Mas é melhor eu evitar referências ao Islã antes que venha um chato me torrar a paciência como fizeram com o chargista dinamarquês. Face ao previsível na nightlife soteropolitana, só me restava aproveitar as coisas que aconteciam antes das noitadas, como as peixadas, a ida à Lagoa do Abaeté e ao Farol da Barra, obrigatório, apesar da mais de uma hora de carro até lá que dispendiei. Pra matar a saudade, só LAN mesmo, e mesmo assim nunca encontrava um inútil na web pra trocar as novas; me limitava ao browser, mesmo. Quinze dias antes de ir embora, não agüentava mais a mesmice: tem baiano demais naquela terra! O que pensar dum lugar em que programas como o Biguebróder são entidade estadual culturalmente tombadas? Como o povinho de lá carrega a imensa frustração de ver seus principais clubes rebaixados pra terceira divisão do futebol, só lhes resta torcer pros conterrâneos que topam ficar confinados no reality show global, que pra mim, não passa duma versão televisionada do The Sims. Will Wright devia cobrar seus royalties, numa boa...


_ Esse moleque é mais chato que dar pernil pra banguela!
_ [meia hora de discurso politicamente correto, típico de gente que se acha um exemplo de vida]
_ Ah, tá, em que livro de auto-ajuda você leu isso?
_ Vá à merda, Mochileiro! Espero que ainda se foda bastante, no bom sentido, pra tomar jeito! Você sempre está certo, não é mesmo?
_ Lógico!


Pra piorar, não raro tinha uma turminha farofeira se hospedando ao lado do nosso village, assassinando O Rappa e fazendo aquele churrasco de gato. Quando não eram eles, eram os amigos do espanhol dono do imóvel tocando Beatles e clássicos do blues, do soul e outros ritmos de velho que não sei dizer o nome agora. Tudo no último volume. Mas isso não era pra piorar; até compartilhava de certos gostos musicais. O que é pra escrachar de vez era quando o banheiro entupia e aquele cheiro carinhoso subia pela casa toda. Sem falar das briguinhas dum casal que dividiu o imóvel com a gente, das crianças violentando meus tímpanos com a habitual gritaria por causa de bonecas (não bastasse ser crianças, só tinham meninas), e gente te expulsando da cama pela manhã. Parecia não chegar nunca o dia de ir embora. Quando por fim chega, ao meio dia estou de volta, em terra natal. Todas as mazelas daqui pareciam o máximo ao chegar: a faculdade voltando de greve, o trabalho no Gabinete, a despensa magra, a minha vida medíocre e sem perspectiva social de sempre... dias depois, até tentaram trazer alguns camarões (trazidos como bagagem extra) pros que ficaram saborear um pouco, mas foi algo como Magal fazer cover do Lennon. Percebeu como os camarões saíram naquela tarde, não? Falando do Magal, me lembrei que, enquanto esperava a hora de fazer check-in no aeroporto, passava um programa de entrevistas com ele e Tom Zé juntos. Um evento, como pode-se perceber. Magal e Tom endeusando as Sandras Marias Madalenas da vida, sob as eternamente dúbias discorrências do segundo. Um abominando o academês, o outro parecendo ter saído dum episódio daquele programa de caminhoneiros da Grobo, o Carga pesada, programa cult dos profissionais da estrada. É, a tevê foi uma espécie de último recurso dessas férias, tragicamente falando.


Bonus track: overheard conversations


_ Teve uma vez em que eu tava na casa de Fulano. Ele tinha um cachorro velho, mais de catorze anos de vida, mal conseguia andar. E banguela. Ele sempre sacaneava o cachorro jogando um pedaço de osso ao chegar do açougue. Por instinto, o animal ia lá e tentava roer o osso. Ele chorava frustrado por não conseguir consumir o osso, e a galera caindo de rir do coitado do bicho. Porra, moleque: era maldade, mas era muito engraçado...

_ Sabiam que a Michelle tem um ponto nervoso no pescoço? Toquem nessa pinta e ela se retorce como uma toalha velha.
_ É mesmo? [toca na pinta no pescoço]
_ Aaaaaai!
_ Deixa eu tentar!
_ Aaaaaai!
_ Ah, eu também quero!
_ Aaaaaai!
_ E não é que dá certo? Tenta aí, Vi.
_ Vão pro inferno, todos vocês!
_ Acho que vou dar uma echarpe de presente no aniversário dela...
_ Seria como dar muleta pra aleijado de presente. Sadomasoquista demais.

_ Meus pêsames, Mochileiro. Com um irmão desses, você vai direto pro céu. Sem dar entrada na recepção nem nada: direto pra área VIP!
_ Eu sei...
_ Mas cara, em Campo Grande só tem paulista misturado com paranaense! É trigo entupido de joio, uma cidade assim!
_ Não disse?
_ O bairrismo nunca termina...

_ É, com ela o sistema é bruto! Vai dar pra trás, é?
_ Seria difícil encontrar meu pau em meio a tantas estrias; o coitado poderia ficar entalado no meio de uma delas...
_ Deixa de drama: conheço um motel aqui perto. Ela é de boa família...
_ Pode esquecer. Devia estar fora de mim quando cogitei isso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Essa boneca tem manual, é? E nota fiscal, tem também?

Odeio essa minha propensão a atrair -- e me sentir atraído -- por porra-loucas. Aquele tipo de menina que camufla sua personalidade insegura com comportamento irascível, sempre tenta posar de pseudo-intelectual com comentários pretensiosos, infundamentados e risivelmente vagos, e detentoras de temperamento explosivo o suficiente pra reclamar de tudo e todos. Não que reclamar seja um defeito, mas quando este nobre hábito se direciona em excesso a familiares e pessoas incomodativas, percebe-se que uma paciência irregular destoa qualquer reclamação de qualidade. Que não precisa ser fundamentada, precisa apenas ser sagaz. Como muitas coisas na vida: a lógica, aliada ao argumento bem constituído e a técnicas retóricas, é poderosa, mas seu escopo torna-se ainda maior se houver um falante esprituoso. E sagacidade, sempre. Por vezes, falta certa racionalidade nas porra-loucas, mas isso a gente acaba relevando. A cruz de todo idiota que se cega ao se enamorar: relevar os (d)efeitos, quando o que é preciso é admirá-los; relevar os defeitos do objeto amado é como se se deixasse pra depois uma irritação --, proveniente dos limites sempre existentes de quaisquer paciências --, esperada mas insistentemente negada pela falida empresa do gostar.

Como viúvas-negras, seu visual pseudossubversivo capta com facilidade os sentimentos mais desavisados. Piercings, tatuagens, cabelos com mechas coloridas, peças de roupa que divergem vertiginosamente entre o tradicional e o moderninho, o arsenal é amplo. Antíteses parecem confortá-las. A pressa em ser correspondida, não. E isso justificará sempre os atos impensados, a atitude nula de evitar se colocar no lugar de outras pessoas, no calor da distração delas durante a fuga por causa de alguma coisa que as assusta como a lebres fugindo da alcatéia. Mas é pra isso que o visual reacionário delas -- de cores escuras, gradientes opacos e estampas alternativas de butique -- serve: esconder isso. Esconder isso e buscar uma identidade silogista: vestir-se diferentemente igual para ser diferente, portanto igual (embora seja o cúmulo elas admitirem isso). Se o visual for confundido com uniforme típico de rockeiro de shopping, não tem problema: basta freqüentar as festas mais fubangas possíveis e se entupir de vícios. O tabaco é a chupeta dos frustrados. A pinga também. Sem falar que a excessiva profusão de metais no rosto, por vezes no umbigo, pode acbar funcionando como pára-raios, ou mesmo como ímas para atrair a polaridade oposta do íma daquele pseudohippie imundo e cabeludo da qual elas costumam estar a fim. Muitas tribos indígenas costumam atribuir estética a peitos caídos e pescoços alargados por argolas douradas; as porra-loucas preferem dar essa atribuição aos longos cabelos deles, quando não aos cavanhaques.

Sua forma hiperbólica de reclamar da vida, previsivelmente turbinada pelo temperamento, é patente: todos reclamam de barriga cheia de alguma coisa, mas elas têm Ph.D nesse quesito; várias coisas são projetadas (concepção freudiana, dá licença) por elas. É normal o comportamento arisco das pessoas perante as novas descobertas de si mesmos, mas as porra-loucas forçam a barra. E desenvolvem habilidades avançadas em afastar os cativantes, e manter próximos os incomodativos. Indesejada inversão produzida por uma personalidade calejada por intempéries e mimos gratuitos, e conivente demais pra fazer algo a respeito. É fácil usar saias quando o tacapa acaba por quebrar o nariz de alguém. Seria fácil racionalizar tudo isso querendo crer ser mera questão de maturidade, mas o conceito de facilidde é mera bagagem empírica, portanto ainda espero me foder muito nesse quesito. Se fodendo e não aprendendo, como sempre. Poderiam também dizer se tratar de um subproduto inferior duma sociedade consumista que endeusa a estética, as tais porra-loucas. Pois é, nunca foi fácil se lidar com personalidades ingratas. Agora então que elas se encontram ingratas a ponto de se confundir constantemente com agressividade tão condenada nos homens, sempre usados como pretexto pra sustentar um sufocado argumento ideológico de ascensão social feminina, é bom começar a se questionar se certas impulsividades são passíveis de se atribuir sexo, ou não. Provavelmente, sim, quanto às porra-loucas. Sim, além de machista, sou generalizante. Há!

Já chega: perdi dois posts lá em casa, com o mavioso computador que tenho de usar por lá. Este aqui digito é do serviço mesmo, que é pra acabar com imprevistos. Tomara... ;-)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Espasmos...

Autonomia quanto aos transeuntes que passam pela gente? Quem dera isso ter, mas se empenhar a isso ter é se distrair infundadamente. Seriedade e diversão independem de recíprocas em vários aspectos afetivos, mas tomar para si falhas emocionais alheias acaba acidentalmente acontecendo.

...e alguns aforismos idiotas

A covardia não é exclusivamente masculina.
Pretinho básico deixa de ser básico em dia de casamento.
Acusado não é sinônimo de culpado

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Antes amava com seriedade. Agora, apenas como mera diversão. Talvez como sempre devesse ter sido, ou não. A realidade que sucede espasmos apaixonados, de toda sorte, sempre diz algo diferente. É quando diz a mesma coisa que deve-se preocupar: mas preocupar-se com o quê? Gente como o Mochileiro não encontra resposta. Gente como o Mochileiro não tem laços produzidos por meios independentes, apenas tem aqueles já consagrados -- consagrados sequer por si mesmo, mas pelo mundo, de forma indesejada por terceiros, porque o orgulho também se projeta na extensão da independência de expansão social a que se tem --, aqueles de sempre. Mas gente como o Mochileiro já está acostumada a conviver com tal constatação, se dspreocupando o suficiente e se voltando ao próprio ego. Caminho inverso tão arduamente percorrido. Talvez o mais ingrato da via crucus não seja a ida, mas descobrir-se obrigado a fazer a volta pelo simples fato de que personalidade e destino não têm a mesma velocidade. O pensamento não tem marchas suficientes para acompanhar ritmos tão díspares. A velocidade deste é constante, como dizem na cinemática? É quando os frutos (maduros ou não) da imaginação, na incógnita de quando cairão de seus pomares, desafiam os Newtons e os distraem dos questionamentos necessários a acompanharem a velocidade não da personalidade, nem do destino ou do pensamento, mas sim daquele músculo do lado esquerdo que, por mais que bata como a um pistão, simplesmente não sai do lugar; sua velocidade independe das outras três variáveis ora constantes. Por fim, antes era com seriedade. Como mera diversão por ora. Sempre sem odômetros. A empresa do gostar perde a graça, perdendo o sentido por tabela, quando a velocidade excede o desafio geográfico do trajeto e as possibilidades físicas de locomoção da tríade psíquica das pessoas. Não é à toa que, cada vez mais, o Mochileiro prefira simplesmente se contentar com suas próprias pernas. A demora produzida pelo caminhar pedestre dá um tempo de reflexão que as outras velocidades nem sempre dão. Quando o hiato está presente, a reflexão é quem exercita a ação...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Senhores dos anéis

A união afetiva e a semiexclusão social, conjunção que se convém chamar de casamento, rende certas facetas da comédia social. O buquê da noiva que denuncia as solteiras, os amigos que denunciam a cisão que será feita na vida do casal, a idade dos envolvidos no evento. Como se fosse um vestibular do destino: quem gabaritar as questões provenientes da cerimônia posui altas chances de uma ligação afetiva qualificada. Por outro lado, seria tal cerimônia um luto social (morte do solteiro e nascimento do casado, como numa cerimônia iniciática em que a vida profana é deixada pra trás) ou mero exercício de adivinhação da felicidade? Sim, porque a aura que ronda o tal do casamento é essa: obrigar-se a preencher sua vida com uma relevante companhia, e assim manter o dom humano de continuar. Apesar de, cada vez mais, tal cerimônia se mostrar uma das tradições sociais mais descontinuadas nos últimos anos. Já por mim passaram várias uniões desconstruídas: separações legais com uniões mantidas, motivadas pela manutenção da criação dos filhos (afeição opcional em nome dum dado respeito requerido pelas diretrizes do destino); separação legal com uniões mantidas, mas sem centralização de conquistas (espaços individuais incompatíveis?), e a famosa junção de trapos sem aval legal. Ou seja, casamento deixou de ser hábito e compromisso para se tornar mero título social.

Nunca vou me esquecer do casamento em que fui numa cidadezinha interiorana: a festa após a cerimônia na igreja ocorreu dentro duma olaria! No sereno mesmo, em meio à argila e às pilhas de tijolos e telhas. Ou seja, tornou-se uma espécie de requisito para prestígio social, o tal do casamento (embora muitas vezes torne-se requisito para se legitimar o dom de continuar, mas isso é coisa pro Ratinho e seus testes de DNA na tevê...). Trata-se de um favorável adorno à imagem do indivíduo; não é à toa que políticos raramente se encontram desquitados. Símbolo social de credibilidade e respeito. Não estranharei se um dia o estado conjugal se tornar requisito rigorosamente exigido para admissões em certos lugares, por exemplo. Afinal de contas, é um clube restrito, uma seita de legiões de fóbicos por solidão e imagem social. Os favores prestados pelo casamento à Previdência social, aliás, deviam ser motivos suficientes para casais terem direitos exclusivos. Como uma bonificação pelas exigências impossíveis propostas pelo fatídico título social. Afinal, trata-se duma "solução final" pros esteticamente excluídos. E álibi pra desigualdade social! Sem se falar nas vantagens estatísticas. Ou seja, quanto mais casamentos, menos impostos para as coisas que os casados jamais poderão fazer em teoria. Um golpe de misericórdia do Leão para com os que sabem que passarão o resto da vida tendo de esfacelar suas economias com gastos ingratos. Quase como a prática de se libertar escravos depois dos 60 anos, como feito no século XIX...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Mochileiro frustrado



Já fui apelidado disso (ocasião diversa, fora do contexto cá exposto, mas fazer o que). Apelido emblemático, aliás. Tenho raízes tênues, mas cravá-las em outras Pasárgadas traz um misto de realização com vazio. Algo esperado? Sim, mas o perdurar da síndrome do anjo caído a isso não corresponde. O alicerce invisível do hedonismo poderia condenar a edificação, o sentido da vida (?).

Abraçar a aventura e declinar da rotina é um viver mais acelerado do que o normal? Ou vice-versa? Sei que se tem a vida que não se planejava, provinda dum nascimento não solicitado, com escolhas, sensações e amigos aleatórios demais para se orgulhar do hype de seu destino. Sentir que se vive em círculos independente do local em que se esteja poderia anular essa alcunha minha. E anula por vezes: quem insiste em desdenhar a integridade da essência do que se pensa está se vendando perante quem? A pior venda não é a que priva os sentidos...

Quando há saudade dum destino desejado pelo Mochileiro frustrado, mas abortado pela humanidade alheia, é que se encontra numa trilha sem atalhos ou placas indicativas; é quando o Mochileiro percebe que o local a que se quer chegar é cigano, não está onde se afixa. Por vezes ele vai se deixar acreditar que é onde se afixou que ele se encontra. Mas ao constatar que ele mesmo se tornou um pêndulo cármico que anseia apenas pelo lugar nenhum da universalidade das multidões pelas quais clama por paixão pela inexistente anedota fabulesca do ideal, algo há. Uma chama não é páreo para o sufocante ardor de dada umidade relativa. E é a saudade desse estopim por uma razão inexorável de viver que desnorteia a bússola do Mochileiro frustrado.

A ida e a volta se transcrevem e se psicografam mutuamente. Haja sola pra tal desencontro. Não há tantos desconhecidos assim por aí. Não há razão para fazer a mochila, muito menos para desfazê-la. O mundo não é nossa percepção dele, mas ignorar isto é tanto opcioanal quanto indiferente (ingrato, talvez?): o roteiro de viagem é mero lugar-comum turístico; o caminho é feito com coordenadas indesejadamente limitadas, linhas imaginárias numa escala fora de normas.

Reconheço que o terceiro parágrafo foi uma das viagens mais absurdas da história do BR. Nem eu consigo extrair com exatidão a idéia do que escrevi, às vezes...

domingo, 29 de janeiro de 2006

Mochileiro

_ "Esta história não acabou. Nem que seja apenas pra você, mas não acabou!" Vai fazer quase um ano que ouvi isso.
_ Deu agora uma sensação de irrelevância: não faz mais diferença buscar redenção alguma!
_ Quem cá fala?
_ Respeite a memória do idiota que jaz neste blog.
_ Muito bem...
_ Os anseios se transformaram em, deixe-me ver, em meros ensaios. Estou além de inata carência; pode-se suportar certas coisas. Em finitas quantidades, lógico.
_ E suas andanças, como estão, Mochileiro?
_ Estão como o horizonte que persigo: mera linha imaginária, entre o céu e a terra; pedacinho do vislumbre absoluto suficiente por natureza para se enxergar. Não pretendo enxergar tudo, mas sim abrir os olhos perante a penumbra lacrimejante do crepúsculo e perceber a onipresença de trevas enciclicamente alumiadas. Tudo é amaciado com o tempo, inclusive a picante luminosidade tricoteante em meio às trevas circunstancialmente condenadas, nessa tragédia cotidiana por que se passa. Estou melancolicamente aliviado. Essa é uma constante em todas as vidas, mas não raro obstruída por querências suturadas.
_ E pensar que um mero sinal tipográfico produziu esse amplo feixe de pensamento...
_ Como todo surto de inspiração, meu caro. Se me dá licença, volto a meu caminho, querendo sempre me esquecer. O segredo do destino cobra pedágio, e Caronte terá de esperar dessa vez: trouxe mantimentos suficientes para os próximos dias...

Como prometido no post anterior, a devida apresentação do Mochileiro virá. Não é tão acalorada quanto deveria ser, mas creio que será suficiente ao que o Mochileiro gostaria de ver. Aguardem mais um pouco que está saindo. Ou não...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Notas soltas


Aliteração do quando

Quando o tempo acimenta a saudade
Quando sentir falta é opcional
Quando querer o que se desconhece deixa de ser patente
Quando ser si mesmo implica em se esquecer (quase sempre?)
Quando música é escombro e mágoa é paramédica do mesmo acidente
Quando você é seu orgulho
Quando o orgulho é seu dublê

Quando a diversão alheia incomoda (?)


Normal

Encontrar, em nomes alheios, anagramas para nomes que você quer esquecer, é algo normal? Pergunta retórica, pergunta retórica. E recorrer a supostos apelos divinos para sustentar o orgulho próprio e ter cúmplice absoluto de suas próprias lamúrias? Se recusar a aceitar tentativa alheia que corrobore o fato de que podia ser diferente -- tentativa que não existe por ora, dessa vez, e possivelmente jamais existirá -- é normal ou mero rancor de quem naturalmente ignora o amanhã?

E a saudade perante o desconcerto duma vida não planejada? Esse papo de 'quando a vida der limões faça limonada' é coisa de usineiro, de quitandeiro, de autor de livro de auto-ajuda, ou algo conveniente a se dizer? A expectativa de se cogitar o diferente, para se procurar algum sentido no igual, é normal? Lógico! Mas isso é verdade coletiva que somente é verdadeira na individualidade.

Se conformar com a falta de algo é entender que é em vão se lamentar pela saudade do que nunca se teve? Não é conformismo se se poupa de se sustentar um sonho daninho. Quem diria, a esperança pode ser daninha. Até com ela se precisa de seleção natural. A menos que certos sentimentos de nobreza insistam em sobrepujar essa lógica lógica, às vezes, a esperança é mera testemunha ocular de nossa humanidade, em muitas ocasiões derrotada.


Dois adendos:

Crianças, voltei. Espero que tenham se comportado durante minha ausência. Espero que tenham feito o dever de casa, que tenham olhado pros dois lados da rua antes de chegar à LAN, e que tenham feito algo melhor do que ler o BR nas férias, porque isso aqui, ninguém merece. Nem eu, por vezes. Depois de longos trinta dias de férias em minha odisséia por terras soteropolitanas, tenho o que contar. Mas isso eu faço num outro post. Inclusive detalharei como (tentei) sobreviver à overdose de axé a que o local nefasto me submeteu...

Como informado quase subliminarmente no post de 2 de novembro do ano passado, Sersup foi devidamente assassinado pelo mundo. Dêem as boas vindas ao Mochileiro frustrado. Dissidente errante que se encontra indiferente o suficiente perante si mesmo, niilista num mundo de aparências. Ironia crua e, bem, niilista. Mais tarde adapto a respectiva tag do template do blog para dar o devido funeral a Sersup. Não pensem que o mochileiro surgiu assim do nada. Bastou apenas um momento de reflexão. Uma pausa, um desligamento do marasmo cotidiano, para que se abafasse a auto-compaixão com prognósticos descompromissados. Resumindo: Sersup foi devidamente degolado pelo forasteiro cujo único destino é se esquecer e caminhar o suficiente para que se deixe de levar em consideração os atalhos e sinalizações que tanto nos descaminham. O destino é o mundo tanto à frente de seus olhos quanto de seus pés. A brisa e as cores de efemérides humanas são entorpecentes suficientes para ele, cuja única bagagem é sua consciência, niilista demais pra se ater a toda sorte de psicodelia não-verbal por aí encontrada. Sejam educados, dêem um oi ao Mochileiro frustrado e aguardem ansiosamente ele encontrar LANs por onde passar... para nos informar de seu paradeiro. Se é que ele dará tanta importância pra isso, mesmo... em todo caso, o próximo post será uma introdução formal do Mochileiro pra vocês. Aguardem.

Sersup
* 12.08.2002
+ 01.11.2005