segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

O que torna um produto cultural de abrangência universal? Referências consagradas e comuns aos compêndios que não precisam necessariamente a nós ser consagradas? Particularidades da cultura de um ambiente? A especificidade de seus personagens? Ou somente o status recebido pelo produto lhe garante um reconhecimento? Deve ser o comum do roteiro do produto com qualquer outra realidade. Não é preciso, e nem possível, que uma história tenha um desenvolvimento tão intrincado e entrelaçado que vá a garantir identificação imediata a todos que a leiam, assistam, ou ambos, vá saber. O comum do roteiro é algo específico a tudo e todos. Por mais que esteja absorto por variantes de contexto, não somente culturais, é o comum. Isso continua válido se não se percebe ligações claras entre causas e conseqüências? Possivelmente, mas analogias confundem. Quando percebidas. Embora não passem de uma reciclagem do etenamente comum, um andar em círculos, elas fazem a diferença. Acentuam o comum trazido pelo produto com um comum já existente. Incomuns são subversões que trazem um novo comum que sempre esteve lá mas que percebemos com muita dificuldade. O comum que parece disfarçado de incomum. O novo correndo pelas margens do comum, parecendo incomum à distância. Conceitos e mais conceitos que se deterioram e se reciclam quase ao mesmo tempo, constantemente. Eis o universal. Eis uma busca que retorna ao mesmo lugar, sempre trazendo coisas que se julgam novas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Centro abandonado

Cidades abandonadas são comuns. Locais no meio do nada, onde ninguém quer morar e o êxodo urbano é evidente. Centros abandonados são mais raros de se ver, creio. Penso no Centro de quinze anos atrás e no Centro de hoje, e isso torna-se rigorosamente evidente. Descrevamos como seria o trajeto de minha casa pelo Centro há quinze anos atrás: saindo de casa, entro na Prainha antes de passar pelo cruzamento e subir a avenida do Senador. Seguindo reto, nem sombra do fluxo infernal de coletivos: nada de Bispo mais à frente na época. Os pontos de ônibus ficavam escondidos em algumas ruelas do Dom Aquino. Aprendi indiretamente a me enveredar por aquele bairro cinzento por causa dessas linhas. Prosseguindo pela Prainha, encontramos um mercado. Não o Modelo, mas o Jumbo, cuja logomarca devia ser um elefante azulado sob tarjas de largura variáveis, simulando um gradiente. Toldos listrados de azul e laranja. Carnavalesco por fora, caindo aos pedaços por dentro: mais parecia um armazém do que um mercado propriamente dito. Havia daqueles brinquedinhos mecânicos na entrada, tipo daqueles cavalinhos mecânicos, de gesso. Nas raras vezes em que nos arriscamos com a suposta qualidade dos produtos vendidos pelo armazém de péssimo estacionamento (pra variar, até hoje é assim), subis no cavalinho de gesso de vez em quando. Virando a esquina do antigo Jumbo, encontrava-se uma concessionária de automóveis. Local ridiculamente pequeno para uma concessionária. Localização tão infeliz que o imóvel está implorando por alguém que o alugue por anos; o pátio começa a ficar coberto de mato em meio às lacunas não rejuntadas do concreto utilizado no solo. É descendo aquela avenida indecente atrás do Colégio Salesiano e do CEMA. Se é que ainda se encontra o CEMA em meio a tanta árvore na fachada. Naquele sinal que fica cinco minutos no vermelho e trinta segundos no verde. É infernal pasasr por lá. E advinhem só? Durante o ano letivo, tenho de passar por lá todo santo dia por causa da irmã. Sim, sempre ela pra arranjar alguma forma metódica de me tirar a paciência.

Pisando mais fundo, pouco antes da Igreja do Seminário, à época ainda sem a merecida reforma de hoje em dia, via-se a Igreja de paredes pintadas de uma espécie de fuligem preta pelos anos de descuido. Isso sem mencionar o limo em seu cimo. Parecia uma igreja fantasma. Não duvidaria se algum pseudocineasta, recém-saído de algum cursinho preparatório qualquer do Cine clube coxiponés, quisesse utilizar as imagens de abandono da igreja para algum filme B de terror. Tipo uma versão cuiabana de Frankenstein, com direito a castelo em cima dum morro. Assim como o cientista maluco que criou o mano verde precursor do Hulk. Bom, pouco antes da igreja, como estava dizendo, havia o Pão de açúcar, quem diria. Com aquele letreiro com o morrinho, letras verdes e longas, com tudo a que tinha direito. A rede carioca de supermercados realmente cria ser fácil se estabelecer no voduzado centro da cidade. Se deram mal quase na mesma época que o Jumbo. Pelo jeito é mais negócio vender sabonete do Bispo do que abrir um negócio honesto no Centro. Percebe-se a fé dos transeuntes uns trinta metros após se passar pela Universal. Na fachada da filial do bispo, vários desocupadops entregam panfletos. Trinta metros depois, um cesto enorme de lixo abarrotado comesses mesmos panfletos. Bem ao lado da atual Universal, temos também o tradicional Fabico e uma sex shop. Dois pecados moram ao lado da Universal, como se vê: a luxúria e a gula. Mais à frente, tem-se o bispo de quem ninguém gosta. Falo, claro, da Integração. O inferno na terra. Até o submundo fica ao lado da Universal, como se percebe. Aquele reduto terreno virou em poucos anos a maior vergonha urbana já presenciada pelos infelizes freqüentadores do Centro. Antes, aquela área era uma inofensiva praça, que devia ser preservada por, de certo modo, fazer parte da história já flagelada da cidade. Mas, assim como fizeram com a antiga Igreja Matriz, jogaram a tradição às favas, demoliram tudo e construíram uma estação de ônibus que jamais teve porte para receber tamanho fluxo de gente. Se quiser chegar atrasado a um lugar, basta usar da paciência de Jó e passar pela estação. Dizem que vão desativar aquilo e colocar bilhetagem eletrônica. Depois de tanto fuder com quem usa transporte público com um ninho de rato daqueles, é óbvio que pensarão numa maneira mais prática pra tomarmos no cu, como um reajuste no preço da passagem. Que será reajustado eletronicamente (na dita bilhetagem), que é pra passar mais desapercebido.

A estação toma apenas uma pista da avenida, mas de vez em quando resolvem testar nossa paciência e tomam duas pistas. Vira o caos, como sabem. Chega de falar da estação e sigamos mais à frente. Subindo a Getúlio Vargas, temos o Palácio do Comércio. Até hoje as vigas para os dois andares extras que queriam construir, mas não foram construídos, estão lá, ostentando o vácuo de uma obra interrompida. Subindo essa avenida é que realmente perceberemos o que é uma cidade falida. Temos o Excelsior, um hotel antigo que até hoje está barrado na Justiça; temos a prefeitura da cidade, que mais parece edifício condenado, pronto para demolição; temos o Cine teatro, cujas entradas estão tampadas por pinturas encardidas de poeira do incessante trânsito; vários bancos que se apossaram de construções antigas; tem mais um hotel esquecido à frente, o Presidente... Quem anda a pé por aquelas bandas, com certeza, pode ter a clara sensação de estar num lugar esquecido e abandonado. Ah, vou mencinar também o Cine Bandeirante, o único da cidade construído fora de um shopping, mas esse não fica na avenida, fica, se não me engano, relativamente perto do CEFET, antiga ETF. Continuando pela Getúlio Vargas, tem-se também, não somente nela, as tradicionais casas que ainda não foram desfiguradas pelo comércio: elas são sempre cerca de um metro abaixo do nível da rua, e azulejadas. O desnível dos terrenos da cidade surpreende. Vide o exemplo mais recente, o do Pantanal. O desnível comparado à avenida do CPA eve ser de quanto? Dez, quinze metros? A questão é que, por muito pouco, é que não se vê o logotipo do local, com aquele letreiro gigante, iluminado por dois holofotes. Mas isso é já saindo do Centro. Chegando ao fim da Getúlio Vargas, tem-se o local mais tradicional da noite: o Choppão e a praça oito de abril. Por mais que o tempo passe, aquela região (quase) não muda. Exceto por aquela boate antiga onde só dava traveco, a Underground. Seguindo mais reto pela Lava-pés, encontra-se o quartel, o José Magno e o Goiabeiras. Estranho a avenida ter esse nome, uma vez que não há igrejas nela. Bom, pegando o retorno e descendo a Isaac Póvoas, o que temos? Ou melhor, o que não temos mais? Afinal, estou comparando o Centro de agora com o de quinze anos atrás.

Descendo, encontrava-se à direita o antigo Bierhaus, que hoje em dia voltou sob a marca Hausbier, no final da avenida Mato Grosso. Um insulto à inteligência, mas genial: o local faz sucesso se aproveitando de uma mera inversão do nome do antigo local. Tínhamos também, bem mais abaixo, a Patropi, sorveteria de esquina. Se estiver confundindo o nome, coloquem nos comentários, por favor. Local que poderia se passar perfeitamente por sorveteria de bairro: paredes pintadas com desenhos Disney e muito movimento. Em seus tempos de auge, é claro. Meus pais falavam de lá de quando ainda eram solteiros, pra se ter uma idéia. De lá e do Choppão. Era praticamente um terreno tombado da cidade. Até meados de 96, 97, se não me engano: virou terreno baldio! Mais uma parte do passado do Centro fora extirpada. Descendo mais à frente, nada de mais: Rachid Jaudy à esquerda, Ponto frio que existe até hoje... A mesmice reina até passarmos por este último: as antigas Lojas Brasileiras, virando a esquina antes da Praça da república, deve ser a treze de junho se não me engano. Loja pretensiosa, o que é fatal no Centro, que parecia uma mercearia gigante. Será que as Americanas durarão muito? Tudo bem que essa última tomou a precaução de ficar bem longe do nefasto Centro, mas não se pode contar muito com isso. E as Pernambucanas? Elas também não se deram bem. O prédio antigo com seu nome pintado mostrava as letras pretas da loja falida por anos até pintarem novamente. A esplanada, com a mesma mentalidade carioca do Pão de açúcar, falhou retumbantemente em se estabelecer no Centro e fechou as portas em pouco mais de um ano, se não me engano. Deu lugar a mais uma Igreja evangélica. Bom, passando pela treze de junho passa-se pelo mesmo cruzamento por onde passamos pela infeliz estação do bispo. Subindo, encontra-se à esquerda uma estátua com o busto do bispo e um monte de drogado nas redondezas. Encontra-se também a Santa Casa pouco mais à frente. E, seguindo reto, desço a avenida e volto pra casa: chega de andar por esse buraco!

Reparem quem tudo isso pode ser observado se passando de carro pelo local. Não perderei tempo falando dos calçadões porque, na minha opinião, 85% das ruas daquela merda de Centro deveriam ser transformadas em calçadões gigantes só pra não ter mais que fingir que aquele monte de passarelas foram feitas pra ser usadas como ruas. Tipo como fazem nas cidades antigas da Europa: os engenheiros de tráfego de lá perceberam há muito tempo que aquela maçaroca produzida por séculos de desenvolvimento era impossível de ser modernizada. Então, transformaram tudo em calçadões: deve ser o máximo andar por Praga, por exemplo: todos os lugares antigos são rodeados por calçadões de paralelepípedos. Ou seja, nada de mototáxi atropelando seu pé, parquímetros que ninguém usa, ou carros de playboy te ofendendo esteticamente. Seria o máximo ver aquele trecho canceroso da cidade livre de carros. Não me importaria de ir a pé aos lugares. Aliás, a bagunça urbana de lá é tamanha que metade dos lugares que se percorre no Centro se chega mais rapidamente a pé. E isso não é exagero, já pude comprovar isso. Mesmo que minha incoernte proposta fosse levada a sério, tem ainda coisas que seriam mais difíceis de se controlar no Centro: o percentual de esquisitos, feios, playboys, chatos, cinqüentões que se acham sexy com aquelas camisas de gola desabotoada até a metade exibindo aqueles asquerosos peitos cabeludos, e pessoas que oscilam por todas essas subcategorias sociais. Tem também aqueles viajantes, aventureiros que chegam em ônibus azuis de lugares remotos como Várzea Grande*. Mas quanto a esses, nada tenho contra: muitos não conhecem as redondezas e não sabem do lugar inóspito e malcheiroso onde estão se metendo.


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* Nossa, vão me estrangular na rua depois dessa... Nada pessoal, viu, gente? ;)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Essa foi agora há pouco:

_ Porque demoraram tanto?
_ É que ele se perdeu no caminho de volta. Agora só falta ele, de moagem, dizer que mudaram de propósito o sentido das ruas pra ele não achar o caminho de volta...
_ É, do nada a Barão de Melgaço não ia mais ao Porto! Como passe de mágica, fui parar no Verdão!
_ Não disse? Quer dizer que, do nada, a rua que leva ao caminho de casa começou a nos guiar a outro rumo completamente diferente!? Me poupe...
_ Não perceberam ainda a estratégica malha urbana dessa cidade esquisita? Parem pra reparar: a maioria das ruas do Centro são propositadamente sinalizadas como mão única para que quem estiver dirigindo permaneça o menor tempo possível no Centro. É como se os próprios engenheiros de tráfego quisessem nos expulsar de lá. Genialmente ridículo!
_ Nossa, você se superou nessa!
_ Parem pra pensar, droga: três quartos das ruas do Centro levam pra fora dele, de um jeito ou do outro! Coincidência?
_ Mas você também é muito do simpatizante de Murphy, He-man: assim que chegamos na garagem de casa, a trinta centímetros de entrar na garagem e esquecer de sua existência irritante por algumas horas, você liga querendo ir embora. Brincanagem...


Mais à frente, num cruzamento. Acreditem se quiser, esas foi verídica

_ Que é aquilo?
_ Acreditem se quiser, mas é uma carroça avançando o sinal!
_ Porra cara, vai deixar um cavalo passar os pelo menos cinqüenta de nosso motor pra trás? Faça o engraçadinho comer poeira!
[Vruuummmmm]
_ Meu, é pra fazê-lo comer poeira, e não chafurdá-lo na poeira!
_ Calma, acharam que eu seria capaz de atropelá-los?
_ Se eu contar o povo acredita...
_ No quê? Que eu atropelei uma carroça ou que fui ultrapassado por uma?
_ Em ambas as lorotas!


Chegando em casa...

_ Que sacrifício pra encontrar aquela espelunca, mãe!
_ Como assim? Era impossível não encontrar! Eu falei claramente que o local ficava subindo a avenida.
_ Mãe, o local ficava numa esquina!
_ Exato! Subindo o prédio!
_ Que prédio?
_ O de uma loja de artigos esportivos!
_ Ai, dai-me paciência...
_ Subi a mesma avenida umas seis vezes por causa dessa falha de comunicação, sabia?



Moral da história: meu irmão é mais idiota do que eu pensava! Ainda me surpreendo com essa repetitiva constatação! Deve estar nos genes essa propensão absurda dos componentes de minha família a serem péssimos em darem referências de como se encontrar um endereço. E eu querendo fazer Arquitetura com minha supostamente turva noção de espaço...
Estou desde o final do ano passado concluindo este post. Não está postado na época ideal, mas seu tema abrange várias datas comemorativas do ano


Fazer-se sempre a mesma coisa sempre no mesmo período mas nem sempre com o mesmo entusiasmo: épocas do ano como essas ilustram a frase anterior. Consideração e união são tão relevantes assim? Sem egoísmo e hipocrisia: quem ainda vê sentido em comemorações comerciais endossadas por dogmas sem sentido como o tal do Natal? Porque me deixar querer acreditar que vontades de interesses maiores a nós impostas são indispensáveis? Porque a indiferença é sempre vista com desprezo pela maioria? Tudo tem que, obrigatoriamente, fazer a diferença ou nos afetar, mesmo que o façamos contra nossa vontade e forçados a tal? Reparemos que não incentivo a indiferença, mas também não nego seu peso. Essa nossa mania de reparar nos outros é contraditória, pra dizer o mínimo. Mas nesse caso é uma mania nossa de reparamos nas massas, nas maiorias. Se é necessário pra maioria tem que ser pra mim também? As cabeças pequenas entediam, sem dúvida. A mesmice, mais ainda.

Ícones provenientes dessas comemorações se consolidam na mente das massas facilmente. E criam uma conivência difícil de se defazer, que trata-se da tradição. Que se reconhece por cultura às vezes. Cultura individual, cultura coletiva, cultura que não é assim considerada muitas vezes. Etimologicamente dissecando, culto a coisas diversas. O fútil tradicionalizado e esquecido a posteriori. O relevante tradicional e lembrado. Pra variar, parece-me que podemos observar inversão dessas coisas de vez em quando. A distribuição de valores não deixa as coisas claras. Até mesmo porque valores se desvalorizam. Devida ou indevidamente. Um arquétipo cultural deve ter data de validade? Devia ao menos se manter lembrado, mesmo que pereça. Mas insistem em usar o novo pra sufocar o consolidado. Como se todo o novo já nascesse com a capacidade de sobrepujar o consolidado. A rapidez desses tempos continua a ter algo em comum com outros tempos: contrasta fortemente com as mobilidades sociais. Mesmo que estas estejam mais rápidas, nunca acompanham o ritmo de seus tempos, o que explica que contextos históricos só sejam entendidos por mentes de séculos e séculos após o ocorrido. As cabeças pequenas entediam, sem dúvida. A mesmice, mais ainda.

O rápido quer roubar a intensidade. Pressa é inimiga de uma perfeição que insistimos em instaurar através de movimenos culturais, realmente acreditando perfeição existir. Pressão desnecessária tentar obter o absoluto de algo sempre desnecessário a um mundo de limitações e imperfeições inatas como esse. Buscar a aplicação e a assiduidade é admirável; trocar os pés pelas mãos e aspirar a perfeição, não. O primeiro é admirável por denotar a capacidade do indivíduo de se dedicar a algo e querer crer que isso faz sentido a si e aos outros. O segundo não é por trazer um constante descontentamento e pretensão. Afinal, a superioridade é banal. Uma vez perto dela, ninguém mais admira os progressos, admira apenas o tempo em que se mantém no topo sem tropeçar e cair. Já a inferioridade é um constante desafio, a quem assim souber encarar, para melhorar. Paradoxalmente, um não é melhor que outro. São só substantivos com a mesma desinência. As línguas dos homens nos confundem em relação às coisas essenciais. Classificam com referências cruzadas conceitos abrangentes demais.

Aiai, eu e meu defeito de começar a discorrer sobre uma coisa e enganchar ene outras... A questão é que feriados e comemorações até que tinham razões nobres antigamente, mas profanas razões comerciais insistem em passar por cima da tradição, se aproveitando da "conivência difícil de se desfazer". Penso às vezes até onde vai a capacidade de comunidades inteiras de guardar tradições. Cinco mil anos devem ser pouco para os estudiosos sérios tirarem uma boa conclusão. Uma tradição durar cinco mil anos significa o que? Deve ter pormenores cujos detalhes faltam teorias para abordarmos. Como os produtos das convivências e dos acontecimentos trazidos e produzidos através das datas comemorativas. Paulatinas metamorfoses sociais, vá saber. Pode ser que cheguem tempos em que as sociedades creiam ser desnecessários os feriados. Lunáticos como os comunistas destruíram igrejas por acreditarem a religião ser "o ópio do povo"; fanáticos de várias seitas são iconoclastas; se essa tendência consumista prosseguir tão crescente assim, poderia ser possível que a necessidade cada vez maior de se trabalhar, face a exigências sociais cada vez maiores, forçassem a abolição de feriados? O trabalho se emparelharia, junto à família, como segunda instituição social intrinsecamente indissolúvel? Máquinas dispensam o trabalho de muitos braços, mas, até onde sei, ainda não evoluíram o suficiente para (in)dispensar o ócio humano. Uma verdadeira distorção do antigo provérbio germânico: Arbeit macht frei.


Datas comemorativas por datas comemorativas, hei de tentar comemorá-las enquanto as pessoas não percebem a falta de sentido delas... hum, esse post tá niilista demais! Alerta!!!

A última vez em que fui ao lugar-comum das férias

Foi em 2000. Estávamos com um carro muito maior. Dessa vez, fomos decididos a evitar todas as mancadas de 97, mas também a ir sem pressa. Nem que tivéssemos de parar mais vezes no meio do caminho. Após abarrotar o carro de malas, esse ano fomos com Fafá. Esse é um apelido que He-man arranjou pro tio. Risível. Aí, pensamos em evitar os pedágios da Dutra indo, dessa vez, por Goiás. E pisamos fundo. Pra descobrirmos por vias tortas e esburacadas que aquela não fora uma decisão feliz. O trajeto era tão ruim que perdemos uma lanterna do carro com tantos solavancos. Antes de passarmos pela confusa Jataí, comemos numa lanchonete dum posto próximo da cidade. Depois, ao tentarmos passar pela cidade, a dificuldade de se achar um caminho para cair fora da cidade crescia. Depois de mais de meia hora revirando os cruzamentos, passamos por uma cidade relativamente perto da fronteira com Minas. Paramos lá um pouco pra esticar as pernas, e continuamos até chegar em Uberlândia; havia um hotel de trânsito lá, e pra lá fomos com essa informação. Deu pra conhecer um pouco a cidade, que, apesar de interiorana, é bem desenvolvida. Havia vida noturna lá, acreditem se quiser. Pela tarde, passamos por Belo Horizonte, que foi a parte mais prática do trajeto. Praticamente uma avenida só cortava a cidade inteira até a BR mais próxima até Espírito Santo. A única coisa que tomou um pouco nosso tempo foi uma blitz. O cara de bege, tapeando com papo-furado, basicamente nos parou só pra perguntar onde tínhamos comprado esse jogo de rodas. Folgado, diria. E nem no Rio de Janeiro estávamos. Seguindo pela tarde, paramos novamente numa quebrada, pouco antes do trecho mais perigoso da estrada. Local calmo, com algumas máquinas caça-níqueis. Coisa que a blitz lá atrás adoraria flagrar. Comemos umas besteiras lá, e ouvimos uma recomendação da dona do lugar: ela dizia pra pararmos numa cidadezinha perto da fronteira, João Monlevade. Dava tempo de sobra passarmos por lá e chegarmos até Vitória no mesmo dia, mas o trecho era tenebroso: encontramos uns seis veículos estraçalhados no paredão à esquerda; à direita, tinha apenas o vazio de um precipício, acho. Aí chegamos na dita cidade bem antes do anoitecer, ficamos tipo numa pensãozinha barata de lá, com dois beliches, cama de casal e um banheiro, e paramos por lá. Parecia uma cidade feita pela metade; via-se um monte de coisa em construção. Dia seguinte, descemos uma escada que mais parecia um sótão, e tomamos o café da manhã numa sala toda madeirada. Retornamos ao trecho pelo qual entramos na cidade, e pegamos outro trecho para chegar a Vitória. Aí fomos direto, só paramos em Vitória pra comer algo, e às quatro, cinco, já chegáramos em João Neiva. Fafá chegara antes; pisou fundo só pra chegar antes de nós por no máximo duas horas de diferença.

Depois dos cumprimentos e xaropada familiares de praxe, como o Sinoca nos oferecendo conhaque, colocamos nossas coisas no quarto. Logo no dia seguinte, bem cedo, o cara faz com que o pai vá conhecer a fazenda dele. A irônica cara dele fingindo interesse pra visitar o local é única. Eu fingi dormir até mais tarde nesse dia pra escapar disso; foi ele, He-man e a irmã. Ouvira na noite anterior sobre ele estar atado a esse programa de índio, e tratei de tirar meu cavalinho da chuva. No dia seguinte, era fim-de-ano. E, em vez de uma ceia decente como pessoas normais fariam, os manés decidem ir à Barra do Sahi pra molhar os pés. Dizem que dá boa sorte. Fala sério, que programa de índio -- digo, de orixá -- esse, viu? O máximo que se tinha a fazer era ficar atrás dum trio elétrico, tocando do bom ruim e do melhor pior. Pior do que isso, só termos de parar no meio da estrada, às duas e meia da manhã, pra tia poder tirar água do joelho no matinho. Um outro dia voltaríamos para essa mesma Barra do Sahi para visitarmos um barzinho que era tocado uma amiga da mãe de longa data. Enfim, o fim-de-ano mais trash de todos. De volta a João Neiva, foram dias muito parados: chega uma hora em que cansa comer tanto chocolate e capeletti. Teve um dia em que fomos a Vila Velha ir à feira. Tava sem o menor saco de ir, então aproveitei que não tinha como escapar e passei pela loja de chocolates perto da fábrica. Torramos mais de R$50 só em chocolates! Antes disso, da feira e tudo o mais, passamos pelo Convento da Penha: é uma espécie de igreja que fica bem em cima dum monte. As escadas de lá são sofríveis; altas até dizer chega. Aproveitamos também pra visitar alguns amigos da mãe, da época de solteira dela, mas nada de mais.

Aí voltamos à Aracruz. E aqui entra um detalhe estranho: Aracruz é um vazio demográfico peculiar. Assim, a distância de um bairro a outro é de quilômetros, não se achando, às vezes, quase nada nesse intervalo. Pouco havia a se fazer por lá, como ir à locadora de jogos perto dos eucaliptos, jogar ping-pong com Frank no terraço da casa do Chico (outro tio, mas esse mora lá) ou jogar futebol no campinho de areia em frente à casa. Meu pé levou a pior por descobrir que havia menos areia do que se presumia lá. Mas isso era quando não estava em João Neiva, sendo obrigado a ir às missas e a ficar na casa da namorada do primo por não ter como voltar pra casa. Teve um certo dia em que, após vermos alguns conhecidos da mãe que desconheço e não me interesso conhecer, numa cidadezinha próxima, passamos pela loja de auto-peças do Sinoca. Só mesmo por curiosidade; na falta do que fazer, reina a curiosidade. Enquanto no escritório, percebo à minha direita uma espécie de biblioteca. Avanço mais nessa direção e descubro vários armários. Abro algumas gavetas e descubro dezenas, centenas de Playboys. É de se entender depois porque o primo (a irmã dele veio pra cá em Julho do ano passado) era um funcionário tão assíduo, creio. Era uma biblioteca erótica; via-se várias raridades aonde quer que se passassem os olhos. Nos próximos dias, tratamos de ganhar tempo e fomos a Guarapari. Tinha mais gente que litoral, por assim dizer. Não ficamos muito tempos nas águas; fiquei mais tempo conhecendo as bobagens que eles consideravam pontos turísticos. Depois de encher o carro de panelas de barro que jamais viria a usar, a mãe decide cair fora. Quando finalmente conseguimos arranjar uma desculpa e cair fora de João Neiva, ficamos pouco tempo em Aracruz e partimos pra Serra. Não o coletivo de montanhas, mas a cidade em si. Leninha conhecia bem os lugares legais de se passar por lá. Legais para a terminologia dela, mas não tava a fim de perder tempo com minha mania de criticar tudo e fui. Quando estávamos em Aracruz, de vez em quando íamos à praça pra não ficar preso a novelas à noite. Praça de interior, realmente, é um point social trash nesses lugares. Tem tudo nelas: aquele monte de gente feia dando em cima das amigas, os tipos mais variados e não muita coisa. Quando íamos às praias pouco depois da praça, me enfartava de camarão frito. Era nos quiosques que se percebia como os turistas de Mato Grosso eram tratados como extraterrestres. Ficamos apenas umas duas semanas por lá porque prometêramos à vó que daríamos uma passada no Rio depois. As coisas não eram mais as mesmas, sabe?

Uma vez lá, como disse, as coisas não eram mais as mesmas. A grana pra sair era menor, as opções pareciam menores também, mas não era só isso. Foi então que a mania de limpeza da mãe atacou. Sabe aqueles reality shows em que cinco desocupados pegam a casa de um desastre domiciliar ambulante e reviram pelo avesso pra arrumar, não sossegando frente à bagunça? Foi o que a mãe fez. E, claro, sobrou pra todo mundo ingrata tarefa. O que você pensa de um apartamento se esfarelando, com toda a mobília sendo mais velha que você e com objetos do tipo toalhas com folhinha do ano de 1972? Foi perfeito: eu torrando minhas férias limpando casa dos outros! Só mesmo a mãe pra estragar tão vigorosamente minhas férias. Dessa vez não caímos no conto do vigário de irmos a Paquetá novamente. Quer dizer, saímos pr'alguns lugares, conhecemos alguns parentes que não precisava conhecer, como um que morava tão escondido que tivemos de pegar trechos de terra para chegar à casa deste. Chegamos a passar uma tarde na casa deste. Nós, o primo por afinidade do pai e sua família, e mais uns dois, três chatos de plantão. Foi horrível: mato tomando conta do quintal, jornais jogados por todos os lados, interiores nauseabundos, fumaça do churrasco se misturando com um cheiro ocre que quero ir à tumba sem saber o que era... foi maravilhoso! A casa ficava bem em frente a um barzinho de frente à praia, mas como comentara antes, estávamos em 2000, e houve o vazamento da Petrobras. O mar estava imergulhável. Ainda bem que Franklin nos safou de ficar no apê da vó por muito tempo e nos chama pra Angra novamente. Lá tudo continuava praticamente a mesma coisa de três anos atrás, a não ser por termos ido conhecer uma vila de pescadores perto da cidade e termos comido muito peixe. Os gatos do Franklin deliravam nessas horas; quase que a toalha vai abaixo com tudo à mesa num dia desses. Nos dias seguintes, ficamos mais tempo no apartamento, para meu desespero. Andávamos mais pelas ruas decanas do Andaraí, vendo bizarrices como gente vendendo Grapette. Ficamos menos tempo no Rio e voltamos pra casa mais cedo do que pensávamos.

Dessa vez, a volta foi minuciosamente controlada pelo pai: um relatório com o quanto conseguíamos andar a cada vez que abastecíamos sempre estava em mãos, assim como os trajetos mais próximos. Até chegarmos ao Oeste do estado de São Paulo, sem surpresas. Até que a noite desceu e nos confundimos com os entroncamentos de Sorocaba. Andávamos, andávamos, e parecíamos não chegar a lugar nenhum. Até que, perto dum posto da polícia rodoviária, havia um borrão que críamos ser uma placa indicando a direção de Osasco. Se é que era Osasco. Pegamos um desviozinho indicado pela placa e paramos num hotel do Centro. Coisa fina por lá pro café da manhã. Após pedir umas dicas pra recepcionista sobre a estrada, nem almoçamos e continuamos pela BR. Passamos novamente pela ponte do Rio Paraná e seguimos sem surpresas até Campo Grande. Exceto pelo hotel de trânsito: aconteceu alguma coisa naquele dia e não pudemos ficar lá. Sei lá se foi um atentado ou algo menos grave, mas tivemos de ficar num outro. No dia seguinte, após uma passada no Centro, saímos da cidade e só paramos ao chegar aqui.



Em 2003, os irmãos pra lá voltaram. Foram de ônibus. E, segundo eles, o marasmo foi maior do que o de praxe. Lorão fora com eles. Só que a tia sacaneou os três: pagou um ônibus de segunda para trazê-los de volta. Pareciam carne moída após o triturador no dia da volta; quase não ouvia He-man falando besteira com de praxe. Mais tarde conto sobre um trampo que arranjei no gabinete, no Centro. Se contar, claro: nada que valha a pena ler sobre...

domingo, 9 de janeiro de 2005

A última vez que entrei em um avião

Agora vou conferir o quanto me lembro dessa época. Em 1994, coisas aconteceram. E não mencionarei as mais célebres pra evitar redundância. No campo pessoal, fazia mais de dois anos que retornara pra cá em definitivo; o pai se aposentara. Apesar disso, era uma mente inquieta que sempre anseava em produzir e não conseguiu ficar muito tempo no ócio. Então, um conhecido dele sugere que ele abra uma filial duma empresa de seguros do Sul. Ele aceita a empreitada e aluga um imóvel no Centro: era uma sala espremida bem entre a Dunil e a Giovanna na subida da Getúlio Vargas. Era tão espremida que apenas uma porta de ferro distinguia o que era loja e o que não era. Foi complicado trazer toda a mobília necessária. Mais complicado ainda foi... hum, daqui a pouco chego lá. Uma vez alugando o imóvel, a papelada chega. Foi a última vez que veria um escritório tradicional, daqueles com máquina de escrever, armários de ferro, arquivos manuais e outras coisas antiquadas que ninguém mais encontra em empresas convencionais. Foi uma época de rompimento daquele esquema manual de se lidar com informação. O negócio durou pouco tempo, e no final do ano me via com ele, de Belina, recolhendo aquele monte de material de escritório pra casa. Foi com essa tralha que equipamos o andar de cima daqui de casa. Mas ele não ficaria muito tempo parado; em pouco tempo, lhe oferecem uma função na Defesa Civil. Isso o impede de viajar com a gente dessa vez, mas nos possibilita viajar de avião. Fomos com uma tia e o filho dela. E assim, numa madrugada de idos de Janeiro de 95, subi aos céus. Nem teve muita graça; o máximo que tinha à minha vista eram aqueles terminais gigantescos dos grandes centros e aquele monte de estressados correndo pra todos os lados. E as vistas de quando sentava ao lado da janela. Chegamos em Vitória ainda pela manhã.

Sem carro, ir aos lugares torna-se bem mais difícil. Mas volta e meia arranjávamos alguém para essa tarefa. A mãe conhecia um mano taxista de Ibiraçu. É uma cidadezinha próxima de João Neiva. Carinha gente boa. Fã de quadrinhos, ele tinha em casa raridades como a edição em que o Super-homem morre. Nesse meio tempo, pelos noticiários a gente ficava sabendo do rebuliço que tomava conta de vários bairros de Cuiabá: a enchente pegou muita gente de surpresa; o que não acontecia desde os anos 70. Quando voltamos, ouvíamos as histórias mais doidas sobre o incidente; dizem até que a água chegou perto de nossa casa, subindo por mais de um metro dentro do campus da Unic. Não confiem a mim a veracidade disso. De qualquer modo, foram dias um tanto parados: criança não pode ir a lugar nenhum sem algum intrometido de olho (eu não fui exatamente a mais suportável das crianças), e passávamos a maior parte do tempo nos jogos de tabuleiro mesmo. Até videogames eram tecnologia desconhecida para a galera interiorana de lá. De vez em quando aprontávamos coisas que, digamos, fugiam do prognóstico, como espiar as primas no banheiro ou beber a vaca preta do mercadinho no andar de baixo. Da última vez em que fui pra lá, em 2000 (esse será o próximo post desas "série"), o mercadinho fechara. Um adendo: vaca preta não se tratava de sorvete com coca-cola; tratava-se de coca-cola com pinga. Afinal, não era apenas um mercadinho; era um bar à noite. Isso explica alguns desocupados que gritavam lá de baixo enquanto tentava dormir na sacada. Tentávamos nos divertir como podíamos; íamos direto à praia, por exemplo. O legal da época é que Chico conhecia bem o litoral, e sempre pegávamos os melhores pontos; ele ainda tinha tempo para ir com a gente. He-man ficou tanto tempo na água certa vez que a areia "grudou" as pálpebras; ele não conseguia abrir os olhos. Ele ficou assim por umas três horas, após a tia passar pra ele uma receita caseira. Isso tudo fora em Aracruz. Mais tarde fomos a João Neiva. E lá era um saco porque, além de a tia ser daquelas devotas fanáticas de igreja, só sabia nos empanturrar de comida. Nada de interessante acontecia lá; até o cãozinho branco deles, que sacaneou comigo naquela perseguição implacável que citei no post anterior, estava gordo demais para cogitar em me forçar a fazer um cooper pela Cohab. Haviam alguns jogos de tabuleiro lá, mas o tempo se arrastava. A gente ia a Vilha Velha de vez em quando, mas não havia muito o que fazer. Até que as três -- mãe, tia e outra tia --, tiveram uma idéia: alugaram uma casa bem perto de... Sei lá de onde era perto, mas a casa ficava a uns trinta metros do litoral. Muito bom, e longe de tudo. Tudo bem que alugamos somente os fundos, mas serviu. Pelo menos deu pra bater uma bolinhas nas horas vagas. Ou seja, toda hora. Ir ao banheiro nos fundos do quintal era uma experiência tenebrosa; era um trajeto de trevas. Volta e meia assustávamos alguém lá. Íamos pras águas quase todo dia. Quando a preguiça batia, tinha vários quiosques. Atendimento questionável, mas tinha. Alugamos o local por apenas dez dias, se não me engano, e voltamos pra casa do Chico. No último dia nosso por lá, fizeram um churrasco no terraço da casa do Chico. Apesar dos presentes ridículos, genéricos dos presentes que realmente queríamos, foi legal.

Para a tia voltar, havia um agravante: ele teve como vir, mas não sabia se teria como voltar! Afinal, a viagem não saiu do bolso nem dela nem de Fafá. E aí a expectativa foi grande, até que, um dia antes de irmos ao aeroporto, ela recebe uma ligação: ela teria como voltar. No dia em que finalmente fomos embora, chegamos pontualmente para pegar nosso vôo. Mas somos informados de que o vôo que iria diretamente pra cá fora desviado. Então, até conseguirmos um avião que passasse por cá, rodamos muito. Pra começar, de Vitória pulamos pra Natal. E, de lá, chegamos de madrugada no Galeão. Que lugarzinho grande, cara! Parecia um shopping todo tomado de tons bege e malas (ambos os sentidos) por todos os lados. De lá, pegamos um outro vôo para São Paulo. Com um monte de gente querendo matar a atendente no balcão da companhia aérea, ficamos num hotel, se não me engano, no Largo do Arouche. Do Guarujá pra lá com táxi por conta da companhia. Lugar cinco estrelas, veja só. Cometi o excesso de tomar banho na banheira. Só faltou patinho de borracha. Morte à ducha! Desfrutei a novidade por poucos minutos; mãe é tudo igual, e a minha, obviamente, usou algum argumento exagerado preu parar de vandalizar o banheiro. Dormir foi uma sensação estranha, com aquele trânsito incessante. Pela manhã, descemos pro saguão para o café da manhã e damos uma volta pelo Largo para conferir as cercanias. Estava pensando agora, paulista tem uma mania de pôr nomes estranhos a suas coisas. Por exemplo: Freguesia do Ó, ABC, Largo do Arouche, Moóca... Sei lá; toponomia mais peculiar. Talvez devesse ter ficado mais tempo naquela palestra da SBPC. Bom, a questão é que ficamos por lá uns dois dias até podermos voltar ao aeroporto. Após cruzar aquele monte de edifício, pegamos outro vôo para Goiânia. Estávamos chegando perto. O salão de espera, pro check-in, estava num clima tenso. Dezenas de incautos querendo voltar pra casa, cansados de rodar o país inteiro. Mais uma vez ficamos num hotel no Centro da cidade. Mas só até as três; o vôo era às quatro. Mesmo pegando o vôo, o problema não acabava. Éramos abacaxis na mão da companhia aérea, e nos transferiram para um vôo de outra companhia que, pra variar, não tinha vôo pra cá; passamos pela ponte aérea, pra só depois de tudo isso, pegarmos um vôo com escala pra chegar aqui. Enfim, essa brincadeira durou uma semana, senão mais. Quando finalmente chegamos, recepção calorosa de Fafá e do pai. E voltamos direto pra casa, com um monte de presentes nos esperando em cima da cama. Guardo até hoje alguns deles...



O próximo post deve ser o último dessa série de causos das férias. Em 2000, fora a última vez em que viajamos, os cinco, juntos. Que o último seja o último, então. Essa história de os últimos serem os primeiros está mal contada...

'97 Summer Vacations...

Já que essas férias serão uma droga, esse post não será sobre as férias desse ano, mas sim de 97. À época, decidimos visitar o Rio. Tínhamos onde ficar; a vó mora lá. Naquele tempo, não tínhamos -- pelo menos não tanto quanto hoje -- de ouvir a retumbante relutância da mãe em encarar a estrada devido ao diminuto tamanho do carro, e entupimos o Escort prata de malas (com e sem alça, se é que me entendem) e bugigangas às cinco da manhã de uma... sei lá qual era o dia da semana, mas era em meados de Dezembro. Passaríamos o ano novo em questão lá. E assim foi. À época, finalmente substituíramos a lata velha da Belina azul, com a família há anos, por algo mais andável, por asism dizer. A banheira azulada era tão antiga que, sem o sistema de alarme, tão comum nos carros hoje em dia, a única opção contra assaltos era aquela trava presa ao volate, sabe? Daí tira-se uma idéia de o quão rodado o carro era. Nem gosto de lembrar das vezes em que prendia a mão na porta daquela banheira velha na hora de ir pra escola; dói pra caralho ver seus dedinhos de seis anos de idade sendo moídos pelas dobradiças sustentando uns trinta quilos de metal em seus dedos.

Mas chega de falar de carro velho. Saindo ainda com o sol nascendo, chegamos lá pelo meio dia em Coxim. Cidadezinha pequena, mas não tão esquecida do mundo como temíamos. Achamos rapidamente um restaurante, com amplo ambiente cheio de janelas, sem essas moagens de ar condicionado, e me esbaldei em peixe. Voltando à estrada, chegamos lá pelas oito em Campo Grande. Morara lá antes de vir em definitivo pra essa escaldante cidade. Ficamos num hotel de trânsito perto do Centro; o pai era chegado da galera que cuidava das dependências. Fora nesse mesmo hotel que ficara quando fui à cidade pela primeira vez, antes de me estabelecer na vila de lá. Logo na entrada, havia uma sala de espera à esquerda, com quadros gigantes e sofás numa atmosfera meio rouge, apelando pro galicismo desnecessário; no corredor à frente, o salão onde se servia o café da manhã e o almoço; à direita, a recepção, claro. Era coisa simples, prédio de uns três, quatro andares no máximo. Mas éramos bem recebidos; o ambiente parecia tipo aqueles filmes antigões em que o sol batia sem sossego nas paredes enrugadas, tapeadas com um verde-oliva, e assoalhos encarpetados. Cobertas brancas, de tecido grosso e camas de ferro. Apartamento com dois quartos e banheiro no meio dos dois. À época, passava na Grobo um especial do James Bond; toda semana, um filme diferente do agente 007 passava. Até que isso nos distraiu um bocado por aquelas noites antes da chegada. Ver o Sean Connery se achando "o" elegante perante aqueles efeitos especiais dignos do Ultraman era digno de algumas risadas. Não é à toa que ele me parecia o mais cabeçudo de todos os incautos que interpretaram o 007.

Como queríamos chegar logo ao Rio, não demos uma voltinha pela cidade para relembrarmos os locais por onde freqüentávamos; deixaríamos isso para a volta, após os extorsivos quilômetros da Via Dutra. Nos limitamos a dar uma passadinha pelo shopping de lá, antes de voltar ao hotel. Adorava ir lá quando pequeno. Antes de vir pra cá, cheguei um dia a dar uma passada por um ring de patinação que tinha dentro do primeiro piso. Foi o máximo ver aquilo. Não tão legal quanto da vez em que passei por uns brinquedos da turma da Mônica, montados à ocasião para o Natal. Algo parecido com o que o Pantanal fez ano passado, diria. Ei, me dêem um desconto! Eu mal sabia ler à época. Efemérides à parte, o que noto hoje em dia é que Campo Grande é o mesmo frustrante lugar-comum, quanto à vida social, que aqui. Com o diferencial de eles terem Carrefour lá dentro... Na manhã seguinte, malas reorganizadas, pegamos a BR novamente. Aí foi o trecho mais solitário; depois da ponte da fronteira que passava pelo rio Paraná, não se via nada. Postos abandonados, nenhuma loja no acostamento, só mesmo as cidades no trajeto. Chegamos em São Paulo -- a capital, por assim dizer -- lá pelas sete da noite. Foi coisa rápida, mas parecia grande coisa passar por tantos arranha-céus de tantos conglomerados influentes. As rádios começavam a fazer reclames de coisas que desconhecíamos. Em pouco tempo, passáramos a margem; e não à marginal. Paramos rapidamente numa loja de conveniências gigante pra comer alguma besteira, e seguimos até Resende, onde tinha outro hotel de trânsito. Aquela conveniência era muito esquisita; parecia um mercado em plena estrada. Era tão espaçoso que dava pra esticar as pernas enquanto se via o amistoso do Brasil contra a Bósnia na Tv. Aquele dia foi sinistro por ter rolado um acidente, acho. Só se via no breu uma galera de laranja em meio aos cones; acho que teve algum acidente, sei lá. Sim, digo sei lá por se fazer muito tempo. Chegamos tarde pra caramba ao dito hotel e desmaiamos na cama.

No dia seguinte, conhecemos melhor o local. Não era um simples hotel; ficava ao lado da Academia. Aí vimos de tudo: os cômodos onde os internos ficavam, os salões onde os manda-chuvas ficam, os amplos espaços de treinamentos, aqueles murais cheios de honrarias... Coisa nababesca, mesmo. Só não confundi com Brasília por causa daquele monte de gente de farda. Havia uns salões enormes onde ficavam os escritórios; quase anfiteatros, bastaria apenas um isolamento acústico no teto... Para não ficarmos apenas nas cercanias da Academia, passamos pela cidade. O esquema dela era parecido com o que se observa em Chapada: uma igrejinha como Centro da cidade, construções antigas ao redor e vidas tranqüilas passeando em suas bicicletas. Almoçamos num restaurante, com minha memória me traindo, perto dos limites da cidade. Ou seria no mesmo hotel em que hospedáramos? Enfim, era um salão grande, de várias mesas de madeiras, com aqueles plásticos indefectíveis por cima. Observava aquele famoso clichê de restaurantes passeando pelos corredores entre as mesas: um carrinho com um pano e aquelas panelas metálicas, cuja tampa é em formato de meia circunferência, sabe? Pois é: enrolamos um pouco mais por lá pra fazer valer a diária; tivemos café da manhã e almoço um atrás do outro que é pra economizar. Depois de fazer peso, pé na estrada. Lá pelas cinco tarde estávamos chegando. Teríamos chegado bem antes não fosse o pouco prático trânsito antes da ponte Rio-Niterói. Aí estacionamos no prédio e subimos pro ape da avó. Lugarzinho pequeno. Típico imóvel do Andaraí: pequeno e parado no tempo; só gente idosa parecia morar por lá. Metade dos cômodos do apê da avó pareciam do século XVIII: era relógio de pêndulo pra lá, decorações em cobre pra cá; meus olhos simplesmente não encontravam referências visuais que pudessem confirmar que estava no século XX. Uma vez naquele cubículo, as opções de diversão eram poucas: tinha o videocassete que ninguém sabia usar direito; os tiros que se ouviam do morro ao lado e as bobagens que assistíamos até tarde nas camas barulhentas de ferro improvisadas na sala de estar. Ah, e uma considerável biblioteca na parede ao lado do banheiro da qual deveria ter usufruído mais; não é à toa que levamos conosco alguns volumes. Ainda passava o Programa Livre na época; tudo bem que não eram os saudosos tempos do Groisman à frente, mas dava pra se distrair. Só conseguíamos assistir tarde da noite por a apresentadora adorar falar sobre sexo. Aí ela chamava um monte de tiozão desocupado pra discorrer sobre o saturado assunto. Pessoalmente, preferias as entrevistas que vinham antes; ela deixava a "tradicional temática" pro último bloco. Para isso, reduzia revoltantemente o tempo das entrevistas. Aí vocês podem pensar:

_ Mas que merda de férias são essas?

Era tudo que tínhamos. E relaxem, isso fazíamos somente quando realmente não tínhamos aonde ir. Lá perto, por exemplo, tinha o Iguatemi. Pelo menos era uma opção bem próxima de onde ficáramos. Era curioso ver os resquícios de cidade antiga passando pela Saens Peña e outros lugares decanos; sempre encontrávamos salas de cinema antigas no melhor estilo Cine Odeon. E quando não sabíamos como chegar aos lugares, pegávamos ônibus ou metrô. Este último é realmente muito prático: sem coragem de perder tempo tentando estacionar perto do Pão de açúcar, o pegamos até lá. Depois da facada na bilheteria, lá subimos e resistimos à tentação de comprar os suvenires dolarizados. Realmente, uma vista bonita. Lembro-me que, de vez em quando, via coisas esquisitas pelas ruas, como índios no ponto de ônibus. Mas o mais inusitado de tudo virá daqui a pouco, embora eu não tenha visto, ó tragédia. Depois de descermos o bonde, comemos algo numa lanchonete na avenida e pegamos um ônibus. A falta do que fazer no apartamento à noite era tão grave que forçamos os pais a irem numa loja no Centro. Perto sei lá da onde, mas fomos. Enchemos o porta-malas de brinquedos e tabuleiros. Medidas drásticas para tornar suportáveis os momentos em que éramos obrigados a ficarmos no apartamento. Como disse, só morava velho lá. E a área de lazer, juro pra vocês, era composta metade de um terreno baldio, metade de vagas pros carros, com guarda-volumes na parede à direita. Nenhum playground, nenhuma alma viva que não estivesse senil ao redor, nenhum recurso ao ócio, como piscinas ou salão de festas. O máximo que tínhamos era um Dodge enferrujado há mais de, sei lá, trinta anos, perdido no mato. Era um apartamento caindo aos pedaços, literalmente. Tão literalmente que citarei um incidente: um dia, após fazermos algumas compras no Campeão, mercado das redondezas, meu irmão decide levar algumas das sacolas das compras pelo elevador. Estava ele e a vó. O elevador começa a subir uns quinze centímetros e, após um brusco estalo, emperra uum metro abaixo do nível do solo. Ele e a vó ficaram lá emperrados por quase uma hora até que pudessem sair. Se fosse a mãe lá dentro, seria caso de se chamar paramédicos; ela é claustrofóbica...

Muitas vezes, a vó não nos acompanhava nas saídas e preferia ficar vendo suas novelas. Conhecemos vários shoppings de lá nessas oportunidades. Lamento muito não ter primos por lá; às vezes, a vó nos fazia visitar uns parentes da parte de meu pai. Só que os parentes da parte dele, aparentemente, tiveram poucos filhos ou envelheceram demais, porque só tinha ancião, cara. Sem querer ser babaca, mas nos metemos em cada gruta por causa dessa parentada que vou te contar. Ainda bem que esses dias foram poucos, presenças só por descargo de consciência, por assim dizer. Nos outros dias, conhecemos o Cristo Redentor e a praia de Copacabana. Era a menos imunda daquela cidade encardida. Fôramos umas duas da tarde, acho. Ao comprar um pouco de água de coco com o pai, meu irmão parecia meio boquiaberto, surpreso com algo que nunca vira antes. Mais tarde o pai me contaria que ele vira uma morena daquelas de topless no meio-fio. Filho da mãe sortudo. E aqui entra um adendo: houve uma época em que o topless estava virando moda nas praias cariocas. Quem estava em outros estados não teve a noção da repercussão disso por lá, mas houve gente que foi presa por... ai, qual é o nome da infração? Falta de pudor, acho. Enfim, os jornais locais deitaram e rolaram: mostravam nas primeiras páginas fotos de topless até dizer chega. Cheguei a postar algumas no Fotolog, mas aqueles hipócritas apagaram todas. E aqui vai um detalhe esclarecedor: essa modinha veio em 2000, e estávamos em 1997. Meu irmão se viu perante uma raridade, realmente. Falando em praias, mencionarei também da ingrata vez em que a vó nos fez ir a Paquetá. Fomos de balsa; lembrei dessa cena vendo um programa do Futura dia desses. Lembrei também de quando uma das janelas de madeira da balsa resolveu me sacanear e se fixou em falso na parte de cima, despencando bem em cima de minha cabeça, enquanto tentava achar algo na Baía que não fosse entulho flutuando. Ela adorava ir pra lá passar o fim de semana; até alugava casa lá pra passar o tempo com as amigas.

_ Que amigas? Toda semana é uma a menos!

Não esqueço até hoje desse comentário ácido do pai, tentando convencê-la a parar de gastar dinheiro com aquela espelunca cujo aluguel pagava todo mês, e mal lá pisava. Coloquemos aqui um alerta bem-vindo: sabe aquela Paquetá que escritores como Machado de Assis tanto endeusavam? Esquece; a Paquetá que conheci é um lugar decrépito e imundo, bem no meio da putrefata Baía de Guanabara. A ilha não oferecia opção alguma de diversão, e era um lugar feio de dar dó. Era praticamente uma cidadezinha interiorana atolada dentro duma baía. Ainda bem que não passamos o réveillon lá. Mencionei há pouco sobre uma modinha em idos de 2000. Em idos desse ano, houve também um vazamento na Baía de Guanabara. À época em que fui à baía, o vazamento ocorreria somente três anos depois, mas mesmo assim este não faria diferença: eram litros de óleo sujando o que já era sujo. Nós três aprendemos isso da pior maneira quando, alheios a isso, arriscamos um mergulho. Quando vi aquele monte de plástico de procedência visualmente desconhecida boiando pra ciam de mim, desisti na hora. Ainda bem que a tortura de permanecer naquela ilha durou apenas uma semana. Voltamos pouco depois ao Andaraí. Sem perspectiva alguma de onde passar o natal e fim-de-ano cada vez mais próximos, recebemos convite de um primo por afinidade do pai pra passarmos as datas com a família dele em Niterói. E pra lá fomos. O moleque filho dele era um porre, mas era melhor do que permanecer naquela ilha nojenta. Pelo menos tinha videogame. Isso era o máximo pra minha idade à época; leve em consideração que estava há umas duas semanas sem chegar perto de um controle. Era mais do que hora de acabar com aquela síndrome de abstinência.


Na verdade, não passamos o fim de ano em Niterói, mas sim numa confortável casa em Itacuruçá Itaipuaçu. Eu sei lá de quem era a casa, mas pra lá fomos passando, enquanto na estrada, pela Pedra do Elefante, cujo nome sugere seu formato. Era perto, a 100km do Rio, como acabo de descobrir no Google. Uma vez na casa, jardim gigante, algumas pessoas na fachada e muita gurizada na parte de cima, cujo acesso era uma escadinha à esquerda, perto da garagem. Muita menina bonitinha. Que tragédia eu ter sido tão tímido na hora. Um desperdício. Foi muito divertido, talvez a melhor parte da viagem. Era uma casa grande, longe do movimento da capital, bem calma. Era uma delícia ficar na rede da entrada. Mesmo que quisesse, a tevê velha da parte de cima, onde as garotas ficavam, era rudimentar demais para o videogame. De vez em quando saíamos da casa pra ir ao bar ao lado jogar, ou ao menos tentar, bilhar. Tinha também umas máquinas doidas. Tipo o Street maluco da comunidade do Orkut, mas era um jogo de luta muito doido onde o adversário mais difícil de todos era uma velhinha muito da cordeira. Ai, realmente lamento muito não me lembrar com mais detalhes daqueles tempos, mas sei que era uma casa cheia; devia ter umas quinze, dezoito pessoas. A maioria era de jovens, parentada do primo por afinidade do pai que nem fazia e nem precisava fazer idéia de quem eram. Dava pra me divertir um bocado com aquele monte de carioca metido a besta. Principalmente com "as" cariocas; algumas delas eram viciadas em canastra. Não é à toa que carioca que é carioca adora esse jogo. Me lembro que passamos o fim-de-ano numa praia lá perto; fomos a pé lá pelas onze horas da noite e ficamos no meio do povão, estourando povos e bebendo. Eu, obviamente, fiquei na minha; não tinha idade pra ficar de pileque. Me lembro que nos dias seguintes passamos a conhecer melhor a cidade, passando por algumas praias. Ficamos umas duas semanas por lá. Níver de meu irmão foi por lá, com direito a cajuzinhos furiosamente consumidos poelos vinte desocupados na casa. Muito bom; nem sei se tenho fotos de lá. Fiquem então com esta acima, da pedra do elefante, que acabo de achar.

Mais uma vez voltamos à casa da avó. O que mais temíamos. Precisávamos arrumar o que fazer logo; aqueles jogos não nos deteriam por muito tempo. Fomos salvos pelo Franklin, que nos convida para uma estadia na casa dele em Angra. Não, o cara não é nenhum bon vivant por ter casa lá; simplesmente mora numa vila destinada aos trabalhadores da usina. O melhor de lá eram as praias; um trechinmho do litoral ficava dentro da vila. O tempo era sempre ameno; o sol era modesto por lá. Excelente pra quem "tem pouca melanina" como eu, como diria Samyra. Aproveitei muito essa condição rara. O único defeito de lá eram as garotas: cada bugre que tinha por lá, meu Deus, meu Deus! Normalmente meu irmão diria esse comentário indecoroso, mas elas eram realmente feias, pelamordedeus! Resigno-me a dizer somente isso. Era muito bom dar umas voltinhas de bicicleta pelas ruas calmas da vila, ouvir lorotas dos filhos do Franklin, do tipo que Roberto Carlos freqüentou restaurante xis pelo qual passávamos. E o melhor das horas em que tínhamos de ficar em casa sem fazer nada é que o cara tinha tevê a cabo! Em 1997, isso era sensacional! Não fazia nem dois anos que o cabo chegara ao país. Assistia fissurado àquela penca de desenho do Cartoon Network como se fossem grande coisa. E acredite, para um país que nunca soubera o que é tevê a cabo, isso era grande coisa.

Quando chegamos à fachada da casa do cara, um incidente marcante me veio à memória: há muito tempo, mais tempo até do que o referido ano de 1997, viera antes à Angra; estava nos meus seis, cinco anos. Nem aqui morava ainda quando fiz essa viagem. Nessa ocasião, faziam poucas horas que chegara e fiquei ansioso para passear um pouco. Devido à pouca idade, fui acompanhado. De repente, ouço um ruído atrás de mim quando estávamos contornando a quadra, na varanda da casa onde estava. Era um cãozinho branco com uma mancha preta nas costas. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. O ódio canino foi instantâneo: as quatro patas saíram em disparada em minha direção. Eu também saí em disparada. Caralho, como corri naquele dia; rodei a vila inteira tentando escapar desesperadamente do maldito cachorro! Estava quase caindo de joelhos de tanto cansaço e o canídeo se aproximava cada vez mais, sincronizado a meu desespero. Era um correr mecânico desesperado, rasgando por casas, esquinas e tudo à frente. Após mais de meia hora correndo por minha vida, pensei rápido, voltei à casa, saltei a cerca de madeira e me joguei pela porta da varanda, fechando-a rapidamente com o tornozelo, se não me engano, Aquela fora por pouco. E o mais irônico nisso: quando estava lá daquela vez, só tinha gatos na casa! Começo a pensar que estou confundindo esse incidente do cãozinho com outro lugar pelo qual passei, mas foda-se, tenho quase certeza que foi dessa vez mesmo. Ah, não, espera: isso foi da vez em que fui, na mesma época referida, à casa da tia em João Neiva. Bom, mas é perdoável que faça tal confusão: o vizinho do cara em Angra tinha realmente em cachorro muito parecido. A menos que ambos os cães tenham me perseguido e... Ah, chega de falar de vira-latas loirofóbicos!

Obviamente, não deixamos de dar uma passadinha pela usina em si. Mas passamos só pela frente; Franklin não nos conseguira acesso lá dentro. Talvez fosse melhor assim; da última vez em que fui vê-lo, a saúde dele não estava das melhores. Nota mental para mim mesmo: contar no futuro da vez em que fui à usina de Manso. A L. (do Ice) estava lá. Aiai... Aham! Bom, uns cinco, seis dias depois, voltamos pro temido apartamento da avó. A irmã até que se virava lá dentro; arranjara uma amiga que estava morando lá só de passagem. Nos dias seguintes, visitamos um parque na Gávea, sem não me engano. O que sei é que era perto do Corcovado. Um lugar com muito verde, enfim. Cachoeiras, mata nativa, bem legal. Também passamos, num outro dia, num parque. Tinha um museu e um zoológico dentro desse parque, de tão grande. Era nesse parque que, no zoológico, vivia o célebre macaco Tião, que bebia, fumava, e volta e meia aparecia na tevê por causa dos vícios que lhes foram ensinados pelos (ir)responsávens de sua jaula. Desde o primeiro dia em que pisamos no Rio, o pai nos enrolava toda vez que lhe pedíamos para conhecer o Maracanã. Passamos pela frente do estádio mil vezes e nada de assistir a um jogo! Foi frustrante, principalmente porque não fora somente ele quem prometera a mim e a meu irmão isso. Talvez o ambiente do estádio em jogos noturnos o tenha desestimulado a isso. Sabe como é, sacos com mijo voando pelas arquibancadas, briga de torcidas, grades de proteção cedendo, essas coisas. Só sei que, no finalzinho de Janeiro, estávamos voltando para casa. Foram dias bem legais, descontando os em que ficamos enclausurados no apê da vó e em que visitamos parentes educados mas enfadonhos que provavelmente não voltarei mais a ver. Foi nessa mesma época em que compramos nosso primeiro computador com acesso à internet. "Grande merda", dirão a Sersup. Confirmarei isso perguntando retoricamente quem é que sabia o que era um computador em 1997. Ninguém; volta e meia tinha gente achando que mouse era pedal de máquina de costura. Compramos lá e chegamos no bairro sendo os primeiros a usar a web. Na época não tinha flash nem blogs, estão improvisava com sites de piadas, imagens de desenhos animados, fã-sites, webrings, midis e outras coisas hoje obsoletas. Ufa, acabei! E pensar que queria dividir esse post em dois e publicá-lo aos poucos, tipo folhetim. Devia ter feito isso. Haja saco pra vocês terem lido tudo isso!... Ei, ei, ei! Esperem um pouco! Não contei sobre a volta!

_ Deixa pruma próxima!

Relaxem, creio que será breve. Numa manhã de findos de Janeiro, decidimos partir para resolver algumas cositas em Cuiaba city. Sob prantos, a vó se despede da gente e volta a sua vidinha solitária no apê do Andaraí. Chegamos em pouco tempo à Via Dutra, mas levaríamos muito tempo -- e dinheiro -- pra sair. Aproveitamos pra dar uma passada em Aparecida do Norte. Construção palaciana, pra dizer o mínimo. Toda de tijolinhos, bem rústico. Capela gigantesca, com pelo menos vinte, trinta metros de altura. Tinha uma sala em que a galera deixava algum pertence para dedicar a Nossa Senhora, se não me engano. Algo do gênero. Toneladas de moedas circundavam os poucos objetos que não moeda eram. Era muita coisa; era ocupada todo o segundo andar dum prediozinho mais ao fundo. Num salão mais transversalmente à direita, após uma rampa, havia um salão gigante para refeições e uma sala maior ainda para as pessoas deixarem fotos de pessoas às quais cujos milagres são pedidos. Tinha foto de muita celebridade. Pouco antes de voltar pra fora e expôr as pestanas ao dia quenta daquela manhã trocando de lugar com a tarde, resolvi tirar água do joelho. Putz, cara, só o banheiro era umas quinze vezes maior do que minha casa inteira! Coisa estupidamente grande, sabe? Toalete self-service: dava pra escolher onde depositar seus dejetos orgânicos. Bom, depois de comprar umas besteiras no balcão do salão de refeições, damos uma passada num prédio do outro lado da capela. Cria ser um outro confessionário ou outra coisa dedicada aos fiéis, mas... Digamos que o que vi era dedicado aos fiéis ao dinheiro. Era uma galeria de várias lojas onde se vendia de tudo. Fora o mundaréu de barracas que ficam em frente à capela; essas da galeria ficavam à direita da capela, no pátio gigantesco que compreendia o local. Como não queríamos dirigir à noite, fomos logo embora. Não sem antes passar por um bosquezinho mais à esquerda da capela. Depois, estrada até às oito, nove, após mais de dez guaritas cobrando pedágio. A essa altura, não enxergávamos mais nada; pra piorar, Campinas nos deixou perdidos: ninguém entendia aquele monte de entroncamento. Só sei que, sem saber ao certo como, ao nos encontrarmos no mais absoluto breu, sem iluminação alguma, descobrirmos estar na Raposo Tavares. Meu pai acha que dá tempo de chegarmos até a cidade mais próxima e pagar um hotel qualquer. Ele se engana, e tivemos de pernoitar dentro do carro, mesmo. Com aquele monte de garota oferecendo programas na estrada. Em frente à lanchonete dum posto, totalmente sem noção de onde estávamos. A gente começa a lembrar dessas loucuras e vê o bom-senso reclamando na sua orelha, sobre como foi insano dormir no meio do nada, com uma sensação de se estar perdidos, podendo ser abordado por qualquer mal-intencionado.

Frios na espinha à parte, retomamos a estrada após um café com leite na lanchonete da frente e comemos numa peixaria logo depois da ponte sobre o Rio Paraná. Sentia-se já sensivelmente o fuso horário ali: o horário nos relógios era de uma hora a mais, mas a programação era local e os programas eram transmitidos uma hora a menos. Era um local bem construído, apesar de ser de beira de estrada. Doeu no bolso esse almoço em particular; tinha até um laguinho artificial junto a uma paisagem, para se desfrutar enquanto se comia. Pouco depois, estrada novamente. Só paramos quando chegamos em Campo Grande. De novo no hotel de trânsito. Aproveitando que estávamos sem pressa -- a volta sempre demora mais que a ida -- decidimos dessa vez dar uma volta com mais calma pela cidade. Passamos pelo Centro, onde encontrei a banca antiga, pertinho do hotel, onde adorava ir com o pai comprar revistas. Ao lado tinha uma livraria; virando a esquina à esquerda, mais à frente, uma loja de departamentos. Local de aquisições toscas como a fantasia do Jiraya que ganhei de presente. O pai não deixou levar a espada. Ficaram dois ninjas, eu e meu irmão, sem espada. Ridícula a cena. Depois, seguindo mais à frnte pela mesma rua e pegando um retorno, passando pela ferrovia em frente ao hospital militar, chegamos à vila e passamos pela casa onde morei antes de vir pra cá em definitivo. Muitas lembranças, inclusive dos vizinhos que provavelmente nem lá mais estão. Mais à frente, a antiga padaria, que ainda funciona, a igreja de tijolinhos de Perpétuo Socorro à direita, e o colégio homônimo virando a esquina à direita antes da avenida. Por último, passamos pelo colégio onde estudei. Virou creche, empresa de consultoria, sei lá. Mas não é mais a escolinha onde estudei. Vide fotos dela no fotolog. Após mais umas voltas pelas ruas da cidade, o que não levou muito tempo, voltamos ao hotel no dia seguinte. O pai procura se informar de alguns amigos nas ruas mais abaixo, passamos por mais alguns lugares de que dificilmente me recordarei, e voltamos à estrada, para voltarmos em definitivo pra casa.



A qualquer hora escrevo o post sobre a última vez em que fui pro Rio. Se escrever, claro. Que sacrifício escrever tudo isso; tive de voltar em frente ao monitor várias vezes pra terminar... Mas levemos em consideração que passamos cerca de trinta dias fora de casa. Espremendo tudo isso em um só post, até que ficou "conciso".

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

Habilidade de desenhar

Já escrevo há quase dois anos e meio e nunca me lembrei de falar da época em que desenhava. Estranho como coisas que foram tão evidentes e presentes passam sem notarmos em épocas posteriores. Me lembrei hoje disso, do nada. Sempre tive o hábito, quando pequeno, de desenhar coisas. As a meu redor enjoavam facilmente. Criava. Mas, obviamente, eram criações com nefastas influências dos desengonçados desenhos das manhãs da Tv. Desenhos que ainda tinham visível influência de uma época em que havia menos pessoas na cidade e mais no campo: não pode ser acaso todos os célebres desenhos do século passado serem bichos humanizados. Eram desenhos de épocas em que os personagens eram criados para crianças, por adultos, com mentalidades adultas. Sadismos, apologias à vingança e a vícios: havia alguma coisa muito errada com esses subprodutos culturais. Mas ninguém percebia isso à época, o que é bom para nós: pelo menos nos enlatados animados de antigamente podemos ver histórias livres do politicamente correto. Não entro no mérito de comentar desenhos com vacas e esponjas: ainda é cedo pra dizer o que eles farão a gerações inteiras.

Portanto, (quase) tudo que desenhava eram bichos falantes com cores. Quando tinha paciência de pintá-los, é claro. Quando não tinha, pegava papel de seda e contornava. Foram tempos em que comprava bastante quadrinhos; torrava minhas economias com aquelas historinhas cujos detalhes passavam quase todos desapercebidos. Criança lê. E só. É um ler mecânico; entrelinhas são demais pra cabeça desses seres. Isso quando não recortava aquelas propagandas toscas do Instituto Universal (pra quê recortava aquilo?) e percebia tardiamente o estrago que fizera na historinha no anverso que nem acabara de ler ainda. Embora crianças sejam muito distraídas, a ponto de fazerem perguntas demais e ouvirem respostas de menos, até que aprendi bastante com aquelas historinhas sem pé nem cabeça: na falta de criatividade, só mesmo as toneladas de analogias e trocadilhos para encher lingüiça. Essa era uma das coisas que me faziam preferir quadrinhos Disney. Evitava quadrinhos da Mônica por não haver quase nada naquelas linhas que não fosse sobre roubar goiabas do fazendeiro ao lado ou o coelhinho azul de pelúcia da vizinha dentuça. Cara, eram tempos em que os quadrinhos da Abril tinham assinatura! Como fui burro em não extorquir meus pais pra assinar algumas! Hoje em dia nenhuma delas tem assinatura, e a qualidade baixa cada vez mais. E torna-se cada vez mais raro achar quadrinhos em bancas: antigamente, até tropeçando na rua achava quadrinhos; hoje em dia...

Lembro-me claramente do primeiro desenho que fiz em escola, na aula própria para tal: era um avião azul. Demorei um tempão pra acabá-lo, mas ficou muito bom. Aquele foi só um rabisco notório; muito mais viera antes e viria depois. Passava dias e dias sem sair de casa só pra poder desenhar em paz sem ninguém me enchendo o saco. Chegava a criar quadrinhos feitos a punho. Era difícil saber se o desafio maior era preencher os quadrinhos ou desenhar estes; sempre odiei réguas. Cheguei a participar daquelas xaropadas, que uma editora de enciclopédias fazia, de recolher desenhos de várias escolas e publicá-los num salão do Áurea, aquele hotel caindo aos pedaços da General Melo. Pretexto muito do cara-de-pau pra vender aquela tonelada de papel facilmente passível de cair no obsoleto. Cara de pau porque prometiam prêmios cujos premiados nunca ouvi falar. E olha que na época não tinha essa moleza de internet. Enfim, marmelada da grossa; tenho até hoje a porcaria de diploma que ganhei no dia. Depois do primário, comecei a me dedicar a caricaturas. A criatividade de antes se limitou a emular exageradamente os esquisitos a meu redor. Perdi a conta de quantas vezes arranjei encrenca na escola por causa das caricaturas! Se tinha uma coisa inconveniente nessa época é gente espiando e interferindo nos teus rabiscos. Foi o que me desestimulou aos poucos até largar mão dessa perda de tempo que é desenhar. Cansou eu desenhar minhas besteiras e ter gente bisbilhotando, exigindo um sentido lógico*. Infelizmente, muita gente não sabe o que é non sense.

Quando mudei de colégio, tratei de enterrar pra sempre qualquer vestígio de que eu soubesse fazer algo melhor do que o famoso homem-palito, pra evitar chatos me bolinando nos intervalos pedindo caricaturas zoando outrem. Funcionou perfeitamente. Até que terminei o ensino médio e me vi indeciso quanto a qual faculdade fazer. Naquela época, me lembrava vagamente dos tempos que dispendiava desenhando, e concluí que me daria bem em uma faculdade em que tivesse de desenhar. E foi assim que decidi perder tempo fazendo Arquitetura. Foram os dois semestres mais frustrantes pelos quais passara**: levei quase um ano pra descobrir que detestava aquela merda de curso, e isso à custa de notas humilhantes. Fora os gastos necessários com aquele monte de material. E a mãe até hoje jogando em minha cara esses gastos. Chega uma hora em que olhamos para nós mesmos e constatamos que devemos deixar de ser só uma promessa. As tardes em que desenhava não passavam de uma promessa que não vingou. E não percebi isso devido ao hiato pelo qual passei sem me interessar por desenhos. Não sei se esse desapego foi por falta de apoio ou por desinteresse meu. Acredito que foram ambos, mas pesando muito mais para a segunda opção. Ah, sei lá: não me via em cima duma pracheta desenhando as mesmas coisas pelo resto de meus dias. Simplesmente não!

Pensando bem, a razão pela qual abandonei de vez o hábito de desenhar é que ele representava um monte de coisa da qual queria me livrar. Aquilo era uma mera válvula de escape; o que eu rabiscava evidenciava até mesmo para mim isso. Se vocês acham esse nick tosco que uso, Sersup, megalomaníaco -- e é mesmo --, é porque nunca viram o que eu desenhava antes. Decidi que era hora de me livrar de coisas que me faziam evitar meus demônios. De que adiantava querer mudar se minhas tentativas não passavam de um retratar de minhas próprias dificuldades através de bonecos desproporcionais? Ia deixar linhas falarem por mim? Claro que não; tinha voz própria, e o abandonar do desenho foi apenas o começo para eu começar a ser meu próprio porta-voz. Hoje em dia, desenhar não me interessa nem de longe. Mas, de vez em quando, me vejo rabiscando coisas disformes e símbolos esquisitos, mas isso não representa nada; são apenas resquícios das esquisitices que aprendi a esboçar quando fazia Arquitetura. Acho que estava há tanto tempo sem ser meu próprio porta-voz, por assim dizer, que, mesmo com tantos desenhos que deixara com a F. naquelas tardes de Abril sem expectativas de quatro anos atrás, foi preciso muito tempo para que eu me expressasse por mim mesmo. Era tanta coisa em frente a meu nariz que eu ignorava que chego a considerar perigoso cogitar se algumas coisas tivessem sido diferentes. Se nem desenhar evidenciava aquilo, de quem escondia aquele monte de coisa, então? De ninguém! E levei muito mais tempo do que possam presumir para isso descobrir...


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* Era em momentos assim em que me identificava pra caramba com as primeiras páginas de O pequeno príncipe. Gostava pra caramba daquele livro quando pequeno. Gosto até hoje, mesmo sem me interessar mais por desenhos. Não era apenas em meus desenhos que a analogia do desenho da jibóia engolindo um elefante se aplicava. Foi uma das primeiras leituras a qual tive acesso por intermédio do pai. Ele me conhecia bem como ninguém...

** Foi nessa mesma época que comecei a escrever. Não via isso como válvula de escape naquele momento, mas assim se mostraria nos meses seguintes: memórias vindo, coisas acontecendo, atritos em casa, dúvidas quanto ao futuro, o ano de 2003 que dá ojeriza só de digitar os quatro algarismos correspondentes... digitava para treinar um pouco minha capacidade de discorrer sobre algum assunto. Mas comecei a gostar quando percebi que as possibilidades eram infinitas: podia imprimir em linhas as coisas mais insanas que passavam pela cabeça sem o crivo de ninguém. Isso foi o máximo! Fora as possibilidades fora das linhas: quanta gente interessante conheci através disso aqui, cara! O BR abriu portas inéditas para mim, embora não pareça. Comecei a pensar as coisas de forma diferente, atentei mais a detalhes que não atentava, fiquei a mercê de pontos de vista das quais sempre me esquivava... muita coisa aconteceu nesse tempo em que digito...! Sei lá, eu insisto em camuflar muita coisa -- mas qual blogueiro não faz isso -- mas tem coisa que evidencio sem peso na consciência. E isso é grande coisa, pelo menos pra mim. Dia desses, Robin Hood comentou comigo, de forma difusa, que achava interessante pessoas que mantinham diários, blogs ou coisas assim. Principalmente manos, ela destacou. E eis o detalhe aqui: ela nem imagina que escrevo no BR! E o pior é que ela não foi a primeira a especular tal; certa vez Kung-fu man me sugeriu que eu escrevesse. Ele também nem fazia idéia da existência do BR! Às vezes dá vontade de pulverizar esse nick sem graça que uso e escrever desbragadamente, com o foda-se ligado. Mas me lembro da mensagem do Gibran que postara em Novembro do ano passado e deixo de lado tal idéia. Bom, quem sabe: o BR parece sempre disposto a me trazer surpresas...