quinta-feira, 21 de abril de 2005

Quarta foi mais um dia em que pretendia ficar em casa, sem rumo. À noite, os irmãos decidem ir ao show. Fui de ultimíssima hora, pra não ter de ficar em casa mesmo: precisava sair para espairecer. Robin Hood me liga antes, mas nem sei se ela foi. O que nem faz muita diferença, enfim. Passamos num posto para "calibrar", e seguimos ao Centro de eventos. Chegando lá, encontro um monte de gente. Inclusive uma que não gostaria de ver mais. Após o show, chego a uma conclusão: deviam haver leis proibindo gaúchos de formarem bandas! Que dinheiro mais mal-empregado o meu. Não bastasse a maior concentração de maconheiros por metro quadrado que eu já vira, os Engenheiros são o tipo de banda-ímã de groupies: o que tinha de guria gritando no meu ouvido, achando o máximo trilegal aquelas letrinhas adolescentes compostas após um baseado, não tá no gibi. No final, estava acabado: pernas e costas doendo. Sim sim, percebo cada vez mais a proximidade do dia 15.

sábado, 16 de abril de 2005

He-man: um babaca de marca maior! Vejam abaixo umas amostras das sutis discorrências e de seus comentários sem papas na língua.


_ Lembra do Adriano? O vi hoje.
_ Você o viu?
_ Sim, ele deixou o cabelo crescer...
_ Caramba, aquele guri é o rascunho do capeta pelo avesso!
_ Ele costumava ser o "peixe" das garotas, não?
_ Ele era o famoso vinagrette: só acompanhava.
_ O cara quer pagar uma de cover do Highlander. No mínimo!
_ Você não faz idéia de como odeio feio pagando uma de bonitinho.
_ Você não devia falar isso: seu ego é que não lhe permite ver que você é medíocre.
_ Ah, fala sério!
_ Sério! Você é meio idiota...
_ ...porém, bonito!
_ De que adianta ser bonito se a idiotice prevalece? Preciso refrescar sua memória quanto ao incidente da pernuda?
_ Ah, mas aquilo não foi nada de mais! Qualquer um poderia ter cometido tal gafe.
_ He-man, a menina estava contando sobre suas férias em Floripa, e você tem a desfaçatez de perguntar se Florianópolis era um estado! Fanaia choraria se ouvisse algo assim...

_ Porra padawan, porque ainda tenta jogar Street? É só no couro que você leva...
_ Observe minhas seqüências imbatíveis!
_ Eu quero aprender a bater. Apanhar eu deixo pros masoquistas...

_ Ei, devagar! Tá carregando porco?
_ Porcos fazem menos barulho...
_ Essa afirmação, dirigida àlguém de ímpar discrição como eu, não fez o menor sentido!
_ É um nerd mesmo... Pobre diabo!
_ Falastrão...
_ Me ajuda a estacionar, irmão!
_ Ué! Mas vai parar agora com sua coleção de portas arranhadas? Só falta a do motorista, ironicamente...
_ Vai tomar banho!

_ Sejamos sinceros, He-man: ela é bonitinha!
_ Bonitinho é um feio arrumado, Sersup!
_ Sei, sei. E aquela? Olha aquela coisa esquisita no cabelo dela...
_ Caralho Sersup, que dragão é aquele? Chama São Jorge que eles estão se proliferando mais rapidamente do que os caramujos africanos!
_ Pelo menos ela é boa moça...
_ Sersup, toda menina é safada! Fale coisas obscenas por meia hora e você obterá delas o "lado negro da Força" aparecendo...

_ A confraria Mega mass vai botar pressão lá, Sersup!
_ Aham!
_ Nossos manos vão baixar lá de vez! Aquilo vai funfar depois de nossa presença!
_ Funkeiro, pagodeiro, playboy... Que simbiose deplorável!

_ Com esse novo corte de cabelo, sua aparência imunda se reduz consideravelmente, Sersup!
_ Fico bem em qualquer corte de cabelo! E não tenho aparência imunda não, viu?
_ Tem razão. Não perderei tempo falando nada sobre as mechas entupindo escatologicamente sua orelha. Uma trepadeira capilar, diria.

_ Caramba, olha o tamanho do beiço daquele guri!
_ Pára, He-man...
_ Você nunca se engasgou com toda aquela protuberância labial enquanto o beija, não?

_ Letras! Letras!! Que porra de curso é essa? Cursinho pra vaga de gari?
_ Me recuso a argumentar com quem sequer consegue preencher sozinho a própria ficha de inscrição do vestibular!
_ Minha letra é meio disforme, você sabe disso!
_ Lembre-se de uma coisa: para preencher a ficha, você usa o alfabeto latino, e não o abjad arábico!
_ Cale-se! Você fica mais tempo no baralho do que estudando propriamente dito naquele antro de esquisitos!
_ Um estudante de Direito, presumidamente de moral ilibada, portanto inacessível à arte da dissimulação no baralho, não deveria ter dito isso...
_ Cale-se!

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Hiato

Hiatos assim me deixam estagnado. Não sei se devo me preocupar ou me tranqüilizar com eles. Escrever sobre o que se sente é cada vez mais redundante e desinteressante. Escrever sobre seu dia é irrelevante. Escrever sobre as divagações continua a valer a pena, mas a bagagem de coisas anteriormente escritas nos deixam com caprichos que um texto produzido naturalmente não deve possuir. Pelo menos antes de virar esse monte de letrinhas aqui. É que é preciso se dizer alguma coisa para si, e isso me impele bastante. Não tenho vontade de escrever nada. A última vez em que fiquei assim foi há exatos dois anos atrás. Arranjei a inspiração de descobrir alguns gatos pingados que liam essas asneiras. O que sempre me mostrou um mistério, porque não parece fazer muito sentido ter gente interessada em ler o alter ego de uma pessoa com quem sequer convivem. Porque o BR não passa disso: um caderninho dum alter ego perdido em sua fuga, que ainda não percebeu a própria sombra a seus pés, nos momentos em que se esquece de, em sua falsa fuga, cortar caminho por nebulosas divagações que desconstróem um labirinto por tentar construí-lo por dentro.

Bom, sem mais delongas, trarei algumas Divagações Diversas por ora. Não dá para esperar muita coisa esse mês...

Há um texto alheio que li no dia 14 que me demonstrou como a maturidade, de vez em quando, chega por meio de nós mesmos. Dedicar-se a conhecer a si mesmo por meio de uma reflexão pessoal, principamente pelos dois pólos opostos de nossas cabeças, não é para todos. Não sabemos ouvir. Também não sabemos ouvir a nós mesmos. Eu não sou. Eu somos nós! Ser si mesmo é algo plural por natureza: a singularidade requer uma pluralidade. Sem esta, temos apenas a unicidade. E ela não tem graça exatamente por sua solidão no vácuo dum inflado perfeccionismo paradigmático. E eis uma intrigante discussão para os gramáticos de plantão: eu somos nós? Que estes não esqueçam do Barbosa e sua gramática filosófica de que um dia hei de ter acesso...

As pessoas criaram o conceito de acaso com medo do previsível em suas limitações psíquicas e sociais? A ignorância quanto ao estatístico e ao incontrolável as alivia? Temer a interligação holística de tudo e todos é normal, não é mesmo? Aceitar e perceber tal interligação é uma vantagem ou um fardo? A análise proporcionada por tal noção nos faz ver o que não gostaríamos de ver tão presente. Ainda bem que poucas pessoas são assim (?). O que seria da gente se uma consciência assim fosse coletiva? Continuaríamos os mesmos? A cumplicidade aumentaria? Talvez algumas instituições sociais ficassem seriamente debilitadas, mas as pessoas continuariam as mesmas de sempre. O tempo sempre traz facetas culturais novas para cada tipo de personalidade aflorar do seu jeito. Jamais teremos uma estática cultural para analisarmos tal possibilidade. Mas o que mencionei parece verossímil o suficiente. Tão suficientes que tais facetas e seus frutos, quando quer que surjam, sempre poderão ser tachados de acaso.

O Centro da cidade é um dos poucos lugares em que as referências não são pelos estabelecimentos que funcionam, mas apenas pelos que deixaram de funcionar há muito, muito tempo. Como em toda cidade fantasma. Local onde natureza morta é realmente morta. Local em que tentar se encontrar um endereço é uma tarefa que beira o lendário: ruas que surgem do nada, travessas que desaparecem devido ao incontrolável influxo sob elas, toponímia misteriosa mesmo para quem desbrava as silvícolas calçadas de lá todos os dias, seres (nem sempre com a certeza de serem humanos) mais feios que elfos, hobbits, duendes e outras criações pagãs do imaginário popular, incialmente celta... Tome por nota os espécimes de colarinho branco: não estranharia se o Frodo trabalhasse num dos órgãos públicos do Centro. Os fãs do Tolkien* deveriam parar de perder tempo com os três tijolos da trilogia e começar a fazer pesquisas de campo no Centro quanto a esses facinantemente inestéticos seres urbanos.

* Nada pessoal quanto os leitores do escritor: é involuntária essa minha mania de alfinetar as trilogias de hollywood...

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Negação

Devíamos parar para pensar, de vez em quando, como este fenômeno, presente em todos nossos cotidianos, nos atrasa, nos limita, nos faz insistir em coisas insustentáveis. Tem coisa pior do que, por exemplo, gostar de pessoas, que sequer perdem tempo fingindo corresponder a sua atenção, e continuar nessa mão única unicamente por causa da negação? Esta é um subproduto proveniente de várias fontes: esperança, desilusão, carência, insegurança... Escolha um. Leve em conta que nem tudo que concedemos e aceitamos vem integralmente sem algum tipo de negação. Se a negação não é interna, é externa. E assim a negação acaba se tratando de uma redundância inicial a muitas coisas.

O que dizer, mais especificamente, da redundância? Poderia citar ene fontes pessoais, mas creio ser melhor falar sobre esta antes de voltarmos à negação. Por maior que seja o caos, sempre se encontrará algum elemento tendencioso ou de previsibilidade. O que torna a negação 100% redundante. Desordem é só desordem por se buscar uma dada ordem, antes de tudo. Toda desordem, obviamente, peca por redundar em sua aparente ausência de funcionalidade. Vai me dizer que negação e redundância, depois disso, não são praticamente a mesma coisa? Um rotacionando sobre o outro enquanto o outro translada sobre o um (hmm, metáforas com órbitas são convenientes; não é a primeira vez que as uso). Ou seja, a busca perceptiva por alguma fluência no tocante ao fado nos faz, movidos por distrações naturais a um fenômeno amplo demais a nós, cairmos em negações e redundâncias. Mas o homem tende a conceber o belo em algumas dessas. Tende a estabelecer normas de beleza perante a imperfeição de suas constatações. Tende a fazer poesia com o máximo que suas limitações proporcionam. Nem sempre fazem diferença as limitações, contanto que não as se considere simplesmente isso: limitações. Só elas nos permitem encontrar profundidade em meio a um aprisionador todo. Precisamos de referências do errôneo para poder evitá-lo, doa a quem doer. Evitá-lo de todo seria um desperdício por obrigatoriamente se pretender desviar de limitações. Ou seja: precisamos da imperfeição para nos suportarmos. Os estóicos são uns frustrados que se contentam com suas vazias retidões não-condizentes com uma atmosfera irregular que é a índole dos homens. Como carros sem volantes: só andam numa direção, numa pista cheia de curvas, presos ao eterno medo de se perderem, quando na verdade se sujeitaram a limitações muito maiores do que as impostas naturalmente.

Negações tentam inocentemente desacasificar* um inexistente acaso, por uma natural e inicial dificuldade de se apreender coisas novas. É uma válvula de escape? Não: é uma fuga de um igualmente inexistente temor. Só a ignorância produz medos. Algo imaginário é produzido, e este responde por medos. Mas negações não se limitam a escoar estes: retêm muita coisa também. Acasificam o contrário do que se recusam, às vezes inicialmente apenas, a aceitar. Negações não são somente medos , como afirmado: são subproduto, também de orgulhos, pensamentos inflexíveis e índoles indispostas àlgum tipo de movimentação, indiferentes a ser necessário esboçarem alguma movimentação. Algo óbvio: nada acontece sem uma razão proveniente d'algum tipo de interesse, e é aqui que a negação desacasifica. Voltando àlgumas considerações feitas no ano passado: desacasificar é preciso? É preciso se acostumar com a ignorância do acaso e desacasificála. Paradoxal, mas fato, por assim dizer. Redundâncias parecem desacasificar ao mesmo tempo em que acasificam em escalas maiores, menores, que, enfim, dificultem considerações imparciais. Confuso? Negações, muitas vezes, são efeitos colaterais de confusões, mesmo...


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* Vide posts do ano passado para encontrar detalhes sobre essae neologismo.