sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Deus não deu asa a cobra

Desanima ter a perspectiva de que os idiotas podem se dar melhor na vida do que você. Quando pequeno, me sentia capaz de dominar o mundo. Uma vontade de ser sempre melhor me impelia a me tornar centralizador de meu próprio mundo, crendo que meus atributos intelectuais sempre superariam quaisquer forças que tentassem se opuser a mim. É óbvio que eu estava redondamente enganado. A capacidade mental devia ser sempre superior às dissipações da vida que insistem em nos confundir, futilizar e contrariar. Quando se envelhece e se percebe que a competição entre a sublimação intelectual e a subjetividade lânguida das forças que a esta se opõem, deixa-se de crer valer a pena ser melhor. Tal estado de espírito se sustenta sobre o tão pouco que fiz em tão arrastada idade minha. Quando penso que, na Antiguidade Clássica, a inteligência sempre sobrepujava as outras forças, inclusive socialmente, começo a me amaldiçoar pelo que a burguesia, o feudalismo e o capitalismo fizeram com uma ordem social que salutarmente era prescrita pelos homens que pensavam. Em tempos em que ter nome nem sempre é suficiente para se ter respeito, mas é suficiente para abusos somente, é difícil não se ter a sensação de que tal ordem psíquica e social se trata duma verticalização que clama à promiscuidade quanto à honra, a sisudez, o orgulho e a sagacidade de espírito. A sagacidade da carne não é dispensável, mas ao menos dá a sensação de que se aproveitou algo dos dias. De que se fez barulho o suficiente para se ter orgulho do dia em que se morrerá*. De que se experimentou, algo obrigatório para uma existência meramente experimental. De que princípios são bons e deveriam independer de personalidade. O que talvez viesse a incutir no velho erro de se misturar hierarquias sociais a diretrizes de personalidade. Mas se já se insistiu tanto no erro, porque não se incutor no erro quando o momento parecer mais oportuno, se não mais amplo, geral e irrestrito? Não pode isso se tratar meramente de uma justificativa desesperada para a pobreza desses meus arquivos adestrados pela índole, que se convencionou chamar de memórias. Talvez possa, mas se assim for, é meramente fruto de algo tão deletério quanto referencial, a comparação. A mesma que gera referências, objetivamente falando, e a mesma que gera cobiça, insegurana e desconcerto, subjetivamente falando. Enfim, mais um post que se trata gratuitamente dum externar de pesares desnecessários, mas que se tornariam daninhos se permanecessem nesse depósito em que ninguém reclama a posse de nada, chamado de memória, daquilo que terá dito a que veio.

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* Isso com o sujeito alegando ter sido percebido e ter distraído as pessoas a seu redor da angústia de suas ignorâncias quanto a si mesmas. Temos instituições que saudam o viver, que lutam pela manutenção de tal dádiva, mas nenhuma que saude maduramente a verdade do óbito. Que saude a vontade das pessoas, que têm razão para não perderem tempo com suas vidas insoluvelmente sem objetivos alcançados, de querer morrer. Isso não é condenável. Ainda acredito que chegará o dia em que se optar pelo dia em que se pagará o óbulo para Caronte será um avanço de consciência coletiva que trará consideráveis benefícios sociais, mesquinhamente, como sempre, para as instituições. Há coisas piores que a morte, e as pessoas ainda se assustam com isso. Ainda não são incrédulas e desiludidas o suficiente para sobrepujar sua insegurança em abraçar indiscriminadamente religiões arrebanhadoras. Mas estamos nesse caminho. Funerárias e necrópoles são inúteis; meros depositários prepotentes de atos inevitáveis da natureza. A cultura ocidental sempre teve o defeito de não dar importância ao conhecimento místico, e isso distancia enormemente os homens ocidentais a se conhecerem a si mesmos. Instituições que, ao abrigarem a idéia do memento mori, instruíssem apropriadamente os aspirantes ao fim sobre os mistérios (não a significação vulgar, mas a de milênios atrás, entre os sábios) do universo, guiando-os à eutanásia sem culpa, fazendo-o se deparar mais realistamente a seus dilemas pessoais e questionamentos ora fictícios. Esclarecer a verdadeira importância pessoal perante a própria morte é algo que falta nas sociedades, com certeza. Instituições com simbolismos e história o suficiente para isso ainda surgirão, e desmentirão apropriadamente exibicionismos como góticos, satânicos e outros produtos de vulgares saliências psicológicas de multidões.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Green eyes

Honey you are a rock
Upon which I stand
And I come here to talk
I hope you understand

That green eyes, yeah the spotlight, shines upon you
And how could, anybody, deny you

I came here with a load
And it feels so much lighter, now I?ve met you
And honey you should know, that I could never go on without you

Green eyes

Honey you are the sea
Upon which I float
And I came here to talk
I think you should know

That green eyes, you?re the one that I wanted to find
And anyone who, tried to deny you must be out of their mind

Cause I came here with a load
And it feels so much lighter, since I met you
Honey you should know, that I could never go on without you

Green eyes
Green eyes

Honey you are a rock
Upon which I stand

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Jamais conte com o impossível

A realidade sempre supera a ficção. Assim como a idiotice: ela assume proporções incalcançáveis para outros ramos da índole humana. E cá provo isso, no cotidiano dum jovem comum, em sua semanal batalha retórica pra conseguir o aval de seus pais para assumir seu direito constitucional (apenas constitucional, infelizmente) de ir e vir. Deviam estender uma cláusula extra para os pais caxias, que acham piamente que criam filhos apenas para eles, e não para o mundo. Pobres almas... enfim, leiam e se arrependam!

_ Cara, que raiva! Não agüento mais esse impasse que rola toda vez que quero sair.
_ Quer uma dica? Conte com o impossível!
_ É o que sempre faço! E sempre fico em casa, enfurnado, sobrando, sem poder sair aos lugares legais.
_ Vou ser mais claro: quando seus pais sugerirem que deixarão você sair se apenas algo impossível acontecer, quando o dia de São Nunca chegar, por exemplo, concorde. Sempre. E exiga o cumprimento da improvável promessa.
_ Estranho. Não entendo como isso pode dar certo.
_ Como você acha que consegui convencer meus velhos a ir ao litoral sozinho, com o carro, sem carteira de motorista?
_ Bom, é melhor você me dar alguns exemplos.
_ Sim, darei.


***
[no segundo semestre daquele ano]
_ Pai, compra pra mim essa coletânea de DVDs do Poderoso Chefão pra mim?
_ Só no dia que Renato Aragão escrever um romance!
[ao lado da prateleira de DVDs da loja, encontram livros nacionais, incluso o do humorista]
_ Eles dividem em quantas vezes, filho?

[dias depois]
_ Mãe, posso trazer o Marcão pra jantar com a gente?
_ Filha, você sabe que o pai detesta seu namorado!
_ Ah, vamos, quebra esse galho pra mim!
_ E agüentar o velho pra cima de mim depois? Só se começarem a vender um vídeo amador clandestion da Paris Hilton trocando fluidos.
_ Tá bem. Mas não prefere um vídeo da Pamela?
_ Acha que nasci ontem, é? Dessa vez você não engana a gente.
[pouco depois, para o irmão]
_ Putz, mas essa é chutar cachorro morto! E ela falou numa boa?
_ Sim, acredite se quiser.

[no final daquele ano]
_ Pai, posso ir à Disney ano que vem?
_ Porque você ainda perde tempo perguntando?
_ Pliiissss...
_ Tá bem, tá bem, te levo pra lá no dia que o Zeca Pagodinho ganhar um acústico da MTV!
_ Tá bem, promessa é dívida, viu?

[no início do ano seguinte]
_ Mãe, me dá grana pra ir ao show da Avril!
_ Você deve estar brincando, não? Pense no impossível de seu pedido antes que eu dê a resposta óbvia.
_ Pliiiissss...
_ Tá, vamos fazer assim: te pago a entrada no dia que a Madonna der um beijo de língua na Britney via satélite, transmissão mundial!
_ Ah, você sabe que isso nunca vai acontecer!
_ ...e digo mais: a Christina Aguilera vai ter que receber um também!
_ Sei. Então, quando esse dia chegar, eu vou. Deixa que eu espero.

[lá pro meio do ano]
_ Pai, deixa eu ir pra boate hoje?
_ Só quando a Dercy Gonçalves bater as botas.
_ É, isso eu admito que nunca vai acontecer.

[lá pro final do ano]
_ Mãe, empresta o carro preu ir pro litoral?
_ Só quando o Pearl Jam vier tocar aqui no país.
_ Tá bem.
_ Digo, só quando o Deep Purple vier tocar aqui.
_ Já que você insiste...
_ Só quando um ex-astro da música topar fazer um reality show.
_ Beleza.
_ Melhor ainda: só deixo você ir quando eu vir o Ronaldinho Gaúcho chutando na trave quatro vezes consecutivas, sem deixar a bola cair. Rá! Sem impossibilidades do mundo da música, quero ver você sair dessa casa!
_ Nossa, você poderia até ter exigido a desvirginização da Sandy! Pelo jeito, me dei mal...
[minutos depois, encontra o vídeo pela internet]
_ Pode passar a chave, coroa...

[dias depois]
_ Pai, o que você acha desse desenho? Vou tatuá-lo semana que vem!
_ Só por cima do meu...
_ Vira essa boca pra lá!

***
_ Pô, desse jeito eu vou acabar cobrando quando eles propuserem que eu só possa sair de casa no dia de São Nunca!
_ Não duvide! Vai que o comércio comece a adotar a data pra vender suas tranqueiras...
_ Bom, eles tentaram com o Dia do Amigo...
_ E se eles exigirem que o Elvis morra para que você possa sair?
_ Use essa tática com moderação, jovem...

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Ganhar na loteria? O prêmio é sorte ou prata?

Lotéricas vendem sorte, no sentido etimológico da palavra, e não à suposição imposta pelo senso comum. O que você paga na boca do caixa não é a chance de se tornar milionário, mas a certeza de ser acionista dum grão infinitesimal dum campo de possibilidades. Não há almoço grátis, e o que ocorre é que o prêmio em si verte, para uma sorte só, as esperanças e aspurações depositadas por outras 50.000.000 de sortes. A empresa (tanto a asserção etimológica quanto a dada pelo senso popular) trata-se de uma mera bolsa de valores de apelo mais popular e unilateral. Chega a ser paradoxal um país que proíba jogos de azar autorizar qualquer concurso apenas por meio da única instituição financeira nacional que promove cinicamente o tipo de jogatina que proíbe. E os títulos de capitalização? Uma vez, comentando com amigos, concluí que gente como o Senor "dá pela Tele-sena e tira pelo Panamericano".

As pesoas vêem o mítico de se ganhar tamanha quantia como um final feliz dessa história tortuosa que constituem em terra. Desse filme do qual protagonizam e jamais poderão conferir a pós-produção, ganhar uma bolada pode indicar clímax, complicação, plots, desenvolvimento da história. Menos o final. É uma versão adulta da -- tão sonhada pelas crianças -- viagem à Disney. Ou seja: sonhos são opcionais, aspirações oscilam pelo destino. Jogar com a sorte seria uma maneira escusa de se sonhar? Pelo menos é mais fácil do que apostar o próprio pescoço na vida real; com a cartela, os números aceitam ser degolados pelo campo das possibilidades em seu lugar. Talvez estar no que se sonha seja mais importante. Estar, não ser. Aspirações oscilam, e ser o que se oscila não é confiável. Não se trata dum final feliz. Se trata dum novo evento na trama. A sorte é a personalidade do destino. E cá se encerra os dizeres de um cético em relação a jogos de azar. Pefiro gritar truco na orelha de alguém a arriscar ilogicamente alguns numerozinhos...

domingo, 13 de novembro de 2005

Felizmente esse diálogo pe ficcional

_ Homem tem mania de começar a ficar mal-vestido por causa de pé na bunda de mulher.
_ Hmm, se fosse assim, 3/4 dos pedintes nas ruas seriam pessoas bem-resolvidas de questões afetivas mal-resolvidas, nossas estatísticas seriam radicalmente invalidadas e teríamos com isso uma inusitada redenção social.
_ Seu grunge!
_ Retire o que disse!
_ Não mesmo! Há quanto tempo você não usa uma roupa que não esteja desfiada, com costuras esgarçadas, ou cores alvejadas por água sanitária?
_ Bom, deixe-me ver...
_ Viu só? Você nunca estranhou o fato de algumas pessoas jogarem algumas moedas na caixa do seu violão quando você canta com a galera na praça?
_ Achei que elas faziam aquilo preu parar.
_ Talvez seja por isso, também.
_ Mas a Mel vai virar passado. Ela tem que virar passado!
_ Pelo seu bem, espero que sim. Mas juro que quebro seu nariz se você contratar outro telemensagem pra tentar se reconciliar com ela de novo.
_ É, foi um momento de fraqueza.
_ Custava se prostituir afetivamente por telefone?
_ O que você chama de "prostituir afetivamente", chamo de "reafirmar prosaicamente" meu amor por ela.
_ Nunca te perguntaram se você renova seu guarda-roupas com a Defesa Civil?
_ Ora, mas meu visual é atraente pr'algumas meninas. Já ouviu falar que gosto não se discute? Quanta menina ajeitadinha por aí que eu conheço que tem um tesão daqueles por garotos de cabelos longos e desgrenhados e com roupas pretas? Não se lembra de semana passada, quando aquela morena queria me levar pra tomar um drinque com ela?
_ Cara, aquela menina que te abordou na calçada era uma asistente social! E ela não te ofereceu um drinque! Pra você, nem Santi ela ofereceria. E me poupe da piadinha do "Junior"...
_ Tem razão, ela não era uma simples ninfeta: era uma promoter! Até me deu um cartão do escritório dela! Quer moral maior do que poder ligar pra guria em horário comercial? Ela tá caidinha por mim, porra!
_ Meu, aquele cartão era do Adauto.
_ Não conheço essa boate, deve ser nova.
_ Não é uma boate, é um clínica psiquiátrica!
_ Afinal, tenho cara de indigente ou de louco?
_ Ela deve ter presumido ambos: quem mais prepara serenatas às três da manhã em pleno Centro da cidade?
_ Queria encontrar a Mel depois da balada. Ela não atende minhas ligações!
_ E perturbar a ordem em plena avenida era a solução perfeita, não?
_ Lógico! Como ela pode ter resistido a meu cover horroshow de Sweet child o'mine?
_ Cruz-credo! Além de grunge, é emo!
_ Ei, cuidado com o que fala!
_ Grunge, grunge, grunge....
_ Cruj, cruj, cruj, tchau!

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Textos esquecidos num canto qualquer do disco rígido, que por razões desnecessárias e desconhecidas, serão poupado da pulverização eterna. Leiam e se arrependam: eu já me consterno perante as linhas abaixo, sem uma conclusão apropriada.

Divergências

Para um bom inimigo escolha um amigo. Ele sabe onde atacar. Sendo que recomenda-se que deve-se manter os amigos próximos, e os inimigos mais próximos ainda, uma inimizade à altura só surge entre amigos. Ou seja, o trágico da vida é que apenas amizades em potencial são esmagadas com inimizades. Não há isenção nisso. O incauto que crava uma espada em seu peito talvez não seja um inimigo. Talvez seja, assim como você, vítima de circunstâncias desfavoráveis. Pontos-de-vista desfavoráveis. Atos desfavoráveis. Rousseau já dizia em seu Contrato social que apenas os iguais podem ser amigos: um Estado só deve ser inimigo do outro, um homem só pode ser inimigo do outro. Se intrometer em brigas alheias implica em se correr o risco de se incutir em inimizades de uma natureza a qual não te pertence. É por isso que o pior erro de qualquer estado é considerar indivíduos como seus inimigos. Exemplos atuais não nos faltam. Sem falar que alianças muitas vezes transcendem, mesmo que à força, inimizades.

Sendo assim, ódios são recalques racionalizados. Eticamente suportados, ou não. Mas isso é levado em consideração por poucos, e raramente percebe-se que inimigos não se colecionam, por simplesmente não passarem de amizades trágicas. Que é o que basicamente acontece em qualquer das histórias contadas pelos dogmas: por mais que os profetas e os messias agradem a todos, mais cedo ou mais tarde haverá amizades trágicas. Impulsionadas por certo sentimentos calcados por carências humanas? Talvez. Mas mais possivelmente pelo egocentrismo. Afinal de contas, a natureza individual dificilmente se dá bem com a coletiva. São naturezas diferentes, lógico, e portanto não podem ser inimigas. Divergências, assim, não são motivos para inimizades, evidentemente. Convergências, sim. A opinião geral, média poderada de opiniões individuais, nem sempre bate com a opinião vigente. Mas isso já disseram antes de mim...

Ninguém nunca é o mesmo, nem num dado num momento, nem em quaisquer momentos. Mas que é da cármica natureza humana emperrar com certas pessoas, isso é. Esses sons obstacularizados que denominamos de língua insistem em pormenorizar demais. Abominam os silêncios à toa. E quando os exaltam, os deixam em voga a ponto de empobrecer as nuances dos dizeres orais. Precisamos descobrir algum tipo de imparcialidade ao nos comunicarmos. Os mais tradicionais, com suas regras de etiqueta, dotam a fala de um tom sisudo e comedido que poderia ser interpretado como uma ingênua tentativa de isso obter? Em muitas ocasiões, felizes devem ser os que, sem poder se utilizar da fala, se utilizam de meios menos passíveis de ambiguidades. Mas dotaram os homens e o mundo de poesia, e o fardo de se cantar essa tragédia grega fica ao nosso exclusivo cargo. Cargo este dissipado facilmente, hoje em dia. Essencialmente, pela inimizade de naturezas conflitantes. O problema de inimizades, com isso, é que elas sempre deverão se contentar com um nicho obscuro que contrarie o ódio e que tende a cultivar naturalmente.


A dádiva-mor

Reclamar devia ser um esporte. Mas como todo esporte se baseia em movimentos ritmados e/ou sincopados, inspirados por metas e pontos, a hedonista dádiva de reclamar logo se tornaria uma rota masturbação mental. O esporte em si seria passível de reclamação. Tanto o fim quanto o meio: qual justificaria qual? Reclamar é uma prãtica nobre demais pra ser simplesmente tachada de esporte. Reclamar devia ser, então, um jogo psicológico. Algo como o xadrez ou os jogos de cartas, misturando brilhantemente raciocínio lógico com dissimulação. Imagine, em vez de Kasparov duelando com um processador, duelando com um mestre da retórica, cada qual combatendo os argumentos do outro por meio de críticas construtivas (valendo mais ou menos pontos, de acordo com a categoria), ou destrutiva. Mas, pensando bem, o adversário de Kasparov seria uma mulher. Veja só: seria esse um dos poucos esportes supostamente passíveis de igualdade para ambos os sexos? Pensando bem, isso seria mais divertido que ficar brincando com dezeseis peças inanimadas, dispostas em cima dum tabuleiro, por horas a fio. Isso devia ser é coisa de nerd brotoejado fã de RPG, e não de grandes mentes. Imaginem a popularização de um esporte assim: em vez do guri ir pro campinho se ralar enquanto corre atrás duma bola, ele avisa em casa: "mãe, vou reclamar com uns amigos." Melhor do que arcar com despesas de saúde relativas aos tropeções naturais ao popular futebol.

A destreza gestual, o afiar dos argumentos, a habilidade para entonação e persuasão: seria a competição mais barata de se patrocinar e organizar. Como as partidas de pôquer da ESPN: imagina o quanto de reformas em estádios, por exemplo, a geral deixa de gastar, dispondo a jogatina na primeira mesa de bar que encontram. Pois é. Tudo bem que jogos psicológicos assim reduziriam à miséria toda uma classe de intelectuais, críticos, cineastas, artistas e economistas em geral. Mas veja só o fantástico retorno social proposto: além de jogar todos esses exibicionistas verborrágicos ao ocaso, se faria hábito a dádiva do reclamar, de tal modo, perante a mentira, demoliria de vez todo nosso sistema judiciário. Sem falar no contexto social: com uma formalização dessas, acrescida ao ato de reclamar, o que aconteceria aos elogios simples? Simples, a perdição dos puxa-sacos. Imagina quantos cachorros por aí começariam a ganhar heranças milionárias com o ocaso deles. Aprofundando as suposições, e os serviços de reclamações de empresas telefônicas e de ônibus? Ah, esses são prata da casa! Cachorro morto sempre é chutado, por mais que reclamem. Frase irônica? Tá reclamando do quê?

Já repararam como os reclamões dominam cada vez mais a mídia? Pra corroborar isso, cito pessoas contratadas para agregar referências psíquicas e até fisicas, em relação à pior estirpe de reclamões da face da terra: os que se consideram lições de moral ambulantes! Gente ignorante como Faustão, Datena, Avalone... A Band é experto em contratar ídolos dos chatos e boçais. Precursores como o Bolinha corromperam gerações inteiras por causa da Band. Estes são como time de várzea da nobre arte de reclamar: só falam coisas gratuitas, sensacionalistamente passionais, desprovidos de argumentos. Enfim, a pior transmissão possível da nobre arte. Arte esta que não escolhe classe social, nem sexo, nem credos, só figuras de linguagem. Por outro lado, reclamar devia ter o mesmo status de mágica. Segredos de persuasão e dissimulação sigilosamente encerrados em grupos restritos, e ilusões esporádicas de ótica. Mas isso eu falo uma outra ocasião. Pensando bem, não; dá pra se imagina a situação...
Aceite um drinque para que eu possa remover seu fígado enquanto estiver inconsciente

Se o inferno fosse uma boate, os médicos seriam ou porteiros ou promoters. Só entra se o nome estiver na lista. Com cortesia pra quem tiver plano de saúde. Com consumação mínima pra quem não tiver. Eles representam o mecanismo social ao redor de tal casa noturna. Dão carona aos baladeiros mais devassos com a própria saúde por meio dum luxuoso veículo de luzes e sirene igualmente intermitentes. São Ph.D em furar e cortar os penetras, e sabem administrar drogas como ninguém. Também são bons em fingir que realmente têm algum domínio devido às aulas pra açougueiro que estudaram: por mais que esbanjem conhecimento com jargões e léxico tão cifrado quanto a letra de suas receitas, quase tudo o que falam pode ser lido facilmente na variedades de qualquer revista. Algo do tipo "pessoas que comem cereais reduzem em 15% as chances de desenvolver reumatismo." Discursos precariamente enganchados em pesquisas difusas. Até porque, depois de recalibrar a comissão de frente de metade da fila, ninguém quererá saber o que eles têm a dizer mesmo; o bisturi e suas pinceladas de superficialidade e esquizofrenia corporal já falaram por si só. Esses discursos, de puro academês destilado, só perde pro dos bacharéis frustrados e bonachões omissos,e studantes de Direito em geral. Estes se saem melhor como patrocinadores (quando não donos do lugar) do que como promoters. Seguidores de leis, cujos números não fazem o menor sentido, e cujos artigos são reciprocamente antitéticos com a prática do ofício. Perfeitos pra fingir perante as autoridades que menores não beberam, inalaram, muito menos treparam em seu estabelecimento. Útil também pra se ganhar tempo enquanto se despoja daquele corpo estendido no chão. Eles não perdem tempo com um comércio paralelo de compra e venda de almas, como se pode presumir. Preferem lidar com o insumo dela, o corpo. Afinal, não é a alma quem recebe doses homéricas de álcool, paliativos psíquicos generalizados por drogas, ou mesmo cultos recalcados como a felação e o entra-e-sai. Satisfazer a alma é coisa de wiccans, hippies e outras sobras da cultura new age: dá trabalho, e requer uma índole incompatível com um mundo cuja composição primária de carbono permite a evolução natural dos idiotas. De que adianta uma transcendência que sucateia certas dependências do "templo da alma"? Pros idiotas usarem terno, tomarem por usucapião coisas pra sustentarem sua punheta existencial, e justificar os meios por meio dos fins? Dos idiotas, só se pode esperar organização no inferno, mesmo. Onde se depreda o templo da alma e se esporra na cara da detentora da primeira língua detratora, contraditória e emocionalmente serpenteadora que aparecer. Mas chega de falar mal dos insumos da hipocrisia social, vulgo advogados. Uma hora cansa chutar cachorro morto. Não são só eles quem gerenciam o local mais hype da noite, mesmo...

E os números? Ah, é pra isso que contadores, empresários, engenheiros e administradores em geral servem. Pra abstrair as dimensões da consternação dos freqüentadores dessa badalada casa noturna. Porque as pernas pra quem você tenta pagar uma bebida são, meramente, templos de ode neurolingüístico, de adoração, em parte, às fronteiras do próprio ego. A parte restante é em penitência semiológica. E agora, garanhão? Suba na área privé do estabelecimento, abra a porta dos fundos (da moça) e dê aquela vistoria. Coloque só a cabeça e vislumbre. Mas, pensando bem, faça valer a promiscuidade ética à qual você já se submeteu. Promiscuidade essa denunciada não pelo vestido de oncinha da mundana, mas na oncinha que você acaba de colocar na alça da peça íntima dela. Faça como na Antigüidade Clássica: não se contente apenas em subjugar a sagacidade e a dignidade a quem o templo foi dedicado. Invada-o. Deprede-o. Não deixe nada nada em pé. Haja pregas. Haja demonstrações visuais que justifiquem alegoria tão patética quanto o inferno, a casa noturna mais freqüentada pela galera do mal. Pelo jeito, a gerência do local vai bem, como um todo. O caixa dois, a forma mais alienável de cometer um crime já provavelmente criada, é de vexar qualquer banco. Entre os freqüentadores, mesmo os não-recalcados entram às escondidas. É, se a faxina multiplamente egoísta dos médicos não é suficiente para homogeneizar a clientela do local, e a faxina (ou seria imundície?) ideológica dos advogados também não, talvez realmente, simplesmente o inferno seja os outros (é só uma casa noturna, mesmo...). Aplicado a outros alheios, lógico. Estamos falando duma franquia que superfatura e corrobora algumas de suas famas com estatísticas invejáveis. Enfim, bem-vindo ao inferno, venha fazer uma social num ambiente só de boas intenções, mas recheie sua carteira: nunca se sabe quando o porteiro quererá um agrado. Contente-se com as expensas salgadas do local: no céu, casa noturna do outro lado da cidade, a bebida é tão ruim que nem gim tônica tem, só vinho. Sem falar no ambiente único sem DJs (o outro local tem dez), só toca Aqua e couverts, e sem garotas rebeldes sem causa o suficiente para toparem o intercurso contigo. Pelo jeito a Vigilância Sanitária vai interditar o local: alguns rituais funerários praticados por certas tribos góticas desagrada o publico como um todo. A única vantagem do céu talvez seja, em verdade, ser gerida por idiotas inofensivos. Inofensivos no sentido de se promoverem por meio de eufemismos. A política politicamente correta deles impede que os seguranças espanquem os baderneiros, por exemplo. A equipe sádica do inferno é chegada em castigos reiterados. Mas como toda política, politicamente correto, às vezes, é só "politicamente". Alguns preferem a opressão gradual em troca de segurança. Não o negão te encarando a noite toda, louco pra expulsar você, baderneiro, mas o... bom, dependendo de como você goste de usar seu templo, talvez "o" segurança se trata do negão, mesmo. Realmente o céu e um saco, santa!...

Esse ano, andei provocando demais as historinhas criativas criadas pelos dogmas. Estaria eu ouvindo um chamado ao ateísmo? Não sei dizer, mesmo...
Só pra constar: a foto deste post é de um ambiente oferecido por uma casa nova-iorquina deste endereço: http://www.creamnyc.com/rooms/red.html

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Filosofia bairrista

A juventude é existencialista. Compra o primeiro livro de bolso que encontra na banca e sai por aí espiando seu vazio, enchendo a boca pra tachar suas pseudoleituras de frustrados, decorando citações e pagando uma de cult entre amigos, quase sempre se despencando ingenuamente em direção ao abismo do marxismo embebido n'algumas linhas filosóficas do início do século XX. Se hoje em dia há idiotas com estampas do he em suas camisas, me condôo, com lágrimas de crocodilo, por Nietzche: esse ainda virará vítima da moda. Brincar de mudar o mundo é legal -- Raul e Che são como se fossem a Xuxa dos hippies da unviersidade pública -- enquanto o ser e o ente não se encontram e aquela angústia pseudo-heideggeriana é dissimulada pelas confusas esperanças de jovens jovens demais somente em idade: púberes fenomenologistas se iludindo em teorias que tiram o corpo fora, sem que percebam, de suas próprias realidades. Desconstruindo um estruturalismo que sequer concebem com segurança.

O século XX tornou a filosofia algo pop. Genealogia da moral se emperrando numa lógica capitalista sucedendo a homogeneização dos comportamentos. Viu como é fácil a procriação acéfala dos revolucionários natimortos hoje em dia? Eles ainda acreditam em duendes. Fidel e sua toca que o diga. Daqui pra frente, me mostro inteligível pros filósofos de banca de revista, cujo contato com pensadores se restringe às edições baratas de papel higiênico vendidas pela Escala. Caham! Intervenção humana para reorientar a trajetória histórica, tendo a tecnologia como álibi para um humanista otimismo? Quanta ingenuidade, Marcuse! O máxim que ocorre é a legitimização das efemérides sociais atuais, um proesso descartável de ideologia. Adorno histórico previsto por Adorno. Ele e Hockerheimer. Habermas e uma sugestiva simpatia pelos direitos humanos que negam a naureza do egoísmo humano (definições verbalmente consensuais de razão e verdade? Sei), mascarando incongruentemente sua crueldade patente. O que me faz perguntar pra que serve a sociologia, mas deixa pra lá. Se valores, por meio dum poder essencialmente criador, consagram interesses de forma diacrônica, Foucault acaba de abolir a noção de eficácia trazida por manifestações populares. Mas é uma pena que os jovens pedantes de hoje em dia, carregando sua filosofia pop na mochila, isso não percebam e ainda percam tempo com passeatas como meras desculpas pra matar aula. Definitivamente, não foi assim que falou Zaratustra, jovens dinamites. Não bastasse Derrida ter morrido ano passado, continuam o matando: logocentrismo desconstrutivista. Esse recalque com o pensamento menos individualista do Oriente ainda trará muita contradição...

Por um lado, gente como Marilena Chaui se mostram para mim como mera repetição do passado. Poderiam me listar a quantidade de pensadores do século XX que aderiram a regimes, de propostas revolucionariamente unilaterais, como o nazismo, o comunismo e o stalinismo? Creio que, no Brasil, o PT seja a versão disso. Porque brasileiro é acomodado demais pra sustentar regimes opressores que saem por aí dizimando etnias e classes sociais por causas absurdas. Brasileiro prefere sustentar ideologias insustentáveis enquanto esquemas envolvendo doleiros e empresários, muito mais bem-articulados do que as pueris diretrizes políticas dos petistas, continuam em pleno funcionamento. A esperança venceu o medo. O caixa dois do partido comprou essa esperança. Deve existir uma síndrome dos vinte e cinco anos. O inferno astral do PT ocorre em seus vinte e cinco anos. E nos regimes do início do século XX? Algum deles passou dos vinte e cinco anos sem serem maculados pela prática?

É preciso saber viver. Se perguntar porque isso é necessário, já que ninguém tem manual de instruções para isso, é tarefa de filosofia (devo ter extinta dezenas de categorias profissionais com isso), mediocrizada pela ciência e de proveito incerto pela próxima forma de conhecimento que sucederá a engradada ciência. Dogmas não são manuais de instruções, são mais como livros de auto-ajuda com enredo. E auto-ajuda? Seriam dogmas informais, sem enredo. Enredo? Seria, sinônimo de história, dogmas sem auto-ajuda, composta predominantemente de causos fabulescos dos dominadores sobre os dominados. Os do contra em relação a isso costumam se esconder na literatura. Os dominados historicamente, sendo coagidos e manobrados em geral, são privados da verdade. Como esta dói, e não a detêm, são masoquistamebte testados de outras formas, enquanto os dominadores, subjugadores e algozes por excelência, são dominados somente por seus próprios escrúpulos, acessório este opcional, sem direção hidráulica, com o menor porta-malas da categoria. A ética, realmente, é areia demais para qualquer caminhão. Esta, por sua vez, trata-se de ingênuas dissidências do caos e da lascívia, feita para, do alto de sua inflada integridade, pichar pecados capitais mundo afora. Estes sete, por sua vez, são argumentos de empresas (em todos os sentidos) para se isentarem de manter garantias para seus "produtos defeituosos". Empresas, por conseguinte, são institucionalizadoras (condicionamento que se trata de saída mais confortável para se afastar das divergências dos idiotas) da vida alheia, sejam estas no papel, sejam estas metafóricas. Com tudo isso exposto, os idiotas devem se tratar dos que jamais pensaram, nem que por momentos, em recorrer ao niilismo, quando os insumos da dignidade dos homens, há pouco citados, estão em falta. Se é que dignidade existe. Talvez essa resposta se trate dum acesso desnecessário de niilismo inconseqüente.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Acabou!

É pedir demais! Se revolucionar pra descobrir sincronicamente que nunca se muda é frustrante. Pra ter a impressão de que a metamorfose não serviu pra nada por causa dum revés que sucedeu vários outros momentos de sorte. Sempre achei que seria mais fácil, mas sempre soube da ingenuidade de minha expectativa. Como sempre. Pra variar. Dois chavões que ela não agüentava mais ouvir. Foi algo tão sumário, repentino, dum impulso. A perplexidade sequer se deu ao trabalho de se menifestar no ouvinte, se manifestou apenasmente em quem se manifestou. Ela já esperava ouvir aquilo de mim. Ensaiei por meses dizer. É que, na verdade, ao mesmo tempo em que sentia ser necessário aquilo dizer, sentia que estaria abrindo mão, sem um motivo claro, dum hábito feito há mais de quatro anos. E, ao me retirar de lá, fiquei lividamente sem palavras. Mudez opaca. Impressão e expressão idem. Não havia mais a se dizer. Deu um aperto condescendente no peito. De lá me dirigi a um outro local e voltei pra casa. Que é onde a ficha caiu, em meu quarto, deitado na cama, agora andando com as próprias pernas. Um cutucador pesar se faz presente. Não se soma tão degradantemente como a parafinada mágoa que já se encontrava lustrando essa prancha sem ondas. A partir de hoje, de certo modo, as coisas serão diferentes. "Sua vida mudará completamente". Acreditem, esta última frase é a mensagem com que fui recebido ao entrar no Orkut. Pouca sutil ironia do destino. Sutileza mordaz o suficiente pra garantir constância numa mente sem, há tempos, vislumbres autônomos. Mas disse que as coisas serão diferentes porque não terei mais meu "diálogo interno externado" (vide post de 3 de setembro e outro nesse mesmo período de 2003). Sim sim, eu disse. Por mais que ouvintes sejam limitados pelos acessos de loucura que evitamos proferir (já que os loucos se ausentam dos nós do mundo), é bom ser ouvido, especialmente quando a sintaxe lexical perde a importância para a sintaxe autônoma das estranhas emoções de sempre. Sei que, nos dizeres d'O louco de Gibran, "encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós". Talvez me tenha libertado duma escravidão. É que a liberdade traz hesitação. A liberdade é o limite da própria liberdade. Se Jorge Forbes, "separado no nascimento" de Bil Murray, chega a tal conclusão, tenho cá um indicativo de que, bem, Sersup se cansou. Ele tem esse direito. O incauto há tanto bolinado por ele, não. Este blogueiro catártico tem mais o que fazer, finalmente, do que refletir perante sua idiossincrasia, álibi há tempos desmascarado.


O título sensacionalista foi involuntário. O BR não está acabando; ainda terão de me aturar por um pouquinho mais... ¬¬
O pincel pincela palavras por essa palheta peculiar, a prosa


Aquarela noturna

O tapete de luz escarlate, rubro pastel que ganha espaço na noite. Relento temperado a molho rosé. Holofotes dum palco vazio. Todo um bastidor para se perder. Longe de aplausos, longe de olhos atentos vindo dos camarotes. Retido pela solidão coletiva, pelo beco que o luar não alumia. Pelos temperamentais pontinhos escarlates aprisionados pelo vidro translúcido da janela, favo da mesma luz amarelecida perecível que desverdeia a árvore na cançada à esquerda, conferindo-lhe tons desérticos de dunas pinceladas por suas folhas. Ao fim da rua, a praça vazia. Sob a iluminação de dois postes, sentinelas da brisa arterial injetada nos poucos incautos que ainda nesse horário vagam. Quando a barragem da energia urbana abre suas comportas e emerge os espíritos, solitários de gente, mas não de realidade. Nem de sentir, nem de ansear. E a noite permanece com suas cortinas abaixo, sob peculiar iluminação dum ensaio altamente boicotado, infelizmente.


Aquarela vespertina

Atmosfera nova no... Reformas simples, algumas portas retráteis abertas, chove raios de sol pelo verde do pátio que sobrevive diariamente ao chafurdar dos trajetos diários de centenas. Trotes diários. O pensamento egoísta: e se as aulas voltarem? Quero férias, quero paisagens novas. Não quero acompanhar os gatos em improvisações, à épocas ermas, feitas no cronograma. O máximo que quero é acompanhar o chegar do pôr-do-sol pela ampla janela da sala ao lado do saguão. Ver o sol de passagem. O mundo pegando sua passagem pelo expresso luar. O mesmo sol que cintila é o mesmo que passeará pela gota de suor, esfriando sua espinha e acalentando um dia tedioso. Mais do mesmo mais pulsante a seu redor.


Dois panoramas dum dia comum, o dia vinte do mês passado. Retratados pela metalingüística palheta prosaica que acaba de se manifestar.