domingo, 27 de fevereiro de 2005

Domingo chuvoso... *suspiro*

Signos

Dia desses estava discorrendo, entre amigos, sobre as pessoas. Mas sob uma perspectiva diferente: seus signos. As características impressionam, quando não se desdenham as particularidades e a sensibilidade requirida para se observar algumas coisas. Falamos sobre os inflexíveis e geniosos arianos, os orgulhosos e dedicados taurinos, os turrões geminianos, os centrados cancerianos, as temperamentais leoninas, e por fim as capricornianas críticas e carentes de auto-crítica e as aquarianas demasiado emotivas que insistem em ofuscar o estóico com o coração. Certa vez, perdendo meu tempo com algumas leituras sobre astrologia, percebo que os signos funcionam como uma espécie de escala. Do mais ao menos isso se confundindo com o do menos ao mais daquilo, em várias dubiedades entrelaçadas. O que falta na personalidade de um signo, o outro complementa. Como um quebra-cabeça: seu signo, sendo uma peça, é sempre complementado pelas outras onze perdidas por aí.

O que se mostra curioso é como os padrões de certos comportamentos se desenvolvem em pessoas com o signo em comum. Todos os taurinos que conheço têm coisa em comum comigo, por exemplo. Inclusive, todos tendem a serem misteriosos, observadores e diligentes como eu. Se é que eu sou diligente. Entendo que ambientes diferentes produzem pessoas diferentes. Mas o fato é que nunca mudamos. Nos adaptamos (ou tentamos) a comportamentos em particular que desejamos, precisamos ou somos forçados a assumir, mas mudar, mesmo... Não creio muito nisso. Do outro lado, uma pessoa que me chamou a atenção é uma que é de um signo no último dia do período que este abrange ao longo do ano. Bem na fronteira com o signo seguinte, por assim dizer. A escala desse signo sob a pessoa é de mais ou de menos características inerentes ao signo em questão? Dubiedades, como comentei há pouco.

Ser de um jeito e agir do outro não nos autoriza a denominarmos mudados, acredito. Por mais que mude, continuarei o mesmo de sempre. Chego sempre a essa conclusão quando encontro um amigo de longa data. Por mais que me adapte a uma índole a qual prefira adotar, serei sempre o mesmo. Porque percebo que uma pessoa que conheceu meu antes, perante meu depois, está mais apta a manifestar uma surpresa imparcial quanto ao que constata: a mesma pessoa numa época diferente. Às vezes, comentamos que "fulano está mudado", quando percebemos algo diferente em suas atitudes. Mas trata-se apenas de atitudes (e de uma expressão)! Se elas se tornarão permanentes, dando a ilusão de que a pessoa realmente mudou, isso é outra história. Assim como afirmar que signos exercem alguma tendência em cima disso. Enfim, mais um post de um taurino observador que pensa demais. Típico...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Run, baby, run...

Sabe aquelas pessoas que não ouvem a ninguém, não se prendem a nada, fazem e acontecem o que bem entendem, sem dar a mínima a preocupações alheias? Aquela pessoa cuja sede por liberdade ofusca quaisquer tentativas de se estabelecer algum tipo de laço? Tenho uma prima assim. Minha família, um tanto conservadora quanto às andanças nossas, censura até não poder mais o hábito dela de sair mundo afora, sem dar satisfação alguma, e voltar quando menos se espera. Aqui entra uma dubiedade por a menina ser dedicada ao que sabe fazer e por saber como cuidar de si própria. Até que ponto o desprezo por correntes sociais leva as pessoas?

Se eu pudesse, também jamais daria satisfações sobre o que eu faço mundo afora. Até porque eu não dou mesmo; encho lingüiça a maior parte do tempo. Em pequenas frações, acabo dando, por fim. Mas não arranjo encrenca, o que ela faz por causa de seu gênio inflamavel. A liberdade se mescla perigosamente com indiferença para certas pessoas. Por mais que haja mecanismos para sabermos da localização das pessoas -- tenho pena das juventudes futuras se os celulares chegarem ao ponto de possuírem câmeras de vigilância, como se aquele aparelho fosse uma instituição no melhor estilo Big brother --, fica a dúvida: aumentamos ou diminuímos nossa liberdade quando nos amarramos à mesma incondicionalmente, sem nos preocuparmos com laço algum durante o caminho? Muita gente adora se gabar de dezenas de experiências pequenas que tiveram ao longo de suas vidas, como se cada momento fosse uma mera pedrinha de mosaico. Já outras preferem se ligar a, digamos, um tipo específico de pedrinha desse mosaico, arraigando-se a esta e desligando-se de outras. Creio que meu painel corresponda mais à segunda opção.

Pessoas que se esquivam de mecanismos e leis sociais não escritas são realmente livres? Regras aprisionam ou somos nós quem nos aprisionamos tão facilmente assim à estas? O mundo precisa de tanta gente assim, que acredita totalmente em seus ideais? Sobreviveríamos num ambiente em que todos fossem impassíveis de assimilarem opiniões diferentes devido ao fato de se agarrarem fatalmente a seus conceitos de ideais de liberdade? Ordens ordenam enquanto desordenam a liberdade em contrapartida? Quanto mais o tempo passa, mais criamos maneiras novas de nos sentirmos livres que, mais para frente, acabam sendo denominadas como métodos de aprisionamento. Cadê a liberdade, então? O que os livres buscam? Realizações adiantam de alguma coisa se se tiver, um dia, a consciência de que sempre haverá algo te limitando, por mais que você se esquive de tudo? Se a liberdade está na dedicação ao que escolhemos, somos livres para escolher. Livres também para nos sentirmos livres. Mas nem sempre livres para dissociarmos as noções do físico da liberdade. Seremos prisioneiros de nós mesmos para sempre, num mundo em que qualquer arbitrariedade só é assim chamada por ainda não terem descoberto uma, com certeza, padronização fixa por trás do caos, por maior e mais dissociado que seja.

Liberdades existem onde existem normatizações, normalidades? A natureza me parece uma absolutista adepta da thelema às vezes: todo ser compreendido numa cadeia alimentar, por exemplo, não mede esforços para garantir sua limitada e torturante permanência terrestre. Será que, no final das contas, fazer tudo o que se quer por ser tudo da lei é algo que supostas "dissipações", como conceitos de certo e errado, não nos permitirão nunca, nos desviando, assim, de uma lei universal que, aparentemente, apenas a gente insiste em ignorar, sob a noção de sermos superiores a alguma coisa? Caramba, pensando assim, eu devia pegar meu bastão de metal e começar a agredir todo mundo na rua com quem não vou com a cara. Mas aí me lembro de que estou compreendido em várias "prisões", por assim dizer, e me contenho. Ainda acredito na inocente dualidade do certo e do errado. E ainda acredito que o que acabei de escrever pode se tornar um perigoso manifesto incentivando o destruir de qualquer tentativa de ordem social. Por mais que ela desordene essa coisa maior que acreditamos existir, que chamamos de liberdade, hemos de continuar tentando...

sábado, 19 de fevereiro de 2005

Radical?

Me chamaram de radical dia desses. Apesar de repudiar ideais petistas e visões unilaterais, me taxam assim. Só porque teço comentários afiados e observações de precisão cirúrgica. Confesso que so'uma pessoa chata ao quadrado em relação às asneiras culturais que consumo; percebo padrões de desenvolvimento de algum produto cultural num piscar de olhos, por exemplo. Ouvir uma música mais de duas vezes já me deixa próximo de me enjoar dela; idem para filmes. Prefiro me ligar ao consolidado, mas a repetição é fatal à minha paciência. E isso é ser radical?

Não venham me dizer que caí em contradição, vá! Radicais são inflexíveis em seus julgamentos, e não sou assim. Eu disparo de imediato quanto ao que vejo se banalizar. O que ocorre muito rapidamente comigo. E em tempos assim, de misturebas miscelâneas, de turbilhões de conteúdo, o banalizar se banaliza pela quantidade, nem sempre pela "queda" na qualidade. Nem os radicais são tão radicaisassim hoj'em dia. Radical qu'é radical subjuga impiedosamente os diferentes de si. Já superei isso há muito. Acontece que continuo radical quant'às entrelinhas d'abrangência do que observo. E posts assim, infundados, surgem da tonelada de observações que ficam retidas.


Hmmm, argumentos assim devem ser prato cheio para os que adoram me rotular de Indie... =P

Estados de espírito e bloqueios nossos de cada dia

Ah, me veio uma coisa à mente pra postar agora. São lembranças, aindassim material a se transcrever. Coisa dos últimos anos. Depois de 2000, tudo passaria a ser diferente. Tudo. Sabe o que é ver uma pessoa mudando seu modo de vida radicalmente? Tentando fazer coisas que poderia ter feito antes do fatídico, mas que apenas este último acaba estimulando a realmente fazê-lo? Agia como se aqueles dias fossem os últimos. A distância de antes sempre teve motivos que hoje em dia parecem estar cada vez mais em queda. Hábitos, tempos, pessoas. A sensação de que cada dia parecia o último nos altera só de termos tal sensação. E observei isso nele. Uma abertura afetiva se fez mais visível do que antes. Não sei sei isso partiu de mim. Não quero ter a pretensão de que possa realmente ter acrescentado algo tão marcante a quem, muito antes de mim, fora tão marcante para mim. O que sei é que as tardes de Abril (vide post do mês passado) mudariam muita coisa. E não apenas em mim, o que me chama a atenção. A vontade de entendimento mútuo crescia. A de superação também. Pôr-se a limpo é algo que muitos adiam à espera do fatídico. O fatídico ocorrera meses antes das tardes de Abril. O Natal, o fim de ano, ambos tiveram uma atmosfera especial com ele de volta pra casa. Todo ressentido com o peso de sua inevitável ausência. Eu sempre preferi acreditar no melhor prognóstico. Encarei o pior sempre como uma possibilidade. E somente isso. Melhoras é o que importa, afinal. Percebi que não seria bem assim numa noite amarga e tediosa de Domingo:

_ Ficarei assim pelo resto da vida, Sersup...

Ainda bem que poucos saberão o que é ter o peito moído por uma constatação assim. Eu queria dizer alguma coisa, não tinha nada em meu repertório. Repertório este que tratava sempre de juntar uma perspectiva realista com um otimismo. Não por ingenuidade, mas por incondicionalidade (vide post do ano passado). Nada do que sentimos depende das circunstâncias. Só conhecemos verdadeiramente nossos inchaços face às supostas saliências do cotidiano. E essa me parece uma incondicionalidade. Aquilo que eu apregoava em minha personalidade era advinda em parte dele: a inabalável perseverança, a dedicação, o respeito, a habilidade de saber ouvir. Eu sou menos pior hoje em dia graças a pessoas assim. A situações assim. A momentos que nos roubam humanidades tão bem guardadas na maior parte do tempo. Nem preciso dizer que o ambiente em casa era outro. Em particular, continuava mantendo minha invisibilidade com uma índole reta o suficiente para me manter longe de discussões advindas de efemeridades que pudessem me revelar mais do que queria. Só queria me sentir independente. O que perdeu importância aos poucos: de que adianta ser independe se tem tanta coisa que independe de ti? Nunca queremos observar isso. Em parte, a frase acima me trouxe esse baque.

Algumas das tardes de Abril apontavam para quesitos que eu tornava inacessíveis. Era época em que a vó estava vindo à cidade com a intenção de se estabelecer. E usamos a casa em que ela ficaria, semanas depois, para uma conversa franca. Só a gente. De certo modo, algumas percepções minhas lhe sugeriam que ele deveria rever uma decisão de anos atrás. Queria reunir todos. Um, naquele dia, estava com ele, naquela tarde sossegada. Eu, claro. Janelas, porta fechadas. Uma desejada privacidade. Eu, analisando aquilo e percebendo que vale a pena voltar-se atrás às vezes, o incentivei. Não esperava nada; me contentava com um efeito mínimo de qualquer que fosse a iniciativa proveniente de mim. Surtiu certo efeito. Os afazeres diários haviam ganhado uma inédita importância. Minha constância aumentou. Queria acabar com a impressão de que esqueço os outros. E foram momentos reveladores. Era o que eu podia fazer: sustentar uma normalidade, apoiando uma dignidade que se buscava, doando presença. Não fazia isso por culpa: fazia por ser algo, de certo modo, inédito. Tão inédito que houve tentativas da parte dele de transpôr algumas, digamos, limitações, silêncios, distâncias. Mas não era minha época para tal, e repeli muito disso.

A identificação aumentava. Inesperadas socialidades surgiam. Eventos, lugares, pessoas. Em algumas ocasiões, todos reunidos, como ele queria, depois de tantos anos. Sentia como se tivesse feito minha parte. Se fiz ou não, não anseio uma resposta. O que anseava não consegui quando ainda podia contar com seu aval. Nunca vou me perdoar por algumas infrutíferas dedicações da parte dele para comigo. O que foi que eu fiz? Sei lá, mas fiz. Posso interpretar como tentativas, o que foram. Mas... Mas preciso abolir tal conjunção adversativa de meus discursos. Mas a mais, mas a menos... Mas por mas, saibamos o que querer sem abstrair pessimismos. O que sei é que algumas frustrações se seguiram. Justo no que mais usava para me manter invisível. A diligência dele me soava tão desmerecida de chegar a mim naquelas situações que a culpa pairava. Ela cessou em parte por saber que só se volta atrás em algo já iniciado. Não se volta atrás em algo ainda não começado. Se se tentar isso, é hora de se preocupar consigo mesmo. E como não tenho com o que concluir o post, deixo aqui umas notas soltas que escrevi pela tarde, na bagunça atual de meu quarto:


No final, a vida é um grande niilismo infundado cuja efemeridade nos leva a presumir importância, nostalgia e saudade às pessoas, às coisas, a si mesmo. Ou seja, concebemos desventuras em vez de nos darmos, plenamente, conta do tamanho de tal aventura, tão paradoxal como esta frase. A literariedade dessa rústica narrativa é, aos meus olhos de rédeas, um quebra-cabeças psicodélico cuja caretice sempre sobrepuja quaisquer efeitos alucinógenos que venhamos a buscar.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

É uma sina: justo eu, que sempre detestou pisar na frigideira urbana do Centro, me vejo agora obrigado a trampar, num escritório por lá, todos os dias. Passando pelas mais bizarras visões, enquanto suo sob um turvo vislumbre que quase se confunde com miragens desérticas, caso encontrasse mais dunas em meu trajeto, ando, ando e ando. Porque pior do que pisar no Centro é estacionar lá. É como dirigir um bate-bate de parque de diversões: sempre vai ter alguém louco pra te pegar. Como o idiota que quase quebrou minha perna enquanto atravessava uma esquina (a pé, cabe aqui a redundância): o figura virou a esquina com tudo. Assim como no bate-bate, dirigir não é prático por lá. No bate-bate, você pode ao menos descer de seu carrinho e esmurrar o moleque espírito de porco que insiste em beijar sua traseira. No Centro, o calor te impede de fazer muita coisa. Inclusive de se perguntar o que estão fazendo com seus impostos. Os raios solares tratam de te lobotomizar...

Mencionando algumas das bizarras visões, encontramos anões fantasiados de palhaços ou fazendo dancinhas da garrafa em frente à loja da subida. Encontramos também a mais variada fauna de gente feia e cafona. Ou ambos: as simbioses urbanas no Centro são das mais variadas. Inclusive, uma dessas simbioses me abordou numa vez em que passava pela praça. O cara, de camisa rosa, e pose de "será que ele é", dando em cima de mim. Que porra é essa? E eu que achava que apenas He-man quem exercia tal magnetismo sobre esses caras. Ele, quando vai ao Goiabeiras, sempre causa furor: os vendedores sempre ficam de papo-furado pra cima dele. Trash, cara. Trash. Quer algo mais suburbano do que a subpopulação que mora no Centro? Eles trabalham nas lojas, arranham seu carro, te distraem com suas escabrosas presenças... Uma onipresença nas ruas. É uma flora de concreto que espanta pelos interiores: letreiros que ainda vão despencar em sua cabeça devido aos anos passíveis de usucapião daquela loja falida; casas que parecem ter saído do século passado, feitas com sobras de azulejos; descidas, subidas, descidas e subidas infindáveis; casas antigas que mais parecem ninhos de rato face à assustadora falta de asseio (algumas têm até um quê de agouro e assombração)... A fragmentada malha urbana sempre te dá uma sensação de déja-vu, auxiliada, pelo calor escaldante, quando se anda por tempo demais por uma mesma via: parece que as ruas foram projetadas pra te afastar de edificações condenadas (comentei isso mês passado). O que explica ser mais rápido chegar a pé em certos lugares por lá... Aquelas paredes, se esfarelando em meio aos nomes de grupinhos de jovens encrenqueiros pichados por cima da cal rasa, que sustentam velharias que ninguém mais visita, são indesejadas pela galera da Prefeitura, é a sensação que se tem.

Lendo alguns jornais na mesa do escritório de onde trabalho, fico sabendo que têm a intenção de reformar o Cine Teatro. Já não era sem tempo. Está há quase dez anos fechado, com tapumes encardidos de poeira dos coletivos. Está há tanto tempo assim que nunca tive oportunidade de entrar. F.H. garante que era bem legal; ele fora quando pequeno. Aliás, a tendência é eu ficar mais bem informado do que nunca: sempre tem jornal do dia por lá; sempre tenho a oportunidade de tentar me informar em meio às sofríveis redações da desprezível e amadora imprensa matogrossense. Fala sério, cara: metade das colunas são desprovidas de qualquer comentário relevante que seja! Eu escrevendo faria melhor. Se bem que não pegaria bem eu ser colunista de jornal da região. E é aqui que noto uma coisa que já me disseram antes: estudante de Letras torna-se impossível por encontrar erro em tudo que lê, que é o que está acontecendo comigo. Mas a mídia do Estado abusa, salientemos isso. Eles deveriam perder mais tempo satirizando a si mesmos, numa urgente auto-crítica, do que satirizando o coronelista cenário político daqui. Ia até tecer um comentário sobre os jornais de Várzea Grande que vêm parar por lá de vez em quando, mas não quero que pensem que estou de sacanagem... =)

Poderia tecer mais críticas construtivas destrutivas sobre as ruas sem sentido do Centro, como comentar que o comércio de lá é um esconde-esconde muito estranho, mas deixa pra lá. Poderia comentar sobre a estranha concentração de funerárias por metro quadrado que ficam nas proximidades do Pronto Socorro. Poderia comentar sobre os generosos tapetes de piche, ou sobre os queijos-suíços asfálticos, que encontro quando tenho de montar sobre quatro rodas. Poderia comentar sobre o abandono de certas regiões, cujo mato dá a sensação de se estar entrando em mata fechada. Poderia falar sobre a sensação de se estar passando por curtumes em certas regiões de poluição olfativa, mas chega de redundâncias... Querendo ou não, vou ter que me enveredar por aquele liquidificador humano todos os dias mesmo... Eu, o sempre estranho no ninho de Cuiabá...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

Ponta de estoque

_ Sabe qual o problema das pessoas? Elas são muito religiosas!
_ E isso é problema?
_ Em excesso, sim! Elas se arraigam demais à esperança por causa disso.
_ "A religião é o ópio do povo": aforismos assim se mostraram desastrosos para milhões de pessoas...
_ Sim, mas a esperança aprisiona, não acha?
_ Não, não exatamente.
_ Qual o único sentimento humano aprisionado por Pandora em sua caixa?
_ Aonde quer chegar?
_ Não percebe o conformismo gerado pelo excesso de esperança?
_ Ela vem em excesso em algumas pessoas?
_ Digamos que ela é a desculpa perfeita para camuflar o vazio da vida de certas pessoas...
_ Parece algo tão taxativo pensar assim...
_ Taxativo é viver como se se fosse marionete do cara lá em cima, com essa constante culpa...
_ Você tá mais pra marionete de seu próprio livre-arbítrio, falando assim...
_ Sei que criticar parece um vício: quanto mais se critica, mais se torna suscetível a criticar e ser criticado.
_ De certo modo, excessivas apologias à esperança censuram críticas e auto-críticas.
_ É o que estava tentando dizer...
_ Excessiva esperança irreleva a vontade e necessidade do indivíduo de conhecer a si mesmo?
_ Não me venha com ironias socráticas!
_ Ouvi certa vez que verdades trazem respostas, afirmação que foi retrucada pelo ouvinte com a resposta: nem sempre!
_ A que ou de que se buscam verdades?
_ Bom, Pandora recuperou apenas um sentimento de sua caixa, certo?
_ Sim...
_ Creio que os séculos ainda não foram suficientes para catalogarmos todos os que fugiram.
_ Isso porque não levamos em consideração os sentimentos procriados após a fuga.
_ Talvez alguns deles não permitissem isso entre si antes de a caixa ser aberta...
_ O que sei é que estamos cercados por sórdidas coincidências e aparências, que nos induzem facilmente a fazer o que não queremos. Muitas vezes sobrepujando ou, o inverso, se retendo por uma esperança quanto a algo inexistente ou impossível.
_ Ninguém precisa de aparências, enfim.
_ Mas precisam de esperanças?
_ Sim, de esperanças. Mas não de alguma outra coisa que se disfarce de esperança. E, acredite, existem muitas delas que se utilizam de tal mimetismo.
_ A esperança, por assim dizer, deve ter sido o bode expiatório de várias tragédias provenientes dos outros fugitivos da caixa.
_ Culpar o que não se vê é muito fácil. Saber que o que não se vê te aflige é outra história.
_ Afinal, se livrar de todo tipo de esperança é algo positivo a se fazer?
_ Só se se tiver uma mentalidade altamente niilista...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005

Hey man, I'm sorry. I screwed up...

Não há uniformidade na universalidade das histórias (vide post do mês passado sobre universalidade das histórias). Morais de histórias são fincadas nos conceitos de um tempo e removidas para outros fins em épocas diferentes. O the right thing dos enlatados insiste em valorizar uma sugerida individualidade e afinco ao tradicional, quaisquer que sejam as conseqüências aos outros. Egoísmo, enfim. E toda a destruição promovida pelos mocinhos para um esperado makin' out com a mocinha no final daquele filme previsível de proporções apocalípticas, cujo armageddom visual é inversamente proporcional à criatividade das metáforas nele inseridas? Os mocinhos realmente acreditam em suas atitudes? Ou agem como peças manufaturadas de um conto de fadas com uma indigesta massificação conceitual? Se tudo estiver bem pra mim e para os a meu redor, tudo bem; não importa o que aconteça aos que se opuserem a mim. Ou seja, conformismos existe em toda as culturas, inclusive os induzidos.

São fast food culturais assim que deveriam nos fazer louvar os vilões em vez dos mocinhos. Não somente os fast food culturais, mas isso não vem ao caso no momento. Vilões acreditam no que almejam, agem movidos por objetivos que nem todos estão dispostos a compreender, e estão dispostos a viver pelo que entendem por liberdade. O mocinho, em contrapartida, é uma argila social, moldada pelo the right thing, pelos patéticos anseios vãos das massas, que não percebem que seus anseios são mecanismos de opressão injetados em seus organismos sociais frustrados e contaminados pelo tal do American way of life. O pós-moderno que esses caras insistem em trazer parece limitar tudo que vemos a um álbum de recortes: um pedaço do século passado, outro de outras culturas, mais outro de vertentes culturais díspares... Enfim, uma salada fragmentada ofuscando o íntegro, o que contém unicidade, o que tem razão de ser por si só, o espontâneo. E não adianta chorar: muita besteira cultural brasileira surgiu dessa colagem. Nova MPB, por exemplo: o que vocês esperavam?

Sei que dei um exemplo do nada, meio que do vácuo, mas o álbum de recortes está aí. Insinuando que atingimos um patamar sociocultural insuperável. Lambuzando nossa suburbana existência com paranóias, pseudoconspirações, rebeldias vazias e outras coisas para fazer espuma perante nossa necessidade de se posicionar contra alguma coisa. Necessidade que não é típica apenas de jovens. E continuamos assim, com estatísticas impossibilitando nossos almejados modelos ideais de sociedade e nos transformando em números. E nos banalizando com mocinhos fajutos explodindo o mundo para estarem juntos à mocinha amada. Cansei de ver roteiros transpirando a frustrações de seus roteiristas e a hipocrisias de quem assiste. Cansei também de estatutos do belo manufaturados: expressionismo, grunge, fuckin' empty speechs... Até onde essa desconstrução vai nos levar? Aos reality shows? A algum anglicismo que ainda não inventaram? A uma nova boy band aprontando algo considerado inappropriate pelos puritanos enfurecidos (me lembrei dos Five fuckin' boys da Megaliga agora... =P)? Aliens stole my pants, dude...

De qualquer modo, inventarão algo para diluir vagarosamente nossa paciência. Não me refiro em particular a versões romantizadas das guerras promovidas com base em mentiras e em verdades coniventes da parte dos que aceitaram o despencar de toneladas de chumbo em cima, mais uma vez, de inocentes. Enfim, o derramar de sangue parece analógico a se pedir um lanche numa cadeia de fast food: apontou-se o dedo e quiseram o número 1. Que seria o número um? O petróleo de países inteiros? A dignidade de etnias inteiras? Ditadores indiferentes à vontades internacionais? Tudo isso, como disse, devidamente diluído em vários filmes e jornais omissos que jamais mostrarão imagens de verdades cruas como a de dedos decepados de eleitores iraquianos... Como o pai me disse certa vez: para a História, somente a versão de quem estiver por cima prevalecerá. Como na Copa do Mundo de 1966, para dar um exemplo em particular: ouvi dizer que aquilo tudo foi uma puta jogada ensaiada! Mais vexamoso do que os dois gols anulados pela exemplar arbitragem de partidas como Espanha e Coréia em adivinha qual Copa do Mundo? Pois é. Histórias como um todo são versões. A primeira vítima de qualquer guerra é a verdade. E, pelo que percebo, não somente das guerras... Afinal de contas, você passou seu colegial inteiro estudando um álbum de recortes. Como se percebe, as motivações dos homens se perderam a níveis arqueológicos: só mesmo por cima de quilos e mais quilos de poeira para se ter a noção de estar encontrando algo próximo a poder ser considerado verdade. Zeitgeists perdidos...

Agora me lembrei duma história que ouvi em idos do ano passado: era um carinha que dava aulas de artes marciais, com alguns conhecimentos místicos. Certa vez, perguntado por um aluno sobre os supostos poderes psíquicos, vendo-se sem resposta, abandona tudo em sua vida para sair atrás de respostas. Pesquisa em bibliotecas, pergaminhos raros, lugares remotos do Oriente e do Ocidente, até encontrar a resposta selada nas mãos daquele denominado INRI. O cara dedicou praticamente a vida inteira nisso. A vida é curta demais para corrermos atrás de verdades ou somos nós quem perdemos tempo demais com hesitações? Respondam nos comentários, por favor: gostaria de obter uma resposta honesta. E sem resquícios da the right thing, por favor... ;) Ah, e agora me lembrei também da vez em que um caça gringuês invadiu o espaço aéreo chinês. Um cínico sorry oficial resolveu toda a questão, inflando o i.o.u gringuês. Um d.o.a. diplomático. Como um jornalista da qual não me recordo comentou criticamente, o sorry do Inglês não era exatamente o ..., ... ou mesmo ... do Chinês esperado pelas autoridades de olhos puxados. Eles possuem uns dez sorries diferentes, cada qual com seu grau de culpabilidade. Ou seja, um vácuo cultural permitiu que os gringueses se safassem mais uma vez com sua prepotência, de décadas, de uma mentalidde milenar. Sei lá, viu? Imagino a hora em que os tais dos terroristas se vejam cansados da indiferença e prepotência da galerinha de colarinho branco, e decidam se explodir, atear fogo, usar armas químicas, ou mesmo arrear arranha-céus inteiros (a gama de tragédias é ampla para os caras), sem exigência alguma, apenas para proporcionar uma humilhação irreversível. Espere, já fizeram isso! Mas não com um líder de estado. Bom, uma hora eles levarão em conta de que inocentes são alvos inocentemente "pouco" efetivos. Bom, em 24 Horas os terroristas de lá já se aperceberam disso. Mesmo com a ilusão de onipotência vendida pela equipe de Jack Bauer, pelo menos na ficção se arrisca até onde esse tal de dar a cara a tapa vai chegar. Dois presidentes estadunidenses padeceram nas mãos de seu próprio povo; será que isso um dia acontecerá por meio duma arma engatilhada por um fanático terrorista qualquer? Hmm...

É uma tal de multipolaridade vista por vários olhos bipolarizados. O The right thing e o inappropriate. O bem e o mal. Tais dualidades não são tão indissolúveis como se pensava antes. E o álbum de recortes está presente nas ausentes atitudes dos ratos de shopping: gente andando com sua camisa favorita da CCCP, com seu broche do Greenpeace, com seus apetrechos góticos e antiamericanos enquanto degustam seu Big mac... Crenças absolutas foram fatiadas com essa tesoura pós-moderna que ninguém sabe ao certo do que se trata. Não se muda mais o mundo: muda-se apenas o que se vê; a fragmentação não permite tanta totalidade assim. Ou seja: é a atitude fuck the world que prevalece, comigo pensando apenas em mim mesmo, encoleirado pelo the right thing e/ou pelo inappropriate, sendo arrastado por rios invisíveis de dinheiro e informação, eficazmente escondido dos meros mortais por meio de telas de computador. Um parasita chamado American way of life está alojado em sua cabeça a você nem percebe! Enfim, você pode me dizer:

_ Vai se foder! Eu vou é ouvir minha bandinha favorita com um discurso pseudorrebelde que eu ganho mais! O idiota em Inglês entende mais de amor do que você!

E eu posso responder:

_ Seu amor pela liberdade vai até onde seu real não convertido em dólar puder comprar? Brega é brega em qualquer idioma, ora! Os gringos não têm vanerão nem sertanejo pop, mas têm country e Lionel Ritchie. Pobres coitados!... Encarar fossa ouvindo o Bom-bril gigante cantando é praticamente uma lobotomia!

E, temendo por minha integridade física, finalizo:

_ Está bem, não vou mais falar mal do Nick. Nem do AJ. E não vou jogar o seu autógrafo do Howie da privada quando o intervalo terminar. Pode soltar minha perna agora? Acho que torci o pé. E meu nariz não pára de sangrar...

O pior é que o diálogo fictício acima não está tão longe da inverossimilhança como se sugere. Já tive amiga fã incondicional dos enlatados sonoros. O que acontece é que as coisas estão tratando de se imporem apenas por superar tabus e limites. Como se apenas tais superações ditassem sua relevância. Como se apenas chefurdar em cima do tradicional importasse. Enfim, o que mocinho disser naquele filme meia boca continuará sendo lei! O tricotador de sensos-comuns permanecerá por um bom tempo...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Não sou mais o mesmo. Mas a que preço? A qual circunstância? Valeria a pena ter permanecido o mesmo para evitar as mudanças, os preços, as circunstâncias? Não importa o que digam: tudo vai ser diferente. Até o igual se diferencia sem deixar de ser igual. Pesares ocasionais, esses. Perdi o ímpeto de antigamente. Nada que possam ou devam perceber em mim. Mas perdi. Sempre fui um solitário, mas a solidão nunca pareceu tão grande como nos últimos anos. Preenchê-la é uma meta em que me ocupo até demais, às vezes me parece...


Ando preocupado demais com coisas que já (e ainda nem) se passaram. Independente do que por cá deixaram. Um agouro vicioso e/ou colateral? Odeio postar no BR com esse semblante de dias assim. Então ignorem este post gótico e leiam as outras besteiras da semana...