segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Quem nunca se passou por idiota atire a primeira pedra. No primeiro idiota que passar, é claro.



As pessoas só ouvem o que querem. Tão-somente falam o que não querem. E nesse roteiro de tamanho descompasso tragicômico permanecem. Mas não é sobre o batido assunto do lugar-comum e sua desertificante propensão à mesmice que venho cá falar. Tragamos à tona o Deus de Espinoza: é possível se superar tal contradição vastamente individual de que se trata o mundo? A indução ao erro e à repetição, constante redundância e providencial desperdício, são contornos duma integralidade imperceptível por ora? Se os erros naturalmente nos guiam aos acertos, vice-versa acontece mais freqüentemente do que se presume, pode-se concluir; estática é como acaso: caprichos vernaculares pouco condizentes com o real estado das coisas. Até ao usarmos a língua não conseguimos usá-la como queremos. A menos que você ache que as palavras sempre terão o mesmo contexto diacrônico. Talvez se possa inferir uma coisa por ora: deviam proibir religiões e outros credos do pensamento humano de profanar as línguas com seus termos que exigem minúcias com os quais as nuances etimológicas nem sempre estarão dispostas a conciliar. Uma segregação lingüística, por assim dizer. Isso só não funcionou com o latim culto e o vulgar porque ambos... ei, espere, talvez tenha funcionado. Ou não...



E aquelas pessoas que parecem ter nascido com uma forma de raiocínio radicalmente díspare? Aquelas que não entendem nada do que você fala por apreender, e externar o que apreende, de uma forma mais inusitada e catártica. Devíamos parar de perder tempo criando línguas de apelo universal, de sinais acessíveis ou artifícios mais maleáveis, para criar a linguagem da elipse. Um conceito, que pudesse ser aplicado a quaisquer formas de comunicação, que impedisse -- com isso reduzindo massivamente a quantidade de dizeres que falam por si só com muito menos unidades de significação do que acontece hoje em dia -- a possibilidade de se manifestar informações já implícitas, redundantes e desnecessárias. Não sei se uma atitude dessas ajudaria a silenciar os idiotas, ou se isso ajudaria a proliferar as asneiras que estes têm a dizer, mas seria uma atitude interessante de se pôr em prática. Como mencionado no parágrafo anterior, poderíamos também afastar os credos ideológicos e religiosos de porem as mãos em tal artifício. Se eles já conseguem nos enganar com artifícios tão primários quanto o repetitivo léxico gramatizado que utilizamos, imagine o que aconteceria com uma forma de comunicação onde o implícito reinasse. Deve ser por isso que as línguas mortas despertam interesse até hoje: os anagramas, os recursos de rima, devem haver algo do gênero que tenha já sido usado nesse sentido. Ou isso, ou a forma como estas tenham sido gramatizadas tenha sido arquitetado para, de propósito, impedir o acesso fácil dos idiotas aos dizeres restritos da época.



Se bem que negar a compreensão acessível de um discurso aos idiotas nao requer muito trabalho. Mas lacrá-lo em definitivo com suas próprias ignorâncias, sim. As ideologias que o digam, legitimizando ideários utópicos. Mas poderiam me indagar que a redundância é intrínseca a tudo e todos, necessária e às vezes paliativa a uma retidão ditatorial. Bom, difícil é encontrar uma medida certa. Mas, como medidas tentativas, poderíamos cogitar a cota para a idiotice. Pra quê perder tempo criando cotas para negros e pobres? A idiotice não escolhe raça ou credo -- se esquivando de elementos cutucadores de preconceitos --, e merece ser restrita! De que adianta se obter inteligência se há idiotas demais para se repassar apropriadamente as diretrizes necessárias ao bom dandamento das coisas ao redor do não tão idiota que precisa lidar com os idiotas convictos? De que adianta se vangloriar e se julgar pelo material se isso não garante sucessões e resignações pessoais recomendadas? Reparem: o idiota não consegue se resginar a sua infimidade, nunca! É por isso que digo que devemos segregar os idiotas, obrigando-os a usar tatuagens, roupas ou um outra forma de simbolismo, que nos ajudasse a identifiá-los mais facilmente ainda, evitando assim que tarefas complexas não caíssem em tais mãos erradas.



A vida é egocêntrica. E uso tal argumento para atenuar o absurdo do que proponho. Operação abafa em cima dos idiotas já! Poderiam também indagar que a idiotice às vezes é momentânea nos não-tão-idiotas assim. Por exemplo, atitudes ridículas que afloram devido a um raciocínio acidental. E nesses casos, o que fazemos, ó Sersup que tenta não ser leviano com tal post inútil? Eu respondo: emitamos um alerta social! Façamos o acudido pelo bacilo da idiotice momentânea utilizar em seu corpo algum sinalizador de sua pulsante ignorância. Só que, ao contrário dos idiotas mesmo, façamos o não-tão-idiota acudido por esse perigoso mal utilizar o alerta social por um período de tempo determinado. Se a pessoa não quiser passar por constrangimentos ao se utilizar de suas vestes, poderia optar por penas opcionais, como pintar o portão de casa com algum sinal indicativo do apavorante estorvo mental que lhe acomete, ou mesmo restrições dos direitos políticos do sujeito. Talvez iso viesse a colaborar em cheio com nossa combalida Câmara dos Deputados. E se o caça às bruxas proposto por tais medidas viesse a gerar mais um preconceito desnecessário? Preconceito surge por meio de diferenças, e os idiotas e não-tão-idiotas não são diferentes. São iguais de oportunidades e oportunismos diferentes. Esse negócio de politicamente correto é papo de defensores de direitos humanos, que insistem em ignorar o egocentrismo da vida, que mencionei há pouco.



Com esse post, percebam a quantas meu humor andou esse fim-de-semana...

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Raão e emoção: tântricos demais

Não existe razão nas coisas feitas pelo coração (?)*


Orgulho e feridas narcísicas são coisas antitéticas? A responsabilidade afetiva existe ou é mera transferência psíquica? Arquiteta-se uma relação ou o outro? Sublima-se demais o foie gras cultural de sempre, sempre direciona(n)do a uma diretriz comportamental favorável a um dado modelo social, por sua vez favorável a outras diretrizes mais mesquinhas, como as de âmbito pecuniário. Levamos sempre o triunfo de levarmos algo de alguém, por mais que desejemos acreditar que tudo isso seja deletério. É um mérito porque nos aprimora e preenche lacunas que conferem singularidades. Muitos buscam conforto social evitando expor suas singularidades, conferindo a si mesmos rédeas por demais detratoras. Se estandariza, deprecia-se o livre-arbítrio.

Relações sempre cutucam em nossos caprichos de personalidade. Não é para menos. Algo assim, adsorvente. Idealizações que condenam as pessoas a temer ser felizes, ou mesmo que as façam questionar tal conceito de felicidade por causa de oscilações das fruições tanto individuais quanto mútuas. A culpa pelo método de obtenção da felicidade, a inveja pelo que conduz o outro (ou como um precedente sinuoso nisso influi) à felicidade, ou alguma forma de obtenção de prazer sádico de se oferecer uma felicidade para initar no outro um corroedor desmerecimento.

Odiar-se na mesma medida em que se ama. Uma das sádicas injustiças da índole dos homens. Mentalidades e Zeitgeists que põem a máscara de ódio a amores que (talvez?) apenas mudaram de espécie. Quanto à afeição, não há medidas compensatórias, mas sim conversoras. Tanto é que perdões verdadeiros e íntegros não vêm de compensações. Talvez o perdão em si se trate de uma conversão.


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* Usar citação de Renato Russo como título para um post? Nossa, que decadência arrebatadora!... Bom, no mais, pensei em escrever mais, mas, face à acurácia ridícula dos parágrafos desproporcionais acima escritos, é melhor deixar pra lá. Fiquem com o que saiu com desejável fluência desses dedos...

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

De fidelitas homini

[Ainda vou apanhar por escrever coisas assim...]

A índole dos homens para com as mulheres impressiona. Talvez tanto quanto vice-versa, diria. Enquanto há algo no âmago do ser masculino, que justifica com naturalidade a poligamia, há algo no âmago do ser feminino que justifica o companheirismo -- e a interpretação de (e quanto à) reciprocidade (d)nisso --, sob os mais degradantes e instigantes prismas. Mas não me aterei às índoles balzaquianas; me aterei às dos cuecas. Cá cabendo um adendo desnecessário: a inspiração para o post veio das cada vez mais cabeludas e intrigantes histórias de amigos -- e malas do ambiente de trabalho -- sobre a prática masculina de se "aliviar" a pressão requerida pela união matrimonial, em que o declínio de estética e de atração da cônjuge injetam aos poucos amostras dos inúmeros paradoxos do amor.

A "traição" é vista como mero extravasar hormonal pelos homens, aos quais a cruel imposição social do compromisso jamais permitirá que tal conciliação seja aberta. "Traição", aliás, é um dos substantivos que manifestam o repúdio social pela queda de seu arquétipo há muito consolidado. Arquétipos mudam, mas nossa tendência de nos confortarmos com certas garantias que os arquétipos nos proporcionam, nos inclina a repudiar mudança. O que é natural nos mais variados âmbitos. Questão é que a carência humana não se satisfaz com uma pessoa só: vivemos pouco, nos arrependemos muito, e acabamos nos perdendo em meio à afeição e à fruição dissipada. O que se conclui disso? Meras aventuras não dissipam verdadeiro compromisso recíproco. As angústias são necessárias.

Nesse ínterim, seria a fraqueza carnal, pendendo para a quebra do arquétipo social da fidelidade, uma mera quebra de um recalque sustentado pelo arquétipo? Seria justificado o silêncio que muitos homens adotam quando sujeitos ao adultério? Se silenciar perante o rompimento do recalque é o primeiro passo para a naturalização de tal rompimento? Tudo bem que nunca vi, por exemplo, preconceitos serem rompidos por meio de silêncios, mas que estes tornam-se mártires, mais cedo ou mais tarde, isso não se nega. Mas a quebra do recalque requereria a quebra de outro recalque, o impulsionado pela insustentável carência humana, aquela que independe da quantidade de parceiros, e que tem exclusivamente a ver com a constante necessidade de saciação de angústias. Lacaniano é dizer isso, mas inevitável, talvez. O cessar de angústias anularia por completo qualquer relação afeitva verdadeira. Ou seja, a mais absurda, hipotética e completa maturidade perante os motivos que levam quaisquer dos cônjuges às vias de fato com outra pessoa anularia a relação. Não há muito a se fazer, realmente.


Nota mental: apesar de não ter havido muitas oportunidades para o exercício da fidelidade, jamais traí. E não pretende começar! Tive nesse momento a sensação de que valia a pena isso salientar...
Nota mental 2: seria injusto tachar este post de machista. Consiste o machismo em se exacerbar megalomaniacamente a índole masculina? Ou em se degradar mais megalomaniacamente ainda a índole feminina? As pessoas precisam adotar mais ferrenhamente o anti-humanismo...

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Da série: acredite se quiser

Sincronicidades

Você acredita em pequenas associações cotidianas, muitas vezes se passando por coincidências, que acontecem com uma curiosa freqüência em seu cotidiano? É uma freqüência inconstante, podendo ser de minutos, horas, dias, até anos, porque não? Falo aqui de constâncias e percepções. Por exemplo, meu irmão conta que, não raro, ele acorda sempre no mesmo horário, minutos antes de seu despertador denunciá-lo, sempre no mesmo horário. Ontem, por exemplo, aconteceu algo intrigante: enquanto jogávamos baralho na calada da noite, cansados do crescente apassivador conteúdo da web atual, ele, no meio do jogo, diz, após eu embaralhar:
_ Não dê as cartas! Ela está próxima! O Ás de espada é a primeira carta do monte.

Sem duvidar muito, descarto a primeira. Qual a surpresa ao constatarmos que realmente era a carta máxima do jogo a que se mostrava perante nós, recém-descartada no monte. Ele, num misto de previsão e surpresa, afirmara, e essa não era a primeira vez, que às vezes dava pra sentir quando certas cartas estavam se "aproximando". É raro isso acontecer durante uma partida, ele salientava, mas confirmava a sensação de saber quando a carta estava por vir. Eu não duvidei muito porque algo estarrecedor aconteceu certa vez comigo. Foi assim: ele, com o baralho em mãos, me desafia e pergunta:
_ Quais são as três primeiras cartas do monte?
_ Rainha de copas, rei de paus e três de espadas.


Respondi isso imediatamente após a pergunta. Não houve tempo para raciocínio algum. O impressionante é que acertei rigorosamente a ordem das cartas, assim como os naipes. Daquela vez, também foi algo surpreendente. Eu já reconhecerá desde então o poder da espontaneidade da mente. Até acrescentei, após ele ter descoberto o Às:
_ Impressionante. O desafio é jamais pensar, jamais hesitar. A mente sabe muitas respostas.

Tenho razões pra saber que faz sentido o que digo. Para fazer a prova dos nove, embaralho de novo. Fecho os olhos, e divido o monte no primeiro lugar em que sou mentalmente ordenado a colocar o indicador. E pergunto em que metade ele está. Ele escolhe a segunda. Foi mais estarrecedor ainda ver o danado sendo a primeira carta da metade que ele escolhera. Após isso, embaralhei mais umas várias vezes seguidas. Devo ter feito isso às dezenas, pra realmente praticar tal "habilidade". Sim, o ócio opera inutilidades nas pessoas. Em quase todas as vezes subseqüentes, o mesmo efeito se operou. Com o diferencial de que começávamos a observar margens de erro em nossos palpites. Ou vocês acharam que somos mediúnicos o suficiente pra ter encontrado o Às em todas as vezes? Fato é que divergências como, por exemplo, nas vezes em que afirmávamos o Às estar na primeira carta, este às vezes se encontrar na segunda, ou em vez de estar na segunda estar na terceira carta, aconteciam. Assim como a verdade dos opostos acontecia por vezes, como afirmarmos estar na primeira carta do monte e, depois descobrirmos estar no fundo do baralho.
Num certo momento, olho para as cartas que marcavam os tentos da partida que havíamos pausado há tempo, e conto: onze tentos meus mais dezessete dele dão... vinte e oito! Que acontece de ser exatamente o número de cartas que havia no monte. Para as partidas, descartáramos reis, rainhas, valetes, oitos, noves e dez. Ou seja, um baralho "limpo" para a partida. Mas isso ocorreu apenas nas primeiras vezes em que eu embaralhara. Para aumentar o desafio, mais tarde ele sugere que coloquemos as outras vinte e quatro cartas que ficaram de fora. A partir disso, ficou interessante as tendências estatísticas se misturando a supostos acessos psíquicos, como de se esperar, se confundindo por vezes com caprichos do campo das possibilidades. Pouco antes da gente parar de jogar pra perder tempo encontrando o cobiçado Às, durante a partida ainda, ele falara, antes mesmo de eu entregar as cartas:
_ Dessa vez o Ás é meu! Ele está chegando...

O que aconteceu? Eu saí com as melhores cartas do jogo, exceto o fatídico Às; o danado foi parar na mão dele. Soltei o escorpião premeditadamente. É, baralho à noite é o que há, como se percebe. Enfim, quando desenvolvermos a técnica o suficiente, compraremos nossas passagens pra Las Vegas. Não precisaria viajar tanto, se nosso amicíssimo promoter do crime organizado -- e comendador nas horas vagas -- não estivesse preso. David Blaine, tremei!...

domingo, 4 de setembro de 2005

Fuga duma tarde dominical por meio duma soneca no sofá. Tudo voltara ao normal a partir do cerrar dos olhos. O antes se prolongava imediatamente após a deleção do depois. Um encontro imediato. Sem palavras. Imagens sempre turvas. Relances. Cenas inexplicáveis. Subjeção máxima. Um bom encontro rememorado, revisitado. Meio espinoziano isso, mas foi. Estava eu, inesperadamente me abrigando no antes. A pausa, o rompimento, o lacrar hermético que o pesar faz de pequenas porções do destino. Meia hora depois, o antes se esvai num clarão de abrir súbito de olhos. Era a campainha. Não interessa quem era. O antes que eu pude voltar a abraçar por poucos minutos se foi. Um antes momentaneamente coexistindo com o depois, num relance sumário o suficiente para eu não ter conseguido quebrar, com uma lógica qualquer, o momento. O nada de invejar budistas voltou. Um nada que vem sem bater. É de se questionar a função social dos adeptos de meditação.

Algo parecia começar a dar errado. O que se presumiu por uma espécie de reprimenda que eu traduzia pelas imagens que se confundiam com efemérides inconscientes. Jamais terei a resposta. E não a quero. Quero aprender a me esquecer, mas isso todos já disseram a si mesmos com palavras diferentes. As mágoas nos fortalecem até demais; tornar-se seco e arredio não é algo aprovável. Nada nos prepara para nós mesmos. Nem para o resto do mundo, mas quanto a este último, é estatisticamente esperado algo negativo. Mas de nós mesmos? E quando começamos a esperar o negativo de nossos eus? Quem se torna responsável e dono majoritário do que se tornou? O mundo ou nós mesmos? A troca não termina. Mas a moeda de troca, sim. O que se faz com os trocados? Trata-se de garantir a permanência d'algum pedinte na rua ou guarda-se consigo? Cara ou coroa? a questão é que tudo isso não vale nada. Se realmente valesse, não estaria relativizando tanta coisa com uma metáfora barata com moeda de troca.
Porque o Brasil é um país fora de série?



Em que outro lugar os intelectuais perderiam seu tempo escrevendo sobre países do Leste europeu que poucos já ouviram falar, como Chico Buarque fez, sem sequer ter pisado lá, uma vez que fosse, enquanto escrevia a obra? Tá, tudo bem que Shakespeare fez a mesma coisa com seu Hamlet, mas é tão lugar-comum assim escrever sobre o próprio país? Quem devia ter feito isso era Eça de Queirós e sua Portugal poeirenta. Nos livros do cara, a capital do país peninsular parece um tijucal gigantesco! Não me acusem de ufanismo, vai: sei que há escritores cuja verve reside em escreverem sobre lugares e nuances da vida que desconheçam, mas o Chico, hein, o que dizer disso? E depois falam do Paulo Coelho e suas andanças por santiago da Compostela...



Cultura da ascensão. O que quero dizer com isso? Em quaisquer instituições nacionais, se um integrante realizar seu trabalho de forma deficitária, ele não é rebaixado para um cargo inferior (como em outras nações), apenas raramente é exonerado ou afastado de sua função. Seja nas forças armadas, seja no serviço público. Convite para a preguiça, ora! Isso sem falar na ausência de cobrança de retorno por parte do trabalho executado pelas pessoas pagas pelo Estado. Quem estuda em universidades públicas sabe o que quero dizer quando se descobre que o feladap*** daquele professor viaja bem no meio do ano letivo e emperra todo seu cronograma.



As pessoas perderam a capacidade de se indignarem há tanto tempo que amostras disso residem na língua até hoje. Expressões como amigo da onça, 171, laranjas, pistolão, o que é isso companheiro, e até mesmo o recente mensalão, não me deixam mentir.



Nosso gentílico não é um gentílico. O mundo inteiro respeita a forma gramatical correta, e diplomática também, de se referir à nossa nacionalidade, menos nós mesmos. Brasileiro é cortador de pau-brasil, e não nacionalidade! Da mesma maneira que cafeeiro e canavieiro não são nacionalidades! Peruanos são peruanos, e não perueiros! Perueiros são aquela categoria de motoristas sindicalizados que vivem de rusgas pelo transporte público paulista. E só!



Travamos somente relações pacíficas com o mundo civilizado, e o que recebemos em troca? Trabalhadores mortos em metrôs londrinos, diplomatas mortos em guerras infundadas no Oriente médio, vítimas de atentados em nações muçulmanas como a indonésia, e eventuais assassinatos em megalópoles mundo afora. Realmente, somos sempre passados pra trás na diplomacia internacional. Podem até cravar um míssil no Cristo redentor que seremos incapazes de esboçar alguma fúria patriótica perante fatos indignadores como esses. Não duvido se gente como Enéas se elegesse nas próximas eleições. Se o Aqui Agora ainda existisse, talvez ele tivesse chances. Como aqueles vereadores de cidades interioranas que têm seus próprios programas de tevê. Tudo bem que não precisamos de toda uma apreensiva atenção internacional pelas nossas costas por causa de plantas nucleares ínfimas, mas talvez a galerinha do mal viesse a pensar duas vezes antes de confundir brasileiro com turco. Tá na hora desse povo pegar o Expresso da meia-noite...



O povo sabe o hino de seu time favorito de trás pra frente, sabe o número de seus documentos pessoais de cor, sabe quem foi eliminado no Biguebróder da semana passada, mas não sabe o Hino Nacional. E os que sabem tem de passar por gafes imperdoáveis como, durante apresentações das medíocres atletas nacionais de ginástica rítmica, ver -- melhor, ouvir -- estarrecidos, a fita tocando o Brasileirinho, durante a obviamente modesta performence de Daiane, engasgar bem no meio da apresentação. O jeitinho brasileiro não foi feito pra ginástica, meninas, aprendam isso. Não é com a criação de movimentos esdrúxulos, do qual ninguem se lembrará o nome, como o tal do twist carpado, que voces levarão a melhor quando quiserem se rastejar por medalhas olímpicas. Leônidas criou a bicicleta, mas nem por isso venceu alguma copa do mundo. Realmente, brasileiro adora fazer espuma. Embora seja contraditório o chopp da marca de cerveja favorita dos brasileiros ter a pior espuma -- e não somente a espuma -- de chopp. Isso sem mencionar que nenhuma das marcas de cerveja nacionais têm nomes que remetam à cultura nacional. Que recalque cultural é esse? Tudo bem que não precisam rebatizar Malt 90 de Macunaíma, por exemplo, mas me dêem um tempo, pelamordedeus!



Campanhas do governo: é pra rir ou pra chorar? Pra citar as mais recentes: eu sou brasileiro e não desisto nunca? Dê um bom exemplo? Porra, o povo já é subserviente por natureza; pra quê reafirmar essa característica deletéria do povo por meio de vinhetas assim? Tinha que ser coisa dum presidente igualmente subserviente. Seria subservência a característica reprimida mais marcante duma oposição que não sabe ser governo? Não somente da ex-oposição, garanto. De qualquer âmbito cultural, isso sim. Os suecos falam tupi melhor do que nós, o que é pior. Há alguma coisa muito errada aqui. E esta só é a mais óbvia.



No país que se arrasta como uma eterna promessa, é normal se observar que apenas as áreas mais passíveis de serem usadas como rédeas às massas recebem investimentos eficazes do Poder Público. Urnas eletrônicas? Declarações pela web? É, pagar sempre será mais fácil do que receber, nesse caso...



Identidade nacional? Tá, percamos nosso tempo valorizando o esforço da galerinha do Romantismo do século XIX nesse sentido, mas levemos em consideração que isso somente foi possível porque nosso país ainda não tinha virado celeiro de refugiados em massa de guerras. Num país cheio de brancos, negros, amarelos, cafuzos, mulatos, e querem me falar de identidade nacional? Querem considerar o padrão Grobo de qualidade como identidade nacional? Não dá pra engolir essa. O que é normal: é difícil engolir qualquer carioca que seja. Mas o fato é que isso é feito com qualquer país grande. A diferença do Brasil-il é que os gringos conhecem nossa curtura melhor que a gente, e tiram aquela casquinha disso. Porquê? Porque somos diferentes demais para nos concebermos como uma demografia possível de possuir uma noção de coletividade. Diferentes ao ponto de ter de aturarmos piadas internas como a causa separatista gaúcha. É nisso que dá considerarmos semiargentinos como brasileiros...



Escrevo esse post a três dias do dia 7 de Setembro. O quê? Não se lembra do que essa data representa? É compreensível: no país com a maior concentração de feriados do mundo, encontrar um feriado que rememore a soberania nacional em meio a tanto tempo de ócio torna-se difícil. Não precisam nos nesinar o hino nas escolas. Precisam é nos ensinar o orgulho nacional. Precisamos de mais Policarpos Quaresmas. Eles existem em lugares do mundo muito piores do que o desigual Brasil. É vergonhosos não os termos...



E lembrem-se: vocês não são brasileiros! A menos que vocês sejam bóias-frias cortadores de pau-brasil, aprendam a repudiar tal estorvo de nosso patriotismo!

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Ilustre desconhecido

No Msn:

_ Oi, como está?
_ Estou bem.
_ cara, você estava mal na vibe, hein?
_ Como é que é?
_ É, nunca te vi tão chapado...
_ Hmm...
_ Que substância te deram aquele dia? Você estava num estado execrável!
_ Mas eu nem fui à vibe! Preferi ficar em casa...
_ Ahn, quem é você?

Ao telefone:

_ Alô, quem é?
_ É o Fulano!
_ Quem?
_ Fulano!
_ Ah, tá. Você ligou pra mim?
_ Não...
_ Não liga não, é que sou curiosa, mesmo.
_ Olha, desculpe a pergunta indiscreta, mas quem é você, mesmo? Você falou um pouco rápido...
_ Iara.
_ Hmm...
_ Conhece alguma com esse nome?
_ Não, que eu saiba, não.
[silêncio constrangedor]
_ Bom, só liguei pra isso, mesmo. Como disse, sou curiosa. Espero que não se importe.
_ Sem problema...
_ Então tá, tchau...
_ Tchau.


Nota: cá cabe uma mensagem interna: esse diálogo ocorreu com uma caloura do meu curso. Pena que a faculdade está de greve; gostaria de ver a cara de consternação dela no dia seguinte... Especificamente, a gafe do Msn rolou em meu horário de trabalho. O comentário que solto no momento:

_ Gente, acabo de descobrir que consigo ocupar dois lugares ao mesmo tempo no espaço! Subverti as leis da física pelo msn!
_ Como assim?
_ Me viram num lugar em que sequer estive!


A segunda gafe, acreditem se quiser, ocorre segundos após eu sentar nesta cadeira e começar a ler meus e-mais, ruminando sobre alguma coisa pra escrever no BR. O telefone toca e a Iara, amigona do peito, fala comigo. Aliás, eu poderia ter tirado uma boa casquinha de amb'os eventos. Nossa, como eu desperdiço momentos de falha de comunicação... E lembrem-se, crianças: se errarem o número de telefone, ou não reconhecerem algum contato do Msn, pode ser Fulano errando pelas mídias. E um conselho às meninas: jamais, nem se alguém estiver te torturando com métodos manjados como arrancar unhas, façam perguntas incisivas e idiotas como "quem é você?". Pior do que cometer gafe, é autenticá-la em cartório com perguntas assim. Saibam disfarçar. Não pensem que tentar disfarçar suas personalidades ardilosas com suas ironias baratas lhes dá o direito de relaxar quanto a outras abordagens. Agora, pra rebater meus argumentos, obviamente impulsionados por algum desaforo feminista, vão procurar alguma porta-voz do sexo feminino pra se defenderem com algum exemplo vago. E, claro, evitem o Msn. Ele parece não ter sido feito pra vocês, depois de algumas abordagens constrangedoras de que sou recipiente... A menos que Tio Bill lance uma nova versão do IM com funções como 'Geradores de frases feitas' (tipo o inútil Autotexto do Word, pros mais entendidos), poupem-se de crerem que alguém considere interessante o que vocês fizeram no final de semana.

Mas tudo bem, digamos que eu cogite em perdoar as omissões das meninas quando por detrás duma tela de computador. Ainda fica sobrando a incapacidade da parte delas de manter uma linha de pensamento, ou um assunto. Como se fosse num tête-à-tête, e ela quisesse disfarçar sua total indiferença perante sua promoção na companhia, por exemplo, reclamando duma dor inexistente. Droga, nem a web nos poupa disso. Deviam fazer versões do Msn com polígrafos, agora que isso me ocorre. Em todo caso, gente sem papo, enfim. Que apaga dezenas de linhas de texto com medo do que o desocupado que agüenta suas ladainhas virtuais em pleno Sábado à noite virá a pensar. Sim, aquela função na barra de status de "fulano está digitando uma mensagem" do IM do Tio Bill é genial. Dedura na hora os inseguros e hesitantes. Sem falar a anabolizada que dá nos diálogos: coisas que jamais se diria naturalmente fluem em bytes. O que é totalmente aprovável, não fosse poder se tratar de mais um artifício de que elas têm em mão para soltarem infindáveis condescendências e perigosas amostras gratuitas de afeto que nem sempre a mensagem "fulano está digitando uma mensagem" consegue reter. Até em relação a saber hesitar as pessoas podem ser frustradas. Que mundinho mais da pá virada...

Cara, mas que idéia brilhante a minha, a dos polígrafos. Melhor que essa, só se utilizássemos alguma técnica behaviorista de estímulo repulsivo durante a conversação, como choques emitidos pelo laser óptico do mouse, ou mesmo a abolição de teclado, como proposta por uma antiga propaganda da Motorola, que apregoa a futura utilização dum microchip na testa. Se tal invenção proporcionasse uma leitura mental, algo não tão ficcional, ou mesmo, algo mais pé no chão para o momento, como transmissão em áudio, seria demais! Seria a revolução das pegadinhas virtuais que criam celebridades, por infames meios, web afora. Posso mencionar a mobilidade social que o IM dá a pessoas casadas, em contrapartida ao post que escrevi sobre o casamento, de título Contratos. O efeito coleteral é as novas gerações terem de agüentar as incessantes perguntas dos pais quanto àquele artefato ultrapassado, com uma tevê esquisita e dezenas de botões pouco intuitivos numa tábula rasa. Até os filhos explicarem que se trata dum computador...

E chega de arrogância por hoje!