sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Fatoemocionante do dia

(percebam a ironia, sim?)

Ainda no escritório, chegam alguns estudantes do Médici, pela avenida, protestar contra a corrupção, tendo entre algumas das reivindicações a cassação dum deputado. Detalhe: eles foram à Câmara, ao órgão errado. Inauguraram uma Assembléia novinha anteontem e esses pé-rapados vieram perder tempo protestando num prédio centenário, caindo aos pedaços. Pra quê? Pra não encontrarem nenhum parlamentar em pleno dia de sessão e, cansados de brincar de mudar o mundo, irem embora, descendo a avenida, vinte minutos após terem chegado. Foi simplesmente patético. O engraçado foi o que me contaram depois. Algum assessor ligou para os parlamentares, avisando que o protesto fajuto acabara, e aí sim a galera do colarinho branco voltou pra Casa de leis. No mínimo, patético.

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Jota (II)

_ Madalena, precisamos conversar!
_ Que foi? Não gostou dos sintetizadores que preparei pro nosso novo hit?
_ Não há 'nosso'! Você saiu da banda, lembra?
_ Neca! Você me expulsou! Ficou com inveja de minha verve criativa...
_ Sabe que isso não é verdade! Sabe que a galera estava me isolando por o vocalista ter dormido com a tecladista...
_ Pô Jota, melhor isso que tablóide questionando tua orientação sexual!
_ Nós não devemos satisfações a ninguém!
_ Ah, é? Então porque o chilique quanto ao nosso videozinho caseiro?
_ Não me venha pagar uma de Yoko! Aliás, era exatamente sobre isso que ia falar: o que você estava pensando? Me gravar em momentos constrangedores como aqueles!
_ Jota, falando assim vão achar que o vídeo é montagem!
_ Já disse: não devemos satisfações a ninguém! Não precisamos disso, afinal "nada me faltará"...
_ Essa tua mania de citar suas próprias letras para justificar suas conivências é irritante! Afinal, você é pastor ou profeta? Pra usar esse lençol manchado, pastor garanto que não é! É impressão minha ou é muita coincidência o dízimo da Universal ter surgido após as bravatas de Marx?
_ Talvez esse fosse um pastor frustrado... arrebanhar pessoas prometendo igualdade entre os povos é algo que nem eu proponho em minhas letras. Proponho é um feudalismo de consciência. Faça o que digo, faça o que faço...
_ Não seria 'faça o que digo, mas não faça o que faço'?
_ Não, é isso mesmo.
_ Você realmente cita isso em suas letras?
_ Na edição revisada de minha discografia, omitiram esse trecho com alguma falácia cabalística tendenciosa a uma interpretação mais edificante.
_ Deve ser por isso que não havia correntes na época de criação de sua banda: bastava ler seu material de conteúdo solidário -- pras massas não perceberem sua constante perdição e idolatrarem uma versão hebraica da dita litertura de cordel --, e escrever as irresponsabilidades das egoístas verdades por meio de entrelinhas como a tal da cabala, vá saber. Se a Madonna crê nisso a ponto de ter alterado seu nome de batismo, é sinal de que a falácia funciona.
_ Mentir enquanto se ironiza o irônico deixa qualquer um perdido...
_ Sim, desde sempre traduzor-se as letras de músicas é um crime.
_ Não tão condenável quanto divulgar ao mundo todo minhas intimidades...
_ Pense bem: adultério, luxúria, gula... um monte de coisa é pecado capital. Voyeurismo não é. Seus seguidores não foram gratuitamente induzidos ao pecado, relaxa...
_ Bom, isso é verdade... ei! Você é boa em distorcer certas verdades, não?
_ Distorcer? Não é para tanto...
_ Imagine se eu previsse doidos como Sade e Freud na letra em que falo da vez em que os céus me passaram aquele trote estranho da cruz?
_ Céu?
_ Sim, a república em que morei... então, se eu previsse esses caras no momento em que escrevi a letra, só faltariam interpretar que os pregos em minhas mãos se tratavam de algum tipo de "prazer divinamente permitido", justificados por dissipações humanas teorizadas, usadas por meio de termos como sadismo, complexos, erotização do objeto...
_ Se você tivesse dito isso antes, no vídeo, eu poderia ter...
_ Rá, rá, muito engraçado...
_ É impressão minha ou você é cover do INRI Cristo, aquele mendigo paranaense esquizofrênico?
_ Quem se alça ao estrelato por meio de covers é ex-participante de reality show! Eu ainda tenho amor-próprio a meus ouvidos...
_ Sei. E que conversa foi aquela de "quem nunca errou que atire a primeira pedra", que você cantarolou no último show? Nunca levei tanta garrafada na minha vida...
_ Eu sei. Bando de bárbaros, sequer se preocupam em reciclar as latinhas...
_ Como é que é?
_ Mas falando sério: quando a gente vai se casar?
_ Primeiro, você vai me explicar aquele teste de gravidez que encontraram em meu quarto ontem...
_ Se você é tão profeta assim em suas letras, queria ver se você previria isso, mas vejo que falhaste, hehe...
_ Minhas letras refletem os caminhos em círculos da contradição inerente aos homens...
_ Era mais fácil você ter respondido que usamos proteção naquele dia do vídeo...
_ Tem razão. Bastava eu ter manipulado sua vontade de procriar, afirmando que queria ter filhos, na verdade não querendo, para que transferisse para ti a fase de negação, enquanto eu ganhasse tempo pensando numa forma de sumir e não assumir o suposto garoto...
_ Deixe para a Literatura essas tragicomédias amorosas, sim?
_ Nossa, eu deveria escrever uma letra sobre isso...
_ Pois é, né? O povo deve pensar que você é eunuco, com essas letras isentas...
_ Mesmo eu pagando uma de Suíça, sempre tem neguinho querendo me recrucificar pelas interpretações ingênuas que fazem de minhas letras...
_ Como se achassem que suas letras fossem obrigadas a isentá-los também, não?
_ Pois é...
_ Mas se tem uma coisa de que não se isentarás tão fácil é da paternidade do filho que espero de ti.
_ Você não está grávida, dona!
_ Como sabe, senhor onisciência?
_ Digamos que trata-se do Eu lírico que incorporo enquanto componho.
_ Ah, é? Pois então profetize alguma coisa...
_ Hum, vejamos. Em verdade vos digo: alguém me trairá no dia da ceia.
_ Boa desculpa pra evitar conhecer meus pais, mas não vai funcionar comigo!
_ Porque será que omiti isso nas letras semiautobiográficas que escrevi recentemente? Mecanismo de defesa?
_ Talvez pra evitar a estética pagã de textos como esse...
_ Pô, eu até que curtia os baratos que os celtas e os gregos criavam. Toda uma aristocracia religiosa com membros humanamente egoístas. Antes de meus fãs xiitas se terem dado ao trabalho de depredar e eliminar tudo sobre isso que viam pela frente, claro. Mas admiro o trabalho desses caras; não gosto muito de dizer isso, mas até que meus acessos aforistas são maneiristas, quem diria.
_ Nossa, estou impressionada! Eu namoro um Engenheiro do Hawaii que se orgulha de escancarar sua mediocridade com citaçõese referências escusas. Preocupante, preocupante!
_ Poupe-me de seus sarcasmos...
_ Não se preocupe: sarcasmo é o que farão com suas letras quando você partir! Só de imaginar os covers lamentáveis que perderão seu tempo querendo ser você...
_ Bom, a Yoko deve saber disso melhor que ninguém...
_ Não me compare a orientais como ela que foram capazes de acabar com bandas que se julgavam mais famosas que você!
_ Eles realmente pensavam isso? Preciso conhecer o agente deles...

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Jota

_ Pai, tô saindo.
_ Ah, é? Pode passar pra cá a chave do carro. Às minhas custas você não vai!
_ Nem queria ir de Brasília amarela, mesmo...
_ Ah, mais uma coisa: filho, corte esse cabelo...
_ Nem se quisesse o poderia: faz parte do figurino!
_ Sei. Figurino de quê? De presépio? Onde pensa que vai? Ao cabeleireiro?
_ Não percebe? Vou juntar doze amigos e formar uma banda.
_ Posso saber qual o nome?
_ "Os Doze Apóstolos"!
_ Bom, pelo menos não é uma companhia de teatro com peças que interagem co o público. E tocam o quê? Música gospel?
_ Ora, como em toda música boa, nós profetizamos em nossas, digamos, letras.
_ E realizam milagres a olhos vistos, também?
_ Bom, isso depende do agente que a gente conseguir contratar... e do orçamento que conseguirmos para nosso democlipe!
_ Como pretendem começar? Transformando água em vinho?
_ Pelo que rola nas turnês, mais fácil transformar vinho -- barato, é claro -- em água, de tanto batizar.
_ Sei. Vocês têm um público cativo, ao menos?
_ Sim, mas estranhamente nossos fãs só nos ovacionam em lugares ermos cujos pais só sabem batizar seus filhos com nomes cabalísticos.
_ Bom, antes que me esqueça, vou te avisar: o Judas ligou. Queria falar contigo.
_ Putz, ele de novo? Já cansei de falar a ele que não precisamos de um tocador de banjo. Muito menos de alguém que toque acordeão!
_ Bom, com doze integrantes, vocês estão mais pra banda de pagode! Vai caber todo mundo no palco?
_ A gente reveza em alguns casos. Pra não desmantelar o palanque alugado, sabe como é. Se bem que os ataques de estrelismos do Pedro estão começando a tirar a gente do sério: ele se recusa a descer do palco! Um dia a gente fratura a costela por ausa dele...
_ Mas porquê insiste nessa vida de andarilho metido a profeta e messias, com mais doze idiotas de sua faculdade que acham saber tocar instrumentos de corda e percussão? Quer pagar uma de Don Quixote, é?
_ O Don não tinha seguidores, tinha apenas a seu escudeiro mercenário.
_ Ele pelo menos não tinha uma banda...
_ Há controvérsias. O cara era chegado em novelas de Cavalaria. Estes, por sua vez, eram chegados em trovas, vassalagens amorosas. Vai me dizer que nunca passou pela sua cabeça que o Don e o Sancho não pudessem ter sido cancioneiros? Ou seja, eu e o Don temos mais em comum do que você pensa!
_ Em todo caso, o trabalho aqui na carpintaria está acumulando cada vez mais. Duas mãos a mais seriam bem-vindas...
_ Mas pense bem, pai: que há de edificante ficar o dia inteiro trabalhando com madeira? Se eu não fosse um profeta, já teria soltado uma piadinha de duplo sentido sobre este ingrato ofício.
_ Bom, seja qual for o que você escolha fazer de sua vida besta, eu darei apoio. Mas saiba que não concordo com esse estilo de vida, sem raízes.
_ Sei que no momento nossa banda não parece muito promissora, mas nós vingaremos um dia. Lhe garanto.
_ Mas a banda não dá grana sequer pras suas próprias roupas. Pra quê você improvisou o lençol do meu quarto como túnica?
_ Nossa banda prega o desapego às coisas meteriais em suas letras. E o lençol representa isso propriamente. Até lavei antes de usar, mas não consegui tirar essa mancha bege aqui atrás...
_ Caham! Bom, não se preocupe com essa manchinha. Mas esse papo de desapego me parece coisa de hinduísta. Incluiria esse desapego o repúdio a pecados capitais como a luxúria?
_ Que quer dizer?
_ Nada, nada, é que encontrei este teste de gravidez em seu quarto, no cesto de lixo.
_ Bom, deve ser da...
_ Não, não é da sua irmã: ela está viajando! Só pode ser da Madalena!
_ Rê, rê, digamos que foi uma groupie que eu trouxe pra cá ontem...
_ É mesmo? Então poderia me explicar porque eu recebi por e-mail um vídeo, gravado com nossa webcam, de você e ela estreando minha cama de casal?
_ Ai, caramba...
_ É, essa é uma das desvantagens de ser um profeta: sua palavras de salvação correm o mundo mais rápido do que você pensa!
_ "Se lhe batem no rosto, dá a outra face", já eu dizia em minhas letras.
_ Depende de que bochechas você esteja se referindo. As rosadas do rosto ou as rosadas das...
_ Pai!!!
_ Queria o quê? Nunca se sabe quando a moça é chegada num...
_ Já chega! Pare de profanar um messias da música como eu!
_ Ai meus sais! O Iron Maiden, o Kiss, o Black Sabbath, os Stones e vários outros eram cabeludos, tinham banda, mas nem por isso pagavam uma de videntes.
_ Mas claro! Eles compunham letras pro carinha dos chifres. Propunham um hedonismo que nossa banda não aprova!
_ Vocês não aprovam orgias, overdoses e bebedeiras homéricas?
_ Não, não aprovamos os andrajos oitentistas que eles usavam! Que era aquilo! Queriam pagar uma de Batman com aqueles patágios cheios de tachinhas... já tive fantasias de carnaval melhores no pré-jardim!
_ O que o faz pensar que suas letras e suas atitudes no palco não simpatizam com o carinha dos chifres?
_ Bom, a gente prefere uma carreira sólida, calcada com uma invejável discofgrafia e anos de estrada. Já eles preferem carreiras inaláveis...
_ Ora, você entendeu o que quis dizer... responda!
_ Usando uma resposta machista, diria que o carinha dos chifres jamais faria melhor utilidade da costela de Adão do que o carinha que não gosta de chifres, se é que em entende...
_ Melhor ou pior utilidade?
_ Bom, depois do vídeo com a Madalena, fico na dúvida, admito.
_ Perceba a promiscuidade com que se enveredará, filho! Quer mesmo pagar uma de navegador português e deixar herdeiros ilegítimos por todo o mundo?
_ Falando em herdeiros, e aquele exame de DNA que encomendamos ano passado? Não chega nunca? Ou você quer que eu continue acreditando na história da cegonha e dos três veterinários que vieram para realizar o bizarro parto? Isso sem mencionar o local em que vocês dizem eu ter sido concebido: uma manjedoura? Ao lado de animais campestres? Não dava pra ter pago um plano de saúde na época, não? Minha vinda ao mundo foi tão inesperada assim pra nao ter dado tempo de encarar uma fila, nem que fosse no PS?
_ Filho, vai logo fazer a porra do ensaio da tua banda. Toma a chave do carro.
_ Hehe, funciona toda vez...

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Só o belo é espuma?

Há gênios na ciência. Há habilidosos na arte. Confundir leva à pieguice. Ter habilidade com versos não faz de ninguém um gênio. A inteligência não é una. Quando se faz um ensaio científico, não se tem compromisso com habilidade; tem-se apenas com o objeto científico. O que explica enunciados de pouca lapidação estética que dificultam o acesso à maioria ao conhecimento estabelecido. Seria a habilidade do artista bem-vinda à ciência? Sob pena de se vangloriar em excesso uma criatividade leve e involuntariamente condescendente como a beleza, não. A menos que ainda vivamos no Renascimento. Talvez isso explique porque certas são línguas sejam mais poéticas, e outras, técnicas. Sabe-se que isso é diretamente ligado à índole dos povos falantes. Povos que admiram as artes adornam mais seuz dizeres; os que admiram a funcionalidade e a evolução material, nem tanto. Se bem que em línguas como o japonês se observe um estarrecedor adorno à maneira de se usar os números. Só um exemplo de sugestivas contradições do que acabo de dizer.

A menos que um dia se intencione cientificar a habilidade, de cuja base artistas não são capazes de revelar, a habilidade do artista não ser bem-vinda à ciência será sempre algo válido. Mas não adianta se cientificar o belo com base num arquétipo; esse é fruto de um fenômeno sociocultural anterior e presente ao mesmo tempo. E artificar o científico? Se pudéssemos enxergar uma beleza intrínseca a uma teoria científica, perderíamos menos tempo pesquisando regiões inúteis dos diversos ramos do conhecimento humano? Creio que não: há quem admire o feio em detrimento do que é mais amplamente admirado como belo. O belo do conhecimento que engrandece e salva pode se mostrar o mesmo conhecimento que denigre e extermina. O belo, pelo jeito, não admite bipolaridades. Embora dualidades sejam fontes de beleza, seja por como se repilam ou por como se unam, o belo não está em ambos, nem fora de ambos, nem entre ambos. Onde estaria então? Ao mesmo tempo nos três? Isso invalida tudo que disse até agora...

Mas como não desisto fácil de divagações assim, persisto. Se equiparamos o artificado e o cientificado do passado e do presente, obtemos uma média ponderada para o belo futuro? Levando em conta que o conhecimento dum belo íntegro nos levaria a uma busca muito mais eficaz por uma integridade artificada e/ou cientificada. Respondendo sozinho, claro que não. Nada que ainda não surgiu pode ser presumidamente íntegro por simplesmente se desconhecer seus efeitos antes mesmo de se conhecer suas qualidades e defeitos. Qualidades e defeitos: um belo de dois gumes (?). Efeitos: a conseqüência necessária a qualquer coisa, a relevância obrigatória a tudo, do mais duradouro ao mais efêmero, se separa da dualidade há pouco citada ou se junta a esses formando uma tríade pouco abordada? Precisamos de tantas dualidades assim? Se é que devemos pressupor um belo. Dizem que os defeitos que presumimos nos outros não estão nestes, mas em nós mesmos. Me lembrei disso ao me sugerirem a seguinte dinâmica: peça àlguém para anotar, em uma folha de papel, seus defeitos pessoais, e em seguida entregue o papel a um amigo, afirmando que os defeitos listados no papel são seus, e peça a opinião de quem receber o papel. Talvez o mesmo ocorra com a cientificação indireta que fazemos do belo.


Mais um para a série: posts em que não consigo criar um desfecho merecido.

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Classificados

_ Que tal esta?
_ Nananina! Ela cita Florbela Espanca em seu perfil. Cansei das complicadas e perfeitinhas.
_ O que há de perfeitinhas em quem cita Florbela?
_ Bem colocado! Essas são só complicads. Perfeitinhas são as que citam Fernando Pessoa ou outro trechinho clichê qualqur da literatura.
_ E esta?
_ Esta revira violentamente com um dos sete pedacos capitais.
_ Porquê?
_ Se o vizinho compra algo que você sempre quis, não pode fazer bem você ficar vislumbrando-o toda hora, sdob pena de ser corroído aos poucos pela cobiça, não é mesmo?
_ Issaê.
_ Com as ex-paixões platônicas, se sucede o mesmo. É produto fora do mercado. Como se não bastasse a propriedade alheia, ela é tombada: mais ninguém obtém!
_ Você é corretor de imóveis?
_ Não, mas sei como embargar certos latifúndios improdutivos...
_ Nossa, que piadinha infame!
_ Bom, e esta?
_ Não está olhando diretamente pra câmera ao tirar foto, tentando dissimular aquela carinha blasé, curvando a cabeça a 45 graus. Com certeza é ninfeta querendo parecer mais velha.
_ Hmm, tô fora.
_ Esta aqui, nem me pergunte. Altera sua descrição toda semana. É tão ruim quanto, ou pior que as que citam Florbela.
_ Sim sim, daquelas que o salto é alto a ponto de cambalearem de insolação pelas ruas tortuosas de suas vidinhas esparramadas.
_ Esta é do tipo que finge hesitar falar de si mesma.
_ Estas não são exatamente complicadas, mas são perfeitinhas de dar culpa só de olhar. Daquelas que ovacionam os amigos, a família, te fazendo sentir um erro de sistema.
_ E as que tiram fotos ao lado dos sobrinhos, dos maridões, ou mesmo das amigas?
_ São as que realmente consideram suas vidinhas simplórias um livro aberto. Malandra que é malandra jamais convida namorado e amigos pra sites assim. Pra quê? Pra receber, ao menos uma vez por dia, mensagens constrangedoras, desejando simples bom-dias e finais de semana, camuflando uma insegurança irrefutável? Esse papo de "defender território" é de quem realmente não acredita na besteira que fez. Tipo artista que se arepende de ser famoso, sei lá. A exposição não cessa.
_ O que você acha das que transformam suas páginas pesoais em books?
_ Felizmente, a maioria não aspira às passarelas. Aspiram apenas ao próprio ego. Á imaginação de instigarem olhos alheios com efeitos de luz de encher os olhos.
_ Bom, estas ao menos servem para sempre se confirmar que existe alguém muito melhor do que aquela que azucrina com sua cabeça a troco de tão pouco...
_ Irrisória racionalização como mecanismo de defesa, mas talvez seja melhor do que nada. E esta aqui, citando Veríssimo e umas letra do Ira!?
_ Minha nossa, se se indignou com isso, então não vasculhe as comunidades.
_ E essa aqui que usa personagem de anime como foto?
_ Grande possibilidade de curtir cosplays também. Imagine sair com alguém que gosta de se vestir como a Sailor Moon? Se bem que eu meio que pareço personagem da Hanna Barbera e niguém fala nada! Ou melhor, não tanto quanto poderiam...
_ Bom, esta aqui é contra tudo e todos com suas edificantes mensgens em inglês chupinhada das letras de sua banda favorita cujos integrantes mal enxergavam os instrumentos em suas mãos devido às altas doses de heroína...
_ Sumariamente descartada: pedantismo demonstra o oposto de nirvana. Não a banda, mas o estado espiritual.
_ Esta aqui não retém seus acessos de egocentrismo.
_ Essas são as mais engraçadas. Olhe as fotos dela e entenderás porquê. É quase um desenho animado! O gestuário, o estilo poser de ser, a total crença em ser demais... as meninas sem medo do ridículo são as melhores!
_ Porque elas não se levam a sério?
_ Pelo exato oposto!
_ E as que ostentam um confiante sembante na foto de seus respectivos perfis?
_ Comprometidas, sempre. Ou isso ou são aquelas balzacas paulistas que medem sua fibra pelo emprego que possuem.
_ De fato, o compromisso possui um efeito muito curioso nas meninas. Como uma missão cumprida.
_ É, tipo o Iraque: o fim oficial do conflito armado foi anunciado no ano retrasado, mas os estragos continuam até hoje.
_ E assim o amor atua nessas meninas...
_ Mas pensando bem, e essa aqui, hein? O que tens a apontar nela que esteja fora de eixo?
_ Quando não há nada a se apontar, apontemos a mediocridade. Certos produtos são defeituosos quando justamente não vêm com falhas.
_ Sei. Quero ver você dizer isso da próxima vez que for a uma loja.
_ O financiamento nunca termina. Que tipo de órgão protege esse tipo de crédito?
_ E essa aqui? Pelo jeito não sabe tirar foto. O olho saiu cortado e metade da testa desapareceu com esse feixe de luz aqui.
_ Não é isso, é só mais uma daquelas indie querendo pagar uma de londrina deprê...
_ É, tá difícil encontrar algo aproveitável...
Rispidez momentânea

Não se preocupe com seu destino ao subir no telhado: duma alusão mundana ao purgatório você já se livrou; agora só falta a reservada a ti pela eternidade. Se inferno existisse, teriam contratado um publicitário melhor. Não sei se seria um companheiro de ofício do Valério trabalhando com quantias de dinheiro de fontes escusas vulgo denominadas mensalões, mas um publicitário melhor estaria na praça, pode ter certeza. Sabe como é, dogmas são as piores campanhas publicitárias já inventadas. É como corrente de Santa Edwirges: quem quer passar adiante? Quem passa o faz por culpa no cartório. Aliás, precisam me ensinar o endereço de tal cartório. Não que queira fazer alguma retificação em meu nome, mas o tabelião do estabelecimento me deve algumas explicações. Muitos podem afirmar que não, dogmas não são as piores campanhas publicitárias da humanidade. Aí rebato: se um produto pára de funcionar, você finge se importar com seu cliente por meio de um sistema de atendimento ao consumidor. E quanto aos dogmas? Vai reclamar pra quem? Vai encontrar promoção do produto vendido pela empresa onde? É uma obtenção de resultados unilateral, com certos efeitos colaterais. Celibato? Venda de indulgências? Atentados ao pudor por trás de batinas? Muita gente ainda se concebe como figurante, achando que tudo isso aqui funciona como a uma peça de teatro. Fora alguns picaretas que insistem em te convencer que se trata de uma peça em que os atores interagem com o público. Criador que é criador não interage com sua obra. Pode incrementá-la, mas interagir, mesmo, não mesmo. Mas tudo bem, digamos que uma consciência coletiva caia na real e canse de conceber os dogmas como a peças de teatro cujos scripts são calhamaços de milhares de páginas. O que acontece? Se dogmas são o ópio do povo, se dogmas são produtores de fé que impedem que as pessoas sucumbam a suas próprias ignorâncias, o que acontece? Bom, os homens existem há mais tempo do que os dogmas que criaram, o que é lógico. Você consegue viver sem assistir certas coisas. Consegue viver sem assistir àquele blockbuster cujo marketing faz com que meio mundo, e mais um pouquinho, tenha assistido àquilo. Talvez seja isso: talvez dogmas sejam como a um filme de que todo mundo fale bem, mas não necessariamente tenhas de empenhar seus trocados numa entrada de cinema.

Mas não esclareci porque os dogmas são as piores campanhas publicitárias já criadas. O óbvio histórico dirá que tudo de bom e releante já foi criado, tratando de se afirmar que tudo posteriormente criado não passou de maneirismo. Isso tem que se aplicar aos dogmas, pelamordedeus! Hmm, acabo de usar uma expressão reflexo do peso dum dogma numa sociedade subserviente como a nossa. Pois é, algo de definitivo, bom e relevantemente cultural e transcendental já deve ter sido criado, tratando-se os dogmas de maneirismos. Tendo isso em conta, pra quê se preocupar com seu destino no além, retorno o questionamento. Basicamente, viver é como utilizar um produto sem saber como este funciona. Ninguém que compra uma tevê sabe como funciona ao certo as diretrizes que gerem os programas fimados, muito menos a lógica do funcionamento daquele tubo de raios catódicos conectado a vários dispositivos dentro duma caixa. Mas digamos que eu me torne um diretor, cineasta e engenheiro duma empresa de eletroeletrônicos nas horas vagas, e obtenha todo o conhecimento que orbita o funcionamento e produção de atrações e mecanismos para a tevê. De que servirá tal conhecimento, sem mencionar o pouco tempo que se tem para se aprender tanto? Servirá pra aprender a usar melhor o aparato? Com os dogmas, quanto mais se seguem os preceitos adornados com as histórias proféticas dde seus messias correspondentes, mais se tende a ter uma vida reta. Mas pra quê isso? Pra quê insistir numa maneira de proceder considerada correta, se os corretos mudam? Se alegorias tolas como o inferno são o oposto do correto, é tão errado assim ser errado, desviado da rtidão proposta pelos dogmas? Será que, no final, tudo é dogma, até as leis ridículas que registramos em códigos legislativos pouco funcionais? Será que o dogma absoluto é a natureza? Não, isso me parece coisa de wiccan. E então, o que sobra? O que nossas agonias representam num ambiente assim hipotético? Mal uso do aparato? Hesitação perante se comprar uma certeza vendida por um livro sagrado? Medo de se seguir um caminho próprio? Medo de se incutir em desvios morais que são minimamente necessários, por mais que não gostemos de admitir? Errados, errantes, não passamos disso. Como os dogmas: talvez não passemos disso, mesmo.

Mas e o quesito fé, perguntam. Ah sim, devo abordar isso, pois nao é um ateu quem escreve. É um spiritual but not religious quem escreve. Talvez seja coerente encarar a fé como inspiração. Se qualquer trabalho requer 10% de inspiração e o restante de transpiração, pode-se afirmar que ela é presente e independe de dogmas. Ela depende é dos outros 90% para fazer algum sentido. Ora, até o inferno, de alguma forma, deve ter uma pitada de fé conduzindo sua administação. Como se gerir algo sem se acreditar em seu funcionamento? Pouco cabível para uma entidade pós-morte, não é mesmo? São os 10% quem nos dão poder para fazer de tudo com tudo e todos, mesmo. Se se tentasse gerir o mundo de forma estritamente funcional, o que aconteceria com as coisas cujo suor dos 90% de inspiração jamais serão suficientes para se tornarem igualmente funcionais? Descartar sumariamente? Muitas coisas legais seriam descartadas, então. Muitas delas, inclusive, pregadas pelos contraditórios dogmas. A compaixão justifica não nos livrarmos de tudo que não é do jeito que gostaríamos; até porque o que não nos agrada está estritamente em nós, muitos teóricos dizem. Precisamos do defeituoso, e não há fé que nos diga o contrário. Bom, se tiver, comece a se preocupar com as diretrizes de seu dogma. Ou com suas próprias. Não é que a fé mova montanhas, ela move quem acredita ser capaz de movê-las. Talvez comece por aí a propaganda, de um lado pouco efetiva, dos dogmas. Por outro lado, o medo propagado por estes é muito efetivo. Para poucos. A culpa, a culpa... E paro por aqui: perdi a linha de pensamento mais uma vez! Simplesmente lamentável... Se recuperar o fio da meada, atualizo o post.