segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Modus essendi?

A solidão enobrece alguma coisa? Ergue-se um templo a que? À vazia contemplação das dependências da sede de tal solidão? Seria o avatar ou o anti-cristo do silêncio? É o desmatamento duma planície carente de cartógrafos. A pedra-bruta do palpável enclausura em cavernas os fiéis a caminho desse santuário da contemplação individual chamado de solidão. Muitos, inchados pelos machucados da pedra-bruta, acusam o templo de adorar uma nuance individual obscura. Vandalizam e profanam o templo, acusando-o de deboche monumental às suas pessoas. Não há profetas para tal templo. A adoração não é externa, e estes ignoram as imagens de tal templo. Mais ou menos como um budista entrando numa igreja católica, cheia de imagens em poses e trejeitos sádicos como cruz e sangue. Não é o tipo de templo construído sob uma repartição acima das nuvens. A solidão, como templo, não passa da poeira que calca as paredes desses brinquedinhos de montar que se convém chamar mundanamente de templos. Ela paira na leveza do ar, e não no peso do concreto na mão do operário.

Seria a solidão o elixir da consciência? Um placebo mental? Um mar de corais se despedaçando com a maré trazida pela incidência solar dum céu inquisidor e mascarado por aveludadas nuvens que funcionariam como a sobrancelhas esboçando sarcasmo existencialista com vapor d'água? Talvez seja uma foto desbotada na gaveta. Sumindo no horizonte. Um fio de Ariadne que se rasga. O aroma duma flor trabalhando na teoria do caos. Imagens duma aquarela fatiando furiosamente 8mm de projeção. Espaço (físico ou não) ao redor de você, buraco negro se alastrando feito facho de combustível flamejando pelo destino, de calor a ponto de se extinguir ao se chegar ao rarefeito ar das alturas de si mesmo.

Simplesmente um grito que não se ouve. Lágrima estancada. Palavra que falta. (Con)tato que, aos mais rudes, fratura as pernas das coisas simples. A solidão não é uma casa de vidro (espelhado, talvez); os ossos de seus freqüentadores é que assim são. Música incidental que ignora instrumentos, funcionário que aposenta vivência, compositor ausente. A solidão emancipa e hierarquiza um Estado em pós-guerra: o ego. Motivo do confronto? Dissidências, conspirações, decisões infelizes. Não importa: a primeira vítima de tal guerra foram seus articuladores. Rara ocasião em que inocentes são poupados? Não: os únicos inocentes são tais articuladores.


É melhor eu pensar duas vezes antes de voltar a escrever outro post ouvindo música...

domingo, 4 de dezembro de 2005

Medo de ser feliz ou feliz em ter medo? Contravenções da introspecção

Três verdades sobre a introspecção. Primeira: a esperança vale ouro para qualquer tímido; muitas vezes, abrir mão dela pode se tratar de auto-preservação face a uma possível desilusão que, em contrapartida, lhe viola ironicamente a alma: o destino é egoísta e só se sustenta com expectativas e especulações. Segunda: aos tímidos, pequenos gestos têm a relevância que as amssas, acostumadas e resumidas às excusas carnais de ocasião, jamais conhecerão. Terceira: os tímidos são miragens ambulantes; por mais pacata e solitária que sejam suas vidas, as pessoas criam mitos absurdos sobre sua vida afetiva, sob o chulo argumento do "come quieto". Ode ou boato maldoso tendo o tímido como alvo? Não faz diferença.

Assim como a covardia, a timidez não escolhe sexo, credos e gostos pessoais. A diferença é que covardia trata-se de omissão unilateral quanto ao pudor alheio; com a timidez, tal omissão unilateral é quanto ao pudor individual. Ser feliz é atentar a ambos pudores? É, com certeza, um cansaço. Cansaço do lado existencial de cada um de nós. Do lado pessoal que normatiza tudo e credita nada. Do lado que registra tudo e organiza nada. Do lado que constrói o alicerce do eu e embarga as irregularidades do outro. Nesse meio, a timidez é um fiscal cuja forma de suborno deve-se descobrir o quanto antes: o ego é um instrumento que só se comercializa por meio de barganhas psicológicas.

Se a vida é uma sucessão de salutares desperdívcios, ao tímido este é absoluto. Como se seu destino se tratase meramente duma reciclagem de tal desperdício: como se suas alegrias fossem meros insumos reaproveitados de matérias-primas das quais são incapazes de obter. O tímido e seu universo, composto desse lisão existencial, pode até lembrar o cenário de algum fime pós-apocalíptico dos anos 80, mas filmes têm final; o destino dos tímidos, não: trata-se do rascunho dum epílogo que sempre interrompe as tramas dum viver de constantes abortos. A timidez é uma limitação e poucos saberão disso. A tragédia humana é algo muito maior do ue meras lembranças. A ocasião condena, mas a índole julga. Se sorte é personalidade do destino, talvez a timidez não esteja apenas no tímido. Não mudamos, nos adaptamos ao que almejamos ser. Ou seja, pode-se apagar a timidez de apenas um lado da moeda; o outro é indelével. O vácuo na cabeça dos homens leva ao surrealismo do imaginário individual, mas não o esquiva do realismo anti-humanista, e previsivelmente articulado, de seus atos. A mente é volátil, o ato não. E cá chegamos à máxima dos orgulhosos: os "aprendizes" da timidez. Timidez esta que dimensiona as pessoas a proporções além de suas vontades. Viver como ditador de si mesmo não é fácil...