domingo, 26 de junho de 2005

O que é que estou fazendo? Nada de mais, nada de menos. É nada mesmo! Não há ponto final nisso aqui não? Eu não me referi à frase anterior, deve-se salientar. Não sou Papai Noel mas tô de saco cheio. Não de mim, mas do que me proporciono. Ou melhor, do que não me proporciono. O proporcionável se desintegra sem que faça a menor diferença onde fui parar. Porque não podemos vir de fábrica com botões de reset? O melhor da vida é terminar ou começar de novo, afinal? Argumento pertinente. Admita, messias marionete de dogmas escusos. Admita! Assine esta procuração em que te autorizo a me resetar, e voltamos a conversar.

A quem quero enganar? Sempre voltamos. Um é quem presume não ter o que ouvir. Por mais que se ouça, não há como se assimilar o suficiente para que ser incoerente torne-se uma redundância opcional. Enfim, assine este documento, aperte o botão de reset aí no andar de cima, e veja se isso me será suficiente. É nisso que dá manufaturar produtos sem assistência técnica: o mal uso de nós mesmos é atribuído ao item produzido, ou seja, nós. Ao menos dê-se ao trabalho de debochar deste ridículo capaz de propôr tal documentação esdrúxula, antes de me deixar, como sempre, à mercê de mim mesmo.



Por ser verdade, firmo o presente.







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Cara lá de cima

sábado, 18 de junho de 2005

Hello Goodbye World

Deixei de ver algum sentido em se conhecer o mundo há muito tempo. A começar pela Inglaterra: que porra de país é aquele? É um local tão insípido e vazio que até uma estação de metrô centenária é considerada atração turística. Qualquer pedregulho em falso no solo já é considerado sítio arqueológico, como os pedacinhos de cascalho de Stonehenge. Isso sem mencionar a entorpecente formalidade inglesa: até pra ir ao banheiro deve ser preciso se utilizar uma bem-construída frase feita, com a mais concentrada e vazia polidez possível. Dizem que lá as mais simples conversas parecem não terminar nunca devido às formalidades. Isso deve explicar porque as mulheres inglesas têm aquela pinta de frígidas: ser obrigada a conviver com pessoas que consideram idiotices como Rugby e a vida privada da Monarquia símbolos nacionais é demais pra cabeça de qualquer uma. Vangloriam-se do constante tempo bunda, com garoas intermináveis. Vangloriam-se da história de reis que sequer sabem se realmente existiram. Vangloriam-se de heranças da vergonhosa prostituição cultural perante os franceses. Vangloriam-se do dito humor inglês, que todo mundo ouve falar mas ninguém sabe realmente se existe. E, como se não bastasse esse vácuo nacionalista, ainda fazem questão de que o mundo todo seja um pouco parecido com eles, tentando nos impôr suas medidas idiotas e suas efemérides culturais por meio de suas colônias. Mas que povinho de aparências...

E a Argentina? Embora seja suspeito pra dizer algo, direi mesmo assim. O problema do país nem é a petulância social, mas a cultural: comparam seus jogadores de futebol com os nossos, perdem vergonhosas guerras inúteis por pedaços de terra esquecidos como as Maldivas (o pior nem é perder meros restos vulcânicos flutuantes no oceano como aquele, é perdê-lo pros ingleses.), e passam vexames internacionais que nunca são capazes de baixar, por um mínimo que seja, a crista deles. Há locais interessantes a se ver por lá. O que não há é motivo para isso: a capital deles, por exemplo, parece cenário de filme do Woody Allen. Daí você tenta fazer uma idéia do tipo de hospitalidade que obterá por lá. Até a própria elite cultural se sai com frases auto-explicativas como "a arrogância é um pequeno argentino dentro de nós". Geograficamente falando, tal país não passa de mero empecilho para a navegação internacional: pra quê aquele pedaço de terra de formato esquisito tem de ficar justamente no caminho mais eficaz para se atingir locais remotos como o sudeste asiático, por exemplo? As placas tectônicas não foram propriamente felizes com o continente sul-americano nesse quesito, pode-se supôr.

Mas os Estados Unidos deixam os dois países acima no chinelo, pois ostenta a herança do vazio cultural inglês com a arrogância argentina. Mas como a arrogância é um pequeno argentino dentro de nós, o restante do espaço dentro deles acaba sendo ocupado por idiotas inatos. Idiotas inatos que consideram torta de maçã um feito culinário relevante o suficiente para ser considerado símbolo nacional. Mas isso é perdoável, face à excessiva atenção prestada às inutilidades da mente humana, que é dispendiada por eles. Eles odeiam ópera, mas enchem os anfiteatros; eles adoram pegadinhas na tevê, mas são incapazes de elaborar piadinhas melhores do que o execrável "knock-knock"; eles adoram escatologia, mas se chocam com quaisquer desvios inocentes de paradigmas. Puritanos desvirtuados que realmente acreditam na integralidade do "the right thing" (vide post desse ano). De criatividade espantosa para admirarem esportes idiotas como futebol americano, mas de habilidade física pífia para desdenharem esportes consagrados como o futebol, os caras tentam ser uma ilha de independência cultural, assim como seus colonizadores. E o mais lamentável é que a única indústria cultural capaz de fazer cinema do planeta está nas mãos de tais caipiras que mal sabem pronunciar o nome dos países, que usam mais como campo de teste de suas armas mortíferas, do que como pretexto para espalhar a "democracia" propriamente dita, no mais descarado (e redundantemente vazio) imperialismo.

Pensei em falar da China, mas seria injusto falar de um país milenar desse jeito. Apesar de eles executarem seus ladrões de galinha com tiros na testa e terem leis descabidas, como as que proibem cuspir na ruas, pouparei o rebanho de Mao, o Che oriental. Pensei também em falar da Grécia, mas já falei dela no ano passado. São tipo o Charlie Brown europeu: sempre tem alguém na história para passar os incautos gregos pra trás. Os romanos, a Igreja católica, os turcos.. Opções não faltam. Metamos o bambu num país mais sem propósito. Não, apesar de ter mencionado o bambu, o próximo país não será o Japão, mas sim a... França! Do país cuja língua criou termos como blasé, déja-vu e ménage à trois, o que se esperar de tal população? Uma multidão de melancólicos em potencial, pode se presumir. De vanguardistas, saudosistas e ufanistas em cada esquina -- algo quase megalomaníaco, mesmo --, o que se esperar dum país de cultura um tanto estacionária, que come os mesmos queijos embolorados, daqueles que empesteiam casa inteiras com seus odores, por séculos a fio? O que se esperar de um país que, embora ostente obras invejáveis -- mesmo que muitas sejam da mais pura vanguarda grega -- considere um pára-raios gigantesco um ponto turístico? Não entro no mérito de me referir à França como os piores colonizadores da Europa, porque seus dotes políticos são dos mais suspeitos, poderia alfinetar. É como se as diretrizes políticas do povo francês funcionasse na base do "Hay unanimidad? Soy contra". E é por isso que não há Churchills na terra do queijo roquefort. Há teóricos e pensadores que causaram muitos problemas às políticas de suas respectivas épocas com seus ideais, mas políticos franceses, mesmo, que eu saiba, nenhum.

Para não dizer não falei das flores, alfinetemos alguém do Oriente. Sobrou pra Rússia, mesmo esta tendo um pé na Europa. Um povo mais metódico que os alemães: é possível? Não só é, como tal mentalidade rigorosamente sistemática e perfeccionista proporcionou a seus teóricos sociais a incitar revoltas comunistas -- baseado num doido alemão, inicialmente -- que mudariam para sempre a esfera social do país, mesmo após o fim do supracitado regime. Tudo lá é tediosamente padronizado: prédios com a mesma cor, as mesmas medidas e os mesmos cômodos plurifamiliarmente sublocados devido às incoerências econômicas do passado, e por aí vai. Encarar pelo menos seis meses de inverno sob uma política de herança truculenta não é algo dos mais convidativos. A sensação inicial de se andar pelas ruas moscovitas é a de se estar dentro dum tribunal gigante. Todo mundo se referirá a ti e entre eles pelo nome completo. Você não será chamado de Zé, será chamado de José da Silva sob qualquer circunstância. Quem tem amigo que faz isso sabe como é estranho tal hábito. Mas algo intrínseco ao Oriente, devo acrescentar. Devo pensar também que o ambiente deve parecer pesado frente ao estilo intolerante dos governantes de lá: a geral que produz cultura de qualquer tipo deve sentir isso na pele. Isso sem mencionar que, devido a tal repressão sugestiva, qualquer coisa que remeta aos russos acaba tendo um certo carma de clandestino. Repare: onde ficam os servidores de onde você baixa seus vídeos e música ilegais da web?

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Não saber quem se é ao certo deve ser considerada uma vantagem? Estou impelido a pensar que sim neste momento. Embora a desconfiança de se estar perdendo pra sempre um eu original, que é somente seu e não de meros referenciais externos, pareça estar bem mais presente do que se presumia. Hoje ouvi me dizerem que, quando os homens querem alguma coisa, particularmente cometendo a eterna burrada de seguirem seus corações, os desígnios devem ser imediatamente acatados, sem sequer se cogitar deixar para depois. Depois pode não chegar, o lugar-comum condena. Depois esfria, diminui a intensidade do desejo emocional. Deve ser por isso que dizem que a vingança é um prato que se come frio. Afinal de contas, o calor da injustiça se passa no momento em que ela acontece ao que deseja a vingança. Quer motivo melhor para considerar tal prato frio inútil? Nem pra acompanhamento numa refeição serve.

E quanto a mim? Me vigio para manter uma distância segura duma pessoinha, para que a constância duma presença magnética como a dela não alimente uma esperança inexistente (vide post do esperar do ano passado). Eu quero é sossego, e todo cuidado é pouco para esse alguém aqui que sequer tem certeza se deve ou não reprovar a dúvida de não saber ao certo quem se é. A noção de se considerar opcional o feudalismo (vide post de oito de Junho) não vai me agradar tão cedo. Talvez esteja e eu não esteja percebendo, afinal. A síndrome do anjo caído gosta de nos distrair. Sempre comento de que tudo que preciso é tempo. E espero poder me dispôr deste sem obstáculos como potenciais sensações de culpa de se estar deixando alguma coisa para depois. Principalmente no quesito do prato frio que citei mais acima.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Uma noite mal-dormida de doze de Junho é ruim? Imagina! Ruim mesmo é ser acordado na madrugada de Segunda por alguém martelando na parede de seu quarto. Um naco de concreto quase caiu na cabeça do He-man. Mais tarde, depois duma ducha, descobrimos que a mãe tá inventando de reformar a casa de novo. Começando pela garagem, que acontece de ficar al lado do quarto. E, obviamente, sempre sobra pra gente. Bom, pelo menos não foi uma telha na testa, diria o otimista. Mas vai ficar pior, retrucará o pessimista. O quê, está falando comigo?, responderia o letárgico. Grnpfmnftrhg!, responde Sersup, tradicionalmente um ogro pela manhã, antes de um revigorante copo de leite, lembrando de que ainda tem de ir trabalhar, após olhar-se no espelho e perceber o ninho de rato loiro que seu cabelo está começando a se tornar.



Eu não odeio Segundas. Os Domingos são piores, acreditem...

Letargia

le.tar.gia sf Med. 1. Estado patológico em que há diminuição do nível de consciência, e caracterizado por indiferença, sonolência e apatia. 2. Somo profundo; letargo. 3. Indiferença; apatia; letargo.


Nunca usei essa palavra antes para descascar meu estado de espírito. Mas há primeira vez para tudo, e agora não há mais. Essa foi a primeira vez que usei tal palavra, e isso, por conta da própria letargia, não faz a menor diferença. Nem faria se estivesse num astral mais, assim, elevado. O dia-a-dia é maquinal: o ócio funciona ora como elemento que emperra tal maquinal cotidiano, ora como óleo. Nem feliz, nem triste. Ambos em excesso me dão náuseas vertiginosas de seus opostos diametralmente dispostos. Ambos me fazem questionar em excesso a razão do que faço, do que deixo de fazer, do despropósito dessa vida de que não temos o menor controle. Não há controle para se ser feliz, muito menos triste; é uma mera questão que nos distrai: pensar necessitar se obter controle das coisas é um eficaz mecanismo que nós mesmos criamos para nos dispormos em rankings imaginários. E a letargia acaba nos deixando assim, incapazes de nos surpreendermos. É de se esperar de início que isso acometa apenas a quem está triste. Mas não são os binômios dos homens quem são capazes de dedilhar nosso espírito. Emoções e razões não pertencem a coletividades, mas nos esquecemos disso. Coletividades são as cabeças pensantes, individuais por ali, pluricelulares aqui. Multidões são criaturas baseadas em decadentes cadeias de carbono, que não foram projetadas para durar muito, mas que agem com a eternidade de seus momentos.

Guinadas emocionais, seja por compostos químicos, seja pela emoção de fórmula selada na unicidade de cada um que gosta, são apenas guinadas? É claro que quem extirpa as emoções de seu destino extirpa muita coisa junta, inclusive algumas externas a si. Aliás, que teimosia nossa é essa de relutar em aceitar que nem tudo que (in)depende de razão é externado? Sim, a emoção é uma foragida por natureza, mas nem por isso a razão se dará sempre ao luxo de permanecer nessa cela sem chaves. E onde fica o letárgico nessa história? Ele não fica, vagueia como sempre fez. A lugar nenhum. Sem conseguir agregar-se a nada, sem ser agregado por ninguém. Ele sabe que isso é mentira, mas nem sempre isso ocorre por relutar o fato, no auge de seu insípido estado de espírito. Ocorre pelo cansaço. Cansaço de ter de lidar com os binômios. De o balançar de tal gangorra o deixar há tempos nauseabundo. E então, não há razão, não há emoção. Não tendo nenhum dos dois, seria a letargia um grande nada, mera faceta dos que cansaram de teimar em ser felizes, ou simples termo psicológico? Creio ser uma pausa para meditação. Sem os binômios sociais te reduzindo a um estado de espírito binário, o que somos? Talvez seja preciso saber conciliar tanto o que se é com o que não se é. Não se é obrigado a ser somente um, e não outro. Dar-se ao luxo das piores escolhas visando as melhores não deve ser sempre considerado um contra-senso. Derrubar o rótulo de certo e errado de suas opções é estar mais longe que qualquer lugar que pareça se ter ido antes. Se os binômios cunham os homens, a letargia faz o quê nesse quesito? Elaé de todo inútil?

Me lembrei dum conto do Machado que li certa vez, O espelho. Sim, não existem níveis seguros para o consumo das teorias de Rousseau. O mundo tá cheio de alferes que fogem afobadamente da letargia. "Sei o que sou e ignoro o que não sou?" Linha de pensamento limitada, essa. Estabelecer bases científicas fez com que o homem se excluísse de sua própria natureza. De que adianta conhecer melhor o funcionamento das engrenagens da multidões se as coletividades permanecem desorientadas? Se estas são múltiplas em causas unas? Nossa, e isso porque apenas comentei sobre os binômios do indivíduo. E se eu tentasse comentar algo sobre dois indivíduos, cada qual acompanhado de seus binômios? Ao poeta, um mais um é um só mesmo. Uma vez um mais um sendo um, torna-se um um mero letárgico ou um um mero vazio que não parece vazio quando recebe visitas da emoção? Um mais um seria um vazio, um zero? Não me parece se tratar de uma subtração, até porque mencionei a palavra adição. Embora muitos costumem descrever a união de duas pessoas como o começo de uma completude. Ou seja, completude não se soma nem se subtrai: deve ter alguma operação matemática abstrata o suficiente para traduzir isso num raciocínio lógico simplista, mas quantificar as coisas nem sempre é ético (como comentei num post). Quantificar não me parece combinar com o letargo. Um a mais, um a menos, é tudo a mesma coisa para ele, mesmo. Uma mera questão de desconforto e desinteresse perante suas incertezas. Sua relevância torna-se diretamente proporcional à sua inspiração para não passar de um corpo prostrado verticalmente, sem razão pra se reerguer. Se um ego em ação ilude, um ego em inação apenas finge estar assim, em inação. E letargia é um dos nomes para tal fingimento. Fingir que não se finge (?).


Uma mera pausa pra meditação. Ócio improdutivo, diga-sede passagem. Não passa disso. E chega de rodeios!

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Apesar de mais acostumado à idéia, não gosto de metaforizar os desígnios do coração como a uma bolsa de valores. Não gosto da idéia de, às vezes, ser conveniente primeiro se investir em algo para depois voltar a se investir em outro, de acordo com as variações circunstanciais, por assim dizer. Ou mesmo investir-se em mais de uma coisa ao mesmo tempo, propositadamente priorizando-se mais um do que outro. Não é o tipo de coisa ao qual gosto de especular, afinal. Mas não adianta: para se sobreviver às constantes condescendências do sexo oposto, parece que só mesmo assim. Deve ser por isso que os amores literários são tão voláteis: a vassalagem amorosa vai contra a necessidade um tanto capitalista, por assim dizer, de se vislumbrar múltiplas possibilidades de investimento, igualmente por assim dizer. Por experiência própria, reconheço que o feudalismo não é o melhor dos sistemas nesse caso. Não somente pela exclusividade implicada pelo processo, mas pelo desgaste pessoal proporcionado por esse método constrangedor. De que adianta se investir numa ação só se esta despencar irremediavelmente do nada? Dispensando-se o feudalismo e adotando o capitalismo, mais funcional nesses tempos voláteis, como funcionaria o socialismo nesse quesito? Um chamando o outro de camarada? Sem relação alguma de submissão e/ou imposição? Hmmm... Podemos partir da premissa de que socialista que é socialista não mexe com bolsas de valores, então digamos tchau à metáfora. E as feridas narcísicas? E a angústia intrínseca ao desejo pelo outro? E porque inventei de ler Lacan dia desses?

terça-feira, 7 de junho de 2005

Castas sociais de colégios salesianos

Deve ser algum tipo de padronização. Se o McDonald's pode padronizar, porque não eles? O fato é que qualquer colégio desse tipo que se preze sempre se localiza estrategicamente num ponto diretamente em frente ao sol. Experimente se posicionar em frente ao Santuário, aquela igreja rosada da Prainha, pra você ver. Talvez haja realmente uma padronização: numa ocasião que não convém citar, vi um quadro com latitude e longitude precisamente definidas para a localização das dependências do colégio. Mas não é sobre a localização que vim falar: é sobre as castas. Comecemos, então:

_ Bons-moços: meninos e meninas que vão religiosamente às missas de Domingo. Pelos mais diversos motivos: xavecar aquela menina que nem te dá bola nos recreios durante a semana, ver aquele povo chegando dos retiros espirituais, ver o padre pagando uma de Padre Marcelo... Essa é a ala sangue bom de lá. Cheia de leitoras, acólitos e outras ocupações escusas para muitos. Inofensivos. Chatos pra caramba (não bebem, não batem em ninguém, não sacaneiam ninguém da diretoria), mas inofensivos. Freqüentadores assíduos de jornadas, desconhecem o significado de fim-de-semana. Ingênuos como todas as castas, ainda acreditam existir para os outros.

_ Revoltadinhos: góticos, punks, pseudossuicidas, pseodooitentistas, fãs do Nirvana, e gente que se veste de preto em geral. Adoram se exibir na web por meio de sites e perfis no Orkut sem propósito algum e absolutamente nada a dizer, e sempre arranjam um motivo banal para dizer que detestam o diretor e reforçar sua reputada imagem de mal. "Sim, eu sou um estudante de colégio salesiano, mas tenho o direito de pagar uma de revoltadinho com minha camiseta do Cradle of filth! Se é que eu consigo pronunciar isso aí, é claro. Ah, e não se esqueçam de olhar pro meu novo piercing." Seus perfis no Orkut costumam ter fotos surrealistas, com pretensas habilidades fotográficas e cretinas descrições de si mesmos.

_ Malas: terminaram o Ensino Médio há uma eternidade, mas não perdem o vínculo com o local. Conhecem todo mundo e usam e abusam de sua influência para pegar as menores de idade durante os intervalos. Fazem de tudo: auxiliam nos retiros espirituais, defendem incautos de brigas durante festividades como festas juninas e olimpíadas, e sempre estão beirando eventos dos quais não têm ligação curricular alguma. São os mais sociáveis, a ponto de o colégio ser uma espécie de harém particular em épocas de vacas magras na nightlife.

_ Nerds, boas-moças e discretos: os recatados em geral. Os excluídos por sua introspecção. Falam pouco, com poucos, e devem facilmente se tornar invisíveis num recinto com milhares de alunos como aquele. São os que só são lembrados quando alguma atividade curricular é tomada como referência nacional. Ou quando apanham no recreio, a ponto de quebrarem a clavícula, e o colégio ser forçado a abafar o caso. São pessoas de ótimo convívio, sempre discriminadas pela superficialidade das massas.

_ Esportistas: são os mais ególatras de todos, as pessoas mais inconversáveis possíveis (difícil puxar um assunto quando, para a pessoa, apenas si mesmo é o assunto), e as que adoram cantar vantagem quanto à sua suposta auperioridade para as equipes de outros colégios. Hoje em dia a coisa é mais light, mas há alguns anos atrás, era uma rivalidade de se descer o braço, mesmo. Seu apuro estético é zero: realmente acham que aquela camisa patrocinada pelo colégio para os jogos é o máximo. São prestativos, mas adoram tirar casquinha de tudo e todos. Não estranhe se encontrá-los em brigas.

_ Os porra-loucas: como no famoso dito popular vulgo, "sempre há um filho da mãe pra fazer merda." Esses são os caras: Joselitos sem noção o o suficiente para se encaixarem em nenhuma das outras castas, e aprontam mil e umas que ajudam o colégio a ter história pra contar. São eles quem levam armas pras Olimpíadas, são eles picham os muros, são eles quem transam no final do corredor, são eles quem sabotam o sinal, são eles quem ajudam a colocar gente clandestina pra dentro dos eventos do colégio... Ah, e sempre, sempre são eles quem avacalham os retiros espirituais. Desde simular "descarrego", até aprontar alguma no refeitório.

_ Celebridade: professor de nome esquisito, queridinho das meninas, peixe dos meninos... O Corpo Docente costuma se incluir nessa categoria. Ele e algumas figurinhas que surgem dos retiros: é cada naipe que volta da Casa dos Sonhos... Até hoje sou lembrado da vez em que fui ao retiro.

_ Residente: estes se encaixam vagamente em todas as castas acima. Mais em algumas, bem menos em outras. Se diferenciam por não ter vida fora dos portões do colégio. Tudo que faz e todos que conhece são de lá dentro. É peixe do Corpo Docente, é conhecido por todos os funcionários, e sabe de tudo que rola pelos corredores. Verdadeiros repórteres Esso.

_ Humildes: estes não estudam no maior colégio salesiano da cidade. São facilmente reconhecíveis por não ostentarem camisas de última marca e tênis chamativos cheios de bolhas inúteis. São uma espécie de classe operária do ecossistema salesiano. Parecem que saíram duma briga de tão feios, alguns deles. Podem também se encaixar em quaisquer umas das castas anteriormente citadas, mas sempre se destacarão pela simplicidade de seu vestuário e pela falta de condições de pagar uma social em festas de quinze anos e outros eventos fúteis do gênero.
Dessa vez sem bússola!

O ego é um mecanismo perigoso nos homens. Ao mesmo tempo que alimenta uma vaidade necessária a se pensar n'alguma motivação para se sair da cama, esta concatena toda uma auto-estima aplicável aos que, mesmo que carentes de vontade de se aprimorarem pessoalmente, têm o ego investindo, mesmo assim, em seu bem-estar, por dependência afetiva, e de expectativas, alheia. A questão é que nunca fiz muita questão de contar vantagem de minhas conquistas amorosas. Mas quando uma densidade demográfica incomum de exemplares femininos começam a rasgar seda para você, o pensamento fica flutuante. Não por estar impressionado pelos previsíveis comentários ou pelas redundâncias agradáveis aos ouvidos, mas por o fato deixar em xeque a quem a flecha do Cupido está se dirigindo. A atração sempre me desorientou. Se me ativesse sempre a ela, seria um perigo para mim mesmo, me prendendo a uma vida promíscua, vazia de afeição. Mas o que acontecerá se me ativer ao ego? Ego este combalido por dores passadas mas inflado por flertes copiosos? Dúvidas, dúvidas. Percebamos que o ego é tão perigoso que este nos superestima, nos distrai de uma visão crítica de si mesmo, e ainda é incumbido da espinhosa tarefa de apartar as constantes brigas entre o id e o superego. Tudo isso para um funcionário só. O pior profissional de Relações Públicas que você terá em toda a sua vida!

Sempre o sufoco, enforco e esquartejo na maioria da situações. Perante egos alheios, o omito da cena do crime por não precisar perder tempo com espuma das cabeças alheias. O ego repudia aquele aforismo do Confúcio de que "a melhor qualidade no homem é a humildade". Repudia a ponto de às vezes termos a impressão de que a humildade é submetida a trabalho escravo, num mercado de prostituição imoral denominado vaidade. Mencionando a flecha do Cupido, devo considerar que raramente me senti em tal fogo cruzado. Poucas são as paixões que passam por mim, e a dúvida parece tola. Conselhos esparsos e, por vezes, dados inconscientemente por outrem, me fazem perceber o que está em jogo. A miragem e a promessa. E o ego no meio, como sempre. Sendo ego o equivalemente ao pronome pessoal eu na língua portuguesa, e o id sendo uma corruptela de ich do alemão, correspondente igualmente ao eu da língua portuguesa, onde é que o barbudo do século XX quis chegar? Sometimes a cigar is just a cigar? Me poupa, vai! Um eu latino, apartando picuinhas entre um eu alemão e um eu, que não é somente eu, mas é super. E um alter ego, um eu mais velho, supostamente em cima do muro. Onde se quer chegar com isso, afinal?

Síndrome do anjo caído

Me identifiquei com essa expressão do senso-comum quando a ouvi pela primeira vez. Assim como identifiquei rapidamente aqui em casa um referecial à expressão síndrome do ninho vazio. A questão é que sofredores da do anjo caído nunca se sentem satisfeitos perante si mesmos. Jamais atingem suas expectativas e nunca são dedicados o suficientes a suas metas. Nada me satisfaz, como me disseram dia desses. Pessoas, objetos, relacionamentos... Isso não é exatamente novidade para mim, mas ter isso constatado por um terceiro espanta. Sei que somente através de terceiros nos descobrimos, mas não sei ao certo como conseguimos ignorar tantas coisas bem à frente de nós. Dá medo magoar as pessoas. O cuidado extremado nos afasta, o cuidado negligente também. Opto pelo primeiro, sabendo que não é de todo que ele é mais vantajoso do que o segundo. Analistas por natureza se condenarão por quaisquer escolhas que façam, afinal jamais estarão satisfeitos com uma plenitude inexistente que buscam em seus atos.

Agir sem pensar, abafar a maioria dos comentários afiados sobre as coisas que não te agradam esteticamente, e voltar atrás quando necessário, são heresias aos anjos caídos. Não há nada de explicitamente edênico fluindo em seu cotidiano, e ele custará a perceber isso. Poderá até se confortar com suas limitações quando perceber como certas fronteiras, transponíveis ou não, dão certo romantismo ao impossível, fazendo com que ele perceba que suas limitações e redundâncias o ajudam a buscar uma simplicidade intrínseca que não pode fazer mal a ninguém. De onde teria tal anjo caído? A gravidade o impedirá de informar que foi do céu. A ausência de asas, também. O ovebooking de seu vôo ressaltará isso. Percebe-se, neste momento, que até a condição do anjo caído perante si mesmo é desconhecida: o que ele realmente é e do que adianta ser isso? Se constrange perante a endeuzação do cinicamente simples do material e o desdém perante as constrangedoramente tortuosas abstrações do afetivo e espiritual. Um sempre abafando visualmente a contradição do outro. Outro sempre subjugando o que se pode presumir do um. Ou seja, não é somente os dois hemisférios de sua cabeça quem sempre estarão aos tapas perante as efemeridades; as fontes de hedonismo dos homens também estarão, sempre.

Me encontro num estado em que, apesar de as coisas estarem banalizando e eu ter de cada vez mais abstrair a fruição disso, a sensação de se estar sendo pressionado, proporcionada por uma das facetas da síndome, se atenua. Temo submergir na indiferença, o que me faz sempre manter contato com quem gosto e fingir ser menos perfeccionista e calculista quanto a meus dizeres. Manter-se com atitudes simples, desprezar a pena que se sente de si mesmo e sufocar a condescendência são desafios muito presentes na vida dos anjos caídos. Ouvi falar uma vez que não adianta ajudar quando se precisa de ajuda. Outra heresia para os anjos caídos. Eles não se consideram dignos de pena a ninguém, o que se envereda esporadicamente para o campo do orgulho, numa tentativa vã de esquecerem seus chiliques existenciais em troca dum débito moral (vide post do ano passado em que esse termo foi usado). Ao contrário das finanças, moral não é passível de empréstimos e especulações.

Mas se não adianta ajudar quando se precisa de ajuda, como os anjos caídos podem ser ajudados? Felizmente ninguém tem tal resposta, e quem julga ter se torna irritante e inconveniente para os anjos caídos. Digo felizmente porque não precisamos de respostas, precisamos é saber nos educar, aceitar e condicionar a obter tais respostas. A ajuda se observa em todos, basta saber ser oportunista perante si mesmo (vide post do mês passado), o que nem sempre o anjo caído sabe fazer. Todos precisam se chantagear psicologicamente para obter a satisfação que buscam. Tem-se sempre o que se deseja pessoalmente; o que nem sempre se tem é vontade de se abrir mão de certos estorvos pessoais -- e de se ostentar outras diretrizes pessoais -- para obter tal condição. A incondicionalidade (vide post da segunda metade do ano passado) é considerada arriscada demais pela maioria.


Ia digitar uma consideração sobre uma limitação que percebi no post, mas como isso seria um sinal claro da síndrome, é melhor deixar pra lá...