sexta-feira, 22 de julho de 2005

É como se tivesse pisado no paul. Se mexer demais, afundo mais rápido; se não mexer, afundo do mesmo jeito. Não é com o mesmo furor de antes. É oscilante. E isso parece que jamais cessará de me intrigar. Não importa mais como antes, mas o medo de se condoer e de atingir alguém em vão está mais relativizado do que nunca. Um desafio, como qualquer outro aspecto disso soa para mim. Há mais paciência. Não há mais anseio. É como Faetonte na carruagem do pai: não há como obter rédeas. A queda não se dá por um desequilíbrio, mas por algo acima. Se tudo for diferente, se dessa vez não der errado, se complexos e sensações de autodependência completa se forem: o que restará? Alguém melhor? O que sei é que resta cada vez menos de mim para uma referência segura. E que, ao querer proteger outrem, me desprotejo. O que não tem tanta importância, já que proteção alguma nos esquiva de todo de certas coisas. Ir além, usar de certa audácia, não parece ter mais tanto sentido. Não por hesitções óbvias, mas por inexistir expectativas. Isso deve ser bom para pessoas que pensa demais no futuro como eu. Estudante de Letras pensar em excesso no futuro não é das melhores combinações, digo isso. A gente se habitua a ninguém saber lidar com o diferente em você, mas jamais se habitua com o diferente das pessoas que lhe faz diferença. Enfim, um diferente lidando com o outro. Se é que as diferenças fazem ambos perceber isso a tempo. Insights intropsectivos assim não substituem o real. E não me arrependerei novamente de me ausentar deste. Mesmo que sinta, ou tenha a sensação de, não fazer mais tanta diferença. Talvez ainda precise reparar que faça (de todo), e talvez isso aconteça apenas quando acontecer. Nem sempre somos óbvios o suficiente como repelimos, mas como deveríamos ser (ou latentemente o desejamos, ora) muitas vezes...

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Duas do He-man e duas minhas

_ Esse é o guri com quem a Mandy estava de rolo!
_ Caralho! Cuspiram na cara dele?
_ Pára, He-man
_ Corrijo minha frase: escarraram nele, não é possível.
_ Putz, sabia que o Flavio e a Gabi terminaram?
_ Dex'eu divinhar: ela terminou com ele, certo?
_ Claro que...
_ Me engana que eu gosto! No mundinho feminino, elas sempre terminamsem sequer perceber que nada começou de verdade...
_ Não era esse o caso, He-man.
_ Sei disso, mas levar fora do Flavio... que decadência!
_ Sossega, He-man!
_ Numa boa: arranje novas amigas! Essas encalhadas só topam serem amarrotas pra se darem ao luxo de dizer que "terminaram" com o fulano, é? Que vidinha besta! Nem as jubarte que se perdem no litoral do país são tão encalhadas assim...
_ Sua habilidade para ser estúpido é incrível!
_ Não agüento essas meninas! O suprimento mundial de seda pode acabar, mas elas rasgam tudo enquanto estiverem de mãos dadas com o figura, para depois brincarem de difíceis e descompromissadas. Porra, isso nem em Sex and the city funciona!
_ Blé...
_ O pior é que elas não serão futuras balzacas, serão futuras "complicadas e perfeitinhas". Se as perfeitinhas realmente existissem, então alguém precisa me explicar a função de Yoko Ono no mundo, ou mesmo a função de Eva no Éden. Numa boa: alguém criado a partir da costela de alguém deve ter sido algo motivado por represália divina, não é possível. Será que Adão era tetraplé...
_ Já chega, He-man!

_ Alô, é da Riachuelo.
_ Rélou...
_ Falo com o Marcelo?
_ Não, é o He-man!
_ Ah, certo. Olha, já terminou a obra?
_ Como é?
_ Você não é engenheiro, não?
_ Não!
_ Ah, tá, foi engano.
[quinze minutos depois]
_ Alô, é da Riachuelo.
_ Rélou...
_ Falo com o Marcelo?
_ Não, é o He-man!
_ Ah, certo. Olha, já terminou a obra?
_ Como é?
_ Você não é engenheiro, não?
_ Não! Nem nunca comprei aí!
_ Ah, tá, foi engano.
[vinte minutos depois]
_ Alô, é da Riachuelo.
_ Rélou...
_ Falo com o Marcelo?
_ Não, é o Zé das Couves!
_ Ah, certo. Olha, já terminou a obra?
_ Já. Mas não se preocupe, já inaugurei o local "embargando" a vadia da sua...
_ Você não é engenheiro, não?
_ Não!
_ Ah, tá, foi engano. Foi mal, He-man...

[na aaaaula do professoooor Daniiiillo*]
_ Eae, como anda o BR?
_ Na mesma...
_ Ontem encontrei tanta coisa pra ler que me deu preguiça!
_ Saudade dos tempos em que ninguém conhecido lia o BR... E pensar que há apenas dois anos atrás era assim...
_ Dãã: hoje vou contar sobre o meu dia! Estava tão deprimido que comi uns três danoninhos de uma só vez!
_ [eu rindo, quase caindo lágrima do olho esquerdo] Cale-se, Damon Albarn!
_ Não diga isso! Mamãe Lima me obriga a usar...
_ E as alcunhas absurdas? Qual que você arranjou pra mim, mesmo?
_ E esse apelido tosco? Sersup! Sersup! Que merda de nickname é este?
_ Acontece...
_ E a nossa aposta, Sersup? Eu ganhei, esqueceu?
_ Ganhou experiência! O acordo verbal não foi firmado!
_ Não tente me enrolar: você tem um prazo!
_ Blé...

_ Faz um bom tempo que não vou à missa.
_ O quê? Você realmente coopta com aqueles rituais mortuários, macabros? Você acha normal se reverenciar o corpo e o sangue de alguém que já pereceu há milênios?
_ Óquei, agora passe pra mim o Zaratustra. Ele não está lhe fazendo bem...
_ Não suporto a conivência das massas...
_ Tá, tudo bem: comece como uma sindicalista, funde um partido, trave a base governista até chegar ao poder e garanta o mensalão de seus subordinados! Já será um começo para você começar a se adaptar à conivência das pessoas antes de o poder lhe subir à cabeça e lhe fazer esquecer sua própria intransigência!
_ Ah, magoei...
_ Agora passe pra mim esse livro. Devagar, sem morder...
_ Grauf!
_ Tsc, tsc! Se continuar assim, você começará a apedrejar igrejas em poucas semanas! Isso é coisa de comunista!
_ Toma...
_ Calma, ele vai voltar...
_ Hã?


* Você odeia gente que fala devagar, em slowmotion? Eu também!

Três cartas, corre o jogo!

Não importa que faculdade se faça: por experiência própria, um baralho sempre será mais útil do que qualquer calculadora, livro, apostila ou material de apoio que o curso possa vir a exigir extorquir de você. Não discriminei as frases por curso, porque realmente se percebe rapidamente que isso é desnecessário e redundante. Algumas amostras de como driblar os olhares tortos dos docentes:

_ Não estamos jogando! Estamos estudando a semiologia das cartas!

_ Não se deixe enganar: apesar de a diegese demonstrar isso, utilize uma abordagem autodiegética e perceberás que não estamos perdendo tempo com jogos de azar. Personagens esféricos como nós não costumam ter esse tipo de ação heterodiegética...

_ Não estamos jogando, estamos estudando o totemismo da antropologia estrutural do Lévi-Strauss. A menos que sejas a favor do incesto, não discrimine nossos estudos de caso!

_ Não, não estamos jogando! É uma dinâmica de grupo!

_ Nós, jogando? Estamos criando uma solução de design para estes cartões telefônicos!

_ Nós, jogando? Não percebe que estamos estudando uma dinastia inteira por meio destas cartas? É um trabalho de restauração, que requer documentos históricos e alegorias que hoje em dia são usadas como motivos de jogos de azar. Pobreza de visão, viu?

_ Nós, jogando? Pense bem: poderia estar roubando, matando, mas não: me limito a extorquir os outros por meio de camaços descarados e a te enrolar com esse discurso social inválido! Não percebe toda a hierarquia social presente nestas cartas? O machismo dos reis? O patriarquismo dos valetes? A subserviência das rainhas? Então! Assistente social não teria perspectiva melhor...

_ Não estamos jogando, estamos construindo cadeias de potássio com alguns átomos de... de... Viu só, preciso estudar! Esqueci pra que serve o Q...

_ Não estamos jogando: estamos desenvolvendo e enriquecendo uma forma popular de cantigas populares. Vai me dizer que irás contra a manifestação cultural do povo? Por enquanto estamos começando com quadras:

Vim do Sertão de Pernambuco
Montado num burro xucro
Pra você eu canto flor
Pra você eu canto...

_ Nós, jogando? Você não quer acreditar nisso, quer?

_ Nós, jogando? Não me faça usar uma ironia socrática escancarando para ti o salário de fome que você recebe todo mês!

_ Não estamos jogando: estamos estudando o ambiente gravitacional e a pressão atmosférica por meio dos movimentos motrizes manuais e da inércia das cartas dispostas dum ponto xis na atmosfera até a mesa!

_ Não estamos jogando: estamos elaborando um plano de aula por meio de jogos que atraem as crianças e adolescentes. Faríamos isso com cartões do Pokémon, mas jamais decoraríamos os nomes daqueles bichos estranhos a tempo...

_ Não estamos jogando: é uma workshop duma floricultura e duma loja de fantasias. Na falta de flores, investimos em temas reais. Sabe como é, estamos nos preparando pro Shipu...

_ Não estamos jogando, estamos estudando a possibilidade de desenharmos o próximo projeto baseando-nos nos aposentos da rainha de Alice no País das Maravilhas. Não se trata da planta dum parque temático? Então...

_ Não estamos jogando, estamos apostando a última ampola de morfina! Se passar mais uma semana fazendo apenas exames retais na residência, juro que induzo meu coma! (Medicina, esperavam o quê?)

_ Não estamos jogando: é uma nova técnica quiroprática cujos supostos efeitos no organismo cairão na prova!

_ É depois da décima latinha que começarei a jogar! Isso aqui é só o aquecimento...

_ Jogar? Estamos estudando o campo das possibilidades, assim como as fórmulas matriciais cabíveis às cartas. Nunca ouviu falar da teoria dos jogos, não?

_ Jogando? Por acaso está vendo algum rei ou valete por aqui?

_ Jogando? Temos álibis e faltam provas conclusivas das jurisprudências. Vou te processar!

_ Pois é, faltou grana pra sinuca...

_ Hã?


E o último recurso, perante os mais caxias:

_ Quer jogar também? Junte-se à lagoa, pato!

domingo, 17 de julho de 2005

Recruta He-man?

Acreditem se quiser: as Forças Armadas contarão com um aspirante a líder espiritual dos playboys em suas fileiras. Será engraçado ver o desenrolar disso. Nesse meio tempo, uma amostra das reações incrédulas de hoje, face à novidade improvável da semana.


_ É sério, He-man? Você realmente escolheu servir o Exército?
_ Sim, droga! Mas será que isso parece tão mítico assim pra ninguém acreditar?
_ Um playboy a menos nas ruas, gente!
_ Acontece, ora.
_ Uma vítima da moda a menos nas ruas.
_ Vou juntar graninha pro meu Golf, finalmente...
_ Pobre diabo!...
_ Sabe como é, preciso tirar minha conta do vermelho, trazer o leitinho das crianças...
_ Fica quieto, desempregado!
_ Cara, vocês não trabalham, freqüentam! Um fica no Msn o dia inteiro, e o outro, tem o árduo trabalho de se manter acordado enquanto joga Paciência a manhã toda! Que porra de trabalhadores são esses?
_ Ah, é? Tenta falar comigo no Msn durante o trabalho pra você ver!
_ Me poupa.
_ É que a minha função no trabalho é diária, já a dele, é mensal. É claro que dificilmente falará com ele pelo computador.
_ Sei. Vamos trocar de turno, então...
_ Pelo que trabalhamos, é até justificável mais de três quartos da grana ser sumariamente torrada com a faculdade todo mês. Isso quando o velho se dá ao trabalho de repassar algum trocado que sobre do mês...
_ Nossa...

_ Cara, nunca mais coloco a proteção da maneira como as propagandas recomendam! Furou uma vez comigo. Isso sem mencionar o tempo que a gente leva para isso. Tipo aquele episódio do Seinfeld...
_ Legal é ver a rapidez com que as profissa colocam. Uma vez lá em VG, foi...
_ Eu pego a ponta e dou um nó! Tipo uma bexiga. O único medo agora é entupir o banheiro do quarto...
_ Será que entope?
_ Os banheiros mais modernos, não...
_ Já experimentou contra a parede? Elas até levantam do chão em horas assim...
_ Hmmm, um dia experimentarei com a dita cuja de costas para mim. Ver o encaixe deve ser interessante.
_ Uma coisa é fato: perdi de vez o respeito pelas meninas. Cada uma que a gente ouve por aí...
_ É como se elas tivessem algum prazer em nos sacanear.
_ Uma amiga da minha ex encoxou com o fulano na primeira! No banco de trás dum Audi! Dispensou a proteção na terceira. Não é só boca que tem céu, não é mesmo?
_ Sem comentários...
_ É, Dilsinho terá problemas com isso: gosta tanto da menina que nem se importa com a demora desta em praticar o entra-e-sai.
_ O pé na bunda será inevitável...
_ Elas estão exigentes hoje em dia: só topam batizar seu carro com fluídos corporais depois dum amasso se este for importado!
_ Bom, elas gostam de uniformes, He-man. Aproveite... Aliás, tenho aquela amiga minha que...
_ Aquela? Aquilo é mais feio que encoxar vó em tanque!
_ Não é essa, é aquela que é irmã do...
_ Dele? Aquele pediu a Deus pra ser feio, e como Ele não ouviu, gritou...

[em casa]
_ Conta outra, He-man! Você não dura um dia lá!
_ Ouvi falar que eles têm um período de uma semana para desistência! Depois disso, você é obrigado a ficar por lá. Aliás, fiquei sabendo por um amigo dum amigo meu que nego costuma desistir no primeiro dia!
_ Prepare-se, He-man: os terroristas surgirão por todo lado te pondo medo, hehe
_ Quem tenta sair depois da primeira semana vira desertor!
_ Putz, vão raspar minha cabeça por um ano ininterrupto!
_ Imagine a economia com gel...
_ Me disseram que lá os comandantes são pedantes a ponto de dizerem que "a única coisa que podem mexer durante as marchas é a língua, que ele não pode ver".
_ Ai, que meda!
_ Sim, sim: é hora de aposentar seu inseparável Nike Shox e dar lugar aos coturnos!
_ Não tem mais volta, caboclo...

terça-feira, 12 de julho de 2005

Isto aqui não é um post!

São divagações diversas escritas em momentos diferentes. A primeira é um comentário que deixei pro Navegador; a segunda, uma atividade sem-graça da faculdade. Pelo seu bem: você já leu isso aqui mesmo antes de ter passado os olhos por essas linhas. Vai mesmo querer ler tudo de novo? Hmm, pra quê ainda pergunto? Se é que sei a quem dirijo a pergunta...


Falar da efemeridade dessa existência de lamentações sempre nos faz tropeçar em lugares-comuns. Talvez seja bom praticar o memento mori e relativizar o carpe diem. Mas quando nos vemos sem um sentido estritamente demonstrável para se viver -- porque, estatisticamente falando, estamos perdendo tempo aqui -- dá um vazio de dar frio na espinha. Eu me pergunto todos os dias o que estou fazendo ao me levantar da cama. Nunca obtenho respostas conclusivas, somente sugestões positivas e negativas. Além das perguntas, é claro. Só mesmo a curiosidade de se buscar perguntas deve me fazer criar coragem pra levantar todos os dias. As respostas ofendem. Que prefiramos as perguntas antes de descobrirmos as respostas no auge da ignorância de nossa perspicaz curiosidade...


Ninguém gosta de pensar na efemeridadeda vida. A vida é passageira apenas ao anônimo baleado aparecendo nos jornais, nunca conosco. A "felicidade instantânea" proporcionada pelas bobagens pós-modernas nos tornam pessoas vaziase mecânicas e sequer nos damos conta disso. Às favas com o carpe diem, bravejam os consumistas. Ignoremos o memento mori, a juventude vocifera. Eo valor das pequenas coisas são, assim, sumariamente esquecidas.

O segredo da felicidade está nas pequenas coisas e teimamos emnão admitir isso. "A ferida narcísica é profunda demais", pensamos. Pensamentos, muitas vezes, são sensações que a razão censura de vez em quando. Se a razão é a mãscara, a sensação são os atores por trás dela. Tudo é simples o suficiente para complicarmos e vice-versa. Certa vez perguntaram a Ele o que era a verdade. A falta de uma resposta deveria ser mais do que suficiente para nos demonstrar que a vida consiste mais em formular perguntas do que obter respostas. Mas temos medo, e muitas vezes acabamos cedendo a mentiras, nos esquecendo da verdade, e,com isso, nos perdendo. Ou seja, deitamo-nos ao comprido na erva, com nossas intrínsecas inspirações,e nos distraímos com angústias muitas vezes inexistentes. Percebe-se com isso como a natureza humana pode semostrar irritante, às vezes.

"This is your life,and it's ending one minute at a time." Até Hollywood parafraseia o Carpe diem dosromanos. De formacomercial, mas parafraseiam. De fato, é de se acreditar que sabemos a verdade, o prazer, a fruição das pequenas coisas. Nos deixamos é influenciar pelo desdém das coletividades, como sempre. "Somos adultos mas quase sinceros." Certa vez ouvi isso numa música. Eassim vivemos: como pastores de nossos próprios pensamentos. Como os guardadores de rebanhos do Fernando Pessoa. Como distraídos que teimam em ser felizes, talvez já o sendo sem que percebam.

domingo, 10 de julho de 2005

Contratos



Seria o casamento uma forma de exclusão social? Assim que o compromisso do matrimônio é estabelecido, pense bem, várias restrições surgem: começa-se a ver com maus olhos a presença de pessoas casadas em lugares públicos específicos, as amizades parecem ser implicitamente proibidas, e uma estagnação sócio-cultural se aloja na personalidade dos que carregam o anel no dedo. Detalhemos cada um por partes. A presença em lugares públicos, pra começar, é substituída por reuniões familiares e hobbies específicos. A vontade de se conhecer o mundo dá lugar a uma suposta (e nem sempre suposta, saliento) vontade e necessidade de se dedicar a filhos. Como se estes fossem censores sociais hereditários: na ausência dos pais para te proibirem de ir aos lugares, que venham seres gerados por você mesmo fazer tal tarefa. Em seguida, as amizades parecem ser implicitamente proibidas pelo quesito compromisso, que parece ser constituído de uma simbiose de sagrado e ético com privação e conformação, e pelo quesito mobilidade social, reduzida pelo núcleo familiar. Seu círculo de amigos é transferido, essencialmente, para a família. Que, obviamente, nem sempre são os amigos mais indicados: são pessoas que, sem muito a fazer nesse quesito, têm a convivência mais desgastada possível para contigo. Por fim, a estagnação sócio-cultural se refere à uma cessão súbita por busca de referências culturais novas. Essa estagnação se observa nos filhos até os idos da adolescência. Quando começam a desintegrar a exclusividade de seu tempo ao núcleo familiar, recebem referências novas e fogem parcialmente de tal estagnação. Para, dali àlguns anos, o casamento vir a retornar com a estagnação. Talvez a grande questão do tal do casamento é este ser tratado como um contrato social. Como todo contrato, é passível de revogação. Famílias não são contratos sociais; você não precisa ir até o cartório pedir permissão pra ter uma. Elas são opcionais de se constituir e de se participar. Como dito, casamentos são contratos sociais. Se fossem somente sociais, tudo bem: sociedades mudam diacronicamente. O problema é que este também se trata de um contrato religioso. A quantidade de adultérios nos tempos bíblicos era absurda, o que teve influência ao se escrever os mandamentos. O que quero dizer com isso aqui? Que um contrato religioso não se pode selar junto a um contrato social. Os mandamentos previam o adultério, mas não previam o swing, o voyeurismo, a ocasional poligamia (que os muçulmanos levem esse mérito nessa. Ao jeito deles, claro), a fatídica pensão alimentícia... Contratos sociais jamais deviam se misturar a contratos religiosos. Mas poderiam perguntar:



_ E as teocracias, Sersup? Imagina a quantidade de contrato social por lá, regida pelo Livro Sagrado?

_ Bom, a democracia foi criada por um povo pagão; a teocracia, não. Qual a diferença? Em um, sempre tem alguém tentando separar Igreja do Estado, já em outro, acredita-se que um escrito religioso funciona como a uma Constituição sagrada que rege quaisquer outras leis, ou seja, eles não vêem Igreja e Estado como coisas diferentes.

_ Sim, mas e os contratos sagrados?

_ Ah, sim. Bom, a "Constituiçao" deles promete doze virgens para quem sobe ao céu de Alá. Enfim, quem escreve a Constituição continua sendo os homens, mas é melhor eu não dizer mais nada...






Não somente porque são coisas diferentes, contratos sociais e religiosos, mas um outro quesito também, vem a somar ao conceito de casamento: o quociente emocional. Quem compreende suas emoções, e as alheias, com a mesma perspicácia que seu cônjuge? Deveriam os contratos sociais possuir estritas cláusulas tentando pretensamente equivaler certas diretrizes emocionais? Os testes de QI tentam e até hoje são controversos. Talvez devesse haver uma forma períodica de se monitorar o estado afetivo de uma união. Isso levaria muitos a interpretarem tais hipotéticas attitudes como pura manipulação infundada. Mas isso é feito por publicitários, meios de comunicação, e ninguém reclama, ora! Só se extrai certas informações de prisioneiros por meio de tortura. Só se extrai informações de certos cúmplices por meio de programas de proteção à testemunha. Só se extrai diretrizes psíquicas por meio de estatísticas escusas aglutinadas em teorias aplicadas em terapias. E se tentasse se extrair certas coisas dos cônjuges, nada invasivo, aindassim conclusivo? Daria em nada, uma vez que certas coisas, em quanlquer tipo de união, são inevitáveis. Mas se atenuaria, talvez. Relativizar: é tudo o que métodos psicológicos fazem, a meu ver. Um medo, uma frustração, só toma o tamanho que se quer; o tamanho destes se alterará um dia. A angústia é presente em qualquer união afetiva entre os homens, mas se presumir que esta é assunto que apenas convém aos casais é ético? Ninguém entre as autoridades se lembra disso quando alguém acaba sendo assassinado. Mas como só me resta relativizar, deve-se dizer que qualquer tentativa de se paralelizar alguma diretriz da personalidade das coletividades, e com isso tentar moldar tais diretrizes de acordo com estatísticas que se desejam obter ou atenuar, não é aceita abertamente de início. É bom temermos o que os incautos que escolhemos por autoridades pretendem arquitetar no futuro, vá saber. 1984 já deixou muito cineasta alerta, mas o que eles sabem? Bom, eles sabem usar a publicidade, então é melhor temê-los...

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Biscoitos da sorte

Por sorte, leve a palavra ao pé da letra, e não apenas em seu sentido positivo. Me refiro à sorte de ventura, de acaso, de ocaso, a de caos. Aquela, enfim, que brinca contigo o tempo todo. Que descredita o que dizemos, invalida o que fazemos e nos ironiza com o que deixamos de fazer. Além de fazer perder cronicamente a fruição com que as palavras nos chegam ao longo dos tempos. Sorte, tempo, destino. Não se sabe o que fazer, mas deixar de fazer não é uma opção? O que se conclui por exclusão?

A excessiva subjetividade com que observo os acontecimentos fadados a me testar me fazem me confundir com minhas próprias suposições e hesitações. Se bem que essas últimas não são tantas assim. A subjetividade viciosa no momento me diz que minha consideração por alheios pode ser uma espécie de orgulho. Uma espécie de débito moral, como disse num post desse ano. Mas nem me importo tanto mais assim com créditos. Crédito, débito... Não há extrato para esse tipo de coisa. Só empréstimos.

Os fins não justificam os meios. Em tempos atuais, substitua fim por prazer. Prazeres são temporários e é uma perda de tempo buscar-se por estes o tempo todo. Há algo além de prazeres. E só por estes não serem prazerosos e se encontrarem alheios às razões pelas qual os meios não deveriam ser justiicados, não devem ser relegados a um segundo plano por simplesmente nos mostrar que prazer e grandeza jamais se equivalerão. Dissipações não sustentam a estrutura dum caráter.

O cotidiano não virou rotina. Seu estado de espírito é que virou este. Sua perspectiva enfadada é que ficou assim. A vontade ausente é que causa tal estranheza. A ingenuidade altruísta para com si mesmo não está mais aqui. O que fazer? Se absorver nos afazeres mundanos? Se esquecer um pouco de si mesmo? Não, quem caiu num estado de espírito rotineiro já se esqueceu e ainda não entendeu bem o porquê. Sequer entende porque deve interpretar passagens assim como algo ruim. Ou porque deve considerar a primeira opção viável, já que a segunda se deconsiderou por exclusão.

Nos tornamos sensíveis na medida exata em que nos tornamos frios. As decepções aumentam nossa percepção emocional na mesma medida em que nos faz desacreditados perante todo o resto. As conquistas inflam o ego, infelizmente não na mesma medida em que aumenta a humildade.

A timidez é uma espécie de eterno retorno. Desinibe-se num dia, inibe-se no outro. Aforismo de Nietzche? Introspeccionismo de Wundt? Contradição lacaniana? Não se pode dizer mais nada para não cair no eterno retorno novamente.

sábado, 2 de julho de 2005

Pra quê tal desperdício? A beleza está aí; impassível de lamentações externas. É hora de silenciar esses dedos, Sersup!...