terça-feira, 29 de março de 2005

Estudo num armazém e nem desconfio disso

Não sei se cheguei a comentar isso numa oportunidade anterior, mas a sensação de quando entro na faculdade é sempre de que estou voltando ao tempo. Nada tão radical quanto da vez em que fui à casa do Omega, mas acontece. Por exemplo: todos usam roupas de brechó que, por isso mesmo, são facilmente associáveis aos anos 80 e 70. Blusinhas com ombreiras, calças boca-de-sino, meias exageradamente grandes e listradas, camisas de golas gastas, cores audaciosas atenuadas por anos e anos de armários e traças... Andar pelos corredores do bloco é como estar num pregão gigante. Se entrar n'alguma sala para pedir informação, tenha certeza de encontrar algum adesivo descascado que denuncie há quanto tempo o local é usado: adesivos do Lula antes dele adotar a postura paz e amor que enganou a todo mundo em 2002; adesivos de chapas da época em que ainda se acreditava na ilibada pessoa do Collor; adesivos de congressos que só servem coo tapume em janelas... Isso sem mencionar os objetos: tevê mais velha do que eu na xerox do andar de cima; paredes de fundo falso sem gesso, com tapume descascando e entortando; lage desbotando que só não cai em sua cabeça por causa da tubulação do ar condicionado que, ao congelar demais, forma crostas de gelo que esporadicamente cai n'olho d'alguém; bebedouros estrategicamente dispostos perto dos banheiros cujo tubinho por onde o filtro retira as impurezas termina (ou começa?) num ralo muito do nojento bem em frente à sala onde estudo... E já ia me esquecendo do cheiro asqueroso trazido pela chuva de hoje à tarde.

Como se percebe, tem-se a sensação de que o bloco em que estudo fora uma espécie de armazém um dia. A rampa gigante de acesso ao bloco deve ter sido feita na pura improvisação; até hoje jazem umas janelas, atrás do sebo do Sodré, que originalmente deviam ser salas de aula, mas que foram alteradas por algum engenheiro sob efeitos canabinóides. Curioso notar umas espécies de, digamos, estandes. Tem um bem no meio do gramado, entre a alameda e a piscina (vulgo canabinódromo), e outro perto do estacionamento atrás da FAECC e do bloco de Direito. Nunca os vi sendo usados. Um amigo que faz Arquitetura me contou que a turma dele ficou incumbida de dar vida nova ao presépio da universidade, usado no ano passado e largado num canto obscuro do Teatro. O guri, pelo que me relatou, ficou com teia de aranha até a testa. Sem mencionar o trabalho escravo de praticamente se começar do zero a se fazer uma maquete, com a máxima escassez possível de materiais. Onde quero chegar com isso? As estranhas estuturas que suponho serem estandes abandonados devem ser usados como depósitos das quinquilharias mais bizarras. Se os fundos do teatro são usados com essa finalidade, que o digam as quatro paredes mais ermas de lá.

As salas de aula, pequenas conforme padrões nas arcaicas plantas baixas que o Governo segue à risca para a construção de suas instituições de ensino, são confortáveis dependendo do local em que se adentre. As salas de baixo, perto dum salão onde fica o piano do CAMUS, têm um cheiro muito esquisito. Já as de cima não têm esse problema, embora a tubulação do ar condicionado solte algumas estalactites de gelo na gente, como citei anteriormente. Isso quando a sala tem ar condicionado; em alguns locais mais abandonados, fazer-se um buraco na parede para se colocar um aparelho desses é um luxo ao qual os usuários do recinto não podem se dar. Vai que a parede desabe de vez. Ou, pior, descubram uma boca-de-fumo do outro lado da parede. Sabe como é, se as frestas das paredes de mármore do Museu Rondon servem como uma prateleira informal para você queimar o fumo que mais lhe apetecer, o que dizer do resto das redondezas? Os corredores são um detalhe à parte: alguns de ladrinhos de cores bizarras, outros de placas mais informais. Alguns parecendo corredor polonês de tão encurralado e claustrofóbico, outros parecendo labirintos com tantas escadas, passarelas interligando outros blocos e outros mistérios de natureza arquitetônica arquitetados corredores adentro. Eu, por exemplo, ainda estou pra tentar entender a utilidade, mesmo que estética, da "rodoviária", dos que julgo ser estandes, e daqueles banquinhos atrás da estrutura do Ginásio. Excetuando-se por orginas, possíveis macumbas e rituais bizarros, qual a utilidade de se dispôr certa humanização em locais tão abandonados e inacessíveis como aquele?

As paredes sem pintura alguma, os compartimentos escondidos atrás de paredes falsas de madeira ao lado do banheiro, as salas surrealmente pequenas como a que usei ano passado, em que cabiam apenas cinco cadeiras mais a mesa do professor, os equipamentos que parecem ser escondidos da gente de tão camuflados que estão... Porra, parece filme B andar por aqueles corredores! E não falo isso apenas pelos transeuntes; falo também pela estrutura que acabo de citar por alto. As toucas de lã, as camisas que parecem ter saído de episódios de Hermes e Renato, os mais esquisitos andarilhos possíveis de se encontrar, as conversas mais bizarras, os ingênuos e mortos ideais de revolução estampados em camisas e gorros vermelhos... Caramba, é como se o bloco fosse uma sucursal de Cuba! Mas essa impressão muda quando se pisa num bloco d'algum curso mais direcionado às elites. Volta-se à realidade, por assim dizer. Sai-se d'um lugar de pessoas menos superficiais, mais observadoras e de certo desapego com a aparência, e cai-se num local mais frio, com pessoas que desprezam a função social de uma universidade e preferem fazer numa instituição pública um curso de graduação que poderiam estar fazendo numa instituição privada. Mas não estou aqui para julgar quem anda pelos corredores a meu lado, e sim para demonstrar como certos lugares parecem congelados no tempo, cheios de pseudocantores arranhando nossos ouvidos com seus violões, seus violinos e suas poesias. Uma pretensa indústria cultural, à margem, alimentada por vários jovens, enfim.

E os eventos culturais? Aqueles tons noir, aquela galera de preto com óculos indie, pagando uma de cult enquanto entope o focinho de vinho barato, e que tem no evento a desculpa perfeita pra curtir shows de bandas regionais. Um manifesto a quem quer se considerar alternativo. Uma manobra política pros candidatos do Centro Acadêmico. Em todo caso, os eventos culturais têm lá a colaborar. Pode-se ver uma universidade assim como uma versão maior de uma escola pública. As paredes continuam pichadas, as pessoas continuam a fingir estudar, alguns contuam a puxar fumo no muro de trás... Querendo ou não, voltou-se aos tempos de primeiro e segundo grau e nem se percebeu! Claro que agora temos a vantagem de não ter de participar daquelas feiras de ciências idiotas e de não ter de agüentar mãe te obrigando a ir à aula. Se você continua vagabundo no terceiro grau, o caminho, definitivamente, é sem volta. Esboçou uma cara de desânimo? O desânimo é maior quando descobrimos de que não podemos nos livrar daquele tapado que te dá aula pelo simples motivo de ele ser substituto e o Governo ofertar menos de dez por cento das vagas efetivas necessárias à grade de discentes. Disparidades que banalizam nossas indignações, enfim. É passar raiva e correr para o abraço. Do descaso, claro. Bom, mesmo com tudo isso (voltas ao tempo e eufemismos para morosidades dum sistema suceteado), um dia me formo. Eu acho.

sábado, 26 de março de 2005

Aqueles metros quadrados têm história

Me deu na telha falar da época em que o Goiabeiras era point da cidade. Vamos lá, então. Uma vez perante a praça de alimentação, o que se tinha? Nova Dimensão (Nova Dimensão, cara! Putz grila...) à frente, Giraffas à direita, Playmat à esquerda, Jet pizza atrás e vários estabelecimentos genéricos e congruentes a esses já citados. Nada de Mc nas proximidades. Nem Adeptus do outro lado do piso. No máximo, uma loja de calotas e outros acessóios para carros. Coisa de playboy, enfim. E, óbvio, a inesquecível sacada do Presto, onde chegou a meu conhecimento de que já serviu, para diveeeersas gerações, de área de treinamento para o escatológico esporte de cuspe à distância. Enfim coisas da época em que a fachada do decano Goiabeiras era toda azulejada de azul. Da época em que aquelas camisas com personagens dos Looney Tunes eram moda e vendiam feito água na Cartoon Studio perto da escada rolante que dá acesso ao último piso. Época em que as pessoas ainda perdiam tempo estacionando no "porão" do que eles denominavam de estacionamento do subsolo. Mas como estou falando dos versáteis metros quadrados da praça de alimentação delá, voltemos pra lá então. Havia também uma espécie de chicleteria bem no meio do corredor, se não me engano. Enfim, coisas da época em que nem sempre conseguíamos ir aos fliperamas por faltar luz direto na cidade.

Mas há coisas por lá que nunca mudam, como as duas salas de cinema. Entra ano, sai ano, sequer cogitam em ampliar ou construir mais uma. Deve ser frustrante para quem mora no Centro. O que é realmente frustrante é a segurança daquela espelunca: teve época em que entrar pelos corredores de lá era mais perigoso do que andar pelo Centro propriamente dito! Praticamente um mercado negro de bonés e artigos de marca roubados se formava à época. Pergunte a qualquer suburbano se ele já não foi roubado no Goiabeiras. Aliás, se dermos uma olhada mais acurada àqueles corredores, principalmente com a ajuda de jovens familiarizados com os tipos mais barra-pesada de sua idade, teses inteiras poderiam ser escritas sobre os grupos de jovens que freqüentam esses lugares. Toda uma subsociedade formada por legiões de jovens sem auto-afirmação cuja única finalidade é demostrar sua superioridade pela quantidade de brigas que arruma e pelos objetos de marca que roubam dos outros. É praticamente uma versão pré-adolescente do Clube da luta. Tudo bem que existem na cidade locais mais tradicionais para esses grupinhos se degladiarem, mas o Goiabeiras seria uma espécie de oásis: em que outro local pode se arranjar briga com ar-condicionado central, longe da ameaça de insolação das ruas do Centro, cheio de garotas bem-vestidas? Temos como locais mais tradicionais algumas boates e, principalmente, o colégio salesiano. Gente levando spray de pimenta, gente afogando os outros em privada de boate devido a represálias, passagens bizarras no PS envolvendo filhos de comendadores... Vê-se e, principalmente, ouve-se de tudo do submundo dos "clubes da luta" juvenis.

Renegados, Herdeiros, Magnatas, Falidos, Chegados, Ensopados... A relação dos nomes de tais grupinhos sempre preza por uma inesperada irreverência. Cada capital se destaca por predominar uma específica espécie de encrenqueiros: no Rio, temos os playboys; em São Paulo, os motoboys; em Cuiabá, poderíamos afirmar termos tais grupinhos como encrenqueiros mais proeminentes. E eles estão em toda parte. Principalmente naquele muro pichado perto de sua casa. Claro que, ao contrário do filme dum esquizofrênico Brad Pitt, a máxima "you do not talk about fight club" costuma ser desprespeitada. Mas de certo modo levada em conta: já viu alguns desses nomes, citados no início do parágrafo, em notas de jornais? Vai saber se rola gravata colombiana na mídia daqui. O que seria tosco, se levarmos em consideração que a maturidade da imprensa daqui é a mesma da maioria desses jovens. Mas, quando esses grupinhos não estão brigando, estão entretidos com garotas de quem gostam ou jogos do fliperama, que antigamente se concentravam todos no último piso do Goiabeiras. Denominemos fliperamas: método eletrônico para semear a discórdia enquanto a testosterona flui por entre os dedos frenéticos de jovens carentes de descontar em alguém suas fúrias, que tinham em combos fisicamente impossíveis e magias surreais suas válvulas de escape. Válvula cara, essa, mas que já teve seus tempos de preços módicos. Sim sim, a geração desses tempos passados devia se reunir em frente a Planet Park do Pantanal e começar a depredar aquela merda, como demonstração do que pensamos em relação à falta de consideração desses capitalistas de colocarem somente banheiras velhas para jogarmos. Porra, até hoje nunca vi a cor de Marvel vc Capcom 2! Mas não tem problema: os grupinhos de jovens podem acabar chegando perto de concretizar a sandice que acabo de imaginar. Através de métodos sutis, como arrancar alavancas, botões, grudar chiclete em monitores, ou mesmo espancar aquele nego que desperdiçou sua ficha. Yes, it's a jungle out there...

Falando das fichas, era em homenagem a elas que se observava as mais elaboradas amostras de dissimulação da parte dos jovens. Mostrar carteira falsa em boate é besteira perto do que se fazia: tinha nego que simulava inserir a ficha na máquina, mas colocava a mão no bolso para guardar a ficha e se dirigia a um funcionário para pedir outra, alegando que a máquina engolira sua ficha. Tinha também os negos que possuíam cópias das chaves que abriam os cofrinhos onde ficavam as fichas dentro da máquina. Tinha os que, e essa só descobri ano passado, fabricavam suas fichas. Nossa, tem coisa do arco da velha que talvez eu morra sem saber. Segredinhos sujos confiados a essas distorcidas fraternidades que atendem por nomes risíveis como Ensopados, Magnatas e Atrasados. Gente que tem como status a quantidade de escolas das quais foi expulso, a quantidade de pontos que fez em cabeças alheias, a quantidade de marcas roubadas dos outros, e outros orgulhos questionáveis. Vocês não acreditariam na coluna social gigantesca que é os corredores das escolas municipais dessa cidade empesteada de encrenqueiros. Apanhou num lugar, em todos os outros se saberá disso. É uma rede de informações rápida bem antes do advento de celulares e internet. E isso tudo eu trago até cá porque eu sequer andava com esse tipo de gente. Só sei de tudo isso por causa dum primo meu que morava adivinha onde?

sexta-feira, 25 de março de 2005

Semana santa

Semana Santa: semana do ano cujos dias parecem um infindável e entediante Sábado. Quarta de cinzas, Quinta da paixão, Sexta santa, Sábado de aleluia. Mesclados, dão um perfeito Sábado comum. A Igreja e seus lobbys com a indústria do chocolate, enfim. Hoje à tarde comemos peixe na Ximba (carne, hoje, nem pensar). A mãe queria ir ao Mãe Bonifácia ver a encenação da Paixão de Cristo. Encenação esta que vi ano passado na Matriz. Rodar uns dois quarteirões do Centro, em pleno feriado, na mecânica e infundada tarefa de se rezar um terço não é algo que eu pretenda fazer novamente. Me juntar a um bando de pecadores com aquele descargo de consciência me cheira a uma certa hipocrisia. Para esse ano, tive a desculpa da gripe. Dramatizei um pouco e acabo ficando em casa sozinho. Quanto aos ovos, elas, ao passarem pelo Pantanal, os providenciaram ao encarar uma fila surreal por lá.

Agora que mencionei a Matriz, é de se levar em conta algumas considerações sobre as Igrejas do Centro. Afinal, em que outro lugar se aceitaria a heresia de se demolir uma Igreja tradicional para se construir uma presumivelmente melhor, pelo menos à mentalidade da época? Como todos sabem, assim a Matriz de hoje foi construída. E assim, ao descaso, ela permanece: os relógios de ponteiro antigos, das torres, não funcionam, estando alguns com ponteiros a menos. Isso sem mencionar as dependências da paróquia, em que o mato começa a esverdear as paredes cinzas que expulsam os tradicionais tons pastel a que os olhos estão acostumados ao se encontrarem com os adornos de uma igreja. Numa outra igrejinha, esta perto da Câmara, onde estaciono quando vou ao trabalho, tem um arbustozinho que conseguiu se esgueirar, por dentre as frestas produzidas pelo cimento das paredes da antiga igreja, até ficar lado a lado com a cruz no topo. Natureza e religião ao alto, sufocados por uma selva urbana rodeada de pessoas perdidas, algumas indo à feira esporadicamente: algumas barracas se instalam na antiga prcinha, bem ao lado da igreja e atrás de um antigo jardim, onde hoje só se encontra mato e desocupados implorando pra cuidar do seu carro. À frente dessa igreja em questão, temos a Cândido Mariano, uma ruela que passa pelo CEFET e termina na praça Alencastro. O curioso dessa avenida é a peculiar concentração de óticas. Deve ter cerca de doze, quinze estabelecimentos do tipo no trecho perto da praça. É como se aquela região da cidade tivesse a maior concentração demográfica de míopes e estrábicos da cidade. E o mais paradoxal é que raramente encontro alguém de óculos por lá. Uma outra coisa que me chama a atenção para o discrepante abandono daquela pracinha é uma árvore disposta bem ao lado da rua. A calçada de mosaicos em tons patel é mera formalidade; a árvore fica bem no meio daquele deserto de picheda Cândido. A única vez em que vira isso antes foi quando estive em Paquetá. Eram quase baobás o que eu encontrava de árvores dispotas bem no meio das ruas. Machado de Assis deve se revirar no túmulo até hoje, pois pelo que ele descrevia de Paquetá e pelo que se vê hoje... Lá eu até dava um desconto: era uma ilhazinha abandonada e entulhada com os dejetos da Baía de Guanabara. Mas algo assim acontecer no Centro? Sim, esta cidade me preocupa...

E os arredores? Construções falidas, sem perspectiva alguma de aluguel, de janelas tapadas com tijolos, tapumes; prédios inteiros totalmente abandonados; construções inteiras que, inexplicavelmente, nunca foram invadidas por sem-tetos... O Centro, sozinho, é uma cidade fantasma. A pracinha da Cândido, em particular, é um trecho fantasma cheio de transeuntes do CEFET e de míopes e estrábicos que até agora não consegui perceber. Eles rendem o ganha-pão daquela porrada de óticas na quadra à frente, mas nunca os vejo. Talvez os fantasmas de tal cidade fantasma sejam ruins da vista, vá saber. Ou talvez seja eu quem precise de óculos para nunca os ter reparado. Uma outra coisa que me lembro em particular da Cândido era quando as aulas começavam na escola: sempre passava por lá para comprar os livros escolares na Brasil Central, que não funciona mais lá. O prédio onde funcionava, obviamente, está no abandono como de praxe. Creio uma vez ter ido a uma cerimônia de batisto de minha prima nessa igrejinha abandonada da praça. Isso foi em 98. Ou 99, não sei. Mas, seis anos depois, encontro a mesma igreja assim? Será que o dízimo dos padres não está sendo suficiente para uma paróquia bem conservada? Em se tratando de Centro, não duvido: parece ser o tipo de lugar em que dinheiro algum é suficiente para se erguer. Dezenas de imóveis se esfarelando a meus pés não podem estar errados.

Certa vez ouvi falar que intencionavam retirar todo o comércio do Centro para uma merecida remodelação. Mas é algo que ninguem está disposto a fazer, obviamente. Mas se retiraria o quê? Seria quase como se dirigir a um cortiço velho cheio de equipamentos para demolição. Tanto barulho pra quê? Pra se pôr terra abaixo um barracão abandonado que só serve pra zona de prostituição? Cadê o retorno disso? E é a ausência de uma resposta viável que mantém o Centro assim, abandonado, parecendo um novelo gigante enroscado nas mãos de autoridades ausentes. Barracões tombados ao lado de lojinhas suburbanas e na mesma esquina em que travecos batem ponto. Tem alguma coisa muito erada com o Centro. É praticamente um faroeste de cimento: acrescente alguns cactos, alguns salloons de madeira, e pimba! Taí o faroeste cuiabano, a região sem lei da cidade. Troque as diligências por quatro rodas indiligentes. Troque as mocinhas por dragões, ogros, bugres e outros bichos de aparência pouco agradável. Troque os vilões forasteiros por... por... pelo primeiro mal-encarado que passar a seu lado. Pela primeira cara de "Seu Madruga com cólica" que passar por sua fronte. Será questão de segundos isso acontecer, uma vez dentro do hostil teritório do Centro.

Fazendo uma correlação com os termos comuns à essa época, poderia dizer que constantes quarenta graus tornam qualquer trajeto pelas ruas do Centro uma verdadeira... Não, deixa pra lá: não tô a fim de mexer com o dogma de ninguém. Mas fico a imaginar o inconveniente que deve ser comprar um ovo de páscoa no Centro. Procure um supermercado: você não vai achar. Procure um local de clima ameno o suficiente para que qualquer tipo de chocolate não comece a derreter em suas mãos em poucos segundos: você não vai achar. Procure algum vendedor que não pareça ter saído d'algum episódio d'a praça é nossa: você não vai achar. Ou seja: mesmo para se comprar coisas relativamente simples, como chocolate, mostram-se um problema difícil para o agreste Centro. E os produtos de higiene básica? Como se vê, é praticamente proibido morar no Centro sem quatro rodas. Bom, pelo jeito me enganei: trata-se, realmente, de um faroeste sem salloon. E nem adianta mais eu tentar falar sobre a Semana Santa que eu comecei a arranjar divagações diverssa pra falar, o que me impedirá de conseguir manter uma linha, tênue que seja, de pensamento sobre o referido feriado católico.


Ufa! Ainda bem que meu hiato de inspiração terminou. Eu acho...

segunda-feira, 14 de março de 2005

Taca pedra na Geni!

As pessoas são seres desprezíveis. E você percebe isso por elas mesmas, através de terceiros. Uma pessoa que te dá uma oportunidade te entrega junto um contêiner inteiro de resposabilidades que você não tem como fazer jus. Seja por experiência, seja por eprsonalidade, não interessa. A questão é que é natural cuspirem no teu olho de vez em quando. Mais natural ainda é você usar isso a seu favor e se recuperar. O anormal é haver unanimidade em tais insatisfações coletivas. É o tipo de situação em que você se sente mais inútil do que de costume. Algo que rasga o véu do simples complexo. Ou do complexo complexo que o complexado que lê possui. Receber ligação de alguém lhe trazendo uma crítica tão forte e presente é desanimador. Espanca sem dó seu orgulho. Estripa a mão nua algumas metas pessoais. Mas talvez não pudesse esperar algo diferente disso: meu próprio estado de espírito parecia antecipar isso. Estava mais blasé do que de costume: distraído, empurrando as coisas com a barriga, mais psicologicamente estático do que nunca. Achava que ao menos em um quesito poderia aliviar o problema que tinha em mãos, mas a unanimidade da insatisfação engoliu tudo. Soterrou com um avalanche.

Caí na real com a ligação dessa tarde de Segunda. A gente fica frustrado, mas continua de pé. Vai ser diferente com o tempo. Talvez ele nos passe a perna quando teimamos em passar à frente, e dessa vez não foi diferente. Mas vai ser se eu conseguir me compassar. Todos temos uma órbita, e preciso reencontrar a minha. Perdi minha sincronia há tempos. Fizeram em cinzas minha dedicação de antes. Isso pra mim é como despacho pra vampiro: fatal. O mundo apressou alguém que nunca teve pressa. Distraiu alguém que não tinha com o quê se distrair. Acrescentou onde nunca se acrescentara nada antes. É tudo acontecendo tão rápido que a discrepância entre meu ritmo e o ritmo coletivo cresce sem parar. Eu não sei mais o que é pisar fora de casa com a consciência cristalinamente limpa, ansiosa por ser mais. Sei apenas sair de casa. O resto tornou-se volátil o suficiente para flutuar sem rumo perante meu cansaço se derramando ao lado da inspiração, esse regato seco que esqueci onde fica. Não sei se estou levando tão em consideração assim tais críticas. Passei quase o tempo todo falando de mim mesmo do que tentar me defender. E isso, realmente, não faz a menor diferença pra mim. Defender, atacar, qual a diferença se não há -- ou não se sabe -- o que se combater?

É fato que a semana já começou muito mal para mim. Mas continua sendo muito melhor do que ser criticado por algo sem poder voltar atrás. Conheço uma pessoa no bloco que não pode se dar ao luxo de voltar atrás. E é cruel ver a persistência da pessoa ser minada todos os dias pelas más línguas. Ninguém se dá ao trabalho de comedir suas críticas. Eu sempre tento me manter o mais arredio possível à perversa mania humana de falar mal das coisas. Critico preferências de coletividades e besteiras da indústria cultural, mas pessoas em particular... Ah, isso me dá medo fazer. Para o dia de hoje, espero fazer apenas uma coisa direito. Ao contrário dessa pessoa, ainda posso voltar atrás. Ainda não acimentei meu orgulho. Devo ser meio idealista. Insisto em acreditar nas pessoas. Mas isso não é defeito. Defeito é se amarrar cegamente a esse idealismo, ignorando a realidade. Quando a gente menos esperar, teremos passado por cima do que parece agora instransponível. Mas me contentarei em apenas reconquistar minha "órbita", como comentei há pouco...

sábado, 12 de março de 2005

Sarau no bloco

Achava que Sexta-feira alguma poderia ser tão ruim quanto a da semana passada*, mas me enganei. Num dia comum, fui ao Gabinete, de ônibus, para ser presenteado com uma sessão de fotos no Santa Cruz. Tudo que eu precisava: registrar visualmente um encontro de moradores enfurecidos com a bravata de se fechar uma escola municipal, sob um escaldante calor sem sombras. Me ligam pedindo preu fazer umas ligações à tarde, mas me esqueço completamente disso quando chego em casa: almoço, sesto e preparo o material auditivo pr'aula de Sábado. Não fazia diferença, mesmo: broncas não surtiriam efeito em mim nesse dia. Inicialmente, era por uma indiferença positiva; estava com pensamentos agradáveis. Mas depois, foi por eu estar sobrecarregado por divagações desagradáveis. Enquanto o povo sai pra fazer compras, me distraio no computador e vou direto à aula, como sempre, na esperança de assistir alguma aula. Chego já sendo convocado por 'T' para umas partidas no baralho, mas sou interrompido pela líder de sala me pedindo o favor básico de pegar cinco garrafas, do vinho mais barato que vocês possam conceber, na quadra, e pra pegar o violão de um dos carinhas que se apresentaria o sarau, lá no Jardim Itália (salvei a pele dela; o sarau começaria em poucos minutos). Ainda bem que aquela merda não manchou o estofado do carro. Teria de tirar satisfações com o Bob depois. Antes de voltar, a surpresa: a encontro quando desço, de faixa à cabeça dum tecido fino com rosas em alto relevo, blusa, all-star e tudo o mais que compõe o visual dark dela. Nem me atenho muito a essa hora por ter de pegar as garrafas. Ao voltar, dou uma circulada pelo ambiente, vejo muita gente e faço tudo menos ouvir os versos batidos do tal do sarau. Era um ambiente aberto, meio noir, regado a vinho quente e covers do Raulzito após as poesias de Cecília. Os shows começariam somente às onze.

Entretanto, a percebia, aparentemente, me evitando. Não quis ser muito abrupto, mas resolvi abordá-la. Atrás de um dos pilares, tentei ser claro. Percebia algo estranho, mas, por alguma razão que jamais saberei, ou não queira admitir que saiba, não me permiti ignorar isso. Por mais que a gente tenha sempre uma prévia do que esteja prestes a ouvir, sempre as redundâncias nos marcam de alguma maneira. O emotivo nos provoca com suas redundâncias, sempre assim. Por trás das hastes, os olhinhos castanhos me evitavam a todo custo. Eu entendia as razões dela, mas queria acreditar que não passava de algum tipo de negação. Estava errado. Culpar alguém é um conceito tolo que inventaram pra deixar mais na lama ainda alguém frustrado por um amor imperfeito. Eu, obviamente, não sou robô pra ficar acima das redundâncias. Não conseguia, algumas poucas vezes, voltar meu olhar para o semblante dela. Fiz de tudo, quando às vezes não se pode fazer nada. E com essa frase percebo que as contradições não partiam somente dela. Eu também tinha minhas dúvidas, por mais que deteste dar o braço a torcer. Mas estava disposto a ir aonde quer que aquilo me levasse. Não vou mentir: muitas coisas me deixam muito triste. A honestidade proveniente dela naquele momento, ao menos, amenizava isso. Sei que isso deve ser, de certo modo, efeito colateral dessa minha mania de pensar as coisas à frente demais. O que observei inversamente proporcional nela, creio. Pra variar, paguei de novo o preço por ser assim. Nada parou, nem tudo mudou, mas tudo conspirou, por meios ilícitos, para me escancarar minha ingenuidade. Uma ingenuidade cansada de idealismos, ao contrário do que observei nela. Isso me faz lembrar do verso duma música que não ouço há tempos: "Por quem/não pode admitir que tem/motivos pra viver por alguém". Cafona, mas me veio à mente agora. Meu criticismo furioso está em stand by no momento. Não poderia acabar bem aquilo. Eu evitei qualquer ataque -- mesmo que eu tivesse uma natureza ofensiva, não o faria -- mas ambos precisavam ser honestos. Não perco tempo com rancores. Não é a hora de se iludir com esperanças inexistentes. E chega de falar disso!

Sentado numa tampa ao lado da alameda, observava de longe o que acontecia. Não queria que todos vissem meu estado. Mas para espairecer um pouco, procuro as meninas. Estavam com Tigrão. Enquanto as acompanhava ao ponto, Batata Brothers aparecem. Não sei o quê que eles pretendiam num ambiente tão díspare ao que eles costumam ouvir, mas quem se importa. Talvez a menina, de trajes pretos, com eles, explique um pouco isso. Eu não queria saber de nada e, ao alcançá-las, fico de papo-furado no ponto para matar um pouco o tempo. Tentar, à toa, botar a cabeça no lugar. Como se ela tivesse um lugar antes. Nem fico a tempo pros shows. Estava desanimado, e tinha aula pra dar o Sábado inteiro. Enfim, o mínimo que posso fazer: me agregar ao tedioso cotidiano e me resguardar ao máximo do desânimo. Como se percebe, uma máscara que não engana a ninguém! O aforismo rasgando o verbo na cabeça: "Quando é que você vai crescer?". Humpf. Sinceramente não sei. Agonizo com minha ignorância só para descobrir que, por mais que a tente superar, o que está além dela me agoniza ainda mais. Enfim, no dia seguinte volto ao mesmo saguão da fatídica noite para começar a maratona de aulas do Sábado. Recebo ligação de F.H. e vou à casa dele deixar umas coisas. Ele parece saber muito sobre as pessoas com seus conselhos ariscos. O que é compreensível, quando momentos com esse não devem parecer nada àlguém que, à sua própria descrição, parece carregar o mundo nas costas. Ele, melhor do que ninguém, me lembra de como estou mudado. E de como os desfechos mais sinuosos podem surgir do nada. É quase aforismo o que o cara diz. Depois dum bom tempo trocando umas idéias, o relógio me arrasta pra casa pr'almoçar e encarar mais uma aula na Extensão.

Aliás, preciso deixar algo claro com esse post: não escrevo visando ninguém; o único visado, de início, sou eu mesmo. Escrevo para mim. O escrito é mais eficaz para me interpretar do que o visual. Não escrevo para sustentar ressentimentos, revanchismos ou coisas nas quais não acredito. Escrevo para um auto-exame. Eu ficarei bem. É sempre um dia após o outro. Como insisto em lembrar aos outros: não se preocupem comigo; faço isso em excesso comigo mesmo. E é só. Apenas preciso de um tempo, nada mais.

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* Um dia, ainda tentarei escrever mais claramente sobre essa fatídica Sexta que tanto me esquivo de escrever.

terça-feira, 8 de março de 2005

Cositas que trazem de volta meu ânimo, após outras que o saqueiam

Á época, todos tiveram reações diferentes. Para elas, as memórias vinham por meio de aparições com toques celestiais. Profecias, encontros, essas coisas com um toque espírita. Ao irmão, não sei especificamente. A mim, era como se nada tivesse mudado. Era incrível: era como se o que nunca mais seria, no dia-a-dia, pudesse ser ao fechar dos olhos. Como se fosse uma realidade rascunhada: sem corretivos quando de olhos abertos, mas com todos eles quando de olhos fechados. E me sentia bem. Era a única coisa que atenuava a avassaladora saudade. De início, atenuava até o vazio, o desânimo em seu abranger. De vez em quando, acontece isso comigo até hoje. Mas quando o ocorrido se fazia recente, era como se minha mente se tornasse um universo paralelo. Uma coisa que fazia falta em uma realidade sobrava na outra, por assim dizer. Aqueles sonhos me deixavam feliz por me ajudar a lembrar que houve um passado. Que não houve uma mancha negra por se denominar por arrependimento. Imagens que me faziam lembrar que eu era feliz. Que a simplicidade que uma presença trazia é insubstituível. Foi um dos dias mais tristes pelo qual passei. O único em que, em verdade, a máscara de minha personalidade caiu perante alguém que era tão presente. Sabe quando você tem aquela vontade infantil de mostrar àlguém especial de que você não é um imprestável sem ambição, mas alguém com vontade de ser mais? Eu tinha isso. Não tenho mais. É o que mais sinto falta. Ainda tenho a Morfeu me contando pacientemente os detalhes de quando ainda contava com essas vontades. De quando tinha inspiração. Me tornei um fantasma errante. E é tão melancólico, quando as datas que antes significavam alguma coisa chegam, que faço o que todos fazemos perante nossos medos: passo por esses dias como se fossem dias comuns. Fizeram um rombo em meu peito...

Tudo será sempre igual quando me der ao trabalho de consultar lembranças. Até mesmo quando as situações imaginárias, por vezes produzidas pelo inconsciente, vêm à tona, elas se utilizam da verossimilhança, orientada pelas métricas cunhadas em meu coração. Ainda conto com o cárcere das almas para jamais deixar meus tesouros fugirem. Não procuro o chaveiro. Procuro fazer as visitas quando necessário. Vislumbrar meus carcereiros do outro lado das grades, sem ter aonde ir se tentassem fugir, é suficiente para mim. Lembranças jamais fogem, e rumores sobre sua fuga funcionam como meras analogias a um fajuto mito da caverna. O que eu sei é que lembrar, às vezes, me ajuda a me sentir mais vivo. Pode não trazer minha inspiração de volta, mas refresca minha memória: mesmo que não sinta ter tido tempo a quem direcionar tal vontade infantil que acabo de mencionar, pelo menos tenho a certeza de que nossos objetivos não podem ter a duração das pessoas entre nós. Nossas metas são imortais. Nossa necessidade de reconhecer que não mudamos, mas simplesmente nos adaptamos ao que queremos ser, também. Eu tento sempre recuperar um pouco da alegria que sempre desdenhamos antes de alguém nos fazer falta. O máximo que posso fazer é tantar obter isso a contagotas das pessoas. Elas me dão um frio na espinha, mas não são a primeira nem a única montanha-russa por que hemos de oscilar. Minhas memórias descarrilam, às vezes. Mas não é por medo disso que deixo de subir nos trilhos. Temos pouco tempo para termos medo. E, bom, as pequenas coisas, que jamais poderei aprisionar em meu cárcere, sempre serão bem-vindas. Precisamos aceitar que as coisas que nos fazem felizes têm a mesma liberdade que nós para irem e virem. Se nos faz feliz, a gente espera, no final das contas. Independente de nossa impaciência, eu garanto...

sábado, 5 de março de 2005

Estou triste. E não pergunte o porquê. Curiosidade me irrita. Odeio lembrar que não sei de nada!

sexta-feira, 4 de março de 2005

A arte perdida de se falar mal

(ou "Um post que eu deveria ter apagado em vez de postar")


Falar mal das coisas é fácil. O difícil é construir argumentos sem nunca destruir seus alicerces ideológicos com contradições. Mais difícil é sustentar uma idéia sem que percebam que você está dissimulando ideais, cujos princípios você não acredita plenamente, por meio de ironias socráticas andando em círculos. Ou seja: buscar comprovação nem sempre é suficiente; as pessoas e suas superficialidades querem também aprovação. Alheia, cultural, social, pessoal, temporal...

Criticar não é convencer; muitas vezes é recurso para se desviar de uma necessária e esperada convenção. E é por isso que falar mal das coisas é útil para assumirmos nossas perversões, ao passo em que evidenciamos nossos estados de espírito. Isso, por exemplo, evidencia porque, em certos momentos de nossas massificadas vidas, somos mais tendenciosos a falar mal: é um estado de espírito. Em tempos, assim, pós-modernos demais, a sensação de se ter um pensamento individualista é presente por estarmos em tempos em que até o que pensamos parece ser personalizado. Falar mal é crítica destrutiva pelo simples fato de precisarmos desconstruir certas cosas para construirmos outras, nessa constante sublocação do novo, que não devem se limitar a ser novas com escombros do obsoleto.

Um erro ingênuo das pessoas, ao criticar, é esquecerem seu eu perdido em algum ponto de suas opiniões. Quem sabe falar mal das coisas sabe explorar as impressões comuns às coletividades. Porque sabem que ufanistas levam temp demais para serem ouvidos. E porque sabem que falar mal rende discórdias alienadoras que minam as possibilidades de conciliação entre os dois pontos divergentes. Conciliações geram conformismos, e quem fala mal deve repudiar isso. Deve é mostrar as falhas naturais, desprezando seu bom-gosto e o alheio. Mas imparcialidade é rara nas pessoas, e poucos que falam mal a obtêm.

Falar mal das coisas nos lembra de que a dança da fênix, conceitualmente falando, acaba em algum ponto. Que se reerguer das cinzas para sempre é se limitar. Se do pó se vem e se volta, temos apenas ao pó como material dessa desconstrução que é falar mal? Perceberam o que fiz agora? Entrei num círculo vicioso, fazendo perguntas para se obter respostas. Como os oportunistas filósofos: eles apontam em você elementos passíveis de crítica, fingindo isso ser respostas. Estes usam e abusam da arte de se falar mal das coisas...

Certas criações humanas provêm da maldade, do desvio, das dissipações. E não me refiro àpenas falar mal: todo tipo de humor, louvor e culpa se engloba nisso, por exemplo. Desvios têm a ingrata tarefa de orientar as pessoas pelo que elas mais odeiam: a fragilidade e carência de suas idéias, a crença ingênua de que o que acreditam é absoluto. Falar mal, por fim, é um dever cívico. É importante sempre nos lembrarmos de que nada é impassível de ponderações; nós é quem teimamos em não nos darmos conta disso. E de que falar mal é descascar maçãs podres, para se ver perecer anseios desnecessários e conceitos orgânicos. Pensando bem, essas três últimas frases serviriam bem para se descrever os arrastados folhetins do século atrasado, denominados como textos literários, que somos obrigados a estudar nesse curso: só mesmo a crítica nos leva àlgum lugar mesmo... por vezes, ao lugar nenhum.


É, reconheço que isso será um prato cheio para os que me consideram radical (vide post recente)...