terça-feira, 31 de maio de 2005

Os apuros de He-man

Já está cansando trazer até cá os constantes acessos ufanistas de vaidade do He-man, mas como o BR tende a fazer o hábito a certos tipos de post, coloquemos então mais uma amostra do (pouco) que se passa na cabeça deste jovem com quem tenho de conviver. Em colchetes, notas mentais.

_ Ai, M! Tô enroscado! Meu esquema com uma menina que eu tava xavecando não deu certo! E o pior é que a amiga da amiga dela é a fim de mim!
_ Fala sério!
_ É, e esta amiga da amiga dela me abordou este fim de semana, e se declarou. Abriu geral o jogo!
_ Nossa... E o que você fez?
_ Fiz nada. Não disse nada, apenas fiquei na minha.
_ Ai meus sais! [como eu odeio a genética! E as regras sociais cheias de lacunas! E o desconderto de situações assim! E os Engenheiros! Mas esses não têm a ver com o atual acesso de raiva, hehe]
_ Vou dormir. Boa no...
_ Tento não te chamar de lerdo, mas você não ajuda: Ná ou Tá?
_ As duas são amigas da Rê. E, à época em que fiquei com a Rê, Tá já queria ficar comigo, mas preferi a Rê.
_ Bom, hoje em dia você poderia tranqüilamente esnobar a Rê.
_ Se fosse fazer isso com cada uma que catei depois da Rê...
_ Ah, é, garanhão? Contabiliza, então!
_ Uma aqui, outra ali, noves fora... Umas treze! Sete no ano passado, seis esse ano, sendo cinco no Z100.
_ Mas na Z100 você não agarra, esbarra: só dá menor de idade lá.
_ Me poupa, M! Nesses lugares, você sequer pode entrar de boné!
_ Logo suspeitei de sua evasiva matemática. Mas e a Tá, cara?
_ Cuidado! Tem a Tá das bochechas e a Tá cover da Fernanda Lima! Ambas foram a fim de mim em épocas diferentes.
_ O quê? Pô, a bochecha até perdôo, mas a Fernanda Lima?
_ Acontece, ora! Ela saiu do colégio esse ano.
_ Cara, quando vejo as meninas que são, ou foram a fim de você, me preocupo seriamente com a juventude do país!
_ Vai tomar banho, rapá!
_ Que mentalidade é essa? O cara finge que estuda na faculdade de Direito todas as manhãs, acha inadmissível sair de casa sem que o boné de marca combine com o número ímpar de molas de seu carnavalesco tênis de marca, e ainda por cima realmente acredita que alguém leva a sério suas sandices ególatras!
_ Ah, magoei...
_ O que esses colégios estão a fazer com essas meninas? Elas saem do segundo grau, todas serelepes, realmente acreditando serem capazes de serem aprovadas em faculdades de renome nacional, para, no atolar de suas efêmeras frustrações intelectuais, se verem encalhadas nesse mercadinho imoral de diplomas das faculdades particulares mais vagabundas possíveis de sua cidade!
_ É como o velho dizia: todo mundo quer ser dotô nesse país que se vangloria de ostentar possíveis promessas!
_ Menininhas tolas que teimam em querer crescer pessoalmente perante imaturos que têm como hábitos religiosos atualizar seus fotologs e perfis do Orkut, numa vã necessidade de garimpar ilustres desconhecidos para consumar a dependência por atenção virtual! [não somente virtual, óbvio]
_ Vá ver se eu tô na esquina!
_ Basta um playboy assaltar as vitrines dos shoppings para entorpecer seus coraçõezinhos. Praças de alimentação funcionam como a ritos de passagem: quem borrar mais o horizonte de multidões desocupadas com suas roupas cintilantes e seus artefatos coloridos ganha um lugar ao céu.
_ Sim, M: meu tênis de marca é passaporte pra alta sociedade juvenil. Meus tênis ou a chave do carro, o que vier primeiro.
_ Coitada da Tá...
_ A das bochechas ou a cover da Fernanda Lima?
_ Ai meus sais... Ele assume sua condição de fútil com orgulho!
_ Porra M, prefiro assumir meu lado emperequetado a tender a sair na rua com roupas de brechó como você costuma fazer.
_ Sempre fui despretensioso quanto ao meu visual e meus pertences, sabe disso.
_ Letras, Letras, Letras: o que esta merda de curso está fazendo contigo? Deve ser uma seita, não é possível! Aquele monte de nego de cabelo pixaim, com pinta de xabi, chegada em bocas-de-fumo sob eufemismos como saraus, cafés literários e circuitos culturais alternativos!
_ Hmm, já ouviu falar em vocação? Em se estudar o que se gosta, incondicionalmente das medíocres perspectivas futuras que prefiro evitar?
_ Pelo menos ele não faz Filosofia...
_ Eis a sina da faculdade que estudo: me despreocupar com cobranças que cavalgam sob rédeas sociais e tentar não atrasar a conta de luz pra quando conquistar o canudo e tiver de me virar com este.
_ Que sinistro... Meu braço empelotou!
_ Tudo bem: a manga longa de sua camisa de marca disfarça...
_ Em meu uniforme urbano, não pode faltar Tommy e Nike!
_ E depois reclama quando estamos no Centro e vêm aqueles esquisitos admirando seus acessórios superfaturados. Realmente, os trombadinhas adoram homens de "uniforme"...
_ Não somente os trombadinhas, saliento.
_ É, vem de berço o interesse inerente ao sexo feminino. Começa com os bonés, parte pros tênis... Daqui a alguns anos, nada menos que diamantes e carros importados serão levados em conta.
_ Preciso dum Golf, irmão! Quando eu trabalhar, vou comprar um para mim.
_ Quando você conseguir chegar até o fim do mês sem me implorar por dinheiro pro fim-de-semana, voltamos a conversar.
_ Até quando terei de puxar o saco da mãe pra comprar o que quiser?
_ Essa função ingrata cabe bem a você. És o lado negro da Força entre nós dois; usar de coerência e relações custo-benefício para pedir a ela badulaques da moda nunca foi seu estilo. Alguém tem de assumir a personalidade imprudente e consumista pra obtermos as coisas.
_ Sempre dá briga eu pedir pra sair no fim-de-semana.
_ O que é compreensível pra quem dirige até Chapada, com o carro do amigo, pruma rave, com menos de três menses de carteira provisória em mãos!
_ Shhh, ela não precisa saber disso! Nem disso, nem do porre de semana retrasada! Embora fosse interessante eu relatar a ela sobre aquele incidente no apê das meninas...
_ É inútil tentar me difamar! Como acabo de dizer, você é o lado negro da Força nessa irmandade cossangüínea. A pior interpretação possível das merdas que aprontarmos sempre cairá em ti.
_ Tem razão. Você caiu de tanto beber daquela vez com as meninas e quem levou os esporros fui eu, sob a estapafúrdia alegação de que eu o induzi a encher a cara.
_ É um estigma: você é tachado de malandro; eu, de bom moço.
_ Os estigmas são mais fortes que nós.
_ Falando em estigmas, e a Tá, rapá? Como fica?
_ Me deixa, M!

sábado, 28 de maio de 2005

Drops

_ Porque não, menina? Poderia dar certo entre você e Mancha!
_ É que quero continuar a poder tomar banho!
_ Como assim?
_ Não conseguiria entrar no box do banheiro com tanto chifre na cabeça batendo no teto!

_ Nada a escrever, M?
_ Pelo contrário: muita coisa! É falta de vontade de escrever mesmo...
_ Não sei se isso, ou o contrário, é preocupante!

_ E ae, Batata? Você e a gótica ainda estão juntos?
_ Ela não é gótica, ô cabeça! E somos apenas amigos?
_ Comequié? Eu vi você e ela no sarau aquele dia...
_ Fui com meu irmão, pro guri não ficar deslocado...
_ Pffffff...
_ Que foi?
_ Creio que o senhor pagou uma de padeiro!
_ Como assim?
_ Só amassou, pra depois vir outro e...
_ Epa! Claro que não!
_ Então o senhor pagou uma de vinagrette!
_ Epa! Vina não! Vina não!!!

_ Pô, He-man, você e a Rê ainda têm futuro! Fica com ela de novo!
_ Nem. Ela engordou!
_ Sei. Quem desdenha quer comprar!
_ M, figurinha repetida não completa álbum, só serve pra jogar bafo!
_ Larga de ser esnobe! Quantas vezes te flagro se lamentando, mesmo que ironicamente, por não estar mais com ela, ou mesmo evitando colocar na playlist do computador a nova música do Latino só pra ela não perceber pelo Msn suas músicas de fossa!
_ Me poupa, M! A propósito, te contei o que rolou antes da gente ir pra Skaze?
_ Libera!
_ Foi assim: estava com Zeca e passamos pela frente do shopping; era umas onze e meia. As duas discutiam acaloradamente: uma queria ir, a outra não. A que quis namorava um carinha que estava no carro com a gente. Eu fiquei dum lado do carro, ela do outro. No dia seguinte, ela espalha pra meio mundo que eu dei em cima dela, que chegamos a iniciar um rala-e-rola...
_ Brincadeira, meu! Foi pior do que aquela vez em que você voltou com a Rê antes mesmo de você perceber.
_ Foi ridículo, aquilo: tinha que ser treta do Bolado! Dizem que ele estava quase travado no apê duma amiga, quando a Rê, uma das amigas dessa menina, liga. Bolado atende e produz o boato sob efeitos etílicos. Ou seja, depois vou ter de ligar pra Rê perguntando porque é que voltamos, mesmo. Nem eu mesmo fiquei sabendo...
_ Você ainda gosta da corujinha, sei disso.
_ E aquela sua amiga, M?
_ Ela está comprometida...
_ Mas ela é meio chatinha. Meu esquema com ela seria encaixar e tchau!
_ Tudo bem que ela está meio petulante, mas aonde quer chegar?
_ Aos finalmentes, não ficou claro?
_ Boa sorte, caboclo. Vai precisar. Interprete isso em todos os sentidos possíveis.
O que vai acontecer comigo? Hmm, desconsiderem a pergunta retórica e percam tempo prosseguindo nas conjeturações a seguir. A obsessão acabou, posso dizer. A palavra foi usada no mais honesto contexto do senso-comum. Depois, que venha algum psicólogo me alfinetar se for o caso. A questão é que minha tendência a ser focado no que gostaria de obter está se diluindo a ponto de eu ter feito a pergunta do início do parágrafo. As decisões e vislumbres cada vez mais maleáveis começam a me assustar. Mentira, não começam; eles já fazem isso há um bom tempo. A questão é que, mesmo tendo sucesso em pôr o futuro no seu devido lugar e evitar armazená-lo num presente em construção, a sensação de incerteza continua. Que merda, chegar ao vigésimo primeiro natalício sequer serviu para isso. Sou um imprestável andarilho nessa linha do tempo de escala irregular em que vivemos. Mas descarregar o presente dos contêineres do futuro e evitar destacar excessivamente certas nuances do destino têm me ajudado incomensuravelmente. Amansar meu jeitão estóico deu um trabalho que poucos imaginam. Alguns poderiam palpitar:
_ Sersup, você está apaix...

Eu repeliria imediatamente:
_ Eieieiei, devagar! A cobrança está bem aí!

Por que faria isso? Porque não é apenas com os contêineres do futuro com que tenho que me preocupar quando à forma de gerir as toneladas de coisas externadas por todos os lados, nessas docas ao léu. Há que se saber o que fazer com... Ai, mas que merda! Só de escrever esta porcaria de post tenho como indicativo de que os traiçoeiros mecanismos de minha cabeça já estão agindo para me fazer explorar algum tipo de expectativa. Façam um favor: me blasfemem de todas as formas possíveis nos comentários se eu me atrever a escrever um outro post, abstraído demais como este, sobre alguma inconstância das idéias que possa se levar a pensar que eu esteja, assim, sabe... Não sabem? Ótimo!

quarta-feira, 25 de maio de 2005

"Se esquive esporadicamente"

_ Quero ficar em paz comigo mesmo, só isso!
_ Mas não é egoísta querer isso?
_ Não sei. Me dôo bastante, a ponto de presumir ser mais do que deveria.
_ Seu bloqueio também aumenta a falta de paz na pessoa desejada.
_ Como assim?
_ É certo alcançar uma calmaria pessoal, mesmo sem saber que se interrompeu em muito a calmaria alheia? Lembre-se, contentamentos ou felicidades são estáticos.
_ E se, mesmo abandonando meu desejo de ficar em paz comigo mesmo e alcançando tão desejado coração alheio, e, com isso, finalmente obter uma indireta paz, toda angústia terá sido por algo estático?
_ Perceba que é muito barulho por nada!
_ A naturalidade, o fluxo. Porque não consigo deixar de me preocupar com os meios usados por tais mecanismos do coração?
_ Contente-se em reformular a pergunta: porque continuar a usar mecanismos que interfiram nos do coração?
_ Eu não sei o que fazer!
_ Você sabe: esqueça tudo que te disseram sobre tal, vai ser diferente.
_ Citando Paralamas, é? Pelo menos não foram os Engenheiros...
_ Perca esse medo crônico do lugar-comum que, muitas vezes, te tapeará ao mesmo tempo que tenta enobrecer cada momento. Fugir do lugar-comum lapida algo de que ainda precisas descobrir a forma. A procedência do material a ser lapidado é outra consideração social crônica: não é a qualidade, mas seu alicerce. Estética? Esse mecanismo não é usado pelo coração. Talvez pelos genes egoístas de Dawkins, mas não pelo coração.
_ Sugere que eu abandona essa fuga obsessiva do lugar-comum?
_ Não fuja, se esquive esporadicamente...
_ Então tá!

Dinâmica besta...

...que teve na sala dia desses...


Quem sou eu?

Se nem eu mesmo consigo me descrever às vezes, porque haveria de acreditar que o conseguiria em poucas linhas?

Quais os meus desafios?

Os mesmos de todos, pueris demais para uma consideração socializada que, inevitavelmente, os desdenharia com a matéria bruta do aparente.

Quem pode me dar as respostas a meus conflitos?

Só se conhece verdadeiramente a si mesmo por meio de terceiros. É só não deixar isso escancarado perante o sufocante desdém dos superficiais. Enfim, um oportunista perante si mesmo.


Responder a primeira pergunta foi fácil: foi só copiar minha descrição do perfil no Orkut. ;)

Até tirei onda: como o vocalista dos Engenheiros responderia a tal pergunta? Simples: com o aforismo barato Somos quem podemos ser/Somos o que podemos ter. Bléargh! Sinceramente, está me fazendo bem romper a assiduidade de antes ao postar: olha quanta besteira como esta que deixou de ser publicada...

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Ministério da Fuzarca da Razão

[1]

O amor me parece uma fila indiana de vez em quando. Ninguém sabe sua posição na fila, alguns tentam comprar senhas pra passar à frente e a burocracia jamais te permitirá saber se está na fila certa. Ou seja, nós mesmos somos um órgão público desfuncional. Daqueles em que sempre se volta por o babaca do balcão achar a coisa mais importante do mundo você trazer vias autenticadas de toneladas e toneladas de documentos que só servem pra constatar a fração milesimal que o portador dos documentos representa ao órgão supracitado. Mais chato do que mexer com a Previdência Social, como se observa: é mais fácil achar garantia no fundo do que um fundo de garantia. Uma queda livre. Isso sem falar da declaração que se entrega todo ano. Se bem que o tipo de declaração de que falo não tem prazo para ser entregue. É mais um dossiê clandestino escrito por mãos que desconhecem seus portadores. Quase a mesma coisa que os sonegadores fazem, com o diferencial de a fraude, quando menos se esperar, se aplicar ao próprio fraudador. Sim, os números tornam tudo mais confortável quando se quer foco. E é melhor parar por aqui este parágrafo antes que este post fique mais sentimentalóide e sem nexo do que as letras dos Engenheiros.

Jeitinho brasileiro? Nem este consegue trazer uma fórmula batida quanto ao órgão público do eu sozinho. Só mesmo nesse país superlativo para se usar diminutivo em palavras assim. Macetes se quantificam? Os fins justificam os meios? O jeitinho é tão maquiavélico assim? A morosidade do órgão público nos força a usar e abusar do jeitinho? Bom, para certos impostos, jeitinho algum dá jeito. Que se quer dizer com impostos? Busquemos a resposta na própria palavra, particípio de um verbo, mas usada mais freqüentemente como substantivo: dizeres do inevitável. Putz, quando não começo a deslizar por um post de ideologia mais gessingeriana, caio na jocosidade de usar termos dignos de Paulo Coelho. Lições do inevitável? Isso é termo de místico de livraria de shopping! Sem comentários. Essa mania nossa de exigir que todo escritor, mesmo os místicos das prateleiras, sejam gênios e não deslizem por fórmulas, faz sentido? Talvez faça o mesmo sentido do que se reclamar de programas de auditório. Não é porque besteiras culturais sejam redundantes que ela deixem de fazer parte de um contexto assumidamente despretensioso? Sim, entrar numa livraria é um exercício de paciência para mim.

As pilhas de livros açucarados de minha irmã me preocupam. Ninguém sabe do que se trata a literariedade; é como se as referências das letras nacionais fossem um oceano sem faróis. Essas moagens pós-modernas teimam em nos sugerir que livros são opcionais perante as novas formas de comunicação que surgem por aí. Gente com leitura, por fim, nos passam por esquisitos. A subjetividade de uma história bem-contada é dispensada por rapidezes. Há espaço pra rapidez no órgão público? Sim, crimes financeiros nesses órgãos ocorrem com grande velocidade, mas e a função a qual o órgão se destina? Acompanha tal velocidade? O máximo que faz é juntar desocupados num mesmo escritório, se prostituindo por promoções, sobrevivendo com bajulações e se alienando perante o regime escravo em que se encontra. O trabalho nem sempre liberta nese órgão. Talvez a criação de novas secretarias e de cargos fictícios com funcionários fantasmas o façam. Só não queiram dar uma olhada na folha de pagamento depois. Às vezes, o órgão trabalha sobre a perspectiva de os fins realmente justificarem os meios.

[2]

Às vezes, apaixona-se pelo sentimento, e não pela pessoa amada. A ausência, a proibição e a saudade são combustíveis eficientes para isso. É por conclusões assim que odeio os trovadoristas: vassalagem amorosa? Que porra é essa? Sim, as aulas de Literatura me fazem perguntar retumbantemente: o que estou fazendo aqui, nesta sala de doidos? Na tentativa de falar tudo menos sobre a matéria em questão, o carioca à frente ainda proclama: quem ama, ama; quem não ama, está isento. Dessa declaração, perdi minha isenção há muito tempo. Na hora em que o cara ousa falar de uma passagem trovadoresca sobre os olhos verdes, os olhinhos dela passeiam pela sala até encontrar os meus, já se encolhendo devido ao contexto de alguns dizeres anteriores à aula (clicheséssimos, daqueles que ouço desde que me entendo por gente, mas válidos dependendo de quando parte de alguém específico). Paixão pelo sentimento ou pela detentora dos olhinhos calmos e diligentes? Sim, o órgão público de mim mesmo sequer consegue maquear as expensas de si próprio. Quase como no cotidiano: se nem faço idéia de como se declarar meus próprios bens, que o diga fazer isso a um órgão subordinado a um RH totalmente intrínseco a si mesmo. Nessas horas, me lembro de Erasmo de Roterdã: talvez precise mesmo debochar mais de minha própria sanidade perante os peculatos de que meu órgão (o de si mesmo, e não esse outro que venham a estar conotando com esta frase) insiste em fazer vista grossa.

Apaixonar-se pelo sentimento seria praticamente como se o órgão público de si mesmo insistisse em viver apenas das verbas que recebe, com uma espera implícita de que isso seja suficiente e concreto. Como se se tivesse direito de licitar o coração dos outros. Tem-se direito de emitir editais propondo concursos para tal órgão? Afinal, quem fala abertamente que há concurso aberto para tal órgão, que remunera bem mas que todos sabem que jamais ingressarão, numa boa? Bom, esse tipo de edital propõe uma remuneração desconhecida, mas, como em tudo nessa vida besta que levamos, os ônus aparecem bem rapidamente, sem que tenhamos de nos preocupar com as cláusulas vagas de tal edital. Como se fosse um considerável tráfico de pessoas: pode-se estar sendo usado, pode-se ter de se prostituir vergonhosamente pelo que se sente, pode-se estar sendo reciclado, pode-se estar sendo empregado numa função que lhe porá rédeas pelo resto da vida... As possibilidades são várias. Várias para um quadro cheio de funcionários-fantasma que não gostariam de encontrar o Donald Trump na rua, por assim dizer.

Cheios de câmeras escondidas trazidas por repórteres de programas sensacionalistas, chega uma hora para todos em que começa a se tornar difícil manter o sigilo das falcatruas de tal órgão. O ridículo das finanças, o abissal dos idiotas que trabalham lá, as imagens e palavras escancarão tudo! Mas nem adiantará exonerar os envolvidos ou extinguir secretarias: o órgão terá de continuar a existir. A desfuncionalidade nos obrigará a apreciar desvios que teimamos em querer acreditar serem sempre evitáveis. Como em qualquer outro órgão público, enfim. Com o adicional previsível de ainda se ter de continuar a manter subordinado (ou insubordinado, vá saber) a outros órgãos: não adianta emitir a papelada em um se esta não chegar (ou retornar) a outro. A menos que você conheça alguém de dentro que ajude a agilizar o proce... Nossa, o jeitinho é uma epidemia! Praticamente uma instituição, ao lado do órgão público de si mesmo.


Epílogo

Quer-se ficar em paz consigo mesmo, no final das contas. As índoles mais inquietas negarão isso exatamente por não conseguirem enxergar suas próprias carências de segurança. Mas como ficar em paz com um órgão público assim tão problemático? Quando se tenta evitar a improbidade administrativa -- ou mesmo quando, no auge da inquietação pessoal, quer-se evitar cobrar ser probo ou improbo -- tudo que se almeja é saber o que fazer com esse órgão público. Tarefa tão chata quando responder perguntas constrangedoras vindas de crianças: difícil pensar numa resposta quando nem se sabe perguntar. Eis o mote do Ministério da Fuzarca da Razão: os razoáveis carecem de razão perante a loucura de suas próprias naturezas. O tendencioso é o tapume que oculta a nobreza da sinceridade que desorienta de todo a razão e nos torna pobres desiludidos que desaprendem a olhar para si mesmos. Somos possíveis debochando do impossível com um prefixo. Como aqueles órgãos públicos que recebem nomes radicalmente díspares de suas verdadeiras funções. O que não creio ser o caso desse Ministério.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Drops

[na sala do primeiro ano]
_ Vamos manchar esse povo!!
[vinte minutos depois]
_ Caramba, tem aula da Candinha agora! Fica pruma próxima!
_ Não tô acreditando! Vamos deixar esse povo solto, sem uma sacanagem sequer, por causa da aula da megera? Nossa, nem o trote presta nesta merda de curso!
[no banheiro, tirando a têmpera das mãos]
_ Ei, que tal a gente aplicar um trote clandestino aqui no banheiro? A gente pega papel higiênico, molha, e joga nesse carinha aqui do lado, que acha que não sabemos que ele é calouro! Só pra não passar em branco...
[o guri, que estava lavando as mãos, a nossa esquerda na pia, enquanto eu tirava a têmpera dos dedos, sai desesperado do banheiro, quase correndo, chegando até a tropeçar na lixeira]
_ Mwahahahahaha!
_ Um strip truco seria mais divertido do que o elefantinho...



Il est retourné! Qu'est-ce qu'on fait?

Não foi dessa vez que o BR foi enterrado na lápide do esquecimento virtual. Após um dos hiatos mais longos de sua história, Sersup volta com sem coisa pra contar. Ao contrário do que a última frase nos faz presumir, não foi somente o vazio criativo que me fez afastar abruptamente do teclado. Em todo caso, o BR levantou-se de sua tumba. Pra ficar. Não se sabe pra onde, mas que é pra ficar, isso é.
Adicionais ao post do dia 15 de Abril: He-man strikes back!

_ Cara, que beleza! Finalmente tem mais um feriado chegando. Vou encher a cara...
_ Mas sempre que saio contigo, você bebe socialmente...
_ Com você falando essas coisas, percebo como você conhece pouco de mim...
_ Não se preocupe: não pretendo te conhecer tão bem assim...

_ M, M, M! Vem cá, é importante!
_ Arf, arf, o que foi, guri? [após me esgoelar até chegar ao ponto em que o infeliz estava]
_ Contemple: 38 de braço! Vou tirar foto dessa belezinha...

_ Hoje é o dia! É hoje! É hoje! Já falei que é hoje?
_ Dia de você calar a boca? Percebo.
_ Nãaaaooo... Dia de medir o braço do He-man! [sim, o ególatra do guri se refere a si meso na terceira pessoa]
_ Nem f**endo meço essa merda!
_ Por favorzinho, M! Não consigo fazer isso com a mão esquerda. Sou sinistro, esqueceu?
_ Então tire uma foto pra dar a ilusão de ser ainda maior e some daqui!
[minutos depois ele volta, quase soluçando de frustração]
_ Justo hoje as pilhas da câmera acabaram. Magoei agora...

[atendo o celular]
_ Posso te pegar já?
_ Hmmm... Ainda não. Estou pegando umas notas no mural.
[desligo e continuo no baralho]
[tempo depois, atendo de novo]
_ E agora? Posso?
_ Hmmm, não sei. Estou terminando uma atividade.
[desligo e continuo a ficar de papo-furado na mureta]
[liga novamente]
_ E agora? Estou saindo de casa.
_ Mas ainda falta uma nota pra eu...
_ Problema seu, infeliz! Vou te pegar agora e ai de você usar a ridícula desculpa de estar assistindo aula...
[desligo e continuo à toa]
[tempo depois, ainda à toa com uns incautos igualmente à toa, dá pra ver o Chapolin do outro lado. Enrolo mais uns quinze minutos, vendo o guri agonizando em sua espera]

_ Sabia que você ficaria mal-acostumado...
_ Ah, irmão, não seja babaca: preciso dessa grana urgentemente! Não seja tão babaca...
_ Tarde demais! Me resignei à babaquice.
_ Mas você ainda pode mudar.
_ Ná, já me acostumei. Meu caminho não tem volta. Lamento...
_ É, ele está certo, He-man. O caso dele é irreversível.
_ Ei!

_ Alguém ligou pra mim?
_ Vocês se acham tão importantes assim a ponto de perguntarem isso tudo dia?
_ ...
_ ...
_ Acho que vou ao show dos Engenheiros. Vamos, M?
_ Você deve estar brincando comigo! Os caras me fizeram perder a fé na humanindade quando fiquei sabendo da crítica elogiosa da Billboard quanto a eles...
_ Ah, M, o som deles é legal...
_ Legal pra quando o fumo for de qualidade, ressalto.

_ Ela tá de salto alto, não é mesmo?
_ Ela poderia estar até de pernas-de-pau: não quero mais saber!
_ Bom, quanto mais alto o salto, mais fino o cabo...
_ Odeio tamancos!
_ É, alguns saltos não quebram tão facilmente...
_ Tinha que ser coisa de holandês e suas laricas!

_ Cara, como ri naquela Segunda...
_ É incrível! O Mancha é o famoso padeiro: amassa, amassa, mas não pega ninguém!
_ Exemplo?
_ Com uma ele amassou, amassou e levou um fora; com outra, amassou, amassou e a outra acabou ficando com o Bolado. Só pra ficar nesses dois.
_ Nossa, quando o cara não é vinagrette, é padeiro. Aiai, He-man e seu mundinho encantado...

_ O que está fazendo, M?
_ Bebendo um achocolatado...
_ Mas isso é meu suplemento protéico!
_ Logo estranhei essas crostas parecidas com uvas passas quase grudando na minha ulva...
_ Tem que bater no liquidificador pra ficar bebível.
_ Tem razão: parece argamassa, mas é uma delícia.

_ Vamos no show do Tradição?
_
I beg your pardon?
_ Prefere o do Calipso hoje à noite?
_ São marcas de fogos de artifício?
_ Não, são bandas bregas, ô cabeça!
_ Minha nossa...
_ Isso me irrita: todo mundo se faz de difícil perante essas bandas, mas todo mundo vai aos shows pra faturar algumas bugresinhas...
_ Sim, é em espeluncas assim em que o controle de natalidade se perde. Gerações inteiras de Kléberes Bam-bam surgem assim.
_ Ah, mas o show do Bokaloka não perco por nada!
_ Não é de Deus, esse garoto...